Desenvolvimento territorial sustentável e turismo no Alto ... ?· 1 Desenvolvimento territorial sustentável…

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    Desenvolvimento territorial sustentvel e turismo n o Alto Vale do Itaja,

    Santa Catarina: o associativismo municipal no proje to TREMTUR

    Maristela Macedo Poleza

    [Arquiteta, mestre em Desenvolvimento Regional pela Universidade Regional de Blumenau, pesquisadora do Ncleo de Pesquisas em Desenvolvimento Regional/FURB,

    e-mail: mpoleza@softhouse.com.br ] Luciana Butzke

    [Cientista social, mestre em Sociologia Poltica pela Universidade Federal de Santa Catarina, pesquisadora do Ncleo de Pesquisas em Desenvolvimento Regional/FURB e professora da

    UNIFEBE, e-mail: vbutzke@terra.com.br]

    Iara Klug Rischbieter

    [Turismloga, mestre em Desenvolvimento Regional pela Universidade Regional de Blumenau, pesquisadora do Ncleo de Pesquisas em Desenvolvimento Regional/FURB,

    e-mail: ilkr21@gmail.com ]

    Resumo

    Nos ltimos anos, a atividade turstica tem sido tema de inmeros encontros, reflexes

    acadmicas, projetos e apresenta-se administrao pblica como um desafio e uma

    possibilidade concreta de crescimento econmico. Muitos administradores pblicos estimulam o

    turismo em seus municpios. Todavia, muitas aes acontecem desfocadas de uma articulao

    efetiva com o planejamento local e regional. O turista passa a ser o fim do planejamento e, o

    desenvolvimento, nas suas dimenses econmica, social, ambiental, cultural subordina-se a esta

    viso. Dessa forma, a preocupao central desse artigo a anlise do planejamento territorial e

    do turismo no Alto Vale do Itaja em Santa Catarina a partir da atuao da Associao dos

    Municpios do Alto Vale do Itaja. Assume-se a hiptese de que a experincia dos municpios

    pertencentes a AMAVI no que tange ao turismo incipiente. Poucos so os municpios com

    estrutura turstica definida e operando em bases participativas. Todavia, a partir da parceria na

    elaborao do Projeto Turstico da TREMTUR, em 2000, comeam a surgir indcios de uma nova

    fase, mais preocupada com a internalizao da dimenso socioambiental e com a criao de

    sinergias entre os vrios atores sociais sediados no nvel local e regional. A questo proposta

    neste artigo ser investigada pela reviso bibliogrfica de fontes secundrias, buscando um

    dilogo entre as principais referncias do tema proposto. As informaes sero analisadas luz

    do objetivo do artigo, devendo revelar, sobretudo os trunfos e fragilidades da atuao da AMAVI

    no planejamento territorial e do turismo no Alto Vale do Itaja.

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    Introduo

    As inovaes tecnolgicas alteraram as estruturas econmicas, sociais e polticas, mudando

    igualmente as condies de vida das pessoas. O aumento do tempo de lazer, a complexidade das

    sociedades e o advento da urbanizao, entre outros fatores, levaram procura global pelo

    turismo. Atualmente essa atividade pode ser encarada como um dos fenmenos mais

    significativos da contemporaneidade, tanto pela soma de setores da atividade que abrange, como

    pelo nmero de pessoas sobre as quais atua.

    Para Beni (1998), o turismo um conjunto de recursos naturais e culturais que, em sua essncia,

    constituem a matria-prima dessa atividade, pois so esses recursos que provocam a afluncia de

    turistas. A esse conjunto incorporam-se os servios produzidos para dar suporte ao seu consumo.

    Se considerarmos apenas a funcionalidade do processo turstico possvel compreender vrios

    de seus aspectos. Porm, ao introduzir-se o elemento humano - que o sujeito do turismo -

    elaborar uma definio que contemple toda a extenso do fenmeno torna-se um grande desafio.

    Dessa forma, entende-se que uma definio adequada deve considerar o turismo como atividade

    econmica e social, tanto pelas motivaes que o originam e determinam, quanto pelas

    implicaes e efeitos que exerce nos sistemas econmico, social e ambiental dos lugares

    receptores, bem como nos de origem dos viajantes.

    Neste trabalho adota-se o conceito de Barretto (2003), que trata o turismo como uma atividade de

    mltiplas peas, cujo planejamento exige uma escolha criteriosa, de cujo encaixe poder surgir o

    equilbrio necessrio ao seu desenvolvimento. Inserindo-se neste contexto, cabe aos planejadores

    da atividade turstica avaliar os anseios da comunidade, apreciando suas potencialidades, para

    que a atividade possa ser alcanada com sucesso.

    H um entusiasmo em relao ao crescimento do turismo e uma crescente preocupao quanto

    ao seu impacto. Becker (2001) alerta para o carter hbrido do turismo, por representar um

    enorme potencial de desenvolvimento e um enorme potencial de degradao socioambiental,

    caso no seja devidamente planejado e organizado.

    No Estado de Santa Catarina, inicialmente, o desenvolvimento desta atividade esteve ligado ao

    turismo de sol e mar. Este modelo de turismo vem gerando impactos socioambientais negativos

    e, sua interiorizao uma alternativa que vem sendo aos poucos colocada em prtica (LINS et

    al., 2002). Esta interiorizao desejvel pelas administraes municipais que procuram esta

    atividade como possibilidade de projeo de seus municpios por visualizarem efeitos

    multiplicadores e incremento do setor econmico. Todavia, fundamental que se faa um

    planejamento cuidadoso para que o crescimento da atividade turstica acontea de uma forma

    organizada, diferente do modelo do turismo desordenado e em grande escala presente no Estado,

    que colabora com o aprofundamento da problemtica socioambiental.

  • 3

    O Alto Vale do Itaja inclui-se nesse processo de interiorizao da atividade turstica em Santa

    Catarina e, o associativismo municipal representado pela Associao dos Municpios do Alto Vale

    do Itaja [AMAVI], tem importncia fundamental neste processo. A preocupao central desse

    artigo a anlise do planejamento territorial e do turismo no Alto Vale do Itaja, em Santa

    Catarina, a partir da atuao da AMAVI. Parte-se do pressuposto de que, apesar da necessidade

    de se pensar na implantao de um turismo que minimize a problemtica socioambiental, o

    modelo convencional que maximiza as vantagens econmicas em detrimento das vrias

    dimenses do desenvolvimento continua presente. Neste modelo convencional, o planejamento

    do turismo passa de um meio a um fim em si mesmo. As dimenses social, cultural,

    econmica, poltica do desenvolvimento se subordinam ao turismo, que passa a ser o ponto

    central do planejamento.

    A experincia dos municpios pertencentes rea de abrangncia da AMAVI, no que tange ao

    turismo, incipiente. Poucos so os municpios com estrutura turstica definida e operando em

    bases participativas. Todavia, a partir da parceria na elaborao do Projeto Turstico de

    revitalizao da Estrada de Ferro Santa Catarina [TREMTUR], em 2000, comeam a surgir

    indcios de uma nova fase, mais preocupada com a internalizao da dimenso socioambiental e

    com a criao de sinergias entre os vrios atores sociais sediados no nvel local e regional.

    A questo proposta neste artigo investigada pela reviso bibliogrfica de fontes secundrias,

    buscando um dilogo entre as principais referncias do tema proposto. As informaes

    apresentadas sero analisadas luz do objetivo do artigo, revelando os trunfos e fragilidades da

    atuao da AMAVI no planejamento territorial, assim como os trunfos e fragilidades do turismo no

    Alto Vale do Itaja. Para tanto, o artigo obedece a seguinte subdiviso: esta introduo que

    pretende situar o estudo; uma segunda parte que trata do referencial terico adotado, o

    planejamento para o desenvolvimento territorial sustentvel. Na seqncia, uma terceira parte que

    apresenta uma caracterizao do Alto Vale do Itaja e, em seguida, uma sntese sobre a trajetria

    da AMAVI. Uma quarta parte de descrio e anlise do projeto TREMTUR, uma quinta parte sobre

    o turismo no Alto Vale do Itaja e a atuao da AMAVI no Projeto TREMTUR, apresentando seus

    trunfos e fragilidades e, na seqncia, as consideraes finais.

    Planejamento territorial e turismo

    O planejamento se faz presente nas aes humanas: no h ao destinada a alcanar um

    objetivo sem planejamento. Dessa forma, o planejamento representa um modelo terico para a

    ao (LAFER, 1975). Birkholz (1983) afirma que o planejamento um processo e um meio para

    um melhor uso da inteligncia e das capacidades do ser humano para o benefcio comum.

    Cardoso (1975) define planejamento como administrao racional, a distribuio tima dos

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    recursos e dos meios para se atingir determinados objetivos. Para Sachs (1986, p. 46) o

    planejamento do desenvolvimento envolve a elaborao de polticas no intuito de moldar ou, pelo

    menos, influenciar a ao do homem em relao natureza e a si mesmo, no processo de

    utilizao do meio natural.

    O discurso e a prtica do planejamento emergiram no sculo XX. Destacam-se a experincia dos

    pases socialistas aps a Revoluo Russa em 1917 e a dos pases capitalistas centrais e

    perifricos depois de 1929. Pode-se afirmar que essa prtica inicial era essencialmente

    econmica (MIGLIOLI, 1983). E intrnseca a essa nfase na dimenso econmica, est uma viso

    de desenvolvimento que subordina a dimenso social, cultural, poltica e ambiental a primeira.

    Essa viso fruto do processo de desenvolvimento impulsionado principalmente a partir do sculo

    XVIII. Este levou a uma viso entusiasta relacionada Revoluo Industrial, ao desenvolvimento

    das cidades, dos transportes, da comunicao, a crescente oferta de produtos, ao progresso

    tecnolgico e cientfico, aos avanos na poltica, etc. Esse entusiasmo fez com que por um lado,

    os pases industrializados passassem a ser modelos a serem seguidos pelos demais pases e, por

    outro, difundiu-se a idia de que esse modelo traria bem-estar e qualidade de vida a todos.

    Com o passar do tempo, esse estilo de desenvolvimento comeou a apresentar seus problemas e

    limites: o desenvolvimento econmico unidimensional, os perigos da extino dos recursos

    naturais, a ameaa nuclear, as mudanas ecossistmicas, os conflitos mundiais, a pobreza, a

    violncia, a insegurana, as incertezas perante o futuro. O mundo material um sistema que tm

    os seus limites e no pode suportar um subsistema material sem limites (ILLICH, 1973).

    Como conseqncia desses problemas e limites, a problemtica socioambiental1 tornou-se, a

    partir da segunda metade do sculo XX, tema de discusso freqente junto aos movimentos

    sociais, que mobilizam cada vez mais um contingente maior de pessoas. E acabou sendo tambm

    motivadora de iniciativas de uma srie de eventos Estocolmo (1972), Cocoyoc (1974), Rio

    (1992), dentre outros que contaram com a participao de muitos pases, a fim de buscar

    alternativas que minimizassem os impactos negativos causados pelo estilo de desenvolvimento

    hegemnico.

    A partir do questionamento do carter do desenvolvimento, os intrpretes do

    ecodesenvolvimento propem um estilo de desenvolvimento alternativo que deve priorizar a

    valorizao dos recursos especficos de cada regio para a satisfao das necessidades

    (alimentao, habitao, sade e educao) sem ter como parmetro os pases ricos; a realizao

    dos seres humanos; a explorao dos recursos considerando as necessidades das geraes

    futuras; a reorganizao da produo para minimizar os impactos negativos das atividades

    humanas no meio ambiente; a utilizao de fontes locais para gerao de energia; o

    1 Entende-se que a problemtica scio-ambiental no conhece fronteira e reflete a percepo de que o volume de impactos destrutivos gerados pela ao antrpica sobre os ecossistemas tem se amplificado a ponto de ameaar diretamente as precondies de sobrevivncia da espcie num horizonte de longo prazo (VIEIRA, 1992, p.4).

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    aperfeioamento das ecotcnicas; a constituio de uma autoridade horizontal que tenha viso

    complexa; a participao das comunidades locais; a educao preparatria complementar das

    estruturas participativas de planejamento e gesto (SACHS, 1998).

    Na discusso sobre o planejamento e a gesto do desenvolvimento, o territrio um conceito

    chave. Por desenvolvimento territorial entendem-se todos os processos de mobilizao dos atores

    que conduzem a elaborao de uma estratgia de adaptao aos constrangimentos exteriores,

    sobre a base de uma identificao coletiva ligada a uma cultura e a um territrio. Segundo

    Beduschi e Abramovay (2003, p.3):

    Territrios no so, simplesmente, um conjunto neutro de fatores naturais e de dotaes humanas capazes de determinar as opes de localizao das empresas e dos trabalhadores: eles se constituem por laos informais, por modalidades no mercantis de interao construdas ao longo do tempo e que moldam uma certa personalidade e, portanto, uma das fontes da prpria identidade dos indivduos e dos grupos sociais.

    Na concepo do planejamento para o desenvolvimento territorial sustentvel fundamental o

    papel desempenhado por instituies locais2, sejam elas supramunicipais, intermunicipais ou

    municipais (SOUTO-MAIOR, 1992). A gesto local do desenvolvimento, baseada na participao,

    na descentralizao e em regras e normas que sejam estabelecidas num processo de negociao

    entre diferentes nveis (local, regional, nacional), surge como um instrumento importante para

    fortalecer os elementos caractersticos do ecodesenvolvimento. Decises tomadas em um s nvel

    seja ele local, regional ou global podem ser arbitrrias e mutilantes (GODARD, 1997). Percebe-se,

    desta forma, que, a incorporao da dimenso territorial constitui atributo central do enfoque do

    ecodesenvolvimento (CAZELLA; VIEIRA, 2004).

    O turismo, por sua vez, faz parte da problemtica relacionada ao estilo de desenvolvimento

    convencional. No contexto das novas formas de internacionalizao das relaes de produo e

    consumo, o turismo se mundializou e ganhou a qualificao de fenmeno de massa. Nesse

    sentido, torna-se importante discutir as repercusses scio-espaciais desta atividade e levantar

    questes sobre a viabilidade da mesma contribuir para desenvolvimento de uma regio.

    Vale ressaltar que a promoo do desenvolvimento na atividade turstica implica,

    fundamentalmente, no envolvimento e na participao cidad no processo de gesto e

    planejamento da localidade. Pois, justamente a comunidade quem conhece e vivencia a

    realidade local sendo capaz de identificar problemas e necessidades, avaliar alternativas,

    defender o meio ambiente e buscar solues, sugerindo caminhos que levem melhoria da

    qualidade de vida, ao fortalecimento da cultura e ao bem-estar social da comunidade.

    Silveira (2002) ressalta que a participao da populao um pressuposto decisivo para o

    planejamento do turismo, seus propsitos e metas. O bom andamento do processo de

    2 Entendendo conforme Franco (2000, p. 27) que todo desenvolvimento local, seja este local um distrito, um municpio, uma microrregio, uma regio do pas, um pas, uma regio do mundo. O conceito de local adquire a conotao de alvo socioterritorial das aes e passa a ser definido por um processo de desenvolvimento em curso (FRANCO, 2000).

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    desenvolvimento da atividade turstica no acontecer de forma satisfatria sem que haja

    comprometimento e participao da comunidade.

    O planejamento turstico tem sido claramente influenciado por teorias e prticas administrativas e

    publicitrias. Muitas vezes ele traz benefcios para os participantes dos negcios tursticos e no

    traz benefcios comunidade. Para o turismo, o planejamento local importante, porm, a

    articulao territorial fundamental (BARRETTO, 2003).

    preciso pensar num planejamento mais amplo que o turstico. O verdadeiro turismo ecolgico

    [denominao usada hoje abusivamente], nunca poder ser de massas, mas est se impondo

    como um ramo de atividades a ser integrado nas estratgias de desenvolvimento local de

    numerosas microrregies (SACHS, 2004, p. 140). O planejamento, nas palavras de Godard e

    Sachs (1975), no pretende ser o atributo de tcnicos, mais o instrumento que um povo se d

    para pensar e realizar seu futuro. Esse futuro no o turismo e sim uma melhor condio de

    vida. O turismo pode ser, dependendo das circunstncias, um meio, mas no deve ser

    considerado um fim.

    A abordagem territorial do desenvolvimento sustentvel pressupe um maior papel local na gesto

    do seu prprio desenvolvimento territorial. Essa mudana tambm um problema poltico e de

    exerccio do poder, que coloca em pauta a questo das instituies poltico-administrativas, da

    participao e do processo poltico (FREY, 2001). O planejamento para o desenvolvimento

    territorial sustentvel deve indicar objetivos amplos do que ser quer e do que se pode para

    determinada regio. E, a partir desses objetivos mais amplos que se mobilizam meios para

    chegar ao futuro desejado. O turismo pode ser um desses meios, mas no o nico!

    Em sntese, trs aspectos relacionados ao planejamento regional e ao turismo sero considerados

    na anlise do estudo de caso. O primeiro deles que o planejamento no deve priorizar uma

    dimenso especfica, como historicamente tem sido com a dimenso econmica. O segundo, diz

    respeito importncia da participao no processo de planejamento e, a terceira, alerta para o

    fato de que o planejamento no deve ter como finalidade principal a atividade turstica. Tendo

    esses aspectos como referncia, prossegue-se a apresentao e anlise do estudo de caso.

    O Alto Vale do Itaja

    A regio da AMAVI constituda por vinte e oito municpios3, situa-se no Alto Vale do Itaja entre

    os paralelos 2634 (latitude norte) e 2741 (latitude sul); 4928 (longitude leste) e 5026

    (longitude oeste) e tem Rio do Sul como cidade plo.

    3 Agrolndia, Agronmica, Atalanta, Aurora, Brao do Trombudo, Chapado do Lageado, Dona Emma, Ibirama, Imbuia, Ituporanga, Jos Boiteux, Laurentino, Lontras, Mirim Doce, Petrolndia, Pouso Redondo, Presidente Getlio, Presidente Nereu, Rio do Campo, Rio do Oeste, Rio do Sul, Salete, Santa Terezinha, Tai, Trombudo Central, Vidal Ramos, Vitor Meirelles e Witmarsum

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    Figura 1: rea de abrangncia da AMAVI

    Fonte: IEL (2001, p. 10).

    O Alto Vale do Itaja localiza-se, na parte mais alta da Bacia Hidrogrfica do Rio Itaja, quase no

    centro de Santa Catarina, representando 1,12% do territrio brasileiro. O clima classificado

    como mido mesotrmico, com temperatura mdia anual de 20C. As chuvas oscilam em mdia

    entre 1.600 e 1.800mm anuais (SANTA CATARINA, 1993). A cobertura vegetal bastante

    diversificada . A floresta ombrfila densa ocupava quase a sua totalidade sendo que o ciclo

    exploratrio da madeira e a dinmica urbana modificaram a condio da cobertura vegetal, hoje

    restrita a 10% do territrio.O relevo acidentado, tpico de vales, favorece a existncia de

    cachoeiras e grutas com fauna e flora diversificadas (AMAVI, 2000).

    O Vale do Itaja era povoado pelos ndios Xokleng e o contato com os imigrantes europeus deu-se

    a partir da colonizao do Vale, em 1850 num processo marcado por conflitos. Muller (1987)

    estima que, dois teros desta populao tenha sido dizimada nos primeiros anos de convvio.

    At o incio do sculo XIX, o processo de ocupao de Santa Catarina caracterizava-se por duas

    iniciativas paralelas, sem ligao entre si. Entre 1645 e 1676 pela regio litornea e em 1771 com

    a ocupao do Planalto Serrano, pelos Paulistas. A rea existente entre o Litoral e o Planalto

    representava ento, um vazio demogrfico e, a necessidade de sua ocupao, como elo

    comunicante, constitua-se uma poltica e uma necessidade.

    Com o estabelecimento da Colnia Blumenau, marca-se a entrada no Vale de inmeros

    imigrantes4 e uma grande regio perifrica a Blumenau foi explorada. Em direo ao planalto, Emil

    Odebrecht promoveu expedies abrindo em 1874 um caminho para cargueiros. Os sertanejos

    que habitavam Blumenau antes da instalao da Colnia, em funo do contnuo aumento desta,

    se deslocaram gradativamente para as terras vagas, existentes rio acima no caminho do planalto.

    4 Principalmente alemes e italianos.

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    A evoluo demogrfica do Alto Vale do Itaja est diretamente ligada s investidas colonizatrias,

    construo de estradas (1908 e 1911), da rede ferroviria ao do ciclo da madeira. Rio do Sul,

    fruto da expanso de Blumenau, cresceu com a imigrao das populaes jovens, das comunas

    circunvizinhas de colonizao europia. O contingente populacional que se deslocou para a

    regio mais alta do Vale, foi predominantemente composto por brasileiros5.

    A ocupao foi organizada em pequenas propriedades6, distribudas ao longo de rios e picadas

    em direo ao fundo dos Vales. O solo era explorado ao mximo para subsidiar o pagamento do

    lote e suprir a necessidade de subsistncia. Os colonos tinham a responsabilidade de povoamento

    para com a colonizadora, sob pena de terem que devolver o lote.

    Desta forma, estabeleceram-se unidades agrcolas familiares e, o fato de muitos imigrantes

    serem artesos e operrios facilitou o surgimento das primeiras indstrias de pequeno porte. O

    isolamento geogrfico e econmico das frentes de colonizao fez com que as pessoas ali

    sediadas produzissem quase tudo de que necessitavam para sobreviver. A auto-sustentao fez

    com que a regio diversificasse sobremaneira seu sistema produtivo (MAGALHES, 2004). Vale

    a pena registrar que a regio do Alto Vale foi colonizada cerca de 30 anos aps a chegada dos

    europeus foz do rio Itaja.

    Uma das atividades que impulsionaram o desenvolvimento econmico da regio foi a extrao da madeira, a partir da dcada de 30, com a Estrada de Ferro Santa Catarina. A partir de 1989, com a adoo de uma legislao mais rgida para preservar a Mata Atlntica, essa atividade entrou em declnio. Atualmente a regio apresenta uma atividade econmica baseada na agricultura familiar e na industrializao descentralizada (MAGALHES, 2004, p. 2).

    A colonizao da regio, como mencionado, deu-se no final do sculo XIX, porm, a instalao

    dos municpios foi mais recente, a partir de 1930. A populao rural predomina em 17 dos 28

    municpios que compe a AMAVI. Do total de 242.610 habitantes, 57,47% vivem em rea urbana

    e 42,53% vivem em rea rural.

    Este territrio conhecido e identificado por festas e feiras temticas relacionadas s vocaes

    culturais da regio e forte presena de elementos culturais de diversas etnias7, Tal influncia

    pode ser vista na gastronomia e na arquitetura ou ainda em eventos tpicos e grupos folclricos,

    que mantm vivas as tradies e os costumes dos colonizadores.

    A AMAVI

    A Associao dos Municpios do Alto Vale do Itaja (AMAVI) foi fundada em 1964, por iniciativa da

    Cmara Jnior de Rio do Sul. Conta com a participao de 28 municpios com objetivo maior de

    5 Em 1920, faz-se referncia a uma populao de 8.800 habitantes, sendo apenas 596 estrangeiros (PELUSO, 1942). 6 Com vinte e cinco hectares no mximo. Os lotes precisavam ser pequenos, pois os colonos, devido s suas origens sociais, no conseguiam viver isoladamente (RENAUX, 1987). 7 Alem, italiana, sua, polonesa e ucraniana, alm da cultura cabocla e das tradies gachas.

  • 9

    sediar e representar fora poltica, junto ao governo estadual e federal e atravs do

    associativismo.

    No rol dos objetivos fixados nos seus estatutos (AMAVI, 2004a), esto contemplados: (i) a

    ampliao e o fortalecimento da capacidade administrativa, econmica e social dos municpios,

    prestando-lhes assistncia tcnica; (ii) a promoo da cooperao intermunicipal e

    intergovernamental; e (iii) o registro, para efeitos de lavra em benefcio dos municpios

    associados, de jazidas e recursos minerais existentes na regio. De 1964 at 1975, a associao

    funcionou basicamente como um frum de discusso dos prefeitos, mas em 1976 contratou

    equipe tcnica. Atualmente, com 29 servidores, disponibiliza assessoria tcnica8, principalmente

    aos pequenos municpios associados que no possuem condies de contratar seu prprio corpo

    tcnico.

    No planejamento regional do Alto Vale, a AMAVI participou da experincia de criao dos Termos

    de Referncia para os planos microrregionais de desenvolvimento integrado. Esta ocorreu nas

    dcadas de 1960/1970 e considerada a primeira tentativa de planejamento microrregional do

    Estado, por iniciativa do Servio Federal de Habitao e Urbanismo (SERFHAU), e depois da

    SUDESUL. Na dcada de 80, coordenou a elaborao de Planos Diretores para os municpios de

    Tai, Trombudo Central, Pouso Redondo, Ituporanga, Agrolndia. Ibirama, Lontras, Presidente

    Getlio, Rio do Oeste, Rio do Sul e Salete, que foram concebidos a partir de uma metodologia

    participativa. Posteriormente, j na dcada de 1990, participou do Plano Bsico de

    Desenvolvimento Regional (PBDR) e do Plano Bsico de Desenvolvimento Ecolgico Econmico

    (PBDEE). Em 2000, elaborou, em conjunto com outras instituies sociais, o Projeto Turstico e o

    de Viabilidade Econmica da revitalizao da Estrada de Ferro Santa Catarina, TREMTUR

    (AMAVI, 2000). Atualmente, desenvolve um projeto de Plano Diretor Regional Participativo

    envolvendo os 28 municpios. Tanto o Projeto TREMTUR quanto o Plano Diretor Regional

    Participativo (AMAVI, 2005) empregam metodologias participativas em escala regional.

    Em maior ou menor grau, desde a dcada de 1960, as associaes de municpios tm se

    envolvido com experincias de planejamento de Santa Catarina. Todavia, os planos regionais

    realizados por iniciativa do governo federal e estadual sofrem com a descontinuidade das gestes

    governamentais e com a fragmentao de iniciativas. Nesse sentido, nas dinmicas de

    planejamento regional coexistem quatro recortes espaciais distintos: as associaes de

    municpios a partir do incio dos anos 1960, os comits de bacia a partir de 1997, as regies

    metropolitanas em 1998 (THEIS et al., 2001), e em 2003, as Secretarias de Desenvolvimento

    Regional (SDR) (TURNES et al., 2004). Este padro de atuao em mosaicos tem prejudicado a

    busca de enfrentamento dos problemas estruturais da populao catarinense e do tratamento da

    questo regional.

    8 Nas reas administrativa, social, jurdica, engenharia, arquitetura, urbanismo, turismo, educao, contabilidade, informtica, topografia e economia.

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    O projeto TREMTUR

    A colonizao e o povoamento do Alto Vale do Itaja guardam ntima relao com a Estrada de

    Ferro Santa Catarina, construda em 1907 e desativada em 1971. No Brasil, a preservao da

    memria ferroviria o principal objetivo da Associao Brasileira de Preservao Ferroviria

    (ABPF)9. As idias de preservao da memria ferroviria chegaram a Rio do Sul no ano de 1989,

    por intermdio de Lus Carlos Henckels, coordenador do ncleo da ABPF no Vale do Itaja.

    Henckels reuniu-se com o prefeito de Rio do Sul, na poca, Nodgi Enas Pellizzetti, que ofereceu

    seu apoio causa com a criao do Grupo Especial de Trabalho para a revitalizao da Estrada

    de Ferro Santa Catarina, pelo Decreto n. 473/97, no seu segundo mandato como prefeito

    (AMAVI, 2000; 2002).

    Em 1998, foi criada a Fundao Estrada de Ferro Vale do Itaja, a TREMTUR: entidade privada,

    de carter pblico e suprapartidrio. Esta foi instituda para dar sustentabilidade e condies de

    exeqibilidade ao projeto turstico de revitalizao de um trecho de 23 quilmetros da Estrada de

    Ferro Santa Catarina. Este trecho se situa entre os municpios de Rio do Sul e Apina, envolvendo

    indiretamente os municpios que fazem parte da AMAVI e da AMMVI 10. A Fundao TREMTUR

    fora aglutinadora do potencial coletivo que se reverte em aes dos rgos no governamentais

    e entidades pblicas atuantes na regio (AMAVI, 2002).

    A proposta turstica apresentada pelo Projeto TREMTUR uma possvel rea para investimentos

    do Programa de Desenvolvimento do Turismo [PRODETUR]. O Projeto Turstico da TREMTUR

    aponta caractersticas culturais e potenciais ambientais naturais como singularidades regionais

    passveis de polticas de valorizao. A Maria Fumaa acena com um nmero possvel de

    visitantes, exaltando a Bromlia, planta tpica e abundante nos remanescentes da Mata Atlntica

    da regio. O TREMTUR se apresenta como alternativa aos grandes eventos, propondo atravs

    das singularidades, o resgate e a valorizao do ser e do saber fazer local (AMAVI, 2000).

    O codinome utilizado para o trecho, Ferrovia das Bromlias, estimula o apelo ambiental

    necessrio manuteno e renovao da vegetao, bem como, da conservao da paisagem

    cnica existente no entorno do trecho proposto revitalizao. O cadastro e documentao do

    acervo edificado objetivam o estudo, o conhecimento e a valorizao das tcnicas construtivas

    utilizadas, corroborando com a mxima popular que envolve a proposta da TREMTUR: tudo que

    velho vira novo. Acenam-se tambm como possibilidades a definio de rotas tursticas

    desveladoras de costumes e saberes locais ligados ao artesanato, aos hbitos e costumes, a

    9 Criada em 1977 por Patrick Dollinger. 10 Associao dos Municpios do Mdio Vale do Itaja. Existe um pacto entre a AMAVI e a AMMVI, que permite o planejamento de aes conjugadas regionalmente.

  • 11

    gastronomia e a religiosidade que, articuladas a macro polticas de acolhimento, levaro o Alto

    Vale do Itaja condio de destaque (AMAVI, 2000).

    O projeto pretende tambm dinamizar atividades que contenham e transmitam a riqueza histrica

    que a ferrovia representou para a regio, apresentando novas oportunidades de gerao de

    empregos, novas divisas e a melhoria da qualidade de vida [...] (AMAVI, 2002, p. 5). Expressa-se

    tambm no projeto preocupao com os impactos negativos do turismo e a importncia do

    desenvolvimento sustentvel.

    Em ordem crescente, desde 2000, instituies pblicas e privadas, profissionais liberais e

    comunidade em geral, foram mobilizados e envolvidos a participarem do projeto e a Fundao

    TREMTUR11. O projeto de revitalizao da Estrada de Ferro Santa Catarina foi concludo no ano

    de 2000 e entregue ao governo do estado no mesmo ano. A AMAVI foi uma das instituies que

    participou desse processo. Ela representa o associativismo municipal e tem uma atuao

    reconhecida no mbito regional. Por ela coordenar experincias de planejamento regional e

    urbano no Alto Vale do Itaja h mais de quarenta anos, sobre ela que vamos no debruar para

    analisar a relao entre o planejamento territorial e o turismo no Projeto TREMTUR.

    O turismo no Alto Vale do Itaja e a atuao da AMA VI no projeto TREMTUR: trunfos

    e fragilidades

    O Projeto TREMTUR pode ser considerado um marco na abordagem da questo turstica no Alto

    Vale do Itaja. Alinhavado, estruturado e conduzido pela Fundao TREMTUR at onde lhe fora

    possvel, este chegou a AMAVI num contexto de desafio, visando a elaborao de um projeto que

    pudesse ser financiado pelo PRODETUR. O projeto carecia de apoio, complementao tcnica e

    maior insero no contexto regional, em condio nunca antes vivenciada pela associao. At

    ento, a AMAVI que se definia pela gesto de projetos pontuais especficos, vislumbra o cenrio

    regional, se inclu e abraa a questo. Ela possibilitou a disponibilizao e contratao de tcnicos

    11 A AMAVI elaborou o projeto de viabilidade econmica e coordenou a elaborao do projeto tcnico de turismo. A Prefeitura Municipal de Rio do Sul tratou da transferncia da casa do feitor, situada nos fundos da Estao Ferroviria Matador para a sede da TREMTUR e garantiu o suporte inicial das aes da Fundao TREMTUR, com a doao de terreno para a construo de casas populares para relocao de famlias que ocupavam o espao interno da referida estao. Destinou ainda no oramento de 2001 recursos para a contrapartida na execuo do projeto e atravs da Assessoria de Planejamento disponibilizou equipe para efetuar o cadastramento das edificaes com valor histrico situadas no entorno da ferrovia. A Cmara de Vereadores de Rio do Sul elaborou um projeto de lei tendo em vista o financiamento do projeto tcnico de engenharia. As empresas B&S Consultoria, Juglans Engenharia Florestal e EMFLOR Tecnologia em Reflorestamento elaboraram o projeto de recuperao ambiental, que foi protocolado no Fundo Nacional do Meio Ambiente e definiu o plantio de mudas de rvores exticas em propriedades privadas para o abastecimento da locomotiva. As empresas Hergen Mquinas e Equipamentos S.A., H. Bremer & Filhos Ltda. e Caldeiras Sofka Ltda. auxiliaram na recuperao da locomotiva Baldwin Tem Well n. 232. O 13. Batalho de Polcia Militar e o 3. Peloto de Bombeiros Militar contribuem na segurana das expedies tcnicas e de eventos realizados pela TREMTUR e a Fundao Cultural de Rio do Sul ocupa uma das estaes e mantm amplo acervo histrico e fotogrfico da Estrada de Ferro Santa Catarina. O projeto conta com a assessoria do Instituto do Patrimnio Histrico e Arquitetnico Nacional (IPHAN), do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), da SANTUR, da Organizao Regional de Turismo (ORT) e do Instituto Brasileiro de Turismo (EMBRATUR) (AMAVI, 2000).

  • 12

    e a canalizao de recursos capazes de materializarem as idias em projetos tcnicos passveis

    de serem aceitos pelos rgos estaduais e federais competentes.

    Dentre os trunfos destacam-se, no projeto TREMTUR, alm da parceria regional entre diversas

    instituies e os 28 municpios, a parceria entre regio do Mdio Vale e do Baixo Vale do Itaja.

    Esse dilogo colabora para a busca de solues conjuntas que minimizem os impactos negativos

    da atividade turstica. O envolvimento da AMAVI na elaborao e na entrega do Projeto Turstico e

    do Projeto de Viabilidade Econmica da TREMTUR habilitou a instituio para tal, mas tambm

    evidenciou fragilidades relacionadas ao trato das questes tursticas no mbito regional.

    Podemos listar problemas de ordem institucional, pois se verifica em grande parte das prefeituras

    da regio da AMAVI, inexistncia de setores afins estruturados, como Secretarias ou Conselhos

    de Turismo estruturados sob forma de lei, e ou pessoal habilitado para o trato da questo.

    Administrativamente, podemos afirmar que o Turismo vem sendo tratado de forma amadora na

    rotina da maioria dos municpios ou, de forma super especializada, na promoo de grandes

    eventos por equipes de fora contratadas para tal. Outro aspecto, relacionado ao gerenciamento,

    refere-se ao desconhecimento da realidade turstica e dos potenciais tursticos dos diferentes

    municpios. Os cadastros e levantamentos de dados so incipientes. O desconhecimento do valor

    do acervo edificado, ambiental, natural e imaterial, principalmente relacionado com a poca de

    colonizao e com a criao das cidades, compromete o avano de polticas voltadas

    manuteno e ou valorizao dos referidos bens.

    Em relao aos aspectos culturais verifica-se na maioria dos municpios, a perda da histria viva

    no documentada. A convivncia com a mistura das raas e a profuso de vrios dialetos e

    idiomas como o alemo, italiano e o indgena criaram dificuldades para o relato e a documentao

    das diferentes histrias que compem o caldo cultural regional. A falta de documentao do

    acervo leva ao desconhecimento da prpria histria e, permite que se importem estrias e shows

    com apelos comerciais, contados de fora para dentro do contexto das cidades. Isso acaba

    prejudicando os valores locais, numa nsia pelo turismo de massa, contabilizado por nmero de

    visitantes e exposies na mdia. O cidado no se reconhece na maior parte das comemoraes

    desta natureza, no vive a essncia da comemorao e quase sempre s interage poltica e

    momentaneamente com o fato.

    Em relao questo ambiental, o Alto Vale viveu o ciclo da madeira e assistiu nas dcadas de

    1940 a 1970 ao comprometimento expressivo de sua vegetao. A postura extrativista em relao

    ao meio e o convencimento de que o lazer de fato encontra-se na regio litornea, contribui para o

    no aproveitamento dos recursos naturais paisagsticos existentes como cnicos. As cidades

    crescem de costas para os recursos hdricos que so vistos como veculos de dejetos.

    Em sntese, os trunfos se relacionam a uma atuao mais integrada e participativa da AMAVI com

    outras instituies e com a comunidade regional e, a incorporao da preocupao com a

    dimenso socioambiental. As fragilidades esto associadas falta de estrutura das prefeituras,

  • 13

    amadorismo no tratamento do turismo, o desconhecimento do potencial turstico local e regional, a

    falta de documentao histrica e valorizao da mesma e o descaso ao meio ambiente. A fim de

    resolver as fragilidades e estimular os trunfos, as cidades precisam estabelecer pactos de

    desenvolvimento, interligando projetos e aes num pensamento conjunto de parcerias com

    ganhos para o todo (POLEZA, 2001, p. 76). A participao da AMAVI neste projeto sinaliza uma

    disposio crescente das instituies nesta direo.

    Consideraes finais

    Este trabalho teve como principal objetivo anlise do papel desempenhado pela AMAVI no

    projeto TREMTUR. Para tanto, inicialmente foi feita uma caracterizao do Alto Vale do Itaja, da

    AMAVI, do projeto TREMTUR, do turismo no Alto Vale do Itaja e da atuao da AMAVI junto ao

    Projeto. Procurou-se identificar os principais fatores limitantes e, ao mesmo tempo, os possveis

    espaos de manobra direcionados ao planejamento para o desenvolvimento territorial sustentvel.

    O referencial de anlise utilizado, o planejamento para o desenvolvimento territorial sustentvel,

    est em construo. A contribuio desse trabalho pode ser entendida como o resultado da

    dialtica entre o enfoque que est sendo construdo e a compreenso e anlise da realidade com

    vistas a intervir nela. No que se refere aos trs aspectos relacionados ao planejamento para o

    desenvolvimento territorial sustentvel, considerados na anlise do estudo de caso tem-se as

    seguintes consideraes a fazer.

    No que se refere ao primeiro deles, que o planejamento no deve priorizar uma dimenso

    especfica, como tem sido historicamente com a dimenso econmica, a atuao da AMAVI no

    Projeto TREMTUR foi embasada e tecida em redes que possibilitam de forma prioritria melhorias

    locais. Existe a preocupao com a interdependncia das vrias dimenses do desenvolvimento,

    porm a integrao de todas as dimenses precisa ser constantemente avaliada.

    No segundo aspecto, relativo a importncia da participao no processo de planejamento, o

    Projeto TREMTUR busca a interao entre diferentes saberes abrindo possibilidades para a

    valorizao do saber local. Nesse sentido, a participao da AMAVI fundamental, pois, ela

    relaciona o espao local com o regional e tambm com escalas espaciais mais amplas. A AMAVI,

    durante muitos anos, participou de experincias de planejamento governamentais realizadas de

    cima para baixo exercitando o fazer. Com a experincia da parceria no Projeto TREMTUR, a

    instituio passa a contribuir num processo de planejamento de baixo para cima. a partir da

    iniciativa regional que a AMAVI, juntamente com outras instituies, vai articular o projeto

    TREMTUR s diferentes escalas de planejamento [local, regional, estadual, nacional].

    O terceiro aspecto, atenta para o fato de que o turismo no deve ser considerado o fim do

    planejamento. Nesse quesito, por ser o Projeto TREMTUR um projeto turstico, no h como fugir

  • 14

    desse problema. Os aspectos apresentados no Projeto esto condicionados atividade turstica e

    se subordinam a ela. Uma possibilidade de mudana seria a inverso desse processo. Esta

    consistiria no tratamento do turismo numa perspectiva mais ampla de planejamento territorial.

    A partir dessas consideraes, podem ser identificadas as margens de manobra para

    experimentaes com o enfoque de desenvolvimento territorial sustentvel. A participao da

    AMAVI, em particular, e das instituies e da comunidade regional em geral, a articulao entre as

    escalas espaciais de planejamento e a incorporao da dimenso socioambiental. Entretanto, se

    os pressupostos do planejamento para o desenvolvimento territorial sustentvel fossem levados

    em conta, essas preocupaes com a dimenso ambiental e com a participao deveriam ser

    ampliadas, de modo a favorecer os processos de transformao da estrutura da AMAVI e das

    dinmicas do planejamento do Alto Vale do Itaja (BUTZKE, 2007).

    A atuao da AMAVI no projeto TREMTUR sinaliza um primeiro passo rumo a uma nova postura

    institucional frente ao planejamento regional. Esta precisa ampliar de maneira significativa

    compreenso e a ao relacionada ao desenvolvimento territorial, ao papel do turismo nesse

    contexto e tambm ao papel das instituies e das pessoas que vivem na regio. Assim, quem

    sabe, o turismo passe de fim do planejamento a meio e se insira numa prtica mais integrada

    de desenvolvimento, na qual o bem-estar de todos seja o objetivo principal.

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