dicionario de ideias

Download Dicionario de ideias

Post on 30-Mar-2016

224 views

Category:

Documents

3 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Dicionario de ideias de Flaubert

TRANSCRIPT

  • Dicionrio

    deIdeias Feitas

    Editoral Estampa

    Gustave Flaubert

  • ABSINTO / Veneno muito violento: um copo basta para dar cabo de um indivduo. Os jornalistas bebem-no enquanto escrevem os seus artigos. Matou mais soldados do que os bedunos.

    ABELARDO / No necessrio fazer a mais pequena ideia do que seja a sua filosofia, ou sequer, saber o ttulo das suas obras. Fazer uma aluso discreta mutilao que lhe infligiu Fulbert. Tmulo de Helosa e de Abelardo: se lhe provarem que falso, protestar: O senhor deita por terra as minhas iluses.

    ABSALO / Se usasse cabeleira postia, Joab no teria conseguido mat-lo.

    ACADEMIA FRANCESA / Denegri-la, mas, se possvel, tudo fazer para ser nela admitido.ACIDENTE / Sempre lamentvel ou importuno (como se alguma vez uma desgraa pudesse ser motivo de satisfao...)

    ACTRIZES / A perdio dos filhos-famlia. So de uma assustadora sensualidade, entregam-se a orgias, devoram milhes e acabam no hospital. Perdo!, algumas so boas mes de famlia. ADEUS / Pr lgrimas na voz ao falar do adeus de fintainebleau.ADOLESCENTE / No iniciar um discurso de entrega de prmios escolares sem recorrer expresso Jovens adolescentes (o que um pleonasmo).

    AGENTE / Termo lbrico.

    GUA / A gua de Paris faz clicas. A gua do mar ajuda a nadar. A gua de Colnia cheira bem.ALABARDA / Na Sua, todos os homens usam alabardas

    AGRICULTURA / Uma das tetas do estado ( o Estado do gnero masculino, mas no importa). Deve ser encorajada. Falta de braos.

    ALABASTRO / Serve para descrever as mais belas partes do corpo feminino. ALBION / Sempre precedida de branca, prfida, positiva. Por pouco que Napoleo a no conquistou. Elogi-la: a livre Inglaterra.

    LBUM / No deve faltar na mesa da sala.ALCIBADES / Clebre devido causa do seu co. Exemplo de debochado. Era muito assduo junto de Aspsia.ALCOOLISMO / Causa de todos os males modernos (v. absinto e tabaco).ALCORO / Livro de Maom, onde s se fala de mulheres.ALEGRIA / A me dos divertimentos e dos risos; no se deve falar das suas filhas. Sempre acompanhada da louca.ALEMES / Povo de sonhadores (antigo). No admira que nos tenham batido pois no estavamos preparados.

    ALIMENTAO / A dos colgios sempre s e abundante.ALMIRANTE / Sempre bravo. Pragueja por mil escotilhas.

    ALMOO (de rapazes) / Exige ostras, vinho branco e anedotas picantes.ALPERCES / Ainda no desta que ano deles.

    ALTIVEZ / Sempre precedida de extrema ou arrogante.

    AMBICIOSO / Na provncia, todo o indivduo que d que falar de si. Eu, por mim, no sou nada ambicioso, quer dizer egosta ou incapaz.AMRICA / Belo exemplo de injustia: foi Colombo quem a descobriu e o nome vem-lhe de Amrico Vespcio. Sem a descoberta da Amrica no teramos a sfilis nem filoxera. Exalt-la, ainda assim, sobretudo quando se l no esteve. Fazer uma exposio sobre o self-government.

    ARENQUES / A riqueza da Holanda.AREPAGO / Fica bem nos discursos oficiais: Meus senhores, neste arepago.ARQUIMEDES / Dizer, a propsito, Eureka! Dem-me um ponto de apoio e erquerei o mundo. Existe ainda o parafuso de Arquimedes, mas uma pessoa no obrigada a saber em que consiste.ARQUITECTOS / Todos uns imbecis. Esquecem-se sempre das escadas dos prdios.

    ARQUITECTURA / No h mais do que quatro ordens arquitectnicas. Claro que se no contam os egpcios, o ciclpico, o assrio, o indiano, o chins, o gtico, o romano, etc.ARSNICO / Encontra-se por toda a parte (lembrar madame Lafarge). H, no entanto, povos que o comem.ARTE / Leva ao hospital. Para que serve, se pode ser substituda pela mecnica, que faz melhor e mais depressa?

    ASTRONOMIA / Rica cincia. S e til marinha. A propsito, rir-se da astrologia.ATEU / Um povo de ateus no seria capaz de sobreviver.

  • ANO / Contar a histria do general Tom Pouce e, no caso de lhe ter apertado a mo, diz-lo com orgulho.ANDORINHA / No lhes chamar seno mensageiras da Primavera. Como se no sabe de onde vm, dizer que chegam de distantes paragens (potico).ANDRCLES / Citar o leo de Andrcles a propsito dos domadores.ANEL / muito elegante traz-lo no dedo indicador. P-lo no polegar muito oriental. Os anis deformam os dedos.ANIMAIS / Ah!, se os animais falassem! H-os mais inteligentes do que certas pessoas.ANTICRISTO / Voltaire, Renan...ANTIGUIDADE (e tudo quando com ela se relaciona) / Sem originalidade, estupidificante.

    APARTAMENTO (de rapaz) / Sempre em desordem, com peas de roupa espalhadas por tolo o lado, cheiro a tabaco. Deve encontrar-se nele coisas extraordinrias.

    AQUILES / Acrescentar dos ps ligeiros. o que d a entender que se leu Homero.

    ASSOBIO / feio assobiar.

    AVE / Desejar s-lo e dizer, num suspiro: Asas! Asas! sinal de se ter uma alma potica.

  • ALEMANHA / Sempre precedida de loura, sonhadora. Mas que organizao militar.ALFNDEGA / Deve sempre passar-se aos direitos. Uma pessoa deve sempre insurgir-se contra ela e defraud-la (v. passar aos direitos).ALGODO / sobretudo til para os ouvidos.ALHO / Mata os vermes intestinais, e dispe para os combates do amor. Esfregaram com eles os lbios de Henrique IV, quando este veio ao mundo.

    AR / Desconfiar das correntes de ar. Invariavelmente, a base do ar est em contradio com a temperatura: se faz calor, fria e vice-versa.

    ARTISTAS / Todos uns estouvados. Exaltar o seu desprendimento (antigo). Espantar-se por eles se vestirem como toda a gente (antigo). Ganham rios de dinheiro, mas atiram-nos pela janela fora. So, muitas vezes, convidados a jantar fora. Uma mulher artista s pode ser uma devassa. O que les fazem no pode dizer-se que seja trabalhar.

    SPIDE / Animal conhecido por causa do cesto de figos de Clepatra.ASSASSINO / Sempre covarde, mesmo intrpido e audacioso. Menos culpvel do que um incendirio.

    AUTOR / Devemos conhecer os autores; intil saber-lhes os nomes.

  • BANQUEIROS / Todos ricos. rabes, lobos cervais.BANQUETE / Reina sempre neles a mais franca cordialidade. Traz-se deles as melhores recordaes e as pessoas nunca se separam sem ter combinado novo encontro para o ano seguinte. Um brincalho deve sair-se com: No banquete da vida infortuna convive... etc.BARBEIRO / Ir ao baeta, ao fgaro. O barbeiro de Lus XI, dantes, era sangrador.BARCA / Todos os botes com uma mulher a bordo. Vem para a minha barca.

    BASBAQUES / Os parisienses so todos uns basbaques, embora em dez habitantes de Paris, nove sejam da provncia. Em Paris no se trabalha.

    BASCOS / O povo que mehor corre.

    BASLICA / sinnimo pomposo de igreja. sempre imponente.BASTO / Maia terrvel do que a espada.

    BATALHA / Sempre sangrenta. H sempre dois vence-dores, o que bateu e o batido.BEBEDEIRA / Sempre precedida de louca.BEETHOVEN / No pronunciar Bitovan. Desfalecer, mesmo assim, quando exectam uma das suas obras.BEIJAR / Um doce fruto. O beijo depe-se na testa de uma jovem, na face de uma me, na mo de uma mulher bela, no pescoo de uma criana, nos lbios de uma amante.BEXIGA (de boi ou de porco?) / S serve para fazer bales.BEXIGOSO / As mulheres marcadas pelas bexiagas so todas sensuais.BBLIA / O mais antigo livro do mundo.BIBLIOTECA / No deixar de ter uma em casa, em especial se se vive no campo.BILHAR / Um jogo nobre. Indispensvel no campo.

    BOCEJO / Deve dizer-se: Desculpe, no por me sentir enfadado. do estmago.

    BOLSA (a) / Termmetro de opinio pblica.

    BOMBARDA / A deslocao de ar resultante do disparo de uma bombarda provoca a cegueira.BORBULHAS / Na cara ou em qualquer outra parte, sinal de sade e de fora do sangue. Nada de as tirar.

    BOSQUES / Os bosques fazem sonhar. Indicados para se fazer versos. No Outono, ao passear por eles, deve dizer-se: Do cair da folha nos nossos bosques...BOTAS / Durante os grandes calores, no deixar de aludir s botas dos guardas rurais ou aos sapatos dos moos de fretes (o que s tem cabimento no campo, ao ar livre). Uma pessoa s est bem calada se trouxer botas.BRINQUEDOS / Devem ser sempre cientficos.BROAS DE NATAL / Insurgir-se contra as broas de Natal ao carteiro, ao guarda nocturno, ao limpa.chamins, etc.BROCHE / Deve sempre conter uma mecha de cabelos ou uma fotografia.BRONZE / Metal da antiguidade.BUDISMO / Falsa religio da ndia (definio do Dicionrio Bouillet, primeira edio).BUFFON / Enfiava punhos de renda para escrever.BUFOS / So todos da polcia.

    (1) Fleubert refere-se a boudin, um chourio de sangue.

    Decidimo-nos por um lugar-comum portugus equivalente, e no

    podia deixar de ser o bacalhau...(N.T.).

    BACALHAU / O fiel amigo. Indispensvel na noite de consoada. (1)

    BACHARELATO / Bradar contra.

    BAGNOLET / Terra clebre pelos seus cegos.

    BAILADEIRA / Palavra que aviva a imaginao. Todas as mul-heres do Oriente so bailadeiras (v. odaliscas).

    BALES / com os bales acabar-se- por ir Lua. Ainda se no est preparado para os dirigir.

  • CAA / Excelente exerccio que uma pessoa deve fingir adorar. Faz parte da pompa dos soberanos. Motivo de delrio para a magistratura.

    CAA (trompa de) / Nas matas produz bom efeito, e noite sobre as guas.CAADORES FURTIVOS / Todos forados postos em liberdade. Autores de todos os crimes no campo. Devem provocar uma clera frentica: Nada deCACHIMBO / S fica bem beira-mar.CADAFALSO / Ao subir a ele, estar preparado para proferir umas palavras eloquentes antes de morrer.CAF / Torna as pessoas cheias de esprito. S bom proveniente do Havre.CALEIDOSCPIO / S se emprega a propsito dos sales de pintura.CALOR / Sempre insuportvel. No beber quando faz calor.CALOS (dos ps) / Assinalam as mudanas de tempo melhor do que os barmetros. Muito perigosos quando mal cortados; citar exemplos de acidentes terrveis.CALVCIE / Sempre precoce, causada pelos excessos da juventude ou pela concepo de