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DIREITO, ANTROPOLOGIA E JUSTIA EM PERSPECTIVA1

Juliana Gonalves Melo

RESUMO

O trabalho busca, por meio de uma compreenso do atual sistema de

ensino do Direito, visualizando sua trajetria histrica, bem como a

conjuntura contempornea de fatores sociais, econmicos e jurdicos

dos cursos de graduao, sem deixar de tomar em considerao os

objetivos de seus discentes e sua caracterizao, definir como tem se

dado o ensino do Direito e suas consequncias, fazendo uso da

pesquisa bibliogrfica especfica e da experincia vivenciada pela

autora junto docncia na Universidade Federal do Rio Grande do

Norte e no Centro Universitrio de Braslia, de forma que concebeu-

se, por fim, deficincias capazes de minimizar, inviabilizar e impactar

negativamente o papel e a postura sociais que os profissionais de

Direito deveriam desempenhar em decorrncia de suas funes, de

valor social reconhecidamente acentuado.

Palavras chave: Antropologia Jurdica. Ensino do Direito. Sociologia

Jurdica. Sistema Carcerrio.

1 INTRODUO

Prope-se analisar a relao entre direito e antropologia, apontando para as

limitaes e contribuies que o debate pode promover. Para tanto, remonto ao processo de

constituio da tradio jurdica ocidental, tal como apresentado por Berman (2006) que, a

partir de um olhar multidisciplinar, revela como o direito construdo culturalmente, tendo

fundamentado em larga medida o pensamento cientfico moderno e a prpria noo de

Ocidente.

Ao tratar desse contexto, o autor indica que na contemporaneidade a tradio jurdica

ocidental, e a prpria noo de Ocidente, est passando por uma crise profunda, motivada,

1 Apresentado no II ENADIR Encontro Nacional de Antropologia do Direito, no GT 08: A antropologia em

espaos de ensino do direito e o direito em espaos de ensino da antropologia. Doutora em Antropologia Social pela Universidade de Braslia (2009), mestre em Antropologia Social pela

Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC (2004) e graduada em Cincias Sociais/ Habilitao em

Antropologia pela Universidade de Braslia (1999). Professora Adjunta do Departamento de Antropologia e do

Programa de Ps Graduao em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, UFRN

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entre inmeros outros aspectos, pela forma atravs da qual o direito tem sido ensino e

praticado, inclusive no Brasil. Isto , como campo de saber dogmtico, hermtico e

desconectado da realidade social. Como comprovam inmeros pesquisadores brasileiros esse

o modo atravs do qual a tradio jurdica vem sido reproduzida (SOUZA, 1993), o que tem

implicaes na realidade social, como veremos adiante (LIMA, 2000).

Em termos gerais, o artigo se inicia com a anlise terica de Berman a respeito da

tradio jurdica ocidental, interpretada como um sistema social e cultural, o que inclui

discutir a crise atual. Posteriormente analisa-se os reflexos desses processos no contexto

nacional luz de referncias bibliogrficas e da experincia docente da autora no

Departamento de Cincias Jurdicas do Centro Universitrio de Braslia - Uniceub (2004-

2010) e, mais recentemente, no Departamento de Antropologia da Universidade Federal do

Rio Grande do Norte/UFRN (2010-2011). Compartilha-se tambm pesquisa recente no

Complexo Penitencirio Joo Chaves, localizado na cidade de Natal/RN, em parceria com o

projeto Novos Rumos, do Conselho Nacional de Justia (CNJ). O intuito, afinal,

demonstrar a riqueza e a imprescindibilidade de ampliar o debate no campo da antropologia

jurdica no contexto nacional, para que tenha-se uma concepo de justia mais engajada

socialmente e menos assimtrica.

2 O SURGIMENTO DA TRADIO JURDICA OCIDENTAL: O DIREITO COMO

SISTEMA CULTURAL.

Ao tratar da tradio jurdica ocidental, Berman (2006) usa teorias pouco

convencionais, motivo pelo qual , inclusive, criticado. De acordo com a interpretao deste

estudo justamente por entender o direito como processo, como empreendimento no qual as

regras s tm valor no contexto das instituies, procedimentos, valores e modos de pensar

que sua argumentao central2. A tradio jurdica ocidental, para ele, deve ser entendida

como um processo cultural de longa durao que, em ltima medida, constitui o prprio

Ocidente: um sistema de valores e prticas compartilhado, com forte dimenso histrica e

simblica.

Embora considere que toda periodizao arbitrria e que existem diferentes

interpretaes da histria, o referido autor reconhece que as bases da histria ocidental so

2 O fato de Berman ser um jurista renomado outro aspecto relevante, em diferentes sentidos.

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encontradas na Grcia, Roma e junto aos povos hebreus. Afirma tambm que o Ocidente,

enquanto conceito, no pode ser reconhecido por um girar de compasso3. Que constitudo no

decorrer de vrios sculos, por meio de revolues e durante a formao dos Estados

Nacionais (particularmente dos Estados Unidos, Inglaterra, Frana e Alemanha).

Mesmo tratando-se de um processo de longa durao, possvel identificar um

marco essencial: o perodo de 1050-1122, marcado por mudanas profundas, inclusive no

prprio Direito. nesse contexto, mais especificamente no ano de 1075, que o novo direito

cannico se impe como sistema nico. O Dictatus Papae4 prope uma nova gnese, que

rene diferentes tradies jurdicas europeias (locais, morais, etc.), dando impulso a

acontecimentos decisivos para o Ocidente. pea importante da Revoluo Papal ou

Reformatio do Papa Gegrio VII, caracterizada como um amplo conjunto de reformas que,

entre outros aspectos, pretendida afirmar o poder papal face ao poder feudal/real, reformar a

Igreja, e o prprio mundo. Atravs desse dispositivo, o Papa (de Roma) tornou-se o Chefe

Supremo e absoluto da Igreja, julgando-se no direito de exercer prerrogativas espirituais e

temporais em toda a Cristandade. As conseqncias, inclusive polticas, foram inmeras5.

No Direito europeu forma-se uma nova tradio. At ento, no era centralizado ou

escrito, mas marcadamente descentralizado, regional e local. Tampouco havia juzes ou

advogados profissionais ou uma hierarquia das cortes. Faltava uma distino do direito como

corpo distinto de regras e conceitos. No havia escolas ou uma maior sistematizao das

categorias jurdicas bsicas, ou seja, um corpus iuris. nesse contexto que grandes

transformaes vo se efetivar: o Direito ganha autonomia; surgem autoridades

centralizadoras fortes, tanto eclesisticas quanto seculares, cujo controle era exercido por

delegados que atuavam do centro para a periferia; constitui-se ainda uma classe de juristas

3 Nesse sentido, por exemplo, a Rssia faz parte do Ocidente, ao passo que a Inglaterra, nos sculos XI e XII,

adotou um outro modelo ao opor-se noo de tradio jurdica formulada na Revoluo Papal. 4 No sculo X, a reforma de Cluny, iniciada por monges, criou uma forma de governo hierrquico, translocal e

corporativo e que buscou apoiar o primeiro movimento de paz na Europa. At este momento a Igreja era pensada

como eclesia, como o povo cristo e no como uma estrutura jurdica visvel, corporificada em oposio

autoridade poltica. Os monges faziam uma crtica profunda ao simonismo e nicolasmo e buscavam a

emancipao poltica da Igreja. Este movimento, mais tarde, acabaria culminando na elaborao das Bulas

Papais ou Dictatus Papae nos anos de 1070-1075. Nesse contexto, nomeado como Papa Gregrio, Hildebrand

elaborou o Dictatus Papae e ordenou que todos boicotassem padres que viviam em concubinato e os fez escolher

entre a dedicao Igreja ou s suas famlias. Como no havia um exrcito da Igreja, o Direito foi fundamental

para que suas regras fossem cumpridas. Atravs de sua agncia, o Papado iniciou um movimento de anlise de

textos antigos e encorajou os estudiosos a darem incio cincia jurdica. No havia um frum jurdico ao qual o

papado e o imprio pudessem recorrer - somente ao papa ou ao imperador. A criao do Dictatus Papae foi

revolucionria, tendo um papel decisivo na constituio da tradio jurdica ocidental (BERMAN, 2006). 5 Este um debate bastante complexo e merece ser aprofundado em momento oportuno. Maiores informaes

podem ser obtidas na j citada obra de Berman, entre outros.

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profissionais (juzes e advogados); so edificadas as primeiras escolas e formulados os

tratados jurdicos.

Antes do sculo XI, o direito no existia como sistema cientfico ou de

regulamentao autnoma. Cada povo possua sua prpria ordem jurdica, que

inclua textos jurdicos ocasionais, emanada de autoridades centralizadas, assim

como textos e normas jurdicas no escritas e instituies seculares e eclesisticas.

Um nmero considervel de termos e regras jurdicas havia sido herdado do Direito

Romano e podia ser encontrado nos cnones e decretos dos conselhos eclesisticos e

dos bispos, assim como na Legislao real e do Direito Costumeiro (BERMAN,

2006, p. 111).

Alm de transformar o direito vigente, a Revoluo Papal alterou a mentalidade e as

prticas sociais em larga medida. Atravs do slogan de Reforma, o Papado passou a afirmar

que a cidade terrestre, embora decadente, poderia prosperar, ter seus caminhos

iluminados pelas novas instituies, por um senso de desenvolvimento que, posteriormente,

ser revisto. Passou-se a acreditar em uma redeno aplicvel tambm sociedade secular. Os

reformadores teriam um papel fundamental e, para tanto, se voltam para o passado, para a

Grcia, bero da filosofia, e para o Direito Romano, que se afirma como clssico. Voltam-se

ainda para os povos hebreus, para rever o nascimento e o renascimento espiritual dos cristos,

como se fosse possvel traar uma histria linear de progresso e desenvolvimento. O direito,

nessa conjuntura, foi fundamental: coube-lhe o papel de colaborador da reforma sendo que

essa rea do saber foi dotada dos dispositivos para tanto, para regular as condutas humanas

frente a uma nova ordem social que se impunha na Europa principalmente.

Assim sendo, a partir do sculo XI as instituies seculares passam a se desenvolver

e delas espera-se uma continuidade no tempo (como as universidades, igrejas, cidades e

governos, por exemplo). Tem origem uma nova forma de pensar e viver no mundo que

caracterizaria, para Berman (2006), o pensamento e o modo de vida Ocidental. Esse ethos

teria sido sedimentado no decorrer de sculos, tendo sido marcado por transformaes

violentas e profundas, por revolues, dentre elas: a Papal, a Reforma Protestante, a

Revoluo Inglesa, Americana, Francesa e Russa. Atravs dos processos que fomentaram,

formulam-se os pilares ocidentais: o Estado Nacional, a Universidade, o Direito, a Filosofia e

o Indivduo Moderno6.

Embora o debate seja imensamente mais amplo7, esse conjunto de revolues acabou

por configurar a histria ocidental, que se confunde com a prpria tradio jurdica ocidental.

6 Para Berman (2006) esse processo est completo no perodo ps 1945. 7 O debate imensamente mais amplo. No entanto, no momento, no cabe um debate mais denso sobre o tema.

A ideia, apenas apresentar um panorama inicial. Para maiores informaes, ver Berman, entre outros autores.

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Desse modo, a histria ocidental teria por caracterstica o fato de ser marcada por perodos

recorrentes de mudanas nas quais os sistemas polticos, jurdico, religioso, cultural so

radicalmente transformados ou trocados. Nestes eventos, foras ilegais para substituir a ordem

estabelecida foram aladas condio de autoridade, criando novos e duradouros sistemas de

governo e de Direito, bem como novas vises sobre a comunidade, suas crenas e tradies.

Alis, a despeito das diferenas que as marcam, as revolues acima citadas

compartilham da mesma estrutura. Isto , buscaram sempre um direito fundamental, um

passado remoto, em um futuro apocalptico (BERMAN, 2006, p. 31). Outrossim,

pretenderam reformar o mundo, lema da Revoluo Papal que permaneceu nas demais

revolues ainda que ganhasse uma roupagem mais e mais secular. Mesmo marcando o

insucesso do antigo sistema jurdico transformado radicalmente8, todas pretenderam preservar

a ordem e o bem estar da comunidade pela promoo de uma idia de justia que, no fundo,

messinica.

Sem a crena de que neste mundo, neste tempo, as instituies seculares da

sociedade humana pudessem ser redimidas e que esta redeno levaria a completar

o destino ltimo dos homens as grandes revolues do Ocidente no teriam

acontecido (BERMAN, 2006, p. 41).

Por outro lado, todas estas revolues tiveram uma forte dimenso jurdica e foram

acompanhadas por transformaes fundamentais nas estruturas sociais9. Tiveram ainda carter

transnacional, sendo que aquelas que se sucederam Revoluo Papal transferiram parcelas

significativas do direito cannico para o Estado Nacional secularizando-o.

Nenhum povo pode viver sem f em uma vitria final. Portanto, enquanto a

escatologia adormecia, o laicismo tornou-se fonte das ltimas coisas mudou-se

para a escatologia de Karl Marx, por um lado, e para o de Friedrich Nietzsche, por

outro (ROSENSTOCK-HUESSY apud BERMAN, 2006, p. 40).

Dumont (1985) tambm uma boa referncia, sobretudo, para entender o processo de constituio da noo de

indivduo moderno, do processo de constituio do que chamou de ser-no-mundo. 8 Lutero, por exemplo, queimou o Direito Cannico e o Papa Gregrio VII denunciou os direitos emanados pelos

reis e imperadores. No entanto, nenhuma das grandes revolues conseguiu abolir o direito pr-revolucionrio e

adotar um novo sistema jurdico da noite para o dia. Desta forma, cada revoluo experimentou um perodo em

que novas leis, decretos, regulamentos e outras ordens eram estabelecidas em uma rpida sucesso e do mesmo

modo emendados, repelidos ou substitudos. Aps algum tempo, contudo, cada revoluo fez as pazes com o

Direito pr-revolucionrio e restaurou muitos de seus elementos em um novo sistema, que inclua os principais

objetivos, valores e crenas pelos quais a revoluo havia sido feita. Assim as grandes revolues transformaram

a tradio jurdica permanecendo nela (BERMAN, 2006). 9 O novo direito cannico, por exemplo, praticamente exigiu a configurao dos Estados Naes e esteve

relacionado ao crescimento do comrcio, agricultura, ascenso da cidade e dos reinos como territrios

autnomos, a...