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DIREITO E LIBERDADE NA FILOSOFIA DE IMMANUEL KANT

LAW AND FREEDOM IN THE PHILOSOPHY OF IMMANUEL KANT

Leonardo Oliveira Freire

RESUMO: O propsito bsico desta exposio tratar do conceito de liberdade na Filosofia do Direito de Kant. Para tanto, preciso doravante tratar do conceito de liberdade a partir dos diferentes mbiles do agir humano e das diferentes esferas da ao, a fim de poder posteriormente circunscrever em que medida o conceito de liberdade se impe na concepo do livre agir no mbito do Direito. Palavras-Chave: Liberdade. Direito. Agir Humano. Kant. ABSTRACT: The primary purpose of this exposure is to treat the concept of freedom in Kant's Philosophy of Right. To do so, we must now deal with the concept of freedom from different ways of the human activity and the different spheres of action, in order to further on limit the extent to which the concept of freedom is necessary in the conception of the free act within the law (Justice). Keywords: Freedom. Right. Human action. Kant.

1 INTRODUO

Para o filsofo Immanuel Kant1 as leis da liberdade se diferenciam das

leis da natureza porque no descrevem o que , mas prescrevem o que deve ser,

isto , o que se deve fazer (cf. CRP A633/B661; FMC, BAIII-IV, p. 13; CRPrat. A77,

p.57; MC, p.18). Assim, as leis, que so princpios internos de motivao,

prescrevem uma obrigao e determinam as aes consideradas em si mesmas so

leis ticas ou da moralidade. Mas aquelas leis que so dirigidas a aes externas,

que prescrevem uma conduta determinada que podem ser avaliadas externamente,

apenas na medida em que esto em conformidade ou no com elas, so ditas

jurdicas:

Em contraste com as leis da natureza, essas leis da liberdade so denominadas leis morais. Enquanto dirigidas meramente a aes externas e sua conformidade lei, so chamadas leis jurdicas; porm, se adicionalmente requererem que elas prprias (as leis) sejam os fundamentos determinantes das aes, so leis ticas, e ento diz-se que a conformidade a leis jurdicas a legalidade de uma ao, e a conformidade

Doutorando pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE. Mestre em Filosofia pela

Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN. Especialista em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN e em Pericia Criminal pela Universidade Estcio de S. Oficial da Polcia Militar do Estado do RN. Natal Rio Grande do Norte Brasil.

1 Immanuel Kant (Knigsberg, 22 de abril de 1724 Knigsberg, 12 de fevereiro de 1804) foi um filsofo prussiano, geralmente considerado como o ltimo grande filsofo dos princpios da era moderna.

Revista Direito e Liberdade da Escola da Magistratura do RN, v. 13, n. 1

com as leis ticas sua moralidade. A liberdade qual as primeiras leis se referem s pode ser a liberdade no uso externo da escolha, mas a liberdade qual as ltimas se referem liberdade tanto no uso externo como no interno da escolha, porquanto determinada por leis da razo (KANT, 2004, p.18).

A distino entre os pontos de vista externo e interno da liberdade das

aes deriva aqui da seguinte noo bsica: se o fundamento da minha liberdade

no est na obedincia a uma norma racional que obriga internamente minha

vontade, mas sim na obedincia a uma norma que se apresenta como a condio

externa do meu agir, a saber, como uma legislao exterior, a liberdade externa e

seu mbil a legalidade. Sua orientao a lei fora de mim, ou seja, a lei prescrita

no texto ou ordenamento jurdico; por isso esta liberdade pode e tem que ser

definida como liberdade jurdica. Entretanto, se o fundamento da minha ao

encontra-se em minha razo (a lei moral em mim, CRPrat. A288, p. 183), isto ,

determinada por leis da razo (KANT,2004, p.18), a ao no procura nada externo,

mas antes a conformidade lei que em si mesma se apresenta, internamente,

como a conscincia moral da obrigao de agir por dever. Neste caso, a liberdade

interna e pode ser definida como liberdade do ponto de vista moral.

Ora, como para Kant o homem um ser livre em sua essncia, tem

obrigaes morais. Por esta sua liberdade inata, o ser humano ser moral, j que

no experimentaria obrigaes se no pudesse cumpri-las. Mas por ser no s livre,

mas tambm racional, ainda que finito, deve agir por dever. Sua ao no deve

apenas guiar-se conforme ao dever, mas deve ser efetuada por dever. A forma da

obrigao prescrita pelo dever aparece aqui como o prprio contedo da ao em

geral.

Mas visto que o ser humano um ser livre apenas por ser racional, por

possuir esta sua racionalidade imanente, como um ser racional livre o homem busca

viver em sociedade. No entanto, sua condio de sociabilidade problemtica, pois

o homem, apesar de ser racional, tambm sensvel e age por impulsos sensveis e

egostas. Assim, ocorre no homem um conflito, e para resolv-lo a razo cria a lei

exterior como uma coero legal, a afirmao por via negativa da prpria liberdade.

No mbito da legalidade, da liberdade externa, basta que o agir esteja em

conformidade ao dever (mesmo que a ao no tenha sido por dever); a ao no

representa a realizao do dever internamente autoimposto, mas a concordncia

externa com o mesmo na forma de uma lei exterior. No se trata, portanto, de um

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autoconstrangimento, como no caso da liberdade interna, no qual o imperativo

constrange minha inclinao. Trata-se antes de um constrangimento externo, em

funo da legislao externa que preserve deveres externos (MC II, p. 13 ss).

Assim, se pela liberdade interna podemos falar de um conceito de

intenes ou disposies morais que condicionam a escolha, no caso da liberdade

externa podemos falar do aspecto legal ou no das prprias escolhas, e mesmo da

sua coao. O que determina a ao pela norma externa o Direito. Este prescreve

o direito e o dever de agir no cumprimento da norma, respaldada por coero, no

sentido de que a lei externa prescreve uma sano para seu descumprimento. A

orientao legal dispe a realizao da liberdade externa, ou seja, da condio do

ser humano como ser livre no mundo com os outros. Portanto, a legalidade ganha

fundamento pela necessidade de coexistncia das liberdades individuais no contexto

coletivo, a partir de um dever moral universal de respeitar a liberdade dos outros.

Porm, se na tica a legalidade significa um dficit de determinao e de

moralidade, no caso do direito a legalidade o mximo de determinao que se

espera de todos os seres igualmente livres2. O aspecto legal de uma legislao

externa surge na referncia norma em sua abrangncia social e poltica. A lei no

interna, mas externamente se apresenta como coletiva e sua prescrio

direcionada ao arbtrio de todos, apresentando-se externamente. por isso que a

liberdade externa definida como igualitria, porque sua realizao pressupe que

os seres sejam racionalmente iguais: submetidos mesma lei que prescreve

deveres e garante direitos iguais para todos; a mesma que limita a relao de seus

arbtrios com base na possibilidade de sano e coero.

comum compreender a coao como sendo a limitao da liberdade, o

que no deixa de ser real, consoante uma coercitividade fora da legalidade. Mas

quando coao legitima pela lei, a sua funo a garantia, a busca da realizao

da liberdade. Segundo Kant, a coero legtima, mesmo sendo uma violncia, algo

que a lei na maioria das vezes impede, por ser uma violncia que protege a

liberdade. E ainda mais, a coero uma condio que d lei objetividade, no

sentido de ser uma obrigao que deve ser cumprida sob pena de ocasionar uma

sano, pelo seu descumprimento, para aquele que a causou.

2 Sobre a distino entre legalidade do ponto de vista moral e legalidade do ponto de vista jurdico,

veja-se Tourinho Peres 1998, p. 52.

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2 LIBERDADE COMO COEXISTNCIA HUMANA

Tanto a liberdade interna quanto a liberdade externa, entretanto, so

dimenses de uma s liberdade. O homem tem na sua condio prtica a

capacidade de criar leis para si internamente. Segundo Kant a liberdade interna a

possibilidade do homem agir moralmente, contrariando a tendncia das inclinaes,

paixes, interesses ou qualquer mbil que no seja uma vontade boa. No entanto,

no apenas por essa condio que se estabelecem leis para as aes. Na

verdade, para Kant, a condio interna de o homem agir livremente est para o

mbito moral como a condio da liberdade externa est para o mbito jurdico. Mas

o que tal liberdade exterior?

Segundo Norberto Bobbio a liberdade externa:

a liberao dos impedimentos que provm dos outros, liberao exterior, ou seja, eficaz no domnio do mundo externo [...], com os outros, esforo por alcanar uma esfera de liberdade na qual seja possvel para mim agir segundo o meu talante sem ser perturbado pela ao dos outros (BOBBIO, 1997, p. 59).

O humano um ser com os outros. Na condio de ser racional, o

homem busca coexistir com seu semelhante a fim de encontrar harmonia. Neste

sentido, os outros so os elementos externos que possibilitam ao ser humano

coexistir com sua liberdade. Somente porque o homem est dado ao convvio c