Dissertação - A Gira de Escravos

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Dissertao de Mestrado sobre a Msica na Umbanda

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<p>GIRA DE ESCRAVOS: A MSICA DOS EXUS E POMBAGIRAS NO CENTRO UMBANDISTA REI DE BIZARA.</p> <p>DISSERTAO SUBMETIDA AO PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM MSICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA COMO REQUISITO PARCIAL OBTENO DO GRAU DE MESTRE EM MSICA.</p> <p>MACKELY RIBEIRO BORGES</p> <p>SALVADOR BAHIA OUTUBRO/2006</p> <p>Resumo</p> <p>Os Exus e as Pombagiras so as entidades mais controversas da Umbanda. Devido a esta natureza, a presena destes espritos nos centros umbandistas , em geral, restrita ou muitas vezes at evitada. No Centro Umbandista Rei de Bizara estas entidades ocupam um papel de destaque tanto no espao sagrado quanto na execuo de determinadas atividades. Este centro umbandista realiza mensalmente uma cerimnia em homenagem aos Exus e Pombagiras denominada Gira de Escravos, e nela constatamos a existncia de um repertrio musical especfico que merece ser melhor entendido. Com o objetivo de compreender a msica dos Exus e Pombagiras e a importncia destas entidades dentro da prtica umbandista deste centro, aps a Introduo (Captulo 1), o Captulo 2 contextualiza o surgimento da Umbanda no Brasil, mostrando a sua trajetria marcada pela busca de uma institucionalizao e legitimao diante da sociedade e do Estado brasileiro, apresentando uma viso geral da prtica umbandista e das entidades cultuadas atravs da reviso da literatura. O Captulo 3 se concentra no Centro Umbandista Rei de Bizara, abordando a sua histria, estrutura social, hierarquia e o lugar ocupado pelos Exus e Pombagiras, assim como a importncia dos instrumentos musicais e seus executantes. O Captulo 4 faz uma descrio minuciosa da Gira de Escravos. Apresenta a transcrio dos toques que acompanham os pontos cantados. Prope uma classificao das iii</p> <p>cantigas levando em conta a viso mica e sugere possveis interpretaes das estruturas meldicas, dos textos e da forma de cantar. As concluses at aqui obtidas so apresentadas no Captulo 5. As transcries musicais e as ilustraes fotogrficas, obtidas em seu contexto original, constam do corpo desta dissertao proporo que se tornam necessrias para exemplificar os problemas abordados.</p> <p>iv</p> <p>Abstract</p> <p>The Exus and Pombagiras are controversial entities from Umbanda. Due to this nature, the presence of these spirits in Umbanda centers are, in general, restricted and avoided most of the time. In the Centro Umbandista Rei de Bizara these entities have a prominent role, in the sacred place as well as in the accomplishment of some of the activities. This Umbandista Center holds a monthly ceremony in honor of the Exus and Pombagiras called Gira de Escravos, and in this we verified the existence of a specific musical repertory which deserves to be better understood. With the goal of understanding the music of Exus and Pombagiras, and the role of these entities in the Umbandista practice of this center, after an introduction (Chapter 1), Chapter 2 shows the context of Umbandas beginnings in Brazil, showing its trajectory marked by the search for establishment and legitimation in Brazilian government and society, and presenting a general view of the Umbandista practice and the worshipped entities through a review of literature. Chapter 3 focus on the Centro Umbandista Rei de Bizara, approaching its history, social structure, hierarchy, and the role of Exus and Pombagiras, as well as the importance of musical instruments and their performers. Chapter 4 provides an accurate description of Gira de Escravos. It includes the analysis of the instrumental accompaniment of the chants, and proposes a classification of v</p> <p>songs based in a emic view. Possible interpretations of the melodic structure, the text, and the model of singing are included. The Conclusions obtained till now are presented in Chapter 5. The musical transcriptions and pictures, captured in the original context, are in the body of the dissertation as long as they are necessary to exemplify the approached issues.</p> <p>vi</p> <p>Agradecimentos</p> <p> Escola de Msica da Universidade Federal da Bahia, seus professores e funcionrios. minha orientadora, amiga, Dra. Snia Maria Chada Garcia, que tanto contribuiu para o meu crescimento e me mostrou, atravs da Etnomusicologia, uma nova forma de pensar sobre msica. Ao professor Manuel Veiga pelo carinho e incentivo. professora ngela Lhning por todas as orientaes dadas durante as aulas e no Tirocnio Docente. FAPESB (Fundao de Amparo Pesquisa na Bahia) que me concedeu uma bolsa de estudos durante um ano, o que ajudou muito na realizao desta pesquisa. Ao Diretor-Secretrio da Federao Nacional do Culto Afro-Brasileiro (FENACAB), Sr. Antoniel Atade Bispo, pelas valiosas informaes sobre a Umbanda na Bahia e em Salvador. Ao meu marido e grande companheiro Christian Lisboa, por todo o amor e compreenso, estando ao meu lado em todos os momentos, inclusive durante o trabalho de campo. Aos meus pais, Marisa e Aurelino (in memoriam) por terem me apoiado em tantos aspectos da minha vida. vii</p> <p> Adriana Pereira de Macedo da Silva (tia Adriana), uma pessoa especial e referncia inesquecvel, que cruzou o meu caminho transformando o meu destino. As minhas irms, Gerusa, Letcia e Camila, e aos meus irmos de corao, Eraldo, Silas e Emlio que, mesmo distncia, me incentivaram com palavras de carinho. A minha segunda e aventureira famlia, Nino, Marisa e Richard por todo o amor e pelos exemplos de vida. A todas as pessoas do Centro Umbandista Rei de Bizara, que to bem me acolheram. Em especial Amlia Cndida da Silva (Tia Preta) e Ktia de Jesus dos Santos (Katinha), pela confiana e pela ajuda durante toda a pesquisa e sem a qual este trabalho no teria sido possvel; Noeli de Jesus dos Santos (Noli) que me ensinou, com muita pacincia, os ritmos do atabaque e do agog e a Srgio Franklin pela amizade e confiana. A todos os Exus e Pombagiras, com suas histrias e seus pontos cantados, que permitiram a realizao desta pesquisa.</p> <p>viii</p> <p>Sumrio</p> <p>Resumo Abstract Agradecimentos Captulos 1. Introduo 2. A Umbanda no Brasil 2.1. O surgimento de uma religio 2.1.1. A desafricanizao: a negao africana 2.1.2. A reafricanizao: a afirmao africana 2.2. O culto umbandista 2.3. As entidades cultuadas 3. O Centro Umbandista Rei de Bizara 3.1. Do Rio de Janeiro para Salvador 3.2. A estrutura social: cargos e hierarquia 3.3. Os instrumentos musicais e seus executantes 3.4. A diviso do espao fsico 3.4.1. O lado direito 3.4.2. O lado esquerdo ix</p> <p>iii v vii</p> <p>1</p> <p>6 20 25 45 54</p> <p>68 74 81 85 87 95</p> <p>4. A Gira de Escravos 4.1. A festa dos Exus e Pombagiras 4.2. O acompanhamento instrumental 4.3. A classificao dos pontos cantados 4.4. Os textos: alguns significados 4.5. As melodias: possveis interpretaes 4.6. A maneira de cantar 5. Concluso Anexos 1. Textos dos pontos cantados 2. Ficha, folhetos e apostilas 3. Lista com as msicas do CD Bibliografia 202 215 237 238 132 152 162 178 183 191 197</p> <p>x</p> <p>Para Christian Helena e Eduardo</p> <p>1. Introduo</p> <p>A Umbanda considerada a primeira religio genuinamente brasileira. Surge como uma religio universal, isto , dirigida a todos e a sua trajetria marcada pela busca de uma legitimao e institucionalizao diante da sociedade e do Estado brasileiro. H na sua formao uma fuso de elementos de vrias procedncias e naturezas diversas, entre eles influncias das culturas indgena, branca europia e negra, alm da adoo de elementos de culturas orientais. Em vista disso, sua identidade, inclusive musical, est em constante processo de construo, no qual as tentativas de institucionalizao (racionalizao dos ritos e mitos em congressos, encontros e federaes) se complementam com a diversidade encontrada no universo particular dos locais de culto. Desta forma, cada centro umbandista um mundo particular, que apresenta caractersticas prprias, pontos cantados1, cerimnias, trabalhos, representando um papel importante na vida religiosa dos seus praticantes.</p> <p>1</p> <p>Ponto cantado a denominao utilizada pelos umbandistas para designar a msica na religio.</p> <p>Na Umbanda, a organizao das entidades cultuadas se d em dois lados aparentemente opostos, o direito e o esquerdo, relativizando a concepo crist de separar o bem do mal, ao mesmo tempo em que se apropria da viso kardecista ao classificar o seu panteo em linhas2 e falanges de acordo com a evoluo espiritual. No Centro Umbandista Rei de Bizara, os Exus e as Pombagiras recebem o nome de Escravos e possuem histrias, caractersticas e personalidades prprias, integrando um nmero crescente de entidades que se destacam no espao fsico deste centro e na conduo dos trabalhos realizados. Aqui, as entidades da direita e da esquerda so cultuadas como se houvessem duas atividades religiosas distintas, que se integram, mas que no se misturam. Diante deste quadro, se faz necessrio a gerao de rituais e consequentemente de repertrios musicais especficos adequados s caractersticas de cada entidade. No primeiro sbado de cada ms, este centro realiza uma cerimnia denominada Gira de Escravos em homenagem s entidades da esquerda. Nesta gira3, a msica assume um papel importante, acompanhando o ritual. atravs da msica que os Escravos chegam, se apresentam, so homenageados, atendem ao pblico e se despedem. Em vista disso, constatamos a existncia de um repertrio musical especfico dedicado exclusivamente aos Exus e as Pombagiras. Localizado no bairro de Brotas em Salvador BA, este centro um centroescola voltado para o desenvolvimento dos mdiuns e do pblico em geral e, para a prtica da caridade feita em sesses semanais de passes e consultas. Os fundamentos religiosos so transmitidos sistematicamente em reunies pblicas e em encontros onde o acesso </p> <p>Cacciatore (1988: 162) define linha como faixa de vibrao, dentro da grande corrente vibratria espiritual universal, correspondente a um elemento da natureza, representada e dominada por uma potncia espiritual csmica um Orix, tambm chamado protetor e que chefe dos seres que vibram e atuam nessa faixa afim. Gira o nome dado sesso umbandista. Lopes (2003: 110), afirma que este termo vem do umbundo chila ou tjila (danar). Este assunto ser aprofundado no decorrer deste trabalho.3</p> <p>2</p> <p>2</p> <p>restrito aos mdiuns. O foco deste trabalho se concentra no repertrio musical especfico dos Exus e das Pombagiras homenageados na Gira de Escravos. No propsito de entender o papel da msica dos Escravos e a sua relao e insero no contexto religioso da Umbanda, procuramos discutir algumas questes como a classificao dos pontos cantados, os textos, as possveis disposies meldicas, os toques, o papel dos instrumentos musicais e seus executantes, entre outros. Estes estudos foram baseados no trabalho de campo, onde foram feitas as coletas de dados e os registros sonoros atravs de gravaes, observaes da Gira de Escravos e outros rituais realizados neste centro (festas em homenagem s entidades da direita e Sesses de Caridade e de Desenvolvimento Pblico) ocorridos durante o ano de 2005 e no primeiro semestre de 2006, alm de entrevistas com a me-de-santo e conversas informais com vrios membros do centro. Realizamos tambm algumas entrevistas com o Diretor-Secretrio da Federao Nacional do Culto Afro-Brasileiro (FENACAB), Sr. Antoniel Atade Bispo, que nos deu importantes contribuies a respeito da Umbanda na Bahia e em Salvador. Os pontos cantados transcritos neste trabalho foram selecionados a partir de gravaes de campo realizados no contexto da Gira de Escravos. Na Umbanda, os pontos cantados no possuem ttulos, no entanto, optamos por nomear os 39 pontos transcritos com o intuito de organizar as gravaes contidas no CD e facilitar a elaborao das tabelas que se encontram no corpo deste trabalho. Para o ttulo dos pontos cantados utilizamos os nomes dos Escravos citados ou as frases que resumem o contedo contido nos textos das cantigas. As transcries das melodias e dos textos dos pontos cantados foram feitas, respectivamente, com base nas alturas em que foram executadas e na forma como as palavras foram entoadas na Gira de Escravos. Em muitos casos, a realizao destas transcries contou com a ajuda inestimvel da me-de-santo, de sua filha adotiva e do 3</p> <p>mdium responsvel pelo contedo das apostilas e folhetos explicativos distribudos nas cerimnias. As transcries dos toques foram feitos com a ajuda da curimbeira4 responsvel pelos atabaques. Com exceo da me-de-santo, optamos por preservar os nomes dos informantes, pois no obtivemos autorizao para revel-los. Quanto transcrio, adotamos as armaduras de clave e as frmulas de compasso por se tratar de exemplos musicais de uma religio brasileira, mesmo que de matriz africana, e pela possibilidade de adaptao das melodias e dos ritmos contidos nos toques ao sistema de notao ocidental. Na transcrio dos toques assinalamos: a semicolcheia como a figura de menor valor, a batida no centro (notas abaixo da linha) e na borda (notas acima da linha) do atabaque e o toque com a mo direita (notas com a haste para cima) e esquerda (notas com a haste para baixo) neste instrumento. No agog assinalamos a batida nas diferentes campnulas com as notas graves abaixo da linha e as agudas acima da linha. Em relao s palmas, preferimos transcrev-las obedecendo pulsao dos pontos cantados, embora, muitas vezes, no contexto da festa, elas representam participao livre e direta do pblico, no havendo, desta forma, uma regularidade na sua execuo. Durante a observao da execuo dos pontos cantados no contexto da Gira de Escravos, constatamos que a entrada da percusso sempre acontece aps o canto do solista. Porm, nos pontos cantados, com exceo do Hino da Umbanda (Cf. transcrio p. 51), no h um lugar definido para a entrada do acompanhamento instrumental. Diante deste quadro, nas transcries, a indicao do acompanhamento instrumental e das palmas sempre ocorre aps a entrada do solista. Nas gravaes, a entrada da percusso nem sempre corresponde</p> <p>De acordo com Lopes (2003: 88), curimbeiro a denominao do responsvel pelos cnticos rituais. Termo que se origina da palavra curimba, do quimbundo kuimba, correspondente ao umbundo okuimba, que significa cantar. Cacciatore (1988: 94) afirma que curimba (de origem iorub: ko- cantar; orin- cano; e quimbundo: ku imba- cantar) so cnticos religiosos dos cultos afro-brasileiros, para honrar e chamar as divindades ou as entidades espirituais.</p> <p>4</p> <p>4</p> <p>s transcries, pois dependendo do solista e do contexto em que o ponto est sendo cantado, so inmeras as possibilidades de introduo do atabaque e do agog. A anlise das gravaes indica que a entrada do acompanhamento instrumental acontece em relao ao atraso do ciclo, isto , pode acontecer em qualquer tempo do compasso. No nos foi permitido o registro fotogrfico dos instrumentos, do salo onde ocorrem as cerimnias, assim como de qualquer objeto que faa referncia aos Escravos, muito menos o registro fotogrfico da Gira de Escravos ou de qualquer outra festa em seu contexto original, por se tratar de uma norma deste centro, a qual concordamos. O Centro Umbandista Rei de Bizara uma demonstrao da capacidade da Umbanda de se adaptar aos contextos locais. Este centro cultua uma...</p>