Diário da Viagem pela Capitania de São José do Rio Negro_Parte_01

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Dirio da Viagem pela Capitania de So Jos do Rio Negro em 1778 - Material para pesquisa da histria de Barcelos e do Amazonas

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<p>78</p> <p>Diarios pp078-208_1.indd 78</p> <p>22/10/05 12:51:05</p> <p>Dirio Da Viagem FilosFica pela capitania De so Jos Do rio negrocom a inFormao Do</p> <p>estaDo presente</p> <p>os estabelecimentos portugueses na sobredita capitania, desde a vila capital de Barcelos at fortaleza fronteira de So Jos de Marabitanas, ordenado em ofcio de 13 de agosto de 1785, pelo Ilustrssimo e Excelentssimo Senhor Joo Pereira Caldas, do Conselho de Sua Majestade Fidelssima, seu governador e capito-general nomeado para as capitanias de Mato Grosso e Cuiab, e nos distritos dos governos delas e do estado do Gro-Par, encarregado da execuo do tratado preliminar de limites e demarcao dos reais domnios, etc., etc., cumprido em sete participaes de diferentes datas, pelo Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, Naturalista, empregado na expedio filosfica do Estado.</p> <p>D</p> <p>79</p> <p>Diarios pp078-208_1.indd 79</p> <p>22/10/05 12:51:06</p> <p>oFcio expeDiDo ao sobreDito naturalistaela real ordem, por que a Rainha Nossa Senhora me mandou instruir sobre o objeto da expedio filosfica a Vossa Merc cometida, Sua Majestade servida determinar-me que, a Vossa Merc e aos dous desenhadores e jardineiro botnico, que o acompanham e trabalham debaixo da sua inspeo, os empregue no exame do Rio Negro, e dos outros que nele desguam, para que das produes e das observaes que se continuarem a adquirir e fazer, se efetuem as correspondentes remessas, na forma pela mesma Senhora disposta e ordenada. Assim, pois, o executar Vossa Merc, com o mesmo zelo e desempenho que at agora lhe tem merecido o real servio; ficando na inteligncia que, alm do Rio Negro, so os mais importantes que se devem examinar, o Branco e seus principais confluentes, conforme o Dirio do ano de 1781, que a Vossa Merc tenho confiado; o Arac, pouco superior a esta vila, da parte setentrional; o Padauari e o Cauaburis, da mesma parte; e o Uaups, Iana e Ixi, da parte meridional, e dela os dous ltimos j vizinhos nossa fronteira e fortaleza de Marabitanas, que at onde, por ali, se deve estender o exame. Nem o rio Solimes, ou parte do Amazonas assim chamado, e nem os outros nele confluentes, e o Japur, me so para o mesmo exame indicados na sobredita ordem real; e por isso Vossa Merc se regular, quanto quela parte do distrito, pelas que recebesse imediatamente do Ilustrssimo e Excelentssimo Senhor Martinho de Melo Castro, e pelas que tambm lhe tiver distribudo o Excelentssimo Senhor general deste Estado. A portaria do dito Senhor general, de que Vossa Merc se acha munido, devendo ter em todo o Estado a mais exata observncia, me dispensa atenta e obsequiosamente de nenhuma outra expedir, para os auxlios e assistncias que nas viagens desta capitania se fizerem a Vossa Merc urgentes; porm de mais do que tenho mandado fazer aqui pronto a Vossa Merc, no faltarei em prevenir particularmente aos comandantes dos respectivos distritos, para a Vossa Merc contriburem com os socorros e auxlios, que lhes requerer, e que compatveis se fizerem com a possibilidade e circunstncias do pas. De tudo o que Vossa Merc obrar e alcanar, me dar uma resumida conta por escrito, para que, alm das mencionadas remessas de produes e observaes, que se houverem de dirigir corte por via do referido Senhor general deste Estado, eu possa tambm em conseqncia informar a Sua Majestade, pela parte que me compete, segundo o que foi servida de incumbir-me; e na dita conta compreender Vossa Merc a relao do que de produes desta capitania houver j expedido por primeira remessa. E porque Sua dita Majestade foi igualmente servida encarregar-me de promover, e animar nesta capitania a cultura e fabrico do anil, e sabe e tem Vossa Merc presenciado muitas das minhas praticadas diligncias, para assim se conseguir; semelhantemente me informar Vossa Merc do que observar e lhe parecer sobre este artigo, e ainda sobre a agricultura, comrcio e povoaes de toda a capitania para do mesmo modo o fazer eu constante na real presena, com mais essa prova do seu reconhecido prstimo e merecimento. Direi por fim a Vossa Merc que, da mesma parte meridional deste rio, para baixo do Uaups, alm de outros, h tambm os rios Mariu, Xinar, Inuixi e Unibaxi, os quais, formando algumas das comunicaes com o Japur, sero menos importantes para a qualidade dos exames de Vossa Merc, no caso de que, havendo de passar quele, no resolva e ache mais cmodo de o executar, por qualquer das ditas comunicaes, que de maior facilidade se reconhecer; sobre o que contudo se regular Vossa Merc na forma acima declarada. Deus guarde a Vossa Merc. Barcelos, 13 de agosto de 1785. Joo Pereira Caldas. Senhor Doutor Naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira.80</p> <p>P</p> <p>Diarios pp078-208_1.indd 80</p> <p>22/10/05 12:51:06</p> <p>Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira parte desta cidade com as pessoas que leva a seu cargo, empregadas nas diligncias da Histria Filosfica e Natural, para cujo fim se transportaram a este Estado, de ordem de Sua Majestade; os diretores e comandantes de todas as fortalezas e povoaes, por onde transitar, ou aonde mandar, lhe prestaro todo o auxlio e ajuda, que pelo sobredito lhes for requerido, aprontando-lhe todo o mantimento que precisar e ndios necessrios para as equipaes das canoas do seu transporte; praticando o mesmo todos os oficiais auxiliares, juzes ordinrios, cmaras, auxiliando-o com a gente que requerer, e com as notcias e informaes que pedir, deixando penetrar todos os rios, serras, matos, e abrir minas, aonde o julgar preciso, em ordem ao bom fim das diligncias, de que vai encarregado por ordem de Sua Majestade; ficando-me seriamente responsveis os que faltarem em todo, ou em parte execuo desta minha ordem, e contra eles procederei ao merecido castigo. E para que haja de constar a todo o tempo, mando que esta seja registrada nos livros dos registros das cmaras, comandncias e diretorias por onde passar e necessrio lhe for usar desta minha ordem. Par, 15 de setembro de 1784. (Com a rubrica de Sua Excelncia).</p> <p>O</p> <p>portaria expeDiDa pelo ilmo. e exmo. sr. martinho De souza De albuquerque, goVernaDor e capito-general Do estaDo</p> <p>81</p> <p>Diarios pp078-208_1.indd 81</p> <p>22/10/05 12:51:07</p> <p>82</p> <p>Diarios pp078-208_1.indd 82</p> <p>22/10/05 12:51:07</p> <p>Dirio Da Viagem FilosFica pela capitania De so Jos Do rio negrocom a inFormao Do</p> <p>estaDo presente</p> <p>alexanDre roDrigues FerreiraNaturalista Empregado na Expedio Filosfica do Estado</p> <p>participao primeira1de Barcelos a Moreira</p> <p>ste o princpio de uma expedio cientfica: admirar todas as coisas, inclusive as que so muito tristes, sobre as quais no convm falar... Na verdade, a partir destas que tudo foi criado para seus respectivos fins. O seu mtodo consistir em reunir por escrito o que for perceptvel e til: a Geografia, a Fsica, a Litologia, a Botnica, a Zoologia, a Economia, a Poltica, os costumes, as antiguidades... O objetivo ser conhecer melhor a natureza, ajustando o conhecimento natural das plantas, dos animais e das pedras ao influxo do sistema mundano e aos usos da humanidade.2 (Lineu. Phyl. Bot.)</p> <p>E</p> <p>(LINEU. Philosoph. Botani.)</p> <p>participao primeiraLoca nocte silentia late... Ordenou-me Vossa Excelncia, no 6 do ofcio, que me dirigiu nesta vila, datado de 13 de agosto do ano prximo passado, que do estado presente da agricultura e do comrcio, populao e manufaturas das povoaes que eu visitasse, informasse a Vossa Excelncia segundo o que eu visse e entendesse, que devia participar, para tambm Vossa Excelncia o participar ao ministrio. O trabalho em grande, do papel que tem por ttulo: Estado presente da agricultura do Par, j vossa Excelncia sabe que h dous anos que eu ousei empreend-lo, dignando-se Vossa Excelncia nesta vila, no s de honrar com a sua ateno a repetio que fiz dos seus primeiros traos, mas tambm de instru-lo e document-lo com as precisas cpias das ordens compreendidas nos bandos, editais, portarias, avisos, cartas circulares e particulares que deve este Estado ao seu iluminado governo.</p> <p>1 2</p> <p>Primeira Parte: Alto Rio Negro. Peregrinationis principium hoc est, mirari omnia etiam tristissima, de quibus nom licet dicere... quorum haec omnia enim in fines suos creata sunt. (Syrach). Medium erit calamo committere visa, et utilia; Geographiam, Physicem, Lithologiam, Botanicem, Zoologiam, Oeconomiam, Politicem, mores, antiquitates... Finis, naturam adcuratius cognoscere; plantarum, animalium, lapidum que cognitionem naturalem systematis mundani influxui et humani generis usibus accomodare.</p> <p>83</p> <p>Diarios pp078-208_1.indd 83</p> <p>22/10/05 12:51:08</p> <p>Deverei, portanto, nesta e nas outras participaes que se seguem, coangustar-me somente a uma breve, se bem que circunstanciada informao do estado presente de cada vila ou lugar, esperando que seja fruto de mais maduros exames o meu juzo geral sobre a capitania. Eis aqui o que tanto mais fcil me ficou sendo de executar, quanto mais terminantes foram as ordens que a este respeito expediu Vossa Excelncia aos comandantes e diretores das povoaes. O que delas pretendo informar o que j d a entender a participao que se segue. Seguindo viagem pelas 7 horas da manh de 20 de agosto, costeei a margem meridional deste rio. Satisfiz-me de ir vendo situadas por toda ela, alm da chamada Aldeinha, diversas roas dos moradores desta vila. Tais foram pela sua ordem, a de Antnio Vilela do Amaral, a de Francisco Torres, a de Gabriel Ribeiro, a de Manoel Rodrigues Calado, a de Bartolomeu Fernandes e a de Constantino Dutra. No entrei no igarap de Maxibi, onde ficam situadas as de Joaquim Jos de Campelos e a de Pedro Jos Pereira, porque tratei somente de observar, costa acima, a de Valentim da Silva de Senna, a de Francisco Coelho, a de Joo Gomes de Andrade, a de Antnio Nunes, a de Manoel Jos Machado e a de Jos Pereira de Faria. Eram duas horas da tarde, quando passei pela boca do rio Baruri, aonde os moradores desta vila cultivam particularmente o caf. Nela se acabam as duas lguas de terra para cima da vila, as quais foram pedidas para logradouros dela, em representao de 30 de setembro de 1777, e por Vossa Excelncia foram concedidas em a carta de data de 16 de maro de 1779. Seguiram-se, costa acima, as roas de Joo Nobre, na foz do outro rio Guinni, a de Antnio Rodrigues Primeiro, que tambm a primeira do territrio de Moreira, dentro do igarap de Macaba, as de Custdio Mximo e seu filho Manoel do Nascimento da Silva, no princpio das barreiras, pelas quais continuam a de Jos Gomes da Silva, a de Jos Afonso, a de Andr da Cruz, as de Joo do Rosrio e de seu filho Jos do Rosrio, a de Matias da Rosa, a de Francisco Machado, a de Francisco Jos Vaz, a de Rodrigo Xavier, a de Francisco dos Santos e a de Jos Estevo de Brito. A maniba e o caf so os dous gneros que principalmente constituem o fundo das suas lavouras; o lavrador que mais se distingue nelas o que menos preguia tem e o que maior nmero de braos emprega. Aos que tm plantado e cultivado o cacau, no tem at agora correspondido a colheita. As terras no so as mais prprias para a sua cultura, e menos prprias as faz o lagarto, que logo sobrevm, e de uma s vez desengana as esperanas de alguns anos. No h, desde esta vila de Barcelos at o lugar de Moreira, pela costa meridional, outros rios mais do que o Baruri e o Guinni e os riachos Arata e Quermeucuvi. Tendo nesta viagem consumido os dias 20, 21 e 22 por ter sido feita em uma canoa grande e ronceira, com as demoras que da minha obrigao exigiam os exames das produes naturais e os reconhecimentos das margens deste rio, pelas seis horas da manh de 23 cheguei ao lugar de Moreira, em outro tempo aldeia do Camar e, por outro nome Caboquena (dezesseis lguas e um tero). Este era o nome que tinha o principal seu fundador, o qual pela muita afeio com que olhava para os brancos e para os seus costumes, no merecia ter um fim to desgraado como o que lhe deram os ndios das aldeias vizinhas na sublevao de 24 de setembro de 1757. e ser sempre odiosa a memria deste sucesso, que sumariamente se reduz aos artigos seguintes: 1) Escandalizou-se o ndio Domingos, do lugar de Lamalonga, de ter o seu missionrio feito separar da sua companhia uma concubina que tinha, e premeditando a vingana de assasin-lo, ilaqueou na mesma conjurao os principais Joo Damasceno, Ambrsio e Manoel e, no primeiro de junho do referido ano acometeram a casa do missionrio, que no acharam nela, arrombaram-lhe as portas e saquearam os seus mveis, investiram depois a igreja, aonde cometeram o desacato de derramar por terra os santos leos, pisaram os vasos sagrados, arruinaram a capela-mor e lanaram fogo povoao.84</p> <p>Diarios pp078-208_1.indd 84</p> <p>22/10/05 12:51:08</p> <p>2) Em vez de darem sinais de terem os coraes rotos de dor na considerao do enormssimo delito que acabavam de perpetrar, e em vez de, por um srio arrependimento dele, desarmarem o brao de Deus e dos homens, muito pelo contrrio, exasperando-se cada vez mais no curto espao de 54 dias, reforaram o seu corpo com a aliana dos principais Manacaari e Mab, acrescentando ao primeiro o segundo delito de recarem de mo armada sobre o lugar de Moreira, no dia 24 de setembro, que foi quando assassinaram o missionrio Frei Raimundo Barbosa, religioso carmelita, o principal Caboquena e muitas outras pessoas, e roubaram e queimaram a igreja. 3) Informados que foram, de que com estas suas animosidades tinham conseguido fazer cair o nimo ao capito de granadeiros Joo Teles de Menezes Melo, que ento comandava um destacamento de vinte homens, empregados na guarnio da aldeia de Bararo, hoje vila de Thomar, assim que a sentiram desguarnecida, se lanaram sobre ela no dia 26 do referido ms, roubaram os mveis preciosos da igreja, degolaram a imagem de Santa Rosa; aplicaram a cabea da santa para figura de proa das suas canoas, queimaram-lhe o corpo sobre o altar, atravessaram o rio para a margem fronteira e nela mataram dous soldados somente, porque tanto os outros soldados, como alguns paisanos, que ali se achavam, se haviam refugiado na ilha de Timoni. 4) E ultimamente no faanhoso projeto de surpreenderem esta capital, porque a supunham enfraquecida com a desero dos soldados que, pouco antes, se haviam sublevado contra o sargento-mor, seu comandante, Gabriel de Souza Filgueiras, engrossaram o seu partido com os dos outros gentios das cachoeiras deste rio, maquinando uns e outros a ltima runa, no s desta capital, mas a de todas as colnias portuguesas estabelecidas nesta capitania. Este projeto, sabe V. Excia. que indisputavelmente se teria verificado, se em conseqncia da parte que dele deu o sobredito sargento-mor, no expedisse logo o Ilmo. e Exmo. Sr. Francisco Xavier de Mendona Furtado ao capito Miguel de Siqueira para atacar e desbaratar os rebeldes, como atacou e desbaratou a todos, sem mais perda da nossa parte, que a do sargento Agostinho Jos Franco e a do soldado Loureno de Oliveira Pantoja. Os rebeldes das cachoeiras foram perseguidos e destroados; a vitria, que pela nossa parte alcanamos contra uns e outros, abriu a porta ao processo legal que, no ano seguinte de 1758, fez o doutor ouvidor-geral o Desembargador Pascoal de Abranches Madeir...</p>