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  • Captulo 2Do XV ao XXI

    Na Florena do sc. XV surge uma nova forma de pensar arquitetura. Para ser mais exato, at ento, esta profisso no existia, ou melhor, estava embutida entre os afazeres do operrio que tambm executava a obra.

    Fellipo Brunelleschi (1377-1446) quem revoluciona a representao arqui-tetnica, como documento que informa e comunica.

    O arquiteto agora o lder, apesar das decises serem tomadas em conjunto antes do incio da obra. ele quem define atravs de imagens grficas plantas baixas, cortes e elevaes a forma exata da edificao.

    Como diz Benevolo:

    deste modo, a arquitetura muda de significado: adquire um rigor intelec-tual e uma dignidade cultural que se distinguem do trabalho mecnico, e a tornam semelhante s artes liberais: a cincia e a literatura.1

    As vistas ortogonais, com suas duas dimenses, porm, no eram suficientes; era preciso um mtodo que reproduzisse o espao arquitetnico que possui natu-ralmente trs dimenses em uma superfcie de apenas duas.

    1 O arquiteto faz o projeto, e no mais se confunde com os operrios e suas organizaes, que se ocupam da execuo... O primeiro lugar atribudo aos caracteres proporcionais justifica a correspondncia entre o projeto e a obra; os desenhos de projeto representam, em tamanho pequeno, a obra a executar, mas j contm as indicaes mais importantes, isto , estabelecem a conformao do artefato a construir. Depois, devem ser fixadas as medidas (isto , a relao de aumento para passar do projeto ao edifcio real) e os materiais a usar. Pgina 403 do livro Histria da cidade, Leonardo Benevolo, 1983, Ed. Perspectiva.

  • 22 A perspectiva linear e a eficcia de sua comunicao

    A no representao ou a representao deficiente da terceira dimenso em imagens grficas, porm, so encontradas desde os desenhos dos homens de Las-caux paleoltico (2,5 milhes a.C.), que para dar sensao de profundidade desenhavam os objetos mais prximos do observador maiores, e ao contrrio, os mais distantes, menores, como nos mostram as imagens a seguir:

    Figura 1 Releituras dos desenhos rupestres datados do paleoltico (2,5 milhes a.C.), encontrados em Lascaux.

    No antigo Egito (3.000 a.C.), a representao do espao tridimensional tam-bm se assemelhava aos do homem primitivo, porm, com mais um agravante que era o poder do Fara. Nela a hierarquia predominava. Assim o Fara e o sacer-dote eram desenhados maiores do que o soldado, o fel, o homem do povo.2

    Ainda na Idade Mdia, sc. V, encontramos desenhos que remetem aos atuais desenhos infantis, com dificuldades em representar a terceira dimenso, os espa-os representados dificilmente poderiam existir, como na Figura 2, por exemplo, alm da no representao de volume das edificaes, a diferena de escala entre estas e as figuras humanas tornam a representao incompatvel com a realidade.

    2 O primeiro ponto que devemos elucidar quanto ao pensar o espao segundo Brunelleschi a sua descoberta e aplicao das leis da perspectiva linear. Haver, a partir deste des-cobrimento, uma mudana cultural do modo de ver e do modo de representar, quando a expresso plstica adotar uma viso do espao perfeitamente mensurvel, construdo cientificamente e representado segundo normas matemticas. Pgina 149 do livro A Pers-pectiva dos Profissionais, Gildo A. Montenegro, 1983, Ed. Edgard Blcher Ltda.

  • 23Do XV ao XXI

    Figura 2 Releitura de um desenho mural da Idade Mdia.

    Se no foi Brunelleschi quem inventou a perspectiva sabe-se que no sc. III a.C., Euclides, gemetra Grego, deixou-nos a obra Elementos onde dedica os trs ltimos volumes a geometria do espao foi com ele que esta forma de representar edificaes preexistentes apenas em nossa mente ganhou regras e leis de aplicabilidade, como nos mostra a Figura 3.

    Figura 3 Releitura da segunda tabuinha, desenhada por Brunelleschi.

    Fonte: Histria da cidade, Leonardo Benevolo, 1983, Ed. Perspectiva.

  • 24 A perspectiva linear e a eficcia de sua comunicao

    Foi ele o primeiro a ter uma viso deste espao, segundo Carnielo Miguel perfeitamente mensurvel, construdo cientificamente e representado segundo normas matemticas.3 Algum que agora passa a se chamar arquiteto, pensa, projeta e apresenta: construa, vivel!

    Termos como ponto de fuga, linha do horizonte, ponto de vista, tornam-se lugar comum; porm, representar volumes a partir de linhas segundo clculos matemticos, no bastava. Como representar as cores e texturas prprias de cada objeto que so modificadas pela luz ou pela sombra, e deixar as imagens mais familiares ao observador, tal qual s que se formam a partir do olho humano?

    Leon Batista Alberti (1404-1472) e mais tarde Leonardo da Vince (1452-1519) e Michelangelo (1475-1564) quem prossegue com os estudos de perspectiva, des-cobrindo leis que reproduzem tais efeitos, segundo Benevolo apresentam-se como tcnicas universais para representar e inventar todos os objetos do mundo visvel.4

    A arte de desenhar em perspectiva modifica-se. O domnio da tcnica pro-porciona ao arquiteto a liberdade de desenh-la sem auxlio de instrumentos Figura 4. O esboo, ou croqui, passa a ser para o arquiteto o registro mais rpido e significativo do desenho, feito atravs de sinais grficos simples e imediatos,5 materializando e comunicando a ele mesmo suas prprias imagens mentais.

    3 Brunelleschi ao descobrir a perspectiva linear, ser o primeiro arquiteto a pensar e con-ceber a arquitetura como espao, Esta cincia ir superar os limites da prtica pictrica e ir constituir a base nova das artes que tm o desenho como princpio (a pintura, a escultura, a arquitetura e a cenografia teatral). Texto retirado do artigo Brunelleschi: o caador de tesouros de Jorge Maro Carnielo Miguel, doutor pela FAUUSP, professor de Teoria da Arquitetura do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Londrina e coordenador do Curso de Especializao Arquitetura e Ps-modernidade: Composio e Linguagem da UEL. Artigo disponvel em www.vitruvius.com.br/arqui-textos/arq040_02.asp , acesso em 26 de janeiro de 2004.

    4 Pgina 420 do livro Histria da cidade, Leonardo Benevolo, 1983, Ed. Perspectiva.5 Para arquitetos o registro evocativo mais significativo do desenho talvez se d na forma

    de notaes grficas simples e imediatas, principalmente aqueles apontamentos e nota-es esquemticas de estudo inicial. A quantidade considervel de publicaes que tratam dos arquivos pessoais de arquitetos notveis e o cuidado especial que, de maneira geral, os arquitetos se manifestam com esse tipo de registro, demonstram inequivocamente sua importncia simblica. Por se tratar de um tipo de registro que combina pequenas ilustraes e esquemas grficos de natureza variada, palavras e anotaes, nmeros e operaes de clculo, alm de riscos e marcas pessoais, de uma maneira livre e com pou-cas convenes, essas notaes recebem uma gama variada de denominaes: esquemas, diagramas, esboos, croquis, entre outras. Texto retirado da resenha Desenhos ilumina-dos de Jos Barki, arquiteto do DARF e professor da FAU/UFRJ. Disponvel em www.vitruvius. com.br/resenhas/textos/textos032.asp.

  • 25Do XV ao XXI

    Figura 4 Esboo para uma agncia de turismo.

    Comparando os desenhos de arquitetos diferentes, percebe-se um qu que os diferenciam entre si; da mesma forma que no existem duas caligrafias iguais, tambm no existem desenhos iguais. Se centenas de arquitetos desenharem perspectivas de um mesmo volume com materiais iguais, pontos de fuga iguais, teremos centenas de perspectivas diferentes. O tratamento artstico, a expresso grfica, varia com o gosto, a tendncia e a habilidade de cada desenhista,6 na Figura 5 vemos um exemplo disto, a mesma edificao representada por estilos diferentes: enquanto o professor Gildo Montenegro usou o trao e o pontilhismo, o professor Niepce preferiu a variao tonal obtido atravs de colagens e manchas uniformes para representar os volumes.

    Figura 5 Desenhos de Gildo Montenegro e Niepce C. Silveira.

    Fonte: A Perspectiva dos Profissionais, Gido Montenegro, p. 146-147.

    6 Pgina 143 do livro A Perspectiva dos Profissionais, Gildo A. Montenegro, 1983, Ed. Edgard Blcher Ltda.

  • 26 A perspectiva linear e a eficcia de sua comunicao

    De acordo com o tema, o modo e o material empregado, percebemos o estilo do profissional, assim como a poca em que foi desenhado. Le Corbusier usava o bico de pena para desenhar suas edificaes de concreto armado, Frank L. Wright usava lpis de cor para seus desenhos lineares, Mies van der Rohe usou vrios meios distintos como o lpis, tinta e pincel, alm de colagens.

    Entre 1970 e 1990 a letra filme fez bastante sucesso, ora representando as sombras do edifcio em perspectiva, ora sendo usada como pano de fundo.

    Entre os designers da antiguidade a perspectiva tambm se torna funda-mental. So famosos os croquis dos produtos inventados por Leonardo da Vinci (1452-1519)7 de bicicletas, mquinas voadoras, entre elas o helicptero, para-quedas, tanques blindados, asa delta, roupas de mergulho, entre outros. Todos representados atravs da perspectiva.

    O trao de cada artista independe da poca em que foi realizado. O trao de Da Vinci, de Le Corbusier, Mies van der Rohe, Harry Bertoia, ou de qualquer outro profissional da rea, traz caractersticas similares do incio ao fim de suas carreiras, percebendo-se um amadurecimento ou um aperfeioamento adquirido com o exerccio constante do fazer desenho.

    Surge a fotografia.8 Sua popularizao, ou massificao, no elimina a neces-sidade do desenho em perspectiva, porque simplesmente no o substituiu, mas o influencia em suas apresentaes. Os arquitetos procuram tornar seus desenhos o mais prximo possvel da realidade.

    o advento dos processos de computao grfica, quem vai revolucionar a representao espacial de nossas edificaes

    O desenho desenvolvido por seus programas ameaa a perspectiva linear?Suas vantagens so inquestionveis. Com p