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  • Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicao XXX Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao Santos 29 de agosto a 2 de setembro de 2007

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    Documento padro para submisso de trabalhos ao XXX Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao

    O Mercado Fonogrfico Nacional e a Produo de Msica Erudita1

    Marcos Jlio Sergl2 Eduardo Vicente3 Universidade So Judas ECA/USP Resumo O presente artigo visa oferecer um breve olhar acerca do segmento da msica erudita no contexto da indstria fonogrfica nacional. Para tanto, apresentado inicialmente um breve histrico dessa produo, cobrindo o perodo que vai do final dos anos 50 at a dcada de 1980: perodo de consolidao da indstria no pas, em que vrias aes no setor erudito so desenvolvidas. A seguir, buscamos apresentar um breve relato acerca do cenrio da indstria que se desenvolve a partir da dcada de 1990, entendendo que esse perodo demarca uma nova fase: baseada no formato CD e nas facilidades de produo inclusive autnoma oferecidas pelas tecnologias digitais. Segue-se, ento, a apresentao do cenrio atual da produo erudita, bem como algumas reflexes acerca dos impasses e alternativas para o segmento. Palavras-chave Msica Erudita; Indstria Fonogrfica; Msica Brasileira; Indstria Cultural. Corpo do trabalho

    Esse artigo sobre o desenvolvimento da produo de msica erudita dentro do

    mercado fonogrfico nacional. Inicialmente, buscaremos apresentar um relato histrico

    sobre o desenvolvimento dessa produo no pas desde o seu incio at a dcada de

    1980 tentando, sempre que possvel, situ-la dentro do desenvolvimento da indstria do

    disco como um todo. Em seguida, iremos nos voltar para o cenrio da indstria

    fonogrfica nacional desenvolvido ao longo das duas ltimas dcadas. Entendemos que

    ele apresenta caractersticas que devem ser enfatizadas antes da anlise que se segue,

    sobre a produo de msica erudita dentro do cenrio atual. Na ltima parte do texto

    tentamos estabelecer alguns comentrios sobre as tendncias que nos parecem

    1 Trabalho apresentado no VII Encontro dos Ncleos de Pesquisa em Comunicao NP Mdia Sonora 2 Doutor pela Escola de Comunicaes e Artes da Universidade de So Paulo, professor nos Cursos de Comunicao Social Radialismo e Educao Artstica e Lder do Ncleo de Pesquisa em Comunicao: Cdigos e Linguagens: Crtica, Produo e Memria, da Universidade So Judas Tadeu. Professor no curso de ps-graduao em msica da Unesp. mjsergl@osite.com.br 3 Graduado em Msica Popular e Mestre em Sociologia pela Unicamp. Doutor em Comunicao pela ECA/USP e Professor Efetivo de Rdio no Curso Superior do Audiovisual dessa mesma instituio. Coordena, juntamente com o Prof. Dr. Angelo Piovesan, as atividades do Gaudio Grupo de Estudos e Desenvolvimento do udio. Divide suas atividades de pesquisa entre as reas da Indstria Fonogrfica e da Linguagem e Produo Radiofnica. eduvicente@usp.br

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    dominantes e na medida em que isso seja possvel dentro de um cenrio to

    conturbado apresentaremos algumas perspectivas para o futuro dessa produo.

    Queramos agradecer s inmeras pessoas que entrevistamos na elaborao

    desse trabalho, entendendo tambm que se trata do passo inicial dentro de um projeto de

    investigao maior que, certamente, ainda demandar uma pesquisa mais abrangente da

    nossa parte.

    Histrico

    O surgimento das sociedades e clubes musicais na segunda metade do sculo

    XIX, aliado ao hbito das serenatas e dos saraus importados da Europa pelos filhos dos

    fazendeiros que vo a Paris e Coimbra realizar seus estudos superiores, amplia o pblico

    receptor de msica erudita no Brasil. Entidades como o Club Mozart (1867), o Club

    Beethoven (1882) e a Sociedade de Concertos Clssicos (1883), no Rio de Janeiro, e o

    Club Haydn(1883), em So Paulo, ampliam o repertrio executado e trazem virtuoses

    para essas cidades. Ainda em 1883, o pblico carioca presencia a montagem da pera

    Tannhuser, de Richard Wagner, ampliando o leque de opes de escuta.

    A constncia de concertos, possibilitada pelas sociedades, cria hbitos de escuta

    e, quando surgem os primeiros aparelhos reprodutores no Brasil, a procura por rias de

    peras italianas, em particular interpretadas por Caruso, grande. Vale dizer que o

    consumo de msica erudita especialmente a produo operstica foi uma tendncia

    mais ou menos geral do incio da produo fonogrfica mundial. J em 1901, Fred

    Gaisberg percorria a Europa, a servio da Victor Machine Company, com o objetivo de

    gravar os cantores de maior destaque das principais companhias de pera daquele

    continente. Assim, a srie Red Label, top line da Victor, inclua gravaes de canes

    e rias em todas as lnguas europias e em muitas lnguas orientais, bem como

    gravaes da pera Imperial Russa (GAROFALO, 1993: 22)

    O surgimento e a manuteno do rdio no Brasil, na segunda dcada do sculo

    XX, so possveis graas elite das grandes cidades, que mantm emissoras na

    formatao de sociedades, que pagam para escutar concertos. Os primeiros momentos

    de nosso rdio esto calcados predominantemente na escuta de msica erudita. Vale

    lembrar que a Sociedade Rdio Educadora Paulista, primeira emissora de So Paulo,

    criada em novembro de 1923 possua, j em 1928, uma orquestra com perto de 25

    integrantes, a maioria membro da Sociedade de Concertos Sinfnicos ou do Teatro

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    Municipal (GUERRINI Jr, 2005: 11-12). A Rdio Gazeta, surgida a partir da compra da

    emissora por Csper Libero, em 1943, manteria essa tradio, ampliando

    comsideravelmente as propores da orquestra e realizando grandes apresentaes ao

    vivo de peras e msica de concerto4.

    Ainda no tnhamos, porm, uma indstria de gravao de msica erudita

    brasileira. Embora Frederico Figner, o pioneiro da indstria no pas, tenha fundado a

    mitolgica Casa Edison, no Rio de Janeiro, em 1897, passando rapidamente a atuar na

    gravao comercial de msica, seu foco foi a msica popular, sendo seus primeiros

    contratados cantores de serenata Antnio da Costa Moreira, o Cadete, e Manuel Pedro

    dos Santos, o Baiano.

    Por conta disso, compositores como Heitor Villa-Lobos gravaram suas

    composies em selos estrangeiros como a RCA e a EMI, numa situao que iria

    perdurar por toda a primeira metade do sculo.

    a partir do surgimento da Gravadora Festa, fundada no Rio de Janeiro em

    1956, pelo jornalista Irineu Garcia, que esse cenrio comea a mudar. Garcia cria a

    gravadora a partir de uma perspectiva de registro e valorizao da cultura brasileira,

    estando entre seus feitos a gravao de obras fundamentais da Bossa Nova (como o

    lbum Cano do Amor Demais, de Elizete Cardoso), da poesia nacional e

    internacional5 e, claro, da msica erudita.

    Nessa ltima rea a Festa, durante a dcada de 1960, produz discos de

    importantes compositores da msica erudita brasileira, com ttulos inditos, distribudos

    pela Companhia Brasileira de Discos (CBD). Dentre os ttulos destacamos: a Missa de

    Rquiem, do Padre Jos Maurcio Nunes Garcia, com interpretao da Orquestra

    Sinfnica Brasileira e coro misto da Associao de Canto Coral do Rio de Janeiro;

    Antologia da Msica Erudita Brasileira, obras para piano gravadas por Arnaldo Estrela;

    Sonatas de Cludio Santoro e Camargo Guarnieri, interpretadas por Oscar Borgeth,

    violino, e Ilara Gomes Grosso, piano; Heitor Villa-Lobos, obra diversa; Do tempo do

    Imprio; interpretada pelo Collegium Musicum do Rio de Janeiro; Francisco Mignone,

    obra diversa interpretada pela Orquestra Sinfnica Brasileira, regida pelo autor; Sinfonia

    n 5, de Cludio Santoro, em performance da Orquestra Sinfnica Brasileira, regida pelo

    4 Consultar, a esse respeito, o texto de Irineu Guerrini Jr citado na bibliografia desse trabalho. 5 O disco Cano do Amor Demais de janeiro de 1958 e, alm de apresentar algumas das primeiras composies de Tom Jobim e Vincius de Moraes, conta com a participao de Joo Gilberto. No campo do registro fonogrfico de poesias, que eram normalmente interpretadas por seus prprios autores, foram registradas obras de Carlos Drummond, Manoel Bandeira, Pablo Neruda e Rafael Alberti, entre muitos outros.

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    autor; Sonatas de Villa-Lobos e Radams Gnattali, Iber Gomes Grosso, violoncelo, e

    Radams Gnattali, piano, em 1968; Camargo Guarnieri, obras diversas interpretadas

    pela Orquestra Sinfnica Brasileira e Coro Feminino da Associao de Canto Coral do

    Rio de Janeiro; Alexandre Levy: Sute Brasileira, executada pela Orquestra Sinfnica

    Brasileira; Radams Gnattali: Concertos, interpretao da Orquestra Sinfnica

    Brasileira, regida por Radams Gnattali; Sinfonia n 6, de Cludio Santoro, Orquestra

    Sinfnica Brasileira, regida pelo autor; Sinfonia em sol menor, Alberto Nepomuceno,

    interpretada pela Orquestra Sinfnica Brasileira, sob regncia de Edoardo de Guarnieri;

    Sute Brasileira, de Alberto Nepomuceno, em execuo da Orquestra Sinfnica

    Brasileira, regida por Souza Lima, em 1969, entre muitas gravaes.

    Pela produo da gravadora Festa nos anos de 1968 e 1969, podemos deduzir

    que houve uma conscientizao acerca do registro da produo musical da orquestra

    sinfnica brasileira mais importante do momento, em performances de obras

    fundamentais de compositores brasileiros conceituados. Com esta opo de gravar obras

    significativas do repertrio erudito brasileiro, a gravadora Festa mostrou ser pioneira no

    registro da memria cultural brasileira. Em 1970, a Festa iniciou uma srie especial de

    gravaes de obras histricas. Nesse primeiro volume foi registrada A Missa a 8 vozes e

    instrumentos, de Andr da Silva Gomes, pela Orquestra Cordas de So Paulo e o

    Coro Vozes de So Paulo, sob a regncia de Jlio Medaglia.

    Sempre enaltecendo a iniciativa de Irineu Garcia na criao do selo, convm

    observar que o seu surgimento demarca o incio de um perodo de grande efervescncia

    cultural em que, no dizer de Renato Ortiz, constitua-se no pas um pblico consumidor

    que sem se transformar em massa, era constitudo pelas camadas mais escolarizadas

    da sociedade (Ortiz, 1994: 102). Essa situao iria se reverter paulatinamente ao longo

    dos anos 1960 e, especialmente, da dcada seguinte. De qualquer modo, o constante

    crescimento do mercado fonogrfico (que no apresentou nenhum ndice negativo de

    crescimento entre 1966 ano inicial da estatstica fornecida pela Associao Brasileira

    dos Produtores de Discos e 1979) permitiu por algum tempo no apenas a manuteno

    de iniciativas como a de Irineu, mas de importantes investimentos em cultura por parte

    de organizaes oficiais. a nova onda de organizao e interveno oficial na cultura,

    sustentada pela ditadura militar instalada a partir de 1964, associada crescente

    presena do capital internacional no pas, que nortearo em grande parte os rumos da

    produo de msica erudita a partir da.

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    O caso da gravadora Festa , nesse sentido, emblemtico. Garcia enfrenta

    dificuldades com o novo regime e, j em 1967, estabelece um contrato de trs anos com

    a gravadora Phillips (que se instalara no pas em 1960, a partir da aquisio da CBD)

    para a comercializao de seu acervo. O contrato, como se pode constatar pelos

    lanamentos citados aqui, foi bastante produtivo, mas acabou no sendo renovado em

    1970, com Irineu Garcia partindo para o auto-exlio em Portugal naquele mesmo ano6.

    Tambm em 1970, o Servio de Radiodifuso Educativa do Ministrio de Educao e

    Cultura patrocinava a gravao dois discos de Msica de Cmara, com obras compostas

    por Marlos Nobre, Rinaldo Rossi, Nicolau Kokron, Edino Krieger, Ernst Widmer e J.

    Lins.

    Ainda no campo das iniciativas de rgos oficiais merecem destaque a do Museu

    da Imagem e do Som, de So Paulo, que em 1979 lana a srie de seis discos Msicas e

    Msicos de So Paulo, com o intuito de divulgar a criao erudita paulista do momento.

    Alm dele, a Funarte, por meio do Instituto Nacional de Msica, cria o projeto

    Memria Musical Brasileira Pro-Memus em julho de 1979, com o intuito de

    documentar e divulgar a criao musical brasileira, imprimindo partituras e gravando

    discos. A primeira srie, intitulada Documentos da Msica Brasileira, destinada a

    fixar e divulgar gravaes de carter histrico-documental. Os doze volumes iniciais

    surgem a partir de gravaes originais realizadas pela Rdio MEC, entre os anos de

    1958 e 1972, em seu prprio estdio, para o programa Msicas e Msicos do Brasil, no

    Teatro Municipal do Rio de Janeiro e na Sala Ceclia Meireles. A partir dessa srie, a

    Funarte lana dezenas de discos, durante cerca de vinte anos, tornando-se a mais

    significativa gravadora de msica erudita brasileira. Tambm na dcada de 1970, o

    Museu Villa-Lobos, em parceria com a Funarte, patrocina o lanamento de diversos

    discos com obras de Heitor Villa-Lobos.

    Mas o significativo crescimento econmico obtido nos anos do milagre

    tambm ir propiciar o desenvolvimento de iniciativas privadas com um sentido mais

    fortemente cultural, em moldes semelhantes de Irineu Garcia. E a mais importante

    dessas iniciativas ser, sem dvida, a criao da Gravadora Eldorado, que se tornar um

    marco fundamental na produo nacional de msica erudita. A gravadora praticamente

    surgiu como uma decorrncia da criao, em 1972, do Estdio Eldorado. Com o

    objetivo inicial de ser alugado a terceiros para a produo de jingles, o estdio passou a

    6 Ele morreria em Lisboa, em 1984.

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    ser utilizado tambm para a produo de discos (por nomes como Milton Nascimento,

    Miles Davis, Roberto Carlos e Elis Regina, entre outros) e para a gravao de especiais

    para a Rdio Eldorado. A partir dessas experincias com a produo musical, a empresa

    acabou constituindo sua gravadora em 19777.

    Embora administrada de forma independente, a Eldorado que engloba tambm

    duas rdios (AM 700 KHz e FM 92.9MHz, em So Paulo) e uma editora musical

    ligada ao Grupo Estado. A gravadora se caracterizou, desde o seu incio, pela gravao

    de msica erudita, de msica intrumental e de trabalhos de msica popular de maior

    valor histrico e artstico.

    A partir de 1978, a Eldorado FM aproveitou como a Gazeta fizera dcadas

    antes o seu auditrio para promover a gravao de msica erudita brasileira, passando

    desde ento a manter divers...

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