ecologismo, ambientalismo e ecologia política

Download Ecologismo, ambientalismo e ecologia política

Post on 28-Nov-2014

309 views

Category:

Environment

3 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

JATOBA, Sérgio Ulisses Silva; CIDADE, Lúcia Cony Faria and VARGAS, Glória Maria. Ecologismo, ambientalismo e ecologia política: diferentes visões da sustentabilidade e do território. Soc. estado. [online]. 2009, vol.24, n.1, pp. 47-87. ISSN 0102-6992.

TRANSCRIPT

  • 1. Sociedade e Estado, Braslia, v. 24, n. 1, p. 47-87, jan./abr. 2009 Ecologismo, Ambientalismo e Ecologia Poltica: diferentes vises da sustentabilidade e do territrio1 Srgio Ulisses Silva Jatob* Lcia Cony Faria Cidade** Glria Maria Vargas*** Resumo: No quadro da evoluo histrica do que se entende por sustentabilidade, e considerando as potenciais implicaes desse processo sobre os usos do territrio, o objetivo do texto investigar como diferentes perspectivas tratam a temtica territorial. Com o apoio de contextualizaes, busca-se compreender permanncias, mudanas e tendncias. A anlise acompanha a criao da ecologia como ramo cientfico, passa pelo surgimento do ambientalismo moderado, e segue at enfoques mais recentes, como o da ecologia poltica. A primeira parte do texto argumenta que a viso da sustentabilidade comea a ser moldada a partir das idias da ecologia radical,relacionadascomoprotecionismoecomoconservacionismo; ela adquire caractersticas mais moderadas quando se apresenta na forma conciliatria do ambientalismo, desdobrando-se na proposta de desenvolvimento sustentvel; e acaba por transformar-se em instrumento de crtica social, quando enfocado sob o prisma da ecologia poltica.Asegunda parte do texto argumenta que a ecologia radical, o ambientalismo moderado e a ecologia poltica encaram * Arquiteto, mestre e doutor em Desenvolvimento Sustentvel, pesquisador do Ncleo de Estudos Urbanos e Regionais da Universidade de Braslia (UnB), tcnico da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente do Distrito Federal. E-mail: sj.jatoba@uol. com.br ** Arquiteta, mestre em Arquitetura, mestre em Planejamento Urbano e Regional e Ph. D. em Planejamento Urbano e Regional, professora associada e pesquisadora do Departamento de Geografia, do Centro de Desenvolvimento Sustentvel e do Ncleo de Estudos Urbanos e Regionais da UnB. E-mail: cony@unb.br *** Gegrafa,doutoraemGeografia,professoraadjuntadaFaculdadedePlanaltina,Universidade de Braslia, pesquisadora associada do Centro de Desenvolvimento Sustentvel da UnB. E- mail: yoya@uol.com.br Artigo recebido em 3 dez. 2008 e aprovado em 20 fev. 2009.
  • 2. 48 Srgio Ulisses S. Jatob / Lcia Cony Faria Cidade / Glria Maria Vargas Sociedade e Estado, Braslia, v. 24, n. 1, p. 47-87, jan./abr. 2009 a sustentabilidade territorial em sintonia com distintos contextos histricos e ambientais e diferenciadas vises de natureza. Conclui que as propostas variam tambm em funo das escalas geogrficas em que atuam e dos interesses envolvidos. Diante da crise ambiental atual, os diferentes enfoques, ao priorizarem dimenses especficas, como o quadro natural, as relaes entre ambiente e sociedade e as desigualdades socioambientais, podem oferecer subsdios para a busca de alternativas viveis. Palavras-chave: sustentabilidade; territrio; ecologia radical; ambientalismo; desenvolvimento sustentvel; ecologia poltica. Introduo As vises de sustentabilidade que hoje ocupam igualmente espaosdedebateacadmicoeamdianosoneutrasnemimutveis. O seu significado tem variado ao longo do tempo, em sintonia com a dinmica social, econmica e poltica que circunscreve as relaes entre a sociedade e a natureza. Assim, uma das primeiras abordagens modernas da questo foi a perspectiva da ecologia radical, que separava as questes de proteo e conservao da natureza das questes de desenvolvimento econmico. Uma segunda viso, a do ambientalismo moderado, por outro lado, entende a sustentabilidade de forma distinta. Antes de representar uma simples adjetivao ao conceito de desenvolvimento, a viso de desenvolvimento sustentvel pode ser entendida como a sua complementao natural ou mesmo como o seu sinnimo. Segundo Bursztyn (2007), a partir da Conferncia das Naes Unidas sobre Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em 1972, foi necessrio qualificar o desenvolvimento. Passou a ser importante estabelecer a diferena entre as prticas correntes de crescimento econmico associado degradao ambiental e a nova proposta de desenvolvimento, mais condizente com a percepo emergente da finitude dos recursos naturais. A partir de uma percepo crescentemente complexa, no mais se conceberia, em tese, um modelo de desenvolvimento
  • 3. 49Ecologismo, ambientalismo e ecologia poltica: diferentes vises da... Sociedade e Estado, Braslia, v. 24, n. 1, p. 47-87, jan./abr. 2009 que no fosse sustentvel. Passaria a ser necessrio equilibrar os aspectos econmico, social e ambiental do desenvolvimento, em contraposio idia de se associar desenvolvimento exclusivamente a crescimento econmico. Na linha da ecologia poltica, a terceira perspectiva, a sustentabilidade decorre da necessidade de articular sociedade e natureza, sob uma perspectiva de justia social, empoderamento e governana. Embora nem sempre reconhecida formalmente, a temtica territorial est implcita na noo de desenvolvimento sustentvel. Neste texto procura-se mostrar, com base em uma reviso bibliogrfica representativa, a evoluo histrica do conceito de sustentabilidade desde a criao da ecologia como ramo cientfico, passando pelo surgimento do ambientalismo moderado e seu desdobramento no desenvolvimento sustentvel, at abordagens mais recentes como a da ecologia poltica. Enfatiza-se a viso territorial de cada uma dessas abordagens. Argumenta-se que, enquanto a linha da ecologia tendia a equacionar territrio com uma natureza romantizada, a linha do ambientalismo moderado parece ver o territrio como um quadro neutro, em contraposio linha da ecologia poltica. Esta linha tende a considerar no apenas o territrio mas a prpria socionatureza2 como a base do processo produtivo e como palco de conflitos. Para efeito metodolgico,3 foram usadas trs abordagens tericas, que abrigam tendncias evolutivas distintas no movimento ambientalista. So elas: 1) a ecologia radical, que engloba a ecologia tradicional, o protecionismo, o conservacionismo, a ecologia profunda, a economia ecolgica e outras correntes que enfatizam o enfoque ecolgico; 2) o ambientalismo moderado, que enfoca basicamente a conciliao do crescimento econmico, do desenvolvimento social e da conservao ambiental, por meio do desenvolvimento sustentvel; e 3) a ecologia poltica, que prope
  • 4. 50 Srgio Ulisses S. Jatob / Lcia Cony Faria Cidade / Glria Maria Vargas Sociedade e Estado, Braslia, v. 24, n. 1, p. 47-87, jan./abr. 2009 a anlise dos problemas ambientais em funo do seu contexto socioeconmico e poltico-ideolgico.4 Apesar das diferenas, a sustentabilidade pode ser entendida como um objetivo maior, perseguido pelas trs abordagens tericas. Buscaria a almejada condio de manuteno, sobrevivncia e harmonia de todas as formas de vida na Terra, em contraposio a um padro de desenvolvimento ecologicamente desequilibrado, economicamente instvel e socialmente desigual. Neste sentido, a sustentabilidade um objetivo presente nas trs abordagens analisadas, embora tenham elas propostas distintas para alcan-lo. A abordagem da ecologia radical Neste trabalho, a ecologia radical abrange uma srie de correntes tericas e movimentos ambientalistas que tm como base o ecocentrismo. Este pressupe a submisso das atividades humanas s leis naturais e ope-se ao tecnocentrismo, que credita capacidade humana a possibilidade de reverter desequilbrios ambientais e suprir a escassez dos recursos naturais por meios tecnolgicos. H que reconhecer na ecologia radical duas vises tericas distintas: a biocntrica e a ecolgica. A viso biocntrica A viso biocntrica origina-se concomitantemente com a prpria ecologia, que nasce como cincia na segunda metade do sculo XIX, mais precisamente em 1866. Ernst Haeckel cunhou o termo, que etimologicamente resulta da juno dos radicais gregos oikos (casa) e logos (estudo). A ecologia estuda a relaes entre os seres vivos e o meio ambiente e a sua distribuio no planeta. Visto como um ramo dentro da ecologia, o biocentrismo outorga valor intrnseco natureza, independentemente da funo que ela cumpra para a satisfao das necessidades humanas (Foladori,
  • 5. 51Ecologismo, ambientalismo e ecologia poltica: diferentes vises da... Sociedade e Estado, Braslia, v. 24, n. 1, p. 47-87, jan./abr. 2009 2001, p. 1). Embora considere o homem parte integrante da natureza, o biocentrismo ressalta a importncia da biocenose ou biota, que a associao de populaes de espcies diferentes que habitam um bitopo comum ou comunidade biolgica, em relao antropocenose, comunidade humana, para manuteno do equilbrio ecolgico. Dentro da viso biocntrica abrigam-se as tendncias do preservacionismo e do conservacionismo. Os primeiros grupos preservacionistas surgiram na Inglaterra na mesma poca em que a ecologia florescia como ramo cientfico (Mccormick, 1992, p. 15). Os preservacionistas ou protecionistas defendiam a reserva de reas territoriais especficas para a proteo integral da natureza. A partir de suas propostas so criados os primeiros parques nacionais, dentre eles o de Yellowstone, em 1872 nos EUA, o primeiro do mundo. O conservacionismo, por sua vez, fortaleceu-se na virada do sculo XX. umarespostaaceleraodoprocessodeindustrializaoque,alm da Inglaterra, disseminou-se tambm por outras naes europias e tomou impulso nos EUA aps a Guerra da Secesso. Embora com propostas muito semelhantes, preservacionistas e conservacionistas se diferenciavam pelo enfoque que os primeiros davam criao de reservas naturais, enquanto os ltimos se preocupavam tambm com a r

Recommended

View more >