Direito Fundamental De Greve Sob Uma Nova Perspectiva, O

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  • 1O DIREITO FUNDAMENTALDE GREVE SOB UMANOVA PERSPECTIVA

  • 2Para voc, fonte inesgotvel de felicidade, obrigado.

    Claudio Armando Couce de Menezes

  • 3O DIREITO FUNDAMENTALDE GREVE SOB UMANOVA PERSPECTIVA

    CLUDIO ARMANDO COUCE DE MENEZES

    Desembargador do Trabalho. Mestre e Doutorando em Direito do Trabalho.

  • 1ndice para catlogo sistemtico:

    EDITORA LTDA.

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

    R

    Rua Jaguaribe, 571CEP 01224-001So Paulo, SP BrasilFone (11) 2167-1101www.ltr.com.brProduo Grfica e Editorao Eletrnica: RLUXProjeto de capa: RAUL CABRERA BRAVOImpresso: PIMENTA GRFICA E EDITORAJunho, 2013

    Todos os direitos reservados

    1. Direito fundamental de greve : Direito dotrabalho 34:331.89

    Menezes, Cludio Armando Couce deO direito fundamental de greve sob uma novaperspectiva / Cludio Armando Couce de Menezes. So Paulo : LTr, 2013.

    Bibliografia.

    1. Direito de greve 2. Direito do trabalho3. Direitos fundamentais 4. Greves I. Ttulo.

    13-05714 CDU-34:331.89

    Verso impressa - LTr 4825.2 - ISBN 978-85-361-2590-9

    Verso digital - LTr 7609.3 - ISBN 978-85-361-2653-1

  • 5SUMRIO

    Prefcio ...................................................................................................................... 9

    Introduo ...................................................................................................................... 11

    1. Direito humanos, cultura e ideologia ......................................................................... 15

    2. Direitos humanos e fundamentais. Noes ................................................................ 21

    3. Princpios da progressividade e da irreversibilidade ................................................. 25

    4. A greve como direito humano e fundamental ............................................................ 40

    5. A titularidade do direito de greve ............................................................................... 48

    5.1. Apresentao do problema .................................................................................. 48

    5.2. Definio do sujeito do direito de greve ............................................................. 50

    5.2.1. Tratados internacionais, resolues e decises de direito internacional .... 50

    5.2.2. Direito comparado ..................................................................................... 51

    5.2.2.1. Comunidade Europeia ................................................................. 51

    5.2.2.2. Espanha ......................................................................................... 51

    5.2.2.3. Frana ........................................................................................... 53

    5.2.2.4. Outros pases ................................................................................ 53

    5.2.2.5. Argentina ....................................................................................... 53

    6. Greve. Incompatibilidade e irritaes com a sua natureza de direito humano e fun-damental ..................................................................................................................... 57

    6.1. Apresentao do problema .................................................................................. 57

    6.2. Caracterizao, espcies, objetivos e alcance da greve ....................................... 58

    6.3. Aes e medidas judiciais .................................................................................... 71

    6.3.1. Apresentao do problema ........................................................................ 71

    6.3.2. Interditos possessrios ............................................................................... 72

    6.3.3. Cautelares, antecipao de tutela, dissdios de greve e outras medidas ju-diciais ......................................................................................................... 79

    6.4. Multas e indenizaes .......................................................................................... 83

    6.4.1. Multas ........................................................................................................ 83

    6.4.2. Indenizaes .............................................................................................. 86

    6.5. Sanes aos grevistas ........................................................................................... 88

    Concluses ..................................................................................................................... 97

    Referncias Bibliogrficas ............................................................................................. 101

  • 6

  • 7Um passo faz moverem mil fios,/ As lanadeiras vo e vm/Os fios correm invisveis/ Cada movimento cria mil laos

    (GOETHE).

    Se tiveres cabea, fora, brio,/ Quando tudo parece que recua,/ Em tihouver apenas um vazio/ E a vontade que diz: CONTINUA

    (RUDYARD KIPLING).

    Sai da tua infncia, amigo, desperta!(ROUSSEAU).

    Pertence aos mecanismos da dominaoproibir o conhecimento do sofrimento

    (ADORNO).

  • 8

  • 9PREFCIO

    O direito de greve, assegurado pelo art. 9 da Constituio Federal, constituiuma das grandes conquistas da classe trabalhadora, como forma de lograr xitonum processo de negociao coletiva. A greve no uma forma de soluo doconflito coletivo do trabalho, o qual se resolve pela autocomposio ou pelaheterocomposio. A greve , isto sim, um meio eficiente de forar o empregadora negociar, ou a ceder no curso do processo de negociao, buscando concretizara autocomposio.

    O Direito do Trabalho surgiu do conflito entre trabalhadores e tomadoresde servios, a fim de buscar o equilbrio das relaes protagonizadas por atoresem flagrante posio desigual. Basta lembrar seu nascimento com a RevoluoIndustrial, no sculo XVIII, momento em que a explorao desmedida do trabalhohumano alcanou formas de violncia impressionantes. Foi o reconhecimentodos direitos aos trabalhadores e a limitao ao poder dos empregadores quepossibilitaram a busca do equilbrio referido.

    neste cenrio que se encontra o direito de greve, pois uma forma deautodefesa dos interesses dos trabalhadores, que buscam pelo seu exerccioforar o empregador negociao, ou mesmo ceder s reivindicaes dostrabalhadores.

    Dvida no h no sentido de que a greve provoca prejuzos atividadeempresarial, pela recusa dos trabalhadores ao trabalho, e exatamente poreste fato que ela um poderoso instrumento de negociao. No obstante, trata-se de direito reconhecido pelo art. 9 da Constituio Federal.

    Eis porque preciso compreender a greve como um direito constitucio-nalmente assegurado e, para tanto, precisamos de slidos fundamentos e ricapesquisa a respeito do instituto. O livro O Direito Fundamental de Greve sobuma nova Perspectiva, do magistrado e professor Claudio Armando Couce deMenezes, uma valiosa e oportuna contribuio para aprender sobre o tema.

    A obra tem incio com o estudo introdutrio dos direitos humanos efundamentais, da cultura e da ideologia, fundamentos essenciais compreensodo universo em que se inserem os direitos dos trabalhadores. Segue-se o examedos princpios da progressividade e da irreversibilidade, que encerra a parteintrodutria do livro, como pano de fundo para o leitor poder ingressar deforma segura no exame do tema central.

  • 10

    A seguir o autor detm-se no exame da greve, assim considerada comodireito humano e fundamental, alm do estudo do sujeito do direito. Neste passoo livro ocupa-se dos tratados e demais fontes do direito internacional, ingressandono exame do direito estrangeiro.

    O autor abre um captulo com o curioso ttulo de incompatibilidade eirritaes com a natureza da greve de direito humano e fundamental, que retratauma perspectiva de parte da sociedade que no conhece o tema e reage diantedo exerccio do direito constitucional. Apresenta a questo, examinando acaracterizao, espcies, alm de objetivo e alcance da greve.

    Segue-se o estudo das aes judiciais decorrentes do exerccio da greve,especificamente o interdito proibitrio, as medidas cautelares e o dissdiocoletivo de greve. Finaliza o livro o estudo das multas e indenizaes, que podemadvir da greve, alm de sanes aos grevistas.

    Como se v, trata-se de rico e criativo exame do instituto de maior relevnciano direito coletivo do trabalho e que tem com autor o renomado magistrado,jurista e professor Cludio Armando Couce de Menezes.

    Alm de sua larga experincia como Desembargador do Trabalho, que integrao Tribunal Regional do Trabalho da 17 Regio, com sede na cidade do EspritoSanto, o autor possui reconhecida bagagem cultural e slida formao acadmica.

    O magistrado e professor Cludio Armando Couce de Menezes foi membrodo Ministrio Pblico do Trabalho, onde ingressou por concurso pblico e, aseguir, igualmente mediante concurso pblico, ingressou na Magistratura doTrabalho, ocupando os cargos de juiz substituto, juiz titular de Vara do Trabalhoe desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 17 Regio. Foi Vice-Presidente e Presidente daquela Corte, alm de ter atuado como convocado noTribunal Superior do Trabalho.

    Mestre em Direito do Trabalho pela Pontifcia Universidade Catlica deSo Paulo, doutorando na mesma rea nesta Universidade, alm de possuir ottulo de especialista e investigador internacional em direito e ser doutorandopela Universidade de Castilla de La Mancha, na Espanha. Ademais, tem largaexperincia no magistrio superior, em cursos de formao profissional na reado direito, alm de ser autor de obras jurdicas.

    Eis porque a obra que traz para publicao O Direito Fundamental deGreve sob uma nova Perspectiva, resultado da concluso do curso em queobteve seu doutoramento em direito, pela Universidade de Castilla de La Mancha Espanha, de grande valia para todos ns e contribui sobremaneira para acorreta compreenso do instituto da greve no Direito do Trabalho, enriquecendoa bibliografia do Direito do Trabalho.

    Pedro Paulo Teixeira ManusMinistro do Tribunal Superior do TrabalhoProfessor Titular da Pontifcia Universidade

    Catlica de So Paulo

  • 11

    INTRODUO

    A greve, fato social por excelncia, pelas suas repercusses, tornou-se objetodo Direito. Primeiro como ato ilcito; aps como fato e ato jurdico e, com aevoluo da sociedade, como Direito. Contudo, independentemente de seureconhecimento formal pelo direito positivo, constitui-se em um fato social inerenteaos interesses contrapostos existentes na sociedade. Traduz um anseio de alterar,inverter, superar a situao das classes sociais ou categorias profissionais.

    Todos os direitos dos trabalhadores remontam ou tm como caldo decultura as lutas obreiras, que encontram na greve um instrumento preciosopara implementar suas reivindicaes e, outrossim, para combater a opressoeconmica, a degradao de suas condies de vida e trabalho, o descumprimentoou a burla dos deveres dos empregadores.

    O direito de greve , em realidade, a conquista dos trabalhadores que maisincomoda aos empresrios, dirigentes de empresa, organizaes patronais,setores conservadores da sociedade (e at mesmo ao Estado), que buscam, noraro, enquadrar, restringir, regulamentar, quando no impedir o seu exerccio.

    No poderia ser de outro modo, pois um direito que se imps aosempregadores, tomadores de servio e ao Estado. Portanto, consiste a greve emarma bsica do trabalhador na eterna luta pela sua dignidade como ser humanoe pelo reconhecimento e efetivao de seus direitos.

    Recorde-se que a dignidade da pessoa humana compreendida comoqualidade integrante e irrenuncivel da prpria condio humana. asseguradaa cada um, fazendo-o merecedor de um complexo de direitos e liberdadesfundamentais que devem ser respeitados pelo Estado, pela sociedade e pelosparticulares.

    Neste sentido, vale lembrar que a Declarao Universal dos DireitosHumanos, apesar de no tratar expressamente do direito de greve, em seuprembulo ressalta ser essencial que os Direitos Humanos sejam protegidos porum regime de direito, a fim de que o homem no se veja compelido ao supremorecurso da rebelio contra a tirania e a opresso. Em seus arts. 22 a 26, entreoutros, estabelece os Direitos Humanos que incluem o Direito ao Trabalho, acondies dignas e isonmicas de labor, a uma remunerao equitativa esatisfatria, a um nvel de vida adequado, maternidade, proteo, infnciae educao.

  • 12

    J o Pacto Internacional de Direitos Econmicos, Sociais e Culturaispreceitua, em seu art. 8, inciso I d, que os Estados asseguraro o direito degreve.

    Por sua vez, a Declarao Sociolaboral do Mercosur, reafirmando a naturezada greve e sua relevncia, decreta que ela diz respeito a todos os trabalhadores esuas organizaes sindicais, sendo vedado impedir o seu livre exerccio (art. 11).

    E o Comit de Liberdade Sindical da Organizao Internacional do Trabalho OIT erige igualmente a greve como Direito Fundamental dos trabalhadores,apontando como um meio essencial para que estes promovam e defendam seusinteresses, conforme atestam suas ementas ns. 363 e 364, transcritas abaixo:

    O DIREITO DE GREVE DOS TRABALHADORES E SUAS ORGANIZAES CONSTITUI UMDOS MEIOS ESSENCIAIS DE QUE DISPE PARA PROMOVER E DEFENDER SEUS INTERESSESPROFISSIONAIS.

    O COMIT SEMPRE ESTIMOU QUE O DIREITO DE GREVE UM DOS DIREITOSFUNDAMENTAIS DOS TRABALHADORES E DE SUAS ORGANIZAES,...

    De modo que o Direito Humano e Fundamental de greve, assegurado porTratados e Convenes Internacionais, mediante seu livre e amplo exerccio,permite ao cidado que labora ter acesso de fato a sade, lazer, remunerao etrabalho dignos e um meio ambiente saudvel, tornando palpveis as normas eregras que tratam desses Direitos Humanos e de outros consagrados como taisnos instrumentos de direito internacional e nas Constituies dos pasescivilizados. Se os trabalhadores no encontrarem real e efetivo acesso greveem uma sociedade capitalista, com interesses econmicos e sociais contrapostos onde a distribuio da riqueza feita, em regra, em favor de uma minoriaque se apropria da riqueza para distribu-la por meio de salrio, o mais baixopossvel, ou mediante benefcios que no afetem significativamente seus ganhos os demais Direitos Humanos e Fundamentais seriam na prtica totalmentenegados.

    Os Direitos Humanos Fundamentais, como o de greve, devem ser retiradosda priso da mera retrica para alcanar o nvel que merecem. De modo queoperadores do direito, legisladores e rgos do Estado estaro em condies deamparar plenamente a greve frente aos obstculos que lhes so contrapostos.Destarte, os Direitos Humanos, inclusive os sociais, sero levados a srio, paraganhar real suporte e expresso de acordo com os princpios pro homine e indubio pro justitia sociales.

    Impe-se a lembrana do imperativo moral e jurdico de uma culturademocrtica das relaes laborais, individuais e coletivas, pautada pelaobservncia dos Direitos Fundamentais da Pessoa Humana, cabendo aosempregadores e suas organizaes reconhecerem o trabalhador como cidadopleno, sem outra alternativa que o minucioso respeito de todo arsenal protetivo

  • 13

    construdo em seu favor, cabendo ao Estado o dever de proporcionar e garantira eficcia de todos esses direitos.

    preciso, pois, evitar a penalizao ou criminalizao da greve como ocorrequando so pedidas (e deferidas) liminares, declaraes de abusividade domovimento, interditos possessrios, multas e indenizaes vultuosas contra asentidades obreiras e denncias penais contra dirigentes sindicais.

    Sempre bom lembrar que a greve no um delito! um DireitoFundamental assegurado por Tratados e Convenes Internacionais e pordiversos textos constitucionais. No Brasil, exemplificativamente, a ConstituioFederal, no seu art. 9, diz que cabe aos trabalhadores a anlise da conveninciae oportunidade de sua deflagrao; por conseguinte NO PODE SERCERCEADA PELA LEI TAMPOUCO PELO JUDICIRIO!

    Outrossim, pretendemos discutir a questo do exerccio desse direito porum coletivo de trabalhadores, questionando a legitimidade exclusiva dasentidades sociais, tendo em vista a natureza do direito e o enfraquecimentodas organizaes obreiras resultante da descentralizao produtiva e de outrosfatores que consideramos tambm relevantes.

    Outro ponto que no deve ser olvidado de irritao com a sua natureza deDireito Humano Fundamental, consiste na limitao dos objetivos da greve oua sua adstrio a conceitos (ou preconceitos) estabelecidos sem a devidaobservncia da realidade contempornea.

    Tambm cabe destacar que este importante meio de tutela coletiva somenteencontrar o devido respeito que merece na construo e efetivao dos DireitosSociais se coibidos os atos de retaliao e discriminao contra grevistas elideranas obreiras.

    Entendemos que a presente exposio de extrema relevncia para omundo jurdico e tambm social, contribuindo para uma sociedade mais iguale, assim, mais justa, que reafirme a Dignidade do Trabalhador e os PrincpiosBasilares do Estado Democrtico de Direito.

  • 14

  • 15

    DIREITOS HUMANOS.CULTURA E IDEOLOGIA

    Discute-se na doutrina se os chamados Direitos Humanos ou direitos dohomem so efetivamente direitos ou meros critrios morais indispensveis convivncia humana. Para algumas vozes, a natureza de direito afastada quandono h a integrao no direito positivo. Ao contrrio, quando positivados,passariam a ser denominados Direitos Fundamentais.

    Apenas nos ocuparemos desta distino no item seguinte. Interessa-nos,no momento, refletir se as diferentes culturas e ideologias dos povos podem serequalizadas de modo a defender uma possvel universalidade dos DireitosHumanos, por meio de uma postura crtica que persiga novos paradigmas.

    Historicamente, trata a doutrina ptria e estrangeira das trs dimensesdos Direitos Humanos em que a primeira a dos Direitos Civis individuais(1) eencerram direitos de absteno do Estado perante o indivduo (direitosnegativos); a segunda dos Direitos Polticos(2) e tratam de direitos de prestaodo Estado ao indivduo (direitos positivos); e, por fim, a terceira dimenso que a de Direitos Sociais(3) em que o indivduo tem participao ativa na esferapblica de decises do Estado.

    A partir da Declarao dos Direitos do Homem de 1948, comea aestruturar-se uma quarta dimenso dos Direitos Humanos que a dos Direitosde Solidariedade em que os indivduos, tanto nas esferas privadas como pblicas,atuam em regime de cooperao. a primeira vez que se consolida auniversalidade dos Direitos Humanos.(4)

    Inicialmente, o debate acerca da universalidade deu-se no eixo ideolgicocomunismo-capitalismo e na diversidade religiosa e cultural entre os pases

    1

    (1) Nascida a partir das Declaraes de Virgnia de 1776 e Declarao dos Direitos do Homem e doCidado de 1789.(2) A partir do sculo XIX com o advento da Revoluo Industrial.(3) A partir do incio do sculo XX, com o advento da Revoluo Russa, Constituio Mexicana de 1917e Constituio de Weimar de 1919.(4) De se ressaltar que, apesar do projeto de universalizao, o grupo de trabalho da Comisso de DireitosHumanos das Naes Unidas, encarregado da redao do Projeto da Declarao Universal de Direitos Hu-

  • 16

    participantes. Atualmente, h discusses mltiplas, cabendo especial destaquequelas realizadas entre pases desenvolvidos, em desenvolvimento esubdesenvolvidos.

    Como adverte Herrera Flores(5), cabe rever o panorama que norteou aDeclarao dos Direitos Humanos de 1948, e as suas mudanas, que, decerto,culminaram na atual dialtica e postura crtica ante a dita universalizao dosdireitos chamados de essncia.

    Em 1948, os objetivos para a declarao dos direitos do homem eramdois: (i)a descolonizao dos pases e regies submetidos ao poder e ao saqueioimperialista das grandes metrpoles; e (ii) a consolidao de um regimeinternacional ajustado nova configurao de poder surgida depois da terrvelexperincia das duas guerras mundiais, a qual culminou na Guerra Fria entredois sistemas contrapostos. Neste contexto, a declarao apresentava uma visoideal e metafsica da pessoa humana, com definio universal, ante asmltiplas resistncias da poca.(6)

    Em verdade, o conceito de Direitos Humanos que se imps neste momentobaseou-se em dois fundamentos: a universalidade absoluta dos Direitos Humanose o fato de fazerem parte inata do ser humano. Apresentavam-se como essnciasimutveis e no como produtos de hbitos e culturas surgidas de contextoshistricos especficos.(7)

    Destarte, ningum poderia contrariar tais conceitos, sob pena de contrariaras caractersticas da natureza e os mistrios de um conceito de dignidade dapessoa humana vago e genrico.(8)

    Este conceito surgiu como uma forma de proteo do ser humano contraas atrocidades histricas praticadas (escravido, os campos de concentrao,os genocdios).

    O fundamento de validade dos Direitos Humanos, aqui, o prprio homemem sua dignidade substancial de pessoa, diante da qual as especificaesindividuais e grupais so sempre secundrias.(9)

    manos, inclua nacionais dos seguintes pases: Bielorssia, Estados Unidos, Filipinas, Unio das RepblicasSocialistas Soviticas, Frana e Panam. Durante a aprovao do texto final, dos cinquenta e oitoEstados membros das Naes Unidas no ano de 1948, quarenta e oito votaram a favor, nenhumcontra, oito se abstiveram e dois estavam ausentes. Os pases que se abstiveram foram: Bielorssia,Checoslovquia, Unio das Repblicas Socialistas Soviticas, Polnia, Ucrnia, frica do Sul, Iugoslviae Arbia Saudita, como nota Flavia Piovesan em obra sobre o tema. PIOVESAN, Flvia. Direitoshumanos e o direito constitucional internacional. So Paulo: Max Limonad, 2002. p. 145, nota 181.(5) FLORES, Joaquin Herrera. Los derechos humanos como productos culturales crtica del humanismoabstracto. Madrid, Los Libros de la Catarata, 2005. p. 69.(6) FLORES, Joaquin Herrera. Ob. cit., p. 70.(7) FLORES, Joaquin Herrera. Ob. cit., p. 71.(8) FLORES, Joaquin Herrera. Ob. cit., p. 71.(9) FLORES, Joaquin Herrera. Ob. cit., p. 71.

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    Como diz Velsquez el mejor escudo contra las violaciones de la dignidadson los derechos humanos. Pero la dignidad hay que asegurarla tambin pordentro. Lo que est em juego es la idea misma de ser humano(10)

    A abstrao e a universalizao absoluta dos direitos essenciais, em buscada proteo do ser humano e sua individualizao contra o prprio homemopressor, na poca, foram defendidas e textualizadas em vrios documentosnormativos. Pode-se citar, como exemplos, a afirmao primeira da DeclaraoUniversal dos Direitos do Homem, mediante a afirmao de que todos os sereshumanos nascem livres e iguais, em dignidade e direitos (art. 1). A Constituioda Repblica Italiana, de 27 de dezembro de 1947, declara que todos os cidadostm a mesma dignidade social (art. 3). A Constituio da Repblica FederalAlem, de 1949, proclama solenemente em seu art. 1 que a dignidade do homem inviolvel. Respeit-la e proteg-la dever de todos os Poderes do Estado.Analogamente, a Constituio Portuguesa de 1976 se inaugura com aproclamao de que Portugal uma Repblica soberana, baseada na dignidadeda pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construo de umasociedade livre, justa e solidria. Para a Constituio Espanhola de 1978, adignidade da pessoa, os direitos inviolveis que lhe so inerentes, o livredesenvolvimento da personalidade, o respeito lei e aos direitos alheios so ofundamento da ordem poltica e da paz social (art. 10). A Constituio Brasileirade 1988, por sua vez, pe como um dos fundamentos da Repblica a dignidadeda pessoa humana (art. 1 III).

    Essa viso dos Direitos Humanos, como uma construo fundada nanegatividade na busca da proteo contra sua negao, exposta com clarezapelo filsofo Fanois Jullien, professor da Universidade de Paris VII(11), quandosalienta que devemos admitir que somos fruto da experincia contingente, mastambm da utopia universal emancipatria trazida pela busca dos DireitosHumanos, cuja universalidade somente encontra seu sustentculo pela suanegatividade, por aquilo contra o qual se volta. E na ausncia que a busca pelouniversal se torna premente.

    A necessidade premente de se proteger de si mesmo acabou porexteriorizar o movimento humano de criao e manuteno de suas garantiascomo ser integrante da sociedade e, por que no dizer, da histria dahumanidade, por meio da delegao de valores intrnsecos a uma ordem abstrata,universal, e que, na poca, se consubstanciava no Estado do Bem-Estar Socialresponsvel pela garantia dos ditos valores. O pensamento, aqui, se revela smile

    (10) VELASQUEZ, Jos Luis. La fundamentacin de la dignidad. In: Biotica: la cuestin de la dignidad.Madrid: Universidad Pontificia Comilas, Lydia Feito Editora, 2004. p. 108.(11) Em sua obra O dilogo entre culturas: do universal ao multiculturalismo. Rio de Janeiro: JorgeZahar, 2001. p. 156.

  • 18

    ao que j havia teorizado KANT, em seu imperativo categrico, isto , uma leiprtica incondicional ou absoluta, que serve de fundamento ltimo para todasas aes humanas.

    Contudo, se inicialmente o conceito ideal e abstrato dos Direitos Humanosrepresentava uma medida de emergncia satisfatria a defender, de formaimediata, a humanidade dos horrores provocados pelo prprio homem nocontexto ps-guerra, verificou-se, com o passar do tempo, que os benefcioseram menores do que os malefcios de uma postura que acabava por se mostrarpassiva diante da evoluo da sociedade. A primeira consequncia o surgimentode uma postura negativa, segundo Flores(12), pois se todos os homens possuemtodos os direitos e liberdades pelo mero fato de terem nascido e existirem, todosso responsveis por no assegurar a eficcia daquilo que j tm.

    Se o homem o prprio fundamento de validade dos Direitos Humanos e,por excelncia, sujeito ativo das relaes que se constroem na histria dasociedade, esta mesma histria acabou por mostrar a impossibilidade demanuteno da viso globalizada e genrica dos Direitos Humanos.(13)

    Trilhando senda paralela, Boaventura de Souza Santos, em trabalhospublicados sobre o tema, afirma categoricamente que no se pode dizer que osDireitos Humanos, em um contexto de sobreposio cultural pelo imperialismoda globalizao hegemnica, possa ser considerado universal.

    Sustenta que, na verdade, os valores ocidentais so impostos como se fossemuniversais. Destaca o autor:

    Enquanto forem concebidos como Direitos Humanos universais, os Di-reitos Humanos tendero a operar como localismo globalizado e, portanto,como uma forma de globalizao hegemnica. Para poderem operar comoforma de cosmopolitismo, como globalizao contra-hegemnica, os Di-reitos Humanos tm de ser reconceitualizados como multiculturais(14)

    Defende, assim, a construo de um novo paradigma por meio do dilogocultural e de uma hermenutica diatpica(15) que possibilitar a comunicao

    (12) FLORES, Joaquin Herrera. A (re) inveno dos direitos humanos. Florianpolis: Fundao Boiteux,2009. p. 52.(13) FLORES , Joaquin Herrera. Ob. cit., p. 53.(14) SANTOS, Boaventura de Sousa. Por uma concepo multicultural de Direitos Humanos. In: SANTOS,Boaventura de Sousa (org). Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo cultural. Rio deJaneiro: Civilizao Brasileira, 2003. p. 438.(15) A hermenutica diatpica baseia-se na ideia de que os topos de uma dada cultura, por maisfortes que sejam, so to incompletos quanto a prpria cultura a que pertencem. Tal incompletude

    no visvel do interior dessa cultura, uma vez que a aspirao totalidade induz a que se tome a

    parte pelo todo. O objetivo da hermenutica diatpica no , porm, atingir a completude um

    objectivo inatingvel mas, pelo contrrio, ampliar ao mximo a conscincia de incompletude

  • 19

    intercultural e a transformao dos topoi(16) das diversas culturas, de forma atornarem-nas uma poltica cosmopolita, mutuamente inteligveis e traduzveis.

    Conclui o texto, reconhecendo a dificuldade de implementao de suateoria, mas se mantendo firme em seus ideais:

    Este projecto pode parecer demasiado utpico. Mas, como disse Sartre,antes de ser concretizada, uma ideia tem uma estranha semelhana com autopia. Seja como for, o importante no reduzir o realismo ao que existe,pois, de outro modo, podemos ficar obrigados a justificar o que existe, pormais injusto ou opressivo que seja.(17)

    Flores(18), retomando o discurso crtico sobre os Direitos Humanos, adverteque: A impossibilidade de imposio de valores fixos e universais in abstractu,ante a velocidade da mutao e fragmentao das relaes, remete urgnciade uma nova estruturao da ordem mundial, a qual no visa transformaodas relaes sociais e econmicas na sua totalidade, mas tem a finalidadeconcreta de evitar o abismo econmico entre os mais e menos afortunados nomarco do Estado interventor.

    Sinaliza-se o incio de conscincia direcionada resistncia ativa posturapassiva do ser humano como ser que j traz, em si mesmo ou delega integralmentea ente, todos os valores necessrios expresso dos Direitos Humanos. Amudana de paradigmas consiste em prticas sociais nmades, ou mobilidadeintelectual para adequar prticas polticas, deveres do ser humano em relao sociedade e sua efetivao, movimentos sociais, sejam positivados atravs denorma legal, ou em grau relevante de atuao ftica.(19)

    mtua atravs de um dilogo que se desenrola, por assim dizer, com um p numa cultura e outro,noutra. Nisto reside o seu carter dia-tpico. SANTOS, Boaventura de Sousa. As tenses damodernidade. Disponvel no site Globalismo Jurdico: . Acesso em: 24.6.2009.(16) Os topoi so os lugares comuns retricos mais abrangentes de determinada cultura. Funcionamcomo premissas de argumentao que, por no se discutirem, dada a sua evidncia, tornam possvela produo e a troca de argumentos. Topoi fortes tornam-se altamente vulnerveis e problemticosquando usados numa cultura diferente. SANTOS, Boaventura de Sousa. Ob. cit. Acesso em: 24.6.2009.(17) SANTOS, Boaventura de Sousa. Ob. cit. Acesso em: 24.6.2009.(18) FLORES, Joaquin Herrera. Ob. cit., p. 76.(19) Joaquin Herrera Flores sugere, para esta nova perspectiva, que sejam utilizados elementos deintegrao: j no podemos falar de duas classes de Direitos Humanos: os individuais ( liberdadespblicas) e os sociais, econmicos e culturais. S h uma classe de direitos para todas e todos: osDireitos Humanos. A liberdade e a igualdade so as duas faces da mesma moeda. Uma sem a outranada so fls. 74. Defende que no mais seja utilizada a definio clssica das dimenses de direitos,sob pena de se criar certa hierarquia entre elas), crtica (vinculao entre os Direitos Humanos e aspolticas de desenvolvimento social, no podem ser dois momentos distintos, mas devem ocorrer deforma concomitante, sob pena de um no acompanhar o outro, acarretando a maior disparidade entreas classes sociais) e prticas sociais emancipadoras ( trata-se do intervencionismo humanitrio, ou acontextualizao dos Direitos Humanos por meio de luta de grupos sociais empenhados em promovera emancipao humana ob. cit., p. 77-78.

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