ecstasy: efeitos biológicos e avaliaÇÃo da toxicidade

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  • ECSTASy: EFEITOS BIOLGICOS E AVALIAO DA TOXICIDADE

    Mrcia Carvalhoprofessora AuxiliarFaculdade de cincias da Sade uFpmcarv@ufp.pt

  • ResumoA 3,4-metilenodioximetanfetamina, mais conhecida por ecstasy, um derivado sinttico da anfetamina que se tornou bastante popular entre os jovens na europa e nos estados unidos da Amrica, sendo consumida especialmente nas chamadas festas rave. A sua popularidade como droga recreacional deve-se essencialmente aos seus efeitos euforizantes e estimu-lantes. tambm no nosso pas o consumo de ecstasy se tornou numa realidade, como nos transmitido atravs da informao veiculada pelos rgos de comunicao social. esta situao alarmante porque, apesar de algumas informaes disponveis para o pblico descreverem a ecstasy como um composto incuo, ela no desprovida de toxicidade. este artigo apresenta uma reviso sobre o perfil farmacolgico e toxicolgico da ecstasy e o tra-tamento clnico para intoxicaes agudas.

    Palavras-chaveecstasy, farmacologia, toxicidade, tratamento

    Abstract3,4-methylenedioxymethamphetamine, commonly known as ecstasy, is an amphetamine derivative that became very popular among young people in europe and united States of America, especially during so-called rave parties. its popularity as a recreational drug of abuse is mainly due to its euphoric and stimulant effects. ecstasy abuse is also a reality in our country, as information broadcast by media. this situation is of great concern since this drug is not deprived of toxicity. An overview of ecstasy pharmacology and acute toxicity will be given followed by a plan for clinical management.

    Key-wordsecstasy, pharmacology, toxicity, clinical management

  • 334 1. HISTRIA E PREVALNCIA DO CONSUMO DE ECSTASY

    A 3,4-metilenodioximetanfetamina (mDmA; Figura 1) foi sintetizada pela primeira vez em 1912 pela firma qumica alem merck, tendo sido patenteada em 1914 como anorctica (Hegadoren et al., 1999). no entanto, a mDmA nunca chegou a ser comercializada como tal e caiu no esquecimento. em 1965, o qumico Alexander Shulgin sintetizou a mDmA no laboratrio e descreveu pela primeira vez a actividade psicoestimulante desta droga na sua obra phenetylamines i have known and loved. Durante as dcadas de 1970 e 1980 a mDmA ganhou popularidade entre a comunidade psiquitrica que advogava o seu uso como adjuvante na psicoterapia. os seus defensores afirmam que a sua utilizao num esque-ma teraputico controlado aumenta a capacidade de introspeco e induz sentimentos de confiana e empatia entre pacientes e terapeutas (green et al., 2003). esta propriedade resultou na classificao da mDmA como uma molcula pertencente a uma nova classe far-macolgica: os entactognios (do grego contacto com o ntimo).

    Figura 1 - estrutura qumica da mDmA (3,4-metilenodioximetanfetamina)

    no final da dcada de 1970, o consumo da mDmA como droga de abuso encontrava-se generalizado nos estados unidos da Amrica (Hegadoren et al., 1999). A sua semelhan-a estrutural com um composto dotado de neurotoxicidade, a metilenodioxianfetamina (mDA), levou a que, em 1985, a Drug enforcement Administration (DeA) classificasse a mDmA como substncia de grau i (substncia com elevado potencial de abuso, sem utiliza-es clnicas reconhecidas e sem segurana aceitvel, mesmo sob superviso mdica). no entanto, a grande controvrsia gerada volta do seu valor teraputico levou a que a juris-prudncia decidisse aceitar a mDmA para uso sob superviso mdica, tendo sido colocada numa classe menos restritiva de grau iii. esta reclassificao foi apenas temporria e, em maro de 1988, foi novamente classificada como substncia de grau i (burgess et al., 2000), classificao que se mantm presentemente.

    no obstante as restries ao seu uso e comercializao, a mDmA propagou-se muito rapi-damente como droga recreacional, sendo mais vulgarmente conhecida por ecstasy (outras designaes so XTC, e, adam e droga do amor). em meados da dcada de 1980 as festas rave tornaram-se muito populares e foi no mbito destes eventos sociais que o consumo da mDmA se generalizou, em especial no reino unido e nos estados unidos da Amrica. A ecs-tasy usualmente vendida na forma de comprimidos de vrias cores, formatos e tamanhos, que so decorados com uma vasta variedade de desenhos ou logtipos (ver www.drugsco-pe.org.uk; www.ecstasy.org; www.erowid.org). Dado que se trata de uma droga sintetizada clandestinamente, a dose e o grau de pureza variam consideravelmente, mas geralmente cada comprimido contm entre 50 a 150 mg de mDmA. os principais efeitos observados (que justificam a sua popularidade) so a euforia, a sensao de bem-estar, o aumento do estado de viglia e alerta, sentimentos de confiana e empatia com as pessoas ao redor, reduo dos pensamentos negativos e diminuio das inibies (green et al., 2003).

  • 335Segundo o relatrio do observatrio europeu da Droga e da toxicodependncia (oeDt) de 2003, a ecstasy e outras anfetaminas so as drogas ilcitas mais consumidas pelos jovens adultos (15 aos 34 anos) na maioria dos pases da unio europeia, logo a seguir cannabis. este relatrio revela ainda que entre 0,5% e 5% da populao adulta europeia e entre 1% e 6% da populao jovem havia j consumido estas drogas (oeDt, 2003). As taxas de consumo so significativamente mais elevadas no reino unido, onde se estima que cerca de 31% da populao, com idades compreendidas entre os 16 e 25 anos, j consumiram ecstasy e que cerca de 500.000 jovens consomem actualmente a droga todos os fins-de-semana (green et al., 2003). no nosso pas, o consumo de ecstasy surgiu no incio da dcada de 1990 e, semelhana dos restantes pases europeus, esta droga ganhou rapidamente popularidade entre os jovens portugueses, o que pode ser constatado por numerosos artigos veicula-dos pelos rgos de comunicao social (por exemplo, revista Viso de 24 de maro de 1994; jornal pblico de 7 de novembro e 7 de Dezembro de 1995; jornal expresso de 1 de novembro de 1996; revista grande reportagem de Setembro de 2000; jornal pblico de 9 de junho de 2002; jornal Dirio de noticias de 16 de julho de 2002 e 14 de outubro de 2002). A ecstasy tornou-se uma droga da moda em portugal, sendo consumida sobre-tudo aos fins-de-semana em festas de msica techno e raves. Segundo o relatrio anual do instituto da Droga e da toxicodependncia de 2003, os resultados dos estudos realizados a nvel nacional na populao do 3 ciclo do ensino bsico revelaram uma taxa de consumo da mDmA de 4% em 2003 (iDt, 2004). A incidncia do consumo da mDmA na populao portuguesa est pouco documentada, mas o nmero crescente de apreenses de ecstasy efectuadas pelas autoridades policiais indicam um aumento potencial do consumo desta droga no nosso pas.

    2. FARMACOCINTICA

    A administrao oral a via geralmente usada pelos consumidores de ecstasy, sendo esta bem absorvida a nvel gastrointestinal. os picos de concentrao plasmtica ocorrem entre 1 a 3 horas aps a ingesto da droga. As anfetaminas tm em geral uma baixa percentagem de ligao s protenas plasmticas (menos de 20%) e distribuem-se largamente por todos os tecidos (carvalho, 2004; de la torre et al., 2004).

    o metabolismo da mDmA no Homem apresenta duas vias principais: (i) a desalquilao do grupo amina com formao da mDA, sendo esta etapa catalizada pela enzima cyp2b6, com contribuio das isoenzimas cyp2D6, cyp1A2 e cyp3A4 (maurer et al., 2000) e (ii) a abertura do anel metilenodioxol da mDmA e mDA, com formao dos catecis n-metil--metildopamina e -metildopamina, respectivamente. esta a principal via metablica no Homem. A etapa da desmetilenao da mDmA pode ser catalizada no Homem pelas isoen-zimas cyp2D6, cyp1A2, cyp2b6 e cyp3A4 (maurer et al., 2000). A n-metil--metildopamina e a -metildopamina so posteriormente metilados pela enzima catecol-o-metiltransferase (comt) no grupo hidroxilo da posio 4 do anel aromtico. estes 4 metabolitos, e em par-ticular os metabolitos monometilados, so excretados na urina maioritariamente na forma de glucuronatos ou sulfatos (Segura et al., 2001; de la torre et al., 2004). paralelamente, os metabolitos n-desmetilados da mDmA podem sofrer desaminao e oxidao da cadeia lateral com formao de fenilacetonas, que so posteriormente oxidadas a derivados do ci-do benzico. estes so excretados na urina aps conjugao com a glicina e formao dos respectivos hipuratos (maurer et al., 2000; de la torre et al., 2004).

  • 336 3. MECANISMO DE ACO E EFEITOS FARMACOLGICOS

    A mDmA, semelhana das restantes anfetaminas, um composto simpaticomimtico de aco indirecta. A sua aco ocorre por libertao dos neurotransmissores simpticos das vesculas dos terminais nervosos e da medula suprarenal, preferencialmente de serotonina mas tambm das catecolaminas noradrenalina, adrenalina e dopamina. estes neurotrans-missores activam os respectivos receptores levando a um estado de estimulao simptica com intensidade e durao proporcional dose e via de administrao (Simantov, 2004). em adio, a mDmA inibe a recaptao neuronal das catecolaminas libertadas (kuczenski e Segal, 1994), aumentando desta forma o tempo de permanncia destas aminas na fenda sinptica. A mDmA impede ainda a degradao enzimtica da serotonina e das catecolami-nas ao inibir de forma competitiva a monoamina oxidase (mAo) (leonardi e Azmitia, 1994), o que contribui para o prolongamento da estimulao simptica. por ltimo, a mDmA esti-mula a sntese de dopamina por um processo mediado pelos receptores da serotonina do subtipo 2A e 2c localizados nos neurnios gAbArgicos (yamamoto et al., 1995).

    3.1. EFEITOS PERIFRICOS

    os efeitos perifricos da mDmA resultam da sua aco simpaticomimtica indirecta sobre os receptores adrenrgicos (essencialmente e ) e serotoninrgicos. para doses recreacionais, os efeitos normalmente observados so o aumento da presso sangunea sistlica e diastli-ca, aumento da frequncia e do dbito cardaco, taquicardia, palpitaes, midrase, tremor e broncodilatao (Henry et al., 1992; Vollenweider et al., 1998; Hegad