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TTULO V

DOS CONTRATOS EM GERAL

CAPTULO 1

DISPOSIES GERAIS

Seo I

Preliminares

Art. 421. A liberdade de contratar ser exercida em razo e nos limites da funo social do

contrato.

Doutrina

A funo social do contrato acentua a diretriz de sociabilidade do direito, de que nos fala, percucientemente. o eminente Prol? Miguel Reale, como princpio a ser observado pelo intrprete

na aplicao dos contratos. Por identidade dialtica guarda intimidade com o princpio da funo

social da propriedade previsto na Constituio Federal. A concepo social do contrato apresenta-se, modernamente, como um dos pilares da teoria

contratual. Defronta-se com o vetusto princpio pacta sunt servanda, exaltado, expressamente, pelos Cdigos Civil francs (Art. 1.134) e italiano (art. 1.372) para, atenuando a autonomia da vontade, promover a realizao de uma justia comutativa.A moldura limitante do contrato tem o escopo de acautelar as desigualdades substanciais entre os

contraentes, como adverte Jos Loureno. valendo como exemplo os contratos de adeso. O negcio jurdico haver de ser fixado em seu contedo, segundo a vontade das partes. Esta, todavia, apresenta-se auto-regrada em razo e nos limites da funo social, princpio determinante e fundamental que, tendo origem na valorao da dignidade humana (Art. l~ da CF), deve prescrever a ordem econmica e jurdica.Por sua funo social, o contrato submetido a novos elementos integradores de relevncia suaformao, existncia e execuo, superando a esfera consensual. Mrio Aguiar Moura afirma que, segundo a concepo moderna, o contrato fica em condies de prestar relevantes servios ao progresso social, desde que sobre as vontades individuais em confronto se assente o interesse coletivo, atravs de regras de ordem pblica, inafastveis pelo querer de ambos ou de qualquer dos contratantes, com o propsito maior de evitar o predomnio do economicamente fone sobre o economicamente fraco.Art. 422. Os contratantes so obrigados a guardar, assim na concluso do contrato, como em sua execuo, os princpios de probidade e boa-f.

Doutrina

Cuida-se de dispositivo especfico sobre os princpios da probidade e da boa-f. O Cdigo de 1916 no ofereceu tratamento objetivo a respeito. O primeiro princpio versa sobre um conjunto de deveres, exigidos nas relaes jurdicas, em

especial os de veracidade, integridade, honradez e lealdade, deles resultando como corolrio lgico o segundo. O princpio da boa-f no apenas reflete uma regra de conduta. Consubstancia a eticidade orientadora da construo jurdica do novo Cdigo Civil. , em verdade, o preceito paradigma na estrutura do negcio jurdico, da qual decorrem diversas teorias, dentre as quais a teoria da confiana tratada por Cludia Lima Marques no alcance da certeza e segurana que devem emprestar efetividade aos contratos. O dispositivo apresenta, conforme aponta Antonio Junqueira de Azevedo, insuficincias e deficincias, na questo objetiva da boa-f nos contratos. As principais insuficincias convergem s limitaes fixadas (perodo da concluso do contrato at a sua execuo), no valorando a necessidade de aplicaes da boa-f s fases pr-contratual e ps-contratual, com a devida extenso do regramento. As deficincias decorrem da ausncia de duas funes, do direito pretoriano, para a clusula geral da boa-f: a supplendi e a corrigendi, no que dizem respeito, fundamentalmente, aos deveres anexos ao vnculo principal, clusulas faltantes e clusulas abusivas.Art. 423. Quando houver no contrato de adeso clusulas ambguas ou contraditrias, dever-se- adotar a interpretao mais favorvel ao aderente.

Doutrina

A referncia a contrato de adeso sugere, por conceituao legal, espcie e no gnero. Em verdade, porm, no existe um contrato de adeso; so existentes contratos celebrados por adeso, como pontifica Agostinho de Arruda Alvim em sua Exposio de Motivos Complementar ao anteprojeto do CC revisto (25-3-1973). O mesmo ocorre com relao aos contratos aleatrios e os atpicos, que se pretendem regulados em sees do Ttulo V do Livro 1 da Parte Especial. Nessa categoria, existem diversos contratos por adeso, caracterizados por tcnicas comuns de contratao de massa, com visvel desequilbrio de foras dos contratantes e fone atenuao na liberdade de contratar diante de clusulas pr-elaboradas. No foi dispensada, todavia, regulao prpria aos contratos por adeso. tal como observada pela Lei n. 8.078. de 11-9-1990 (Cdigo de Proteo e Defesa do Consumidor), a permitir a crtica do eminente jurista Nelson Nery que aponta um tratamento tmido dado pelo CC de 2002 a essa tcnica de formao de contrato ao dispensar-lhe apenas dois de seus dispositivos.O art. 54 do CDC define: Contrato de adeso aquele cujas clusulas tenham sido aprovadas pela autoridade competente ou estabelecidas pelo fornecedor de produtos ou servios, sem que o

consumidor possa discutir ou modificar substancialmente o seu contedo. A norma alcana, segundo a doutrina de Orlando Gomes, as duas formas de contratao, a de estipulao produzida pelo poder pblico, onde manifesta a irrecusabilidade das clusulas (contrato de adeso) e a estabelecida, unilateralmente, pelo particular, em face do potencial aderente (contrato por adeso). A definio contrats dadhesion foi oferecida por Raymond Saleilles, em sua obra Dela dclaration de volont (Paris, LGDJ, 1929, p. 229-30) quando examinou o Cdigo Civil alemo em sua Parte Geral. Direito comparado: Ai. 1.370 do Cdigo Civil italiano de 1942, instituidor da regra interpretatio

contra stipulatorem ou interpretatio contra proferentem. O princpio de interpretao contratual mais favorvel ao aderente decorre de necessidade isonmica estabelecendo em seus fins uma igualdade substancial real entre os contratantes. que, como lembra Georges Pcipert, o nico ato de vontade do aderente consiste em colocar-se em situao tal que a lei da outra parte soberana. E, quando pratica aquele ato de vontade, o aderente levado a isso pela imperiosa necessidade de contratar. O dispositivo, ao preceituar a sua aplicao, todavia, em casos de clusulas obscuras ou ambguas, vem limit-lo a essas hipteses, o que contraria o avano trazido pelo Art. 47 do CDC prevendo o princpio aplicado a todas as clusulas contratuais. O aderente como sujeito da relao contratual deve receber idntico tratamento dado ao consumidor, diante do significado da igualdade de fato que estimula o princpio.Art. 424. Nos contratos de adeso, so nulas as clusulas que estipulem a renncia antecipada do aderente a direito resultante da natureza do negocio.

Doutrina

O dispositivo resulta do preceito fundamental segundo o qual a liberdade de contratar s pode ser exercida em razo e nos limites da funo social do contrato, implicando os princpios definidos pelo Art. 422. O ofertante no pode privar o aderente de direito resultante da natureza do negcio ao qual este aderiu. A justia contratual impe a efetividade dos negcios jurdicos segundo os princpios da probidade e da boa-f. Ditas clusulas opressivas so presentes, notadamente, em contratos de trato sucessivo, complexo e de longa durao, no podendo o aderente resultar desprovido da segurana contratual. O carter abusivo da clusula situa-se em face de tratar-se de uma clusula de excluso ou de exonerao. frustrante aos interesses do aderente colocado diante da prpria motivao ou necessidade da adeso. O Art. 25 do Cdigo de Defesa do Consumidor no permite clusulas que impossibilitem, exonerem ou atenuem a obrigao de indenizar prevista na lei consumerista, o que se compatibiliza com a necessidade de garantia de direito bsico do consumidor, no tocante efetiva preveno e reparao de danos patrimoniais, e morais individuais, coletivos ou difusos (art. 6o , VI, do CDC). A rigor, tais clusulas, descritas neste dispositivo, so consideradas no escritas.

Art. 425. lcito s partes estipular contratos atpicos, observadas as normas gerais fixadas neste Cdigo.

Doutrina

O dispositivo trata dos contratos atpicos ou inominados, sendo lcito s partes ajust-los, verificando, para esse fim, as normas que disciplinam os contratos tpicos. Contratos atpicos so os que no dispem de regramento prprio, embora quanto eficcia e validade assumam os requisitos do art. 104 do CC de 2002. No propsito de conceituao, so considerados como contractus incerti (Ulpiano), negotia nova (Caio) ou contrato sob medida, como definiu Josserand, para diferencilos dos tipificados pela lei. Convm lembrar a excluso no NCC do pacto de melhor comprador (arts. 1.158 a 1.161 do CC de 1916), considerado em desuso e doravante admitido, por conveno, como contrato atpico. Sustentou o Prof. lvaro Villaa, em relevante contribuio crtica ao texto do projeto do CC de 2002, apresentada Relatoria Geral, no sentido de que os contratos atpicos no podem ser regidos pelas normas dos contratos tpicos, principalmente dos mistos, pois a contratao s se extingue aps cumpridas todas as obrigaes contratadas. O contrato forma um todo uno e indivisvel. Ele autor de consagrada tese, onde analisa a classificao dos contratos atpicos, cujo contedo, segundo Francesco Messineo, pode ser inteiramente estranho aos tipos legais (v. g., contrato de garantia) ou apenas parcialmente incomum (v. g. contrato de bolsa simples). Comprovada, como se observa, a dico das regras pelas partes, fenmeno representativo da liberdade de contratar, e no podendo essas regras ser contrrias ordem pblica, aos bons costumes e aos princpios gerais de direito, props o festejado jurista paulista uma nova redao ao dispositivo, para a incluso do reportado preceito. Arrimou-se, inclusive, na prpria jurisprudncia do STJ. bice regimental, contudo, impediu fosse a sugesto prontamente recepcionada, isto por no haver a redao primitiva sofrido qualquer emenda.Art. 426. No pode ser objeto de contrato a herana de pessoa viva.Doutrina

A lei probe a estipulao de pacto sucessrio, ou seja, o contrato no pode ter como objeto a