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  • Direito Empresarial III Prof. Carlos da Fonseca Nadais

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    Teoria Geral dos Ttulos de Crdito (mdulo 01)

    1. Noes histricas - evoluo do escambo para o crdito

    O ttulo de crdito serve para colocar no papel um crdito que algum tem contra uma pessoa. Faz parte do direito das obrigaes e a obrigao sempre vai ter contedo econmico, seja ela de dar, fazer ou no fazer, mas principalmente dar (coisa certa ou incerta). Tem natureza de troca (dinheiro por documento). Assim para um melhor entendimento acerca de ttulos de crdito, devemos, antes, analisar o instituto do crdito.

    1.1. A doutrina (sem citar autores) elaborou os seguintes conceitos econmicos de crdito:

    a) Crdito a troca no tempo e no no espao;

    b) Crdito a permisso de usar capital alheio;

    c) Crdito o saque contra o futuro e,

    d) Crdito confere poder de compra a quem no dispe de recursos.

    e) troca de uma prestao atual por uma prestao futura.

    Assim podem sintetizar um conceito de crdito como a possibilidade de dispor imediatamente de bens presentes, atravs de um recurso prprio ou de terceiro, que estar disponvel no futuro.

    Tambm temos o conceito natural de crdito, pertinente ao sentido etmolgico. O temo crdito deriva do latim creditum, que por sua vez deriva de credere, que significa confiana, ter f. Logo crdito est intimamente ligado confiana, fidcia, entre credor e devedor. Mitigando o primeiro contexto - econmico - representa o poder de compra conferido a algum que no tem condio de pag-lo vista, mas que se tem confiana que o ter no futuro, far o respectivo pagamento.

    Percebemos ento que, aglutinando esses dois conceitos temos que o crdito composto pelos seguintes elementos: fidcia (confiana) e tempo.

    1.2. Os crditos podem ser classificados em funo:

    1.2.1. da sua garantia: a) crdito real, quando estiver garantido por um determinado bem do devedor (penhor/mveis ou hipoteca/imveis), ficando esse bem vinculado ao cumprimento da obrigao; b) crdito pessoal, quando estiver garantido pela integridade dos bens do devedor (fiana e aval) e no por um bem especfico;

    1.2.2. da finalidade de sua utilizao: a) crdito para consumo, quando utilizado para satisfao de suas necessidades individuais; b) crdito para produo, quando utilizado para produo de determinados bens (comercial, industrial, agrcola, imobilirio, etc...);

    1.2.3. do tempo decorrido entre cumprimento da obrigao atual e da futura: a) curto, b) mdio ou c) longo prazo;

    1.2.4. do instrumento de sua realizao: a) ttulo de crdito; b) contrato (mtuo, venda a prazo, etc...);

    1.2.5. da pessoa que se beneficia do crdito (tomador do crdito): a) privado ou b) pblico;

    1.2.6. do local da obteno do crdito: a) interno ou b) externo;

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    2. Obrigao Cambial

    Temos como Direito Obrigacional o conjunto de normas que regula as relaes entre as pessoas, onde uma pode exigir uma prestao da outra, ou seja, entre o sujeito ativo, credor ou accipiens, e o sujeito passivo, devedor ou solvens.

    As prestaes podem ser de dar (coisa certa ou incerta); fazer ou no fazer.

    O vnculo jurdico obrigacional que pode nascer do contrato, da lei, de um ttulo de crdito, de uma sentena, etc. Desse modo a obrigao cambial tem como vnculo jurdico obrigacional um ttulo de crdito

    Vrias so as teorias para determinar as fontes da obrigao em um ttulo de crdito:

    2.1. Teoria contratualista: para esta teoria a natureza da obrigao assumida no ttulo de crdito seria derivada de um contrato. O emitente de um ttulo de crdito se obriga, em razo de uma relao contratual subjacente. Esta teoria sofreu inmeras crticas, pois, no consegue explicar o princpio da autonomia das obrigaes, uma vez que, se a obrigao cambiria surge consubstanciada em um contrato, ento, o terceiro que receber o ttulo estar adquirindo direito derivado e no autnomo e original como realmente ocorre.

    2.2. Teoria da declarao unilateral de vontade: para esta teoria, a fonte da obrigao cartular no seria um contrato, mas sim, uma declarao unilateral de vontade livre e incondicional do devedor. Esta teoria tambm sofreu inmeras crticas, pois, o emitente estaria sempre obrigado, ainda que houvesse excees pessoais, desde que o ttulo tenha sido emitido regularmente.

    2.3. Teoria dplice de Vivante: para esta teoria deve-se analisar a posio do devedor sob duas vertentes: i) perante seu credor: o fundamento ser o contrato; ii) perante terceiro de boa-f: o fundamento ser uma declarao unilateral de vontade. Desse modo, essa teoria mitiga ambas as anteriores.

    Baseado nessa teoria e nos conceitos dados por Vivante que se conceitua titulos de crdito, sendo abarcado pela legislao ptria no art. 887, CC, e retiramos algumas caractersitcas dos ttulos de crdito: cartularidade (i), literalidade (ii) e autonomia (iii), que se juntaro a outros atributos (mdulo 01 - item 5)

    Art. 887 CC. O ttulo de crdito, documento (i) necessrio ao exerccio do direito literal (ii) e autnomo (iii) nele contido, somente produz efeito quando preencha os requisitos da lei.

    3. Noes histricas - evoluo dos ttulos de crdito

    Os ttulos de crdito so documentos representativos de obrigaes pecunirias. No se confundem com a prpria obrigao, mas se distinguem dela na exata medida em que a representam. As obrigaes representadas em um ttulo de crdito ou tm origem extracambial, ou de um contrato de compra e venda, ou de mtuo, etc., ou tm origem exclusivamente cambial, como na obrigao do avalista.

    Os ttulos de crditos surgiram na Idade Mdia, com intuito de fomentar o comrcio, simplificando e agilizando as transaes comerciais. A evoluo da utilizao dos ttulos de crdito podem ser compartimentadas nos seguintes lapsos temporais:

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    a) Perodo italiano (at 1.650) Durante a Idade Mdia a estrutura poltica na Europa era o feudal, caracterizado pela descentralizao do poder. Na Itlia havia a proeminncia das cidades martimas, potncias comerciais, que atraiam grande quantidade de mercadores da poca. No havendo uma "moeda" de curso em todas cidades, surge ento o cmbio trajetcio, pelo qual o banqueiro ficava responsvel pelo transporte das moedas. Nesse procedimento tivemos o embrio da nota promissria - cautio - pois o banqueiro reconhecia a 'dvida' e comprometia-se a 'pag-la' na data e local determinados; e da letra de cmbio - littera cambii - pois tambm ordenava ao correspondente que pagasse a quantia ali determinada. Entretanto no tnhamos, ainda, a figura do endosso, os ttulos tinham beneficirios nicos e especficos

    b) Perodo francs (1.650 a 1848) Surgia, ento, o endosso, que possibilitava a circulao desses ttulos, independente da autorizao do sacador, utilizando-se da clusula ordem. Tambm estabeleceu-se a comprovao/garantia da existncia de fundos para a compensao da carta de crdito junto ao emitente pelo destinatrio.

    c) Perodo alemo (1.848 a 1930) Em 1848 tivemos a codificao de normas disciplinadoras cambiais, com vis internacionalizado, com a Ordenao Geral do Dirieto Cambirio. Houve a consolidao da letra de cmbio, como instrumento de crdito.

    No Brasil: Cdigo Comercial Decreto 2.044/1908 derrogou a parte de ttulos de crdito que havia no Cdigo Comercial. obs.1

    e) Perodo Uniforme (a partir de 1.930) Influenciada pela ordenao alem tivemos a elaborao da Lei Uniforme de Genebra (LUG), consolidando trs convenes: a) as partes contraentes - Estados - se obrigam a introduzir em suas respectivas legislaes a LUG (uniformizao espacial); b) regulamentao de controvrsias/conflitos de leis em matria de nota promissria e letra de cmbio; c) as partes contraentes se obrigam a no fazer depender a validade das obrigaes cambirias do cumprimentos de disposies internas pertinentes ao imposto do selo.

    No Brasil: As ratificaes dessas convenes se deram: b) Decreto 57.663/66 que visou uniformizar a letra de cmbio e nota promissria com a LUG; b) Decreto 57.595/66 pertinente a convenes sobre o cheque, e que foi revogada pela Lei 7.357/85; e Lei 5.794/68 que regula a duplicata, mas que determina, expressamente no seu art. 25, a utilizao subsidiria da LUG. Tais dispositivos sero objeto de anlise mais apurada quando do estudo de cada um desses ttulos de crdito.

    obs. 1. Nem todos os dispositivos da LUG entraram em vigor no Brasil, pois foram feitas algumas reservas, ou seja, reservou-se o direito de introduzir, parcialmente, em nosso ordenamento, a LUG, o que nos levou a um sistema hbrido, sendo uma parte regida pelo Decreto 2.044/08, outra pelos Decretos 57.663/66 e 57.595/66 e ainda pelo Cdigo Civil.

    4. Natureza jurdica dos ttulos de crdito:

    Ttulo de Crdito um ttulo executivo extrajudicial, conforme disposto no art. 585 do CPC, nesse contexto tambm denominado como ttulo falimentar, posto que falncia do devedor pode ser decretada com base na impontualidade (art. 94, I, L 11.101/2005); com base na prtica de atos de falncia (art. 94, II, L 11.101/2005) e com base na auto-falncia (art. 97, I cc art. 105, L 11.101/2005) - tais assuntos sero estudados mais amide em Direito Empresarial IV.

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    Art. 585 CPC. So ttulos executivos extrajudiciais: I - a letra de cmbio, a nota promissria, a duplicata, a debnture e o cheque; II - a escritura pblica ou outro documento pblico assinado pelo devedor; o documento particular assinado pelo devedor e por duas testemunhas; o instrumento de transao referendado pelo Ministrio Pblico, pela Defensoria Pblica ou pelos advogados dos transatores; III - os contratos garantidos por hipoteca, penhor, anticrese e cauo, bem como os de seguro de vida; IV - o crdito decorrente de foro e laudmio; V - o crdito, documentalmente comprovado, de

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