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  • DESTINAO DAS RENDAS PETROLFERAS E SUSTENTABILIDADEINTEGRAL: O CASO DOS MUNICPIOS PAULISTAS CONFRONTANTES

    Hirdan Katarina de Medeiros Costa1; Edmilson Moutinho dos Santos2, Andr Felipe Simes3

    1,2 Universidade de So Paulo, Instituto de Energia e Ambiente, hirdan@usp.br; edsantos@iee.usp.br 3 Universidade de So Paulo, Escola de Artes, Cincias e Humanidades, afsimoes@usp.br

    RESUMOEm 2013, a Lei 12.858 tornou obrigatria a destinao da participao no resultado da compensaofinanceira pela explorao de petrleo e gs natural para as reas de educao (75%) e de sade(25%). No entanto, quais os programas e projetos nas reas da educao, inclusive a bsica, e desade, que atenderiam a populao dos municpios beneficirios? Para resposta essa questo, oartigo desenvolve a ideia de unicidade e de completude da espcie humana, que corresponde cumulatividade da experincia humana sobre a Terra. A efetivao de direitos fundamentais omecanismo de concretizao dessa ideia. Realiza-se estudo de caso pautado nos municpiospaulistas confrontantes: Bertioga, Canania, Caraguatatuba, Cubato, Guararema, Iguap, IlhaComprida, Ilha Bela, Perube, Pindamonhangaba, Praia Grande, So Sebastio, So Vicente,Ubatuba. Considerando as caractersticas de cada comunidade, o estudo apresenta sugestes demapeamento dos quadrantes para solucionar questionamentos sobre como direcionar as rendas dehidrocarbonetos em projetos nas reas da educao (inclusive a bsica), e de sade, de modo aatender a integralidade humana.

    1. INTRODUO

    O historicamente elevado patamar de consumo de petrleo e gs natural por parte da

    sociedade globalizada e a inevitvel exausto das reservas desses hidrocarbonetos (cotejando-se

    cenrios de mdio e longo prazo, em especial) circunscreve diversos dilemas de cunho estrutural.

    Nesse contexto e na perspectiva da esfera municipal, o fim de um fluxo especfico de receitas e de

    riquezas pode ocasionar a estagnao da economia local. A sustentabilidade dessa riqueza ao longo

    do tempo uma premissa fundamental colocada para a gesto local. Ademais, para determinados

    municpios, a oportunidade de perceber receitas pode significar, no presente, um alavanco na

    qualidade de vida e no incremento de direitos fundamentais.

    Em 2013, o Congresso Nacional, por meio da Lei 12.858, tornou obrigatria a destinao da

    participao no resultado da compensao financeira pela explorao de petrleo e gs natural

    (rendas petrolferas1) para as reas de educao (75%) e de sade (25%), bem como determinou

    configurao semelhante para 50% dos recursos do Fundo Social. Intui-se que, em princpio, essa

    1 A Lei do Petrleo (Lei 9.478/97) em seu artigo 45 assim dispe: O contrato de concesso dispor sobre as seguintesparticipaes governamentais, previstas no edital de licitao: I - bnus de assinatura; II - royalties; III - participaoespecial; IV - pagamento pela ocupao ou reteno de rea. Esse artigo entende rendas petrolferas como royalties eparticipao especial percebidos por estados e municpios.

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    (83) 3322.3222contato@conepetro.com.br

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  • Lei encerra grandes conquistas no sentido de aumento das possibilidades de a sociedade brasileira

    alcanar a efetivao de direito fundamentais, de incrementar as capacidades da sustentabilidade

    integral nas localidades beneficiadas. No entanto, quais os programas e projetos nas reas da

    educao, inclusive a bsica, e de sade, que, de fato, atenderiam aos preceitos da sustentabilidade

    integral2? Sem dvida, a resposta para essa pergunta envolve consideraes particulares a respeito

    de cada localidade beneficiada. Nesse contexto, o presente trabalho delineia argumentos para basear

    ou recomendar respostas, assim como direcionar a fiscalizao necessria pelos rgos pblicos

    competentes e pela populao local.

    Alm de ampla reviso da literatura e da anlise da legislao especfica, a metodologia

    utilizada para atingimento do objetivo do presente trabalho constituda pela aplicao ao estudo de

    caso, da ferramenta qualitativa relativa aos quadrantes da estrutura da Teoria Integral para ser

    aplicada ao contexto da sustentabilidade (Brown, 2011).

    Esses quadrantes representam lentes da realidade para o entendimento mais adequado de

    qualquer acontecimento; eles revelam as dinmicas e as foras interiores e exteriores que compe os

    indivduos e a coletividade. Tambm, utilizou-se as ferramentas matriz de necessidade e de nvel de

    vida e a espacializao do desenvolvimento (Souza, 2002).

    Os municpios estudados3 se enquadram como Estncias Balnerias: Bertioga, Canania,

    Caraguatatuba, Iguap, Ilha Comprida, Ilhabela, Perube, Pindamonhangaba, Praia Grande, So

    2 A sustentabilidade integral objetiva expandir o alicerce do debate sobre sustentabilidade. De modo geral, as visessobre a sustentabilidade privilegiam sistemas objetivos e coletivos, tais como modelos de gerao e de acumulao derenda, as trocas diversas entre os 4 grandes compartimentos ecossistmicos (quais sejam: a gua, o ar, o solo e a biota) emodelos de organizao social e formas produtivas Tais perspectivas carreiam, implcita ou explicitamente, a viso deque a sustentabilidade apenas uma questo de adequao sistmica: sistemas produtivos menos impactantes e umsistema econmico menos desigual. A importncia destes aspectos jamais pode ser negada, mas no esgotam a questo.O pensador Ken Willber, criador da Psicologia Transpessoal, resumindo o conceito central de uma sustentabilidadeintegral, afirma que o principal problema socioambiental do planeta no a expanso acintosa das desigualdadessociais, nem o avano das mudanas climticas globais (ou de seu mais proeminente fenmeno, ou seja, o aquecimentoglobal), no o modelo energo-intensivo de produo industrial, e nem mesmo o declnio dos ecossistemas. ParaWilber, o principal problema socioambiental do planeta que existem muito poucos seres humanos capazes de pensarsobre a complexidade desses problemas e de manter uma tica de vida com uma perspectiva de bem-estar global(WILBER, 2001).3 Os municpios estudados se enquadram como beneficirios de participao governamental ou renda petrolfera nostermos do 1, do art. 20 da Constituio Federal de 1988: assegurada, nos termos da lei, aos Estados, ao DistritoFederal e aos Municpios, bem como a rgos da administrao direta da Unio, participao no resultado daexplorao de petrleo ou gs natural, de recursos hdricos para fins de gerao de energia eltrica e de outros recursosminerais no respectivo territrio, plataforma continental, mar territorial ou zona econmica exclusiva, ou compensaofinanceira por essa explorao. Posteriormente, a Lei 7.990/89 tratou de regular esse direito nos seguintes termos: 4 tambm devida a compensao financeira aos Estados, Distrito Federal e Municpios confrontantes, quando o leo, oxisto betuminoso e o gs forem extrados da plataforma continental nos mesmos 5% (cinco por cento) fixados no caputdeste artigo, sendo 1,5% (um e meio por cento) aos Estados e Distrito Federal e 0,5% (meio por cento) aos Municpiosonde se localizarem instalaes martimas ou terrestres de embarque ou desembarque; (...).

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  • Sebastio, So Vicente, Ubatuba. Construram-se quadrantes para cada (e para dentro de cada)

    localidade considerando o respectivo nvel de educao (infantil, bsica, fundamental, tcnica,

    especializada) e de prestao de atendimento hospitalar e mdico (atendimentos de urgncias ou

    rotinas, posto de sade, cirurgias). Os dados para compor esse mapeamento foram obtidos a partir

    da reviso da literatura sobre o tema e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE).

    2. METODOLOGIA: APLICABILIDADE DA SUSTENTABILIDADE INTEGRAL EM

    POLTICAS PBLICAS

    Esse trabalho parte da premissa de que o exame das caractersticas, das necessidades e das

    potencialidades territoriais deve ser um caminho para a realizao da despesa e do investimento

    pblicos. Nesse sentido, faz-se necessrio elucidar os principais elementos da metodologia, em

    relao anlise institucional do Poder Executivo Municipal, baseada na matriz de necessidade, na

    espacializao do desenvolvimento e na sustentabilidade integral.

    A matriz de necessidades uma metodologia utilizada por Souza (2002, 2009), direcionada ao

    estudo da desigualdade com base numa reflexo geogrfica. Para a referida autora a desigualdade

    emerge a partir de uma dinmica existente no mundo, e chega ao lugar atravs das modernizaes.

    Entende-se que as inovaes tecnolgicas para extrao e beneficiamento do petrleo, graas

    Petrobras, so modernizaes presentes no territrio nacional que tem gerado receitas aos

    municpios produtores e/ou beneficirios. Entretanto, a no aplicao coerente das rendas para as

    reais demandas da populao, pode acirrar as desigualdades sociais nos municpios, bem como

    aumentar a dependncia da econmica local a um recurso exaurvel.

    Neste sentido, Souza (2009) prope o estudo da desigualdade pela Cincia Geogrfica, a

    partir de uma viso do territrio, ou seja, compreender o funcionamento do territrio para

    fundamentar as prioridades de investimento, bem como pensar as polticas pblicas integradas e

    voltadas a atender as necessidades crescentes das populaes. Dentro desse vis proposto por Souza

    (2009), retoma-se tambm a noo de sustentabilidade integral (ALOE, 2010) e os seus quatro

    mdulos ou dimenses de forma a propor a reflexo sobre se as polticas pblicas devem abarcar

    essa complexidade das rela