dualismo de papéis da mulher moderna

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Dualismo de papéis da mulher moderna e a nova imagem feminina criada pela telenovela brasileira

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  • 1. C.D.U. 396DUALISMO DE PAPIS DA MULHER MODERNA E A NOVA IMAGEM FEMININA CRIADA PELA TELENOVELA BRASILEIRA Maria de Ftima de Andrade Quintas Antroploga1-INTRODUOAps a Revoluo Industrial novos caminhos se abriram para a mulher. A utilizao da fora bruta masculina foi substituda pelo simples apertar de um boto. A era tecnolgica , sem d'ida, a responsvel pelas inmeras mudanas que se vm operando na sociedade de hoje. O fenmeno da modernizao vem se realizando, abrupta e aceleradamente, sem mesmo se processar uma reinterpretao dos novos valores surgidos no mundo atual. lgico que esta velocidade de mudanas se concentra com maior fora nos pases subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento. Os pa(ses do terceiro mundo recebem dos pases cntricos uma verdadeira avalanche de avano tecnolgico. E no h tempo para um remanejamento dos antigos valores reinantes. Em conseqncia, se opera um dualismo de costumes dentro de uma sociedade que deseja se afirmar como moderna, mas que sofre o conflito cultural dos novos valores recebidos. Como afirma Alberto Medina o processo de modernizao nem sempre traz resultados vantajosos. Principalmente quando ele exgeno. Sendo pautado em caractersticas estranhas sociedade, a modernizao no se opera de maneira globalizante. Provoca mudanas setoriais. Surge uma dicotomia de setores modernos ao lado de setores no modernos. E a coexistncia do tradicional-moderno. Esta coexistncia de valores antagnicos , sem dvida, uma caracterstica do mundo atual. Um mundo conturbado pelo choque da tecnologia. ci.& Trop.,Recife.3(2);137-152 jul./dez.,1975137

2. Dualismo de papis da mulher moderna c nova imagem feminina criada pela telenovela brasileiraNos pases em vias de desenvolvimento este abalo da era tecnicista provoca maiores distrbios. H uma defasagem ideolgica. O tradicional persiste e o moderno se impe. O fenmeno de modernizao lanado com tanta rapidez que no chega a sofrer um processo de reinterpretao, enquanto que os valores tradicionais permanecem bem vivos, bem presentes. No h um amoldamento, um reajustamento. Em vez de um entrelaamento, observa-se uma dicotomia baseada na ausncia de um amalgamento cultural. O moderno foi imposto, copiada dos pases industrializados. No se processou um caminhar lento, gradativa e lgico. Os valores surgem como que revestidos de uma aurola determinante de status. E o indivduo se inclina a aceit-los como fator de mobilidade social, de ascenso, de posio privilegiada na sociedade. Repudi-los significaria marginalizar-se. Resta ao homem moderno dividir os seus papis e viver numa sociedade que lhe exige uma aceitao ambgua de valores, atravs de mudanas bruscas e rpidas. dentro deste prisma, observando os pases subdesenvolvidos e os seus internos conflitos culturis que desejamos orientar o nosso trabalho. Restringimos, entretanto, o nosso tema dando um enfoque especial situao da mulher moderna no Brasil e, mais detalhadamente, no Nordeste, 2 - ASPECTOS GERAIS DA EMANCIPAO DA MULHER Por muito tempo a mulher foi considerada "objeto" do homem. Sua funo reduzia-se quase que exclusivamente reproduo e s tarefas denominadas domsticas. Com o surgimento da civilizao tecnolgica, a situao da mulher vem sofrendo srias modificaes. Sua fora produtiva comea a ser explorada em reas que anteriormente eram consideradas como de exclusivo acesso masculino. Sem dvida alguma o fortalecimento de uma mentalidade industrial-urbana vem provocando a emancipao feminina. Entretanto, a luta da mulher por uma igualdade de direitos ainda se encontra em fase inicial. A marcha comeou, mas vem se processando lentamente. E bem verdade que nos pases desenvolvidos esta equiparao se encontra num estgio mais avanado. Mas, convm ressaltar que estudos realizados sobre a mulher escandinava (considerada como a mais avanada do mundo), acaba por destruir a idia de uma equiparao completa. Harriel Holter ao expor a condio social da mulher norueguesa, dinamarquesa e sueca esclarece que"ela est envolvida por uma duplicidade de padres: a ideologia oficial e os padres da realidade". 3 Legalmente a mulher escandinava est protegida por uma igualdade de direitos. Mas, a "ideologia oficial" no se coaduna com os "padres da realidade". Na vida cotidiana verifica-se uma discriminao hierrquica de cargos, de salrios e de acesso a determinadas posies. Observa-se que a problemtica da emancipao feminina ainda encontra barreiras, mesmo nos pases altamente desenvolvidos. Barreiras estas 1313ci.& Trop.,Recife,3(2):137-152 jul./dez.,1975 3. Maria de Ftima de Andrade Quintaspossivelmente mais amenizadas do que os obstculos encontrados nos pa(ses no industrializados. Mas, a verdade que os problemas so similares, sofrendo apenas diferenciaes em grau de discriminao. Nos Estados Unidos, durante e aps a ltima guerra, houve um incremento no trabalho feminino. Este aumento explica-se pelas necessidades criadas pela guerra, ocasionando um efeito compulsivo na fora do trabalho feminino. As mulheres sentiam-se levadas a aceitar o trabalho em virtude da ausncia de fora produtiva masculina, provocada pelo fator guerra. Mas, esta fora que impulsionou o trabalho feminino parece ter decrescido quando o pas voltou normalidade. Donde se deduz que a produo da mulher, naquela poca, ainda se encontrava num estgio de trabalho-reserva. Com o aceleramento do desenvolvimento econmico fez-se acompanhar um crescente aproveitamento da mo-de-obra feminina. Como frisou Joo XXIII, a ascenso da mulher aparece como um dos fenmenos marcantes deste sculo. O trabalho uma necessidade vital para a realizao humana. Deve satisfazer princpios fundamentais de sua natureza. Trabalhando o homem se dignifica e preenche a sua necessidade de subsistir (aspecto econmico), a sua necessidade de criar (aspecto psicolgico) e a sua necessidade de interagir, de conviver (aspecto social). Trabalhar uma forma de enriquecimento. O desejo de uma realizao profissional possui determinantes no somente econmicas, mas fundamentalmente psicolgicas. Historicamente podemos observar que a mulher foi sempre levada a executar tarefas domsticas e, quando chamada a trabalhar fora de casa, os seus cargos eram quase que prolongamento dos afazeres caseiros. No sem justificao que profisses como costureira, enfermeira, assistente social, professora primria e outras aparecem como que exclusivas do sexo feminino. Esta tendncia em pr-determinar o labor da mulher vai desaparecendo lentamente, embora ainda se encontre muito arraigada na mentalidade masculina. O homem talvez seja o principal responsvel pela criao de uma ideologia preconceituosa relativa mulher. O argumento de que o trabalho feminino provoca a desagregao da famlia um exemplo. Entretanto, este exemplo perde sua base de sustentao quando pesquisas realizadas na Dinamarca, onde a taxa de divrcio excepcionalmente elevada - um casamento em cinco termina em divrcio - "demonstraram que so menos estveis os casamentos em que as mulheres no trabalham fora de casa". 28 Outro libelo lanado contra a profissionalizao da mulher a diminuio da natalidade. Na verdade a mulher que trabalha tem menos filho, mas em contrapartida o ndice de mortalidade infantil cai nos lares onde a esposa atua como fora produtiva, fora de seu ambiente domstico, Na Frana foi efetuada pesquisa deste tipo e os resultados so vantajosos em ciaTrop,,Recife,3(2):1 37-152 jul/dez,1975139 4. Dualismo de papis da mulher moderna e a nova imagem feminina criada pela telenovela brasileirarelao a uma necessidade de maior aperfeioamento da mulher na luta contra a mortalidade infantil. No basta que a me permanea em casa ao lado dos filhos. necessrio que estas mes sejam esclarecidas e tenham condies econmicas de tratar e alimentar cuidadosamente os seus filhos. Na Frana, como na maioria dos pases industrializados, um nmero grande de creches (com atendimento especializado) vem solucionar, sem dvida, um dos graves problemas da mulher relativo a sua ausncia fora do lar,. quando ainda possui crianas em tenra idade. Em Portugal a situao da mulher parece ainda ser bastante carente. Em recente trabalho realizado por Antonia de Souza, observamos que o baixo nvel de salrio o principal responsvel pela fixao da mulher ao lar. Este fato pode ser explicado pela falta de especializao encontrada na mo-de-obra feminina. Acresce que ao lado disto surge uma discriminao salarial bastante grande. A mulher mesmo exercendo tarefas idnticas ao homem, percebe um ordenado inferior. Houve, inclusive, no decnio de 1950-60 uma poltica de regresso da mulher ao lar. Dos anos que vivi em Lisboa pude observar que a mulher portuguesa essencialmente domstica e que somente nestes ltimos 3-4 anos vem ela lutando por grandes reivindicaes. Os baixos nveis salariais femininos no s distanciam a mulher do trabalho profissional como tambm incitam o homem a emigrar. O fenmeno damigrao portuguesa atingiu nmeros significantes. Inicialmente o homem emigrava, deixando esposa e filhos na sua terra natal. Hoje observa-se fato diverso. A prpria mulher mais cnscia de seus direitos tambm emigra, na tentativa de uma vida melhor. Vale ressaltar aqui, entretanto, que na Frana, na Alemanha e na Inglaterra (pases onde atualmente a emigrao portuguesa vem se efetuando mais largamente), as tarefas mais domsticas so realizadas justamente por esta mo-de-obra excedente portuguesa. Tive a surpresa de observar quando de minha estada na Frana, que as camareiras, garonetes, faxineiras eram portuguesas. Donde se conclui que o nvel de qualificao da mulher francesa superior, relegando os trabalhos de extenso domstica a uma mo-de-obra externa no aperfeioada. Atualmente o governo portugus vem estabelecendo uma poltica antiemigratria. Como diz Simone de Beauvoir, a luta da mulher uma luta depromoo de objeto a sujeito. A libertao de um esteretipo (feminilidade, papel da mulher) resultante de uma tomada de conscincia de uma realidade individual. Ultrapassando as barreiras da tradio a mulher exige da sociedade uma transformao. preciso