economia criativa e cultura de rede

Download Economia Criativa e Cultura de Rede

Post on 18-Nov-2014

128 views

Category:

Government & Nonprofit

6 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Produto 1 da consultoria de Gabriela Agustini à Secretaria de Economia Criativa do Ministério da Cultura via Unesco. Maio de 2014.

TRANSCRIPT

  • 1. Nome do Consultor: Gabriela da Costa Aguiar Agustini (Gabriela Agustini) Projeto: 914BRZ4013 - Intersetorialidade, descentralizao e acesso cultura no Brasil SA Contrato: 1386/2014 Controle UNESCO: 556579 Nmero do Produto: 01 Nome do Produto: Documento tcnico-analtico com referncias metodolgicas nacionais e internacionais para a implantao do projeto de integrao das aes e programa de gesto, empreendedorismo e inovao no campo da Economia Criativa. Rio de Janeiro, 13 de junho de 2014 Gabriela Agustini
  • 2. Projeto: 914BRZ4013 - Intersetorialidade, descentralizao e acesso cultura no Brasil Produto 01: Referenciais metodolgicos nacionais e internacionais para a implantao do projeto de integrao das aes e programa de gesto, empreendedorismo e inovao no campo da Economia Criativa. Apresentao O presente estudo busca trazer uma srie de conceitos que impactam a realidade da economia criativa no Brasil e no mundo em tempos de redes. A fim de contribuir com a formulao de polticas pblicas que fomentem de forma inovadora as prticas dos setores criativos foi feito um levantamento de 85 iniciativas que fornecem uma amostra de um movimento global de aposta em processos colaborativos de produo, trabalho e consumo. Para melhor compreender tais empreendimentos, este estudo busca amparo nas reflexes de pensadores contemporneos que se debruam sobre a temtica tais como Manuel Castells1, Jeremy Rifkin2, Yochai Benkler 3e Ricardo Abramovay4. Antes de detalhar tais iniciativas, apresenta-se uma breve explicao dos conceitos de sociedade em rede, de cultura da internet, de economia colaborativa e de espaos de colaborao a fim de tentar estabelecer o contexto no qual tais prticas se do. Compreender esse contexto e analisar as iniciativas um passo importante para o desenvolvimento de um plano que contempla a integrao das aes do programa Brasil Criativo. Conceito base de rede O sculo 21 o sculo das redes. O termo rede utilizado h tempos no campo da teoria das organizaes e vem sendo aplicada pelas cincias sociais e econmicas, psicologia, biologia como instrumento de anlise das relaes que so construdas pelos indivduos em seus crculos sociais. Para alm de instrumentos analticos, as redes representam estruturas de governana que caracterizam as teias de interdependncia encontradas nos distritos industriais e 1 Manuel Castells um socilogo espanhol especializado nos estudos da sociedade da informao, comunicao e globalizao. Dentre as suas publicaes esto a trilogia Sociedade em Rede e A Galxia da Internet. 2 Jeremy Rifkin um terico das cincias econmicas norte-americano que se dedica a estudar o impacto das mudanas tecnolgicas e cientficas na economia, no meio ambiente, na sociedade e na fora de trabalho. Dentre as suas publicaes esto A Sociedade do Custo Marginal Zero e A Terceira Revoluo Industrial. 3 Yochai Benkler professor da faculdade de direito da Universidade de Harvard nos Estados Unidos que estuda o sistema de produo, distribuio e consumo na era conectada. A Riqueza das Redes e O Pinguim e o Leviat: o triunfo da cooperao sobre o auto interesse. 4 Ricardo Abramovay professor da Faculdade de Economia e Administrao e do Instituto de Relaes Internacionais da Universidade de So Paulo (USP). Escreveu Muito Alm da Economia Verde.
  • 3. tipificam prticas como relaes contratuais, colaborao entre manufaturas ou vrios nveis de alianas entre firmas, como j descreveram Powell e Smith- Doerr (1994:369). Em sua obra Sociedade em Rede, o terico Manuel Castells pontua que a organizao em rede dos traos mais importantes das estruturas sociais contemporneas. Para ele, uma rede um conjunto de ns interconectados e o que define este n depende do tipo de rede que est em questo. Redes so instrumentos para a economia capitalista baseada na inovao, globalizao e concentrao descentralizada; para o trabalho, trabalhadores e empresas voltadas para a flexibilidade e adaptabilidade; para uma cultura de desconstruo e reconstruo contnuas; para uma poltica destinada ao processamento instantneo de novos valores e humores pblicos; e para uma organizao social que vise a suplantao do espao e invalidao do tempo. (Castells, 1999, p. 498). Redes, muitas vezes, so estruturas invisveis, informais, tcitas. Elas perpassam os momentos da vida social, mas nem sempre esto aparentes. So o conjunto de conexes ocultas, como diria Fritjof Capra5. E apesar do crescente emprego do termo, seu significado est longe de receber uma definio unnime, como bem pontua Ricardo Abramovay6. A Internet e a Sociedade em Rede Um observador atento no levar muito tempo para perceber que a expanso das redes s um sintoma de um mundo que enfrenta um processo de transformao estrutural, como bem diagnosticado por Castells. um processo multidimensional, mas est associado emergncia de um novo paradigma tecnolgico, baseado nas tecnologias na informao e comunicao, que comearam a tomar forma nos anos 60 e que se difundiram de forma desigual por todo o mundo (CASTELLS; CARDOSO, 2005, p. 17). O conceito de rede adotado pela sociedade muito antes da internet e dos computadores existirem. Uma roda em volta da fogueira feita pelos nossos ancestrais para compartilhar histrias e interesses no deixa de ser uma rede social. Coube, entretanto, ao surgimento e popularizao da internet nas ltimas dcadas a intensificao de uso das redes sociais, assim como a sua elevao a uma escala global e em tempo real. 5 Meno tese de Fritjof Capra presente no livro As Conexes Ocultas 9Editora Cultrix, So Paulo, 2002) no qual ele aponta que todas as formas de vida - desde as clulas mais primitivas at as sociedades humanas, suas empresas e Estados nacionais, at mesmo sua economia global - organizam-se segundo o mesmo padro e os mesmos princpios bsicos - o padro em rede. 6 Referncia cita o feita em artigo A rede, os ns, as teias: tecnologias alternativas na agricultura(2000, p. 163).
  • 4. por isso que a internet deve ser compreendida como uma rede que congrega diversos tipos e grupos de redes, incluindo alm das redes de computadores, redes de pessoas e de informaes. Dentro dessa lgica, essa congregao forma uma nova cultura que Pierre Lvy denomina de cultura do ciberespao ou cibercultura. O ciberespao (que tambm chamarei de rede) o novo meio de comunicao que surge da interconexo mundial dos computadores. O termo especifica no apenas a infraestrutura material da comunicao digital, mas tambm o universo ocenico de informaes que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo. Quanto ao neologismo cibercultura, especifica aqui o conjunto de tcnicas (materiais e intelectuais), de prticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespao. (LVY, 1999, p.17). Neste sentido, ainda que a tecnologia seja fundamental para viabilizar as mais diversas articulaes em rede, no reconhecimento da expanso da informao e do conhecimento que reside a grande potncia desta nova organizao social. preciso reconhecer e legitimar que o saber no mais produzido - e estocado - somente em instituies criadas especialmente para determinados fins. Da mesma forma como as inovaes j no mais pertencem apenas aos grandes centros e departamentos de pesquisa. Ao Estado cabe abrir-se para o conhecimento gerado e distribudo livremente nas redes e incorporar a lgica da abertura e da produo descentralizada a fim de potencializar e fomentar os processos de inovao. A cultura da internet O Brasil fechou 2013 com 100 milhes de pessoas conectadas internet, o que representa quase 50% da sua populao. Levantamento recente feito pela empresa americana Kleiner Perkins Caufield & Byers (KPCB) 7coloca o pas como o quinto maior mercado para negcios na Internet no mundo e como quarto entre a lista dos que passam mais tempo por dia usando os seus aparelhos eletrnicos. O crescimento do nmero de usurios de internet mvel no pas outro dado importante. S em 2013 o aumento foi de 244%, quando comparado ao ano anterior. Estima-se que temos mais de 40 milhes de smartphones e mais de 10 milhes de tablets.8 Consequentemente, o impacto das formas de produzir em rede so cada vez mais visveis. Desde as ltimas dcadas do sculo XX, as novas tecnologias de informao e comunicao vem mudando intensamente a forma como produzimos e compartilhamos conhecimento. 7 Referncia ao Internet Trends 2014 disponvel na internet em: http://www.kpcb.com/internet-trends 8 Dados presentes no estudo Mobile Economy Latin America 2013 feito pela GSMA e disponvel na internet em: http://gsma.com/newsroom/wp-content/ uploads/2013/12/GSMA_ME_LatAm_Report_2013.pdf
  • 5. Softwares e internet criam a possibilidade de democratizar o acesso informao, maximizar os potenciais de bens e servios e amplificar os valores que formam a nossa cultura, criando inclusive novos comportamentos, linguagens artsticas e novos modos de produo. importante notar que quanto maior a liberdade para as prticas colaborativas na rede, mais extensa ser a inteligncia coletiva 9e maior o seu potencial criativo. E, nesse sentido, o Estado, por meio de polticas pblicas adequadas, deve incentivar e promover tais prticas, estimulando sua expanso em territrio nacional. Por isso, importante compreender quais so estas prticas e como elas ocorrem e ter claro que no espao da inovao trs palavras so fundamentais: colaborao, abertura e transdisciplinariedade. Rodrigo Savazoni, citando o terico do ciberespao Howard Rheingold, indica que nosso