dossiê filosofia da ciência - .empirismo e filosofia da ciência thomas kuhn abre sua estrutura

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  • Dossi Filosofiada Cincia

  • Mudana cientfica:modelos filosficose pesquisa histricaLARRY LAUDAN, ARTHUR DONOVAN,RACHEL LAUDAN, PETER BARKER,HAROLD BROWN, JARRETT LEPLIN,PAUL THAGARD, STEVE WYKSTRA

    A preeminncia da cincia na cultura ocidental manifesta. Quemquer que estude a sociedade moderna deve reconhecer a impor-tncia de compreender como a cincia conduz sua tarefa de in-ventar, testar e finalmente aceitar ou rejeitar teorias. Uma cultura que seorgulha de sua capacidade de auto-exame crtico deve ter em alta conta,na sua agenda intelectual, o estudo sistemtico dos processos de mu-dana e inveno de teoria na cincia. Seja pelo propsito prtico decontrolar a direo e o progresso da cincia, seja pelo propsito inte-lectual de determinar a natureza e o escopo do conhecimento humano,h excelentes razes para se tentar examinar a dinmica da cincia.

    Ocorre, no entanto, que de fato no possumos um quadro geralbem confirmado de como a cincia funciona, nem uma teoria da cinciaque merea assentimento geral. Tivemos, certa vez, uma posio filo-sfica bem desenvolvida e historicamente influente, a saber, o positi-vismo ou empirismo lgico, que agora se encontra efetivamente refu-tada. Temos algumas recentes teorias da cincia que, embora despertemgrande interesse, quase nunca tm sido de algum modo testadas. E te-mos hipteses especficas sobre vrios aspectos cognitivos da cincia,que so amplamente discutidas mas completamente indecididas. Se al-guma posio existente realmente proporciona uma compreenso vivelde como a cincia opera, ns estamos longe de poder identific-la.

    No incio dos anos 60, algumas novas teorias da cincia foramdesenvolvidas como alternativas ao positivismo; trata-se dos trabalhosde N.R. Hanson, Paul Feyerabend, Stephen Toulmin e, acima de tudo,Thomas Kuhn. Essas contribuies, ainda que problemticas em suasteses positivas, puseram termo efetivamente hegemonia do positivis-mo ao revelarem que suas doutrinas centrais (tais como a cumulativi-dade da cincia, a redutibilidade da linguagem terica observacional)

  • conflitam radicalmente com a prtica real da cincia. Kuhn destacou-se,pelo menos retrospectivamente, como a figura dominante dos anos 60.Na reao a Kuhn, entrou em cena nos anos 70 uma nova gerao detericos: I. Lakatos, L. Laudan, G. Holton, M. Hesse, J. Sneed, E.McMullin, I.B. Cohn, W. Stegmller, D. Shapere e N. Koertge. Todosesses autores desenvolveram modelos de mudana e progresso cientficoque, segundo eles, estavam baseados no, e apoiados pelo, estudo emp-rico das obras da cincia real, por oposio aos ideais lgicos ou filos-ficos de garantia epistmica enfatizados pela tradio positivista. Portodos eles, a filosofia da cincia foi caracterizada como uma disciplinaenraizada em, e responsvel por, sua histria.

    Contudo, nenhuma dessas teorias "ps-positivistas" foi testadade uma maneira que no fosse a mais perfunctria e superficial. Nadasemelhante aos padres de teste que esses prprios autores sustentamdentro da cincia foi alguma vez satisfeito por qualquer uma de suasteorias sobre a cincia. Aqueles de ns que reclamam uma modesta des-treza em lgica da inferncia emprica mostram-se notavelmente indi-ferentes quanto a submeter as prprias teorias ao escrutnio emprico,embora nossas prprias filosofias da cincia sugiram que sem tal escru-tnio poderamos estar construindo castelos no ar.

    A nosso ver, est na hora de corrigir tal situao. Devoes im-portncia do teste emprico devem dar lugar s particularidades do pr-prio processo de testar. As notas promissrias emitidas nos anos 60 e 70esto hoje vencidas. Ou ns decidimos agora como testar esses modelose procedemos ao teste, ou devemos abandonar qualquer pretenso depossuirmos a mais tnue garantia para acreditar que a cincia do modocomo ns a supomos. Os chaves a propsito do naturalismo em epis-temologia devem agora dar lugar a algo real, ou ento devemos con-fessar qual e exatamente a alternativa de estatuto epistmico (extra-em-prico) que tencionamos para nossa teorizao sobre a cincia. Este en-saio um encaminhamento preliminar na primeira direo.

    Obviamente, o primeiro passo no sentido de trazer a evidnciaemprica para sustentar teorias da cincia identificar as conjecturasexistentes e especficas sobre os processos de mudana cientfica a seremtestadas. Encontramos essas conjecturas nas obras de autores comoKuhn, Lakatos, Laudan e Feyerabend. De modo alternativo, podera-mos tentar testar esses modelos "holisticamente", atravs de uma ava-liao comparativa deles em sua inteireza. A, entretanto, a tarefa tor-na-se ao mesmo tempo muito fcil e muito difcil. Fcil, porque pron-tamente se encontram aspectos de cada um desses modelos que so evi-dentemente falseados por um ou outro episdio cientfico. E difcil,

  • porque foroso tentar arranjar os conceitos e as afirmaes centraisdesses modelos de um modo que seja, a um s tempo, preciso o sufi-ciente para o teste e indiscutivelmente fiel s intenes do autor. Ade-mais, parece-nos altamente implausvel que algum desses modelos,considerado holisticamente, sobreviva a um srio escrutnio. Visto quetodos eles foram concebidos ou a priori para solucionar dificuldadesfilosficas especficas, ou post hoc para adequar-se a um pequeno nmerode exemplos pr-selecionados, no de se imaginar que algum delespudesse contar corretamente toda a histria ou mesmo grandes partesdela (1). Por outro lado, no parece pouco natural esperar que muitostenham apreendido alguma parte significativa da histria da mudanacientfica. A nica maneira de descobrir testar as afirmaes especficasde cada modelo frente aos relatos da cincia passada e presente.

    Sabe-se, de antemo, que a tarefa ser mais difcil do que parece.O escrutnio pormenorizado e comparativo de modelos da natureza ri-vais raramente simples. Por que deveria ser mais simples o escrutniode modelos de segunda ordem dos modelos da natureza? So dificul-dades especficas de nossa tarefa: (a) Os tericos da mudana cientficafreqentemente formulam suas concepes de uma maneira que tornacomplicado identificar precisamente as conseqncias empricas dessasconcepes. Enquanto as teorias cientficas so tipicamente promulga-das numa forma que procura enfatizar suas implicaes empricas e de-monstrar seu carter testvel, por oposio ao especulativo, as teoriasfilosficas raramente so elaboradas com essa motivao. Enquanto acincia tem, em geral, respondido ao declnio da metafsica com a buscade testabilidade, a filosofia tem respondido com a execuo do girolingstico e conselhos de modstia dos objetivos, (b) Os tericos damudana notoriamente adotam uma terminologia especializada e idios-sincrtica que torna difcil estabelecer comparaes entre o que estsendo asseverado e negado por teorias rivais, (a) e (b) so apenas ocomeo de nossos problemas, pois mesmo que se esclaream os com-promissos de cada um desses modelos, ainda permanecero grandesquestes relativas ao planejamento e execuo de seus testes empricos.Comentaremos mais tarde essas questes. Mas at que (a) e (b) sejamtratadas, no ser possvel iniciar o empreendimento de testar e avaliarempiricamente.

    Esta monografia representa uma primeira tentativa de resolveralgumas das dificuldades preliminares. As obras de alguns dos maisfartamente citados tericos da mudana cientfica foram lidas com ointuito de identificar as afirmaes testveis que fazem. Elas foram pro-mulgadas como teses especficas. Quando um texto puder ser lido de

  • vrias maneiras, preferimos o erro das mltiplas leituras, no por cari-dade mas pelo interesse que temos em trabalhar com um vasto campode afirmaes dignas de ateno. Apesar de tentarmos manter a fideli-dade aos textos originais, no entendemos que nossa principal tarefa sejaexegtica. Procuramos, antes, tornar explcitas as afirmaes interessan-tes sobre a mudana cientfica.

    Nosso prximo passo foi um elaborado exerccio de parfrase, natentativa de apresentar os textos numa linguagem (relativamente) livrede pressupostos e idiossincrasias, sem distorcer as intenes originais doautor. Tentamos limitar as perdas inerentes a essa parfrase quelas ne-cessrias para efetuar uma comparao das afirmaes paralelas de teo-rias rivais. Tendo encontrado ou, quando necessrio, forjado um voca-bulrio "neutro", procuramos formular teses ou enunciados detalhadosque representem as afirmaes empricas derivveis a partir dos vriosmodelos. Nossas teses incluem no apenas afirmaes documentveisfeitas explicitamente pelos autores, mas tambm afirmaes com asquais entendemos estarem comprometidos, ainda que esses com-promissos no sejam por eles reconhecidos. (Isso explica a presena dealgumas teses incompatveis atribudas ao mesmo autor.) Nosso pro-psito aqui no foi acusar os autores de inconsistncia, mas, novamente,revelar o maior nmero possvel de compromissos empricos substan-ciais dos modelos existentes. As teses individuais esto acompanhadas dereferncias precisas aos textos apropriados, a fim de que nossas tradu-es possam ser comparadas com os originais.

    Um de nossos principais problemas foi que os escritos dos maio-res tericos da mudana cientfica esto fortemente carregados de ter-mos tcnicos. Em alguns casos, eles tomam a forma de neologismos:paradigma de Kuhn, programa de pesquisa de Lakatos, tradio de pes-quisa de Laudan e teoria global de Feyerabend so apenas alguns dosexemplos mais familiares. Mas h uma abundante coleo de outros: emKuhn, cincia normal, crise, matriz disciplinar, cincia madura, cinciaimatura e quebra-cabeas, em Lakatos, ncleo duro, heursticas positiva enegativa, estratagema antimonstro, cinto de proteo e progresso emprico eterico-, em Laudan, problema conceitual, contextos de aceitao e adoo,anomalia no-refutadora e modelo reticulado. Embora extrados da lin-guagem cotidiana, esses termos freqentemente recebem um sentidoespecial, de modo que seu contedo tencionado depende de uma ela-borao e argumentao de apoio que as teses por ns depuradas nopodem reproduzir completamente.

    O problema da terminologia e

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