Dinmicas de Desenvolvimento Territorial Rural e Coopera ? DINMICAS DE DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL

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  • DINMICAS DE DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL RURAL

    E COOPERAO PELA AGRICULTURA FAMILIAR

    PUHL, Mrio Jos1. Santa Rosa (RS).

    Temtica: Localizao e distribuio regional do desenvolvimento

    RESUMO

    O artigo aborda a dinmica relao entre a cooperao e o desenvolvimento territorial rural, protagonizada por famlias rurais associadas cooperativa singular de crdito, do Sistema de Cooperativas de Crdito com Interao Solidria

    CRESOL, no municpio de Santo Cristo (RS). Entende-se que a cooperao desempenha uma dinmica socioeconmica fundamental na estratgia de acesso e de qualificao no acesso a ativos de capital e a atores situados na esfera da sociedade civil, do Estado e do mercado, para as famlias rurais com vistas sua reproduo e no desenvolvimento territorial rural. A dinmica da cooperao afirma-se com base na presena de capital social entre as famlias rurais o qual refora as relaes de confiana e de cooperao mtua, com vistas reproduo das famlias e o desenvolvimento territorial rural.

    Palavras-chave: cooperao; desenvolvimento territorial rural; famlias rurais.

    Introduo

    Existem distintos referenciais atravs dos quais possvel realizar uma anlise e

    compreenso de dinmicas de desenvolvimento, especialmente quando se referem ao

    desenvolvimento territorial rural. A abordagem adotada neste trabalho est ancorada na noo

    de acesso e de capacitao para o acesso a ativos de capital e a atores situados nas esferas da

    sociedade civil, do Estado e do mercado. A forma de acesso das famlias rurais aos recursos e

    atores se dar pelo processo da cooperao em um determinado territrio scio-

    economicamente constitudo.

    1 Mestrando do Curso de Ps-graduao Stricto Sensu em Desenvolvimento-PPD, da UNIJU, mariopuhl@brturbo.com.br. Bolsista RIMISP, pelo que Se reconoce el apoyo del Centro Internacional de Investigaciones para el Desarrollo (IDRC, Otawa, Canad), a travs del Programa Colaborativo de Investigacin sobre Movimientos Sociales, Gobernanza Ambiental y Desarrollo Territorial Rural .

  • 2

    A cooperao e desenvolvimento territorial rural

    Amartya Sen (2000) distingue duas alternativas gerais e contrapostas a respeito do

    desenvolvimento e que, de acordo com o mesmo autor, podem se encontradas tanto nos

    debates pblicos como nos estudos de economistas. A primeira possibilidade sustenta que o

    desenvolvimento um processo feroz , duro, disciplinado, um processo com muito sangue,

    suor e lgrimas

    um mundo no qual sabedoria requer dureza , diz Sen (2000, p. 51). Nessa

    perspectiva, a construo do desenvolvimento requer o afastamento, no mximo possvel, das

    preocupaes consideradas frouxas , como os direitos polticos e civis, a democracia e temas

    ambientais. De outro lado, que ela seja feita sobre as bases slidas do trabalho incansvel,

    pois o necessrio aqui e agora dureza e disciplina (op. cit. p, 51). Essa idia aponta para

    um entendimento de desenvolvimento como progresso e crescimento econmico.

    A segunda perspectiva defende que o desenvolvimento seja um processo amigvel .

    Sen (2000, p. 52), sustenta que nesta perspectiva considera-se que a aprazibilidade do

    processo exemplificado por coisas como trocas mutuamente benficas (...), pela atuao de

    redes de segurana social, de liberdades polticas ou de desenvolvimento social

    ou por

    alguma combinao dessas atividades sustentadoras . A tese do autor de que o

    desenvolvimento pode ser visto como um processo de expanso das liberdades reais que as

    pessoas desfrutam (op. cit., p. 17), sem deixar de considerar a necessidade do crescimento

    econmico, do aumento das rendas familiares e a melhorias das condies produtivas. Desse

    modo, o desenvolvimento no se assemelha ao puro crescimento econmico, mas como uma

    estratgia ou processo que implica, ao longo do tempo, em mudanas culturais, sociais,

    econmicas, polticas e ambientais, interconexas, de modo a expandir as liberdades e

    melhorando as condies da qualidade de vida das pessoas.

    Durante as ltimas dcadas o embate entre essas duas perspectivas de

    desenvolvimento esteve presente no contexto nacional, regional e internacional.

    Concomitantemente ao perodo histrico de afirmao dos princpios liberais uma parcela

    significativa de regies e pases realizou ensaios de outras propostas de desenvolvimento. So

    experincias constitudas em contextos marcados pela crise do modelo keynesiano-fordista de

    produo e organizao, de descrdito ante ao novo modelo liberal proposto e, especialmente,

    em razo da expanso vertiginosa dos ndices de pobreza, misria e excluso de toda ordem,

    especialmente da populao do meio rural, como atestam estudos de Kliksberg (2001), Fiori

    (1997) e Arrighi (1997). Elas emergiram tambm num contexto marcado pela retomada dos

    debates acerca de temas ambientais, democracia participativa, multiculturalismo, economia

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    solidria, cooperao, controle social dos espaos, movimentos sociais e

    pluridimensionalidade do desenvolvimento. Constituem buscas de caminhos novos,

    alternativas para o desenvolvimento ou at mesmo alternativas ao desenvolvimento (Santos,

    2002). As experincias alternativas foram elaboradas nas periferias das sociedades por grupos

    sociais marginalizados, por organizaes sociais, pelos inviveis do sistema, de forma

    organizada e/ou espontnea.

    No territrio em tela foram desencadeadas vrias experincias no campo da avaliao,

    dos debates, do planejamento e desenvolvimento rural, dando destaque ao territrio como

    espao scio-econmico construdo. Nessas experincias, FAVERO e GRAMACHO (2004,

    p. 141-142) indicam que houve a contribuio de sete elementos:

    1) nasceram de iniciativas de organizaes locais; 2) incentivaram a participao da populao local; 3) contaram com a assessoria de organizaes especializadas, particularmente de ONGs e de setores de Universidades; 4) produziram redes de organizaes e movimentos sociais fundados em vnculos de parceria; 5) produziram experincias heterogneas, baseadas em trajetrias originais e em estruturas e tramas variadas; 6) reorganizaram os espaos que as geraram e, mesmo, as representaes destes espaos, dando origem (...) a uma nova cultura do espao; 7) finalmente, provocaram a emergncia e/ou o fortalecimento de novos sistemas de governana, com nfase no local.

    De forma geral esta dinmica atribuda a trs processos imbricados, afirmam os

    mesmos pensadores, que so a crise do referencial keynesiano-fordista de crescimento; a

    reorganizao do Estado e a re-estruturao de seus sistemas de regulao e a sua relao com

    a sociedade e a economia; e, em terceiro lugar, as profundas transformaes das estruturas e

    sistemas de relaes sociais. Ante o quadro apresentado, os grupos sociais no inclusos nesta

    proposta, das rebarbas do sistema, buscam construir suas estratgias, seus caminhos, suas

    organizaes para garantir a sobrevivncia. Lutam pela mudana deste padro organizativo,

    nos mais diversos campos e espaos. Busca-se construir a cidadania para o

    desenvolvimento (idem), legitimar atores, considerar a diversidade, e uma nova base

    material de organizaes das comunidades.

    Favero e Gramacho (2004) destacam que dos estudos das experincias brasileiras de

    desenvolvimento mereceram ateno as relaes existentes entre o Estado e desenvolvimento;

    segundo, a educao; e, o terceiro a relao entre o desenvolvimento e o capital social. A

    perspectiva de entendimento do desenvolvimento a partir da sua relao com o capital social

    prope estrutur-lo com base na articulao entre pluralidade (capital humano) e a

    cooperao (capital social). (...) quanto maiores forem os capitais humano e social, maiores

    sero os conhecimentos e as experincias acumuladas e maiores sero as possibilidades (op.

    cit, p. 147) de desenvolvimento territorial. Territrio caracterizado como

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    um espao fsico, geograficamente definido, geralmente contnuo, compreendendo a cidade e o campo, caracterizado por critrios multidimensionais

    tais como o

    ambiente, a economia, a sociedade, a cultura, a poltica e as instituies

    e uma

    populao com grupos sociais relativamente distintos, que se relacionam interna e externamente por meio de processos especficos, onde se pode distinguir um ou mias elementos que indicam identidade e coeso social, cultural e territorial (MDA, 2005, p. 3).

    O territrio definido a partir de seus usos, das experincias e resultados verificados e

    das organizaes de cooperao que foram geradas pelos seus usos e para esses usos, numa

    interao dos atores sociais. Dessa forma, o territrio exerce um papel ativo, na medida em

    que , simultaneamente, um ator (agente) e palco (lugar), afirmam Santos e Silveira (2003,

    p. 11). O espao geogrfico, se define como unio indissolvel de sistemas de objetivos e

    sistemas de aes, e suas formas hbridas, as tcnicas, que nos indicam como o territrio

    usado: como, onde, por quem, por qu, para qu (idem, p. 11).

    Nessa linha de pensamento, para caracterizar um territrio, devemos levar em conta a

    interdependncia e a inseparabilidade entre a materialidade, que inclui a natureza, e o seu uso,

    que inclui a ao humana, isto , o trabalho e a poltica (op. cit., p. 247). Um territrio, neste

    horizonte reflexivo, envolve o conjunto dos sistemas herdados por uma determinada

    comunidade; o conjunto dos sistemas de engenharia, ou seja, os objetos culturais e tcnicos

    historicamente constitudos; e, os sistemas de aes humanas, que produzem interaes,

    envolvendo as dinmicas de cooperao, quanto os conflitos sociais e polticos presentes. O

    territrio carrega um sentido histrico, decorrente da interao desses trs aspectos, pois sua

    historicidade deriva da conjuno entre as caractersticas da materialidade territorial e as

    caractersticas das aes (idem , p. 248).

    Seguindo a linha de raciocnio da Organizao para a Cooperao e o

    Desenvolvimento Econmico

    OCDE, Abramovay (2000) afirma que a centralidade da idia

    acerca do territrio que este, mais que simples base fsica para as relaes entre pessoas e

    organizaes, organiza-se em rede, formando um tecido social e uma organizao complexa,

    de diversas feies. Um territrio representa uma trama de relaes histricas, configuraes

    polticas e identidades (op. cit., p. 385), que desempenham papis de articulao,

    organizao do conjunto de atores e ativos envolvidos neste espao construdo.

    A articulao dos modos e das experincias de cooperao com os modos e

    experincias de conflito, numa interao dialtica, consubstancia o territrio com duas

    dimenses: a unidade e a pluralidade. A unidade, decorrente de um movimento cooperativo

    ou solidrio, produz dois tipos de solidariedade: a orgnica e a organizacional.

    Nesta dialtica relacional

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    os territrios so, essencialmente, o resultado de formas especficas de interao social, que implicam em cooperao e conflito, ou da capacidade dos indivduos e organizaes locais, de promover vnculos dinmicos, capazes de valorizar os sistemas naturais herdados, os objetos tcnicos e culturais historicamente construdos e, tambm, as tramas sociais e polticas (SANTOS; SILVEIRA, p. 150).

    Vrios fatores interferem e contribuem no desenvolvimento territorial: o econmico, o

    scio-cultural, o ambiental, o poltico-institucional, dentre outros. Destaca-se, no entanto, a

    importncia do capital humano, do capital social e do natural. A dimenso territorial do

    desenvolvimento vai alm das vantagens ou obstculos ambientais ou geogrficos de

    localizao. H uma preocupao em entender e constituir redes e convenes internalizadas

    em organizaes cooperativas, que contribuam no acesso a ativos pblicos, como a educao,

    o conhecimento, a sade, capazes de fortalecer o tecido social da localidade (Abramovay,

    2003), e a atores situados nas esferas da sociedade civil, do mercado e do Estado..

    Aponta-se para uma interao entre a territorialidade do desenvolvimento e a

    compreenso de capital social, visto que as caractersticas da organizao social, manifestas

    em normas, sistemas, confiana mtua, contribuem para melhorar a organizao social,

    facilitando aes cooperativas (Putnam, 2000).

    Levando-se em considerao a multidimensionalidade do poder, entendido a partir da

    interao dos poderes advindos e fruto da interao da sociedade civil, Estado e mercado, de

    distintas escalas, possvel desencadear dinmicas de desenvolvimento territorial a partir da

    articulao e organizao de atores sociais, como as famlias da agricultura familiar. Processo

    no restrito melhoria econmica, mas tambm atento s melhorias das condies sociais,

    culturais, ambientais, nutricionais, reduzindo a pseudo passividade dos territrios e atores

    perifricos.

    No entender de Boiser (1997) o desenvolvimento territorial consiste numa expresso

    ampla que inclui o desenvolvimento das pequenas localidades, mudanas de ordem scio-

    econmica, de carter estrutural, em determinados espaos geogrficos, com sistemas e

    processo decisrios democraticamente construdos. Para o mesmo autor, o desenvolvimento

    territorial baseia-se em trs objetivos: a) aperfeioamento do territrio entendido como um

    sistema fsico e social estruturalmente complexo, dinmico e articulado; b) o aperfeioamento

    da comunidade (Gemeintschaft) e sociedade (Geselschaft) que habita esse territrio; e, c) o

    aperfeioamento, formao de cada pessoa, que pertence a essa comunidade e habita o

    territrio. Assim, percebe-se que o desenvolvimento territorial no se restringe ao crescimento

    econmico, como tambm, consiste na articulao dos atores na busca de atender, alm das

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    necessidades econmicas, tambm as demandas sociais, culturais, potencializando tanto

    capitais tangveis quanto aspectos intangveis (Dallabrida, Siedenberg, Fernndez, 2004).

    Neste espao situa-se o cooperativismo como prtica social, com dimenses culturais,

    polticas, econmicas e ganha importncia

    a prxis de um cooperativismo autnomo, autogestionrio e solidrio, que inova no espao da empresa-comunidade humana e tambm na relao de troca entre os diversos agentes; nosso argumento que a sociedade precisa superar a relativa inrcia a que se submeteu, superando a cultura da reivindicao e da delegao, como suas alienadoras prticas paternalistas e assistencialistas, por uma cultura do auto-desenvolvimento, de auto-ajuda, de complementaridade slida; o associativismo e o cooperativismo autogestionrios, transformados em projeto estratgico, podem ser os meios mais adequados para a reestruturao da scio-economia (ARRUDA, 1996, p. 7).

    Abdalla (2002) entende o princpio da cooperao como o eixo racional

    fundamentador, oposto ao princpio da troca competitiva. A cooperao, afirma o mesmo

    autor, alm de garantir a vida de um grande nmero de pessoas (at porque nem todas esto

    inseridas nesta dinmica social), possibilita uma maior aproximao do universo humano

    prxis que possibilitou a existncia e a continuidade da espcie humana. a possibilidade de

    reencontro com a sua essncia, perdida pelas conformaes histricas fundamentadas na

    explorao (op. cit. p. 102), que a dinmica da cooperao busca reconstruir.

    De acordo com Maturana (2002, p. 185), foi o princpio da cooperao que

    possibilitou a origem da espcie humana e no a competio. A origem antropolgica do

    Homo sapiens no se deu atravs da competio, mas sim atravs da cooperao. (...) O que

    nos faz seres humanos nossa maneira particular de viver juntos como seres sociais na

    linguagem . No entender de Gadamer (2002, p. 657), ter linguagem significa precisamente

    um modo de ser completamente distinto da vinculao dos animais ao seu meio ambiente. (...)

    Aquele que tem linguagem tem o mundo .

    A afirmao da cooperao, entre a espcie humana, no uma mera proposio

    terica alternativa s proposies de ordem competitiva e concorrencial. Ela um fundamento

    concreto do ser humano, uma categoria, de ordem ontolgica e antropolgica (Abdalla,

    2002, p. 112). A cooperao como referencial das relaes e estratgia de reproduo social,

    de acesso aos ativos e atores, por parte das famlias rurais, traz algumas implicaes nas

    relaes sociais de produo, nas relaes de sociabilidade e nas relaes de troca. Subsumida

    cooperao

    a economia deixaria de ser o ritual oblativo ao deus mercado e o palco no qual se efetivam as relaes de troca competitiva e passaria a ser a prxis humana produtora e distribuidora dos bens necessrios ao sustento de toda a humanidade. O mercado deixaria de ser o princpio fundamentador para ser apenas um fenmeno decorrente desta prxis e a seu servio. Ele voltaria a ser uma atividade humana e

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    perderia o status de princpio nomolgico que reina sobre as relaes humanas (Idem, p. 113).

    As relaes de troca fazem parte integrante da sociedade humana. O intercmbio entre

    as pessoas e entre os grupos sociais faz parte da essncia da humanidade, caracterizando a

    dimenso coletiva do ser humano. As relaes de troca de do no espao do mercado,

    mediadas pelo dinheiro. No entanto, distinto da compreenso capitalista do dinheiro e do

    mercado, Abdalla (Idem., p. 128), entende que nas relaes sociais de cooperao,

    possvel um mercado que inclua as pessoas e que seja cooperativo e solidrio .

    De acordo com Arruda (1996, p. 24) necessrio repensar o mercado como uma

    relao social, entre seres humanos . Organizar o mercado, sob a tica da cooperao e da

    solidariedade humana dialoga com o resgate da identidade e dos propsitos iniciais da

    economia, de suas razes,

    enquanto oikonomia, o estudo do abastecimento do oikos, o lar do ser humano, que tem, por uma feliz coincidncia, a mesma raiz semntica que ecologia. (...) a economia deixou de estudar os meios para o bem-estar do ser humano e se transformou em um fim em si mesma, uma cincia na qual tudo o que no tem valor monetrio e tudo a respeito do que no se pode estabelecer um preo no tem valor (GUIMARES, 2001, p. 65).

    Ante este quadro, a cooperao e do cooperativismo e sua relao com o

    desenvolvimento territorial rural, tomam um sentido novo, tanto pela capacidade de crtica s

    prticas tradicionais das cooperativas e afirmar uma nova dinmica de organizao da

    agricultura familiar. O cooperativismo regata a sua contribuio no processo de

    desenvolvimento territorial rural. As famlias rurais formam cooperativas, cooperam movidas

    por interesses e pela possibilidade de satisfao de suas necessidades. Para uns a cooperao

    pode estar mais vinculada satisfao de suas necessidades, para outros est vinculada ao

    atendimento de seus interesses. No entanto,

    ao se estudar a histria da cooperao fica claro que as razes fundamentais sempre estiveram no campo da economia, isto , da produo e da distribuio de bens e riquezas. A economia consiste no esforo tcnico e poltico de produzir e distribuir bens e riquezas, em funo de necessidades ou interesses (FRANTZ, 2005, p. 85).

    Ao longo da histria da humanidade a cooperao esteve presente. uma luta

    permanente contra as dificuldades que as pessoas foram encontrando na dinmica da

    produo e de distribuio daquilo que necessitavam para viver e se reproduzir. Essa uma

    histria vinculada economia das necessidades. No perodo mais recente da histria e

    dinmica da cooperao, as necessidades cederam lugar para os interesses corporativos e

    pessoais. Muda-se da economia das necessidades para uma economia dos interesses (Frantz,

    2005). Persistem, no entanto, as lutas cotidianas de uma parcela significativa da humanidade

    para a satisfao de suas necessidades elementares, como o alimento e a gua.

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    Tendo presente a dinmica conflituosa das razes da cooperao, o atendimento das

    necessidades e a satisfao dos interesses, h formas e instrumentos de manuteno de uma

    rede de solidariedade entre os associados. Existe um mecanismo social que rompe o

    individualismo para formar e constituir dinmicas de cooperao efetivas, capazes de

    contribuir na melhora da qualidade de vida das famlias.

    Franco (2001) denomina esta dinmica de capacidade de comunidade, a partir do que a

    existncia do capital social representa e significa, neste contexto. O capital social2 constitui

    uma varivel, um fator de desenvolvimento territorial, distinto do capital humano, do capital

    construdo e do capital natural. Na presena deste capital (ativo), constata-se que:

    a) as sociedades, ou parte delas, exploram melhor as oportunidades ao seu alcance; b) as organizaes tornam-se mais eficientes; c) os chamados custos de transao so reduzidos; d) as instituies funcionam melhor; e) reduz-se a necessidade de usos da violncia da regulao dos conflitos; f) mais bens pblicos (e privados) so produzidos; g) mais atores sociais so constitudos; e h) a sociedade civil torna-se mais forte (Idem., p. 50).

    Em segundo lugar, diz o mesmo autor, que quanto maior for a presena desta varivel,

    mais rpida, mas intensa ou mais duradouramente os efeitos, anteriormente citados

    manifestam-se. Em terceiro lugar, o fator capital social, depende das relaes sociais, estveis

    e durveis, estabelecidas entre as pessoas e grupos sociais, entidades de uma mesma

    sociedade.

    A capacidade de comunidade a que se refere o capital social, diz respeito

    capacidade de viver em comunidade, lato sensu, ou seja, de interagir socialmente de sorte a criar e manter contextos onde se manifeste um ethos de comunidade [...] (o qual) consiste em uma classe particular de interaes sociais que promovem: a) o reconhecimento mtuo; b) a confiana; c) a reciprocidade e a ajuda mtua; d) a solidariedade; e, e) a cooperao (op cit., p. 54).

    A fundamentao e explicitao da capacidade de comunidade, entre os seres

    humanos, transcendem as explicaes da teoria econmica dos jogos, segundo a qual o ser

    humano visto como um ser puramente racional, o que inclusive limita a busca pela soluo

    dos chamados dilemas da ao coletiva (Franco, 2001). Teoria que parte de um entendimento

    idealista dos seres humanos, os quais sempre se orientariam por escolhas racionais,

    especialmente na rea da economia. A capacidade de comunidade, de cooperar,

    constituda, fundamentalmente, pela capacidade que tem o ser humano de colaborar ou de cooperar com os outros seres humanos. Este ltimo termo melhor por ser mais abrangente: co-laborar evoca a noo de trabalho conjunto, enquanto co-operar se refere a quaisquer (oper)aes conjuntas, algumas delas fundamentais porquanto constitutivas do humano (Idem., p. 67).

    2 Franco (Idem., p. 69-90) afirma que a idia de capital social bastante debatida entre os tericos, sejam eles das reas de economia, sociologia, poltica, filosofia, entre os quais as diferenas so enormes. Para o autor, o conceito s foi elaborado de uma maneira completa pelos socilogos Pierre Bourdieu e James Coleman (p. 71).

  • 9

    Desenvolvimento territorial rural e acesso a ativos e a atores

    A abordagem baseada no acesso a ativos de capital e atores entende o

    desenvolvimento territorial rural observando a capacidade de reproduo das famlias rurais e

    as vrias opes que compem as estratgias de vida envolvendo atividades agrcolas e no-

    agrcolas e tambm a capacidade para acessar e coordenar um conjunto de ativos de capital e

    atores da sociedade civil, do Estado e o mercado. A unidade familiar constitui o fulcro

    elementar da anlise. A abordagem busca caracterizar as distintas atividades e fontes de renda

    que as famlias acessam para viabilizar as condies de sobrevivncia ou qualificar o nvel de

    vida em razo do acesso e da capacitao para o acesso a recursos e atores sociais (Basso,

    2004). Uma referncia voltada, primordialmente, para o estudo do desenvolvimento rural,

    onde as noes de rural livelihoods3 e livelihood strategies4 so fundamentais. A dinmica de

    desenvolvimento rural e as estratgias de reproduo social envolvem anlises que abarcam as

    atividades agrcolas e as no agrcolas.

    A avaliao das condies de vida no meio rural e da capacidade de reproduo,

    conforme Bebbington (1999), est fundamentada na anlise do acesso que as pessoas ou

    famlias buscam obter a um conjunto de ativos e outros atores localizados nos espaos da

    sociedade civil, do Estado e do mercado. um entendimento distinto daqueles que analisam a

    agricultura e os agricultores familiares sob o ponto de vista de sua viabilidade ou da no

    viabilidade. Entende o autor que aqueles estudos apresentam um conjunto de limitaes:

    conflitam noes de subsistncia agrria com rural, ignorando as distintas formas como as

    pessoas e famlias tm se organizado para ganhar a vida e os patrimnios que formaram ao

    longo do tempo; as anlises esto muito restritas aos fatores econmicos como estratgia de

    reproduo familiar, quando aspectos culturais e sociais so levados em considerao pelas

    famlias nas suas estratgias; elas estabelecem uma barreira impermevel entre as famlias e

    unidades de produo viveis das no-viveis. No entanto, esse ponto divisrio permevel e

    mvel, na medida em que ele depende de consideraes e referenciais econmicos, sociais,

    culturais, tecnolgicos que vo sendo revistos ao longo da histria.

    Bebbington (1999) destaca que a anlise da estratgia de reproduo adotada pelas

    famlias rurais abarca um conjunto de aes inter-relacionadas, a saber:

    acesso das pessoas a 5 tipos de bens de capital; as maneiras pelas quais elas combinam e transformam esses bens na construo de subsistncia, que, at onde possvel, satisfazem suas necessidades materiais e experenciais; as maneiras pelas

    3 Condies de vida no meio rural. 4 Estratgias e aes realizadas pelas pessoas ou famlias para garantir e melhorar as condies de vida.

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    quais elas so capazes de expandir suas bases de patrimnio atravs do engajamento com outros atores pelas relaes governadas pela lgica do Estado, do mercado e da sociedade civil; e, as maneiras pelas quais elas so capazes de dispor e realizar suas capacidades para no s tornar a vida mais significativa, mas tambm mais importante para mudar as regras dominantes e as relaes que governam as maneiras pelas quais os recursos so controlados, distribudos e transformados em fluxos de renda. (op cit., p. 1).

    Seguindo a anlise do mesmo pensador, oportuno destacar que a capacidade e a

    possibilidade que as pessoas e as famlias tm em combinar o uso dos diversos tipos de ativos

    de capital e ao mesmo tempo para melhorar as capacidades de acesso aos ativos, constitui um

    importante elemento na estratgia de reproduo social e na busca de melhoria da qualidade

    de vida, com reduo da pobreza e das desigualdades. Os bens so entendidos

    no somente como coisas que permitem a sobrevivncia, a adaptao e o alvio pobreza: eles tambm so a base do poder dos agentes de agir e reproduzir, desafiar ou mudar as regras que governam o controle, uso e transformao dos recursos. (...) veculos para a ao instrumental (ganhar a vida), a ao hermenutica (dar um sentido vida), a ao emancipatria (desafiar as estruturas sob as quais se ganha a vida). (BEBBINGTON, 1999, p. 5).

    A dinmica relao existente entre a ao instrumental, a ao hermenutica e a ao

    emancipatria desencadeada no processo de reproduo social e do desenvolvimento

    territorial rural dialogam com a capacitao (formao) e empoderamento5 das pessoas e

    famlias. Tornar as pessoas, os grupos sociais e suas organizaes capazes de participar

    efetivamente dos espaos presentes nas esferas da sociedade civil, do Estado e do mercado,

    contribui para a construo de novas relaes, tornando-as mais sujeitos do processo de

    desenvolvimento.

    De acordo com Bebbington et al. (2002) o marco conceitual desta abordagem enfatiza

    a anlise nos ativos das pessoas do meio rural e nas estratgias de reproduo adotadas ou

    combinadas pelas famlias, compreendidas como as formas sob as quais as famlias e pessoas

    podem inter-relacionar os ativos simetricamente e transform-los em patamares de nveis e

    forma de vida. As pessoas e as famlias rurais adotam estratgias de vida que:

    Sejam mais consistentes com o conjunto de ativos que uma pessoa controla num determinado momento; Reflete suas aspiraes de longo prazo, assim como suas necessidades imediatas; e Reflete ser a mais vivel das oportunidades e restries impostas pelas circunstncias econmicas nas quais se operam (Idem, p. 4).

    Bebbington (1999) sublinha a necessidade de se ter uma concepo ampla dos

    recursos que as famlias necessitam acessar no processo da estratgia de reproduo social,

    passando da base dos recursos materiais para um conjunto de bens, fontes de renda e

    5 Delgado (2003, p. 230-231) entende este processo social como uma dinmica na qual as pessoas, as comunidades, as organizaes, transformam seus recursos em ativos de capital e colocam-se numa posio de poder mudar sua relao com os mercados, o Estado e a sociedade civil. [...] empoderar-se conquistar poder, ou seja, adquirir a capacidade (o poder) de mudar a posio que se ocupa em um determinado campo social de disputa (no caso o desenvolvimento rural) .

  • 11

    mercados de produtos e de trabalho. Destaca o acesso a cinco tipos de ativos que influenciam

    as estratgias de reproduo das famlias rurais: capital produzido, capital humano, capital

    social, capital cultural e capital natural.

    Capital humano: so os ativos que a pessoa possui que a caracterizam, como

    conhecimento, sade, competncias, tempo, etc (Bebbington et al., 2002, p. 4). O capital

    humano passvel de ser aumentado pelos investimentos feitos ou acesso sade, educao

    ou pelas aprendizagens feitas no espao e nas atividades do trabalho. Um processo de

    permanente formao individual e coletiva. Kliksberg (2001) destaca que na formao desse

    ativo a famlia desempenha um papel importante. Ela contribui na constituio da pessoa, a

    sua estabilidade psquica e educao. A densidade e a qualidade dos servios de educao e

    sade, essenciais na formao do capital humano, dependem da oferta e qualidade dos

    servios prestados pelo Estado e suas polticas pblicas (Basso, 2004).

    Capital social: so os ativos fruto das relaes interpessoais e da participao em

    organizaes. Essas relaes comunitrias e organizaes contribuem e facilitam o acesso a

    outros recursos e atores (Bebbington, et al., 2002).

    Capital cultural: refere-se aos recursos e smbolos que algum possui como resultado

    de cultura da qual faz parte , diz Bebbington et al. (2002, p. 4). Kliksberg (2001) enfatiza o

    elemento da cultura de cada povo como componente importante no processo de

    desenvolvimento. A cultura engloba valores, princpios, referenciais, smbolos, significados

    capazes de definir a identidade de um povo, grupo social ou nao.

    Capital natural: ativos em forma de qualidade e quantidade de recursos naturais aos

    que se tem acesso (Bebbington et al., 2002, p. 4). So os ativos relacionados quantidade e

    qualidade de terras, disponibilidade e preservao da gua (fontes, rios, subterrnea, sangas),

    s florestas , fauna, condies agroecolgicas, ao ar. Ellis (2000) pondera acerca dos usos dos

    diferentes ativos de capital natural conforme sua capacidade agroecolgica e tambm que se

    evidencie e privilegie, dentre os recursos naturais relativos s principais estratgias de

    reproduo social das famlias rurais, aqueles cuja renovao seja possvel ou mesmo a

    renovao seja administrada, com reflorestamentos, manejo do solo, sem esquecer os recursos

    naturais no renovveis.

    Capital produzido: chamado capital tangvel (...) o qual inclui ativos fsicos (na forma

    de infraestrutura, tecnologia, gado, sementes, etc.) e ativos financeiros (na forma de dinheiro,

    capital de trabalho e ativos fsicos que so facilmente convertidos em dinheiro , caracteriza

    Bebbington et al.(2002, p. 4). Recursos materiais que podem ser utilizados no processo

    produtivo rural como mquinas, equipamentos, instalaes, insumos, sementes, como tambm

  • 12

    aqueles destinados ao uso domstico (eletrodomsticos, mveis). A esses materiais somam-se

    os recursos financeiros (as linhas e programas e condies de financiamento, os fundos de

    consumo e de investimento) e os recursos tecnolgicos (produtos, sementes, conhecimento).

    Ellis (2000, p. 33) amplia esta compreenso dos ativos produzidos para as reas de infra-

    estrutura e de comunicao (estradas, energia eltrica, telefone, cursos d gua). Os ativos

    financeiros no se restringem apenas aos acessos de crditos e financiamento ou s formas de

    capitais produtivos, mas a outras formas de obteno de recursos de que as famlias lanam

    mo, conforme necessidade e disponibilidade, transformando-os em ativos financeiros. a

    converso em dinheiro ou consumo de algum animal de trabalho ou outros estoques

    realizados.

    O uso ou a combinao dos distintos ativos pelas famlias rurais, nas suas estratgias

    de reproduo social, no se d da mesma forma e ao mesmo tempo. A temporalidade da

    estratgia utilizada na reproduo social um dos fatores a ser considerado. A estratgia

    utilizada hoje, como por exemplo, o uso intensivo de um determinado ativo (a terra) poder

    ensejar seu esgotamento a longo prazo, caso no venha combinado com formas de

    preservao ou combinado com o acesso a outros ativos. Por outro lado, as caractersticas e

    identidades dos grupos sociais tambm interferem nas estratgias adotadas para a reproduo

    social e tambm no uso dos ativos ou na sua combinao de uso. O mercado e seus

    mecanismos tambm influenciam na forma de uso de um determinado ativo. So os interesses

    econmicos determinando o ritmo e a intensidade do uso, como no caso da criao intensiva

    de sunos ou no cultivo de culturas (milho, soja). O Estado atravs de programas, de polticas

    pblicas, constitui outro agente de influncia na definio das estratgias de usos e

    combinao de ativos, na reproduo social. Ele poder faze-lo atravs da disponibilizao de

    linhas de crditos, concesso de incentivos, tributao, legislao.

    Assim, nos casos onde as famlias tem acesso terra e onde as condies de mercado agrcola so favorveis, existe uma grande possibilidade para que as pessoas possam perseguir estratgias de vida baseadas na agricultura. Pelo contrrio, em outros casos em que as famlias tm pouca terra, porm possuem habilidades que so demandadas pelo mercado de trabalho, assim como redes de relaes que facilitam seu acesso a estes mercados, ento ser mais provvel que ao menos alguns dos membros da famlia persigam estratgias de vida baseadas no emprego no-agrcola (BEBBINGTON et al., 2002, p. 4-5).

    A dimenso do tempo interfere nas estratgias de reproduo social das famlias rurais.

    As prticas atuais podem ser distintas das suas estratgias para o futuro. Aquilo que hoje

    ocupa o maior esforo e tempo no reflete, automaticamente, as aspiraes para o futuro.

    Portanto, pode ser que uma estratgia de vida tenha interface em dois nveis,

    simultaneamente. As pessoas e famlias, acessando e utilizando recursos capazes de satisfazer

  • 13

    as necessidades momentneas e buscando acessar ativos que acumulados, permitiro a eles

    alcanar formas e nveis de vida distintos dos atuais.

    O acesso aos ativos e atores requer uma organizao das pessoas em entidades,

    movimentos sociais, em redes. A organizao

    desempenha um papel importante para ajudar a ao das pessoas no apenas no sentido de buscarem melhorar as suas condies de vida, mobilizar e defender ativos, mas tambm para facilitar-lhes o acesso aos demais atores situados nas esferas do mercado, do Estado e da sociedade civil, abrindo caminho para mudar relaes e, por conseqncia, as prprias condies de acesso (BASSO, 2004, p. 36).

    As esferas da sociedade da sociedade civil, do Estado e do mercado tm sua prpria

    organizao o que influencia a forma de distribuio, o controle e a transformao de ativos,

    diz Bebbington (1999, p. 35). O acesso ao mercado e a melhoria da qualidade de vida

    decorrente desse acesso est sujeito s determinaes tpicas nas trocas comerciais. O Estado

    que opera atravs de agncias, polticas, departamentos e rgos, determina as formas de

    acesso e incluso das pessoas em suas decises e programas. Da mesma maneira, as

    organizaes da esfera da sociedade civil, dadas as suas formas e particularidades de

    funcionamento, finalidade, tambm delimitaro o acesso das pessoas e influenciaro nos

    impactos sobre a melhoria das condies de vida das famlias.

    A garantia de melhora nas condies de vida est vinculada s capacidades que as

    pessoas tm ou precisariam ter para localizar-se melhor nas relaes e transaes de cada um

    dos atores, aproveitando melhor cada esfera e combinando com as demais esferas as suas

    estratgias (Bebbington, 1999).

    Na dinmica do acesso aos atores localizados nas esferas do Estado, sociedade civil e

    do mercado, um ativo constitui um dos elementos centrais: o capital social. O capital social

    um dos ativos a ser acessado nas estratgias de reproduo social e combinado com outros

    bens, dizem Bebbington et al. (2002). Por outro lado, ele um elemento fundamental que,

    quando existente, auxilia no processo de acesso aos atores e ativos. Para os mesmos autores, o

    acesso a atores e ativos se constitui no ponto chave para que haja a condio de reproduo

    social e de melhoria da qualidade de vida.

    A importncia do capital social na estrutura de anlise de Bebbington (1999, 2002)

    importante pela popularizao do termo. Coloca em debate um conjunto de temas no

    analisados pelas polticas e teorias dominantes e sugere de forma capilar que

    a dimenso social da existncia humana pode ser to importante com as dimenses econmicas; que o social subjaz a qualquer outra ao econmica ou poltica (quer dizer, que tudo est integrado); e que o social constitui uma dimenso da qualidade de vida to importante com a econmica (BEBBINGTON, 2005, p. 22).

  • 14

    O mesmo autor entende que o capital social se constitui num dos ativos fundamentais

    nas estratgias de vida adotadas pelas famlias para melhorar a sua qualidade de vida, acessar

    os ativos e atores, capacitar-se e empoderar-se para acessar e combinar melhor o uso e

    conservao dos ativos. Estratgia de vida concebida como

    a forma mediante a qual uma pessoa procura satisfazer certos objetivos de vida, atravs do uso, a combinao e a transformao de um conjunto de ativos. Estes objetivos de vida podem ser de vrios tipos: aumento da renda, melhoramento da experincia e qualidade de vida, e empoderamento (empowerment) scio-poltico. Quer dizer, eles no se reduzem sempre nem exclusivamente ao progresso econmico (Idem, p. 24).

    Voltando temtica do capital social e seguindo a linha de pensamento de Bebbington

    (2005), existe uma estreita ligao entre o capital social e as estratgias para a superao da

    pobreza. O autor identifica trs tipos de capital social que, combinados ou utilizados, podero

    contribuir na reduo das desigualdades e melhorar os nveis de vida. Os tipos de capital

    social identificados pelo ator, so: a) capital social de unio, referindo-se s relaes mais

    prximas entre as pessoas (famlia, vizinhana, comunidade). Um capital restrito em dois

    sentidos: em termos sociais, restrito a poucas pessoas e, em termos geogrficos, restrito a um

    espao determinado; b) capital social de ponte. Este refere-se aos nexos que vinculam as

    pessoas e grupos afins, em distintos lugares geogrficos. Constituem relaes que superam as

    proximidades de unio. Exemplo de manifestao deste capital so as comunidades rurais, as

    formas federativas de organizao das pessoas; e, c) capital social de escada , representados

    pelas relaes presentes entre grupos e pessoas de distintas identidades e diferentes graus de

    poder scio-poltico. Este capital est presente nas relaes minimamente consolidadas entre

    pessoas e comunidades e as agncias pblicas ou organizaes no governamentais. So

    relaes que facilitam o acesso a esferas polticas, a recursos administrados por agncias

    externas.

    Os trs tipos de capital social podem facilitar o acesso a ativos e atores e contribuir na

    satisfao de certos objetivos de vida. O capital social de unio pode facilitar o acesso aos

    recursos da localidade e de forma mais clere, especialmente em momentos de crise ou

    emergncias. um tipo de capital social que d o sentimento de pertinncia, de estar junto.

    As formas de capital social, de ponte e de escada oferecem acesso a tipos de ativos e

    nveis de melhoria de satisfao e na estratgia de vida das famlias rurais. Esses capitais

    utilizados podero influir nas polticas, agncias, nos acessos aos ativos e atores. No entanto,

    diz Bebbington (2005), somente atravs da organizao em federaes ou confederaes que

    se tornar possvel exercer presses para alterar as polticas e as regras que determinam a

    distribuio de ativos. Neste nvel de organizao, ser possvel incidir sobre as agncias que

  • 15

    controlam a oferta de ativos, como sobre os governos e suas estruturas. Igualmente, pela via

    do capital social de escada que se torna possvel o acesso a certos tipos de recursos pblicos

    ou externos, nacionais ou internacionais. Mediante o capital social de escada e de ponte,

    conjugados, acessar-se- os espaos polticos administrativos onde so definidas as polticas

    sociais. Um exemplo desta dinmica a experincia do Oramento Participativo, implantado

    em diversos municpios brasileiros e no estado gacho no governo passado.

    Nas estratgias de vida e na busca de superao da pobreza, possvel afirmar que

    o capital social de unio serve para a sobrevivncia

    literalmente, em ingls, um capital social que permite pessoas to get by (ir passando). Oferece

    pelo menos potencialmente

    acesso a formas de reciprocidade, a possibilidade de compartilhar recursos (por exemplo, em bancos comunitrios). (...) um capital social que pode permitir um alvio da pobreza, porm, no a sua superao. Por outro lado, os capitais sociais de ponte e escada oferecem a possibilidade de acessar recursos que existem fora da localidade ou das estruturas sociais locais, recursos de outro tipo e potencialmente de outro nvel. (...) so um capital que permite avanar (to get ahead). Vale dizer, constituem um capital social que se presta melhor para a superao da pobreza (op. cit., p. 29 ).

    O acesso aos distintos atores que atuam nas esferas da sociedade civil, do Estado e do

    mercado influenciado pelas condies primrias que as pessoas e famlias tm quanto a

    ativos de capital que cada qual possui (Bebbington, 1999). As dotaes de terra (capital

    natural), os recursos financeiros ou patrimoniais (capital produzido), a participao em

    organizaes (capital social), as condies de sade e os nveis de educao e capacitao

    (capital humano) interferem diretamente no acesso aos atores da sociedade civil, do Estado e

    do mercado (Basso, 2004). Influenciam as formas e a qualidade, do acesso aos atores.

    Seguindo a trilha do pensamento de Bebbington, Basso (2004, p. 39) afirma que a

    abordagem do acesso a atores e ativos deve considerar na sua avaliao a capacidade de

    reproduo social das famlias rurais, numa perspectiva da reduo da pobreza e das

    desigualdades. Considerar

    os diversos ativos que os grupos familiares rurais utilizam para garantir a sua sobrevivncia; as formas e meios pelos quais os grupos familiares so capacitados para acessar, defender e manter estes ativos; e, a capacidade que os grupos familiares possuem para transformar tais ativos em renda, dignidade, poder e sustentabilidade.

    Esta dinmica requer um olhar mais abrangente sobre a agricultura e suas trajetrias de

    desenvolvimento. No reduzir apenas as anlises sobre a atividade agrcola em si, mas

    visualizar os tipos de bens e ativos que as famlias possuem, mantm, reproduzem, a que tm

    acesso ou a que buscam acessar, na formatao de suas estratgias de reproduo social, da

    reduo da pobreza e desigualdades e melhoria das condies de vida. Atentar aos processos

  • 16

    de capacitao6 e formao das famlias para poder acessar melhor os ativos e atores das

    esferas institucionais e do mercado tambm devero ser observados. Este conjunto poder

    incidir na estratgia de vida e na sua qualidade de vida buscada.

    Cooperativismo de crdito solidrio Crasol de Santo Cristo (RS)

    A cooperao uma ao humana concreta, objetiva, que tem suas caractersticas

    peculiares conforme as especificidades histricas de cada perodo e normalmente resulta da

    interao social, dos movimentos sociais. Touraine (1998, p. 254) entende que o movimento

    social ao mesmo tempo um conflito social e um projeto cultural. (...) visa sempre a

    realizao de valores culturais . O conflito social presente no cooperativismo est relacionado

    com a distribuio das riquezas, as oportunidades sociais, a luta por melhores condies de

    vida e o reconhecimento da liberdade de organizao (Frantz, 2005). Ao mesmo tempo que

    afirma a solidariedade humana, ante ao individualismo, busca construir novos fundamentos de

    relaes humanas, capazes de produzir qualidade de vida e um novo processo de

    desenvolvimento.

    Uma das primeiras organizaes de cooperao formal entre os agricultores imigrantes

    e tambm na regio em tela, foram as Caixas Econmicas Rurais (Sparkasse). Com uma

    estrutura de funcionamento bastante reduzida, por vezes restrita ao cofre onde era guardado o

    dinheiro, na casa de umas das pessoas responsveis pelo atendimento e controle, ou at

    mesmo no clube social da localidade, possuam uma rea de atuao restrita, por vezes

    circunscrita a uma determinada localidade ou municpio. As Caixas Rurais constituram

    formas cooperativas para garantir o acesso ao crdito e espao de depsito do dinheiro

    oriundo do comrcio realizado, alm de sua interface com o desenvolvimento local. Riedl e

    Vogt (2003, p. 174) afirmam que a fundao das Caixas Econmicas Rurais do sistema

    Raiffeisen. (...) as Caixas de Crdito e Emprstimo viriam a se tornar importantes

    fomentadoras de desenvolvimento local/regional .

    O sistema Cresol surge num ambiente de ampla atividade poltica, cultural e

    organizativa das Comunidades Eclesiais de Base (CEB) da Igreja Catlica, e de uma rica

    experincia de organizaes sindicais e populares como uma dos desdobramentos dos fundos

    rotativos, criados na dcada de 1980, financiados por entidades internacionais de apoio ao

    6 Capacitao no entendida como preparao tcnica, mas como um processo de empoderamento, fonte de poder (Sen, 2000) e aquisio de competncias (Freire, 1999) e saberes apropriados.

  • 17

    desenvolvimento da agricultura familiar. Os fundos eram administrados pelos prprios

    agricultores e constituam uma forma de reao excluso bancria tradicional. Uma

    atividade oriunda do sudoeste e centro-oeste do Paran, posteriormente organizado em Santa

    Catarina e no Rio Grande do Sul (Bittencourt; Abramovay, 2001).

    A CRESOL de Santo Cristo, criada em 2003, est vinculada Cresol Central, que atua

    nos dois Estados do Sul do Brasil: Rio Grande do Sul e Santa Catarina e est localizada em

    Chapec (SC), atende aos objetivos basilares do sistema, qual seja, ser um instrumento de

    fortalecimento do desenvolvimento local. Disponibilizar o crdito na perspectiva do

    desenvolvimento e com duas anlises paralelas: uma econmica e outra social. [...] alavancar

    o desenvolvimento local, melhorando a qualidade de vida no meio rural (CRESOL

    CENTRAL, 2005, p. 3-4).

    A Cresol, unidade de Santo Cristo, conforme dados de outubro de 2005, integrada

    por 1.341 associados, formada por agricultores familiares, cuja caracterstica fundiria

    encontra no quadro 01, abaixo.

    Quadro 01

    Caracterizao dos associados da Cresol/Santo Cristo, de acordo com a estrutura

    fundiria 2005.

    Situao/rea N. de associados % Mora com os pais 385 28,71 Arrendatrio 97 7,23 Menos de 10ha 307 22,90 De 10 a 19ha 247 18,42 De 20ha 78 5,82 De 21 a 25ha 151 11,26 De 26 a 40ha 68 5,07 Acima de 40ha 08 0,60 Total 1.341 100 Fonte: Cresol Santo Cristo.

    O critrio para associar-se cooperativa, conforme determinao estatutria, a

    condio de agricultor familiar, no podendo possuir imvel rural superior a quatro mdulos

    rurais, permitida a associao de mais de um membro por unidade familiar. facultada a

    associao de pessoas fsicas que exercem atividades estritamente vinculadas agricultura

    familiar, como assistncia tcnica. Permite ainda a associao dos funcionrios da

    cooperativa. As pessoas jurdicas passveis de associao so aquelas que mantm vnculos

    diretos com a agricultura familiar, cuja atividade comercial estiver centrada primordialmente

    com este grupo social, ou ser fornecedor de materiais ou produtos, de projetos implementados

    pela Cresol.

  • 18

    Quando da associao, o cooperado, realiza uma capitalizao mnima de R$ 100,00

    (cem reais), tornando-se scio efetivo que integralizada ao patrimnio lquido da instituio,

    ficando retida pela cooperativa durante o tempo de associao do integrante. A capitalizao

    serve de referencial do patamar mximo de endividamento dos associados, ficando em no

    mximo doze vezes a cota de capital. Outra modalidade de vinculao ao sistema Cresol a

    associao para realizao de servios de poupana.

    O crdito constitui o instrumento central da cooperativa, concedido ao associado

    aps uma avaliao do comit de crdito, formado pela diretoria e conselho fiscal. Este

    comit avalia os riscos de crdito dos tomadores do emprstimo, com base em informaes

    buscadas pelos agentes comunitrios de crdito da respectiva localidade, informaes

    adicionais fornecidas pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Tambm so vlidas as

    informaes prestadas pelos rgos de assistncia tcnica, no caso da EMATER.

    O quadro evolutivo da cooperativa, desde a sua fundao at 2005, apresenta um

    crescimento considervel, desde o ponto de vista do nmero de associados, depsitos

    captados, volume de recursos disponibilizados em crditos, crescimento do patrimnio, como

    pode ser demonstrado no quadro 02.

    Quadro 02 Indicadores do desempenho da Cresol Santo Cristo 2003 a 2005.

    Ano 2003 2004 2005 Associados 350 900 1.341 Patrimnio lquido (R$ 1,00) 160.000 230.000 344.350 Depsitos vista (R$ 1,00) 70.000 180.000 331.920 Depsitos a prazo (R$ 1,00) 200.000 370.000 822.348 Volume total de crditos concedidos (R$ 1,00). (a+b)

    1.160.000 2.720.000 4.171.618

    a) Recursos prprios (R$ 1,00) 500.000 900.000 1.041.618 b) Repasse de recursos (R$ 1,00). (c+d)

    660.000 1.820.000 3.130.000

    c) Custeio (R$ 1,00) 560.000 1560.000 2.200.000 d) Investimento (R$ 1,00) 100.000 260.000 930.000 Fonte: Cresol Santo Cristo.

    O sistema Cresol trabalha com uma variedade de linhas de crdito e programas que

    atendem s necessidades da agricultura familiar. Disponibiliza linhas de financiamento que

    incluem o micro-crdito, repasse de recursos do Programa Nacional de Fortalecimento da

    Agricultura Familiar

    PRONAF. O Programa Social Habitacional de Interesse Social

    PSH

    Rural, outro programa federal implementado localmente pela Cresol. Constitui uma poltica

    pblica que visa construir casas para os agricultores familiares de baixa renda.

  • 19

    O Sistema Cresol possui diversos tipos de garantias para realizar os emprstimos. Nos

    crditos de menor valor pecunirio, a prpria cota de capitalizao serve de garantia, dado que

    h um limite de crdito, de at doze vezes o valor da cota integralizada. Os emprstimos de

    valores monetrios maiores exigem o aval de uma pessoa, com penhora ou hipoteca de algum

    bem, dependendo do valor emprestado ou da modalidade de financiamento. Nas linhas de

    crdito do PRONAF, somente no Pronaf D, exige-se penhor ou avalista. No caso do Pronaf C

    exige-se como garantia de pagamento do emprstimo o aval solidrio. Esta modalidade de

    financiamento realizada, geralmente, por um grupo de cinco famlias, as quais tornam-se

    avalistas umas das outras. uma modalidade de financiamento e de avalista que exige um

    compromisso mtuo no pagamento, confiana recproca.

    As famlias rurais enfrentam um conjunto de dificuldades para acessar ativos de

    capital (financeiro).junto aos estabelecimentos bancrios, como falta de informao quanto s

    possibilidades de financiamento, linhas e programas disponveis; demasiadas exigncias para

    acessar o crdito; custos administrativos na manuteno de conta bancria, taxas especficas;

    discriminao, ou seja, o crdito concedido para quem tem renda maior e para aquelas

    pessoas que buscam quantias mais elevadas; demora na anlise, aprovao e liberao dos

    recursos; ausncia de recursos para as finalidades especficas da agricultura familiar,

    especialmente o micro-crdito; e, falta de vontade de criar estes crditos para alm das

    culturas tradicionais (milho, soja e trigo).

    As dificuldades apresentadas indicam srio limite de acesso a crdito e

    financiamentos. As restries so de natureza econmica e poltica. Econmica porque os

    custos dos financiamentos disponveis so elevados demais para serem pagos pela agricultura

    familiar, custos administrativos da conta e os valores disponibilizados so para aqueles

    agricultores em situao econmica mais favorvel do que a maioria dos scios da Cresol.

    Quanto a restries de natureza poltica, ela reporta ausncia de recursos financeiros, via

    crdito, para as necessidades especficas da agricultura familiar. Os bancos no

    disponibilizam e no instituem linhas para atender o pblico da agricultura familiar, exceto os

    programas governamentais de crdito, nas suas especificidades. A opo pelo pblico que

    tem possibilidades de financiar volumes maiores de recursos, que apresenta garantias de

    pagamento e a produo das culturas tradicionais.

    Kliksberg (2001, p. 151), ao analisar as desigualdades econmicas e sociais da

    atualidade e a relao que estas desigualdades apresentam e limitam o desenvolvimento,

    aponta as restries de acesso ao crdito como fator determinante para a manuteno destas

    desigualdades, denunciando a discriminao e seleo no acesso ao crdito, j que apenas 5%

  • 20

    do crdito do sistema financeiro concedido a pequenas e mdias empresas. As limitaes de

    acesso aos servios de crdito rural constituem um fator limitante s iniciativas de fomento da

    economia local (Brose, 2000).

    Para os agricultores associados ao sistema Cresol Santo Cristo, o acesso ao crdito

    considerado fundamental para realizar o processo produtivo e sua manuteno e reproduo

    social. A Cresol apresenta um conjunto de vantagens aos seus membros: participao nas

    definies da cooperativa; seriedade e transparncia na administrao da cooperativa; menos

    custos financeiros (taxas e juros); menos burocracia na obteno do crdito; agilidade e

    rapidez na anlise, aprovao e liberao dos recursos dos projetos; no h exigncia de

    movimentao financeira; crdito disponvel conforme as necessidades das famlias;

    disponibilidade de crdito conforme o volume necessrio, no micro-crdito; busca de outros

    programas, alm do crdito, para o desenvolvimento da agricultura familiar; oferta de

    informaes acerca de programas, linhas de crdito; uma organizao dos pequenos

    algo nosso ; e, trabalha em conjunto com outras entidades dos agricultores, como o Sindicato

    dos Trabalhadores Rurais, outras cooperativas.

    As redes sociais que interagem neste espao permitem a reduo das incertezas e

    custos financeiros dos crditos, pois

    o carter localizado e a intencional limitao de tamanho das cooperativas permitem, em princpio, que as redes sociais que a constituem abram caminho para uma significativa reduo dos custos de transao bancria, explicando assim o paradoxo delas serem economicamente mais viveis que os sistemas convencionais, quando se trata de atingir este tipo de pblico. Ao mesmo tempo, elas funcionam a partir de um conjunto de controles externos, objeto de administrao financeira padronizada que indicam claramente o potencial de expanso e universalizao do sistema (BITTENCOURT; ABRAMOVAY, 2001, p. 204 )

    No sistema cooperativo de crdito da Cresol o grau de insero da cooperativa junto

    comunidade possibilita que, por meio da participao dos agentes de desenvolvimento e

    crdito, do comit de crdito, da relao com o STR e a Emater, seja possvel aproveitar a teia

    social na qual o sistema creditcio est inserido para aumentar o grau de informaes do

    tomador de crdito. Pode-se dizer que as relaes que permeiam os atores e associados, neste

    caso, de confiana mtua.

    Considerao final

    O desenvolvimento territorial rural depende sobremaneira do acesso das famlias a um

    conjunto de recursos naturais, culturais, organizacionais, tecnolgicos como tambm das

  • 21

    possibilidades afetivas de diversificar, inter-relacionar e qualificar esses recursos e de sua

    capacidade para transformar o conjunto de recursos num processo de empoderamento

    individual e coletivo, melhorando suas relaes comunitrias e sociais e com as organizaes

    da sociedade civil, do mercado e do Estado. Na forma de buscar o acesso aos ativos de capital

    e atores, a cooperao se constitui no elemento fundante de xito das estratgias adotadas.

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