diário secreto de adão e eva - - pars  · sem parar nem um segundo ... devoção religiosa

Download Diário secreto de Adão e Eva - - PARS   · Sem parar nem um segundo ... devoção religiosa

Post on 09-Nov-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Dirio secreto de Ado e Eva

  • 15

    Pa r s O r i e n ta l i s

    Tradutor literrio e juramentado do idioma alemo, traduziu a biografia da psicanalista Sabina Spielrein, a novela Travessia de Anna Seghers, a biografia de Bla Guttmann e atualmente faz doutorado na UFPR sobre a traduo do West-stlicher Divan de Goethe.

    Traduzindo o Divan de Goethe: um encontro com a Weltliteratur

    Daniel Martineschen

    Como o caldo vem da canaE adoa a todo o mundo,

    Flua amor de minha penaSem parar nem um segundo

    Goethe Anelo

    1. Poesia e Weltliteratur tido por muitos que poesia seja coisa intraduzvel, pois

    enraizada to profundamente na sua lngua que encarna a expresso desta inteira, incomensurvel como entendiam Sapir e Whorf. Por outros, tida como a mais difcil de se traduzir, e exigiria para sua fatura um poeta do poeta (Novalis), um trceps: filsofo, historia-dor e poeta (Herder), um transcriador (Haroldo de Campos). Eppur si traduce: malgrado as dificuldades, traduz-se poesia desde sem-pre, e sempre se traduzir, e sempre se poder traduzi-la novamente, fazer funcionar em outros contextos a mquina de sentidos que o

  • Daniel Martineschen

    16

    poema, com outras e novas peas, renovadas lubrificaes, tenses converti-das. Assim, a obra traduzida sobrevive, pervive, no dizer romntico de Walter Benjamin, enfim: vive.

    Olhando por outro lado, a poesia tambm traduo: de pensamentos, ideias, sentimentos, impresses etc. em sons, slabas, palavras, signos, imagens etc., que trazem superfcie dum texto o mar de sensaes que o move. A poesia pode traduzir (no sentido de repoetizar) a presena de um outro, fa-zendo reviver (ou, novamente, perviver) esse outro de maneira renovada na cul-tura que o recebe. Assim se constroem relaes entre culturas, enriquecem-se literaturas, forma-se a Weltliteratur: a Literatura do mundo, que transpe e faz permeveis todas as fronteiras, temporais, espaciais, culturais.

    2. O West-stlicher Divan Inspirado no contexto de ebulio weltliterria do sculo XIX e em parte

    influenciado pelo prazer de traduzir1 dos Romnticos, Johann Wolfgang Goethe (1749-1832) se lanou na velhice com intensidade ao estudo e divulgao da poesia de outros povos, do Ocidente e do Oriente, no original e em traduo. Seu interesse por poesia e cultura do Oriente remonta, de fato, sua juventude, quando se empenhou no estudo do rabe e do hebraico e tra-duziu trechos do Coro e do Cntico dos cnticos (textos religiosos e de expresso potica). Goethe tambm leu com avidez relatos de viagens e peas histricas sobre o Oriente prximo, e teve intenso contato com os Muallaqat ou Poe-mas suspensos, coletnea de poemas pr-islmicos de lngua rabe que j no sculo XIX era de ampla leitura na Alemanha.2 Tais experincias intercultu-rais marcaram fortemente tanto a obra quanto a concepo de Goethe sobre Weltliteratur e sobre o Oriente.3

    1 Cf. Bernhard Zeller. Weltliteratur. Die Lust am bersetzen im Jahrhundert Goethes (1982).2 Cf. Os poemas suspensos: Al-Muallaqat. Trad. de Alberto Mussa (2006).3 Hartmut Reinhardt, eminente goetheanista, chega a afirmar, em seu livro Dem Fremden freundlich zuge-tan (2012), que a obra literria de Goethe como que feita para se levantar questes interculturais (p. 13). Sobre Goethe e o Isl, cf. Katharina Mommsen. Goethe und der Islam.

  • Traduzindo o Divan de Goethe

    17

    em 1814, quando Goethe presenteado pelo seu editor Cotta com os re-cm-publicados volumes da primeira traduo integral do Div do poeta persa Hfez de Chiraz (sc. XII) para o alemo,4 que seu interesse pelo Oriente se intensifica e seu nimo se rejuvenesce. O encontro com o poeta persa cha-mado por Goethe de mestre e de irmo gmeo como que o desperta de um torpor em que se encontrava desde a morte de Schiller em 1805, torpor esse intensificado pelos afazeres burocrticos da corte de Carl August e pelo temor das invases napolenicas. Comenta Hendrik Birus que a leitura do Div, de Hfez, teria dado o impulso desejado para a fuga dessa atmosfera limitante, como expressa o poema que abre o West-stlicher Divan5:

    Hgira

    Norte e oeste e sul se espalham,tronos racham, reinos falham.Foge terra oriental,sorve o ar patriarcal,E no amar, beber, cantar,Quser vai te remoar.

    Onde tudo justo e puroVou buscar com muito apuroa raa humana, l na origem,quando ouvia sem vertigem na sua lngua o tom de Deus,claro outrora para os seus.

    4 Feita por Joseph von Hammer-Purgstall (1774-1856) e publicada em 1814.5 Vali-me para este trabalho da edio da Deutscher Klassiker Verlag em dois volumes organizada por Hendrik Birus, de 2010, mas h vrias edies on-line. Citarei essa edio como DIVAN, com nmero do volume e da pgina. As tradues so minhas, salvo indicao em contrrio. Este poema se encontra em DIVAN, I, 12-13.

  • Daniel Martineschen

    18

    Onde os pais ainda honrava,e outros cultos rejeitava,vou gozar do desatino,com f ampla e pouco tino,j que o forte era a palavra,pois falada era a palavra.

    Aos pastores vou mesclar-me,num osis saciar-me;quando em caravana e a p: h xale, almscar e caf.Quero andar pelas picadasdo deserto at as muradas.

    Nos rochedos, pela trilha,com sua mula vai o guia;s estrelas canta alto,e medo assoma os maus de assalto. Hfez! Sem teus poemasesta terra tem problemas.

    Pelas termas e tavernastuas honras canto eternas:meu benzinho sopra o vu,cachos dmbar solta ao lu.Sim, o poeta, sussurrando,deixa as huris se corando.

    Saibam todos que o invejamou que seu caminho pejam,que as palavras do poetafazem splica discretana portada do Eternopor um dia sempiterno.

  • Traduzindo o Divan de Goethe

    19

    Com esse poema, Goethe convida o leitor para uma viagem potica terra do sol nascente (uma fuga, como a de Maom a Medina), a uma terra em que opostos se conciliam e se temperam: devoo religiosa e o deleite do vi-nho, o amor elevado e o sensual, o deserto inspito e as cidades florescentes, a erudio cornica e a sabedoria mstica. Uma viagem que aproxima duas metades do mundo e refora que esto mais perto do que parece.6

    O West-stlicher Divan de Goethe veio a lume em 1819, e teve uma segunda edio em 1827. O ttulo alemo irmanado por um ttulo em rabe, escrito em letras decoradas na pgina que espelha o frontispcio da edi-o original: O div oriental do poeta ocidental.7 Esse duplo ttulo de-nuncia o carter hbrido do Divan: uma Coletnea de poemas alemes em relao direta com o Oriente um dos ttulos na fase de gestao que representam a apropriao dessa potica pelo poeta alemo.

    O Divan est segmentado em doze livros, cada um com um ttulo em persa e um em alemo, e muitos com um poema-epgrafe. O poema Hgira acima encontra-se no Moganni Nameh, o Livro do cantor. Essa estrutura em livros tpica da poesia persa e rabe, na qual poemas de um poeta so coletados num livro (um div) e organizados em ordem alfabtica segundo a rima ou uma temtica comum; , portanto, a antologia de todos os poemas de um autor, e cresce at a morte deste.8

    Alm dos doze livros de poemas, a edio de 1819 inclua uma parte em prosa, intitulada originalmente Para a melhor compreenso, que acabou ficando conhecida pelo ttulo tardio Notas e reflexes para melhor com-preenso do Div ocidental-oriental. Nessa parte em prosa encontra-se o captulo Tradues [Uebersetzungen], que contm a famosa classificao

    6 Proximidade que se vislumbra no duplo monumento a Goethe e Hfez erigido em Weimar em 2000 e na orquestra internacional West-eastern Divan, regida por Daniel Barenboim (www.west-eastern-divan.org).7 DIVAN, II, 876.8 Poderamos entender as Folhas de relva de Walt Whitman livro mexido e ampliado durante toda a vida do poeta como uma espcie moderna de div.

  • Daniel Martineschen

    20

    tripartite de Goethe das tradues. Essas trs fases corresponderiam a etapas de um processo de apropriao ou de adaptao quanto a um outro. A terceira delas, para Goethe a ltima e mais elevada, procuraria nesse mpeto tornar a traduo idntica ao original, no de modo que um deva vigorar ao invs do outro, mas no lugar do outro9; como se a obra traduzida substitusse o ori-ginal, fechando o crculo no qual se move a aproximao entre o estrangeiro e o caseiro, entre o conhecido e o desconhecido.10

    O Divan, com poemas e Notas, , portanto, obra de estrutura complexa, que, alm de manifestao literria (ou weltliterria), um tratado sobre tradu-o com o aporte de um longo e profundo estudo de poesia, histria, religio, cincia e cultura de vrios povos do Oriente, resultado de anos de convivn-cia11 do poeta alemo com tradies poticas outras e em especial com Hfez. Apesar de inserido na Literatura alem, o Divan a resposta de Goethe a essa convivncia intelectual, no por meio de poemas traduzidos com cuidado formal e acadmico,12 mas sim por recriaes com a inteno de se fazer uma terceira obra, para a qual o gosto da multido ainda deve ser formar, tal qual a ltima e mais elevada fase das tradues. , ento, sobre o Divan, sua traduo e as possibilidades desta que gostaria de refletir nas sees que se seguem, a exemplo de alguns poemas e trechos traduzidos.

    3. Traduzindo o Divan: o ttuloO West-stlicher Divan a obra menos compreendida e menos famosa de

    Goethe, e teve uma recepo problemtica desde a edio de 1819. A temtica extica, os termos transcritos diretamente do persa, a linguagem cifrada de

    9 Cf. HEIDERMANN, Werner. Clssicos da teoria da traduo. Vol. 1. 2 ed. (2010), pp. 28-35, aqui p. 33 (trad. de Rosvitha Friesen Blume).10 DIVAN, I, 283.11 Guimares Rosa diria mais tarde a Curt Meyer-Clason que traduzir conviver.12 Como foi o caso das tradues de Rckert da poesia de Rm e de Hfez. Na verdade, o Divan de Goethe contribuiu significativamente fortuna crtica da orientalstica alem, sendo referncia e influ-ncia para as tradues da poesia de Hfez que se sucederam (cf. Encyclopaedia Iranica onli