EDUCAÇÃO PROFISSIONAL SOB UMA PERSPECTIVA POLITÉCNICA

Download EDUCAÇÃO PROFISSIONAL SOB UMA PERSPECTIVA POLITÉCNICA

Post on 17-Feb-2016

214 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

EDUCAO PROFISSIONAL SOB UMA PERSPECTIVAPOLITCNICA

TRANSCRIPT

<ul><li><p>EDUCAO PROFISSIONAL SOB UMA PERSPECTIVA </p><p>POLITCNICA</p><p>Jane Rose Silva SouzaEPSJV/FIOCRUZ</p><p>FIC/FEUC/UNESA</p><p>I-INTRODUO</p><p> Este artigo pretende contribuir para aprofundar as reflexes sobre o modelo </p><p>de educao e padro de comportamento exigidos dos profissionais atualmente, </p><p>procurando estabelecer uma relao entre as exigncias do mundo do trabalho, numa </p><p>perspectiva neoliberal, extremamente capitalista, e a sade do trabalhador, mais </p><p>especificamente do professor, foco de pesquisa no Mestrado em Educao Profissional </p><p>em Sade, em curso na Escola Politcnica de Sade Joaquim Venncio, localizada na </p><p>Fundao Oswaldo Cruz (FIOCRUZ/RJ)</p><p>Como referencial terico sero utilizados autores que discutem o trabalho como </p><p>princpio educativo e a relao entre Trabalho, Educao e Sade, sendo consultada, </p><p>ainda, a produo do Grupo de Trabalho- Trabalho e Educao (GTTE), constituinte da </p><p>Associao Nacional de Ps-Graduao e Pesquisa em Educao (ANPED)</p><p>II-BREVE PANORAMA DA EDUCAO PROFISSIONAL NO BRASIL</p><p> O discurso sobre o mundo contemporneo e globalizado e as decorrentes </p><p>transformaes nas diferentes instncias da sociedade, sobretudo nas ltimas dcadas, </p><p>acarretando a necessidade de reestrurao tanto nas relaes do universo acadmico </p><p>quanto profissional , faz-se presente em diferentes espaos e campos de conhecimento. </p><p>A mdia um dos veculos mais utilizados para ratificar tal discurso, alm de disseminar </p><p>e influenciar o imaginrio social de que a educao, portanto, precisa e deve estar em </p><p>sintonia com a realidade como a apresentam, o que causa grande inquietao e a busca </p><p>constante de solues e adaptaes urgentes s exigncias postas. Com isso, cada vez </p><p>mais h uma nfase na educao profissional como inerente (sobre)vivncia e h </p></li><li><p>uma propagao acentuada de cursos profissionalizantes, no intuito de acelerar o </p><p>processo de certificao, exigido pelo mundo do trabalho. </p><p>Tal quadro pode ser verificado nas pesquisas divulgadas nos sites e rgos </p><p>oficiais. Segundo o ltimo censo escolar, divulgado recentemente em 2008 pelo </p><p>Ministrio da Educao e Cultura (MEC), as matrculas no ensino profissionalizante no </p><p>Brasil so as que mais crescem. Comparado a dados anteriores, o aumento corresponde </p><p>a 14, 7 por cento. Os nmeros revelam crescimento em todo o pas, entretanto, a </p><p>expectativa de expanso ainda mais significativa nos prximos anos, a partir dos </p><p>investimentos do programa Brasil Profissionalizado.</p><p>A matrcula nas escolas tcnicas de nvel mdio alcanou aproximadamente 707.300 pessoas (7,86%). Os alunos com idade superior a 20 anos respondem por 66% desse total, 58% deles matriculados em instituies privadas, sendo que 83,5% concentravam-se nas regies mais desenvolvidas do pas (Sul e Sudeste). (BRASIL. Ministrio da Educao. Inep. Censo Escolar 2003-2005.) </p><p>Segundo Eliezer Pacheco, secretrio de Educao Profissional e Tecnolgica do </p><p>MEC, o censo de 2008 ainda no refletiu os nmeros do crescimento da Rede Federal </p><p>de Educao, Cincia e Tecnologia, nem tampouco dos mais novos institutos federais </p><p>que, sozinhos, respondero pelo aumento do nmero de vagas, das atuais 215 mil, para </p><p>500 mil at o final de 2010.</p><p>Parte significativa das setenta e cinco novas escolas que compem os institutos </p><p>no foi contabilizada no censo de 2008, pois passaram a funcionar somente no segundo </p><p>semestre daquele ano, quando os dados j haviam sido coletados. Mais 1,1 bilho de </p><p>reais ainda sero injetados no ensino profissional at o fim de 2010.</p><p>Alm disso, dezoito estados da federao receberam recursos, atravs do </p><p>programa Brasil Profissionalizado, a fim de incrementar ainda mais a educao </p><p>profissional no pas.</p><p>A tnica do Censo Escolar foi de crescimento na rede estadual como um todo, com destaque para o Acre, que teve um aumento de 107,7% no nmero de matrculas. Entre os que mais cresceram tambm esto o Distrito Federal, com crescimento de 86,8%, Tocantins, com 78,7% e Mato Grosso, com 65,5% a mais no nmero de matrculas de </p></li><li><p>educao profissional. (Disponvel em http://www.oei.es/noticias/spip.php?article4307.)</p><p>H a perspectiva de ampliao de vagas tambm nas entidades que participam </p><p>do Sistema S, voltado para trabalhadores de baixa renda, como SENAC e SENAI, que </p><p>devem destinar dois teros de seus recursos para financiar a oferta gratuita de cursos.</p><p>A importncia dos investimentos no setor ganha justificativa no discurso de que </p><p>h escassez de acesso dos jovens de baixa renda ao ensino superior: apenas 30% dos </p><p>jovens chegam universidade e a parcela restante (70%) tem no ensino </p><p>profissionalizante a oportunidade de aprimoramento acadmico e entrada no mercado de </p><p>trabalho em melhores condies, alm dos ganhos de mbito mais geral para todo o </p><p>pas. Organismos internacionais atuam de forma assertiva para a implementao de </p><p>programas e projetos que priorizem a profissionalizao em um tempo cada vez mais </p><p>agilizado, principalmente para as pessoas desse segmento social. </p><p>Nesse contexto, a Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e </p><p>a Cultura (UNESCO) ganha destaque, confirmando a necessidade de promoo da </p><p>educao tcnica e profissional no Brasil para preparar a juventude para o mercado de </p><p>trabalho. Para isso,desde 1997 tem feito da educao profissional um dos seus eixos de </p><p>atuao no Brasil, de acordo com as recomendaes mundiais. O foco est nas parcerias </p><p>com os governos federal e estaduais, na disseminao de idias e subsdios na </p><p>formatao de polticas para o setor que atendam ao que apontado como </p><p>necessidades sociais, trabalhando e divulgando a idia de que contribui para a melhoria </p><p>do sistema educacional no pas, o que, consequentemente, ter reflexo na condio de </p><p>vida da populao.</p><p> Conforme apregoa, a UNESCO apoia seu trabalho em iniciativas e aes </p><p>voltadas para o desenvolvimento de competncias de gestores e de equipes tcnicas, de </p><p>modo que esses profissionais possam planejar e executar aes que dinamizem o acesso, </p><p>a permanncia e o sucesso dos resultados da educao profissional no Brasil.</p><p>Com a Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional n 9.394, de 20 de </p><p>Dezembro de 1996, a importncia e necessidade da Educao Profissional ratificada </p><p>quando a mesma definida como uma das modalidades de educao (assim como a </p></li><li><p>Educao de Jovens e Adultos e a Educao Especial)ganhando tratamento especfico </p><p>(Berger Filho, 1999). De acordo com a lei, a educao profissional pode ser entendida </p><p>como etapa complementar educao bsica, a qual deve estar articulada, podendo, </p><p>entretanto, ser desenvolvida em diferentes momentos, para jovens e adultos com </p><p>escolaridade diferenciada.</p><p>A educao profissional tem como objetivos no s a formao de tcnicos de nvel mdio, mas a qualificao, a requalificao, a reprofissionalizao para trabalhadores, com qualquer escolaridade, a atualizao tecnolgica permanente e a habilitao nos nveis mdio e superior. A educao profissional deve levar ao permanente desenvolvimento de aptides para a vida produtiva (1999, disponvel em http://www.rieoei.org/rie20a03.htm)</p><p>O autor enfatiza. Ainda, que </p><p>A educao dita secundria ou secundria superior, a que corresponde ao ensino mdio no Brasil, a grande questo com que se debatem atualmente os sistemas educacionais. Como conciliar os objetivos de preparao para o prosseguimento de estudos, de preparao para o trabalho e de desenvolvimento pessoal nos cnones contemporneos? Que vnculos esto sendo estabelecidos entre a educao geral e a educao profissional? Os grandes desafios que esses sistemas enfrentam assumem na realidade brasileira caractersticas especficas de um pas que est passando por grandes transformaes. Os sistemas educacionais esto obsoletos quer na sua concepo, quer nas possibilidades de trajetos que oferecem ou ainda no estgio tecnolgico em que se encontram, embora haja excees. A estrutura educacional e o modelo de oferta tm que ser construdos de forma bastante flexvel para atender a diferentes situaes no tempo e no espao, considerando tanto as rpidas mudanas tecnolgicas e as necessidades da vida cidad como as tendncias regionais e do mercado internacional (ibid)</p><p>Como podemos perceber, a educao profissional vem sendo tratada sempre </p><p>atrelada a questo da (re)colocao do trabalhador em um perfil que se enquadre no </p><p>padro estabelecido no/pelo mundo do trabalho.</p><p> No questionamos a necessidade de os diferentes sujeito serem trabalhados no </p><p>sentido de se desenvolverem cada vez mais, mas, sim, o fato de a educao formal </p><p>ganhar conotaes que os fragmentam e realidade, dissociando o trabalho de sua </p><p>condio de inerente prpria formao humana. Enfatizar a educao profissional em </p><p>uma dimenso tcnica ou tecnolgica, apenas, visando instrumentalizar os trabalhadores </p><p>para o mercado de trabalho, para atender, minimamente que seja, as exigncias do </p><p>mundo da produo, numa perspectiva neoliberal, significa desconstruir a concepo de </p></li><li><p>trabalho como princpio educativo, como atividade realizada pelo ser humano para dar </p><p>conta das necessidades que a vida lhe vai apresentando no decorrer de sua existncia.</p><p> Acreditamos que, mesmo em um pas com dimenses continentais como o </p><p>nosso, rico em contrastes (econmicos, sociais, culturais, regionais...), seja possvel </p><p>desenvolver sistemas educacionais dentro de tal acepo e isto que delinearemos a </p><p>seguir.</p><p>III-A POLITECNIA COMO PERSPECTIVA EDUCACIONAL </p><p> As bases materiais que organizam o tipo de relao social capitalista, em um </p><p>contexto neoliberal, no qual tudo tem a lgica economicista, interferem diretamente no </p><p>s na vida cotidiana do cidado como na prpria concepo de cidadania, </p><p>conhecimento, ser humano, sociedade...vigente e na que se projeta construir. </p><p> Numa sociedade em que h a preocupao maior com a produtividade e </p><p>lucratividade, o trabalhador tambm passa a ter uma relao contratual de compra e </p><p>venda de sua fora de trabalho para gerar acumulao e lucro para o capitalista, </p><p>tornando-se ele prprio uma mercadoria. A forma como essa percepo de si mesmo e </p><p>das relaes estabelecidas no mundo que o cerca e no qual, ao mesmo tempo, est </p><p>imerso, vai sendo constituda e perpassa diretamente pela educao a que se tem acesso </p><p>desde a mais tenra idade. Valores, concepes e viso de mundo, subjetividades, entre </p><p>outros elementos inerentes condio humana, so cultural, histrico e socialmente </p><p>construdos. </p><p> Da mesma forma, o conceito de trabalho e a dimenso que este assume para o </p><p>indivduo, em particular, e para a sociedade, de forma global, no ocorrem de modo </p><p>espontneo ou natural1. Pelo contrrio: os sistemas educacionais, desde os nveis </p><p>iniciais de escolarizao, vo trabalhando conceitos e contedos nas diferentes reas de </p><p>conhecimento que podem corroborar determinantemente para o desenvolvimento de </p><p>comportamentos e compreenso de mundo favorveis a uma sociedade voltada para o </p><p>mercado, exigindo mais competitividade, produtividade, mo-de-obra qualificada.</p><p> Como afirmam Frigotto, Ciavatta e Ramos (2005,p1093), ao analisarem o </p><p>percurso histrico da Educao Profissional no Governo Lula, uma formao integrada, </p><p>na perspectiva de trabalho como princpio educativo, no pode ser compreendida como 1 Destaque meu</p></li><li><p>a sobreposio de disciplinas consideradas de formao geral e de formao especfica ao longo de um curso [...] a integrao exige que a relao entre conhecimentos gerais e especficos seja construda continuamente ao longo da formao, sob os eixos do trabalho, da cincia e da cultura</p><p> A educao formal assume, nessa concepo, mais uma conotao de </p><p>instrumentalizao, preocupando-se em trabalhar competncias e habilidades como </p><p>sinnimo de atividade, de aprender a fazer2 , numa dimenso tcnica. Se contrapondo </p><p>a isto, afirma Ramos ( 2005, p.118), o desenvolvimento de competncias uma </p><p>conseqncia e no o contedo em si desse processo(pedaggico) e que os efeitos </p><p>pretendidos com a prtica pedaggica podem se constituir no mximo como horizontes, </p><p>cujos limites se alargam permanentemente na proporo das prprias aprendizagens. </p><p>Como ressalta a autora, as prticas pedaggicas devem estar preocupadas em articular </p><p>diferentes saberes a serem ensinados/aprendidos com o intuito de promover a integrao </p><p>das mltiplas dimenses humanas :cognitiva, que concerne na capacidade de </p><p>desenvolver os esquemas mentais; epistmico, referente capacidade e necessidade de </p><p>conhecer; ontolgica, compreender e construir sua prpria existncia...</p><p> nessa concepo que a politecnia assume sua perspectiva educacional. </p><p>Trabalhar o sujeito para que perceba o trabalho como princpio educativo torna-se </p><p>mister. Como aponta Savianni(2007), necessrio que ele desenvolva a concepp de </p><p>que sua produo , ao mesmo tempo, sua formao, sendo, pois, o trabalho um </p><p>processo educativo. Tal premissa ratificada por Frigotto (2005) e significa </p><p>compreender o trabalho como elemento essencial e constitutivo do ser humano, </p><p>elemento este fundamental compreenso de si mesmo, da sua existncia, de suas </p><p>necessidades e da capacidade de projetar formas de satisfaz-las (dimenso ontolgica) </p><p>e alm de desenvolver a percepo de como ocorre a produo social de sua prpria </p><p>existncia (dimenso histrica).</p><p>Se os sistemas educacionais incorporarem o trabalho como princpio educativo </p><p>desde os nveis mais elementares, desenvolvero desde a mais tenra idade a mentalidade </p><p>de que todos os seres humanos tm necessidades semelhantes, enquanto pertencentes de </p><p>uma espcie (necessidade de alimento, proteo...). Aprender que atravs da prpria </p><p>ao e trabalho que se pode produzir sua existncia importante e essencial se temos </p><p>como projeto de ser humano e sociedade, um universo realmente calcado na igualdade, </p><p>no sentido de desconstruir a mentalidade de que uns poucos tm o direito de ter para si 2 Destaque meu</p></li><li><p>a propriedade e os meios de produo3 , o que o qualificaria a explorar e submeter os </p><p>demais. </p><p> Trabalhar a educao numa concepo politcnica significa estabelecer uma relao </p><p>intrnseca entre trabalho e educao, compreendendo que a formao humana ocorre no </p><p>momento em que se constri a realidade e as condies materiais de existncia. Como </p><p>ressalta Ramos(2008), esta relao deve ser compreendida como produes humanas, </p><p>histrico e socialmente construdas, o que significa que reflete o modelo de educao e </p><p>de produo vigente, que no mundo hodierno, o capitalista. </p><p>Em uma sociedade com tais padres, essa identidade profundamente marcada/ </p><p>influenciada pelas determinaes econmicas e poltico-sociais, demandadas pelo </p><p>capitalismo, de acordo com o pensamento economicista/empresarial. Sendo assim, h </p><p>maior preocupao com resultados quantitativos, com uma maior produtividade, com a </p><p>formao de mo-de-obra suficientemente qualificada do que...</p></li></ul>