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  • Vol. 5 N2 pgs. 209-223. 2007

    www.pasosonline.org

    PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. ISSN 1695-7121

    Dos ecos do turismo aos ecos da paisagem: anlises das tendncias do ecoturismo e a percepo de suas paisagens

    Fernanda Beraldo Maciel Leme

    Sandro Campos Neves Universidade Estadual de Santa Cruz (Brasil)

    Resumo: O presente artigo prope a reviso das tendncias para a prtica do ecoturismo na bibliografia especializada. Atravs tambm da pesquisa em sites de hotis e operadoras da rea buscou-se comple-mentar e verificar na prtica a concretizao dessas tendncias. Procurou-se atravs da pesquisa de cam-po definir se o ecoturismo poderia ser encarado em si mesmo como uma tendncia ou se seria possvel defini-lo como uma tendncia que possibilita o atendimento de algumas necessidades bsicas do ser humano, como contato com a natureza, sua contemplao e a necessidade do ldico atravs da idia de aventura. Assim, analisou-se a percepo do pblico jovem (maior consumidor de ecoturismo) a respeito das paisagens e as relaes dessas percepes com os temas: ecoturismo, contemplao, lazer e aventura. Palavras chave: Naturaza; Lazer; Contemplao; Ecoturismo; Percepo. Abstract: The present article considers the revision of the trends for the practical one of the ecoturismo in the specialized bibliography. Through also the research in sites of hotels and operators of the area one searched to complement and to verify in the practical a concretion of these trends. It was looked through the field research to define if the ecoturismo could exactly be faced in itself as a trend or if it would be possible define it as a trend that makes possible the attendance of some basic necessities of the human being, as contact with the nature, its contemplation and the necessity of the playful one through the ad-venture idea. Thus, it was analyzed perception of the young public (bigger consumer of ecoturismo) regarding the landscapes and the relations of these perceptions with the subjects: ecoturismo, contempla-tion, leisure and adventure. Keywords: Nature; Leisure; Contemplation; Ecoturismo; Perception.

    Fernanda Beraldo Maciel Leme y Sandro Campos Neves. Mestrandos em Cultura e Turismo pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC)-Ilhus-BA. Bolsistas pela Fundao de Amparo Pesquisa do Estado da Bahia . E-mail: fermaciel@ig.com.br -- E-mail: sandrocamposneves@yahoo.com.br

    https://doi.org/10.25145/j.pasos.2007.05.016

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    Introduo Esse artigo tem como objetivo analisar

    as tendncias referentes a relaes esta-belecidas entre lazer, contemplao e aventura no turismo de natureza.

    Definir tendncias, como defendido por Leony (2002: 122), uma atitude perigo-sa e corajosa ao mesmo tempo, mas fun-damental para basear novos estudos, e elaborar os projetos de planejamentos, ordenamentos e gestes. Percebe-las e defini-las compor um imenso quebra-cabea de peas espalhadas por todos os espaos e em todos tempos.

    Sendo assim, reunir e analisar tendncias apontadas por diversos auto-res como Ruchmann (2002) em relao ao ecoturismo e suas implicaes parece ser importante para se possa avanar na teo-ria e na prtica desse segmento.

    Alm da reviso bibliogrfica a respei-to de tendncias, sero levantados dados primrios da preferncia atual dos jovens por paisagens propcias ao ecoturismo e os sentimentos, expectativas e lembran-as, ou seja, a percepo que essas paisa-gens provocam e acabam por estimular o ecoturismo. Foram entrevistados 100 jovens (entre 18 e 25 anos) da Universi-dade Estadual de Santa Cruz (Ilhus BA). A amostragem foi definida por exausto, sendo que inicialmente seriam entrevistados 60 jovens (1% do universo), mas, devido disponibilidade, pode-se chegar ao nmero de 100 entrevistados. A escolha por jovens universitrios se deveu ao fato de ser um pblico propenso via-gens de ecoturismo (incluindo nelas a prtica de esportes radicais e contem-plao da natureza) como constatado por Ruchmann (2003).

    Posteriormente ser discutido se esta preferncia segue uma tendncia iniciada e imposta pelo mercado ou se trata de uma tendncia natural do ser humano a preferir paisagens com elementos como gua, montanhas, vegetao fasta e que aumenta conforme esse tipo de paisagem no faz parte de seu cotidiano.

    Por fim, levanta-se o questionamento a respeito de como essa tendncia que ser confirmada ou no pela pesquisa de cam-po preliminar e que tem suas razes em

    duas vertentes acima mencionadas, pode ou no contribuir para a sensibilizao dos turistas em relao preservao dos espaos naturais. Esse questionamento parece fundamental j que apesar de ter em sua definio propostas preservacio-nistas, o ecoturismo se apresenta como uma prtica de venda do meio para con-sumidores que no se contentam em con-templar o meio, querendo sim, mais horas de lazer e aventura.

    Tendncias do turismo na ps-modernidade: os paradoxos.

    Como mencionado por Morin e Prigo-

    gine (1996), a ps-modernidade se carac-teriza pelo imediatismo das aes acorri-das devido lgica dominante da rentabi-lidade a curto prazo, fruto das tcnicas financeiras do mercado. Priorizando essas exigncias imediatistas do mercado, os cidados no conseguem visualizar em que prazo suas necessidades sero aten-didas. Muitas vezes prioriza-se o merca-do, pois os investimentos em seus setores tem retorno a curto prazo, j investimen-tos sociais como na educao, so sentidos longo prazo, exigindo muitas vezes ma-nuteno constante. Com as medidas to-madas visando o imediato, o mercado se beneficia gerando crescimento da econo-mia, no entanto, cidados so excludos devido a fatores como a falta de emprego.

    O que ocorre, que os benefcios da chamada ps-modernidade no vieram para todos e sim, apenas para os que do-minam os mercados ou que deles podem participar. Se questes sociais, como em-prego, so colocadas em segundo plano como citado por Morin e Prigogine (Op. Cit.) para os que so excludos dos benef-cios da ps-modernidade, como seria pos-svel pensar em lazer como um fenmeno globalizado?

    No entanto, para autores como Peter Drucker e Domenico de Masi (apud Dias, 2005), a sociedade do sculo XXI seria a sociedade do conhecimento e se caracteri-zaria por amplo acesso informao e maior tempo livre disponvel. Mais uma vez cabe questionar: at mesmo quem est inserido na sociedade da informao e tecnologia, acaba por possuir mais tem-

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    po livre para seu lazer? So inquestionveis as facilidades que

    se encontra nos avanos da ps-modernidade, como internet, meios de transportes mais rpidos, aparelhos do-msticos que poupam tempo. Mas, segun-do Naisbitt (1999), aquilo que promete poupar o tempo das pessoas, acaba sem-pre por roubar mais tempo. Apesar das facilidades geradas pela tecnologia do consumidor, o uso do tempo no foi o be-neficirio. As pessoas acabam, segundo o autor, por no perceber ao certo as escol-has que fazem, tendo a sensao que a vida acionada pela tecnologia; e que talvez por isso cada vez mais almejam, como um sonho, a tranqilidade obtida talvez em uma viagem. E h outro impas-se: nas sociedades em que o tempo livre j maio que o tempo de trabalho, as pes-soas exercem atividades que efetivamente lhes divirtam e contribuam com seu de-senvolvimento pessoal, como questionado por Camargo (1998)? O autor define as sociedades escravas da tecnologia como Zonas Tecnologicamente Intoxicadas e discute o que nelas trabalho e o que virou lazer. Atualmente, nessas zonas, realizar tarefas simples como cozinhar, costurar, cultivar, tudo por si prprio, virou uma grande fonte de lazer para as pessoas saturadas pelas facilidades da alta tecnologia. As tecnologias, se por um lado, tiram o trabalho, tambm esto roubando o sentimento de satisfao das pessoas, que se entusiasmam quando podem fazer ou criar algo. Em ambos os casos, ou seja, para as sociedades que esto excludas dos benefcios da ps-modernidade e, para aquelas que pos-suem (at em excesso) as facilidades ad-vindas desse novo cenrio, o lazer conti-nua sendo um privilgio almejado.

    O lazer atualmente no mais conce-bido como algo pecaminoso, nem o cio como sinnimo de vadiagem ou descom-promisso com a sociedade e consigo pr-prio. A prpria palavra lazer em latim licere significa ser permitido. Atualmen-te a civilizao inventou, como citado por Camargo (Op. Cit.), a cultura do lazer, mas no soube e no quis democratiza-la. As pessoas so incentivadas a toda hora a se permitir, pela mdia e outros meios, a ter mais horas de lazer, e isso nem sem-

    pre possvel ou realizado seguindo essa moda sem grandes realizaes pes-soais. s vezes viajar, se trata apenas de carimbar o passaporte, de puro exibicio-nismo, fazendo desaparecer o ldico numa diviso entre o eu-que-realiza e o eu-que-observa. E, quase sempre, como des-crito por Camargo (Id.), o prazer do eu-que-realiza sacrificado em favor do prazer futuro do eu-que-observa, que vai apenas relatar a faanha. Assim, o foco, s vezes se torna o status, o relato para o outro de se ter condies de poder ter estado e poder ter pagado estar em locais raros e caros.

    Atualmente se percebe que o lazer uma necessidade para o ser humano, pois este um animal complexo, que no se contenta apenas com o atendimento de necessidades como segurana, alimenta-o e moradia. Com o discurso da ps-modernidade que chamou a ateno para essa necessidade e tambm a reforou e, devido tendncia da busca pelo status, tem-se o aumento das viagens como uma das formas de lazer mais praticadas atualmente.

    Segundo Ruschmann (2003), a Orga-nizao Mundial do Turismo (OMT