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<ul><li><p>Documento 1: Jonathan Barnes, Os filsofos pr-socrticos (Introduo) </p><p>1. Os Primeiros Filsofos </p><p>Segundo a tradio, a filosofia grega teve incio em 585 a.C. e chegou ao fim em 529 d.C. </p><p>Originou-se quando Tales de Mileto, o primeiro filsofo grego, previu um eclipse do Sol. </p><p>Terminou quando o imperador cristo Justiniano proibiu o ensino da filosofia pag na </p><p>Universidade de Atenas. Tal tradio uma simplificao: os gregos cultivavam pensamentos </p><p>filosficos desde antes de 585 a.C, e o dito de Justiniano, qualquer que tenha sido seu </p><p>propsito, no imps um fim abrupto filosofia paga. Todavia, as datas tradicionais </p><p>mantm-se como linhas demarcatrias convenientes e memorizveis trajetria da filosofia </p><p>antiga. </p><p>Os mil anos compreendidos nessa trajetria dividem-se em trs perodos de extenso distinta. </p><p>De incio, temos os anos verdes, que vo de 585 a.C. at, aproximadamente, 400 a.C, quando </p><p>uma sucesso de indivduos inexperientes e geniais estabeleceu o escopo e determinou os </p><p>problemas da filosofia, comeando a desenvolver-lhe a equipagem conceituai e a montar sua </p><p>estrutura. Seguiu-se, ento, o perodo das escolas - de Plato e Aristteles, dos epicuris-tas, </p><p>dos esticos e dos cticos -, no qual elaborados sistemas de pensamento foram formulados e </p><p>submetidos a um infatigvel exerccio de crtica. Esse segundo perodo chegou ao fim em </p><p>aproximadamente 100 a.C. O extenso terceiro perodo foi marcado, sobretudo, pela erudio e </p><p>pelo sin-cretismo: os pensadores posteriores estudaram com afinco os escritos de seus </p><p>predecessores, produziram comentrios e interpretaes, e procuraram extrair um sistema </p><p>coerente e unificado de pensamento que inclusse tudo o que havia de melhor nas antigas </p><p>doutrinas das escolas. </p><p>O presente livro est voltado para o primeiro dos trs perodos, para os primrdios da </p><p>filosofia grega. Esse perodo recebe normalmente a denominao de fase "pr-socrtica" do </p><p>pensamento helnico. O epteto peca por impreciso, uma vez que Scrates nasceu em 470 </p><p>a.C. e morreu em 399, de modo que muitos dos filsofos "pr-socrticos" foram, em verdade, </p><p>contemporneos de Scrates. No entanto, o rtulo est profundamente arraigado e seria intil </p><p>tentar rejeit-lo. </p><p>O perodo pr-socrtico propriamente dito divide-se em trs partes. Houve, primeiro, um </p><p>sculo de pensamento arrojado e criativo. Em seguida, as primeiras incurses foram </p></li><li><p>submetidas a uma rigorosa reviso crtica e lgica: o alvorecer que haviam prenunciado </p><p>parecia um falso alvorecer, suas descobertas, quimricas, e suas esperanas, ilusrias. Por </p><p>fim, houve alguns anos de retrao e consolidao, nos quais pensadores das mais diversas </p><p>faces procuraram, cada qual sua maneira, reconciliar as esperanas dos primeiros </p><p>pensadores com o rigor crtico de seus sucessores. </p><p>Tais esquematismos impem uma fixidez a algo que, na realidade, era fluido e irregular. </p><p>Os prprios gregos, quando se puseram a escrever a histria de seu pensamento, foram ainda </p><p>mais esquemticos. Gostavam de falar sobre "escolas" e "sucesses", em que cada pensador </p><p>tinha um mestre e um discpulo, e cada filosofia um lugar estabelecido. Essas construes, por </p><p>mais artificiais que sejam, fornecem uma estrutura intelectual, sem a qual a histria do pensa-</p><p>mento no pode ser prontamente compreendida. Ademais, no mnimo aproximadamente </p><p>verdade que os pr-socrticos formam um grupo homogneo, que diferem em aspectos </p><p>fundamentais tanto de seus predecessores no-filosficos como de seus grandes sucessores, e </p><p>que possvel identificar, no espao de tempo coberto pelo vio de sua atividade, trs </p><p>perodos principais. </p><p>Abstraes assim despidas de sustentao objetiva pedem a proteo de uma vestimenta </p><p>histrica aceitvel. Quando pensamos na Grcia, habitualmente consideramos primeiro </p><p>Atenas, presumindo que a cidade de Pricles e do Par-tenon, de Scrates e Aristfanes era o </p><p>centro e o foco do mundo grego, sob o ponto de vista artstico, intelectual e poltico. Na </p><p>verdade, nenhum dos filsofos mais antigos era ateniense. A filosofia floresceu inicialmente </p><p>na costa oriental do Egeu, em pequenas cidades-Estado independentes que na poca no </p><p>mantinham vnculo poltico algum com Atenas. Os Estados gregos da Jnia, na faixa costeira </p><p>sudoeste da sia Menor (atual Turquia), viviam dilacerados por conflitos internos e </p><p>ameaados por inimigos externos. Ainda assim, por um perodo de um sculo e meio, de cer-</p><p>ca de 650 a 500 a.C, assistiram a uma notvel florescncia: desenvolveram-se </p><p>economicamente, vicejaram politicamente, ao mesmo tempo em que desabrocharam na arte e </p><p>na literatura, produzindo uma arquitetura majestosa, uma escultura requintada, poemas de </p><p>qualidade e elegantes pinturas em vasos. </p><p>Foi em Mileto, no sul da Jnia, que nasceu a filosofia grega. Os milsios eram um povo </p><p>singularmente vigoroso. No mbito interno, sua poltica era turbulenta estavam fa-</p><p>miliarizados com dissidncias, conflitos e revolues sangrentas. No mbito externo, tiveram </p><p>por vizinhos dois poderosos imprios, primeiro os ldios, com quem mantiveram uma </p><p>incmoda simbiose, e, aps 546, os persas, por quem seriam ulteriormente destrudos, em </p><p>494. Apesar dessas circunstncias pouco favorveis, os milsios eram comercialmente </p></li><li><p>infatigveis. Negociaram no apenas com os imprios do Oriente, como tambm com o </p><p>Egito, estabelecendo um emprio comercial em Nucratis, no delta do Nilo. Alm disso, </p><p>enviaram numerosos colonos para que se fixassem na Trcia, junto ao Bsforo e ao longo da </p><p>costa do mar Negro; tambm estabeleceram vnculos com Sbaris, ao sul da Itlia. Foi nessa </p><p>prspera municipalidade que Tales, Anaximandro e Anaxmenes, os trs primeiros filsofos, </p><p>viveram e trabalharam. </p><p>O momento e a extenso em que a obra desses homens tornou-se conhecida so coisas </p><p>que no podemos precisar. No entanto, a atividade intelectual da qual foram pioneiros no </p><p>tardou em ganhar difuso. Herclito era originrio da cidade de feso, um prspero Estado </p><p>algumas milhas ao norte de Mileto. Xenfanes era da vizinha Clofon. Pitgo-ras nasceu na </p><p>ilha de Samos, situada a pouca distncia do continente, a meio-caminho entre feso e </p><p>Clofon. Mais tarde viria Anaxgoras de Clazmenas, Melisso de Samos e Demcrito de </p><p>Abdera, no nordeste. </p><p>A regio ocidental tambm deu sua contribuio. Pi-tgoras emigrou de Samos para a </p><p>colnia grega de Crotona, no sul da Itlia. Alcmeo era nativo de Crotona. Parmnides e </p><p>Zeno nasceram em Elia, na costa ocidental da Itlia. Empdocles veio de Agrigento, na </p><p>Siclia. </p><p>Tal diversidade geogrfica no significou que os pr-socrticos tenham trabalhado de </p><p>maneira independente, ignorando o pensamento uns dos outros. Embora as comunicaes </p><p>fossem vagarosas e, com freqncia, arriscadas, muitos dos primeiros filsofos eram itinerantes. </p><p>Pitgoras, conforme mencionei, migrou do leste para o oeste. Tanto Xenfanes como </p><p>Empdocles contam-nos que costumavam viajar. Zeno e Parmnides, pressupunha Plato, </p><p>visitaram Atenas. Anaxgoras passou boa parte de sua vida em Atenas antes de se retirar para </p><p>o exlio em Lmpsaco, na Tra-de. bem verdade que so poucas as evidncias diretas de um </p><p>dilogo intelectual frutfero entre os diferentes filsofos, e as influncias e interaes </p><p>freqentemente aceitas pelos estudiosos so especulativas. Contudo, as especulaes so </p><p>plausveis. Isso porque boa parte da histria do pensamento pr-socrtico torna-se mais </p><p>inteligvel quando se adota a hiptese de um contato mtuo. </p><p>H um caso particular digno de ser mencionado. Melis-so era de Samos, no leste do Egeu, </p><p>e Parmnides de Elia, no oeste da Itlia. A atividade de Melisso se deu, no mximo, por uma </p><p>dcada, aproximadamente, aps Parmnides. No entanto, bastante seguro que Melisso </p><p>conhecesse intimamente o pensamento de Parmnides: talvez tenha conhecido o prprio </p><p>Parmnides, ou descoberto uma cpia de sua obra, ou travado contato com ela atravs de </p><p>alguma fonte terciria. No existiu uma "escola" eletica: Parmnides, Zeno e Melisso no </p></li><li><p>se encontravam regularmente para discutir suas idias, no davam palestras, no tinham alu-</p><p>nos nem promoviam seminrios. No obstante, no trabalhavam nem pensavam em </p><p>isolamento. </p><p>At este ponto, referi-me aos pr-socrticos como "filsofos" ou "pensadores". Chegou o </p><p>momento de adotar uma preciso maior. "Filosofia" uma palavra grega cujo significado </p><p>etimolgico "amor sabedoria". Os gregos costumavam empregar o termo em um sentido </p><p>amplo, abraando boa parte do que hoje consideramos como as cincias e as artes liberais. Os </p><p>filsofos das escolas, no segundo perodo, habitualmente dividiam seu campo de estudos em </p><p>trs partes: lgica, tica e fsica. A lgica inclua o estudo da linguagem e do significado, bem </p><p>como o estudo do pensamento e da argumentao. A tica inclua teoria moral e poltica, mas </p><p>tambm compreendia temas que, na atualidade, se enquadrariam no domnio da sociologia e </p><p>da etnografia. A fsica era definida de maneira bastante abrangente: tratava-se do estudo da </p><p>natureza e de todos os fenmenos do mundo natural. </p><p>No mbito dessa distino trplice posterior, os pr-socrticos eram considerados </p><p>basicamente como "fsicos". Existem partes de cunho tico e lgico em alguns de seus </p><p>trabalhos, mas a preocupao fundamental deles era a fsica: Aristteles denomina-os </p><p>physikoi, e sua atividade, phy-siologia; eram "estudantes da natureza", e seu campo de </p><p>interesse, o "estudo da natureza". Para o leitor moderno, isso poder parecer mais aparentado </p><p> cincia do que filosofia - de fato, nosso moderno campo da fsica deriva seu contedo, no </p><p>menos que seu nome, da physikoi grega. Contudo, a moderna distino entre cincia emprica </p><p>e filosofia especulativa no se aplica de pronto fase primitiva do pensamento ocidental, </p><p>quando as especializaes acadmicas e as fronteiras intelectuais no haviam ainda sido </p><p>concebidas. </p><p>Tales foi, portanto, o primeiro physicos, o primeiro "estudante da natureza" ou "filsofo </p><p>natural". As obras por escrito dos primeiros pensadores freqentemente traziam o ttulo Sobre </p><p>a Natureza (Peri Physeos); e, embora tais ttulos tenham sido atribudos no pelos autores, </p><p>mas por estudiosos posteriores, eram amplamente adequados. Pois, de modo geral, o empenho </p><p>dos primeiros filsofos era no sentido de revelar toda a verdade "sobre a natureza": descrever, </p><p>organizar e explicar o universo e todos os seus componentes. Tal iniciativa envolvia, em uma </p><p>extremidade da escala, observaes detalhadas de numerosos fenmenos naturais - os eclipses </p><p>e os movimentos dos corpos celestes, o trovo, a chuva, o granizo, o vento e os fenmenos </p><p>"meteorolgicos" em geral, os minerais, as plantas, os animais sua procria-o, </p><p>crescimento, alimentao e morte - e, por fim, o homem - os aspectos biolgicos, </p></li><li><p>psicolgicos, sociais, polticos, culturais e intelectuais da vida humana. Poderamos, </p><p>jus-tificadamente, classificar tudo isso como "cincia"; e deveramos considerar os </p><p>pr-socrticos como os primeiros investigadores de questes que se tornariam objetos de </p><p>estudo especficos da astronomia, da fsica, da qumica, da zoologia, da botnica, da </p><p>psicologia etc. Na outra extremidade da escala, a iniciativa pr-socrtica envolvia indagaes </p><p>muito mais amplas e obviamente mais "filosficas": existiria um incio do universo? Em caso </p><p>afirmativo, como teria sido esse incio? Quais seus componentes bsicos? Por que ele se move </p><p>e se desenvolve da maneira que o faz? Qual, em termos mais genricos, a natureza e a </p><p>unidade do universo? E o que podemos esperar conhecer a respeito dele? </p><p>Nem todos os pr-socrticos fizeram todas essas perguntas e nem todos escreveram em </p><p>termos to abrangentes "sobre a natureza". Todos, porm, escreveram inseridos nessa </p><p>estrutura geral, e todos so igualmente dignos do ttulo honorfico de physicos. Se hoje </p><p>deveramos denomin-los filsofos ou cientistas, ou ambos, uma questo totalmente </p><p>irrelevante. </p><p>A sucesso dos physikoi que compem os heris deste livro no esgota o universo dos </p><p>aventureiros intelectuais da Grcia antiga - na verdade, no foram os nicos pensadores a se </p><p>debruar sobre a physiologia. Os poetas didticos do perodo por vezes mergulhavam na </p><p>reflexo filosfica. Os dramaturgos do sculo V indicam um interesse disseminado por </p><p>questes filosficas: o trgico Eurpides demonstra uma aguda percepo da especulao </p><p>pr-socrtica, enquanto o comedigrafo Aristfanes ir parodiar conceitos filosficos e </p><p>cientficos. Os grandes historiadores, Her-doto e Tucdides, so influenciados pelo </p><p>pensamento filosfico. Muitos dentre os primeiros escritos mdicos associados ao nome de </p><p>Hipcrates so totalmente pr-socrticos em suas preocupaes. Na segunda metade do </p><p>sculo V, os chamados "sofistas" - homens como Protgoras, Grgias e Hpias -, que </p><p>professavam ensinar a retrica, a virtude e o xito prtico, estiveram intimamente vinculados </p><p> tradio filosfica. Assim, uma histria da physiologia pr-socrtica no uma histria da </p><p>origem do pensamento grego em sua totalidade. No obstante, como percebeu Aristteles, os </p><p>pr-socrticos so os mais importantes e influentes representantes do perodo primitivo: </p><p>foram eles que deram incio filosofia, que prepararam o terreno para Plato e para as gran-</p><p>des escolas filosficas das geraes subseqentes. </p><p>A filosofia pr-socrtica no passou a existir ex nihilo. As relaes comerciais e polticas </p><p>entre a Jnia e o Oriente Prximo trouxeram em seu bojo vnculos culturais. Nem todos os </p><p>observadores aprovavam tais ligaes. </p></li><li><p>Os habitantes de Clofon, segundo Filarco, eram originalmente praticantes de um modo </p><p>de vida austero, porm, ao travarem laos de amizade e aliana com os ldios, voltaram-se </p><p>para a luxria, deixando crescer os cabelos e enfeitando-os com ornamentos de ouro. </p><p>Xenfanes relata o mesmo: </p><p>Aprendendo imprestveis delicadezas dos ldios, enquanto livres do odioso </p><p>despotismo, iam praa da cidade envergando tnicas purpreas, em nmero total </p><p>no inferior a um milhar, arrogantes, exibindo elegantes penteados, encharcados no </p><p>perfume de ungentos artificiais. </p><p>(Ateneu, Deipnosofistas, 526A) </p><p>Contudo, a efeminao no foi a nica contribuio ldia. Existem claros indcios de </p><p>contato entre a cermica e a escultura jnias, por um lado, e a arte ldia, por outro. A </p><p>linguagem ldia exerceu alguma influncia sobre a poesia jnia. E os estudiosos, tanto os </p><p>modernos como os antigos, supem haver existido, igualmente, vnculos entre o pensamento </p><p>grego primitivo e os interesses intelectuais dos imprios do Oriente. </p><p>A avanada astronomia dos babilnios, por exemplo, certamente deve ter-se feito </p><p>conhecer nas costas da sia Menor, estimulando os jnios a empreenderem seu prprio </p><p>estudo da astronomia. O conhecimento do eclipse solar por Tales, em 585 a.C, deve ter </p><p>derivado de conhecimentos de origem babilnia. Outras partes, mais especulativas, do pen-</p><p>samento pr-socrtico encontram certos tipos de paralelo em textos orientais. Alm disso, </p><p>havia o contato com o Egito. At mesmo os gregos julgariam, mais tarde, que sua filosofia </p><p>devia muito terra dos faras. Mas, embora dificilmente se possa negar a existncia de </p><p>alguma fecundao oriental, os paralelos comprovados so surpreendentemente escassos e </p><p>imprecisos. Mais importante ainda: muitos dos traos mais caractersticos e significativos do </p><p>pensamento grego primitivo no possui qualquer antecedente conhecido nas culturas </p><p>orientais. </p><p>Os...</p></li></ul>