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Dossier de Apoio

Teatro Nacional D. Maria II 2008 // Comear a Acabar - Dossier de Apoio

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Comear a Acabar *de

Samuel Beckettdireco / traduo Joo Lagarto desenho de luz Jos Carlos Gomes realizao plstica Ana Teresa Castelo msica Jorge Palma produo (Teatro do Bolho) Pedro Aparcio direco de cena Cristina Vidal operao de som Antnio Venncio operao de luz Lus Lopes com Joo Lagarto co- produo TNDM II / ACE Teatro do Bolho

SALA ESTDIO 10 ABR a 01 JUN

* Espectculo vencedor do Prmio de Melhor Actor (2006), atribudo pela Associao Portuguesa de Crticos de Teatro (APCT)

Teatro Nacional D. Maria II 2008 // Comear a Acabar - Dossier de Apoio

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Sinopse"Comear a Acabar" um monlogo em que um homem se dirige directamente ao pblico para contar a sua histria. A primeira frase que profere d-nos, desde logo, o tom do discurso: "Em breve estarei morto finalmente apesar de tudo". Enquanto espera que chegue a sua ltima hora, este homem recorda momentos significativos do seu passado: as relaes tensas com o pai, que morreu cedo; a ligao terna me, com quem nunca se conseguiu entender; uma infncia passada com grande agitao interior; a maturidade decorrida sem amor ("Nunca amei ningum acho eu, seno lembrava-me"); uma velhice vivida em solido, sem mulher, filhos ou netos que o entretenham. Mas medida que as memrias mais insignificantes lhe acorrem ao esprito, o homem evoca tambm assuntos comezinhos, de forma aparentemente aleatria

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A ss com BeckettPoucas peas existiro em que, sentado na plateia, o espectador consegue sentir a respirao da morte e a constante presena do fim como em "Comear a Acabar", de Samuel Beckett. A partir de trs textos chave da sua fico - "Molloy", "Malone est a Morrer" e "O Inominvel" - o dramaturgo irlands juntou fragmentos, (re)ordenou-os e, em alguns casos, chegou a reescrev-los. O resultado este magnfico espectculo encenado e interpretado por Joo Lagarto que o TNDM II volta a apresentar na Sala Estdio onde, em 2006, se estreou com grande xito. O reconhecimento deste trabalho com o Prmio da Associao Portuguesa de Crticos de Teatro (2006) mostrou como esta no s uma homenagem a Beckett, uma das grandes referncias literrias do sculo XX, mas tambm um texto onde obrigatrio sentir o espectculo. A depurao das palavras aliada presena em palco de Joo Lagarto, cujo trabalho de voz e de corpo revelam uma brilhante interpretao, fazem de "Comear a Acabar" um desafio, uma partilha com cada espectador. Uma caixa negra e trs lmpadas, que mal iluminam um cenrio tambm desprovido de objectos, so o suficiente para, subitamente, o palco se encher com a presena do protagonista, um mendigo que joga com pedras nos bolsos, que faz rir a plateia e que a faz congelar quando diz: "Em breve estarei morto". De repente, o espao parece pequeno, abafado por tantas memrias que se vo soltando pelo ar, pelo passado que ora teima em ir ou voltar, pelas palavras pesadas de ironia e, sobretudo, pelo silncio. O silncio que nos faz reflectir, ao mesmo tempo que aquele homem, com quem estamos a ss, contraria as iluses. Demora-se a partir, que como quem diz, a morrer. Mas neste monlogo, indito em Portugal, a habilidade de Beckett bem visvel. O humor no abandona o texto, mesmo quando se abre o livro da vida e nele se encontram actos sem sentido, obsesses, isolamentos, caminhos subterrneos que escondem aquilo que no pode ser escondido: a iminncia do fim. O TNDM II, seguindo a sua linha de programao de grandes textos da dramaturgia contempornea, apresenta este espectculo intimista, da autoria de um dos maiores vultos do teatro, cuja escrita depurada instituiu um estilo nico. Durante cerca de uma hora, ouvimos aquele homem vestido de trapos que nos faz rir da desgraa. A qualquer momento pode regressar o silncio e a escurido e o espectador volta a ficar como quando se sentou: s. Porque com Beckett aprendemos que o fim persegue o comeo de tudo. Bom espectculo. Carlos Fragateiro

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"Comear a Acabar" resulta da amizade de dois homens - o dramaturgo Samuel Beckett e o actor Jack MacGowran. O projecto ter partido de MacGowran que, no fim dos anos sessenta, comeou a tentar juntar fragmentos da obra do seu conterrneo na forma de um monlogo que foi sempre, e em primeiro lugar, uma homenagem e um acto de amizade. Primeiro, chamou-se "End of Day" e, ao que se sabe, dele fazia parte o "Acto sem Palavras I", o monlogo de Lucky de " Espera de Godot" e o fabuloso "From an Abandoned Work". Beckett mantinha-se distncia at que, em 1970, se decide a intervir mais activamente. O monlogo passa a chamar-se "Beggining to End" e, no sendo uma obra nova de Beckett, uma reviso de alguns dos seus textos mais emblemticos montados num monlogo duma espantosa unidade dramtica sobre a morte, ou melhor: sobre o fim. Beckett ter dito a certa altura do processo que a questo no estava nos fragmentos a utilizar mas sim na maneira de os agrupar. A situao a de um homem que est a morrer e que entretanto vai contando histrias. Passamos pelas palavras de Krapp, de Lucky, de Molloy, de Clov e de Hamm, de Watt, de Malone, de Vladimir, pelos poemas e tudo acaba nas palavras finais desse livro nico chamado "O Inominvel". O espectculo estreou a 23 de Abril de 1970, no teatro douard VII para o "tout Paris", e continuou a sua carreira nos anos seguintes at morte de MacGowran, que se tornara numa estrela do cinema mundial, representou "Beggining to End" nos Estados Unidos da Amrica, por toda a Europa e at em Dublin. Beckett comeava a ser mais do que um autor de culto para alguns iniciados e este acto de amizade do actor ao seu dramaturgo ter contribudo em larga medida para isso. A histria desse monlogo tambm a histria da evoluo da ideia beckettiana de actor. Nas primeiras verses, MacGowran ficava esttico, sorria apenas uma vez (ao que parece com efeitos devastadores) e mantinha-se naquela posio neutra de transmissor dos ritmos das frases que se atribui muitas vezes ao actor "beckettiano". Progressivamente ele, e Beckett, foram mudando. No sei muito bem onde chegaram, parece que os mendigos de Dublin estavam presentes em palco, sem limites de exuberncia. MacGowran fazia questo de dizer todas as palavras que l estavam e Beckett, que no encenou o espectculo mas acompanhou os ensaios, s vezes ficava em silncio durante bastante tempo e depois dizia duas ou trs frases fundamentais. Nunca vi o monlogo, nem feito por MacGowran nem por ningum (alis, no tenho conhecimento de ele ter voltado a ser feito) mas conheo o texto final e os vrios fragmentos de que Beckett partiu para o construir, o que me permitiu assistir ao minucioso trabalho dramatrgico que Beckett fez sobre os seus prprios textos. So partituras e quando assistimos ao autor a recort-las, ou a traduzi-las, mais entendemos que o so. Quanto aos sem abrigo de Dublin tambm nunca conheci nenhum. Mas sempre me pareceu que os mendigos de Beckett no so mendigos sociais, so mendigos da alma - homens diante do mistrio da morte, ou melhor do fim. Uma vez, Jack MacGowran perguntou a Beckett se ele queria que o pblico se risse em "Beggining to End", ao que Beckett ter respondido "o mximo de gargalhadas que tu consigas". Joo Lagarto

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"Quando fao Beckettsinto-me um intrprete musical"Joo Lagarto fala sobre Samuel Beckett e sobre a pea "Comear a Acabar"Entrevista conduzida por A. Ribeiro dos Santos Como que descobriu este texto e em que condies decidiu lev-lo cena? Descobri o texto quando estava a ler uma biografia do Beckett, h uns anos, e a certa altura falava-se deste monlogo, estreado em 1970. Comecei procura da pea mas no foi fcil A nica edio do texto antiga e est esgotadssima, porque foram feitos apenas 300 exemplares. Acabei por encontr-la em Nova Iorque. Traduzi o texto, arranjei maneira de o produzir e chegamos agora ao fim desse longo processo. Uma montagem que tem trs anos de preparao. Sempre a pensar no centenrio de Beckett, que se comemora este ano? No. Na altura nem me ocorreu que se celebrava a data. Em 2005 j tinha feito "Endgame", com o Teatro Meridional, e em Abril de 2006 fiz as "Peas Radiofnicas", na cerimnia de reabertura do Teatro Maria Matos, com transmisso em directo para a Antena 2. um projecto que vamos manter em repertrio. Refere-se a que estrutura de produo? A companhia Crnicos, que fundei com o Gonalo Waddington, a Carla Maciel, o meu filho Afonso, a Valerie Braddell e o Fernando Mota, da msica. Temos muitos projectos alinhavados, mas um deles sem dvida retomar as "Peas Radiofnicas". A sua relao com Beckett vem de longa data? No. recente. Conheci a obra de Beckett h relativamente pouco tempo e fiquei fascinado. Sobretudo ao ler os romances da trilogia - "Malone Est a Morrer", "Molloy" e "O Inominvel" -, de onde ele retirou o material para este monlogo. S posso dizer que nunca tinha lido nada assim. Beckett consegue aliar uma forma moderna, que rompe com as estruturas narrativas tradicionais, e um contedo humanamente significativo e totalmente universal. Beckett fala da morte, da decadncia fsica, da perda de capacidades intelectuais Beckett deprimente. Sim, claro. Beckett deprimente. Deprimentssimo. Mas tambm diz que a coisa mais divertida o sofrimento. O facto de ser deprimente no o dissuadiu de fazer este espectculo O monlogo "Comear a Acabar" foi estreado em 1970. Beckett tinha ganho o Nobel em 1969 e at ento tinha sido um autor de culto s para iniciados. No tinha a dimenso que depois ganhou Quando as pessoas o descobriram, passaram a associ-lo a uma grande aridez, a um elevado grau de abstraco, uma grande secura Um autor triste, lcido. Claro que Beckett isso. Mas tambm - e isso v-se claramente neste monlogo - um tipo com um humor extraordinrio. "Comear a Acabar"