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DIREITOS FUNDAMENTAIS E DIREITO PRIVADO:

algumas consideraes em torno da vinculao

dos particulares aos direitos fundamentais

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DIREITOS FUNDAMENTAIS E DIREITO PRIVADO: ALGUMAS

CONSIDERAES EM TORNO DA VINCULAO DOS PARTICULARES

AOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

Revista de Direito do Consumidor | vol. 36/2000 | p. 54 - 104 | Out - Dez / 2000

Doutrinas Essenciais de Direito do Consumidor | vol. 2 | p. 227 - 285 | Abr / 2011

Doutrinas Essenciais de Direitos Humanos | vol. 1 | p. 383 - 442 | Ago / 2011

DTR\2000\811

___________________________________________________________________________

Ingo Wolfgang Sarlet

Juiz de Direito no Rio Grande do Sul. Doutor em Direito em Munique, Alemanha. Professor

de Direito Constitucional na Escola Superior da Magistratura (Ajuris) e na Pontifcia

Universidade Catlica do Rio Grande do Sul, onde tambm ministra a disciplina Direitos

Fundamentais.

rea do Direito: Constitucional; Civil

Sumrio:

1.Introduo e delimitao do tema 1 - 2.Aspectos conceituais e terminolgicos:

destacando a peculiaridade do problema - 3.Premissas de um consenso: as razes em prol

de uma eficcia (vinculatividade) dos direitos fundamentais no mbito das relaes entre

particulares - 4.O problema do "como": eficcia direta ou indireta? - 5.Relevncia do

problema da eficcia dos direitos fundamentais nas relaes entre particulares: superao

das teorias que negam uma vinculao das entidades privadas - 6.Por uma eficcia

(vinculao) imediata prima facie - 7.Algumas concluses e indagaes - Bibliografia

1. Introduo e delimitao do tema 1

Inobstante a assim denominada constitucionalizao do Direito Privado -

significativamente qualificada como representando uma autntica "virada de Coprnico",

de acordo com a inspirada formulao de Luiz Edson Fachin 2- constitua fenmeno que, em

virtude de sua amplitude, no se restringe s relaes entre os direitos fundamentais e o

Direito Privado, , todavia, nesta dimenso especfica da problemtica que iremos centrar

a nossa ateno neste breve ensaio. Assim, importa registrar, de incio, as razes que

ensejaram esta opo. Em primeiro lugar, tal escolha se justifica em face da necessidade

cientfica e metodolgica de se proceder a uma delimitao do tema, mormente

considerando as limitaes fsicas deste estudo. Esta, contudo, no foi a principal

motivao. Guiou-nos, prioritariamente, a convico de que a relao entre os direitos

fundamentais consagrados pela Constituio e o Direito Privado assume feies especficas

e diferenciadas, no contexto genrico das relaes entre a Constituio e o Direito Privado.

Evidentemente, tal constatao no afasta a existncia de uma srie de elementos

comuns, a comear pela circunstncia elementar de que qualquer aspecto que diga com os

direitos fundamentais e o Direito Privado, em ltima anlise, envolve o problema da

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algumas consideraes em torno da vinculao

dos particulares aos direitos fundamentais

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Constituio na qual aqueles so assegurados e as suas relaes com a ordem jurdica

privada. Todavia, mesmo sob esta tica, no h como desconsiderar a especial relevncia

dos direitos fundamentais na ordem constitucional, decorrente justamente deste elemento

qualificativo - a fundamentalidade - na sua dupla vertente formal e material. 3

Nesta linha de raciocnio, verifica-se, desde logo, que, de acordo com a vontade expressa

de nosso Constituinte, as normas definidoras de direitos e garantias fundamentais tm

aplicao imediata (art. 5., 1., da CF/1988), o que, por si s, j bastaria para

demonstrar o tratamento diferenciado (e privilegiado) que os direitos fundamentais

reclamam no mbito das relaes entre Constituio e Direito Privado. 4Se a influncia

sobre a ordem jurdico-privada no , por certo, prerrogativa dos direitos fundamentais,

tambm no h como negligenciar que existem fortes razes a sustentar uma natureza

qualitativamente diferenciada.

Lanadas estas consideraes, impe-se, contudo, nova delimitao, desta feita, j no

mbito prprio (mas ainda demasiadamente amplo e genrico), das relaes entre direitos

fundamentais e o Direito Privado.

Com efeito, tomando-se como ponto de partida o critrio dos destinatrios das normas

definidoras de direitos (e garantias) fundamentais, isto , daqueles que se encontram

vinculados (na condio de obrigados), percebe-se, desde logo, algo que curiosamente

ainda no tem sido suficientemente enfrentado no seio da doutrina constitucional e

privatstica ptrias, qual seja, a distino entre a assim chamada eficcia "vertical" e

"horizontal" dos direitos fundamentais no mbito do Direito Privado. Cuida-se, como temos

a inteno de demonstrar, de aspectos distintos - embora conexos - da problemtica.

Assim, poder-se- falar de uma eficcia de natureza "vertical" dos direitos fundamentais no

mbito do Direito Privado, sempre que estiver em questo a vinculao das entidades

estatais (pblicas) aos direitos fundamentais, em ltima anlise, sempre que estivermos

falando da vinculao do legislador privado, mas tambm dos rgos do Poder Judicirio,

no exerccio da atividade jurisdicional no que diz com a aplicao das normas do Direito

Privado e a soluo dos conflitos entre particulares.

Muito embora tambm neste plano da "verticalidade" (das relaes particular-Estado),

naquilo que dizem com o Direito Privado, existam inmeras questes passveis de anlise

e ainda carentes de equacionamento, especialmente entre ns, esta a dimenso menos

controversa, j que virtualmente superada a concepo que chegou a negar at mesmo

uma vinculao direta do legislador privado e, com maior nfase, do "juiz civil" aos direitos

fundamentais. 5De modo geral, poder-se- afirmar que, no que concerne eficcia

"vertical", colocam-se - respeitadas certas especifidades e a particular relevncia dos

direitos fundamentais na ordem constitucional - os problemas que tm sido enfrentados no

mbito das relaes entre a Constituio e o Direito Privado em geral, 6aspectos que,

reitere-se, inobstante intimamente vinculados ao enfoque da nossa abordagem, com este

no se confundem por inteiro e aqui no ocuparo lugar de destaque.

Em face do exposto, mas especialmente em virtude da peculiaridade da problemtica e da

profunda controvrsia e das perplexidades que continua gerando, com a assim

denominada eficcia "horizontal" (termo que, como veremos, igualmente merece ser

tomado com reserva) dos direitos fundamentais que pretendemos nos ocupar de forma

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mais detida. Em suma, cuida-se - e este o objetivo precpuo deste breve ensaio - de

analisar a problemtica da eficcia dos direitos fundamentais no mbito das relaes entre

particulares, mais propriamente, da vinculao destes (pessoas fsicas ou jurdicas) aos

direitos fundamentais.

Tambm aqui no h como fugir da necessidade de se proceder a nova delimitao, j que

no se poder desconsiderar a existncia de uma faceta material e processual do

problema. Com efeito, verifica-se que a doutrina contempornea, com inteira razo, tem

apontado para esta dupla perspectiva, demonstrando que, embora tambm aqui no se

possa fugir de uma conexo ntima, gerando um nexo de intensa interdependncia,

encontramo-nos em face de enfoques que suscitam aspectos distintos. Sob o prisma

material, cuida-se de abordar a problemtica da existncia, ou no, de uma vinculao dos

sujeitos particulares aos direitos fundamentais, bem como de verificar qual a amplitude e

o modo desta vinculao, ao passo que, sob o prisma processual, se estar tratando, em

princpio, dos meios processuais para tornar efetivos os direitos fundamentais nas relaes

interprivadas, assumindo destaque, neste contexto, o problema da possibilidade de o

particular, via ao judicial, opor-se diretamente a eventual violao de seu direito

fundamental por parte de outro particular.

A partir deste prisma processual, por exemplo, h muito se discute na Espanha a respeito

da impetrao do recurso de amparo nestes casos, 7ou mesmo o problema do acesso por

parte dos particulares, em face de ofensas a direitos fundamentais oriundas de outros

sujeitos privados, aos rgos supremos encarregados da Jurisdio Constitucional,

discutindo-se amplamente, sob este prisma, os riscos de transformar as Cortes

Constitucionais em Tribunais de reviso de conflitos de natureza eminentemente privada, 8tema que, sob outro ngulo, encontra-se intimamente vinculado problemtica da

sobrecarga de processos nos Tribunais Constitucionais, e que no afeta exclusivamente o

nosso STF, muito embora, talvez aqui, o problema tenha assumido uma dimenso

particularmente angustiante.

Desde logo, cumpre consignar que priorizaremos a anlise sob o prisma assim denominado

"material" da problemtica. Da mesma forma, em se considerando que o problema da

vinculao dos particulares se coloca, em princpio, para boa parte dos direitos

fundamentais em espcie, suscitando questionamentos especficos (basta lembrar que

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