do vandalismo ao protesto: análise de conteúdo da ...· do vandalismo ao protesto: análise de...

Download Do vandalismo ao protesto: análise de conteúdo da ...· Do vandalismo ao protesto: análise de conteúdo

Post on 03-Dec-2018

214 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • 433

    Do vandalismo ao protesto: anlise de contedo da cobertura do jornal Zero Hora sobre as manifestaes contra o aumento da tarifa de nibus em Porto Alegre

    Rev. Humanidades, Fortaleza, v. 30, n. 2, p. 433-454, jul./dez. 2015

    Do vandalismo ao protesto: anlise de contedo da cobertura do jornal Zero Hora sobre as manifestaes contra o aumento da tarifa de nibus em Porto AlegreFrom vandalism to the protest: content analysis of Zero Horas newspaper coverage of the clamor against the

    increase in bus fare in Porto Alegre

    Norberto Kuhn Junior1Andria Poerschke Sarmanho2

    Resumo

    O artigo apresenta uma anlise dos contedos veiculados pelo jornal Zero Hora na cobertura das manifestaes contra o aumento da tarifa de nibus em Porto Alegre, de maro a meados de junho de 2013. Buscando evidenciar o posicionamento do veculo ante os fatos, o trabalho conta com a base terica de Harold Lasswell e Paul Lazarsfeld, difusores da anlise de contedo na comunicao, seguindo os passos propostos por Heloisa Herscovitz, de seleo e codificao da amostragem, junto s unidades de registro propostas por Laurence Bardin, para qualificar os elementos. Ainda na anlise, trabalham-se conceitos de Pierre Bourdieu e Max Weber, para a compreenso do espao social, das foras que nele se revezam e da mdia como agente poltico. Os resultados identificam posicionamentos distintos, por parte do jornal, em dois momentos: primeiro, h desqualificao da causa e busca por legitimar autores, responsabilizando movimentos de esquerda; e, no segundo momento, com a reafirmao da no liderana em mbito nacional e a negao popular das instituies legtimas, o movimento abordado como espontneo e ganha mais espao nas pginas de Zero Hora. A mudana de abordagem desvela a condio dos veculos de comunicao como agentes polticos na estrutura de dominao, detentores de um poder simblico reconhecido e influente no campo

    1 Doutor em Cincias da Comunicao pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Professor e pesquisador da Universidade Feevale do Programa de Diversidade e Cultural e Incluso Social e do Mestrado Profissional em Indstria Criativa. Integra o grupo de pesquisa do CNPq Metropolizao e Desenvolvimento Regional.

    2 Acadmica de ps-graduao Especializao em Jornalismo e Convergncia de Mdias na Universidade Feevale, em Novo Hamburgo. Jornalista graduada em Comunicao Social Habilitao Jornalismo pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa) campus So Borja.

    Contatos: andreiasarmanho@gmail.com; nkjunior@feevale.br

  • Rev. Humanidades, Fortaleza, v. 30, n. 2, p. 433-454, jul./dez. 2015434

    Norberto Kuhn Junior, Andria Poerschke Sarmanho

    de foras sociais, buscando a garantia de condies favorveis no espao social para assegurar a manuteno da sua posio e sua reproduo.

    Palavras-chave: Manifestaes; Transporte Pblico; Anlise de Contedo; Espao Social; Zero Hora.

    Abstract

    This paper presents an analysis of the content published by Zero Hora newspaper in the coverage of protests against the bus fare increase in Porto Alegre, March 2013. In an attempt to clarify about the facts, this study has the theoretical basis of Harold Lasswell and Paul Lazarsfeld, diffusers of content analysis on communication, also following the steps proposed by Heloisa Herscovitz concerning the selection and coding of samples, along with the registration units proposed by Laurence Bardin, to qualify the elements. The analysis also works with Pierre Bourdieu and Max Weber, understanding the social space, the forces that take turns in it and the media as a political agent. The results identify different positions in two stages: at first, the disqualification of the cause and the trying to legitimate leftist movements. On the other hand, the second phase shows that with a reaffirmation of non-leadership at national level and the denial of legitimate institutions, the movement in the streets has increased Zero Hora pages. The change in the newspapers speech reveals the condition of the media as political agents in the structure of domination. They have a recognized symbolic power and influence in the field of social forces, seeking to guarantee favorable conditions in the social space to ensure the maintenance of its position and its reproduction.

    Keywords: Protests; Public transport; Content analysis; Social space; Zero Hora newspaper.

    Introduo

    No ms de maro de 2013, a cidade de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, comeou a observar a indignao converter-se em movimento3. Com o aval da Prefeitura Municipal, a tarifa do transporte pblico foi reajustada, no dia 21, para o valor de R$ 3,05 configurando aumento de 7,02% em relao tarifa anterior, de R$ 2,85. O valor havia sido estipulado na

    3 Abordamos o conceito de movimento social a partir da definio de Ilse Scherer-Warren, que os entende como ao grupal para a transformao (a prxis), voltada para a realizao dos mesmos objetivos (o projeto), sob a orientao mais ou menos consciente de princpios valorativos comuns (a ideologia) e sob uma organizao diretiva mais ou menos definida (a organizao e sua direo) (SCHEREN-WARREN, 1989, p.20).

  • 435

    Do vandalismo ao protesto: anlise de contedo da cobertura do jornal Zero Hora sobre as manifestaes contra o aumento da tarifa de nibus em Porto Alegre

    Rev. Humanidades, Fortaleza, v. 30, n. 2, p. 433-454, jul./dez. 2015

    manh do mesmo dia pelo Conselho Municipal de Transporte Urbano (Comtu) e chegou a entrar em vigor no dia 26. J no dia seguinte, pela primeira vez nesse perodo, os manifestantes seriam notcia. Fazendo uma anlise do contedo jornalstico em textos veiculados pelo jornal Zero Hora principal veculo de mdia impressa da maior rede de comunicao do sul do Brasil, a Rede Brasil Sul (RBS) , vamos buscar evidenciar neste trabalho o posicionamento do veculo em relao s manifestaes em dois momentos. Primeiro, sobre como elas foram abordadas entre os meses de maro e abril, durante os primeiros atos aps o anncio do reajuste da tarifa de nibus, e depois, no ms de junho, quando o movimento cresceu em nmero de manifestantes e, tambm, de reivindicaes.

    Atravs desta anlise, podemos perceber como a mdia tradicional4 valora os acontecimentos, como se posiciona, mediante a forma como os qualifica, o espao dado a eles, dentre outras variveis. Partiremos do pressuposto de que, mesmo na condio de notcia, essas narrativas no podem ser vistas como emergindo naturalmente dos acontecimentos do mundo real; as notcias acontecem na conjuno de acontecimentos e textos (TRAQUINA, 1999, p. 168). Valeremos-nos, assim, de informaes contextuais, para que seja possvel entrarmos no campo das inferncias que iro balizar esta anlise.

    A primeira contextualizao necessria em relao ao veculo escolhido: o jornal Zero Hora. Fundado no dia 4 de maio de 1964, no ms seguinte instalao da ditadura militar no Brasil, Zero Hora substituiu o jornal A ltima Hora, fechado logo aps o golpe. A Rede Brasil Sul (RBS) assumiu o controle acionrio do jornal, consolidando sua insero em todas as mdias a partir daquele momento e perpetuando-se at hoje como o maior conglomerado de comunicao do sul do Brasil, alm de afiliada da Rede Globo. O jornal Zero Hora , atualmente, o mais lido no Rio Grande do Sul5 e o 6 maior jornal de circulao paga no Brasil6.

    A segunda contextualizao a ser considerada a posio assumida pelos veculos caracterizados como componentes da grande mdia ante as

    4 Aqui, o conceito de mdia tradicional no se refere ao sentido tecnolgico (mdias tradicionais versus mdias digitais), mas sim ao seu posicionamento enquanto agente de comunicao de massa e de manuteno do status quo.

    5 Pesquisa encomendada pelo governo Tarso Genro, em 2013, ao instituto Foco Opinio aponta que Zero Hora lidera com 52,9% frente aos demais jornais em circulao no estado.

    6 Ranking de 2013 da Associao Nacional dos Jornais (ANJ).

  • Rev. Humanidades, Fortaleza, v. 30, n. 2, p. 433-454, jul./dez. 2015436

    Norberto Kuhn Junior, Andria Poerschke Sarmanho

    manifestaes que eclodiram em todo o pas. Levemos em considerao que as notcias tendem a defender o status quo, como explica Soloski (1999, p. 97):

    O news judgement exige que os jornalistas partilhem as pressuposies acerca do que normal em sociedade, uma vez que a noticiabilidade de um acontecimento est relacionada com o afastamento daquilo que se considera normal. Ao concentrar-se no desvio, no estranho e no inslito, os jornalistas defendem implicitamente as normas e os valores da sociedade. Como as fbulas, as estrias noticiosas contm uma moral oculta.

    Stuart Hall tambm reflete o papel do jornalismo de mediar e de selecionar o que ter ou no visibilidade, mas chama a ateno para as interpretaes fornecidas para a compreenso do que noticiado: Implcitas nessas interpretaes esto as orientaes relativas aos acontecimentos e pessoas ou grupos nela envolvidos (HALL et al., 1999, p. 228). Assim, o jornalismo, atravs de sua funo mediadora, opta por sustentar ou descartar, por legitimar ou no e por impulsionar a efervescncia social ou manter o status quo.

    Em Porto Alegre, houve um momento em que o jornal Zero Hora passou a ser alvo, no apenas ideologicamente, mas tambm no campo fsico, com sua sede constantemente sob ameaa de depredao. Nessa fase, os atos passaram a terminar em sucessivos confrontos com a Brigada Militar7. Sob acordo prvio ou no, diferente das caminhadas realizadas em maro, o trajeto dos manifestantes deixou de ser a esmo era sempre conduzido Avenida Ipiranga, onde est situada a sede do jornal Zero Hora.

    Isto aconteceu durante o perodo que chamaremos aqui de segunda fase das manifestaes quando, mesmo aps conquistar a manuteno da tarifa de nibus no valor anterior ao do reajuste, o grupo passou a integrar um calendrio nacional de mobilizaes. Convocada e difundida por meio das redes sociais, a progra