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    EBER PIRES MARZULOProfessor Associado do Departamento de Urbanismo e do Pro-grama de Ps-Graduao em Planejamento Urbano e Regional (PROPUR). Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

    LUISA DURN ROCCAProfessora do Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ar-quitetura. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

    [CAPTULO]

    DOS EXPERTS PARTICIPAO CIDAD:INTERVENO URBANA DE QUALIFICAO PATRI-MONIAL E EXPERINCIA PARTICIPATIVA

  • CEGOVCAPACIDADE ESTATAL E DEMOCRACIA[ ]

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    INTRODUO: O CONTEXTO DO TRABALHO EXECUTADO EM JAGUARO1

    A experincia de pesquisa aplicada que se relata a seguir teve como objetivo a definio de diretrizes para a requalificao da Praa Alcides Marques e do Largo das Bandeiras no centro histrico de Jaguaro, espaos pblicos contguos que constituem a origem do traado urbano e que tem mantido sua condio inicial de referencial urbano. Trata-se de um trabalho no qual foi estabelecido um inter-valo acadmico para a anlise e reflexo prvio ao projeto de interveno, incluin-do uma funo de articulao e mediao entre a comunidade, o governo local e o Instituto de Patrimnio Histrico e Artstico Nacional (IPHAN). O mtodo do trabalho apresenta duas caractersticas fundamentais: a primeira, sua abordagem interdisciplinar e a segunda, a participao direta da comunidade organizada na toma de decises sobre a futura interveno que se pretende executar.

    A cidade de Jaguaro teve sua origem num acampamento militar espanhol de finais do sculo XVIII, que foi tomado pelas tropas portuguesas em 1805. a sede do municpio localizado ao sul do Estado do Rio Grande do Sul, na regio do pampa, sobre o rio desse mesmo nome, o qual define a fronteira com o Uruguai. Distante aproximadamente 500 km por via terrestre de Porto Alegre, situada na metade do trajeto entre a capital do Estado sulino e a capital uruguaia de Monte-vidu. Na outra margem do rio, localiza-se a cidade uruguaia de Ro Blanco, unida a Jaguaro por uma imponente ponte construda na dcada de 1930. Alm de seus valores artsticos, a ponte tem o mrito de ser a primeira obra em concreto armado na regio. Como outros aglomerados urbanos da fronteira entre Uruguai e Brasil, o par Ro Blanco-Jaguaro formam uma das cidades gmeas interdependentes e complementares sociocultural e economicamente. (ver Figura 1)

    (1) Os autores expressam seu agradecimento s arquitetas Izabele Colusso e Geisa Rorato, participantes da equipe de trabalho e co-autoras do relatrio final.

  • PARTICIPAO, CONFLITOS E INTERVENES URBANAS: CONTRIBUIES AO HABITAT III

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    A rea total do municpio de 2.054 km, sendo a rea urbana de 10,34 km (0,5% do total); em 2010 o municpio contava com 27.931 habitantes, dos quais 26.105 (93,5%) se situam dentro do permetro urbano. (IBGE, 2010). A baixa densidade populacional da rea rural se deve, fundamentalmente, tradio da propriedade da terra sob a forma de grandes latifndios destinados pecuria extensiva.

    O centro histrico de Jaguaro apresenta uma situao estratgica sobre a margem do rio e corresponde ao ncleo fundacional. Tambm a rea que se desenvolveu e consolidou ao longo do sculo XIX, pelo auge do ciclo do charque e a exportao de carne bovina . Em 2011 foi delimitado e tombado pelo IPHAN com a inscrio nos livros Histrico e das Belas Artes. Dentro da poligonal delimitada para a rea protegida e com as consequentes restries urbanstico-arquitetnicas, situa-se o espao pblico objeto de estudo, que tm uma rea de 20.400 m2. (ver Figura 2)

    Figura 1. Situao do municpio de Jaguaro, fronteira sul do Rio Grande do Sul.

    Fonte: Croquis de L. Durn, 2014.

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    A execuo do trabalho enquadrou-se no PAC das Cidades Histricas (Pro-grama de Acelerao do Crescimento) proposto pelo governo federal, como um conjunto de aes pactuadas com os governos locais e as comunidades e como uma linha de atuao especfica destinada soluo de problemas que direta ou indire-tamente incidem na preservao do patrimnio cultural. Os projetos delineados neste mbito, alm da preservao patrimonial, devem promover o desenvolvi-mento econmico e social, dentro de parmetros de sustentabilidade e procurando aumentar a qualidade de vida dos grupos sociais involucrados.

    A DINMICA DO TRABALHO: DAS TCNICAS DE PARTICIPAO AO MTODO DE INCORPORAO DAS DIRETRIZES PROJETUAIS

    O trabalho foi motivado por um problema imediato: a constatao de um processo de deteriorao do espao pblico sobre o qual se posicionam os monu-

    Figura 2. Delimitao do centro histrico de Jaguaro e praa fundacional dentro da rea urbana.

    Fonte: Croquis de L. Durn, 2014.

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    mentos e alguns dos edifcios mais relevantes da cidade, como a igreja matriz, a Prefeitura, as sedes dos clubes sociais e as casas das famlias tradicionais. Essa de-teriorao de deve, em boa parte, a ocupaes irregulares com comercio informal mediante a instalao permanente e improvisada de traillers ou veculos adaptados para a venda de comidas, presena de vrios tipos de vendedores ambulantes e a falta de ordem e manuteno dos elementos do espao pblico, especialmente veculos publicitrios, mobilirio urbano e vegetao. O comrcio informal que se menciona, apesar de estar em certa forma legitimado por alguns grupos sociais, no gera recursos para a administrao local e considerado pelo IPHAN e o Mi-nistrio Pblico Federal como um precedente negativo de apropriao do pblico e um meio de poluio fsica e visual. (ver Figuras 3 e 4)

    Figura 3. Ocupao irregular com trailers

    Fonte: Equipe CEGOV, 2014.

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    A partir deste fato, a administrao local e o IPHAN contataram a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), atravs do Centro de Estudos Internacionais so-bre Governo (CEGOV), para formar uma equipe interdisciplinar que, durante o segun-do semestre de 2014, elaborou um conjunto de diretrizes de atuao no espao fsico e realizou a mediao com os diferentes atores sociais e agentes institucionais envolvidos.

    Sob a coordenao do Prof. Dr. Eber Pires Marzulo, foram convocados sete dou-tores professores-pesquisadores, quatro mestres estudantes de doutorado, quatro estu-dantes de mestrado e dez de nvel de graduao para formar a equipe que teve um total de 26 acadmicos, alm do apoio de estudantes vinculados ao CEGOV. Cada professor--doutor teve sob sua responsabilidade uma equipe que desenvolveu a pesquisa especfi-ca de sua rea: Arquitetura, Urbanismo e Patrimnio; Geografia; Arqueologia; Histria; Paisagismo; Design e mobilirio urbano; Economia da Cultura e Participao Social.

    A etapa inicial consistiu na coleta e atualizao de dados, execuo de levanta-mentos e trabalho de campo de cada um dos grupos. Em paralelo, estabeleceu-se uma dinmica interdisciplinar a partir de reunies fsicas e online para compartilhar infor-maes e receber contribuies de todos os participantes, do que resultou uma srie de

    Figura 4. Degradao do espao pblico com veculos publicitrios.

    Fonte: Equipe CEGOV, 2014.

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    40 planos de levantamentos e a sistematizao dos registros iconogrficos e fotogrfi-cos. Foram detectados assuntos relacionados a conhecimentos gerados pela interseo entre disciplinas e por processos transdisciplinares, sendo estes os que extrapolavam os mbitos acadmicos especficos, como as manifestaes e saberes populares e as infor-maes derivadas dos processos de participao da comunidade, recolhidas em entre-vistas e audincias pblicas.

    A seguir, foi elaborado o diagnstico mediante a anlise por variveis, entendi-das estas como elementos fsicos e/ou atividades, cujas transformaes ou no, incidem (positiva ou negativamente) na configurao do lugar. Cada equipe analisou as variveis relacionadas com sua rea de conhecimento, assinalando um tratamento a cada uma delas: as que se devem conservar e revisar para seu bom desempenho; as que se devem modificar na sua localizao e/ou em sua configurao; as que se devem remover; e as que se devem acrescentar. A equipe de Arquitetura, Urbanismo e Patrimnio, alm das tarefas especficas de sua rea, teve a responsabilidade de sintetizar, traduzir e espacia-lizar as aes e demandas identificadas pelas outras equipes. Para tal, foram definidas trs alternativas, mediante a combinao das variveis mais relevantes.

    Estas alternativas foram apresentadas, em primeira instncia, superintendn-cia regional do IPHAN e, dias depois, comunidade durante uma audincia pblica. Importante comentar que o local (Biblioteca Pblica do Municpio), data (11/11/2014) e hora (das 19:00 as 22:00h) da reunio foram definidos em funo de garantir a maior participao dos grupos e indivduos interessados, conforme orientao da Prefeitura de Jaguaro. Alm disso, teve-se o cuidado de realizar uma apresentao do trabalho com linguagem singela e material grfico de fcil compreenso para o pblico leigo. Tambm foram feitas duas mediaes especficas: 1) uma visando obter informaes dos atores sociais sobre interrogaes que os pesquisadores gostariam de saber; 2) outra gerindo conflitos de interesses entre os distintos atores sociais e os agentes institucio-nais. Participaram desta atividade mais de 80 pessoas, desde o Prefeito e funcionrios da administrao local, representantes de organizaes civis e coletivos, como parquia, clubes, comerciantes, vizinhana e usurios do espao da Praa e do Largo. Os partici-pantes tinham as mais diferentes situaes e posies socioeconmicas, manifestando suas observaes, crticas, inquietudes e expectativas, as quais foram registradas e, na medida do possvel, atendidas como demandas. As contribuies da comunidade fo-ram sistematizadas e analisadas e em paralelo, e incidiram sobre a definio da srie de princpios norteado