Documentos em Estado de arquivo familiar: A construção de ... ?· terços e símbolos religiosos,…

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  • ANPUH XXV SIMPSIO NACIONAL DE HISTRIA Fortaleza, 2009.

    Documentos em Estado de arquivo familiar: A construo de arquivos simulados e a Educao Histrica.

    Daniele Gomes dos SantosF*

    RESUMO: O presente artigo relata a construo de arquivos simulados e a Educao Histrica. O trabalho de campo foi realizado na Regio Metropolitana de Curitiba em Araucria numa escola municipal do ensino fundamental. Por meio de levantamento dos conhecimentos prvios dos educandos buscaram-se informaes sobre os hebreus e a religio crist, sendo solicitado todo documento ou objeto guardado em estado de arquivo familiar relacionado a religio, como Bblia, oraes, jornais, teros e smbolos religiosos. O trabalho desenvolveu-se utilizando os documentos e objetos trazidos pelos alunos e o manual didtico adotado pela escola. O projeto apontou um novo olhar em relao a alguns alunos e pode-se perceber tambm que o uso de objetos guardados em estado de arquivo familiar possibilita a articulao entre a historia vivida e a histria percebida, despertando maior interesse dos educandos.

    Palavras chaves: arquivo simulado; religio; conhecimentos prvios.

    ABSTRACT: The current article narrates the construction of simulated archives and the Historic Education. The field work was done in one of Curitibas Metropolitan Region, Araucria, in a public unit of elementary and secondary school. By doing a survey about the previous knowledge of the students, information about the Hebrews and the Christian Religion were searched. The students were asked to bring every document or object which was stored as family archive and which was related to religion, such as the Bible, prayers, church mass journals, strings of beads and religious symbols. The work has been developed using the documents and objects brought by the students and the didactic manual adopted by the school. The project has pointed out a new point of view about some students and it was also possible to realize that the use of some objects stored in the condition of family archive makes it possible the articulation between the history experienced and the history noticed, raising greater students interest.

    Key words: simulated archives; religion; previous knowledge.

    Este trabalho um resultado de uma investigao com uma turma de 5 srie com 30

    alunos da escola Municipal Professora Maria Aparecida Saliba Torres, na regio perifrica de

    Araucria/PR, cujos objetivos era compreender a escrita da Bblia segundo a concepo

    histrica e relacionar os conhecimentos sobre o povo hebreu com os fundamentos da religio

    crist.

    * Professora graduada em geografia pela Universidade Tuiuti do Paran e docente do Ensino Fundamental da Prefeitura de Araucria.

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  • ANPUH XXV SIMPSIO NACIONAL DE HISTRIA Fortaleza, 2009.

    Seguindo a perspectiva da educao histrica, o trabalho iniciou com o levantamento

    de idias prvias, pois segundo SCHMIDT E GARCIA:

    Uma das principais contribuies desse trabalho desenvolvido com estagirios, professores e alunos de 5. A 8. Srie a importncia que passa a ser dada ao que os alunos j sabem, como um dos elementos de referncia e suporte para a tematizao dos contedos curriculares, bem como o recorte a ser-lhes conferido. Ademais, a investigao e a anlise dos conhecimentos prvios tambm servem de ponto de partida para a seleo das fontes, materiais e problematizaes que sero trabalhadas em aula. (SCHMIDT E GARCIA, 2006, p. 23).

    Considerando a importncia dos conhecimentos prvios foram elaboradas cinco

    questes para serem respondidas pelos alunos e tambm foi aplicado uma chuva de idias

    com o tema religio crist.

    1- Voc j ouviu falar do povo hebreu?

    2- O que a Bblia?

    3- Quem escreveu a Bblia?

    4- Voc j leu a Bblia?

    5- Voc tem uma Bblia em casa?

    Chuva de idias:

    Aps aplicao dos conhecimentos prvios foi realizada a tabulao,categorizao e

    anlise, para organizar atividades didticas com os documentos e objetos guardados em estado

    de arquivo familiar, trazidos pelos alunos. Foi solicitado a estes que trouxessem todo tipo de

    material que possussem sobre sua religio, como por exemplo: Bblias, oraes, jornais,

    teros e smbolos religiosos, etc.

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    ReligioCrist

  • ANPUH XXV SIMPSIO NACIONAL DE HISTRIA Fortaleza, 2009.

    Tabelas dos conhecimentos prvios:

    1- Voc j ouviu falar do povo hebreu?

    NMERO %Sim 27 90 %No 3 10 %Total 30 100 %

    2- O que a Bblia?

    NMERO %Livro de Deus 9 30 %Livro de Jesus 6 20 %Livro sagrado 4 13 %Livro 4 13 %Livro que conta como estava organizado o mundo

    3 10 %

    Livro do evangelho 2 7 %Outros 2 7 %Total 30 100 %

    3- Quem escreveu a Bblia?

    NMERO %No sei 17 57 %Jesus 3 10 %Os povos de Deus 3 10 %Outros 7 23 %Total 30 100 %

    4- Voc j leu a Bblia?

    NMERO %Sim 30 100 %No 0 0 %Total 30 100 %

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  • ANPUH XXV SIMPSIO NACIONAL DE HISTRIA Fortaleza, 2009.

    5- Voc tem uma Bblia em casa?

    NMERO %Sim 28 93 %No 2 7 %Total 30 100 %

    Tabela da chuva de idias :

    NMERO %Deus 19 19 %Ceia 11 11 %Igreja 10 10 %Amor 9 9 %Bblia 9 9 %Orao 9 9 %Pastor/padre 7 7 %Paz/alegria/f 10 10 %Louvor 5 5 %Ser catlico 4 4 %Ser crente 3 3 %Outros 4 4 %Total 100 100 %

    Analisando a tabulao dos resultados percebeu-se que 90% dos alunos no sabiam

    quem era o povo hebreu, somente 10% que eram repetentes e j haviam estudado este

    contedo. Observou-se tambm que todos j haviam manuseado a Bblia, porm tinham idias

    diferentes sobre como ela foi escrita, como vemos na tabulao acima. Com a chuva de idias

    nota-se que os educandos relacionaram a religio crist principalmente com figuras como

    Deus e padre, com prticas ser catlico, ser crente, orar e louvar com valores como amor e

    alegria. Com posse dessas informaes passou-se para a fase seguinte do projeto.

    Acreditando que o aluno no deve entender o conhecimento histrico como um dom,

    mas sim como um processo em que ele pode participar e construir a histria, foi iniciado o

    trabalho com os documentos trazidos pelos educandos.

    Os alunos trouxeram bblias, dvd, livros de histrias bblicas e folhetos de diversas

    igrejas. Eles foram divididos em duplas e iniciaram a pesquisa respondendo as seguintes

    questes:

    a. Que tipo de documento voc est pesquisando?

    b. O dono deste documento de qual religio?

    c. Em que ano o documento foi publicado?

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  • ANPUH XXV SIMPSIO NACIONAL DE HISTRIA Fortaleza, 2009.

    d. Neste documento os hebreus so citados? Em qual momento?

    e. Em qual livro da Bblia est a histria de Abrao?

    f. Cite uma passagem sobre Abrao ou povo hebreu:

    Dentre as questes respondidas a de maior conflito foi a letra B, pois os alunos que

    estavam em duplas e eram de religio diferentes no aceitavam colocar em seu trabalho uma

    resposta diferente da sua religio, mesmo estando claro que a pergunta referia-se sobre o dono

    do material e no a opo de religio. No percebiam que, apesar de existir diferenas entre

    as religies, elas eram da mesma matriz crist.

    A prxima fase foi utilizar o manual didtico da escola, realizou-se leitura e discusso

    sobre as narrativas: Os hebreus uma aliana com Deus e a Nao judaica. Voltamos ento

    para a pesquisa somente com a Bblia, comparando como esta retratava a Cisma que foi

    estudada com um manual didtico.

    O trabalho aconteceu novamente em dupla e a sugesto da professora era ler II

    Crnicas capitulo 9 e versculo 11 ou II Crnicas capitulo 9 versculo 36, a dupla deveria

    registrar suas concluses para posteriormente contribuir numa produo de narrativa coletiva.

    O desenvolver desta atividade foi complexa, pois os alunos tinham bblias de diferentes

    pocas e autores, foi preciso o dicionrio para entender algumas palavras e perceber que elas

    tinham o mesmo significado. Durante a produo coletiva alguns alunos comearam a

    perceber que a historia por eles vivida, aprendida em casa ou na igreja tinha relao com o

    conhecimento histrico ensinado na escola, um aluno diz: Agora lembrei que minha av tem

    um livro que fala dessas coisas, j me contou um monte dessas historia. Na outra aula ele

    trouxe o livro e contou uma das histrias para a classe. Esta experincia educativa

    proporcionou um olhar diferente e enriquecedor sobre as narrativas histricas entendendo que

    o passado seja compreendido em relao ao processo de constituio das experincias

    sociais, culturais e polticas, no domnio prprio do conhecimento histrico. Para Rsen:

    [] para a narrativa histrica decisivo, por conseguinte, que sua constituio de sentido se vincule experincia do tempo de maneira que o passado possa torna-se presente no quadro cultural de orientao da vida prtica contempornea. Ao torna-se presente, o passado adquire o estatuto de histria ( RSEN, 2001,p.155)

    Outro fator importante foi que os alunos estavam aos poucos percebendo as

    semelhanas que existiam entre uma bblia catlica e uma bblia evanglica, deixando a

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    rivalidade inicial de lado. Nota-se ento que o desenvolver deste projeto explicita alguns

    princpios da formao da conscincia histrica e critica como diz SCHIMIT E GARCIA:

    Um primeiro princpio fundamental que, ao buscar objetos guardados em estado de arquivo familiar, ao identific-los, analisa-los e interpreta-los, eles se surpreenderam e puderam estabelecer relaes entre a histria por eles vivenciada e outras narrativas histricas, como aquelas presentes nos diferentes indcios do passado. O segundo princpio, de natureza metodolgica, est relacionado ao fato de que os alunos e os professores puderam identificar os indcios (contedos) da experincia humana, depositados na historia da produo e uso dos objetos encontrados e identificados. (SCHIMIT E GARCIA, 2006, p. 13,14)

    A prxima fase foi realizar a seguinte pesquisa com os documentos que os alunos

    trouxeram:

    a) Nos seus documentos h alguma citao de Jesus Cristo?

    b) Cite um trecho:

    c) Segundo o documento pesquisado onde nasceu Jesus Cristo?

    d) Como foi seu nascimento?

    e) Discuta com seus colegas o nascimento de Jesus cristo nos diferentes documentos.

    H mais semelhanas ou diferenas? Explique:

    Neste momento discutimos a vida de Jesus Cristo e sua morte segundo o

    conhecimento dos alunos. Baseado nesta discusso a professora faz algumas provocaes:

    1)Jesus Cristo foi o primeiro homem a morrer crucificado?

    2)Por que Jesus foi perseguido?

    3)Os romanos sempre foram cruis?

    Com a realizao deste trabalho e as discusses em sala de aula, a maioria dos

    educandos deixou claro que entenderam o significado e a relao do povo hebreu com o

    surgimento da religio crist.

    A cada nova aula, os alunos traziam novos objetos religiosos, oraes guardadas pelas

    famlias h geraes que segundo estas rezadas podem realizar milagres, santinhos e tambm

    todo tipo de material produzido pelas igrejas evanglicas. Uma aluna trouxe at o vu que

    utiliza no culto e que alguns colegas at ento faziam brincadeiras degradveis com ela, quase

    no final do projeto ela aceitou a proposta da professora de explicar para toda a turma o

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    significado do vu para ela e sua religio, assim os educandos foram percebendo que os

    objetos e documentos do arquivo simulado so fontes de pesquisa histrica, para MATOZZI:

    O arquivo simulado deve dar acima de tido a percepo que os depsitos arquivsticos tornaram-se os laboratrios indispensveis da pesquisa histrica e da reconstruo do conhecimento do passado; uma vez que a coleo dos documentos do arquivo no o resultado de uma casualidade ou da opinio do professor, mas que automaticamente o resultado da atividade de uma administrao pblica, de uma entidade religiosa, de uma empresa industrial ou comercial, de uma famlia ou pessoal. (MATOZZI ,2004, p.8)

    Havia uma grande variedade de material, pensando em como aproveitar e dar

    significado a todo esse material que os educandos traziam e, para fechar o projeto foi

    realizado uma linha do tempo para montar em ordem cronolgica o arquivo simulado com

    os documentos trazido pelos alunos.

    A metodologia desta atividade ocorreu da seguinte forma, a professora registrou no

    quadro todo os objetos que os alunos trouxeram e pediu para que de acordo com sua religio

    pesquisassem a data de origem do material, como os educandos evanglicos tinham menos

    smbolos que os catlicos, estes ento pesquisavam a data de origem de sua igreja e escolhiam

    um dos objetos para represent-la, depois de montado o arquivo simulado os alunos

    produziram uma narrativa sobre os hebreus e a religio crist observando o arquivo montado.

    Observou-se nas narrativas o avano dos alunos em vrios aspectos, alunos que eram

    tmidos ou indisciplinados participaram bastante, e a maioria relatou que pela primeira vez

    estava gostando das aulas de historia e nota-se tambm que os objetivos do projeto foram

    atingidos. Vejamos um trecho de uma narrativa escrita por uma aluna ...quem escreveu a

    bblia foi os apstolos, os seguidores de Jesus, que no se utiliza um jeito s de ensinar as

    crianas sobre Jesus. Outros alunos ressaltaram que gostaram de aprender mais sobre outras

    religies e at corrigiam-se quando diziam que trouxeram um folheto, reconheceram que todo

    aquele material era fonte histria, documento em estado de arquivo familiar e que possui uma

    importncia histrica atingindo o terceiro principio da conscincia histrica como afirma

    SCHIMIT E GARCIA:

    Um terceiro principio deriva do entendimento de que a experincia humana apreendida, nessa perspectiva indiciria, no possui apenas uma dimenso localizada histrias familiares mas identifica-se e articula-se com as experincias de outras pessoas, de outras pocas, podendo ser constitutivas de diferentes narrativas histricas, inclusive aquelas produzidas por alunos e professores. (SCHIMIT E GARCIA, 2006 p. 14 )

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    A metodologia utilizada neste projeto permitiu a partilha de experincias, a troca de

    opinies, anlise e reflexo individual/grupo de alunos e professor. Houve tambm a

    possibilidade de articulao de diferentes temporalidades e relaes entre presente, passado e

    futuro. Os alunos perceberam que suas idias o seu conhecimento, bem como o os

    documentos guardados em estado de arquivo familiar importantssimo para o ensino de

    Histria, que as narrativas histricas tm relao com a histria por eles vivenciada.

    BIBLIOGRAFIABARCA, Isabel. Para uma educao de qualidade: actas das Quartas Jornadas Internacionais de Educao Histricas. Braga: Centro de Investigao em Educao (CIED) Instituto de Educao e Psicologia/ Universidade do Minho 2004.

    MATTOZZI, Ivo. Arquivos simulados e didtica da pesquisa histrica: para um sistema educacional integrado entre arquivos e escolas. 2004. Bastia Umbra.

    SCHMIDT, M. A. A formao modo professor de Histria e o cotidiano da sal de aula. In: BITTENCOUT C. (org.) O saber histrico na sala de aula. SP, Contexto, 2002.

    SCHMIDT, Maria Auxiliadora, GARCIA, Tnia Maria F. Braga. Conscincia histrica e crtica em aulas de Histria. Cadernos Paulo Freire. Fortaleza: Secretaria da Cultura do Estado do Cear, 2006. volume IV.

    SCHMIDT, Maria Auxiliadora, GARCIA, Tnia Maria F. Braga. Pesquisas em Educao Histricas: algumas experincias. Educar em Revista, Curitiba, Especial, p. 11-31, 2006. Editora UFPR.

    RSSEN, JORN. EL dessarrollo de la competncia narrativa en el aprendizaje histrico. Una hiptesis ontogentica relativa a la conciencia moral. Trad. Silvia Finocchio. Propuesta Educativa, Buenos aires, n.7, out. 1992.

    RSSEN, JORN. Razo histrica: os fundamentos da cincia histrica. Braslia: Editora Universidade de Braslia, 2001.

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