Direito racional e filosofia política em kant

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  • A R T I G OA R T I G OA R T I G OA R T I G OA R T I G O

    Direito racional e filosofia poltica em KantDireito racional e filosofia poltica em KantDireito racional e filosofia poltica em KantDireito racional e filosofia poltica em KantDireito racional e filosofia poltica em Kant

    Jos N. HeckUFG-CNPQ-UCG

    RESUMO: No h continuidade entre a razo prtica kantiana e a filosofia prticada tradio. Os princpios do pensamento tradicional esto fincados numa idiaobjetiva de bem e justia, numa constituio normativa do cosmo, na vontade deDeus, natureza humana ou numa prudncia que coteja valores e pondera interes-ses. Para Kant, em contrapartida, toda fundamentao de leis prticas soobra exceo daquela que ancora sobre regras e normas cuja obrigatoriedade temorigem na legislao da razo. Submetidos to-somente s leis da mera razo,aos humanos no cabe mais o amparo moral do absolutismo teolgico ou doteleologismo jusnaturalista, assim como lhes continua vedada a reduo de suaatividade racional a fins intrnsecos, valores hierrquicos ou manobras instru-mentais de destreza mental. O presente artigo expe tpicos bsicos da filosofiapoltica kantiana luz dos escritos tardios dos anos noventa.PALVRAS-CHAVE: Kant; direito racional; filosofia poltica; direito dos povos;contratualismo; paz perptua.

    ABSTRACT: There is no continuity between Kantian practical reason and the practicalphilosophy of tradition. The principles of traditional thought are based on an objectiveideal of good and justice, in a normative construction of the chosmos, in Godswill, in human nature, or in a prudence that courts values and ponderates interests.For Kant, on the other hand, all founding of practical laws bounces with the exceptionof that which is ancored on rules and norms whose obligatority has its origins inthe legislation of reason. Submitted just and only to the laws of mere reason, itdoiesnt suit the humans the moral support of the theological absolutism nor thejusnaturalist teleologism anymore, as well as it is still denied to them the reductionof their racional activity for inner ends, hierarchical values nor instrumentalmaneuvers of mental destrity. The present article exposes basic topics on Kantspolitical philosophy on the light of his late writings from the nineties.KEYWORDS: Kant; racional right; political philosophy; peoples right;contratualism; perpetual peace.

    Tempo da Cincia ( 11 ) 22 : 57-80, 2 semestre 2004

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    A R T I G OA R T I G OA R T I G OA R T I G OA R T I G O5858585858 Tempo da Cincia ( 11 ) 22 : 57-80, 2 semestre 2004

    INTRODUO

    A doutrina jurdica tardia do filsofo alemo concretiza a tese poltica naforma contratual. Kant delinea o problema da autoridade poltica por meio de considera-es elementares sobre aspectos bsicos da razo humana e da liberdade de agir paramostrar que somente sob o regime da idia de um contrato social pode-se dizer que umavontade livre tem a genuna possibilidade de fazer aquisies jurdicas consistente. Aidia de obrigao contratual no sua realidade histrica exposta em Kant comopressuposto necessrio para a atividade prtica da razo, na medida em que a razo habilitada a ordenar conjuntamente os domnios do direito. A idia de um contrato social posta em Kant como condio fundamental da possibilidade de aes livres.

    O doutrinador jurdico alemo rejeita a posio que reduz a idia de umcontrato social construo hipottica. Com isso, Kant concede destaque distin-tivo ao carter normativo da autoridade poltica, pois meras hipteses no tmcondies de reivindicar qualquer conduta dos seres livres. De acordo comThompson, abandonar o estado natural e submeter-se autoridade poltica no um gesto da razo prudencial, mas um ditado da razo pura prtica, distinto dostermos propostos, por exemplo, pela original position rawlsiana,1 onde o locusnormativo do contratualismo est ocupado por autmatos ticos que maximalizama distribuio eqitativa dos bens gerados no seio de sociedades capitalistas.

    KANT E OS PRECEITOS DE ULPIANO

    Na primeira parte da diviso geral da doutrina do direito,2 no mbito deuma reinterpretao dos clssicos preceitos de Ulpiano (honeste vivere, alterumnon laedere, suum cuique tribuere), Kant elenca trs tipos inovadores de obriga-es jurdicas. Considerados comumente como princpios redundantes, o impera-tivo preceitua probidade (vive honestamente), postula proibio na verso negati-va (no faas injustia a ningum) e, finalmente, vertido para o positivo prev quecada um receba o que lhe cabe (d o seu a quem tem direito).

    O mandamento de viver honestamente no visa ao incomum, a altos car-gos ou poderes extraordinrios; ser honesto conjuga honra e dignidade, virtude comcarter. Em termos jurdicos, trata-se da estima pblica presumida de quem viveincorrupto. Kant d ao imperativo (honeste vive) um tratamento especial naarquitetnica da Metafsica dos costumes. Embora o conceba como dever jurdico, a

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    A R T I G OA R T I G OA R T I G OA R T I G OA R T I G OTempo da Cincia ( 11 ) 22 : 57-80, 2 semestre 2004

    honestas iuridica no objeto de legislao externa, constituindo uma exceo dadiviso geral dos deveres em officia iuris, para os quais possvel uma legislaoexterior, e officia virtutis, para os quais tal legislao no possvel. Tal deverjurdico, definido por Kant como obrigatoriedade advinda do direito da humanidadeem nossa prpria pessoa,3 obriga cada ser humano a no fazer-se a si mesmo deinstrumento para os outros, mas ser-lhes ao mesmo tempo fim. A lex iusti vincula ohomem ao dever de levar uma vida honesta, sendo pessoa para seus semelhantes.Excludo definitivamente dos domnios da tica, o dever jurdico interno no maisafeta a liberdade interna, um bem doravante colocado por Kant aos cuidados dalegislao tica. Como condio subjetiva da liberdade externa, a honestidade jur-dica zela pela obrigatoriedade que vincula cada humano a seu direito subjetivo, parapoder compromet-lo com o direito subjetivo dos demais homens.

    No menos formal do que o imperativo categrico, a honradez jurdicaconstitui a necessria contraparte jurdica interna ao direito da humanidade que habi-lita cada homem a coagir seu semelhante de acordo com a lei pura do direito. Anecessidade prtica de respeitar-se externamente como pessoas jurdicas umas s ou-tras, escreve Kersting, encontra seu necessrio complemento no dever de apresentar-se aos outros como pessoa jurdica. Diz a razo que o direito deve ser, ento ela diz aomesmo tempo tambm: s uma pessoa, honeste vive.4 Quem leva uma vida ilibada noapenas evita ser injusto aos demais, mas tambm no permite que outros lhe faaminjustia; tampouco tolera humilhaes e no se avilta para agrado dos semelhantes.

    A posio de irrestrita dignidade jurdica, Kant a sustenta com o direitooriginrio de cada ser humano de manter-se, ao lado dos demais, sobre o solo ondea natureza o pe ou as contigncias da vida o deixam e, assim, lhe propicia o espaonecessrio para fazer uso de sua liberdade. Kant escreve: Todos os homens encon-tram-se originariamente na posse comum do solo da terra inteira (communio fundioriginaria), munidos pela natureza com vontade prpria (e) aptos a fazerem uso dela(lex iusti).5 Essa comunho originria de posse no-emprica, claramente distintada suposta comunho primeva de uma posse historicamente inicial, constitui, se-gundo Kant, um conceito prtico da razo que contm a priori o princpio de que oshomens s podem usar o lugar sobre a terra segundo princpios de direito.6

    O segundo tipo de obrigatoriedade jurdica estabelece o princpio fundamen-tal de precaver injustias contra outros, impedindo que algum saia lesado da convivn-cia recproca (neminem laede). Enquanto o primeiro preceito tem por objeto a auto-estima jurdica, o segundo mandamento trata do reconhecimento alheio fundado no direi-to. O princpio afeta no apenas leses corporais, mas abarca tambm violaes legais. A

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    A R T I G OA R T I G OA R T I G OA R T I G OA R T I G O6060606060 Tempo da Cincia ( 11 ) 22 : 57-80, 2 semestre 2004

    lei jurdica cardinal (lex iuridica) vincula o homem ao dever de evitar tudo o que possaferir o direito alheio, mesmo sob a condio de ter que renunciar a todo convvio comseus semelhantes. Para Kant, seres morais s tem uma alternativa: ou bem estabelecemrelaes jurdicas de respeito mtuo ou abstm-se de qualquer contato.

    Como a posse em comum do solo no tem, em Kant, um significado his-trico-emprico grotiano,7 e considerando que os terrqueos tambm no se movemsobre uma superfcie infinita de solo plano o que os impede de se espalharemmundo afora sem interagirem uns com os outros a comunho da posse originriadeve-se unidade de todos os lugares sobre a superfcie esfrica do globo terres-tre,8 ou seja, consiste numa espcie de comunidade naturalmente imposta, anteriora qualquer ato de aquisio da primeira gleba por quem quer que seja. De acordocom Kant, a posse inicial comum da terra, advinda do lugar de nascimento ou decircunstncias quaisquer, necessariamente uma posse comunitria de indivduosinter-relacionados. Cada terrqueo no apenas tem, segundo o doutrinador alemo,o direito inato de poder vir a possuir a terra que o v nascer ou sobre a qual seencontra, mas, em virtude da posse originria em comum, usufrui tambm do direitode ter qualquer pedao de terra sobre a superfcie do planeta, do tamanho corres-pondente fora que tem para defender o que ocupa. A communio possessionisoriginaria kantiana torna possvel, em princpio, uma forma de aquisio irrestritade propriedade. Diferentemente do que ocorre com direitos adquiridos por contratocujas exigncias recprocas so endereadas ao respectivo parceiro, o poder de exi-gir uns dos outros que se abstenham do uso do objeto do arbtrio alheio refere-se atodos os seres humanos. Assim como o neminem laedere (a probio de lesar oprximo) no conhece exceo, a totalidade do gnero humano perfaz, em Kant, otitular de obrigaes para com a propriedade alheia. A universalizao do conflitoentre livres-arbtrios leva necessariamente ao impasse, se a vontade de cada homem,observa Kant, no contm simultaneamente a lei (lex iuridica) de acordo com a qual possvel destinar a cada homem uma posse especial no solo comum.9

    O significado que o dever jurdico interno adquire para a autopositivaodo direito no substitui e tampouco concorre, em Kant, com a obrigatoriedademoral do imperativo categrico. A relevncia do dever interno de direito consisteem pr as condies subjetivas do estabelecimento de relaes jurdicas externas.A obrigao da honestidade jurdica , por um lado, interna porque no admiteoutro motivo seno o respeito anlogo lei moral perante o direito da humanidadeem nossa prpria pessoa e, por outro, externa porque constitui condio sinequa non das relaes prticas de pessoas entre si, na medida em que as aes

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    A R T I G OA R T I G OA R T I G OA R T I G OA R T I G OTempo da Cincia ( 11 ) 22 : 57-80, 2 semestre 2004

    delas, como fakta, enquanto feitos humanos livres, podem ter direta ou indireta-mente influncia umas sobre as outras. Enquanto o imperativo categrico, comofrmula do dever moral interno, permanece formal, no-diferenciador e autrquico,o dever jurdico interno mantm, como auto-referncia normativa, conotaesempricas variadas frente complexidade semntica do universo jurdico externo.

    O terceiro tipo de obrigatoriedade jurdica prescreve ao indivduo entrarcom os demais em uma sociedade na qual cada homem possa conservar o que lhepertence (suum cuique tribue), isto , onde lhe seja feita justia. Na suposio de quea violao da lex iuridica inevitvel, Kant refaz a terceira frmula ulpiana, preceituan-do a cada ser humano o mandamento de submeter-se s condies de uma convivnciaque propicie a cada um a segurana jurdica. Segundo Kant, tal lei da justia contmpor subsuno a deduo da lei da justia da obrigatoriedade da lei do justo, de modoque a segunda lei conduz pela primeira justia, vale dizer, leva obrigao deingressar num estado que assegure a cada um o seu perante qualquer outro (Lexiustitiae).10 O dever de erigir o Estado tem um slido fundamento no direito de huma-nidade. Se a cada ser humano assiste o direito de no ser limitado em sua liberdadeseno por meio de leis gerais, dele resulta o direito de estabelecer condies sob asquais essas regras genrico-abstratas podem ser formuladas e aplicadas, o que equiva-le a ter direito s condies que possibilitam, realizam e asseguram a pretenso deviver e agir de acordo com liberdades amparadas pela fora da lei. Eu dou a cada umo seu, escreve Kersting, na medida em que, mediante obedincia ao poder impositivodo Estado, dou a cada um a segurana relativa a seu direito.11

    Embora o uso do termo contrato no ocorra, Kant assinala que a frase deUlpiano, d a cada um o seu, contm uma redundncia porquanto no se pode dar aalgum o que j lhe pertence a menos que a prescrio seja convertida na idia unificadorade um estado de princpios jurdico, a qual sirva como ponto de referncia para todoprocesso real de unificao coletiva que tenha a justia por norma interna, vale dizer, degarantir que aquilo que se tem no seja subtrado por mos alheias. O terceiro princpioprescreve, assim, a criao do Estado de direito. Pois, dada a limitao do espao daterra, escreve O. Hffe, o contato com outrem fatal e, devido vedao da ilicitude, asociedade inevitvel tem que ser configurada nos moldes do direito.12

    J o princpio do direito contm a necessidade jurdica de passar da vontadeunificada para o complexo da legislao de leis estatais. O direito kantiano da huma-nidade equivale ao direito de usufruir uma liberdade definida e assegurada por leisgerais cujo marco distintivo a obrigao racional de cumprir o preceito de no lesarningum, estabelecendo e mantendo um sistema estatal de segurana jurdica. O direi-

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    A R T I G OA R T I G OA R T I G OA R T I G OA R T I G O6262626262 Tempo da Cincia ( 11 ) 22 : 57-80, 2 semestre 2004

    to da humanidade implica invariavelmente o direito institucionalizao de condiesque assegurem sua eficcia normativa. Como a instituio estatal oferece tal seguran-a, o Estado no uma grandeza exterior ao direito racional kantiano, mas contm ascondies de realizao e a eficincia do ltimo. Sem Estado, escreve Kersting, odireito racional no iria adquirir realidade no espao e no tempo.13 Segundo Kant, aautonomia poltica somente atingida quando o povo por meio de seus representantestem o domnio sobre si mesmo e a liberdade de todos os cidados limitada unicamen-te por meio de leis genrico-abstratas que tm a seu favor a presuno da justia.

    Sob este aspecto, o postulado do direito pblico, derivado explicitamentepor Kant do estado natural, no passa de corolrio da obrigao necessariamenteligada ao direito de humanidade, a saber: dever abandonar o estado natural (exeundume statu naturali). Fazer parte do contrato social, resume Thompson, constitui odever absoluto e primrio de cada pessoa, de modo que se submeter obrigaopoltica no apenas permissivo, mas perfaz uma exigncia da razo.14

    O que inato a cada homem (meum vel tuum internum) ap...

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