EDUCAO PROFISSIONAL SOB UMA PERSPECTIVA POLITCNICA

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EDUCAO PROFISSIONAL SOB UMA PERSPECTIVAPOLITCNICA

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  • EDUCAO PROFISSIONAL SOB UMA PERSPECTIVA

    POLITCNICA

    Jane Rose Silva SouzaEPSJV/FIOCRUZ

    FIC/FEUC/UNESA

    I-INTRODUO

    Este artigo pretende contribuir para aprofundar as reflexes sobre o modelo

    de educao e padro de comportamento exigidos dos profissionais atualmente,

    procurando estabelecer uma relao entre as exigncias do mundo do trabalho, numa

    perspectiva neoliberal, extremamente capitalista, e a sade do trabalhador, mais

    especificamente do professor, foco de pesquisa no Mestrado em Educao Profissional

    em Sade, em curso na Escola Politcnica de Sade Joaquim Venncio, localizada na

    Fundao Oswaldo Cruz (FIOCRUZ/RJ)

    Como referencial terico sero utilizados autores que discutem o trabalho como

    princpio educativo e a relao entre Trabalho, Educao e Sade, sendo consultada,

    ainda, a produo do Grupo de Trabalho- Trabalho e Educao (GTTE), constituinte da

    Associao Nacional de Ps-Graduao e Pesquisa em Educao (ANPED)

    II-BREVE PANORAMA DA EDUCAO PROFISSIONAL NO BRASIL

    O discurso sobre o mundo contemporneo e globalizado e as decorrentes

    transformaes nas diferentes instncias da sociedade, sobretudo nas ltimas dcadas,

    acarretando a necessidade de reestrurao tanto nas relaes do universo acadmico

    quanto profissional , faz-se presente em diferentes espaos e campos de conhecimento.

    A mdia um dos veculos mais utilizados para ratificar tal discurso, alm de disseminar

    e influenciar o imaginrio social de que a educao, portanto, precisa e deve estar em

    sintonia com a realidade como a apresentam, o que causa grande inquietao e a busca

    constante de solues e adaptaes urgentes s exigncias postas. Com isso, cada vez

    mais h uma nfase na educao profissional como inerente (sobre)vivncia e h

  • uma propagao acentuada de cursos profissionalizantes, no intuito de acelerar o

    processo de certificao, exigido pelo mundo do trabalho.

    Tal quadro pode ser verificado nas pesquisas divulgadas nos sites e rgos

    oficiais. Segundo o ltimo censo escolar, divulgado recentemente em 2008 pelo

    Ministrio da Educao e Cultura (MEC), as matrculas no ensino profissionalizante no

    Brasil so as que mais crescem. Comparado a dados anteriores, o aumento corresponde

    a 14, 7 por cento. Os nmeros revelam crescimento em todo o pas, entretanto, a

    expectativa de expanso ainda mais significativa nos prximos anos, a partir dos

    investimentos do programa Brasil Profissionalizado.

    A matrcula nas escolas tcnicas de nvel mdio alcanou aproximadamente 707.300 pessoas (7,86%). Os alunos com idade superior a 20 anos respondem por 66% desse total, 58% deles matriculados em instituies privadas, sendo que 83,5% concentravam-se nas regies mais desenvolvidas do pas (Sul e Sudeste). (BRASIL. Ministrio da Educao. Inep. Censo Escolar 2003-2005.)

    Segundo Eliezer Pacheco, secretrio de Educao Profissional e Tecnolgica do

    MEC, o censo de 2008 ainda no refletiu os nmeros do crescimento da Rede Federal

    de Educao, Cincia e Tecnologia, nem tampouco dos mais novos institutos federais

    que, sozinhos, respondero pelo aumento do nmero de vagas, das atuais 215 mil, para

    500 mil at o final de 2010.

    Parte significativa das setenta e cinco novas escolas que compem os institutos

    no foi contabilizada no censo de 2008, pois passaram a funcionar somente no segundo

    semestre daquele ano, quando os dados j haviam sido coletados. Mais 1,1 bilho de

    reais ainda sero injetados no ensino profissional at o fim de 2010.

    Alm disso, dezoito estados da federao receberam recursos, atravs do

    programa Brasil Profissionalizado, a fim de incrementar ainda mais a educao

    profissional no pas.

    A tnica do Censo Escolar foi de crescimento na rede estadual como um todo, com destaque para o Acre, que teve um aumento de 107,7% no nmero de matrculas. Entre os que mais cresceram tambm esto o Distrito Federal, com crescimento de 86,8%, Tocantins, com 78,7% e Mato Grosso, com 65,5% a mais no nmero de matrculas de

  • educao profissional. (Disponvel em http://www.oei.es/noticias/spip.php?article4307.)

    H a perspectiva de ampliao de vagas tambm nas entidades que participam

    do Sistema S, voltado para trabalhadores de baixa renda, como SENAC e SENAI, que

    devem destinar dois teros de seus recursos para financiar a oferta gratuita de cursos.

    A importncia dos investimentos no setor ganha justificativa no discurso de que

    h escassez de acesso dos jovens de baixa renda ao ensino superior: apenas 30% dos

    jovens chegam universidade e a parcela restante (70%) tem no ensino

    profissionalizante a oportunidade de aprimoramento acadmico e entrada no mercado de

    trabalho em melhores condies, alm dos ganhos de mbito mais geral para todo o

    pas. Organismos internacionais atuam de forma assertiva para a implementao de

    programas e projetos que priorizem a profissionalizao em um tempo cada vez mais

    agilizado, principalmente para as pessoas desse segmento social.

    Nesse contexto, a Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e

    a Cultura (UNESCO) ganha destaque, confirmando a necessidade de promoo da

    educao tcnica e profissional no Brasil para preparar a juventude para o mercado de

    trabalho. Para isso,desde 1997 tem feito da educao profissional um dos seus eixos de

    atuao no Brasil, de acordo com as recomendaes mundiais. O foco est nas parcerias

    com os governos federal e estaduais, na disseminao de idias e subsdios na

    formatao de polticas para o setor que atendam ao que apontado como

    necessidades sociais, trabalhando e divulgando a idia de que contribui para a melhoria

    do sistema educacional no pas, o que, consequentemente, ter reflexo na condio de

    vida da populao.

    Conforme apregoa, a UNESCO apoia seu trabalho em iniciativas e aes

    voltadas para o desenvolvimento de competncias de gestores e de equipes tcnicas, de

    modo que esses profissionais possam planejar e executar aes que dinamizem o acesso,

    a permanncia e o sucesso dos resultados da educao profissional no Brasil.

    Com a Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional n 9.394, de 20 de

    Dezembro de 1996, a importncia e necessidade da Educao Profissional ratificada

    quando a mesma definida como uma das modalidades de educao (assim como a

  • Educao de Jovens e Adultos e a Educao Especial)ganhando tratamento especfico

    (Berger Filho, 1999). De acordo com a lei, a educao profissional pode ser entendida

    como etapa complementar educao bsica, a qual deve estar articulada, podendo,

    entretanto, ser desenvolvida em diferentes momentos, para jovens e adultos com

    escolaridade diferenciada.

    A educao profissional tem como objetivos no s a formao de tcnicos de nvel mdio, mas a qualificao, a requalificao, a reprofissionalizao para trabalhadores, com qualquer escolaridade, a atualizao tecnolgica permanente e a habilitao nos nveis mdio e superior. A educao profissional deve levar ao permanente desenvolvimento de aptides para a vida produtiva (1999, disponvel em http://www.rieoei.org/rie20a03.htm)

    O autor enfatiza. Ainda, que

    A educao dita secundria ou secundria superior, a que corresponde ao ensino mdio no Brasil, a grande questo com que se debatem atualmente os sistemas educacionais. Como conciliar os objetivos de preparao para o prosseguimento de estudos, de preparao para o trabalho e de desenvolvimento pessoal nos cnones contemporneos? Que vnculos esto sendo estabelecidos entre a educao geral e a educao profissional? Os grandes desafios que esses sistemas enfrentam assumem na realidade brasileira caractersticas especficas de um pas que est passando por grandes transformaes. Os sistemas educacionais esto obsoletos quer na sua concepo, quer nas possibilidades de trajetos que oferecem ou ainda no estgio tecnolgico em que se encontram, embora haja excees. A estrutura educacional e o modelo de oferta tm que ser construdos de forma bastante flexvel para atender a diferentes situaes no tempo e no espao, considerando tanto as rpidas mudanas tecnolgicas e as necessidades da vida cidad como as tendncias regionais e do mercado internacional (ibid)

    Como podemos perceber, a educao profissional vem sendo tratada sempre

    atrelada a questo da (re)colocao do trabalhador em um perfil que se enquadre no

    padro estabelecido no/pelo mundo do trabalho.

    No questionamos a necessidade de os diferentes sujeito serem trabalhados no

    sentido de se desenvolverem cada vez mais, mas, sim, o fato de a educao formal

    ganhar conotaes que os fragmentam e realidade, dissociando o trabalho de sua

    condio de inerente prpria formao humana. Enfatizar a educao profissional em

    uma dimenso tcnica ou tecnolgica, apenas, visando instrumentalizar os trabalhadores

    para o mercado de trabalho, para atender, minimamente que seja, as exigncias do

    mundo da produo, numa perspectiva neoliberal, significa desconstruir a concepo de

  • trabalho como princpio educativo, como atividade realizada pelo ser humano para dar

    conta das necessidades que a vida lhe vai apresentando no decorrer de sua existncia.

    Acreditamos que, mesmo em um pas com dimenses continentais como o

    nosso, rico em contrastes (econmicos, sociais, culturais, regionais...), seja possvel

    desenvolver sistemas educacionais dentro de tal acepo e isto que delinearemos a

    seguir.

    III-A POLITECNIA COMO PERSPECTIVA EDUCACIONAL

    As bases materiais que organizam o tipo de relao social capitalista, em um

    contexto neoliberal, no qual tudo tem a lgica economicista, interferem diretamente no

    s na vida cotidiana do cidado como na prpria concepo de cidadania,

    conhecimento, ser humano, sociedade...vigente e na que se projeta construir.

    Numa sociedade em que h a preocupao maior com a produtividade e

    lucratividade, o trabalhador tambm passa a ter uma relao contratual de compra e

    venda de sua fora de trabalho para gerar acumulao e lucro para o capitalista,

    tornando-se ele prprio uma mercadoria. A forma como essa percepo de si mesmo e

    das relaes estabelecidas no mundo que o cerca e no qual, ao mesmo tempo, est

    imerso, vai sendo constituda e perpassa diretamente pela educao a que se tem acesso

    desde a mais tenra idade. Valores, concepes e viso de mundo, subjetividades, entre

    outros elementos inerentes condio humana, so cultural, histrico e socialmente

    construdos.

    Da mesma forma, o conceito de trabalho e a dimenso que este assume para o

    indivduo, em particular, e para a sociedade, de forma global, no ocorrem de modo

    espontneo ou natural1. Pelo contrrio: os sistemas educacionais, desde os nveis

    iniciais de escolarizao, vo trabalhando conceitos e contedos nas diferentes reas de

    conhecimento que podem corroborar determinantemente para o desenvolvimento de

    comportamentos e compreenso de mundo favorveis a uma sociedade voltada para o

    mercado, exigindo mais competitividade, produtividade, mo-de-obra qualificada.

    Como afirmam Frigotto, Ciavatta e Ramos (2005,p1093), ao analisarem o

    percurso histrico da Educao Profissional no Governo Lula, uma formao integrada,

    na perspectiva de trabalho como princpio educativo, no pode ser compreendida como 1 Destaque meu

  • a sobreposio de disciplinas consideradas de formao geral e de formao especfica ao longo de um curso [...] a integrao exige que a relao entre conhecimentos gerais e especficos seja construda continuamente ao longo da formao, sob os eixos do trabalho, da cincia e da cultura

    A educao formal assume, nessa concepo, mais uma conotao de

    instrumentalizao, preocupando-se em trabalhar competncias e habilidades como

    sinnimo de atividade, de aprender a fazer2 , numa dimenso tcnica. Se contrapondo

    a isto, afirma Ramos ( 2005, p.118), o desenvolvimento de competncias uma

    conseqncia e no o contedo em si desse processo(pedaggico) e que os efeitos

    pretendidos com a prtica pedaggica podem se constituir no mximo como horizontes,

    cujos limites se alargam permanentemente na proporo das prprias aprendizagens.

    Como ressalta a autora, as prticas pedaggicas devem estar preocupadas em articular

    diferentes saberes a serem ensinados/aprendidos com o intuito de promover a integrao

    das mltiplas dimenses humanas :cognitiva, que concerne na capacidade de

    desenvolver os esquemas mentais; epistmico, referente capacidade e necessidade de

    conhecer; ontolgica, compreender e construir sua prpria existncia...

    nessa concepo que a politecnia assume sua perspectiva educacional.

    Trabalhar o sujeito para que perceba o trabalho como princpio educativo torna-se

    mister. Como aponta Savianni(2007), necessrio que ele desenvolva a concepp de

    que sua produo , ao mesmo tempo, sua formao, sendo, pois, o trabalho um

    processo educativo. Tal premissa ratificada por Frigotto (2005) e significa

    compreender o trabalho como elemento essencial e constitutivo do ser humano,

    elemento este fundamental compreenso de si mesmo, da sua existncia, de suas

    necessidades e da capacidade de projetar formas de satisfaz-las (dimenso ontolgica)

    e alm de desenvolver a percepo de como ocorre a produo social de sua prpria

    existncia (dimenso histrica).

    Se os sistemas educacionais incorporarem o trabalho como princpio educativo

    desde os nveis mais elementares, desenvolvero desde a mais tenra idade a mentalidade

    de que todos os seres humanos tm necessidades semelhantes, enquanto pertencentes de

    uma espcie (necessidade de alimento, proteo...). Aprender que atravs da prpria

    ao e trabalho que se pode produzir sua existncia importante e essencial se temos

    como projeto de ser humano e sociedade, um universo realmente calcado na igualdade,

    no sentido de desconstruir a mentalidade de que uns poucos tm o direito de ter para si 2 Destaque meu

  • a propriedade e os meios de produo3 , o que o qualificaria a explorar e submeter os

    demais.

    Trabalhar a educao numa concepo politcnica significa estabelecer uma relao

    intrnseca entre trabalho e educao, compreendendo que a formao humana ocorre no

    momento em que se constri a realidade e as condies materiais de existncia. Como

    ressalta Ramos(2008), esta relao deve ser compreendida como produes humanas,

    histrico e socialmente construdas, o que significa que reflete o modelo de educao e

    de produo vigente, que no mundo hodierno, o capitalista.

    Em uma sociedade com tais padres, essa identidade profundamente marcada/

    influenciada pelas determinaes econmicas e poltico-sociais, demandadas pelo

    capitalismo, de acordo com o pensamento economicista/empresarial. Sendo assim, h

    maior preocupao com resultados quantitativos, com uma maior produtividade, com a

    formao de mo-de-obra suficientemente qualificada do que com a formao

    omnilateral ou com a constituio desses seres humanos, que devem ser preparados para

    as demandas do mercado atual com novos padres de competitividade. A educao,

    ento, deve (cor)responder a tais padres, mas sem que haja, necessariamente, uma

    discusso sobre os processos formativos desse profissional como sujeitos histricos.

    IV- A RELAO ENTRE AS EXIGNCIAS DO MUNDO DO TRABALHO E O

    PROCESSO DE ADOECIMENTO DOS TRABALHADORES

    A dinmica acelerada da sociedade em que vivemos, tem provocado o

    aparecimento e/ou o retorno de algumas doenas, muitas relacionadas a questes

    emocionais e psicolgicas, que afetam no s o indivduo, mas toda a sociedade, visto

    que passam a se constituir problemas de ordem social e pblica, necessitando de ateno

    e investimentos governamentais. necessrio, pois, compreender as relaes de

    produo e a formao exigida e oferecida aos profissionais para que se possa perceber

    e, ao menos, tentar reverter o processo de adoecimento das diferentes categorias

    profissionais, incluindo, claro, os docentes.

    Tal realidade nos remete Teoria do capital Humano, que, segundo Frigotto,(1998),

    defende como caminho para a superao das desigualdades econmicas e sociais tanto

    entre as diferentes naes quanto individuais, o investimento em capital humano. Sendo

    3 Grifo meu

  • assim, o ser humano visto como abstrato e livre, descolado do contexto scio-

    histrico-cultural-poltico. Ideologicamente difundido que o xito ou fracasso

    individualizado e que cada um, pessoalmente, deve se esforar para garantir seu sucesso

    e da coletividade, o que corrobora, teoricamente, para o desenvolvimento do pas.

    Atualmente, a Teoria do Capital Humano refora a tese do ser humano como

    mercadoria e submete a educao ao processo de produo capitalista, interferindo

    sistematicamente na formao dos sujeitos. H uma grande nfase em termos como

    sociedade do conhecimento; qualidade total; formao flexvel; empregabilidade;

    pedagogia das competncias etc que so importados do meio empresarial e

    administrativo.

    Para atender a demanda do mundo do trabalho, que cada vez mais exige

    (re)qualificao dos trabalhadores, verifica-se uma proliferao de cursos

    profissionalizantes, mais preocupados em oferecer, de forma alijeirada, as certificaes

    que os profissionais precisam do que trabalhar uma formao integrada. Como

    conseqncia, vemos a intensificao de uma educao profissional distanciada da

    educao como processo intercomplementar do trabalho, sendo este atividade inerente

    constituio do ser humano. Percebe-se, ento, o aprofundamento do fosso das

    desigualdades sociais e econmicas, ratificado pela manuteno, embora de forma

    mascarada e/ou disfarada, da dualidade da instituio escolar, que continua atendendo

    de forma distinta s diferentes classes sociais, o que pode ser percebido pela prpria

    grade curricular e a organizao do espao-tempo das instituies, tanto de formao

    geral como profissional , conforme o pblico-alvo a que se destina.

    Embora a Organizao Internacional do Trabalho (OIT,1984) tenha

    reconhecido a importncia e definido as condies de trabalho dos docentes, os

    mesmos atuam cotidianamente nas salas de aula e que vivenciam diretamente a presso

    da sociedade, insatisfeita com a realidade do ensino oferecido nas escolas. Doenas

    psicolgicas,como estresse,depresso,estado neurtico, Sndrome de Burnout4 entre

    outros. As exigncias quanto a competitividade, produtividade, mo-de-obra qualificada

    e uma flexibilidade para dar conta de muito mais que o processo ensino-aprendizagem

    (o que gera um sobre esforo para a realizao de suas tarefas) aparecem como fatores

    44-Produzida pelas condies de vida e trabalho, esta sndrome se caracteriza por um estado de exausto resultante de trabalho extenuante, sem satisfao.Perda de motivao por conta de falta de polticas pblicas,carncia de sonhos,etc

  • produtores e intensificadores de tal quadro, assim como as condies materiais/

    concretas nas quais o processo de trabalho docente se desenvolvem.

    Atualmente, o professor tem tido vrias obrigaes que vo para alm da

    mediao do processo de conhecimento do aluno, assumindo outras responsabilidades,

    como articulao entre escola e comunidade, participao na gesto e planejamento

    escolares...o que tm exigido mais de si, no que concerne a buscar, por meios prprios,

    melhor qualificao para dar conta da complexidade do que lhe exigido, mas que no

    disponibilizado e/ou facilitado pelos setores de gesto/administrao escolar. Tal

    esforo acarreta um aumento de jornada de trabalho no remunerado e no reconhecido,

    como apontam Barreto e Leher( 2003) e , consequentemente, de um cansao fsico e

    mental desse profissional, a quem o sistema escolar transfere a responsabilidade e a

    (culpabilidade) das lacunas que deveriam ser por ele preenchidas.

    Dal Rosso (2008) endossa essa constatao quando aponta a

    intensificao do trabalho (em que h uma forte cobrana sobre o trabalhador para que,

    em um espao cada vez mais curto de tempo, apresente mais resultados, ritmo mais

    intenso e maior flexibilidade) como responsvel por maiores desgastes fsico, emocional

    e psicolgico.

    A polivalncia faz com que o trabalhador se desdobre em vrias tarefas sucessivamente, de tal forma que lhe seja praticamente impossvel trabalhar de maneira a usufruir de pequenos intervalos de descanso. Em outros termos, ela seria o meio pelo qual o trabalho passaria a ganhar em intensidade, a exigir maior empenho, a consumir mais energias pessoais, fsicas, emocionais e cognitivas (p.14)

    A todo momento o professorado convocado5 a desenvolver as

    competncias e habilidades que possam garantir a si e a seus alunos oportunidades

    iguais na sociedade. Tal discurso enfatiza o individualismo e foca no sujeito a

    responsabilidade pelo sucesso ou fracasso que o mesmo possa ter e proporcionar ao

    outro.

    O estudo de Esteve(1991) muito apropriado para ilustrar esta realidade

    A situao dos professores perante a mudana social comparvel a de um grupo de actores, vestidos com traje de determinada poca, a quem sem prvio aviso se muda o cenrio, em metade do palco, desenrolando um novo pano de fundo, no cenrio anterior. Uma nova encenao ps-moderna, colorida e fluorescente, oculta a anterior,

    5 -Destaque meu

  • clssica e severa. A primeira reaco dos actores seria a surpresa. Depois, tenso e desconcerto, com um forte sentimento de agressividade, desejando acabar com o trabalho para procurar os responsveis , a fim de, pelo menos, obter uma explicao. Que fazer? Continuar a recitar versos, arrastando largas roupagens em metade de um cenrio ps-moderno, cheio de luzes intermitentes? Parar o espetculo e abandonar o trabalho? Pedir ao pblico que deixe de rir para que se oiam os versos? O problema reside em que, independentemente de quem provocou a mudana, so os actores que do a cara. So eles, portanto, quem tero de encontrar uma sada airosa, ainda que no sejam os responsveis. As reaces perante esta situao seriam muito variadas; mas, em qualquer caso, a palavra mal-estar poderia resumir os sentimentos deste grupo de actores perante uma srie de circunstncias imprevistas que os obrigam a fazer um papel ridculo. (p.1997)

    Questes ligadas ao sentimento de frustrao com a profisso, partilhada por

    grande parte da categoria, relacionadas a fatores diferenciados, como condies de

    trabalho precrias, formao deficiente, acmulo de exigncias extraclasse, salrios

    aviltantes, falta de valorizao profissional, so recorrentes. Reconhecendo todas as

    contradies que envolvem a prtica docente, assevera

    a necessidade de se avaliar com mais profundidade os contextos sociais, afetivos e culturais que permeiam o exerccio do magistrio na medida em que as suas motivaes, percepes, crenas, atitudes, valorizaes relacionam-se diretamente com os modos de envolvimento das professoras com seus alunos e com a tarefa pedaggica. (1996, p. 87)

    A forma como as inovaes e reformas educativas so impostas tambm

    exercem influncia importante na formao da auto-imagem desse profissional. Afinal,

    professores e professoras no so meros consumidores/reprodutores de conhecimento.

    Sem esta compreenso as aes voltadas para sua formao (inclusive em servio)

    perdem sua eficcia, gerando uma resistncia inicial difcil de ser superada. Torna-se

    necessrio conhecer melhor quem so, quais as expectativas, os desejos, as certezas e

    inseguranas, destes profissionais perplexos e inseguros, como bem descreveu Esteve

    (Op. Cit), fruto da dinmica do modelo capitalista de produo preponderante no

    mundo, hoje.

    importante que se invista nesse profissional oferecendo-lhe no s

    condies dignas de trabalho, mas tambm uma educao que integre os conhecimentos

    gerais e os especficos para seu campo de atuao, para que no estabelea uma prtica

  • pedaggica mecnica e/ou tcnica, apenas. Embora saibamos que o ser humano educa-

    se em diferentes espaos e ininterruptamente, na sociedade a instituio escolar foi

    social e historicamente criada para auxiliar a quem por ela passa a apropriar-se dos

    conhecimentos j existentes e a desenvolver-se no sentido de conhecer e construir sua

    prpria existncia e o mundo do qual faz parte.

    O sobre-esforo gerado pelas exigncias do mercado, pelas obrigaes a

    cumprir, pela necessidade de estar constantemente se aprimorando e qualificando, gera

    um estado de ansiedade e estresse, o que leva a um processo cada vez mais crescente de

    adoecimento dos trabalhadores, em geral .

    V-CONSIDERAES FINAIS

    Sabemos que o modo de produo capitalista engendra mudanas e interfere

    enfaticamente em todas as instncias sociais, utilizando, para isso, cada vez mais,

    mecanismos de cooptao e coero para, de certa forma, naturalizar as estruturas

    desiguais de seu modelo de produo, preocupando-se apenas em garantir a

    lucratividade, a produtividade e manter o mercado.

    O contato com a teoria nos permite compreender que, se no lutarmos por

    uma educao formal, que se contraponha a esse lgica neoliberal, o trabalho ser

    ratificado como sinnimo de atividade econmica, perdendo seu sentido ontolgico, de

    realizao pessoal, de manifestao criativa da atividade humana e de busca de

    explicao sobre a essncia humana, de modo a atender suas exigncias de

    sobrevivncia, passando a ser um instrumento de explorao, expropriao e alienao

    dos sujeitos, uma vez que tem como prioridade a produo e acmulo de riquezas.

    Alm disso, nos d suporte para pensar possibilidades alternativas de organizao de

    resistncia, visto que, como educadores, podemos contribuir para construir uma contra-

    hegemonia ao pensamento preponderante, ao mesmo tempo em que nos deixa a par das

    contradies dos embates tericos que configuram o meio acadmico, permeado pelas

    diferentes concepes tericas de seus componentes.

    Acreditamos que um modelo mais justo de educao e sociedade vivel

    e possvel, sim. Utopia? Pode ser, mas quero uma pela qual valha a pena viver e lutar.

    Como nos aponta Konder, a teoria que nos remete ao, que enfrenta o

    desafio de verificar seus acertos e desacertos , cotejando-as como prtica. Sendo assim,

  • preciso conhecer o que nos (im)posto para que possamos lutar e assumir a condio

    de sujeitos de prxis, que pensam e repensam a si e ao mundo que nos cerca.

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