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Direito Civil Contratos LFG 2 sem/2012

Prof. Christiano Chaves

Aula 01 - Erika19/09/2012

1- Noes gerais sobre os contratos

Hoje existe um movimento da constitucionalizao das relaes civis. O direito privado passou a conviver com valores no apenas patrimoniais, mas tambm com valores existenciais. O conceito histrico de contrato, portanto, precisou ser revisto. Antes, o contrato era o ajuste de interesses privado exclusivamente para fins patrimoniais. Agora, trata-se de ajuste de interesses particulares (isso sempre foi e sempre ser), porm no s para fins patrimoniais h a possibilidade de outras finalidades. Hoje, o contrato serve para promoo da dignidade humana, para a solidariedade social e a igualdade social.O ajuste de interesses privados no pode prejudicar os direitos fundamentais e sociais dos contratantes e a tutela jurdica de terceiros e da coletividade. Em outras palavras, o contrato no pode violar dos direitos e garantias fundamentais dos prprios contratantes e a tutela jurdica de terceiros. claramente uma incidncia da eficcia horizontal dos direitos fundamentais. Assim, veja trs novas possibilidades contratuais, a ttulo de exemplos, a partir dessa nova viso:

- cesso de imagem: um contrato cujo objeto um direito da personalidade; no uma finalidade patrimonial. - contratos de direito de famlia: pode-se dispensar a coabitao por contrato, sem finalidade patrimonial. - contratos relacionais (ou cativos ou de longa durao): so aqueles em que se prolatam para o longo da vida e, consequentemente, h uma mitigao da autonomia de vontade: plano de sade, fornecimento de energia, TV a cabo.

O STF, no HC 86009/DF em uma questo de ordem, julgou a competncia para processar e julgar HC e MS contra atos de juiz de juizados especiais: a interpretao que se dava era uma, mas agora a interpretao que deve prevalecer outra isso por conta da mutao constitucional. Mutao constitucional no implica na mudana da norma; a mudana da intepretao sobre o que significa a norma. Veja que o contrato sofreu uma mutao conceitual: o que muda a compreenso sobre o verdadeiro significado de um contrato.

Ateno!!! Constitucionalizao do direito civil (ou direito civil constitucional) no se confunde com publicizao do direito civil! Constitucionalizao a interpretao dos clssicos institutos do direito civil conforme os valores constitucionais. Publicizao, por sua vez, o dirigismo contratual a interveno concreta do Estado em uma relao privada com o propsito de assegurar a igualdade entre as partes. No raro, os dois fenmenos ocorrem juntos. muito comum no direito do consumidor: comum o Estado interferir na fixao de cobrana de tarifas estamos diante de publicizao e tambm de constitucionalizao.

2- Da autonomia da vontade autonomia privada

A autonomia da vontade era a pedra angular do direito contratual e era igual a liberdade contratual. Essa liberdade veio da Revoluo Francesa e retratada pela mxima do pacta sunt servanda, segundo a qual o contrato faz lei entre as partes. O pacta sunt servanda trouxe como efeito a impossibilidade de interferncia do Poder Judicirio para corrigir desequilbrios contratuais. A liberdade contratual foi concebida de forma absoluta e, portanto, a autonomia da vontade sempre foi absoluta. Agora, no entanto, teremos funo social e boa-f objetiva no prprio Cdigo Civil e tambm direitos fundamentais e sociais, vindo da Constituio. Representa uma nova dimenso da autonomia da vontade: ela deixa de ser absoluta. A autonomia da vontade, agora, tem que respeitar a funo social, a boa-f objetiva, os direitos fundamentais e os direito sociais. A autonomia da vontade, portanto, deixou de ser absoluta e foi redesignada: autonomia privada. Lembre-se que antes a unio estvel se chamava concubinato foi redesignado justamente para romper com o conceito antigo. Foi exatamente o que aconteceu com a autonomia da vontade, que passou a ser chamada de autonomia privada.Hoje, autonomia privada significa o instrumento de circulao de riquezas, respeitados os valores constitucionais, como dignidade humana e solidariedade social, permitindo o livre desenvolvimento da pessoa humana. Em outras palavras, a autonomia privada livre iniciativa, porm no mais um conceito absoluto; no se trata de uma liberdade absoluta. Sem asfixiar a liberdade humana, o movimento de constitucionalizao do direito civil e a eventual publicizao do direito civil, estabelecem limites contratao. A liberdade continua sendo o fundamento, porm agora ela encontra limites. Neste sentido, veja o Enunciado 23 da Jornada:

23 - Art. 421: a funo social do contrato, prevista no art. 421 do novo Cdigo Civil, no elimina o princpio da autonomia contratual, mas atenua ou reduz o alcance desse princpio quando presentes interesses metaindividuais ou interesse individual relativo dignidade da pessoa humana.

O direito contratual sempre vai buscar a garantia do crdito, mas isso significa que essa busca no pode gerar sacrifcios de valores constitucionais, da funo social e da boa-f. O fundamento do direito contratual no alterado: continua sendo a busca da garantia do crdito.A concepo atual de contrato, em razo da incidncia dos valores constitucionais, da boa-f e da funo social no sentido de garantir a liberdade de iniciativa com respeito a valores humanos e sociais. No se quer sacrificar interesses privados ou creditcios, mas condicion-los a uma perspectiva garantista.

3- Direito Intertemporal dos Contratos

Est no artigo 2.035 do CC/02 e tambm no artigo 5, XXXVI da CRFB.

Art. 2.035. A validade dos negcios e demais atos jurdicos, constitudos antes da entrada em vigor deste Cdigo, obedece ao disposto nas leis anteriores, referidas no art. 2.045, mas os seus efeitos, produzidos aps a vigncia deste Cdigo, aos preceitos dele se subordinam, salvo se houver sido prevista pelas partes determinada forma de execuo.Pargrafo nico. Nenhuma conveno prevalecer se contrariar preceitos de ordem pblica, tais como os estabelecidos por este Cdigo para assegurar a funo social da propriedade e dos contratos.

Artigo 5, XXXVI CRFB - a lei no prejudicar o direito adquirido, o ato jurdico perfeito e a coisa julgada;

Contrato relao jurdica de trato sucessivo e, como toda relao de trato sucessivo, pode estar submetido a diferentes normas jurdicas. possvel que um contrato esteja submetido a uma norma e depois h outra norma superveniente o regulando. Uma mesma relao contratual pode ficar submetida a diferentes normas.O artigo 2.035 do CC/02 pode ser compreendido a partir de uma frmula: para as relaes jurdicas continuativas submetidas a diferentes normas: a existncia e a validade de uma relao jurdica ficam submetidas norma vigente na data de sua celebrao; j a eficcia submete-se norma atualmente em vigor.

Exemplo1: mudana do regime de bens no casamento. As pessoas que casaram antes do CC/02 podem requerer a mudana do regime de bens? O CC/16 no permitia a mudana do regime de bens. Veja que a mudana do regime de bens est no plano da eficcia e, portanto, deve ser aplicada a lei nova. O leading case admitindo a mudana do regime mesmo queles casados antes do CC/02 foi o REsp. 730.546/MG.No entanto, se quiser discutir se esse casamento nulo ou anulvel, deve-se verificar o CC/16, na medida em que est no plano da validade.

Exmeplo2: O artigo 977 do CC/02 traz a proibio de contrato de sociedade entre pessoas casadas no regime de separao universal ou comunho universal. Antes do CC/02 existiam pessoas que eram casadas no regime da comunho universal e eram scios. Esses cnjuges que eram scios tem que se adequar? No se aplica o CC/02; trata-se do plano da validade e, logo, a lei aplicada a antiga. Veja, neste sentido, o Enunciado 205:

205 Art. 977: Adotar as seguintes interpretaes ao art. 977: (1) a vedao participao de cnjuges casados nas condies previstas no artigo refere-se unicamente a uma mesma sociedade; (2) o artigo abrange tanto a participao originria (na constituio da sociedade) quanto a derivada, isto , fica vedado o ingresso de scio casado em sociedade de que j participa o outro cnjuge.

Exemplo3: o novo CC/02 reduziu o valor da multa condominial pelo atraso no pagamento de 20% para 2%. Trata-se do plano da eficcia e, logo, os condomnios que aplicavam a multa de 20% tm que respeitar os 2% estabelecidos pelo CC/02. Neste sentido, REsp. 722.904/RS.

4- Elementos de validade dos contratos

Os elementos de validade esto no artigo 104 do CC/02 so os mesmos elementos de validade de qualquer outro negcio jurdico.

Art. 104. A validade do negcio jurdico requer:I - agente capaz;II - objeto lcito, possvel, determinado ou determinvel;III - forma prescrita ou no defesa em lei.

Alm desses elementos, os contratos exigem tambm a vontade livre e desembaraada. Veja que, portanto, so quatro elementos: capacidade do agente; objeto lcito, possvel, determinado ou determinvel; forma prescrita ou no defesa e vontade livre e desembaraada.

A) Capacidade do agente o agente tem que ser capaz, sob pena de invalidade. Se a incapacidade for absoluta, gera nulidade; se a incapacidade for relativa, gera a anulabilidade. O grau de invalidade, portanto, varia conforme o tipo de incapacidade.

***Ateno! No confunda capacidade com personalidade! Os entes despersonalizados podem celebrar contratos isso porque eles no tm personalidade, mas tm capacidade.

Para determinados contratos, o Cdigo pode exigir, alm da capacidade, um requisito extra: trata-se da legitimao. No estamos falando de legitimidade processual e sim de legitimao para atos de direito material. Essa legitimao um requisito especfico para a prtica de um ato contratual especfico. Orlando Gomes falava ser um plus na capacidade. Um belo exemplo de legitimao: uma pessoa casada e capaz pode celebrar contratos, porm se for um contrato de venda de bem imvel, precis