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DIREITO CIVILARTIGO

EMPRESA E DIREITOS FUNDAMENTAIS

VNIA MRCIA DAMASCENO NOGUEIRADefensora Pblica da Unio, Ps-graduada em Direito Pblico pelo Centro Universitrio de Gois UNI-ANHANGUERA, Mestre em Direito pela Universidade de Itana/MG UIT.

RESUMO: Este trabalho visa a afirmar os direitos fundamentais no Estado Democrtico de Direito, a sua funo irradiante para alm do texto constitucional e a contaminao dessa irradiao em face do novo Cdigo Civil brasileiro. Busca tambm verificar o papel da empresa, na nova ordem jurdica da ps-modernidade, como sujei-to de direitos da personalidade e simultaneamente ofensora desses mesmos direitos dos indivduos.

PALAVRAS-CHAVE: Direitos fundamentais; ps-modernidade; novo Cdigo Civil; empresa e direitos da personalidade.

ABSTRACT: The purpose of this paper is to enforce the fundamen-tal rights in the Lawful Democratic State and discuss its role regard-ing the constitutional text and the new Brazilian Civil Code. One aims at checking the role of companies in the new post-modern legal system simultaneously as subjects of personal rights and of-fenders of these same individual rights.

KEY WORDS: Fundamental rights; post modernity; new Civil Code; business and personal rights.

SUMRIO: 1. Intrito. 2. Ps-modernidade. 2.1. Novo Cdigo Ci-vil. 2.2. Constitucionalizao do Direito Civil. 3. Direitos funda-mentais. 3.1. Efetividade dos direitos fundamentais. 4. Direitos da personalidade. 5. Direitos fundamentais no mbito das relaes en-

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tre particulares. 6. Direitos fundamentais e empresa. 6.1. Direitos fundamentais da empresa. 6.1.1. Dano moral da pessoa jurdica. 7. Funo social da empresa. 8. Consideraes finais. 9. Referncias bibliogrficas.

1. Intrito

A sociedade contempornea pautada pelo consumismo, pela velo-cidade das informaes, do transporte, dos conflitos globalizados, de agresses contnuas vida humana, seno causados pelo homem contra outro homem, causados pelo homem contra si mesmo, re-tratado de forma mpar pela destruio da natureza, pela descons-tituio familiar, pela perda do direito de ser criana, pela perda do cio prazeroso e da qualidade de vida em detrimento da total falta de tempo, da busca incansvel do ter.

O homem sai do campo e vai para a cidade a fim de trabalhar e ganhar dinheiro para no final de sua vida, ao aposentar-se, ter con-dies financeiras de voltar ao campo.

Esse crculo redundante de objetivos a expresso mxima da so-ciedade ps-moderna complexa, multifacetada, pluralista, sempre contrariando o preestabelecido, o positivado.

O sculo XX, aliado a processos sociais e polticos marcantes, como o intervencionismo estatal na economia, os conflitos sociais massi-ficados, o dirigismo contratual e relativizao da autonomia privada e a publicizao do direito, comea a transformar as regras que nas-ceram para ser eternas.

Na seara do Direito, o Cdigo Civil perde a capacidade de gerenciar todas as relaes sociais e h uma emergente necessidade de uma gama de leis esparsas que vem disciplinar os conflitos sociais, carac-terstica da ps-modernidade.

A descodificao do Direito, a inflao legislativa e o nascedouro de microssistemas so reflexos das velozes transformaes sociais ocorridas nas ltimas dcadas em todas as reas como uma conse-

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qncia do alto grau de incertezas polticas, econmicas, religiosas e at mesmo jurdicas.

O direito, aqui como sinnimo de pacificao social, busca instru-mentalizar-se em normas abertas, principiolgicas do texto constitu-cional, porm no menos sancionadoras ou auto-aplicveis. Morre a era da declarao, para nascer a era da efetivao dos princpios. Os direitos fundamentais emergem como base de toda a ordem jurdi-ca, irradiando-se para a legislao infraconstitucional e tendo como princpio mximo a dignidade humana.

Nesse contexto, a empresa apresenta-se como um dos principais agentes transformadores da sociedade. A cada dia, redescobre seus direitos e, em contrapartida, adquire novos deveres. Ainda que te-nha sido introduzida no ordenamento jurdico uma feio social a institutos basilares do capitalismo, como a propriedade e o contra-to, a empresa no vista somente como um ente gerador de traba-lho e circulao de riquezas e conforto humano; ainda vista por uma parcela da sociedade como um ente provocador de misria, desigualdade social e destruio ambiental.

No mundo globalizado, as empresas possuem enorme poder de atuao, podendo causar tanto impactos positivos quanto negativos nos direitos fundamentais do homem e no meio ambiente. Esses impactos ultrapassam fronteiras fsicas, polticas e econmicas, atin-gindo todo o planeta. Em determinados locais, no raro as empre-sas fazem o papel do Estado. Ao assumirem essa postura, ganham notoriedade pela funo social desenvolvida, mas, simultaneamen-te, adquirem poderes jamais imaginados, podendo abalar a estrutu-ra poltica do que hoje entendemos por Estado.

O direito fundamental de personalidade, que antes era atributo ex-clusivo do homem, oferecido pelo ordenamento jurdico pessoa jurdica, para tutelar direitos outrora bastante questionveis em ra-zo da prpria concepo ontolgica desse ser. A empresa, ento, passa a ser importante no Estado Democrtico de Direito tanto como sujeito ativo quanto passivo da complexidade contempornea.

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2. Ps-modernidade

Para se chegar ps-modernidade, necessrio traar um rpido perfil da modernidade, a fim de se entender as modificaes sociais que culminaram no atual Cdigo Civil.

Esclarece Gregrio Assagra de Almeida (2008, p. 321):

A modernidade se iniciou por volta de 1500, perodo dos novos descobrimentos, do Renascimento e da Reforma. A sua marca caracterstica a subjetividade que culmina no individualismo, com a autonomia e liberdade de ao. Com a Reforma proclama-se a liberdade e soberania do sujeito e do seu pensamento con-tra a f. Com a Declarao dos Direitos do Homem e o Cdigo Civil francs, consagra-se o princpio da autonomia da vontade. J com o iluminismo defende-se o primado da razo, sendo que no campo do Direito, resulta na existncia de normas absolutas e universalmente obrigatrias. Com a Revoluo Francesa, marca-se o advento do Estado de Direito.

O Estado Liberal de Direito, baseado no individualismo, na igualda-de formal, consagrava a separao dos poderes e a atuao mnima do Estado sobre o indivduo. Os paradigmas que ergueram a mo-dernidade precisaram se impor diante do absolutismo, que marcou a finalizao do perodo medieval e diante dos horrores de uma primeira guerra mundial. A prioridade era a conquista da segurana jurdica, da preservao dos direitos, do estabelecimento das igual-dades e da considerao mxima do indivduo.

O indivduo era considerado sujeito de direito por sua capacidade de aquisio patrimonial, com ampla liberdade para a apropriao. Assim o direito civil se estruturava a partir de dois grandes alicer-ces, o contrato e a propriedade, instrumentos de aquisio e ma-nuteno do patrimnio. Nessa fase deu-se a codificao moderna, representando a sistematizao do Direito e a segurana jurdica do sistema. O direito civil racional e sistematizado o paradigma da sociedade moderna. A lei era abstrata e de carter geral.

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Veio a Revoluo Industrial, iniciada no sculo XVIII, gerando enor-mes conflitos sociais, movimentos sindicais e fenmenos de massa. O capitalismo era questionado, seguindo-se uma nova guerra mun-dial. A total ineficcia de garantias para os direitos fundamentais e a postura neutra do Estado deram lugar a uma tendncia interven-cionista no domnio econmico, alargando-se tambm as garantias desses direitos e dos direitos econmicos, sociais e culturais.

Passou-se, assim, ao denominado Estado Social de Direito ou Estado do Bem-Estar. Nesse momento tenta-se corrigir as grandes injustias advindas do liberalismo e a lei deixa de ter um comando abstrato e genrico para atuar de forma concreta. O Estado sai da neutralidade e assume uma posio positiva em face das questes sociais, princi-palmente dos trabalhadores e nas relaes previdencirias.

Inicia-se a necessidade de tutelar os direitos das massas, pois os conflitos passam a ser coletivos. Mas o paternalismo estatal no su-porta a gama de complexidade de direitos e deveres que surgem dos novos conflitos e o Estado Social de Direito fica impotente dian-te da realidade. Passa-se a entender que o ideal no o paternalis-mo assistencial do Welfare State; o ideal o Estado servir de guia, preparando o cidado para ele mesmo resolver democraticamente os problemas principais, deixando somente um plano de execuo das decises do povo para o Estado.

Surge o Estado Democrtico de Direito, caracterizado pela juno da democracia e do socialismo, sem a inteno de extinguir os direi-tos individuais conquistados na Revoluo Francesa, mas com deter-minao de cortar definitivamente os laos com a concepo liberal individualista-burguesa. O Estado Democrtico de Direito no pode conviver passivamente com tantas desigualdades econmico-sociais. A democracia exige igualdade material; no basta o carter geral da lei. O Estado se volta proteo concreta do social, da coletividade e no somente do indivduo. Implanta-se a solidariedade social.

Quanto a esse momento estatal, Francisco Amaral afirma:

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