DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL RURAL ... - ?· PTDRS – Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentável…

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  • 1

    TARIK MARQUES DO PRADO TANURE

    DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL RURAL: POLTICAS

    PBLICAS NO TERRITRIO DA CIDADANIA DO

    NOROESTE DE MINAS

    UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLNDIA

    INSTITUTO DE ECONOMIA

    2012

  • 2

    TARIK MARQUES DO PRADO TANURE

    DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL RURAL: POLTICAS

    PBLICAS NO TERRITRIO DA CIDADANIA DO

    NOROESTE DE MINAS

    UBERLNDIA MG

    2012

    Dissertao apresentada ao Programa de ps-

    graduao em economia da Universidade

    Federal de Uberlndia como requisito parcial

    para a obteno do ttulo de Mestre em

    Economia.

    Orientador: Prof. Dr. Carlos Alves Nascimento

    Co-Orientador: Prof. Dra. Soraia A. Cardozo

  • 3

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)

    Sistema de Bibliotecas da UFU, MG, Brasil.

    T169d 2012

    Tanure, Tarik Marques do Prado, 1986- Desenvolvimento territorial rural : polticas pblicas no territrio da

    cidadania do noroeste de Minas / Tarik Marques do Prado Tanure. - 2012.

    136 f. : il.

    Orientador: Carlos Alves do Nascimento.

    Dissertao (mestrado) Universidade Federal de Uberlndia,

    Programa de Ps-Graduao em Economia.

    Inclui bibliografia.

    1. Economia - Teses. 2. Desenvolvimento regional Minas Gerais -

    Teses. 3. Polticas pblicas - Brasil - Teses. 4. Desenvolvimento rural

    Minas Gerais -Teses. I. Nascimento, Carlos Alves do. II. Universidade

    Federal de Uberlndia. Programa de Ps-Graduao em Economia. III.

    Ttulo.

    CDU: 330

  • 4

    Dissertao defendida e aprovada em 15 de junho de 2012, pela banca examinadora:

    __________________________________________________

    Orientador

    Prof. Dr. Carlos Alves do Nascimento ( IE/UFU )

    __________________________________________________

    Prof. Dr. Jefferson Andronio Ramundo Staduto ( UNIOESTE )

    Membro

    __________________________________________________

    Prof. Dr. Antnio Csar Ortega ( IE/UFU )

    Membro

    Coordenador do Programa de ps-graduao em Economia IE/UFU

    Universidade Federal de Uberlndia

    Instituto de Economia

    Programa de Ps-Graduao em Economia

  • 5

    AGRADECIMENTOS

    Gostaria de agradecer primeiramente a Deus e a meus pais, Moab e Dalton pelos incentivos,

    conselhos e apoio dados do incio ao fim do curso de mestrado.

    Aos meus orientadores, Professor Dr. Carlos Alves do Nascimento e Professora Dra. Soraia

    Aparecida Cardozo, que me inspiraram e me guiaram ao longo do curso.

    Aos professores do Instituto de Economia da UFU que, com pacincia e energia,

    compartilharam seus conhecimentos, nos tornando mais esclarecidos e preparados para

    nosso objetivo de construir uma sociedade melhor.

    Agradeo tambm aos colegas de mestrado, cujo convvio dirio ajudou a tornar mais

    branda a difcil jornada acadmica.

    Ressalto ainda que sem a participao de todos vocs essa vitria no se realizaria.

  • 6

    RESUMO

    Esta dissertao estuda os impactos e os perfis das polticas pblicas orientadas sob distintas

    concepes de desenvolvimento no Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas, com

    destaque para as aes compreendidas pelo Programa Territrios da Cidadania. Dentro das

    polticas pblicas analisadas destacam-se dois tipos de planejamento, sendo o primeiro

    verificado a partir da dcada de 1970, de mbito centralizado, com forte inspirao regional

    tradicional e cujo foco foi o desenvolvimento da agricultura; e o segundo, verificado a partir

    de meados da dcada de 1990 e aprofundado nos anos 2000, compreendendo um

    planejamento de cunho descentralizado, com polticas pblicas de corte territorial, levando em

    considerao as particularidades do territrio e dos produtores rurais. Neste sentido

    procuramos verificar qual perfil de poltica pblica mais indicado para que o territrio

    alcance o desenvolvimento econmico e social, visto que um territrio dotado de baixo

    dinamismo econmico. No obstante, procuramos verificar os impactos iniciais do Programa

    Territrios da Cidadania, analisando ainda se o mesmo vem cumprindo na prtica o que se

    props a fazer. Os indicadores analisados apontam para um substancial aumento na qualidade

    de vida da populao do territrio ao longo do perodo analisado. Parte desses indicadores

    evoluiu devido a fatores conjunturais, mas uma parte considervel evoluiu, sobretudo, devido

    a polticas pblicas especficas, particularmente nos anos 2000.

    Palavras-Chave: Desenvolvimento Territorial, Desenvolvimento Rural, Polticas Pblicas.

  • 7

    ABSTRACT

    This dissertation studies the impacts and profiles of public policies made of different

    conceptions of development in the Territrios da Cidadania do Noroeste de Minas,

    highlighting the role due by Territrios da Cidadania Program. Two types of planning are

    included in the analyzed policies, the first is recorded from the 1970s, based in a centralized

    scope, with a strong regional inspiration and whose focus was the development of agriculture;

    the second occurred from mid-1990s and deepened in the 2000s, based in a decentralized

    planning, with territorial public policies, taking into account the peculiarities of the territory

    and farmers. In this sense we tried to verify which profile of public policy is best for the

    territory to reach the economic and social development, since it is a territory with low

    economic dynamism. Nevertheless, we sought to verify the initial impacts of the Territrios

    da Cidadania Program, analyzing whether it is still doing in practice what it set out to do. The

    analyzed indicators point to a substantial increase in quality of life of the territory over the

    period analyzed. Some of these indicators has evolved due to conjunctural factors, but a

    considerable part evolved, mainly because of specific public policies, particularly in the

    2000s.

    Key-Words: Territorial Development, Rural Development, Public Policies.

  • 8

    LISTA DE FIGURAS

    FIGURA 1: Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas .................................................. 70

    LISTA DE TABELAS

    TABELA 1: Evoluo da Produo Agrcola e da Pecuria (1975 e 2006) (mil t)(%) ........... 38

    TABELA 2: PRONAF Custeio e Investimento no TCNM (%)(R$)(PIB per capita)(2009) ... 80

    TABELA 3: Distribuio do nmero dos tipos de famlias extensas segundo o local de

    domiclio: Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas, 2000. .......................................... 94

    TABELA 4: Valor Adicionado a preos correntes no TCNM (1999 e 2009) (R$) ................ 97

    TABELA 5: Valor da produo dos estabelecimentos no ano de 2006 nos municpios do

    TCNM (Mil Reais) ............................................................................................................... 99

    TABELA 6: rea e participao dos estabelecimentos agropecurios em percentual nos

    municpios do Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas (2006) ................................. 100

    TABELA 7: Nmero de domiclios por situao, segundo os municpios do Territrio do

    Noroeste de Minas, nos anos de 1991, 2000 e 2010. ........................................................... 100

    TABELA 8: Populao residente (Nmero) e variao da populao (%) nos municpios do

    Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas nos anos de 1991, 2000 e 2010. .................. 102

    TABELA 9: Domiclios particulares permanentes e abastecimento de gua nos municpios do

    Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas (Unidades) (1991, 2000 e 2010). ................ 104

    TABELA 10: Percentual de domiclios com iluminao nos municpios do TCNM ........... 106

    TABELA 11: Percentual da populao alfabetizada no TCNM nos anos de 1991,2000 e 2010

    .......................................................................................................................................... 107

    TABELA 12: Valor do rendimento nominal mdio mensal dos domiclios particulares

    permanentes (Reais) ........................................................................................................... 109

    TABELA 13: Matriz de Aes do Programa Territrios da Cidadania para o Territrio da

    Cidadania do Noroeste de Minas (Valores em R$) ............................................................. 112

    LISTA DE GRFICOS

    GRFICO 1: Total de Crditos do PRONAF por Municpio do TCNM (2000 a 2009) (R$) 81

    GRFICO 2: Grupos de Produtores do TCNM segundo o PRONAF Crdito (R$) (%) ........ 82

    GRFICO 3: Total do PRONAF nos Municpios do TCNM entre (2000 a 2009) (R$) ......... 90

    GRFICO 4: Salrio Mnimo Mdio Real Anual no Brasil de 1983 a 2012. ...................... 109

    GRFICO 5: Oramento Executado nos anos 2008, 2009 e 2010 no TCNM...................... 113

    GRFICO 6: Oramento Executado em 2008 no TCNM (%). ........................................... 114

  • 9

    GRFICO 7: Oramento executado em 2009 no TCNM (%) ............................................. 115

    GRFICO 8: Oramento executado em 2010 no TCNM (%). ............................................ 116

    GRFICO 9: Oramento Executado nos anos de 2008, 2009 e 2010 no TCNM (R$). ........ 117

    LISTA DE QUADROS

    Quadro 1: Dimenso Ambiental ........................................................................................................72

    Quadro 2: Dimenso Socioeconmica ...............................................................................................74

    Quadro 3: Dimenso Sociocultural e Educacional .............................................................................76

    Quadro 4: Dimenso Poltica Institucional.........................................................................................78

  • 10

    LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

    AE Articulador Estadual

    AMNOR Associao dos Municpios do Noroeste de Minas

    APTA Associao de Desenvolvimento e Solidariedade

    AT Assessor Tcnico

    BM Banco Mundial

    CAI Complexo Agroindustrial

    CASEMIG Companhia de Armazns-Gerais e Silos do Estado de Minas Gerais

    CCS - Conselho da Comunidade Solidria

    CEDRS - Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural Sustentvel

    CEPAL Comisso Econmica Para a America Latina e Caribe

    CFP Companhia de Financiamento da Produo

    CIAT Comisso de Implantao das Aes Territoriais

    CMDR Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural

    CNC Conselho Nacional do Caf

    CNDRS Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentvel

    CODEVASF - Companhia de Desenvolvimento dos Vales do So Francisco

    CONSAD Consrcio Intermunicipal de Segurana Alimentar e Desenvolvimento Local

    CREAI Carteira do Crdito Agrcola e Industrial

    DFDA Delegacia Federal de Desenvolvimento Agrrio

    DLIS Desenvolvimento Local Integrado e Sustentvel

    EFA Escola Famlia Agrcola

    EMATER Empresa de Assistncia Tcnica e Extenso Rural

    EMBRAPA Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuria

    EMGOPA Empresa Goiana de Pesquisa Agropecuria

    EMPA-MT - Empresa de Pesquisa Agropecuria do Estado do Mato Grosso

    EP Estudo Propositivo

    EPAMIG Empresa de Pesquisa Agropecuria de Minas Gerais

    FAO Organizao das Naes Unidas para Agricultura e Alimentao

    FEOGA Fundo Europeu e Orientao e Garantia Agrcola

    FHC Fernando Henrique Cardoso

    FMI Fundo Monetrio Internacional

    IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica

    IDH ndice de Desenvolvimento Humano

    INCRA Instituto Nacional de Colonizao e Reforma Agrria

    JICA Agencia Japonesa de Cooperao e Desenvolvimento Internacional

    MCID Ministrio das Cidades

    MCR Manual do Crdito Rural

    MDA Ministrio do Desenvolvimento Agrrio

    MEPF Ministrio Extraordinrio da Poltica Fundiria

    MI Ministrio da Integrao Nacional

    MMA Ministrio do Meio Ambiente

    MME Ministrio de Minas e Energia

    MT Ministrio do Trabalho

    MTE Ministrio do Trabalho e do Emprego

    ONG Organizao No Governamental

    ONU Organizao das Naes Unidas

    PAC Poltica Agrcola Comum

    PADAP Programa de Assentamento Dirigido do Alto Paranaba

  • 11

    PAEG Programa de Ao Econmica do Governo

    PAS Programa Alfabetizao Solidria

    PCA Programa Comunidade Ativa

    PCS Programa Comunidade Solidria

    PDA Plano de Desenvolvimento Agrrio

    PIB Produto Interno Bruto

    PLANFOR Plano Nacional de formao do Trabalhador

    PMDR Plano Municipal de Desenvolvimento Rural

    PNAD Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar

    PND Plano Nacional de Desenvolvimento

    PNDRS Plano Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentvel

    PPA Plano Plurianual

    PRODECER Programa de Desenvolvimento do Cerrado

    PRONAF Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar

    PRONERA Programa Nacional de Educao na Reforma Agrria

    PSI Processo de Industrializao por Substituio de Importaes

    PTDRS Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentvel

    SAF Subsecretaria de Agricultura Familiar

    SDT Secretaria de Desenvolvimento Territorial

    SEAPA Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuria e Abastecimento

    SEFOR Secretaria de Formao e Desenvolvimento Profissional

    SNCR Sistema Nacional de Crdito Rural

    STR Sindicato dos Trabalhadores Rurais

    TC Territrio da Cidadania

    TCNM Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas

    TR Territrio Rural

    UE Unio Europeia

    UFU Universidade Federal de Uberlndia

  • 12

    SUMRIO

    INTRODUO...............................................................................................................................13

    CAPTULO 1 ..................................................................................................................................18

    O meio rural brasileiro: Transformaes e configurao atual ....................................................18

    1.1 Introduo ...............................................................................................................................18

    1.2 O meio rural e seu papel na economia nacional ........................................................................19

    1.3 - O Processo de Ocupao do Cerrado .....................................................................................28

    1.4 - A Crise do Planejamento (1980) e as Novas Perspectivas de Desenvolvimento ......................39

    CAPTULO 2 ..................................................................................................................................48

    A agricultura familiar e o Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas ...................................48

    2.1 Introduo ............................................................................................................................48

    2.2 O Rural e o desenvolvimento ................................................................................................49

    2.3 - Polticas Pblicas de recorte territorial nos governos FHC e Lula ..........................................57

    2.4 - O Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas ...................................................................68

    CAPTULO 3 ..................................................................................................................................84

    O Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas: Polticas Pblicas e seus impactos .................84

    3.1 Introduo ............................................................................................................................84

    3.2 Um breve retrospecto das questes agrrias e agrcolas no Brasil ..........................................85

    3.3 - Desenvolvimento Econmico e Social no Territrio do Noroeste de Minas ............................93

    3.4 Oramento Executado no Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas ............................111

    CONSIDERAES FINAIS ........................................................................................................ 119

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ......................................................................................... 125

    ANEXO: ........................................................................................................................................ 130

  • 13

    INTRODUO

    O objetivo deste trabalho analisar as polticas pblicas voltadas para o Territrio do

    Noroeste de Minas, compreendendo o perodo que vai de 1970 a 2010, e verificar seus

    impactos no territrio. Dentre as dcadas de 1970/80 e 1990/00 destacam-se dois tipos de

    planejamento, sendo o primeiro verificado a partir da dcada de 1970, de mbito

    centralizado1, com forte inspirao regional tradicional

    2, e o segundo, verificado a partir de

    meados da dcada de 1990 e aprofundado nos anos 2000, compreendendo um planejamento

    de cunho descentralizado3, com polticas pblicas de corte territorial

    4, levando em

    considerao as particularidades do territrio e dos produtores rurais. Nesta perspectiva,

    objetiva-se verificar luz das transformaes ocorridas ao longo do perodo estudado, as

    medidas e polticas que devem ser tomadas para se alcanar o desenvolvimento territorial

    rural no territrio do Noroeste de Minas.

    A relevncia deste estudo est no fato de que os impactos das polticas pblicas

    implementadas recentemente no territrio, concebidas segundo a perspectiva de

    desenvolvimento territorial, ainda no foram mensurados, e procuramos com isto verificar as

    possveis transformaes iniciais ocorridas. No obstante, mostra-se conveniente analisar

    ainda se as polticas implantadas condizem com a prpria concepo de desenvolvimento

    territorial; posto de outra maneira cabe verificar se na prtica, os programas esto seguindo a

    cartilha recomendada pelas polticas de desenvolvimento territorial. Ademais, o territrio

    do Noroeste de Minas foi escolhido por ser um territrio deprimido, tradicionalmente rural

    e dotado de baixo dinamismo econmico, sendo alvo ao longo dos ltimos anos de diferentes

    abordagens de polticas pblicas visando seu desenvolvimento.

    1 O planejamento de mbito centralizado consiste na elaborao e implementacao de polticas pblicas pelo

    governo federal, em que a participao das outras instancias governamentais limitada. Tal perspectiva

    prevaleceu durante o perodo do regime Militar no Brasil, entre os anos 1964 a 1985. 2 Por inspirao regional tradicional, entendem-se as polticas embasadas pelos tericos da Economia Regional,

    em que segundo Souza (1981), a Economia Regional compreende o estudo da diferenciao espacial, das inter-

    relaes entre as reas dentro de um sistema nacional de regies, enfrentando um universo de recursos escassos,

    desigualmente distribudos no espao e imperfeitamente mveis. 3 O planejamento descentralizado refere-se participao dos governos municipais, estaduais e federal na

    elaborao e na implementacao de polticas pblicas. 4 O corte territorial refere-se ao objeto das polticas publicas, sendo o territrio de acordo com Ortega (2008), um

    espao delimitado, com suas caractersticas sociais, ambientais, econmicas e polticas prprias, nos quais se

    praticam diferentes tipos de intercambio em seu interior e com o exterior. Esse conceito diferencia-se do de

    regio por ser esta circunscrita a um espao geograficamente delimitado, enquanto aquele no se submete a

    delimitaes geogrficas.

  • 14

    Neste sentido, iniciamos nossos estudos abordando o processo de formao do meio

    rural brasileiro com nfase a partir da dcada de 1970, pois esse perodo compreende melhor

    as polticas pblicas elaboradas em prol do meio rural. Antes da dcada de 1970 as polticas

    eram pontuais e no estavam compreendidas dentro de um planejamento mais amplo, apesar

    de as questes agrcolas e agrrias j estarem em evidncia. Destarte, ao longo da dissertao,

    pontuamos as transies entre os perfis de desenvolvimento, contemplando o

    desenvolvimento centralizado tradicional das dcadas de 1970 e 1980, o desenvolvimento

    endgeno, com foco no capital social verificado por volta da dcada de 1990, e o

    desenvolvimento territorial verificado nos anos 2000.

    A partir da dcada de 1970 foram elaborados projetos cujo objetivo era promover o

    desenvolvimento das regies menos dinmicas do pas. Neste contexto insere-se a regio do

    cerrado, cuja proximidade com o eixo Sul-Sudeste e a necessidade de abertura de novas

    fronteiras agrcolas, fizeram com que o governo elaborasse uma srie de polticas pblicas,

    com destaque para o PRODECER e o POLOCENTRO. Tais programas promoveram a

    capitalizao da agricultura no cerrado, contribuindo para o aumento da produo e da

    produtividade agrcola, assim como para o aumento da migrao interna voltada para essas

    regies.

    Em 1980 a crise da dvida e os ajustes fiscais ocorridos ao longo da dcada

    impossibilitaram o governo de promover uma poltica mais enftica acerca do

    desenvolvimento territorial, sendo a poltica de preos mnimos e a compra dos excedentes

    agrcolas as principais medidas tomadas pelo governo. Iniciaram-se ao findar da dcada as

    discusses acerca do desenvolvimento endgeno, levado a cabo pelas gestes FHC.

    A partir do primeiro mandato do governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC) em

    1994, novas polticas visando o desenvolvimento territorial foram estabelecidas, com

    destaque para a ateno dada incluso social e o combate fome e a pobreza. As mudanas

    apresentadas pela constituio de 1988 permitiram maior participao popular nas decises

    polticas, sobretudo nas municipais e, portanto, vieram a contribuir com a reformulao das

    polticas de desenvolvimento territorial. Ademais, programas de cunho social e orientados

    para as demandas tradicionalmente marginalizadas foram criados.

    Nestas circunstncias, em 1995 foi criado o Programa Comunidade Solidria (PCS), que

    passou a atuar no mbito social, ocupando um espao intermedirio entre o governo e as

    organizaes da sociedade civil na busca por projetos e parcerias em prol do enfrentamento da

  • 15

    pobreza e da excluso social (Ortega, 2008). Em 1999, a secretaria executiva do PCS criou o

    Programa Comunidade Ativa (PCA), cujo objetivo principal era o desenvolvimento social

    junto ao combate pobreza, abordados dentro de uma nova perspectiva de desenvolvimento

    local. O PCA previa a constituio de fruns locais que elaborariam seus prprios projetos de

    Desenvolvimento Local Integrado e Sustentvel (DLIS) (Ortega, 2008).

    Outro programa relevante para o desenvolvimento rural do Brasil foi o PRONAF,

    Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar que criado em 1996 visava o

    desenvolvimento do meio rural brasileiro via o fornecimento de crdito para produtores

    familiares e assentados da reforma agrria dos municpios selecionados. O programa foi se

    desenvolvendo nos anos seguintes e se tornou o principal ponto de apoio para esses

    produtores (MENDONA e ORTEGA, 2009).

    No inicio do governo Lula, foi criada a Secretaria de Desenvolvimento Territorial

    (SDT), no mbito do Ministrio do Desenvolvimento Agrrio (MDA), como proposta de

    reorientao da estratgia da poltica de desenvolvimento rural brasileira. O objetivo principal

    da SDT vai ao sentido de encontrar uma maior articulao e integrao entre os vrios nveis

    de governo e das organizaes da sociedade inseridos na temtica, em prol da implementao

    de polticas pblicas dos governos federal, estadual e municipal com associaes da sociedade

    civil. Desta maneira, tem-se o intuito de promover o desenvolvimento de territrios de baixo

    dinamismo econmico e atuar para a ampliao das capacidades humanas, institucionais e da

    autogesto dos territrios (BRASIL, 2003).

    Sob a tica de desenvolvimento da SDT foram criados os Territrios Rurais (TRs), que

    segundo o prprio MDA compreende os territrios onde os critrios multidimensionais que os

    caracterizam, bem como os elementos mais marcantes que facilitam a coeso social, cultural e

    territoriais, apresentam, explcita ou implicitamente, a predominncia de elementos rurais.

    Nestes territrios, esto os espaos urbanizados, que compreendem pequenas e medias

    cidades, vilas e povoados.

    O intuito do MDA consiste em unir os municpios, sob o mbito descentralizador dos

    aspectos endgenos, em um projeto de desenvolvimento territorial por meio de novos arranjos

    intermunicipais. Coube dessa maneira SDT identificar e constituir os Territrios Rurais

    mediante a composio de identidades regionais como elemento aglutinador e promotor do

    desenvolvimento sustentvel (BRASIL, 2011).

  • 16

    Portanto os Territrios Rurais constituem-se regies onde so alocadas uma srie de

    polticas pblicas, de mbito federal, estadual e municipal vinculadas a atores locais com o

    intuito de promover o desenvolvimento sustentvel local e, sobretudo regional, dentro do

    mbito rural.

    Os territrios da Cidadania (TCs), criados em 2008, tambm fazem parte da estratgia

    do MDA de promover o desenvolvimento territorial e dentro desse aspecto superar as

    disparidades regionais e a pobreza rural. Segundo documentos oficiais da constituio dos

    TCs, a estratgia utilizada a incluso produtiva das populaes desfavorecidas presentes

    nesses territrios por meio de polticas articuladas e aes governamentais conjuntas.

    Salienta-se que os TCs so constitudos pelos TRs, obtendo prioridade os territrios

    denominados de deprimidos (ORTEGA, 2008).

    Dentro dessa abordagem, objetiva-se investigar, portanto, se as polticas pblicas

    implementadas no Territrio do Noroeste de Minas pelo MDA/SDT sero suficientes para

    promover o desenvolvimento territorial rural daquela regio, diante das principais

    transformaes ocorridas naquele espao denominado Territrio Rural do Noroeste de Minas,

    desde os anos 1970.

    Para cumprir tal objetivo, a dissertao est estruturada em 3 captulos, sendo que no

    Captulo 1 discorremos sobre as transformaes ocorridas no meio rural brasileiro, as funes

    atribudas agricultura dentro do mbito econmico nacional ao longo do tempo e as

    diferentes perspectivas de desenvolvimento rural abordadas, a fim de entendermos sua

    dinmica e sua configurao atual.

    No Captulo 2 abordamos a insero do ambiente rural no processo de desenvolvimento

    econmico, ressaltando o fim da tradicional dicotomia rural/urbano e a consolidao do rural

    como um espao e no um setor econmico. Neste sentido, reforamos a idia de que a

    pluriatividade, a agricultura familiar e as polticas pblicas orientadas para esse escopo so de

    suma importncia para a dinamizao do ambiente rural, sobretudo nas localidades

    deprimidas. Ademais, caracterizamos o Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas a fim

    de entendermos sua dinmica e composio para posterior avaliao das polticas implantadas

    ao longo do programa Territrios da Cidadania.

    No Captulo 3 verificamos a relao entre as polticas pblicas e as transformaes

    econmicas e sociais ocorridas no Territrio do Noroeste de Minas. Para tanto, abordamos as

    transformaes a partir da dcada de 1990, verificando sua relao com as caractersticas do

  • 17

    territrio, com os fatores econmicos conjunturais e com as polticas pblicas implantadas.

    Analisamos ainda o Oramento Executado do Programa Territrios da Cidadania para o

    TCNM, com o intuito de verificar se as aes adotadas esto dentro da abordagem de

    desenvolvimento utilizada na concepo do programa.

    Por fim, em Consideraes Finais apresentamos uma sntese dos principais aspectos

    discutidos e verificados no presente trabalho, apontando os efeitos das polticas

    implementadas no TCNM e as devidas consideraes acerca do desempenho do Programa TC

    no Territrio do Noroeste de Minas.

  • 18

    CAPTULO 1

    O meio rural brasileiro: Transformaes e configurao atual

    1.1 Introduo

    O meio rural brasileiro ao longo do sculo XX passou por uma srie de transformaes

    antes de se consolidar em duas grandes vertentes, a do agronegcio e a da agricultura familiar.

    A mescla entre a presena e a ausncia de polticas pblicas, somado constante mudana de

    papis envolvendo a agricultura contriburam para caracteriz-lo, sendo o entendimento de tal

    processo fundamental para a concepo das polticas pblicas implantadas no Brasil ao longo

    do sculo passado e, sobretudo, nos dias atuais. Assim, o presente captulo pretende

    demonstrar as transformaes vivenciadas pelo meio rural brasileiro, as funes atribudas

    agricultura dentro do mbito econmico nacional ao longo do tempo e as diferentes

    perspectivas de desenvolvimento rural abordadas, a fim de entendermos sua dinmica e sua

    configurao atual de maneira a aprofundarmos nos prximos captulos os estudos sobre o

    Territrio do Noroeste de Minas, objeto maior de estudo dessa dissertao.

    O presente captulo est dividido em trs sees, alm dessa breve introduo. A

    primeira seo aborda o processo histrico de transformaes do meio rural brasileiro, a fim

    de entendermos a formao do ambiente em que nosso objeto de estudo est inserido, com

    destaque para a construo das estruturas agrcola e agrria, das novas relaes de produo e

    ocupao do rural e do papel desempenhado pelo setor agrcola brasileiro.

    A segunda seo trata das polticas pblicas de cunho regional tradicional elaboradas

    de maneira centralizada pelo Estado brasileiro nas dcadas de 1960 e 1970 e voltadas para a

    modernizao da agricultura brasileira, com destaque para o processo de ocupao do bioma

    cerrado e para as transformaes decorrentes dessas polticas, como o forte impacto sobre a

    configurao populacional e sobre a produo e produtividade do setor agrcola.

    Por fim, a terceira e ltima seo aborda o fim das polticas pblicas de cunho

    desenvolvimentista representada pela diminuio do Estado sobre a economia em decorrncia

    da crise do planejamento verificada na dcada de 1980, assim como o processo de transio

    das idias sobre o desenvolvimento, com o surgimento de teorias sobre o desenvolvimento

    endgeno/ local e suas atribuies ao conceito de capital social.

  • 19

    1.2 O meio rural e seu papel na economia nacional

    O processo histrico do desenvolvimento capitalista no rural brasileiro deve ser visto

    para alm da dicotomia entre agrrio e agrcola, sendo tambm uma questo populacional e de

    relaes sociais de produo. Neste contexto insere-se a regio do noroeste mineiro, regio

    que acompanhou todo o processo de transformaes capitalistas vivenciado pela agricultura

    no pas, e que recentemente, em 2008, alguns de seus municpios receberam a chancela de

    Territrio da Cidadania5 do Noroeste de Minas, sendo esse territrio nosso principal objeto de

    estudo.

    Entender o processo de consolidao e as transformaes do meio rural brasileiro se

    mostra fundamental para nosso objetivo de verificar a eficincia das polticas pblicas

    implantadas ao longo do tempo no Territrio do Noroeste de Minas, verificando ainda as

    diferentes perspectivas de desenvolvimento utilizadas na concepo de tais polticas. Neste

    sentido, iniciaremos nosso estudo demonstrando os principais fatores que contriburam para a

    conformao do meio rural brasileiro ao longo do tempo.

    A estrutura fundiria brasileira se apresenta como um retrato vivo das transformaes

    capitalistas em nosso meio rural e posto de maneira cronolgica, suas caractersticas remetem

    a um longo processo de consolidao que se inicia durante o processo de ocupao das terras

    brasileiras no incio da colonizao, passando pela implantao da Lei de Terras6

    em 1850, e

    pelo Estatuto da Terra7

    em 1964, sendo que as principais questes sociais a nvel nacional so

    originadas desse processo. A concentrao da propriedade da terra, o carter extensivo da

    produo, a liberao de mo de obra e o processo de colonato do contedo ao processo de

    integrao agricultura/indstria vivenciado em nosso pas, sendo um polmico objeto de

    estudo.

    A fim de se evidenciar a forte relao entre a distribuio de terras e a concentrao de

    renda com o processo de desenvolvimento econmico, traamos um paralelo entre a economia

    5 O Programa Territrios da Cidadania tem por objetivo a promoo do desenvolvimento econmico e a universalizao de programas bsicos de cidadania por meio de uma estratgia de desenvolvimento territorial

    sustentvel. A integrao entre os diferentes nveis de governo e a participao social de extrema importncia

    para a consolidao dessa estratgia (BRASIL, 2010). 6 Lei de Terras, como ficou conhecida a lei n 601 de 18 de setembro de 1850, foi a primeira iniciativa no sentido

    de organizar a propriedade privada no Brasil. Ficou estabelecido, a partir desta data, que s poderiam adquirir

    terras por compra e venda ou por doao do Estado (VIOTTI DA COSTA, 1987). 7 Estatuto da Terra a forma como legalmente se encontra disciplinado o uso, ocupao e relaes fundirias do

    Brasil, elaborados pelo Governo Militar no Brasil, sob a Lei 4504, de 30 de novembro de 1964 (MENDONA,

    2006).

  • 20

    brasileira e outras economias que adotaram polticas diferentes de distribuio e acesso a

    terra.

    O processo de distribuio de renda em economias que se industrializam reflexo direto

    de como o emprego rural trabalhado ao longo do desenvolvimento econmico de cada

    nao. Historicamente, os pases que promoveram amplas garantias ao acesso terra, de

    forma a compatibilizar o xodo rural s necessidades de emprego no setor urbano-industrial,

    foram contemplados com uma maior distribuio de renda. No sentido contrrio, em naes

    onde o acesso terra foi restrito, como no caso do Brasil, o xodo rural desenfreado implicou

    em desastrosas consequncias scio econmicos tanto para os meios rural e urbano quanto

    para a economia nacional como um todo (ROMEIRO, 1994).

    O processo de ocupao do solo e de modernizao agrcola vivenciados pelos Estados

    Unidos e pelo Japo, duas das maiores economias industriais do planeta, so exemplos vivos

    de como a distribuio de renda promovida pelo acesso terra, dados de maneira distinta

    entre os pases, foram bem sucedidas e contriburam para o avano socioeconmico dessas

    naes (ROMEIRO, 1994).

    Nos Estados Unidos, durante o impasse da guerra de secesso, em que as oligarquias

    escravocratas seriam derrotadas, os imigrantes europeus e a populao americana passaram a

    ter amplo acesso s terras, sobretudo no oeste americano. O homestead act8 de 1862, garantia

    legalmente a abertura das terras do oeste, possibilitando populao a permanncia no setor

    urbano-industrial ou sua fixao no campo. A conseqncia maior desse processo foi a dupla

    escassez de mo de obra nas cidades e suas indstrias, e no campo, resultando na necessidade

    de investimentos em progresso tcnico nos meios rural e industrial e no substantivo aumento

    dos salrios. A distribuio de renda alcanada, dada essa caracterstica histrica de ocupao

    dos Estados Unidos, favoreceu o desenvolvimento industrial do pas, sobretudo sobre os

    aspectos da inovao e da produtividade, vis vis a melhoria socioeconmica de sua

    populao (ROMEIRO, 1994).

    No Japo e nos Tigres Asiticos9, outro exemplo de sucesso no tocante distribuio de

    renda e de uso da terra, o processo de acesso s terras se deu de maneira diferente dos

    8 Lei aprovada nos EUA durante o mandato de Abraham Lincoln que estabelecia a distribuio praticamente

    gratuita de terras do oeste americano no montante de 64,75 hectares por famlia. A resistncia poltica do sul

    contrria ao ato foi abafada dada sua eminente derrota na guerra de secesso (GUEDES, 2006). 9 Nos pases industrializados do extremo oriente chamados de tigres asiticos (Coria do Sul, Taiwan, Hong Kong e Cingapura), existiu um claro projeto de desenvolvimento socioeconmico no excludente. A reforma

  • 21

    Estados Unidos, mas com resultados semelhantes, sobretudo na questo do equilbrio

    apresentado pelo xodo rural, onde os fatores de atrao para as cidades prevaleceram em

    detrimento aos fatores de expulso dos campos (ROMEIRO, 1994).

    O Japo, durante a Era Meiji, perodo compreendido entre 1868 a 1912, viveu um

    processo de unificao nacional e de modernizao de sua economia, em que o tradicional

    sistema feudal foi suplantado. A preocupao com a defasagem tecnolgica em relao ao

    ocidente fez com que o governo e as elites agrrias investissem em centros de pesquisa e

    capacitao dos trabalhadores, promovendo o progresso tcnico sem provocar o xodo rural

    descontrolado e a conseqente deteriorao da qualidade de vida da populao urbana e rural.

    O xodo rural se deu de maneira gradual, sendo que o progresso tcnico ampliou o nmero de

    safras e culturas cultivadas entre as safras de arroz, a principal cultura japonesa, mantendo

    certa parcela da populao no campo. Ressalta-se que um fator preponderante para o processo

    de modernizao agrcola vivenciado foi a dinmica dada pela presena de algumas

    caractersticas culturais, como os laos comunitrios tradicionais da populao

    (ROMEIRO,1994).

    No caso brasileiro, historicamente, a estrutura agrria foi determinada pela forma como

    se deu a ocupao das terras no Brasil, sendo fundamentada na implantao de empresas

    agrcola-comerciais com base no trabalho escravo e no controle de propriedade da terra por

    parte de uma minoria privilegiada. A grande propriedade monocultora no exclua a

    existncia de pequenas propriedades, sobretudo em regies de fronteira. A partir do momento

    em que as posses de pequenas propriedades se tornariam um empecilho grande propriedade,

    a Lei de Terras de 1850, possibilitou a manuteno de um contingente de trabalhadores

    disponveis para a grande propriedade, principalmente para a produo cafeeira (GRAZIANO

    DA SILVA, 1980).

    A passagem gradual das formas escravistas de explorao, esteio da grande propriedade,

    para outras formas de relaes de trabalho no campo, no implicou numa mudana do padro

    de explorao da terra, ainda baseado nos dias de hoje sobre o sistema latifundirio. A

    pequena explorao, apesar de todas as adversidades, encontrou novas formas de se

    agrria executada e planejada pelos governos evitou que o xodo rural descontrolado comprometesse a elevao

    progressiva da qualidade de vida da populao, fazendo surgir uma moderna agricultura movimentada por

    pequenos proprietrios e com forte capacidade de poupana (ROMEIRO, 1994).

  • 22

    reproduzir, quer como pequena propriedade ou como pequena produo no interior dos

    grandes imveis, mas sempre de carter subordinado (GRAZIANO DA SILVA, 1980).

    De maneira geral, percebe-se no Brasil que a propriedade da terra, enquanto propriedade

    concentrada vem cada vez mais se firmando. Mesmo com o desenvolvimento industrial, a

    terra continua a ser o meio de produo fundamental na agricultura, ressaltando ainda a

    caracterstica extensiva da produo agrcola nacional (GRAZIANO DA SILVA, 1980). Tais

    caractersticas possuem relao direta com a questo agrria, posto que no Brasil as relaes e

    condies de trabalho no campo sintetizam a hegemonia do grande produtor e seus interesses.

    A questo agrria brasileira oriunda das transformaes da agricultura em virtude do

    processo de produo capitalista reflete os problemas e as consequncias de seu

    desenvolvimento desordenado. No Brasil verifica-se que o contingente de assalariados

    completamente expropriado dos seus meios de produo, havendo uma parcela de

    assalariados que s trabalha em determinadas pocas do ano e detm a posse de um lote de

    terras de onde extraem parcialmente seu sustento, e assim o so, pois esto totalmente

    subordinados ao capital, sendo obrigados a vender sua fora de trabalho para complementar

    seus rendimentos e garantir sua subsistncia (GRAZIANO DA SILVA, 1980).

    Neste sentido, conforme as condies agrrias se deterioravam no pas, no perodo ps

    II Guerra Mundial partidos de esquerda, intelectuais e a prpria CEPAL10

    passaram a discutir

    maneiras de superar a questo. Avaliaram que a estrutura fundiria representava um srio

    empecilho ao pleno desenvolvimento capitalista nacional, indicando ainda que a agricultura

    deveria cumprir certos papis para de fato promover o desenvolvimento do pas. Dentre os

    papis a serem desempenhados pela agricultura estavam: o financiamento da industrializao

    atravs de supervits comerciais (visando a aquisio de bens de capital importados),

    liberao de fora de trabalho, consolidao do mercado interno, oferta de alimentos, oferta

    de matrias primas para a indstria e por fim, demandar bens de produo do setor industrial.

    Iniciam-se ainda neste perodo as discusses mais aprofundadas sobre a reforma agrria.

    No obstante, as discusses buscavam solucionar, com abordagens distintas, a questo

    agrria e a questo agrcola brasileira, no intuito de conciliar tais questes ao objetivo maior

    10

    A Comisso Econmica para a Amrica Latina e o Caribe Foi criada pela ONU para monitorar as polticas

    direcionadas promoo do desenvolvimento econmico da regio latino-americana, assessorar as aes

    encaminhadas para sua promoo e contribuir para reforar as relaes econmicas dos pases da rea, tanto

    entre si como com as demais naes do mundo (CEPAL, 2011).

  • 23

    do desenvolvimento econmico e superao dos problemas que comprometiam a economia

    brasileira.

    Igncio Rangel, estudioso da questo agrria brasileira, aponta para o processo

    desarticulado da passagem da economia natural fechada para uma economia de mercado,

    como a responsvel pela crise agrria brasileira, em que a incapacidade de absoro de mo

    de obra rural pelos novos setores da economia foi responsvel pela superpopulao de

    trabalhadores que permanece em condies estruturais precrias de emprego (KAGEYAMA,

    1993). Ainda segundo o autor, seria simplismo considerar os latifndios improdutivos como

    principais responsveis pelo empecilho ao desenvolvimento do pas. Rangel nesse contexto

    acreditava que o pas no teria condies de efetuar uma reforma agrria, alegando que a

    modernizao na agricultura seria um caminho mais eficiente na promoo da industrializao

    no pas. Mais tarde, j na dcada de 1970, com o agravamento da situao agrria, Rangel

    passou a defender a execuo da reforma agrria feita com pouca terra, ou o suficiente para

    diminuir os problemas nas periferias das metrpoles do centro-sul do pas (GRAZIANO DA

    SILVA, 1999).

    Para Alberto Passos Guimares o problema agrrio no passava pela transformao

    rpida e desequilibrada da agricultura, mas sim pelos obstculos apresentados pela herana do

    latifndio colonial no pas, o autor acreditava que a questo agrria apresentava um empecilho

    ao pleno desenvolvimento econmico do Brasil dado o duplo monoplio exercido pelo

    sistema latifundirio, o da terra e o da renda, sendo assim o principal responsvel pelo atraso

    do mercado interno (KAGEYAMA, 1993).

    Caio Prado Jr, acreditava que a questo agrria brasileira era fruto do monoplio da

    terra e das condies precrias de trabalho no campo, ou seja, problemas agrrios originrios

    do prprio desenvolvimento do sistema capitalista, sendo necessrio com certa urgncia a

    implementao de legislao para amparar os trabalhadores rurais, assim como uma

    legislao para regulamentar o uso e a distribuio das terras (KAGEYAMA, 1993).

    Celso Furtado, assim como Caio Prado Jr., v a questo agrria, mesmo que

    indiretamente, como consequncia do processo de desenvolvimento capitalista da economia

    brasileira, em que a precariedade das condies de trabalho no campo e posteriormente nas

    cidades oriunda do prprio processo de formao do mercado de trabalho. Segundo o autor,

    o baixo custo da mo de obra no meio rural impe barreias implantao do progresso

    tcnico, perpetuando dessa maneira uma agricultura de altos e crescentes custos sociais,

  • 24

    contribuindo ainda para a depreciao dos salrios urbanos e sua conseqente demanda por

    produtos agrcolas (FURTADO apud KAGEYAMA, 1993).

    Apesar da importncia dada pelos autores citados para a resoluo da questo agrria

    em prol do desenvolvimento da economia brasileira, tal questo ficou pendente, sobretudo

    devido fora poltica que os proprietrios rurais exerciam. A questo agrcola por outro lado

    recebeu relevante ateno do governo, sendo alvo de sucessivas polticas pblicas que

    acabaram por elevar o patamar tecnolgico do setor, dando dinmica e produtividade

    agricultura brasileira.

    As polticas pblicas implementadas para a resoluo da questo agrcola brasileira

    foram elaboradas sob a orientao de um planejamento de mbito centralizado e de forte

    inspirao regional tradicional, visto que as decises eram centralizadas no mbito do

    governo federal e visavam, sobretudo o desenvolvimento de porte regional, a exemplo das

    polticas de desenvolvimento do Cerrado analisadas na prxima sesso deste captulo.

    Destarte, a concepo das polticas pblicas segundo esta tica de desenvolvimento

    permaneceu at a dcada de 1990, quando o desenvolvimento territorial de aspecto

    descentralizado comeou a ganhar destaque e preferncia no mbito das polticas pblicas.

    O Estatuto da Terra e o Estatuto do Trabalhador Rural, ambos implantados durante a

    ditadura militar, estipularam uma srie de polticas pblicas voltadas para o setor agrcola

    brasileiro. De maneira geral as polticas se dividiram em agrrias (no implementadas) e

    agrcolas. Dentre as polticas agrrias estavam a reforma agrria e a colonizao (utilizao de

    terras na fronteira agrcola, sobretudo na Amaznia). Dentre as polticas agrcolas elaboradas,

    destacam-se o Sistema Nacional de Crdito Rural, o Sistema de Inovao (EMBRAPA), e as

    polticas de controle de preos e estoques. Ressalta-se que as medidas tomadas pelo governo

    da ditadura foram uma dura resposta ao crescente movimento campesino, que se manifestava

    a favor da reforma agrria durante o governo de Joo Goulart.

    O Sistema Nacional de Crdito Rural (SNCR), institudo em 1965, foi o grande

    responsvel pela constituio dos Complexos Agro-Industriais11

    (CAIs) brasileiros e pela

    consolidao do atual padro tecnolgico de nossa agricultura, viabilizando tanto a demanda

    11

    Os complexos agroindustriais caracterizam-se pela constituio de um ramo industrial a montante (meios de

    produo para a agricultura) e a modernizao do ramo industrial a jusante (processamento de produtos

    agrcolas), passando necessariamente pela modernizao da agricultura brasileira (DELGADO, 1985, p.35).

  • 25

    por bens de produo pertencentes Revoluo Verde12

    quanto o financiamento da agricultura

    no pas.

    Anteriormente criao do SNCR, a industrializao da economia era viabilizada pela

    transferncia de recursos oriundos do setor agrcola e contava com alguma ajuda da poltica

    cambial (minidesvalorizaes) como incentivo mudana da base tcnica de reproduo

    rural. Aps 1965, o governo passou a adotar aparatos monetrios e financeiros como poltica

    deliberada de modernizao da produo no espao rural, assim como a adoo de polticas de

    desenvolvimento de cincia e tecnologia. A criao da EMBRAPA e da EMBRATER, as

    polticas de estoques reguladores para o controle de preos mninos (PGPM) e as polticas de

    minidesvalorizaes cambiais so exemplos da atuao mais direta do Estado na tentativa de

    modernizar a base agrcola.

    O SNCR, segundo Delgado (1985) caracterizado por um sistema de subsdio creditcio

    orientado para a modernizao agropecuria e uma forma particular de financiamento desse

    sistema, podendo ser distribudos em trs tipos de crdito: i) O crdito de investimento,

    destinado aquisio de bens de capitais e maquinarias necessrias produo, ii) crdito de

    custeio: destinado manuteno da produo, funcionando como uma espcie de capital de

    giro; iii) o crdito de comercializao, destinado para facilitar a venda da produo,

    funcionando conjuntamente com a poltica de preos mnimos do governo.

    Entre 1969 e 1979, com pequena defeco em 1977, os recursos

    volumosos e as altas taxas implcitas de subsdios ao crdito rural

    sedimentaram slidas alianas urbano-rurais e contriburam efetivamente

    para uma mudana na base tcnica da produo rural. (DELGADO, 1985).

    Os avanos obtidos pela agricultura dado a consolidao do SNCR permitiram que a

    agricultura cumprisse os papis a ela designados, com destaque para a formao de saldos na

    balana comercial com o intuito de fazer frente s novas necessidades de importaes

    brasileiras, voltadas agora para bens de capital.

    O processo de industrializao por substituio de importaes (PSI) induzido no Brasil

    nas dcadas de 1950 a 1970 tinha por finalidade dar mais qualidade pauta de importaes de

    modo a consolidar a indstria nacional e, sobretudo, a partir da dcada de 1960 reduzir a

    12 A Revoluo Verde entendida como um processo de inveno e disseminao de novas sementes e prticas

    agrcolas que permitiu um expressivo aumento na produo de alimentos em nvel mundial durante as dcadas

    de 1960 e 1970 (SANTOS, 2006).

  • 26

    vulnerabilidade externa atravs de uma maior diversificao13

    da pauta de exportaes, at

    ento muito dependente de produtos primrios (NASCIMENTO, CARDOZO, CUNHA,

    2010). A agricultura brasileira passara a cumprir ento uma srie de papis de forma a

    contribuir com o processo de industrializao. Neste momento a agricultura passara a

    demandar bens a montante e a ofertar matrias primas a jusante, alm de contribuir com a

    gerao de divisas oriundas das exportaes e com a liberao de mo de obra.

    Os saldos gerados pelo setor primrio para fazer frente ao processo de industrializao

    por substituio de importaes (PSI) foram em grande parte utilizados pela importao de

    bens dotados de alta tecnologia, porm verificou-se que a partir da dcada de 1950 o aumento

    qualitativo da pauta exportadora foi contrabalanceado tambm em grande parte pelos saldos

    deficitrios da conta de servios e renda do Balano de Transaes Correntes

    (NASCIMENTO, CARDOZO, CUNHA, 2010).

    Em consonncia com o pensamento de Celso Furtado (1980) o processo de

    industrializao por substituio de importaes favoreceu a consolidao das indstrias

    complementares s importaes, ou seja, aquelas indstrias que a princpio surgiram para dar

    suporte aos bens materiais durveis importados, mas que devido a poltica deliberada do PSI,

    obtiveram maiores acessos a tecnologias e ao financiamento, de modo a internalizar sua

    produo.

    As polticas de apoio ao setor industrial contriburam para o desenvolvimento do meio

    rural, sobretudo da agricultura, sendo a sinergia entre os setores verificada pela consolidao

    dos CAIs. Neste sentido, o PSI permitiu a produo e a padronizao dos produtos vinculados

    aos CAIs, que por sua vez permitiu um significativo aumento do valor agregado dos produtos

    exportados, justamente num perodo onde a financeirizao passou a ter papel fundamental

    sobre o financiamento. Ressaltando mais uma vez que o papel da poltica de crdito rural,

    associado aos servios de extenso rural do Estado, se mostrou fundamental para a

    transferncia de tecnologia gerada no Complexo Agroindustrial a montante da agricultura.

    O crdito rural chega ao pico em 1979, passando a cair em funo da crise financeira

    que assolava o Brasil e os demais pases perifricos de maneira geral, em que a expanso ativa

    do crdito encontrava barreiras na elevao da inflao que passava a ser o principal

    13 A indstria implantada at ento no Brasil no era competitiva e objetivava sobretudo o abastecimento do

    mercado interno, de modo que gerar divisas na balana comercial permanecia sendo uma funo dos setores

    primrios da economia brasileira como a agricultura e a extrao mineral.

  • 27

    empecilho ao desenvolvimento econmico do pas. Ademais o SNCR pode ser considerado

    um sistema creditcio parcial e concentrado em trs nveis: por produto, beneficiando,

    sobretudo os produtos destinados exportao; por produtor, beneficiando os grandes e

    mdios proprietrios, todos com capacidade de dar garantias financeiras no momento da

    aquisio do crdito; e por regio, onde cerca de 70% do crdito era destinado ao Sudeste e ao

    Sul do Brasil (DELGADO, 1985).

    A partir de meados da dcada de 1980 e inicio da dcada de 1990 o meio rural brasileiro

    apresentava uma nova configurao, com o surgimento de novas atividades agrcolas e no

    agrcolas. Desta maneira tais atividades passaram a coexistir, tendo de um lado a agricultura

    moderna, ou o chamado agribusiness, baseado em commodities e voltado para a exportao, e

    do outro a agricultura rudimentar, voltada para a subsistncia e responsvel pela permanncia

    de grande parte da populao rural, no campo (GRAZIANO DA SILVA, 1999). Ressalta-se

    que neste perodo as polticas pblicas at ento utilizadas passaram a ser contestadas

    juntamente com o modelo de desenvolvimento adotado. No obstante, o carter endgeno e

    local passou a ser referncia para as polticas de desenvolvimento, sendo este o nosso tema

    para a sesso 1.3 do presente captulo.

    Graziano da Silva (1999) utiliza o termo novas atividades, pois muitas delas j

    existiam no pas, porm apenas recentemente ganharam status de atividade econmica.

    Segundo o autor, atividades como a floricultura, fruticultura, piscicultura, horticultura, dentre

    outras se transformaram em importantes alternativas de renda e ocupao no meio rural,

    sendo que tais atividades foram incorporadas a importantes cadeias produtivas. Ademais, as

    atividades rurais no agrcolas, oriundas da constante urbanizao do meio rural, merecem

    destaque, j que o turismo rural, o lazer, a prestao de servios e as atividades destinadas

    preservao ambiental foram tambm valorizadas no perodo.

    Atualmente, o rural brasileiro no pode ser analisado apenas como um conjunto de

    atividades agropecurias e agroindustriais, dado o surgimento dessas novas funes. Essa

    nova caracterstica oriunda da expanso do meio rural proporcionou novas oportunidades para

    uma gama de produtores, os quais no podem mais serem chamados apenas de agricultores ou

    pecuaristas. Esse novo ator social, inserido em famlias pluriativas, passou a combinar

    atividades agrcolas e no agrcolas, dentro e fora do ambiente rural (GRAZIANO DA

    SILVA, 1999).

  • 28

    Portanto, ao passo das recentes transformaes no meio rural de nosso pas, precisamos

    repensar a maneira como tratamos e entendemos esse espao, que ainda apresenta grandes

    nveis de pobreza e misria. Segundo Graziano da Silva (1999), o novo rural brasileiro

    necessita de novas interpretaes para no darmos continuidade s mesmas polticas

    produtivistas inspiradas na revoluo verde ocorrida h 60 anos.

    1.3 - O Processo de Ocupao do Cerrado

    Analisar o processo de ocupao do Cerrado se mostra importante, pois as polticas

    pblicas implantadas nesta ao demonstram claramente o perfil do desenvolvimento rural

    vigente em meados da dcada de 1960, perodo de incio das polticas pblicas mobilizadas

    para a modernizao da agricultura, sendo o seu perfil baseado em decises centralizadas pela

    esfera federal e orientados para a escala regional. Neste sentido, a presente sesso tem o

    intuito de demonstrar um breve retrospecto das polticas pblicas orientadas para a agricultura

    brasileira, com nfase na ocupao do Cerrado e nas polticas pblicas orientadas para sua

    consecuo, levando sempre em considerao que tais polticas visavam ainda superao da

    questo agrcola brasileira.

    Durante o incio do sculo XX, perodo caracterizado pela fase agrrio-exportadora da

    economia nacional, o abastecimento interno pela agricultura era incipiente, e a causa principal

    era a prpria ausncia de polticas pblicas. A ausncia do Estado em se tratando de defesa de

    interesses de setores vinculados agricultura s no era plena, pois alguns poucos setores

    hegemnicos, como o caf e o acar, demandavam quase que todo o esforo poltico

    (NETTO, 2010). Portanto, as medidas ou polticas implantadas em prol da agricultura eram

    pontuais e no faziam parte de um projeto de desenvolvimento rural mais amplo.

    A criao do Conselho Nacional do Caf (CNC) em 1931 e as tentativas de sofisticao

    e ampliao das polticas agrcolas, atravs da criao do Instituto do Acar e do lcool

    (IAA) em 1933, da Carteira do Crdito Agrcola e Industrial (CREAI), do Banco do Brasil e

    da Companhia de Financiamento da produo (CFP) em 1943, caracterizam as medidas

    pontuais da fase de agricultura primitiva brasileira, evidenciando ainda sua lenta progresso

    (COELHO, 2001).

    A partir da dcada de 1950 os processos de industrializao e de urbanizao

    pressionaram o setor agrcola, dado que o aumento acentuado da demanda no foi

  • 29

    acompanhado pela oferta. Tal situao perdurou praticamente a dcada toda, tendo

    considervel contribuio para a crise econmica vivenciada pelo pas na dcada seguinte.

    Os efeitos da crise de abastecimento de 1962 e os efeitos negativos do modelo de

    industrializao por substituio de importaes sobre as exportaes e sobre a capacidade de

    importar fizeram com que em 1965 ocorresse uma importante mudana acerca do papel a ser

    desempenhado pela agricultura, visto at ento como um mero fornecedor de divisas e de mo

    de obra para a indstria. Essa mudana de papel se deu quando a crescente inflao e a

    dificuldade de importar atingiram nveis crticos, sendo que os economistas estruturalistas

    passaram a enxergar a rigidez da oferta agrcola brasileira como a principal causa da elevao

    dos preos, e os ortodoxos passaram a entender que a modernizao da agricultura poderia

    alavancar e diversificar a pauta de exportaes (COELHO, 2001).

    Neste contexto as dcadas de 1960 e 1970, sob a tutela do Governo Militar, foram

    marcantes para a agricultura, tendo incio no perodo uma srie de polticas e programas

    como: o Programa de Ao Econmica do Governo (PAEG), e os Planos Nacionais de

    Desenvolvimento (I e II PND), que atravs da criao do Sistema Nacional de Credito Rural

    acabaram por promover a consolidao dos Complexos Agro-Industriais (CAIs), e a

    conseqente modernizao do setor agrcola (NETTO, 2011).

    O processo de modernizao da agricultura brasileira alcanou resultados que acabaram

    por moldar as caractersticas sociais, culturais e econmicas de grande parte do territrio

    nacional, com destaque para dois tipos de poltica pblica. O primeiro, verificado a partir de

    meados da dcada de 1970, de mbito centralizado, com forte inspirao regional

    tradicional, sendo o grande responsvel pela concepo dos programas de ocupao do

    Cerrado e de modernizao da agricultura, e o segundo, verificado a partir de meados da

    dcada de 1990 e aprofundado nos anos 2000, compreendendo um planejamento de cunho

    descentralizado, com polticas pblicas de corte territorial, levando em considerao as

    particularidades do territrio e dos produtores rurais, sendo o segundo tipo objeto de anlise

    do segundo captulo dessa dissertao.

    Em meados da dcada de 1970 foram elaborados projetos cujo objetivo era promover o

    desenvolvimento das regies menos dinmicas do pas, como a poro central. Desta maneira

    foram elaboradas polticas pblicas orientadas para a ocupao e dinamizao dessas regies,

    mais especificadamente o cerrado, sendo os principais projetos representados pelo

  • 30

    POLOCENTRO14

    e pelo PRODECER15

    . Tais programas promoveram a capitalizao da

    agricultura no cerrado, contribuindo para o aumento da produo e da produtividade agrcola,

    assim como para o aumento da migrao interna voltada para essas regies. Posto de outra

    maneira, os programas visavam o desenvolvimento agrcola orientado para o processo de

    acumulao, no tendo uma preocupao maior com as questes agrrias presentes e

    consequentes.

    A forte presena do Estado16

    e o perfil desenvolvimentista das polticas pblicas

    verificadas no perodo de 1968 a 1980, caracterizados pelos grandes investimentos em

    infraestrutura no intuito de anexar as regies menos desenvolvidas do Brasil ao eixo mais

    dinmico, foram fundamentais para a ocupao e expanso agrcola do cerrado. Destarte, a

    crescente demanda internacional por commodities agrcolas como a soja e o fornecimento de

    crdito agrcola subsidiado contribuiu especialmente nas regies dotadas de maior

    infraestrutura, para a disseminao da agricultura na regio. No obstante, a estagnao e as

    crises da dcada de 1980 alteraram as expectativas para a regio, porm no foram capazes de

    minar por inteiro os programas e polticas de incorporao das fronteiras agrcolas

    agropecuria e sua modernizao, visto que as polticas implantadas foram bem sucedidas em

    seu propsito de modernizar a agricultura em tais regies (ALHO e MARTINS, 1995).

    Posto este breve retrospecto sobre os principais fatos orientados para o desenvolvimento

    do meio rural brasileiro, focaremos agora nas polticas publicas criadas para desenvolver a

    regio do Cerrado, pois sua anlise evidencia o carter centralizador e regional de

    desenvolvimento presente na poca, e a clara tentativa de solucionar to somente a questo

    agrcola brasileira.

    O Cerrado o segundo maior bioma brasileiro, estendendo-se por uma rea de

    2.045.064 km2, abrangendo oito estados do Brasil Central: Minas Gerais, Gois, Tocantins,

    Bahia, Maranho, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piau e o Distrito Federal. Cortado por

    trs das maiores bacias hidrogrficas da Amrica do Sul, o bioma cerrado apresenta ndices

    14 Programa para o Desenvolvimento do Cerrado 15 Programa Cooperativo Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento do Cerrado 16 Gunnar Myrdal em seus estudos sobre o desenvolvimento nos pases subdesenvolvidos aponta para a

    importncia da interveno estatal como fator decisivo na diminuio das disparidades regionais e critica a forma

    como as teorias convencionais do respaldo tendncia de equilbrio econmico. Myrdal (1960) acredita ainda

    que a tendncia ao equilbrio no ocorra, e pelo contrrio, se as foras do mercado forem deixadas a merc do

    livre capital o desequilbrio prevalece e com ele as disparidades regionais. Fatores sociais e outros fatores no

    econmicos apresentam dificuldades de serem mensurados o que acaba por limitar as teorias econmicas e ao

    serem tomados como estticos contribuem para a situao de desequilbrio.

  • 31

    pluviomtricos regulares que lhe propiciam sua grande biodiversidade e grande aptido pela

    produo agrcola, como a produo de alimentos, forragem, madeira, fibras, frmacos e

    plantas ornamentais (EMBRAPA, 2011).

    O cerrado at a dcada de 1970 era caracterizado por grandes extenses de terras

    ocupadas por poucos fazendeiros que criavam gado e cultivavam pequenas lavouras s

    margens dos rios e fontes de gua. A escassa populao, vivendo em grande parte para sua

    subsistncia, dependia ainda do Sudeste para maior parte do seu abastecimento alimentar. Ao

    longo dos ltimos anos, a ocupao agrcola tem apresentado desenvolvimento excepcional.

    Em 2003 eram cerca de 98,5 milhes de hectares explorados, dos quais 50 milhes em

    pastagens cultivadas, 30 milhes em pastos naturais, 15 milhes em cultivos anuais e 3,5

    milhes em cultivos perenes e florestais. Atualmente esses nmeros cresceram (BRASIL,

    2003).

    A reocupao e redefinio dos cerrados brasileiros a partir da interveno militar nos

    anos 1970, marcada pela concepo desenvolvimentista j mencionada, aborda a agricultura

    do Brasil como fonte de divisas e de equilbrio na balana de pagamentos (via exportaes e

    atrao de capital estrangeiro). A modernizao da agricultura e seu conseqente aumento de

    produtividade iam de encontro aos interesses e necessidades a nveis macroeconmicos, e

    desta maneira, as polticas governamentais passaram a ser voltadas para a transformao das

    formas de ocupao do cerrado (SANTOS, 2008).

    Segundo a Fundao Joo Pinheiro (1985), o Governo Militar passou a agir no intuito

    de facilitar a aquisio e a posse de grandes extenses de terras devolutas, terras no

    legalizadas, em litgio ou de ndio. Passou tambm a administrar focos de tenso social de luta

    pela terra, desestruturando as bases de poder campons e dando apoio para a expanso do

    capital no campo. Tudo isso sem uma preocupao maior voltada para os pequenos

    proprietrios, visto que no foram elaboradas na poca polticas voltadas para o acesso a terra

    para o crescente nmero de produtores e trabalhadores sem terra, agravando desta maneira a

    questo agrria.

    Neste sentido, verifica-se que a preocupao central do Governo brasileiro era

    solucionar a questo agrcola, e ao adotar medidas para tal, acabou por deteriorar a questo

    agrria (GRAZIANO DA SILVA, 1981). Destarte, a questo agrria passou a ser abordada

    por polticas pblicas apenas nos anos recentes da dcada de 1990 quando o pequeno produtor

  • 32

    e a populao rural passaram a ter suas demandas atendidas pelas esferas governamentais,

    tema este discutido no captulo 2.

    Em consonncia com o intuito do Governo Militar em desenvolver a agricultura

    brasileira, as polticas de crdito subsidiado, representadas, sobretudo pelo Sistema Nacional

    de Crdito Rural, tiveram importante papel sobre o desenvolvimento e ocupao das reas do

    cerrado, impactando diretamente as expectativas de rentabilidade dos produtores e o preo da

    terra. Pode-se dizer que, conforme mencionado na primeira sesso, o crdito concedido foi

    concentrado por produtor, por produto e por regio, sendo que os agricultores mais influentes

    e proprietrios de terras maiores atendiam as exigncias das entidades credoras, dado que os

    bancos elevaram sensivelmente as exigncias de garantia para a concesso de emprstimos,

    sobretudo no final da dcada de 1970.

    O pleno desenvolvimento da agricultura exigiu do governo investimentos em outras

    reas, como infraestrutura e logstica. A evoluo da infraestrutura de transportes foi

    importante para o processo de ocupao e abertura do cerrado, visto que tornou a regio

    acessvel, possibilitando a incorporao de suas terras agropecuria. A criao da rodovia

    Belm-Braslia na dcada de 50, primeira via de ligao entre os eixos sul e norte atravs da

    regio central, a intensificao da construo rodoviria nas dcadas de 50 e 60 em sua poro

    meridional e a criao de rodovias-tronco com o intuito de integrar os enormes vazios da

    Amaznia e do noroeste do Centro-Oeste economia nacional na dcada de 70, contriburam

    de forma significativa para a expanso agrcola (ALHO e MARTINS, 1995).

    O primeiro programa de ocupao do cerrado ocorreu em 1973 com o PADAP

    (Programa de Assentamento Dirigido do Alto Paranaba), sendo ele o precursor do

    POLOCENTRO. O PADAP constituiu-se de uma srie de investimentos em infra-estrutura de

    transportes e logstica, como a construo de rodovias, armazns (CASEMIG) e silos para

    estocagem de gros, alm de convnios com os municpios de So Gotardo, Rio Paranaba,

    Ibi e Campos Altos, onde ocorreram investimentos em educao, habitao e transmisso

    eltrica. As famlias assentadas eram em sua maioria descendentes de japoneses e de famlias

    oriundas da parte Sul do Brasil devido suas experincias com a produo mercantil, com o

    uso de maquinrio agrcola e o trabalho em cooperativas (ROMANO, 2010). Explicitando

    assim o intuito de incorporar o cerrado e sua agricultura ao modo de produo capitalista.

    Em 1975 o fracasso na tentativa de ocupao e abertura da Amaznia, somado

    necessidade de dar densidade econmica s extensas reas do Brasil central, levou criao

  • 33

    do Programa para o Desenvolvimento do Cerrado (POLOCENTRO), tendo importante

    impacto sobre a agricultura no territrio do cerrado. O POLOCENTRO foi o principal

    programa de ao regional do governo Geisel, elaborado dentro do II PND (SHIKI, 1997).

    O programa constitua-se no repasse de recursos s reas selecionadas, seguindo a

    concepo de plos de crescimento17

    , que desta maneira indicou 12 reas18

    de cerrado dotadas

    de alguma infra-estrutura e bom potencial agrcola. Tais reas receberam recursos subsidiados

    para investimento em infra-estrutura e custeio, sendo esses recursos oriundos de crditos a

    taxas de juros fixadas em nveis muito baixos e sem correo monetria. A inflao alta e os

    longos perodos de carncia caracterizaram o programa de crdito do POLOCENTRO,

    constituindo uma virtual doao aos seus muturios, que eram, sobretudo, grandes

    latifundirios (ALHO e MARTINS, 1995).

    O POLOCENTRO induziu a expanso da agricultura comercial no cerrado,

    incorporando direta e indiretamente cerca de 3,7 milhes de hectares agricultura, sendo

    48,6% voltadas para lavouras, 32,4% para a melhoria de pastagens e 18,9% para o

    reflorestamento. Nos dois primeiros anos, o oramento foi fixado em US$ 1,5 bilho (em

    valores correntes), sendo US$ 1 bilho em crditos a taxas de juros favorecidas, US$ 180

    milhes em estradas, armazns e eletrificao, alm de US$ 450 milhes por meio de

    incentivos fiscais (COELHO, 2001).

    O programa tinha fixado como meta o estabelecimento de lavouras de soja, milho e

    arroz em 60% da rea selecionada. Outra meta do programa era a produo de alimentos,

    porm o que se verificou no findar do POLOCENTRO foi que a rea inicialmente destinada

    lavoura foi suplantada pelas pastagens e a lavoura remanescente foi em grande parte tomada

    pela soja, tendo o arroz algum destaque (ALHO e MARTINS, 1995). Apesar disto, o objetivo

    de adaptar a agricultura para o Cerrado e, sobretudo, inseri-la no modo de acumulao

    capitalista, foi bem sucedido.

    17 Franois Perroux incorpora ao tema desenvolvimento regional os conceitos de plos de crescimento e de indstria motriz na tentativa de explicar as disparidades regionais [...] o crescimento econmico no aparece em

    toda a parte, ele aparece em pontos ou plos de crescimento, com intensidades diferentes e expande-se por diversos canais e com efeitos finais variveis sobre a economia como um todo [...] A indstria motriz assim que

    consolidada tem a capacidade de induzir o crescimento das demais indstrias (movidas) situadas no seu entorno,

    e conforme a sinergia entre elas se dissemina, o ento plo regional de crescimento passa a influenciar regies

    cada vez mais distantes no mbito da nao (PERROUX, 1955). 18

    Dentre as doze reas de atuao escolhidas pelo programa como plos indutores de crescimento esto os

    municpios de Campo Grande, Trs Lagoas e Bodoquena no Mato Grosso do Sul; Xavantina e Parecis no Mato

    Grosso; e Paran, Pirineus, Piranhas e Rio Verde em Gois.

  • 34

    O programa POLOCENTRO foi orientado principalmente para os grandes e mdios

    produtores, ou aqueles capazes de produzir para o mercado como j mencionado, sendo

    portanto um programa concentrador de renda. Durante o perodo de 1975 a 1982, tais

    proprietrios utilizaram um montante de US$557 milhes, sendo que 81% dos beneficirios

    operavam fazendas com mais de 200 hectares e absorveram 88% do volume total do crdito e

    as fazendas com mais de 1000 hectares, que representavam cerca de 40% do nmero de

    projetos, foram destino de mais de 60% do total financiado (ALHO e MARTINS, 1995).

    Ainda sobre o carter concentrador, verifica-se que o programa de crdito do

    POLOCENTRO estava dentro do mbito do SNCR, e como vimos, tal sistema foi

    concentrador por produto, por produtor e por regio, estando voltado para a consolidao do

    agribusiness brasileiro, portanto sem preocupao com o pequeno produtor. A concentrao

    de renda oriunda dessa caracterstica do SNCR minou qualquer possibilidade dos pequenos

    produtores de se manterem no mercado, sobretudo nas regies acampadas pelo projeto,

    contribuindo para a piora das condies sociais dessa populao.

    Passado o perodo de implementao do projeto verificou-se que o POLOCENTRO

    conseguiu atender as demandas do setor industrial no sentido de contribuir com o duplo papel

    de fornecer divisas atravs das exportaes e de abastecer e demandar do mercado interno,

    num perodo em que os Complexos Agro-Industriais estavam amadurecendo.

    O desenvolvimento de tecnologias para o cerrado foi outro elemento importante para a

    ocupao do bioma e para o sucesso das polticas propostas, contribuindo ainda para a

    consolidao do carter concentrador verificado, sendo a Empresa Brasileira de Pesquisa

    Agropecuria, doravante EMBRAPA a principal difusora de novas tecnologias destinadas

    expanso e modernizao agrcola do cerrado. A EPAMIG, Empresa de Pesquisa

    Agropecuria de Minas Gerais, a EMGOPA, Empresa Goiana de Pesquisa Agropecuria e a

    EMPA-MT, Empresa de Pesquisa Agropecuria do Estado do Mato Grosso tambm

    contriburam com pesquisas agropecurias que viabilizaram o uso das terras do cerrado.

    Ademais, empresas estatais como a Goiasfrtil e a Arafrtil contriburam para o sucesso da

    correo da acidez do solo e para o melhoramento da gentica vegetal, em que variedades de

    soja foram adaptadas s regies de menor latitude. Ressalta-se que apesar do relevante

    impacto acerca dos nveis de produtividade alcanados, tais tecnologias estavam, sobretudo,

    dirigidas s necessidades dos mdios e grandes produtores.

  • 35

    O PRODECER, ou Programa Cooperativo Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento do

    Cerrado, foi um programa destinado a promover o assentamento de agricultores experientes

    do Sudeste e do Sul do Brasil na regio do cerrado, sendo fruto da cooperao entre

    empresrios e o Governo brasileiro, a Agncia Japonesa de Cooperao e Desenvolvimento

    Internacional (JICA) e bancos privados Japoneses. O programa desenvolveu-se em etapas,

    sendo a primeira delas executada em 1978, composto pelo fornecimento de crdito

    supervisionado, para investimento, custeio e subsistncia na regio do noroeste de Minas

    Gerais, sendo que a partir de 1987 houve a expanso para as regies de Gois, Mato Grosso

    do Sul e Bahia (ALHO e MARTINS, 1995).

    O Projeto JICA, como era chamado dada a participao japonesa, oficialmente tratava-

    se de um trabalho encomendado pelos Governos de Minas Gerais, Esprito Santo e Gois,

    para orientar os planos de ocupao das reas virgens e de escoamento da produo do

    cerrado, sendo que o acordo entre os governadores e a JICA havia sido firmado em 1978. Ao

    longo dos anos seguintes, o governo japons enviou 29 misses de tcnicos, que culminaram

    no projeto de ocupao em larga escala econmica do cerrado, voltado, sobretudo para a

    exportao (MARTIN e PELEGRINI, 1984).

    Os tcnicos japoneses apontaram as atuaes necessrias para sanar os problemas com a

    produtividade da terra e com a infra-estrutura e logstica do territrio. Acerca do primeiro,

    seriam utilizadas tcnicas de melhoramento e uso do solo, j o problema do transporte seria

    solucionado com investimentos na modernizao e expanso de ferrovias e rodovias, assim

    como em silos e armazns para estocagem dos gros produzidos (MARTIN e PELEGRINI,

    1984).

    O PRODECER-I foi instalado em trs ncleos coloniais no Estado de Minas Gerais:

    Paracatu19

    , Ira de Minas e Coromandel, sendo tais ncleos escolhidos como experimentais,

    caracterizando o papel da empresa Campo20

    (Companhia de Promoo Agrcola). A Campo

    estabeleceu em Paracatu o principal projeto de colonizao, chamado de Mundo Novo, que

    abrangia uma rea de 23.000 ha, com a mdia de lotes disponveis de 460 ha e contando com

    a participao da Cooperativa Agrcola de Cotia. Em Ira de Minas, com a rea de 9.000 ha,

    contou com a participao da Cooperativa de Encantado e rea mdia de lotes de 350 ha, e

    19 Atualmente a cidade de Paracatu sede do Territrio do Noroeste de Minas, dentro do programa Territrios da

    Cidadania. 20 Empresa mista de capital pblico e privado, brasileiro e japons responsvel pela execuo do PRODECER

    (SHIKI, 1997).

  • 36

    por fim, Coromandel com rea de 6.000 ha, e lotes de 355 ha (SANTOS, 2008). O

    PRODECER II constituiu-se na extenso do programa para os estados de Gois, Mato Grosso

    e Mato Grosso do Sul, sendo PRODECER III a expanso para os estados do Maranho e

    Piau.

    A escolha dos colonos foi feita de maneira bastante seleta, sendo os produtores gachos

    e nisseis escolhidos no lugar dos tradicionais ocupantes da terra, os mineiros. Os gachos e

    descendentes de japoneses foram escolhidos, pois tinham maior experincia no modo de

    produo capitalista, sobretudo com o manejo de maquinrio agrcola e na participao de

    cooperativas na regio Sul, regio esta, cuja fronteira agrcola j estava praticamente

    explorada. A fora de trabalho dos mineiros no estava apta aos objetivos do projeto, muito

    pelo fato de no possurem experincia no modo de produo que se perseguia (SANTOS,

    2008). Tal processo corroborado atravs de relatos21

    de produtores retirados do livro

    Gachos e Mineiros no Cerrado de Rossevelt Jos Santos da poca em que o projeto estava

    sendo implantado.

    A reocupao, revalorizao e redefinio dos cerrados assim como proposto pelo

    JICA-PRODECER, tiveram como objetivo a vinda dos gachos na tentativa de criar valores,

    a partir da incorporao da alta tecnologia, do trabalho campons e na linearizao do tempo

    de produo das mercadorias e reproduo dos produtores desse projeto, sendo a vinda desse

    contingente populacional um fator preponderante para a transformao das caractersticas

    locais (SANTOS, 2008).

    A partir dos anos 1980, Minas Gerais passou a ser destino de grandes populaes

    migrantes com o intuito de produzir lavouras de gros, constituindo-se lugar de disseminao

    de uma agricultura incorporada altssima tecnologia, de relaes sociais de produo

    mediadas pela tecnologia de ponta, por bancos e cooperativas (SANTOS, 2008). A pequena

    propriedade e os arranjos institucionais de apoio aos pequenos produtores no se

    desenvolveram na regio e Minas Gerais consolidou-se como regio atrativa ao agribusiness.

    21

    Cheguei de mala e cuia em agosto de 1980, uma seca que desanimava qualquer cristo [...]. S no voltei

    porque o pessoal (do projeto) entregou barraco cheio de mquinas, sementes, adubos. Da agente comeou a

    ficar endividado e acreditar no projeto [...]. RELATOS DE CAMPO DE UM PRODUTOR GACHO. Os que vieram para o projeto foram os rapazes l do Sul, que sabiam um pouco de trator, dessas coisas que eles usam

    pra produzir. RELATOS DE CAMPO DE UM PRODUTOR MINEIRO (SANTOS, 2008).

  • 37

    Os antigos donos das terras incorporadas ao projeto se viram obrigados a se deslocarem

    para as cidades e a venderam sua mo de obra, sendo sua marginalizao uma caracterstica

    desse processo. Tanto o POLOCENTRO quando o PRODECER no tiveram um

    planejamento ou preocupao maior com os trabalhadores expropriados de suas terras,

    ressaltando ainda que as terras foram vendidas a preos irrisrios, tendo seu valor

    multiplicado ao longo da implantao dos projetos.

    Neste sentido, a modernizao da agricultura como proposta pelo Estado brasileiro ao

    no levar em considerao a permanncia dos trabalhadores rurais no meio rural, dado a no

    existncia de uma poltica especfica para realocao desse contingente populacional, afetou

    de forma negativa o mercado de trabalho nas cidades, atravs do aumento da oferta de mo de

    obra e a conseqente precarizao das condies de vida desses trabalhadores. Segundo

    Romeiro (1994), a restrio de acesso a terra e o xodo rural em decorrncia desse fato

    implicaram em desastrosas conseqncias para a economia nacional e acabaram por agravar a

    questo agrria brasileira e a sua demanda por reformas.

    Dado as consequncias desastrosas de tais polticas para a questo agrria, reiteramos

    que o desenvolvimento rural deve necessariamente levar em considerao tanto os aspectos

    agrcolas quanto os agrrios, caso contrario as demandas atendidas acabam por contemplar

    apenas uma parcela da populao rural, enquanto as condies da outra, leia-se dos pequenos

    produtores e trabalhadores, se deterioram, impossibilitando desta maneira o desenvolvimento

    rural.

    A existncia de extensas reas de terras mecanizveis e grandes propriedades

    favoreceram o uso de tecnologias de grande escala, somado a isso, a existncia de fontes de

    calcrio permitiram a correo qumica do solo. Devido s caractersticas do cerrado,

    identifica-se uma grande diversidade de produtores e sistemas de produo, com destaque

    para o sistema pecurio extensivo de corte, o sistema extensivo de leite e alimentos bsicos,

    alm dos sistemas intensivos de soja, milho e trigo (SHIKI, 1997). A evoluo das tcnicas

    agronmicas e de manipulao gentica somada s caractersticas do cerrado permitiu um

    expressivo aumento na produo dos diversos gneros agrcolas.

    Atravs da Tabela 1 podemos verificar a evoluo da produo agrcola e da pecuria

    oriunda do Cerrado. Com exceo do arroz que teve a produo decrescida na regio do

    cerrado e do trigo que se manteve estvel, todas as principais culturas cultivadas na regio

    tiveram aumento em sua produo, com destaque para os cultivos da soja, do feijo e do

  • 38

    algodo, que apresentaram crescimento respectivo entre 1975 e 2006 de 500%, 113% e 319%.

    Confirmando os impactos da incorporao de novas tcnicas de produo.

    Tabela 1: Evoluo da Produo Agrcola e da Pecuria (1975 e 2006) (mil t)(%)

    1975 2006

    Produto Cerrado Resto do Brasil Brasil % Cerrado Resto do Brasil Brasil %

    Milho 3.611 12.723 16.335 22 15.219 33.108 48.327 31

    Soja 853 9.040 9.893 9 27.986 23.933 51.919 54

    Arroz 3.303 4.478 7.782 42 2.796 7.539 10.335 27

    Feijo 352 1.930 2.282 15 1.062 2.240 3.302 32

    Trigo 129 2.431 2.560 5 356 5.797 6.154 6

    Sub-Total 8.249 30.603 38.852 21 47.419 72.618 120.037 40

    Algodo 362 1.386 1.748 21 1.944 258 2.202 88

    Cana 26.548 64.977 91.525 29 183.072 212.941 396.012 46

    Total 8.611 31.989 40.600 21 49.362 72.876 122.239 40

    Bovino (mil cabeas) 33.960 66.000 99.959 34 85.057 110.495 195.552 43

    Fonte: CAMPOLINA (2009, p.22)

    A evoluo do cultivo da cana de acar merece destaque, pois foi alvo de poltica

    especfica durante o governo militar em decorrncia da primeira crise do petrleo em 1973,

    nossa principal matriz energtica, em que os preos aumentaram drasticamente. O Prolcool

    visava diminuir a dependncia do petrleo, e contornar o problema da inflao dos preos,

    atravs do aumento da oferta estimulado atravs do incentivo produo da cana de acar

    para a produo do lcool combustvel.

    Passados os tempos de bonana do crdito rural e das grandes safras agrcolas, a dcada

    de 1980 foi caracterizada pela crise do planejamento e pelo esvaziamento das polticas

    centralizadas por parte do governo, e neste contexto os auxlios a agropecuria e ao

    desenvolvimento da regio central do Brasil se resumiu em meados da dcada na poltica de

    preos mnimos e na tradicional compra de excedentes agrcolas, contudo a produo agrcola

    no cerrado continuou a crescer e a nveis maiores em relao ao resto do Brasil

    (CAMPOLINA, 2009).

    Portanto, o desenvolvimento proposto para o cerrado, entendido como um processo de

    ocupao e de utilizao das terras que antes eram inutilizadas pode ser considerado bem

    sucedido, pois os projetos conseguiram alcanar os objetivos propostos, ou seja, a

    consolidao do agronegcio brasileiro, com destaque para o considervel aumento na

  • 39

    produo dos gneros agrcolas e para a dinamizao da regio central do pas. Porm, em

    relao aos aspectos sociais, as polticas pblicas, por mais que dotadas de boas intenes,

    no contemplaram uma melhoria nas condies sociais das parcelas mais baixas da sociedade,

    ressaltando que houve durante as dcadas de 1970 e 1980 um processo de migrao22

    dos

    pequenos proprietrios e trabalhadores rurais do campo para as cidades, concomitantemente

    ao processo de concentrao de renda e de terras. Posto de outra maneira, a questo agrcola

    passou a ser trabalhada e com perspectivas de sucesso enquanto a questo agrria era deixada

    de lado e at mesmo se deteriorava.

    1.4 - A Crise do Planejamento (1980) e as Novas Perspectivas de Desenvolvimento

    A partir do fim da dcada de 1970 com a crise do padro de produo fordista e da

    chamada poca de ouro do capitalismo, perodo em que se predominaram correntes de

    pensamento keynesianas, a at ento tradicional presena do Estado como principal promotor

    do desenvolvimento passou a ceder lugar aos iderios do liberalismo. O processo de

    globalizao que ganhava fora passou tambm a influenciar at mesmo as teorias sobre

    desenvolvimento, passando estas a atender aos interesses da livre movimentao das foras de

    mercado e ao julgo do capital. Emergiram ento as correntes defensoras do desenvolvimento

    endgeno.

    A situao brasileira no final da dcada de 1970 e incio da dcada de 1980 era de

    grande instabilidade econmica devido a condicionantes externos e internos. As profundas

    transformaes no cenrio internacional, com a segunda crise do petrleo em 1979, com a

    reverso nas condies de financiamento internacional refletida na subida das taxas de juros

    em paralelo com o crescimento do endividamento brasileiro, somado ao deterioramento da

    condio fiscal do governo e ao elevado nvel da inflao no pas, contriburam para a

    mudana de papel a ser desempenhado pelo governo.

    Devido s presses do Banco Mundial e do Fundo Monetrio Internacional (FMI), para

    a contenso do crdito rural e eliminao dos subsdios presentes nele dada a crise da dvida

    vivenciada pelo Brasil, o Governo Federal passou a adquirir volumes expressivos de produtos

    agrcolas cultivados com o apoio do PRODECER e desta maneira houve a manuteno na

    22 Entre os anos de 1950 e 1990, estima-se que cerca de 40 milhes de habitantes deixaram o campo em direo

    s cidades, tal xodo foi decorrente do processo de industrializao da economia brasileira, somado as condies

    de precarizao da vida no campo e do processo de mecanizao da produo agrcola (GREMAUD,

    VASCONCELLOS e TONETO JR, 2005) Sobre o processo de migrao durante o Projeto PRODECER, ver

    SANTOS, 2008.

  • 40

    dinmica da agricultura nas fronteiras agrcolas do cerrado. Ressalta-se que o custo para o

    governo foi relevante, porm a agricultura comercial nestas localidades manteve-se

    artificialmente rentvel, havendo, portanto, o estmulo para a expanso da rea cultivada

    (ALHO e MARTINS, 1995).

    Contudo, para a agricultura brasileira a dcada de 1980 de maneira geral representou

    uma srie de desestabilizaes dado os sucessivos planos de controle inflacionrio

    implantados. Os Planos Cruzado, Bresser, Vero I e II, e Collor, provocaram alm de fixaes

    de preos em momentos inoportunos, o descasamento de valores de ativos e passivos, sendo

    que no houve uma poltica agrcola mais enftica como as verificadas nas dcadas de 1960 e

    1970, e sim a adoo de medidas ad hoc. As medidas pontuais e imediatistas, oriundas de

    presses de setores poderosos, como a agroindstria, passaram a ser recorrentes, consolidando

    um processo chamado por Jos Graziano da Silva de orquestrao de interesses ou neo-

    corporativismo (SILVA, 1990 apud NETTO, 2011).

    Quando os interesses passaram a ser negociados cadeia a cadeia e deixaram de ser concebidos dentro de um plano mais macroeconmico de

    desenvolvimento, o lcus de deciso mudou. Os interesses passaram a ser

    discutidos em cmaras especficas, os membros dos poderes legislativos

    passaram a exercer presso poltica diretamente sobre as instancias de

    deciso do segundo escalo dos poderes executivos [...] sobre secretrios de

    poltica agrcola, cmaras setoriais e no Conselho Nacional de Poltica

    Agrcola. Foi o crescimento e a exposio pblica da bancada ruralista, que

    tomou um carter de defesa de classe suprapartidrio.(NETTO, 2011)

    Posto desta maneira, ainda segundo Netto (2011) a agricultura brasileira estava

    novamente subordinada aos interesses globais da economia, mesmo estando esses interesses

    completamente desarticulados. Evidenciando a nova etapa por que passava a economia

    brasileira e mundial, etapa essa marcada pela mudana de lcus de atuao poltica, antes

    centralizada e com forte participao estatal e agora descentralizada, com foco no

    desenvolvimento local.

    Esse novo modelo de desenvolvimento de cunho descentralizador passou a vigorar

    tendo como principal caracterstica a incorporao do conceito de desenvolvimento local, ou

    endgeno. Tal conceito diz respeito organizao em mbito local e sua capacidade de

    fomentar por si s o desenvolvimento do territrio, sob a premissa de que os agentes

    pertencentes ao territrio, com suas qualidades e caractersticas seriam capazes de explorar e

    transformar o territrio. O desenvolvimento local segundo Buarque (2002) compreende um

    processo endgeno de mudana em que uma pequena unidade territorial ou conglomerado

  • 41

    humano passa, visando a melhoria nas condies econmicas e sociais. Ainda segundo o

    autor, tal processo deve reforar a distribuio de ativos sociais, sobretudo o conhecimento, e

    baseia-se na formao de capital social local, no aumento da capacidade das atividades

    econmicas locais e na reestruturao do setor pblico local.

    O enfoque local representado pela descentralizao da ao pblica como tentativa de

    promoo do desenvolvimento ganhou fora no mundo inteiro, se tornando um aparente

    consenso, tanto no mbito acadmico quanto nas agencias multilaterais (ORTEGA, 2008).

    Sob a tica dos partidos de direita a conjuntura econmica do perodo era oriunda da

    crise de governabilidade das democracias, sendo, portanto, necessria a reduo da

    participao pblica do Estado. Desta maneira, a descentralizao das instancias decisrias e

    administrativas aparece como mecanismo de superao da crise, conferindo maior raio de

    manobra e deciso no mbito local em prol do desenvolvimento, retirando do Estado as

    responsabilidades sobre as demandas locais. Em consonncia com esse pensamento, as

    organizaes multilaterais como o Banco Mundial (BM), a Organizao das Naes Unidas

    (ONU), dentre outros, passaram a apoiar e a desenvolver aes de mbito territorial.

    (ORTEGA, 2008).

    O desenvolvimento endgeno visto pela tica do ortodoxismo econmico advoga pela

    incorporao do local ao capitalismo global, e para se alcanar tal feito, o local deve reunir

    as condies para criar uma atmosfera que capte a ateno do capital, dando dinmica a sua

    economia e, portanto inserindo suas qualidades, digam-se produtos, no mercado internacional.

    Ressalta-se que para essa corrente, o local tem totais condies de empreender esse

    processo, e por mais que ele seja desprovido de dinmica, cabe comunidade local reunir,

    mobilizar e empreender as medidas necessrias para tal.

    As teorias sobre desenvolvimento endgeno, como as teorizadas pelos neoliberais,

    conciliam o problema do desenvolvimento com as tradicionais polticas econmicas

    ortodoxas previstas pelo Consenso de Washington, tirando a responsabilidade do Estado sobre

    o processo de desenvolvimento e sobre as disparidades regionais, e, sobretudo no levando

    em considerao as tradicionais dificuldades impostas s regies deprimidas.

    O sucesso alcanado pelos Distritos Industriais Marshallianos na Itlia, exemplo maior

    de como o desenvolvimento endgeno pode ser alcanado sem a participao decisiva do

    poder Estatal, visto como exemplo a ser seguido em tempos de conjuntura econmica

  • 42

    desfavorvel, em que as atenes do Estado esto voltadas para a estabilizao econmica. Os

    Distritos Industriais Marshallianos remete a experincia de desenvolvimento vivido pela

    regio chamada de Terceira Itlia, regio situada no entorno da cidade de Firenze, que distinta

    do norte desenvolvido e do sul subdesenvolvido, passara por dificuldades ao final da dcada

    de 1970 e se reergueu atravs do dinamismo criado de forma endgena (ORTEGA, 2008).

    As condies que contriburam para o desenvolvimento ocorrido na Terceira Itlia

    compreendem uma srie de caractersticas particulares regio. Fatores culturais favoreceram

    condies flexveis para a mo de obra, fatores externos, como o crescimento da demanda

    mundial por bens de consumo de perfil diferenciado favoreceu a indstria txtil de srie

    limitada local e o progresso tecnolgico viabilizou projetos de pequena escala, dando assim

    boas condies para uma industrializao difusa (BECATTINI, 1994).

    Somado a esses fatores, a regio era composta por um conglomerado urbano dotado de

    infra-estrutura e composto por cidades de pequeno e mdio porte, perfeitamente equipadas e

    distribudas sobre a regio, onde havia pequenas empresas comerciais e artesanais

    tradicionais. Tais cidades articularam relaes com regies culturais prximas, caracterizadas

    pelas pequenas propriedades rurais autnomas, criando assim uma sinergia que propiciou o

    desenvolvimento (BECATTINI, 1994).

    O capital social, conceito muito utilizado por tericos do desenvolvimento, foi um fator

    predominante no processo vivenciado pela Terceira Itlia, e segundo Putnam (2000, p. 177),

    tal conceito diz respeito a caractersticas da organizao social, como confiana, normas e

    sistemas, que contribuem para aumentar a eficincia da sociedade, facilitando as aes

    coordenadas.

    O capital social facilita as aes espontneas, baseadas nos laos de confiana.

    Lembrando ainda que a cooperao voluntria mais recorrente em comunidades que tenham

    herdado um bom estoque de capital sob a forma de regras de reciprocidade e um sistema de

    participao cvica (ORTEGA, 2008).

    O processo de desenvolvimento ocorrido na Terceira Itlia indica uma mudana sobre a

    tendncia de desaparecimento das pequenas empresas, e ainda a possibilidade de convivncia

    entre a pequena e a grande indstria (BECATTINI, 1994). Porem preciso ressaltar que nem

    sempre tal processo ocorre em regies subdesenvolvidas, e mesmo as condies l criadas,

    correm o risco de no se perpetuarem, dada as caractersticas peculiares que originaram ta l

  • 43

    processo. Ademais, esse desenvolvimento requereu uma acumulao prvia de capital,

    qualificao tcnica, capacidade de gesto, confiana recproca e coeso social, e por isso fica

    evidente a dificuldade de se transpor essa experincia para as demais regies, sobretudo com a

    possibilidade de essas condies mudarem com o passar do tempo.

    Neste sentido, a exemplo das polticas pblicas implantadas nas dcadas de 1970 e

    1980, de perspectiva centralizada e focada na modernizao da agricultura, o

    desenvolvimento endgeno proposto posteriormente tambm no se mostrou capaz de

    promover o desenvolvimento em regies desprovidas de dinmica econmica, visto que o

    capital social, componente essencial para o sucesso desse perfil de desenvolvimento se mostra

    insuficiente ou at mesmo ausente em regies deprimidas, notadamente em regies rurais de

    nosso pas. Em consequncia da fragilidade dessas perspectivas de desenvolvimento que a

    abordagem territorial ganhou fora, conciliando os aspectos e caractersticas locais com o

    importante poder de ao do Estado.

    O enfoque territorial como proposta de descentralizao do poder pblico tambm

    vista com bons olhos pela esquerda, sendo que segundo Fiori (1995) apud Ortega (2008), tal

    processo necessrio para resolver o problema da burocratizao do welfare state e como

    maneira de aprofundar a participao cidad nas estruturas e processos democrticos, de

    modo a tornar o sistema decisrio mais transparente. Ademais, o processo de descentralizao

    do poder deve ser dado por meio da criao de novas instancias administrativas autrquicas,

    dentro do mbito do governo central, pela transferncia de poder s instancias subnacionais,

    para as organizaes da sociedade civil e at mesmo para as empresas privadas (BENNETT,

    1990 apud ORTEGA, 2008).

    A constituio de 1988, chamada por muitos de constituio cidad, foi um marco para

    a questo do desenvolvimento territorial no Brasil. Dada a crescente ausncia de polticas

    territoriais do governo central, a constituio representou a institucionalizao da capacidade

    das esferas municipais e estaduais em gerir e formular polticas pblicas. A ttulo de exemplo,

    foram criados os conselhos municipais de sade, de educao e de assistncia social, que

    culminaram na ampliao da participao social nas tomadas de deciso, evidenciando o

    carter descentralizador dessa nova etapa do processo de desenvolvimento territorial no Brasil

    (ORTEGA, 2007).

    A criao de arranjos sociais locais de carter consultivos e deliberativos demonstra

    essa nova cultura de formulao e gesto de polticas pblicas como mecanismo de

  • 44

    alternativas para o desenvolvimento, e apesar do aumento da participao das esferas

    municipais e estaduais e da nfase dada ao localismo, ressalta-se que esta perspectiva ia de

    encontro aos interesses das polticas austeras neoliberais praticadas pelo governo brasileiro a

    fim de conter, sobretudo o processo inflacionrio que assolava o pas.

    Segundo Fiori (1995) apud Ortega (2008), no Brasil, assim como nos pases latino-

    americanos, o processo de descentralizao do poder e reorganizao democrtica do Estado

    se deram, sobretudo, atravs do federalismo, sendo que na maioria dos casos, a transferncia

    de poder para essas instncias subnacionais no era acompanhada de transferncia de

    recursos, ou ainda, os recursos repassados eram captados em grande parte pelas regies e

    localidades mais desenvolvidas, tendo como consequncia a manuteno ou o agravamento

    das disparidades inter-regionais.

    Dando continuidade ao aspecto endgeno do desenvolvimento, Brando (2007),

    apresenta uma crtica ao modelo de desenvolvimento defendido pela corrente neoclssica, que

    retira do Estado Nacional e repassa para o local a responsabilidade de mobilizar os fatores

    necessrios para o desenvolvimento. Tal perspectiva ao ser adotada acaba por minar os

    centros nacionais de deciso e comando sobre o destino do espao nacional, tudo isso sobre o

    pretexto de que a globalizao age diminuindo o espao entre o local e o global.

    Neste contexto, segundo Brando (2007:35):

    Grande parte da literatura internacional contempornea, adotada de

    forma indiscriminada no pas, e que informa parcela majoritria das aes

    pblicas em mbito subnacional, proclama que bastaria cumprir as

    exigncias da globalizao, desse novo imperialismo da partilha dos

    lugares eleitos, ajustando-se, adaptando-se e submetendo-se a essa

    inexorvel fatalidade, para tornar-se um espao receptivo e conquistador da

    confiana dos agentes econmicos mais poderosos. Negando completamente a natureza das hierarquias (impostas em variadas escalas) de gerao e

    apropriao de riqueza, segundo esse pensamento nico que invade o

    debate do desenvolvimento territorial, regional, urbano e local na atualidade,

    teria ocorrido o fim das escalas intermediarias (e das mediaes) entre o local

    e o global.

    Ainda segundo Brando (2007), para os defensores do desenvolvimento endgeno e da

    globalizao, caberia ao Estado apenas prover as condies necessrias ao funcionamento das

    foras de mercado, pois o local reuniria as demais condies para a busca de sua insero

    aos mercados externos e seu consequente desenvolvimento. Posto desta maneira, tal corrente

    estaria negando questes fundamentais, como os conflitos, as classes sociais, a poltica, o

    papel do Estado e a prpria nao.

  • 45

    Somado a esse aspecto ascendente do neoliberalismo e da globalizao, salienta-se o

    papel da reterritorializao, em que segundo Haesbaert (2004), as regies esto susceptveis a

    intensas mudanas capazes at mesmo de mudar e moldar uma nova dinmica econmica,

    sugerindo, portanto um contnuo processo de reterritorializao. Tal perspectiva contrasta

    com a opinio de alguns autores que compreendem a globalizao como um processo que

    descaracteriza tal regio e a incorpora no mbito padronizado do contexto global, indicando

    na verdade um processo de des-territorializao.

    O territrio envolve sempre uma gama de fatores, compreendendo ao mesmo tempo,

    uma dimenso simblica e cultural, atravs de uma identidade territorial atribuda pelos

    grupos sociais que ali se inserem como forma de controles simblicos, no obstante uma

    forma de apropriao. Existe ainda outra dimenso mais concreta, de carter poltico-

    disciplinar e poltico-econmica, capaz de ordenar e apropriar o espao como forma de

    dominar e disciplinar os indivduos ali inseridos (HAESBAERT, 1997).

    Dando continuidade aos aspectos sociais inerentes ao processo de desenvolvimento,

    interessante acrescentar a contribuio dada ao tema pela Nova Sociologia Econmica23

    .

    Granovetter (1985), ao abordar o tema de desenvolvimento territorial, trabalha a idia de que

    todas as formas de interaes econmicas so centradas em relaes sociais. As relaes

    sociais constituem as bases dos contratos existentes nas organizaes, nas instituies e nas

    prprias empresas, sendo que a confiana e a conseqente cooperao so oriundas dessas

    relaes, constituindo a alma dos arranjos scio-produtivos territoriais e seus objetivos.

    Portanto a prpria questo do desenvolvimento territorial passa pelo contexto das relaes

    sociais, na medida em que o aspecto cultural e histrico, o jogo de interesses, as influncias

    locais, a captao de recursos e as polticas pblicas esto inseridos no mbito social das

    relaes econmicas e polticas, e por isso merecem ser destacadas.

    O processo de descentralizao verificado pela crescente constituio de arranjos scio-

    produtivos locais em busca do desenvolvimento, sobretudo em territrios deprimidos, deve

    ser analisado no sentido de verificar a real capacidade desses territrios alcanarem o

    desenvolvimento de forma endgena, lembrando que a configurao social, espacial e

    econmica desses locais, no favorecem a criao de um capital social capaz de promover o

    23 A Nova Sociologia Econmica atravs de vrios autores, notadamente Mark Granovetter e Neil Fligstein

    procura explicar os fenmenos econmicos atravs das ferramentas da Sociologia (ORTEGA, 2008).

  • 46

    desenvolvimento endgeno, ou a que Ortega (2008) chama de busca pela centelha que detone

    o processo de desenvolvimento.

    Nestes termos, o enfoque territorial no pode ser tomado como

    panacia, pois no podemos ignorar as assimetrias de poder nos territrios,

    assentadas em velhas e novas oligarquias, e nos conflitos inter e intraclasses,

    nem esquecer que as polticas de descentralizao, ao implicarem em

    mudanas nas relaes de poder, provocam conflitos que tencionam o aparato

    pblico nas relaes entre as diferentes instancias de governo. ORTEGA,

    2008: p 43

    Dada a impossibilidade de se criar um modelo ou teoria geral do desenvolvimento

    regional e urbano, devemos ficar atentos s particularidades locais e regionais na busca de

    fatores que induzam o desenvolvimento.

    Nesta perspectiva, levando em considerao tanto os aspectos endgenos como os

    exteriores ao desenvolvimento territorial, Ortega (2007) defende a importncia da ao do

    Estado. Tal ao compreenderia um conjunto de polticas diversas de mbito botton-up e top-

    down, capazes de promover o desenvolvimento em regies deprimidas, ou seja, aquelas

    parcelas do territrio onde a dinmica econmica insuficiente para fomentar por si s o

    crescimento econmico e social.

    Por polticas botton-up, compreende-se a mobilizao da populao local atravs de

    assemblias e associaes para definirem seus objetivos e organizarem suas propostas em prol

    do desenvolvimento econmico e social da regio. Para evitar que o interesse de um pequeno

    grupo se sobressaia aos demais, geralmente a elite local, essas assemblias contam com

    legislao prpria e so orientadas pelo governo. J as estratgias top-down so as polticas

    orientadas desde cima por agncias multilaterais e esferas superiores do governo, e

    compreendem polticas articuladas que procuram intervir em vrias frentes de maneira

    simultnea, fomentando o desenvolvimento territorial, agindo at mesmo na formao/busca

    de uma unio/caracterstica local.

    De acordo com Ortega (2008), as polticas pblicas voltadas para o desenvolvimento

    territorial, sobretudo as de origem mais recente24

    , ao utilizarem o critrio territorial em sua

    implementao, o fazem atravs da constituio de territrios-zona, ou seja, em espaos

    contnuos. Desta maneira podemos entender os territrios como espaos delimitados onde

    24 As polticas pblicas implantadas a partir do Governo Lula, em 2002, utilizam como parmetro o enfoque do

    desenvolvimento territorial, em que as demandas e caractersticas locais so trabalhadas nos diferentes nveis de

    governo. O capitulo 2 trar com detalhes a evoluo e a importncia desse enfoque sobre as polticas pblicas

    implantadas no Brasil a partir dos anos 2000.

  • 47

    ocorrem inmeros tipos de intercmbio em seu interior e dele com o exterior, compreendendo

    uma perspectiva de competitividade territorial que engloba aspectos econmicos, sociais,

    geogrficos, ambientais e polticos.

    As polticas pblicas voltadas para o desenvolvimento das regies deprimidas devem

    necessariamente ser orientadas para vrios aspectos e setores econmicos, pois se verifica, e

    no de hoje, que o ambiente deprimido, tradicionalmente rural, dotado de inmeras

    caractersticas que fazem o rural e o urbano se interligarem, sendo difcil a delimitao de

    suas fronteiras.

    Portanto, o processo de desenvolvimento de territrios cuja dinmica social e

    econmica frgil, notadamente territrios rurais, deve ser pensado de maneira a considerar

    as inmeras especificidades de cada territrio, com o intuito de fomentar seu capital social,

    dando maior dignidade e qualidade de vida aos seus membros. Esse processo exige ateno e

    esforo especial da esfera pblica, cujas dificuldades impostas sob o desenvolvimento

    somente sero sobrepostas atravs de polticas especficas voltadas para cada territrio, tendo

    a participao social importante papel na concepo dessas polticas.

  • 48

    CAPTULO 2

    A agricultura familiar e o Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas

    2.1 Introduo

    Neste captulo abordaremos a insero do ambiente rural no processo de

    desenvolvimento econmico, ressaltando o fim da tradicional dicotomia rural/urbano e a

    consolidao do rural como um espao e no um setor econmico. Para tanto reforamos a

    idia de que a pluriatividade, a agricultura familiar e as polticas pblicas orientadas para esse

    escopo so de suma importncia para a dinamizao do ambiente rural, sobretudo nas

    localidades deprimidas. O Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas ganhar destaque

    especial neste captulo em que realizaremos uma caracterizao do territrio a fim de

    entendermos sua dinmica e composio para posterior avaliao das polticas implantadas ao

    longo do programa Territrios da Cidadania.

    A segunda sesso desse captulo, aps essa breve introduo, abordar como o meio

    rural interpretado para o desenvolvimento econmico, destacando-se o rural brasileiro em

    sua configurao atual, ressaltando as novas atividades e ocupaes empreendidas nesse

    espao. A agricultura familiar ganhar ateno especial, sendo a relao entre o papel do

    Estado, a agricultura familiar e o desenvolvimento do meio rural nosso principal foco.

    A terceira sesso do capitulo abordar as polticas pblicas de recorte territorial

    elaboradas e implementadas nos governo FHC e de Lula, com destaque para o Programa

    Territrios da Cidadania, elaborado na segunda gesto do presidente Lula e cujo Territrio da

    Cidadania do Noroeste de Minas est inserido.

    A quarta e ltima sesso do captulo abordar o Territrio da Cidadania do Noroeste de

    Minas, evidenciando suas caractersticas sociais, econmicas e culturais, a fim de

    aprofundarmos nosso conhecimento acerca do territrio. Desta maneira apontaremos os

    desafios a serem superados no territrio, visto que no terceiro e ltimo captulo trabalharemos

    as polticas pblicas elaboradas no mbito do programa.

  • 49

    2.2 O Rural e o desenvolvimento

    O ambiente rural dotado de caractersticas to singulares que acabou se tornando um

    espao parte do sistema capitalista, ou seja, os padres de produo capitalista no se

    adaptam perfeitamente agricultura, porm reserva-se ao ambiente rural relevante grau de

    protagonismo quanto ao sucesso do prprio sistema capitalista dada sua capacidade de

    influenciar seu desenvolvimento, validando assim, nossa posio de que a agricultura familiar

    entendida como mecanismo importante para o processo de desenvolvimento do capitalismo.

    Segundo Abramovay (1998), as inmeras experincias histricas vivenciadas pela

    agricultura familiar de produo como precursora da base social de desenvolvimento agrcola,

    fazem com que as atenes se voltem para o exame das razes estruturais que levaram o setor

    a um tipo de organizao particular, distinto dos outros ramos da vida econmica.

    Neste sentido, um dos fatores que explicam a existncia significativa de unidades

    familiares na estrutura social da agricultura no capitalismo avanado, se d, pois a agricultura

    opera baseada em elementos vivos, impondo desta maneira obstculos intransponveis ao

    avano da diviso social do trabalho, assim como os demais setores da economia. Destarte,

    segundo o autor, enquanto depender de sua base biolgica, a agricultura nunca ser uma

    indstria, sendo essa limitao a raiz dos problemas encontrados pelos empreendimentos que

    usam mo de obra assalariada. Sendo particular agricultura no a superioridade da produo

    familiar, mas sim a inexistncia ntida de vantagens decorrentes de tamanho das empresas

    acerca do uso de assalariados, dado o limite da diviso do trabalho (ABRAMOVAY, 1998).

    Dada as caractersticas biolgicas da produo agrcola, o perodo intermedirio entre as

    tarefas desempenhadas no ambiente rural pode ser ocupado com outras atividades, agrcolas

    ou no, que contribuem para o aumento da renda e para a dinamizao da vida rural. Grande

    parte destas atividades urbana ou possui alguma ligao com as cidades, reforando assim o

    elo entre o rural e o urbano. Neste sentido, sugere-se o fim da dicotomia rural/urbano, dando

    novo tratamento ao rural, visto agora como um espao e no como um setor econmico. Tal

    mudana de abordagem importante e est refletida nas polticas pblicas modernas.

    As transformaes ocorridas no ambiente rural brasileiro nas ltimas dcadas sugerem

    que grande parte dos trabalhadores rurais e famlias dedicadas exclusivamente s atividades

    agrcolas passaram a exercer atividades no agrcolas, assim como houve um aumento no

    nmero de aposentados e desempregados dentre esses trabalhadores (beneficirios da

  • 50

    aposentadoria rural e dos auxlios desemprego), havendo, portanto uma diversificao da

    origem da renda dessas famlias. Tais transformaes so efetivamente comprovadas pelo

    Projeto Rurbano25

    .

    Segundo o Projeto Rurbano, o marcante xodo rural verificado at a dcada de 1980,

    dado como irreversvel em virtude do processo de industrializao e urbanizao vivenciado

    at ento pelo Brasil, sofreu um grande declnio a partir da dcada de 1990 em decorrncia da

    crise econmica e da reestruturao produtiva por que passava o pas, culminando no

    esgotamento da absoro urbana da grande massa de trabalhadores sem qualificao. A taxa

    de crescimento da populao rural brasileira passou a ser positiva entre 1996 e 1999 em

    algumas regies brasileiras (DEL GROSSI; GRAZIANO DA SILVA; CAMPANHOLA,

    2002).

    A permanncia da populao nas reas rurais eleva o grau de ateno dada a este

    ambiente, onde segundo Abramovay (2003), a ruralidade est se tornando em valor para as

    sociedades atuais, no sentido de que o rural compreende um espao composto por vrias

    atividades e no somente pela produo agropecuria em si, sendo necessrio levar este

    aspecto em considerao, juntamente com o reconhecimento da importncia da diversidade

    territorial e seus vnculos histricos ao se fazer polticas pblicas no Brasil.

    Nos pases desenvolvidos a presena de trabalhadores assalariados no campo constitui-

    se de exceo, havendo, portanto, uma maior participao da agricultura familiar no total do

    produto agrcola. No obstante, o papel desempenhado pela agricultura no processo de

    desenvolvimento capitalista desses pases no consistiu em sua simples insero na cadeia

    produtiva, assim como seu trabalho e produto no foram simplesmente um meio de

    valorizao de capitais agroindustriais, mas a agricultura contribuiu de maneira efetiva com o

    processo de formao de novos padres de consumo (ABRAMOVAY, 1998).

    O desenvolvimento capitalista desses pases teve na agricultura um impulso

    fundamental constitudo pela diminuio do custo de mo de obra concomitante a um

    aumento no poder de consumo do prprio trabalhador. Tal processo foi possibilitado graas

    ao progressivo rebaixamento dos preos dos alimentos dado o abundante abastecimento

    alimentar (ABRAMOVAY, 1998). Cabe lembrar que os Estados Nacionais contriburam para

    25 O Projeto Rurbano, sob a liderana de Graziano da Silva, foi um estudo elaborado em trs etapas com o intuito

    de se conhecer a nova configurao do mbito rural brasileiro, o qual sofreu grandes transformaes nos ltimos

    anos. Sobre o Projeto Rurbano ver CAMPANHOLA, GRAZIANO DA SILVA; (2000) e (2004).

  • 51

    essa situao de transferncia de renda, no permitindo que a grande pulverizao das

    estruturas agrcolas representasse atraso quanto ao progresso tcnico.

    A busca pelo progresso tecnolgico, atividade intrnseca ao capitalismo, quando

    exercido em atividades competitivas tendem a significar em rebaixamento de preos, e o

    mesmo acontece nas atividades agrcolas. Historicamente, segundo Abramovay (1998), os

    produtores familiares quando suscetveis a rebaixamento de preos via concorrncia, tendem a

    se endividarem, visto que as taxas de retorno situam-se aqum de seu custo de oportunidade.

    O investimento feito pelos pequenos produtores familiares mesmo diante um retorno inferior

    aos seus custos de oportunidade so explicados pela escassez de oportunidade de trabalho fora

    da agricultura e, sobretudo pela substituio de renda presente por renda futura, expressa pela

    valorizao de suas propriedades. Neste sentido a interveno Estatal na forma de controle de

    preos vital para a sade financeira e permanncia dos pequenos produtores.

    A interveno do Estado na agricultura, prtica comumente estabelecida nos pases

    centrais no ps-guerra, deve ser vista para alm da defesa dos interesses de certos segmentos

    da classe capitalista, sendo uma ao que contempla a sociedade como um todo atravs da

    estabilizao dos preos agrcolas, beneficiando tanto o pequeno produtor, que se v

    protegido contra a constante queda nos preos, quanto o consumidor final, que se livra em

    parte dos preos praticados pelos monoplios presentes nas outras etapas fora da produo.

    Neste sentido a agricultura desempenhada pelos pases centrais, ao permitir uma oferta de

    alimentos capaz de promover o rebaixamento do valor da fora de trabalho, atende aos

    prprios preceitos da economia clssica (ABRAMOVAY, 1998).

    Visto as particularidades da agricultura e sua capacidade de influenciar aspectos fora de

    seu mbito, estudiosos e governos passaram a perceber o meio rural atravs de outro prisma,

    deixando para trs a viso distorcida de que a agricultura seria um apndice do sistema

    capitalista. Esta mudana de perspectiva se deu, sobretudo, devido ao deterioramento das

    condies de vida nos centros urbanos em decorrncia das sucessivas crises do sistema

    capitalista vivenciadas desde a dcada de 1970.

    A dcada de 1970 foi marcante para a questo rural brasileira, pois foi neste perodo que

    se iniciaram no pas as polticas de incentivo deliberado para a consolidao do agro- negcio,

    sendo os pequenos produtores marginalizados, sob a pena de terem suas terras incorporadas

    pelos grandes produtores e tendo que se deslocarem para outras atividades. Os centros

    urbanos, destino certo da maioria dessa populao marginalizada, cresceram, sendo suas

  • 52

    periferias o exemplo maior da degradao da condio humana, dada a falta de estrutura fsica

    e econmica para absorver essa parcela da populao.

    Conforme a situao nos centros urbanos se tornava insustentvel nas dcadas de 1980 e

    1990 dada as razes, j discutidas no capitulo 1, a populao rural brasileira parou de

    decrescer, configurando assim uma nova conjuntura. O meio rural passou desta maneira a ser

    a menina dos olhos dos intelectuais e policy makers, dada sua capacidade de controlar o

    fluxo populacional das grandes cidades. Tal feito possibilitado atravs de polticas pblicas

    especficas que garantam ao pequeno produtor uma condio de vida digna, capaz de mant-

    lo em sua terra, seja produzindo para o mercado ou para sua subsistncia, e sua produo no

    precisa ser necessariamente agrcola visto a ampla possibilidade a ser explorada de ocupaes

    no meio rural.

    A implantao de polticas pblicas e seus conseqentes benefcios para a populao

    rural enfrentam uma srie de desafios que precisam ser levados em considerao no momento

    em que tais polticas so elaboradas. As dificuldades presentes nestas reas so inmeras,

    compreendendo desde o enfrentamento das velhas e novas oligarquias locais precariedade

    de seus vnculos econmicos e sociais. Neste sentido, segundo Graziano da Silva (2001), o

    enfrentamento das imposies das elites locais, feito atravs da ampliao da participao da

    sociedade local de suma importncia para o desenvolvimento de territrios rurais

    deprimidos.

    Para alm do enfoque municipal, Veiga (2001) sugere que as articulaes institucionais

    de carter microrregional e intermunicipal contribuem ainda mais para o sucesso das novas

    polticas pblicas desenvolvimentistas, ampliando as possibilidades e potencializando o

    crescimento econmico e social do territrio, visto que a busca por esforos sinrgicos entre

    tais municpios favorecem a utilizao de suas vantagens comparativas e competitivas, ou at

    mesmo a sua construo.

    Destaca-se que a fim de se alcanar o desenvolvimento territorial levando em

    considerao a busca por sinergias entre municpios e os benefcios advindos dessa

    construo scio-produtiva, se mostra necessrio a realizao de diagnsticos dos principais

    problemas dos municpios membros e a elaborao de um plano de desenvolvimento. A

    articulao poltica entre os municpios e a consolidao de um pacto intermunicipal

    fundamental para a viabilizao do desenvolvimento territorial (ORTEGA, 2008).

  • 53

    Os pactos territoriais rurais tm na agricultura familiar um importante componente

    sinrgico, visto que ao seu redor, orbitam elementos chave para a dinamizao do ambiente

    rural. Segundo Ortega (2008), a expresso agricultura familiar ganhou destaque na literatura e

    nas polticas pblicas nacionais a partir de meados da dcada de 1990 e ganhou a chancela de

    categoria econmica26

    em 2006.

    Por agricultura familiar entende-se que a produo e a direo dos trabalhos no

    estabelecimento so exercidas pelo prprio produtor e o trabalho exercido pelos integrantes de

    sua famlia deve ser necessariamente superior ao trabalho contratado (FAO/INCRA, 2001).

    Para compreendermos a importncia da agricultura familiar no Brasil, o IBGE atravs do

    censo agropecurio de 2006 indica que 38% do PIB do agronegcio brasileiro composto

    pela agricultura familiar.

    Pode-se dizer que no seio das polticas pblicas de cunho territorial rural est a

    agricultura familiar, e devido s particularidades da agricultura, como o tempo biolgico da

    produo, surgem outras atividades exercidas por seus membros, dando origem s famlias

    pluriativas e a uma nova e ampla relao entre a populao rural e urbana.

    A diversidade territorial pode ser canalizada em vantagens econmicas para os

    territrios, sendo a potencializaro de tais vantagens feita atravs das polticas pblicas que

    levem em considerao seus aspectos territoriais. Essa abordagem que j ocorria na Europa,

    agora passa a ser parmetro para polticas pblicas em vrios pases, sobretudo no Brasil dos

    anos 2000, refletindo uma transio de entendimento sobre o meio rural, baseada cada vez

    mais na pluriatividade e na multifuncionalidade do rural.

    A pluriatividade, conceito relativamente novo, denominada por famlias rurais que

    conciliam entre seus membros atividades agrcolas e no agrcolas, no interior ou fora de seu

    estabelecimento rural. As famlias pluriativas, portanto, contribuem para o duplo papel de

    evitar o vazio populacional nas reas rurais, concomitantemente evitando a sobrecarga na

    periferia das grandes e mdias cidades (NASCIMENTO, 2008).

    O termo famlias pluriativas ganhou destaque no Brasil a partir do momento que as

    transformaes no meio rural brasileiro ficaram mais evidentes. Dentre as transformaes que

    26 Atravs da Lei 11.322/06 instituiu-se a poltica nacional de agricultura familiar e de empreendimentos

    familiares rurais, tornando a agricultura familiar em uma categoria produtiva econmica, seguindo os parmetros

    de enquadramento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) do Ministrio

    do Desenvolvimento Agrrio (ORTEGA, 2008).

  • 54

    compem o novo rural brasileiro, segundo Graziano da Silva (2002), esto a consolidao do

    agronegcio, intimamente ligado a agroindstria e com forte presena de commodities; o

    surgimento de atividades no agrcolas, como a prestao de servios, atividades ligadas ao

    lazer e s atividades industriais; e um conjunto de atividades ligados a nichos especiais de

    mercado. Muitas dessas atividades j existiam, porm agora esto reconhecidamente anexadas

    ao mercado.

    Em virtude das transformaes ocorridas no mbito rural brasileiro as polticas pblicas

    orientadas para o desenvolvimento territorial rural passaram a explorar o carter pluriativo e

    multifuncional dos estabelecimentos rurais, finalmente se desvinculando da tradicional viso

    dicotmica. A manuteno da anlise dicotmica implicaria num anacronismo e dificultaria o

    prprio entendimento dos territrios e a concepo de polticas pblicas (ORTEGA, 2008).

    O enfoque territorial dado a tais polticas procura conceber o territrio como um espao

    contnuo, capaz de correlacionar foras e atividades diversas em prol de um dinamismo

    econmico promovendo assim a melhoria das condies de vida de sua populao. No

    obstante, as famlias pluriativas so extremamente bem vindas neste panorama a exemplo do

    sucesso alcanado na Unio Europia (EU) e sua Poltica Agrcola Comum (PAC).

    A forte presena das famlias pluriativas e seu crescimento na Unio Europia (EU) se

    devem sem sombra de dvidas a sua Poltica Agrcola Comum (PAC), que forneceu

    condies para a sustentao das famlias rurais atravs da conciliao de atividades agrcolas

    e no agrcolas, numa conjuntura em que essas famlias pluriativas provavelmente

    sucumbiriam dada a penetrao do capitalismo nas reas rurais da comunidade. A PAC

    europia pode ser dividida em duas fases, pr e ps-reforma, em que estiveram sempre

    presentes polticas pblicas orientadas para a preservao do principal aspecto da

    pluriatividade: a vinculao dos agricultores a uma atividade agrcola (NASCIMENTO,

    2008).

    Durante a primeira fase (pr-reforma) a PAC27

    consolidou as pr-condies para que a

    pluriatividade se expandisse, em que segundo Marques apud Nascimento (2008) o que

    possibilitou essa expanso foi a construo de uma poltica de preos comuns elevados e

    27 O Tratado de Roma de 1957 apontava os objetivos da PAC como: i) Aumento da produtividade agrcola

    atravs do progresso tcnico e da manuteno do desenvolvimento racional da produo agrcola; ii) Promover e

    assegurar um padro justo de vida para a comunidade agrcola, em particular pelo crescimento dos ganhos

    individuais das pessoas inseridas nas atividades agrcolas; iii) Estabilizao dos mercados; iv) Assegurar a

    disponibilidade de oferta; v) Assegurar preos razoveis da oferta. (HILL, 1984 apud NASCIMENTO, 2008).

  • 55

    estveis capazes de garantir a realizao da produo e sua conseqente remunerao por

    parte de todos os produtores da comunidade. Apesar de os produtores mais capitalizados

    terem sido os que mais se beneficiaram com a poltica de preos comuns elevados, essa

    poltica protegeu os produtores menos eficientes das foras do mercado.

    Segundo Nascimento (2008), a poltica de garantia de preos comuns elevados foi

    legitimada perante a sociedade devido ao seu carter social, dada a preservao de um grande

    nmero de agricultores familiares no eficientes, mas tambm devido ao seu apelo pelo fim da

    dependncia externa e sobre a segurana alimentar europia.

    O carter social fica evidente ao analisarmos o artigo 43 da conferncia de Stresa de

    1958 que versa sobre os objetivos da PAC. Dentre os objetivos que nos cabe mencionar esto:

    i) a preservao da estrutura familiar da unidade produtiva, ii) o incentivo a indstrias rurais

    com o intuito de fornecer oportunidades de emprego; iii) promover assistncia ao excedente

    de trabalho agrcola e ajuda especial a regies em desvantagem (HILL apud NASCIMENTO,

    2008).

    Apesar da PAC ter sido extremamente eficiente em reduzir o xodo rural, estudiosos

    apontam que passou a existir na Europa uma grande pulverizao de pequenos produtores

    ineficientes, que se mantiveram vinculados explorao agrcola graas aos benefcios da

    PAC. A princpio houve tentativa de uma reforma28

    para eliminar esses ineficientes, porm a

    proposta no foi posta em prtica devido ao grande impacto social que a medida acarretaria.

    Neste sentido, ressalta-se que por se tratarem de famlias pluriativas, outras formas de renda

    so possveis, portanto a vinculao renda agrcola no necessria, e sua ausncia no

    impede o acesso dessas famlias a outros tipos de assistncia governamental, como por

    exemplo, a aposentadoria (NASCIMENTO, 2008).

    A segunda fase da PAC (ps-reforma) elaborada em meados da dcada de 1980

    caracterizada pelas reformas feitas no programa em decorrncia do excesso de oferta

    alcanado, sendo, portanto necessrios ajustes estruturais na tentativa de reduo da produo

    e dos excedentes. Ademais, a princpio estava em discusso a limitao da proteo social

    intrnseca PAC (NASCIMENTO, 2008).

    28 O Plano Mansholt foi uma tentativa de reforma da PAC com intuito de elevar a renda do setor atravs da

    diminuio do nmero de produtores e propriedades. O Plano defendia a modernizao e a ampliao do

    tamanho das propriedades (HILL, 1984 apud NASCIMENTO, 2008).

  • 56

    Apesar da primeira etapa da PAC ter viabilizado estabelecimentos inviveis atravs

    de sua vinculao com a agricultura, o programa necessitava de ajustes para aumentar sua

    eficincia quanto gerao de ocupaes no campo. Desta maneira, houve a necessidade de

    se implementar o programa, atravs de novas estratgias e atuaes, desta vez voltadas para

    incentivar a pluriatividade. Nascimento (2008) ressalta que mesmo atravs de novas medidas,

    a pluriatividade no cresceria sem que houvesse ampliao de fato dos gastos do Fundo

    Europeu de Orientao e Garantia Agrcola (FEOGA).

    O crescimento da pluriatividade segundo Nascimento (2008) est mais relacionado

    questo do domicilio rural estar vinculado atividade agrcola, do que na ampliao das

    oportunidades ocupacionais no agrcolas nos entornos das reas rurais. Vale dizer que

    mesmo com os investimentos em infra-estrutura, promoo de ocupaes rurais no agrcolas,

    dentre outras polticas de desenvolvimento rural propostas pela reforma da PAC, a

    pluriatividade ainda depender dos montantes envolvidos no apoio financeiro aos pequenos

    produtores.

    A segunda etapa da Poltica Agrria Comum europia foi bem sucedida em promover o

    aumento das famlias pluriativas, principalmente porque o montante financeiro destinado aos

    pequenos produtores se elevou. As polticas de incentivo ao vinculo agrcola, mesmo que para

    preservar uma determinada rea rural, fundamental para a sustentabilidade do crescimento

    da pluriatividade. Ressaltando a relevncia do papel do Estado para a regulamentao da

    atividade agrcola, visto que sem suas polticas, o xodo rural e a deteriorao da condio de

    vida nas cidades se acentuariam (NASCIMENTO, 2008).

    Fazendo um paralelo entre as polticas orientadas para o mbito rural entre a Unio

    Europia e o Brasil, nota-se que na UE a despeito de sua poltica Agrcola Comum (PAC)

    favorecer tambm os grandes proprietrios, houve desde o final da dcada de 1950 a

    preocupao central de apoiar as estruturas consideradas ineficientes quanto ao mercado,

    havendo, portanto um mnimo de preocupao com a questo social e por isso a pluriatividade

    na EU passvel de crescimento. J no Brasil, devido a tradicional falta de apoio aos

    pequenos produtores, a pluriatividade est fadada ao declnio se nada for feito em relao aos

    moldes da modernizao a qual o rural brasileiro passa (NASCIMENTO, 2008). Pois, como

    foi posto no captulo 1, a modernizao da agricultura brasileira se preocupou apenas em

    inserir as regies menos dinmicas no mbito de produo capitalista, priorizando aes que

  • 57

    dessem maior produtividade agricultura, enquanto as relaes sociais no campo, ou a

    questo agrria era postergada.

    Desta maneira, a implantao de polticas pblicas orientadas para o desenvolvimento

    territorial rural precisa necessariamente entender o rural como um espao onde variadas

    atividades se estabelecem, e que muitas vezes o urbano e o rural se misturam, e a

    pluriatividade e a multifuncionalidade, intimamente ligadas a esse panorama, devem ser

    trabalhadas caso se almeje alguma melhoria das condies de vida nos territrios rurais

    deprimidos ou mesmo nos centros urbanos. No obstante, polticas pblicas cada vez menos

    homogneas devem ser orientadas levando em considerao os aspectos do territrio, como

    suas especificidades, seus vnculos histricos e sua dinmica a fim de potencializar seus

    resultados.

    Destarte, devido a complexidade dos fatores envolvidos no processo de

    desenvolvimento de reas rurais deprimidas, faz se necessrio a forte presena do Estado

    como um ente alocador de foras e recursos, capaz de levar a essas reas a qualidade de vida e

    a dignidade que a populao rural merece por direito, e que se deixadas a merc do mercado

    ou de interesses particulares, tal processo dificilmente ocorreria.

    2.3 - Polticas Pblicas de recorte territorial nos governos FHC e Lula

    As polticas pblicas visando o desenvolvimento territorial no Brasil so de origem

    recente, mais precisamente foram implantadas em meados da dcada de 1990 no primeiro

    mandato de Fernando Henrique Cardoso (FHC). O mbito territorial e os aspectos locais

    trabalhados junto s esferas superiores do Estado se tornaram caractersticas dessa nova

    abordagem poltica de busca pelo desenvolvimento territorial, sobretudo em territrios rurais,

    tradicionalmente deprimidos.

    As polticas pblicas voltadas para o desenvolvimento das regies deprimidas devem

    necessariamente ser orientadas para vrios aspectos e setores econmicos, pois se verifica, e

    no de hoje, que o ambiente deprimido, tradicionalmente rural, dotado de inmeras

    caractersticas que fazem o rural e o urbano se interligarem, sendo difcil a delimitao de

    suas fronteiras.

    Nesta perspectiva, levando em considerao tanto os aspectos endgenos como os

    exteriores ao desenvolvimento territorial, ressaltamos que a participao do Estado na

  • 58

    elaborao e na gesto de tais polticas, que iniciadas com FHC e aprofundadas nos Governos

    Lula, so de suma importncia para dar condies de desenvolvimento a regies que deixadas

    a merc das forcas de mercado, provavelmente sucumbiriam.

    As polticas pblicas elaboradas a partir de 1994 com o governo de Fernando Henrique

    Cardoso (FHC) foram pioneiras na questo de trabalhar a mobilizao social, o capital social

    e as demandas locais com o planejamento estatal, e apesar de no contar com uma conjuntura

    econmica favorvel, em decorrncia do foco principal da poltica econmica ser o controle

    da inflao, a iniciativa foi um grande passo para superao da excluso social e para o

    combate pobreza.

    Inicialmente no governo FHC as polticas de desenvolvimento rural estavam delegadas

    a departamentos com pouco poder de influncia sobre a elaborao de polticas orientadas

    para o mbito agrrio brasileiro. Conforme as manifestaes no campo se acendiam, com

    discusses acerca da reforma agrria e o fortalecimento do movimento dos sem terras, o

    tratamento dado a tais questes mudou por parte do governo que criou em 1996 o Gabinete

    Extraordinrio de Poltica Fundiria, e criou em 1999 o Ministrio do Desenvolvimento

    Agrrio (MDA), retirando definitivamente tais assuntos do Ministrio da Agricultura,

    Pecuria e Abastecimento (ORTEGA, 2008).

    Os Planos Plurianuais (PPAs) Brasil em Ao elaborado no primeiro mandato de FHC e

    o Avana Brasil elaborado no segundo tinham como idia norteadora para as polticas

    regionais o estmulo insero competitiva dos espaos regionais e locais nos mercados

    globalizados, sob a pretenso de que aquelas regies e setores pudessem contribuir para a

    maior competitividade externa brasileira (ORTEGA, 2008). Ademais o combate pobreza e

    misria ganhou espao na agenda do governo, que propunha uma maneira nova de atuao,

    focada numa maior interao entre as esferas pblicas e as comunidades e suas demandas, ou

    seja, a perspectiva de desenvolvimento local serviu de base para a elaborao desses projetos.

    O Programa Comunidade Solidria (PCS) foi criado em 1995 no primeiro mandato do

    governo FHC sob a percepo de que as polticas pblicas de cunho social eram trabalhadas

    de forma fragmentada e imposta de cima para baixo, ou seja, eram concentradas no mbito

    federal, o que acabava por comprometer a eficcia de tais aes. Neste sentido a agenda de

    trabalho do PCS foi orientada para a elaborao de projetos em conjunto com as comunidades

    mais pobres, envolvendo vrias esferas de governo e da sociedade, inclusive com a

  • 59

    possibilidade de participao da iniciativa privada, ressaltando mais uma vez o vis local de

    desenvolvimento utilizado.

    A promoo de parcerias entre as esferas de governo e as organizaes da sociedade

    civil era feita por intermdio do Conselho da Comunidade Solidria (CCS), formado por

    ministros e representantes da sociedade civil (ORTEGA, 2008). Tais projetos visavam atender

    as demandas da populao carente com foco sobre a reduo da mortalidade infantil, a

    melhora no nvel de ensino, a gerao de renda e de ocupao, a promoo da qualificao

    profissional, a melhoria na alimentao, no saneamento bsico e na agricultura familiar

    (BRASIL, 1997).

    Dando continuidade ao Programa Comunidade Solidria, em 1999, foi criado o

    Programa Comunidade Ativa (PCA) vinculado Secretaria Executiva do Programa

    Comunidade Solidria. O PCA tinha como objetivo principal o combate pobreza e a

    promoo do desenvolvimento, e para tanto contou com a ajuda do programa de induo do

    Desenvolvimento Local e Integrado Sustentvel (DLIS), que sob a perspectiva local, visava o

    desenvolvimento dos territrios mais deprimidos, e operava junto s esferas municipais,

    estaduais e privadas. A inteno era fomentar a criao e a organizao do capital social local,

    para dessa forma vislumbrar alguma chance de desenvolvimento econmico vinculado

    incluso social (MENDONA e ORTEGA, 2009).

    O DLIS atuava de forma a incentivar a participao dos atores locais na esfera pblica,

    atravs da cooperao e do estmulo da participao democrtica em processos decisrios,

    representando assim, um novo paradigma acerca de polticas pblicas de incluso social no

    Brasil. O projeto previa a capacitao de gestores locais nos municpios alvo, o apoio a

    projetos voltados para o desenvolvimento local integrado e sustentvel, a capacitao de

    tcnicos multiplicadores, diretores de laboratrios organizacionais e empreendedores

    (BRASIL, 2001).

    Segundo Franco (2002), o DLIS representava uma nova aposta para a criao de

    ambientes favorveis ao desenvolvimento, dada a capacidade que o projeto tinha de

    minimizar os efeitos da cadeia clientelista e da captura de interesses por parte de atores sociais

    mais fortes que contribui para minar a consecuo do capital social.

    O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) criado em

    1996 durante a primeira gesto de FHC foi um importante marco para a questo agrria

  • 60

    brasileira, representando um grande incentivo para a formao de capital social e para o

    prprio desenvolvimento de territrios deprimidos. Junto ao PRONAF funcionava os

    Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural (CMDR), que fruto do processo de

    redemocratizao brasileira vivenciado nos ltimos anos era composto em 50% de

    representantes dos agricultores familiares e tinha por objetivo a elaborao do Plano

    Municipal de Desenvolvimento Rural (PMDR) contendo as diretrizes para a aplicao dos

    recursos oriundos do PRONAF (BRASIL, 2004).

    O PRONAF foi criado para atender as necessidades de uma parcela negligenciada de

    agricultores familiares aps a constatao29

    de que grande parcela do total de produtores

    agrcolas era composta de agricultores familiares, e que estes no tinham o apoio necessrio

    que tal atividade demandaria. O programa constitui-se no fornecimento de vrias linhas de

    crdito com baixas taxas de juros orientadas para as necessidades do agricultor familiar e suas

    associaes, com o intuito de promover o desenvolvimento sustentvel desses produtores,

    assim como aumentar sua produtividade e renda, sendo que os recursos liberados podem ser

    usados tanto em atividades agropecurias como em no agropecurias.

    O programa contou at o ano de 2003 com trs linhas de financiamento orientadas para

    as especificidades do pblico para o qual dirigido: Capacitao, Infra-Estrutura e Servios e

    Crdito. A alocao das duas primeiras linhas de crdito era orientada pelos CMDRS

    (Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural e Sustentvel), entidades obrigatrias nos

    municpios selecionados, com o intuito de promover melhorias nas comunidades rurais

    municipais. Aps 2003, com a criao do Programa de Desenvolvimento Sustentvel dos

    Territrios Rurais (PRONAT), o Pronaf ficou restrito ao crdito agrcola, enquanto coube ao

    Pronat o fornecimento de recursos para as demais aes voltadas para o desenvolvimento dos

    territrios.

    O PRONAF Capacitao era destinado a habilitar tanto os produtores quanto os agentes

    que trabalham para o Estado dando apoio tcnico ao programa. A qualificao dos

    agricultores familiares necessria para facilitar a produo e a insero de seus produtos no

    mercado. J o treinamento dos tcnicos fundamental, visto que trabalham para viabilizar a

    29 A FAO e o INCRA realizaram um estudo em 1994 acerca das caractersticas da agricultura brasileira,

    apontando instrumentos de poltica destinados agricultura familiar. No estudo constatou-se que 75% dos

    estabelecimentos rurais eram compostos por agricultores familiares, representando 22% da rea total utilizada,

    contavam com 60% do pessoal ocupado e eram responsveis por 28% do valor da produo agropecuria. Alm

    disso, do total de financiamentos 44% eram destinados a agricultura familiar, porm representaram apenas 11%

    do montante disponibilizado (ORTEGA, 2008).

  • 61

    implementao das polticas atravs do levantamento das demandas dos agricultores

    familiares, atuando junto as esferas municipais, estaduais e federal (ORTEGA, 2008).

    O PRONAF Infra-estrutura e Servios foi criado para garantir o pleno funcionamento da

    agricultura familiar, sendo concedido para os municpios e depois repassado aos CMDRS, o

    crdito usado para implantao, ampliao e para a modernizao da infra-estrutura

    necessria para o apoio aos agricultores. A princpio o crdito era fornecido aos municpios

    que atendessem a critrios especficos, como a predominncia de produtores familiares e o

    perfil rural, pobre e de baixa produtividade. Posteriormente, em 2003, dado o advento dos

    Territrios Rurais, o critrio de seleo mudou, sendo priorizados os municpios incorporados

    pelo programa (ORTEGA, 2008).

    Apesar das dificuldades de operacionalizao do programa, a linha de crdito

    PRONAF Infra-estrutura e Servios foi bem sucedida e merece destaque, pois conseguiu de

    certa maneira eliminar muitos gargalos que at ento dificultavam ou impediam os

    agricultores familiares a produzirem. Esta linha de crdito foi orientada tanto para a melhoria

    da infra-estrutura local como para a aquisio de assistncia tcnica e apoio de pesquisas

    agropecurias (BRASIL, 2000 apud MENDONA e ORTEGA, 2009).

    O PRONAF crdito voltado para o produtor individual, e concedido por instituies

    bancrias mediante a apresentao e aprovao de projetos elaborados pelos pequenos

    produtores. A liberao dos recursos se d de maneira diferente do PRONAF infra-estrutura e

    servios e do PRONAF capacitao, no havendo, portanto a priorizao de determinadas

    localidades para o crdito ser liberado, em regra sua liberao feita diretamente entre o

    Banco e o demandante do crdito. Tal modalidade a que representa a maior liberao de

    recursos, sendo o Banco do Brasil o agente financeiro de maior participao (ORTEGA,

    2008).

    De acordo com o MDA, dentro do mbito do PRONAF Crdito, as linhas de

    financiamento so definidas de acordo com o enquadramento das unidades de produo

    familiares rurais nos seguintes grupos:

    PRONAF Grupo A: Orientado para ser o primeiro crdito dos assentados da reforma

    agrria, com o objetivo de auxiliar na estruturao de suas unidades produtivas.

  • 62

    PRONAF Grupo B: Crdito orientado para combater a pobreza rural, sendo seus recursos

    investidos para fomentar qualquer atividade geradora de renda. So contemplados os

    agricultores detentores de renda anual bruta de R$2 mil.

    PRONAF Grupo C: Crdito de custeio e de investimento para agricultores com renda

    familiar bruta anual superior a R$2 mil e inferior a R$14 mil.

    PRONAF Grupo A/C: Crdito de custeio destinado aos produtores que j adquiriram o

    crdito atravs do Grupo A, so, portanto orientados para os recm assentados da reforma

    agrria.

    PRONAF Grupo D: Crdito de custeio e de investimento para agricultores cuja renda

    familiar anual bruta est entre R$14 mil e R$40 mil.

    PRONAF Grupo E: Destinado aos agricultores com renda familiar bruta anual entre R$40

    mil e R$60 mil, orientados para o financiamento e o custeio da produo.

    Outras linhas de crdito so fornecidas e cada uma atende a uma funo especfica em

    prol do desenvolvimento das regies rurais deprimidas. Ressalta-se que a pluralidade de

    crditos visa atender os aspectos multifuncionais da dinmica rural, com destaque para a

    pluriatividade. A seguir encontram-se as demais linhas de crdito segundo o MDA:

    PRONAF Alimentos: Crdito especial para estimular a produo de alimentos bsicos

    presentes na dieta dos brasileiros, como arroz, feijo, mandioca, milho e trigo.

    PRONAF Semi-rido: Crdito especial para agricultores de regies semi-ridas,

    destinado para obras voltadas a captao de gua e sua distribuio.

    PRONAF Mulher: Crdito voltado para mulheres agricultoras, sendo o montante at 50%

    maior no caso dos Grupos C e D.

    PRONAF Jovem Rural: Crdito destinado a jovens de 16 a 25 anos que estiverem

    cursando o ultimo ano de escolas tcnicas, o crdito pode ter o montante aumentado em

    at 50% nos casos do Grupo C e D.

    PRONAF Pesca: Linha destinada modernizao e produo de pequenos pescadores

    cuja renda familiar bruta anual seja de at R$40 mil.

    PRONAF Florestal: Crdito destinado aos pequenos agricultores vinculados

    preservao e plantio de espcies florestais, implementao de projetos de manejo

    sustentvel, reflorestamento e sistemas agro-florestais.

    PRONAF Agroecologia: Crdito orientado para o incentivo de projetos na rea

    agroecolgica e de desenvolvimento sustentvel.

  • 63

    PRONAF Pecuria Familiar: Crdito orientado para a aquisio de animais voltados para

    a pecuria de corte, como os bovinos, caprinos e ovinos.

    PRONAF Turismo da Agricultura Familiar: Crdito para o desenvolvimento e

    implementao de projetos orientados para o turismo rural, como hotis fazendas e

    restaurantes.

    PRONAF Mquinas e Equipamentos: Crdito orientado para a modernizao das

    propriedades e da produo dos pequenos produtores.

    Em maro de 2008 o Banco Central publicou a Resoluao n3.559 promovendo

    alteraes no captulo 10 do Manual do Crdito Rural (MCR), captulo este que trata dos

    crditos destinados ao PRONAF. Dentre as mudanas ocorridas encontram-se a extino dos

    grupos C, D e E, criando um escalonemanto nos encargos financeiros de acordo com o

    volume de crdito concedido tanto para custeio como para investimento. Desta maneira, os

    grupos extintos passaram a ser enquadrados no Grupo Agricultores Familiares, englobando os

    produtores detentores de at quatro modulos fiscais, com mnimo de 70% da renda familiar

    oriunda da explorao agropecuria e atividades no-agrcolas no estabelecimento, com mo-

    de-obra familiar preponderante, admitido a contratao eventual de trabalho assalariado,

    podendo manter at dois empregados permanentes e renda bruta anual de R$ 4.000,00 at R$

    110.000,00 (BONATO, 2008).

    O PRONAF e seus mecanismos de fornecimento de crdito voltados para os

    agricultores familiares, apesar de representar um sistema exclusivo e criado para atender essa

    parcela de produtores, ainda no consegue atingir todos os produtores familiares. A

    dificuldade de acesso ao crdito apontado por pesquisadores30

    como o principal entrave ao

    pleno funcionalmento do programa, sendo as principais dificuldades a necessidade de aval, a

    imposio de servios que encaressem os emprstimos pelos bancos e ainda a dependncia

    explcita da aprovao dos gerentes que ainda relutam em aprovar os emprstimos mesmo

    com um baixssimo nvel de inadimplncia (ORTEGA, 2008).

    As polticas pblicas de cunho territorial a exemplo do PRONAF passaram por

    aprimoramento ao longo de suas atuaes conforme novas demandas surgiam. Neste sentido o

    Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentvel foi criado em 1999 para deliberar

    sobre os PMDRs de origem municipal e aprovadas pelos Conselhos Estaduais de

    Desenvolvimento Rural Sustentvel. Ao CNDRS ficava a incumbncia de determinar e gerir

    30 Ver FERNANDES (2011).

  • 64

    as diretrizes e metas dos seguintes programas: Programa Nacional de Reforma Agrria, Fundo

    de Terras e Reforma Agrria, Banco da Terra e PRONAF, sendo que ao final do governo de

    FHC, sob os cuidados de Jos Eli da Veiga, o CNDRS apresenta uma nova orientao de

    atuao sobre o desenvolvimento rural (ORTEGA, 2008).

    Segundo Ortega (2008), O CNDRS no findar da gesto FHC apresentava quatro

    programas bsicos que norteavam suas atuaes, sendo a Democratizao do acesso a terra, a

    ampliao e o fortalecimento da agricultura familiar, a construo da educao rural e a

    diversificao das economias rurais, os pilares que sustentavam a nova estratgia de

    desenvolvimento brasileiro. Ressaltando que os dois primeiros programas j estavam em

    andamento no governo FHC, e os dois ltimos seriam implantados no governo Lula

    (ORTEGA, 2008).

    A reformulao apresentada pelo CNDRS procurava ampliar o poder dos PNDRS na

    promoo do desenvolvimento rural e conforme relata Veiga (2001), o PNDRS deveria ser

    um plano de desenvolvimento para todos os municpios rurais contendo diretrizes, objetivos e

    metas que reforcem as sinergias entre a agricultura e os setores tercirio e secundrio de suas

    economias, alm de promover formas de empreendedorismo que possam explorar as

    vantagens comparativas e competitivas dos territrios onde esto inseridos. J em meados dos

    anos 2000 o PTDRS passou a exercer as funes antes delegadas ao PNDRS ao nvel

    municipal, tendo inclusive papel relevante na prospeco das demandas dos municpios.

    No incio do governo Lula em 2002 a questo territorial passou a ser o ponto central nas

    polticas acerca do desenvolvimento rural no pas, sendo as estratgias button-up e top-down

    de interveno e a tentativa de superao da dicotomia rural-urbano marcantes em seus

    mandatos.

    Nesta perspectiva foi criada a Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT), no

    mbito do Ministrio do Desenvolvimento Agrrio (MDA). Esta reorientao convergia com

    as aes definidas no 1 Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentvel idealizado tambm

    em 2002 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentvel (Ortega, 2008).

    Neste sentido a Secretaria de Desenvolvimento Territorial adotou polticas de carter

    territorial no intuito de possibilitar maior capacidade de interlocuo entre os atores sociais e

    o poder pblico, a fim de promover o desenvolvimento dos territrios onde predominem

  • 65

    agricultores familiares e beneficirios da reforma e do re-ordenamento agrrio, contribuindo

    ainda para a ampliao do capital social local e da autogesto dos territrios (Brasil, 2003).

    O Programa Fome Zero implementado j no incio do primeiro mandato do governo

    Lula, propunha a vinculao da erradicao da fome com desenvolvimento econmico e

    social, por meio dos CONSADs, Consrcios Intermunicipais de Segurana Alimentar e

    Desenvolvimento Local, que foram estabelecidos, sobretudo em territrios deprimidos.

    Dentro desta perspectiva, a intensificao da produo de alimentos, a utilizao de insumos

    modernos, a ampliao de pesquisas agropecurias, a capacitao dos produtores, melhorias

    tcnicas acerca da irrigao e armazenamento foram tomados como prioridade no programa

    (Ortega, 2008).

    Os CONSADs, de maneira geral, ficaram responsveis pela promoo de projetos

    concebidos entre a sociedade civil e o poder pblico, assim como o fornecimento de apoio

    tcnico e de aval institucional para a obteno de crdito junto a entidades governamentais e

    privadas nacionais e internacionais, evidenciando o carter estratgico botton-up presente

    nas polticas implantadas nos governos Lula.

    A partir da criao da SDT, a linha de financiamento do PRONAF Infra-estrutura e

    servios passou a dar suporte para os Territrios Rurais (TRs) com o intuito maior de

    promover o desenvolvimento endgeno local em regies onde elementos como a coeso

    social, cultural e territorial esto vinculados ao fator rural, ou seja, territrios

    compreendidos por espaos urbanizados, podendo ser pequenas e mdias cidades, vilas e

    povoados. Dentro desta perspectiva no ano de 2008 foram instalados 160 Consrcios

    Intermunicipais de Desenvolvimento Rural Sustentvel (ORTEGA, 2008).

    Os Territrios Rurais (TRs) instalados foram delimitados segundo alguns critrios que

    elegeram os mais deprimidos e dotados de alguma identidade regional como prioritrios para

    o programa. Visto que os territrios rurais so tradicionalmente deficitrios quanto ao nvel de

    pobreza, o governo previa com o programa a insero desses territrios nos eixos mais

    dinmicos de mercado, atravs da introduo de novas tecnologias produtivas e

    organizacionais, tudo isso feito sob a orientao estatal e com participao decisiva das

    prprias comunidades, ressaltando que o mbito rural passou a ser tratado como espao e no

    mais como um setor (ORTEGA, 2008).

  • 66

    Os Territrios da Cidadania (TCs) constituem outra poltica orientada para a reduo

    das desigualdades via superao da pobreza rural atravs da continuidade dada ao

    desenvolvimento territorial. Lanado em 2008 os TCs tem por objetivo o desenvolvimento

    econmico e a universalizao de programas bsicos de cidadania feitos atravs da integrao

    entre as comunidades e as esferas de governo, com destaque para a articulao entre o

    Governo Federal esferas municipais e estaduais (BRASIL, 2011).

    Os TCs foram instalados no ano de 2008 chegando a marca total de 120 territrios em

    2009, sendo o territrio do Noroeste de Minas Gerais um deles. Destaca-se uma inovao

    importante dos TCs em relao aos TRs, que passaram a articular-se de maneira vertical,

    cabendo ao Comit de Articulao Estadual o papel de intermediar as aes entre os

    representantes locais e os vrios rgos estaduais e federais. Participam do programa 19

    ministrios31

    , sendo 15 ministrios compondo seu Comit Gestor Nacional e que participam

    atravs de aes diretas (ORTEGA, 2008).

    Os Territrios da Cidadania so constitudos dentro da delimitao dos Territrios

    Rurais com prioridade para os denominados deprimidos. Os territrios que apresentam menor

    IDH, maior concentrao de agricultores familiares e assentados da reforma agrria, maior

    concentrao de populaes quilombolas e indgenas, maior nmero de participantes do

    Programa Bolsa Famlia, maior convergncia de programas de apoio ao desenvolvimento de

    distintos nveis de governo, menor dinamismo econmico, maior organizao social e sendo

    pelo menos um territrio por estado, so os critrios utilizados pelo programa para a

    determinao dos territrios (BRASIL, 2008).

    Os Colegiados Territoriais dos TCs agora passam a ser representados pelas trs esferas

    de governo alm dos representantes da sociedade civil local e da coordenao executiva,

    sendo tais parcelas composies paritrias. Segundo Ortega (2008), essa ampliao de

    representatividade apesar de ser positiva, far com que o processo de tomada de decises se

    torne ainda mais complexo, visto que a ampliao dos membros de diferentes esferas de poder

    e de segmentos sociais implica em ampliao das aes que passaram a ser dirigidas pelo

    colegiado.

    31 Ministrios do Desenvolvimento Agrrio/INCRA, Desenvolvimento Social, Sade, Educao, Integrao

    Nacional, Trabalho e Emprego, Meio Ambiente, Cidades, Minas e Energia, Secretaria de Polticas para

    Mulheres, Secretaria de Promoo da Igualdade Racial, Secretaria de Agricultura e Pesca, Justia/FUNAI,

    Agricultura, Pecuria e Abastecimento, Cultura, Secretaria Geral Planejamento, Secretaria de Relaes

    Institucionais e Casa Civil (ORTEGA, 2008).

  • 67

    As aes organizadas pelo Programa Territrios da Cidadania (TCs) foram concebidas

    seguindo sete vertentes de aes: Direitos e Desenvolvimento Social; Organizao

    Sustentvel da Produo; Sade, Acesso a gua e Saneamento; Educao e Cultura; Infra-

    estrutura; Apoio Gesto Territorial e Aes Fundirias. Em 2008, primeiro ano do

    programa, foram estabelecidas 135 aes distribudas entre essas vertentes, com um montante

    de recursos destinados de R$11,3 bilhes, para 2009 foram elaboradas 202 aes com o

    montante destinado de R$24 bilhes e para 2010 foram elaboradas 169 aes com valores

    destinados de R$27 bilhes (BRASIL, 2011).

    As polticas pblicas de recorte territorial implementadas nos governos FHC e Lula

    apesar de apresentarem uma linha de continuidade, se mostram diferentes em alguns aspectos,

    sendo tais diferenas de relevante impacto para os resultados obtidos com os programas.

    As rupturas entre as polticas recentes de desenvolvimento territorial rural so

    marcantes quanto a participao do Estado, visto que no governo Lula ocorre um maior

    esforo do Estado no fomento e na constituio de infra-estrutura bsica, em conjunto com

    aes voltadas para a constituio de arranjos produtivos locais, dando tambm maior

    respaldo para pequenos produtores. Outro trao inovador a ampliao do foco de alcance de

    tais polticas, passando de municipalista e agrarista para inter-municipalista e de superao da

    dicotomia rural e urbana.

    Visto as polticas de recorte territorial introduzidas nos governos FHC e aprimoradas

    nos governos Lula, podemos verificar algumas caractersticas que se fizeram notar ao longo

    de sua implementao, sendo tais caractersticas, em sua ampla maioria, dificuldades impostas

    ao desenvolvimento territorial pelas condies sociais e econmicas precrias existentes

    nestes territrios.

    No obstante, as dificuldades encontradas para a consecuo dos territrios rurais

    segundo Ortega (2008), podem ser sintetizadas em: Dificuldades para capacitar gestores com

    a finalidade de diagnosticar, formular e gerir projetos; Conflitos polticos que comprometem a

    eficcia das aes e as articulaes entre as diferentes esferas de poder em mbito horizontal e

    vertical; Carncia de infra-estrutura bsica; O ambiente macroeconmico nem sempre

    levado em considerao no momento da elaborao dos projetos; minimizao do papel do

    espao e das polticas nacionais; Necessidade de levar em considerao a histria e a insero

    das localidades na ordem capitalista; Critrios centralizados de seleo municipal; Problemas

    conjunturais de implementao, como distintos perodos eleitorais entre as esferas de

  • 68

    governo; Rivalidades polticas e falta de tradio entre municpios vizinhos e por fim a

    necessidade de um capital social mnimo para a construo de um pacto territorial.

    As polticas descentralizadas de recorte territorial, em se tratando de territrios cuja

    ausncia de dinamismo econmico marcante, mesmo que apresentem srias dificuldades

    que prejudiquem sua total eficincia, ainda se mostram mais eficientes em relao s polticas

    tradicionais centralizadas de recorte regional. Reitera-se que esforos na melhoria dessas

    polticas so fundamentais, sendo o monitoramento e a avaliao dos programas etapa

    importante desse processo.

    2.4 - O Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas

    O programa Territrios da Cidadania tem por objetivo promover o desenvolvimento

    econmico e a universalizao de programas bsicos de cidadania utilizando como estratgia

    o enfoque territorial e a sustentabilidade. Os territrios so delimitados de acordo com o grau

    de desenvolvimento dos municpios selecionados, sendo necessariamente rurais e deprimidos,

    e na tentativa de se construir um pacto territorial e utiliz-lo como trunfo para seu

    desenvolvimento, foram selecionados municpios com caractersticas similares ou

    complementares (BRASIL, 2011).

    O Territrio composto por 22 municpios: Arinos, Bonfinpolis de Minas, Brasilndia

    de Minas, Chapada Gacha, Dom Bosco, Formoso, Guarda-Mor, Joo Pinheiro, Lagamar,

    Lagoa Grande, Natalndia, Paracatu, Pintpolis, Presidente Olegrio, Riachinho, Santa F de

    Minas, So Gonalo do Abaet, So Romo, Uruana de Minas, Urucuia, Varjo de Minas e

    Vazante. O territrio, segundo dados do Ministrio do Desenvolvimento Agrrio, abrange

    uma rea total de 60.906,30Km2, possui uma populao de 298.837 habitantes sendo 79.907

    ou 26,74% oriundos das reas rurais, alm de possuir 13.965 agricultores familiares, 4.323

    famlias assentadas e 16 comunidades quilombolas (BRASIL, 2011). Ademais o territrio

    caracteriza-se por uma rea rural bem expressiva, com 70% dos estabelecimentos rurais

    composto por agricultura familiar, sendo que 60% do pessoal ocupado est no setor agrcola

    segundo dados do IBGE e das oficinas territoriais (PDTRS, 2010).

    Como grande parte dos municpios so ex-distritos, suas diferenas so pequenas,

    havendo, portanto a manuteno de suas identidades culturais como as grandes festas

    religiosas e tradicionais e a culinria especial. A agricultura familiar, junto aos assentamentos

  • 69

    da reforma agrria e os latifndios dividem o territrio, que ainda apresenta instituies

    fragilizadas e pouca articulao de atores sociais e entidades (PTDRS, 2010).

    A identidade do TCNM merece ateno parte dada sua grande extenso territorial.

    Apesar de haver sinergias entre os municpios mais prximos entre si, as disparidades so

    considerveis, pois quanto maior a extenso do territrio, maior a existncia de diferentes

    atores, diferentes climas, condio do solo, culturas agrcolas, populaes, dentre outros

    aspectos. A ttulo de comparao, o TCNM que possui 60.906,30Km2, maior que o Estado

    do Rio de Janeiro, que possui 43 696,054 km, segundo o IBGE. Portanto, sua grande

    extenso territorial se apresenta como um fator que dificulta a construo de uma coeso

    territorial capaz de contribuir para seu desenvolvimento econmico e social.

    O Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas como o nome nos indica, se situa na

    poro noroeste do estado de Minas Gerais, fazendo fronteira com o sul do Estado da Bahia e

    com o leste do Estado de Gois. O clima predominante no territrio o tropical semi-mido,

    sendo que as chuvas escassas e as altas temperaturas fazem do territrio uma localidade muito

    susceptvel seca. O territrio situa-se numa rea de planalto cortado por depresses e

    apresenta uma grande concentrao de recursos hdricos ainda a ser explorado. Sua ocupao

    teve incio no sculo XVII quando as primeiras bandeiras passaram pela regio, atualmente

    a regio do Estado que apresenta a menor densidade populacional, 4,8 hab/km2 sendo a mdia

    estadual de 30,5 hab/km2, alm de ser a regio menos povoada (PTDRS, 2010). A seguir

    encontra-se o mapa do territrio com seus 22 municpios:

  • 70

    Figura 1: Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas

    Fonte: MDA

    .O Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas Gerais tem em seu Colegiado

    Territorial um importante instrumento de articulao e de tomada de decises dentro do

    territrio, sendo ao mesmo tempo uma instncia consultiva e deliberativa. A participao da

    populao e a representatividade de suas classes e entidades muito bem vinda e atualmente a

    pluralidade de participaes tem sido satisfatria. O Colegiado Territorial se rene

    mensalmente em municpios pertencentes ao territrio, havendo um revezamento entre as

    cidades cede da reunio.

    O Colegiado Territorial, pea fundamental do Programa Territrios da Cidadania,

    fruto do trabalho das trs esferas de poderes: Federal, Estadual e Municipal, e dos atores

    sociais do territrio, sendo articulados da seguinte maneira: No mbito federal, o Ministrio

    do Desenvolvimento Agrrio (MDA), atravs da Secretaria de Desenvolvimento Territorial

    (SDT) responsvel pela operacionalizao das polticas territoriais, e para isso conta com o

    auxilio da Delegacia Federal do Desenvolvimento Agrrio (DFDA). Estas instituies

    delegaram APTA, uma Organizao No Governamental (ONG), a incumbncia de

    organizar, promover, estimular e mediar as reunies do Colegiado Territorial, compondo,

    portanto o Ncleo Gestor do Colegiado, junto com o Articulador Estadual (AE). O Ncleo

    Tcnico, que auxilia o Ncleo Gestor na execuo das plenrias, mas com nfase na

  • 71

    elaborao de projetos composto pelo Assessor Tcnico (AT), e pelas demais entidades

    presentes no territrio que prestam auxilio tcnico aos produtores, como a EMATER,

    Empresa de Assistncia Tcnica e Extenso Rural do Estado de Minas Gerais. Os Conselhos

    Municipais de Desenvolvimento Rural Sustentvel (CMDRS) e a Associao dos Municpios

    do Noroeste de Minas (AMNOR) representam a esfera municipal junto ao Colegiado.

    Ademais, ressalta-se a participao da Clula de Monitoramento, composta por pesquisadores

    da Universidade Federal de Uberlndia (UFU) e das associaes de classe que representam a

    populao nas plenrias, lembrando ainda que elas so abertas ao pblico.

    O Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentvel (PTDRS) do territrio do

    Noroeste de Minas inicialmente foi desenvolvido em 2006 por uma parceria entre a

    EMATER, a CIAT (Comisso de Implantao das Aes Territoriais) e a Plural Consultoria,

    Pesquisas e Servios. Este colegiado teve ainda o apoio da SDT/MDA atravs dos resultados

    do Estudo Propositivo para a Dinamizao Econmica (2006) e o Plano Safra (2006). A

    princpio o Colegiado do Territrio atualmente formado no reconhecia os documentos

    apresentados e a prpria legitimao do PTDRS, dada a falta da participao coletiva na

    construo desse plano. Com a implantao do Programa Territrios da Cidadania em 2008 e

    da consolidao do Colegiado Territorial, um novo PTDRS foi elaborado, sendo nele

    creditado grande importncia como fonte norteadora para o planejamento das aes

    territoriais (PTDRS, 2010).

    O Colegiado Territorial foi responsvel em 2010 pela elaborao e gesto de um novo

    PTDRS do Territrio do Noroeste de Minas e para tanto foram realizadas discusses nas

    plenrias com base em perguntas geradoras, orientando os debates em torno de temas

    relevantes para o desenvolvimento e consolidao de um pacto territorial, ressaltando que a

    pluralidade de representaes e atores sociais foi fundamental para se garantir uma maior

    abrangncia de temas. Os temas foram divididos em: Articulao e integrao das Aes

    Territoriais, visando identificar quais projetos e programas acontecem no territrio e como

    estes contribuem para o desenvolvimento territorial; Arranjo Poltico Institucional Local,

    visando identificar quais entidades e atores sociais locais de fato atuam no territrio; e

    Representao e Legitimidade, visando identificar a pluralidade de atores locais do territrio

    e suas participaes no colegiado (PTDRS, 2010).

    A concluso do PTDRS foi fundamental para nortear as aes e projetos a serem

    elaboradas no Territrio do Noroeste de Minas, pois atravs do plano foram definidas as

  • 72

    demandas e dificuldades do territrio ou o chamado diagnstico territorial, sendo ele

    apresentado em vrias dimenses: Dimenso Ambiental, Dimenso Socioeconmica,

    Dimenso Sociocultural/Educacional e a Dimenso Poltica Institucional. Todas elas

    apresentando as causas, os problemas, as conseqncias e as respectivas aes demandadas.

    Dentro da Dimenso Ambiental, verificam-se no territrio do Noroeste de Minas graves

    problemas ambientais que vo alm da ao natural das freqentes secas. O impacto negativo

    das aes poluidoras das mineradoras atuantes na regio e do desmatamento provocado pela

    produo de carvo se juntam s praticas predatrias da agropecuria no territrio, que

    merece um destaque a parte. A falta de qualificao dos produtores representada pelo uso e o

    descarte de pesticidas de maneira inadequada, pelo plantio em matas ciliares, a no

    conservao das nascentes e pela multiplicao da eroso no territrio tem implicado em forte

    impacto scio-econmico e ambiental, sendo tais problemas inclusive reconhecidos e

    apontados pelos prprios atores do territrio (EP, 2006). A seguir no Quadro 2.0 encontra-se

    o resultado dos debates acerca da questo ambiental no territrio:

    Quadro 1: Dimenso Ambiental

    Causa Problema Conseqncia Linhas de Ao Falta de rede de coleta de

    esgoto

    Falta de estao de tratamento do esgoto

    Ausncia de fossas nas

    comunidades rurais e

    construes de fossas

    inadequadas

    Falta de destino

    adequado de dejetos

    humanos e animais

    Coleta e tratamento de

    esgoto sanitrio

    Proliferao de insetos

    Epidemias

    Poluio do ar, gua e

    solo

    Projetos de Construo de

    rede de coleta de esgoto e

    estao de tratamento de

    esgoto

    Cobrar do poder pblico e

    entidades ambientais

    aes voltadas para a

    educao e regularizao

    ambiental

    Realizar diagnstico da

    situao de saneamento

    bsico rural

  • 73

    Faltam: informaes,

    conscientizao,

    fiscalizao

    Falta de estrutura pblica

    para atendimento (IEF,

    IGAM, SEMAD)

    Falta assistncia tcnica

    do INCRA

    Licenciamento/

    Regularizao ambiental

    Desmatamento

    desordenado

    Reduo das guas

    Extino de plantas e

    animais

    Degradao do solo

    Reduo de produtividade

    Assoreamento dos

    crregos, rios, lagoas e

    veredas

    Criao ou fortalecimento

    de Comits de Bacias

    Outorga de uso de guas

    Reverter multas para o

    municpio onde ocorrido o

    prejuzo ambiental

    multado

    Adequao do

    licenciamento ambiental

    para a agricultura familiar.

    Conscientizao da

    populao

    Falta de coleta seletiva

    Falta de usinas de

    reciclagem e

    decomposio

    Lixo

    Lixo: degradao

    humana, poluio visual

    Desperdcio de material

    reciclvel

    Implantao de usinas de

    reciclagem de lixo

    Implantao de coleta seletiva

    Projeto de conscientizao

    da populao atravs da

    mdia (jornal, TV, rdio,

    panfletos, etc) e de visita

    s residncias

    Criao de leis com multa

    para quem joga lixo em

    locais inadequados

  • 74

    Uso inadequado do solo

    Desmatamento

    Falta de prticas de

    conservacionistas

    Assoreamento dos

    recursos hdricos

    Falta de gua

    Desvalorizao da

    propriedade

    Eroso

    Perda da vegetao

    nativa

    Projeto de proteo de

    nascentes em parceria com

    IEF com arvores nativas

    (recomposio)

    Projeto de recomposio de matas ciliares

    Projeto de construo de

    Barraginhas em parceria

    com rgos pblicos

    (Prefeituras, Estado e

    Unio)

    Elaborao de curso de

    manejo adequado do solo.

    Assistncia tcnica dos

    rgos ambientais.

    Construo de poos

    artesianos

    Fonte: PTDRS (2010)

    A avaliao socioeconmica do territrio apontou a existncia de um ndice de

    Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) no valor de 0,71 considerado de mdio

    desenvolvimento. Ressalta-se que o ndice calculado levando em considerao os

    indicadores de educao, como a alfabetizao e a taxa de matrcula, a longevidade e a renda

    per capita dos municpios. Tais indicadores apresentaram mdias de 0,80 para a educao,

    0,73 para a longevidade e 0,60 para a renda, sendo que os ndices de educao e longevidade

    esto prximos a mdia estadual que respectivamente de 0,85 e 0,75 (PTDRS, 2010). O

    Quadro 2.1 apresenta as avaliaes socioeconmicas do territrio:

    Quadro 2: Dimenso Socioeconmica

    Causa Problema / Fato Conseqncias Linhas de Ao

    Herana cultural: folia de

    Reis, Folia do Divino,

    Expoagros, Festa de So Benedito, Santo Antnio do

    Boqueiro

    Riqueza cultural

    Apoio ao turismo s

    festas religiosas tradicionais

    Fortalecimento da

    cultura Maior movimentao

    nas cidades

  • 75

    Terra/solo das reas de

    alguns assentamentos so de

    baixa fertilidade

    Falta de fiscalizao das

    terras dos assentamentos

    Falta de recurso para

    investimento nos

    Assentamentos da Ref.

    Agrria

    Comunidade desunida; falta

    de organizao dos

    assentados

    Uso inadequado das reas

    de assentamento da

    Reforma Agrria:

    arrendamento, baixa

    produo agrcola,

    concentrao da

    produo familiar no leite

    Abandono dos

    assentamentos

    Venda dos lotes

    xodo rural

    Explorao das

    cooperativas de leite

    (Coopervap, Itamb, Capull) pela

    Agricultura Familiar

    Monocultura de terras

    arrendadas

    Prejuzo de recurso

    pblico

    Projetos que ajudem o

    Agricultor Familiar na

    correo do solo e meios

    para irrigao das

    culturas

    Buscar meios auto-

    sustentveis para se

    desmembrarem das

    cooperativas de leite

    Fiscalizar as terras/lotes

    para coibir negcios

    ilegais entre os posseiros

    da reforma agrria

    Organizar capacitao

    para formao de

    associaes para buscar

    benefcios e melhorias.

    Maior informao em relao a licenciamento

    Investimento em

    educao e sade.

    Mineradoras extraindo as

    riquezas, contaminando as guas, o solo, o ar, e os

    recursos repassados so

    mnimos

    Destruio do meio

    ambiente

    Diminuio na faixa de

    idade

    Alto ndice de cncer

    Denunciar as

    irregularidades das

    empresas que degradam

    o meio ambiente

    Menos burocracia e mais

    agilidade na aprovao

    do PDA

    Assistncia aos

    acampados

    Mais apoio e agilidade

    por parte do Incra.

    Fonte: PTDRS (2010)

    O turismo cultural e ecolgico apresenta-se como importante aliado na busca pelo

    desenvolvimento econmico e social do Territrio do Noroeste de Minas, mas encontra-se em

    estgio inicial de explorao. O municpio de Paracatu, fundado em 1840, mas que representa

    mais de 300 anos desde seu primeiro povoamento, foi tombado pelo Instituto do Patrimnio

    Histrico e Artstico Nacional no ano de 2010, sendo, portanto um importante destino

    turstico a ser explorado, sobretudo em perodos de carnaval. A cidade conta com infra-

  • 76

    estrutura hoteleira satisfatria, mas precisa ser aprimorada (PARACATU, 2011). A cidade

    ainda se apresenta como o principal plo econmico do territrio. Alm de Paracatu, o

    territrio conta com um universo de possibilidades a serem exploradas junto ao ecoturismo,

    mas a mo de obra para tais atividades ainda se mostra um entrave, de fato a mo de obra em

    geral se apresenta debilitada em todo o territrio.

    Acerca da dimenso Sociocultural e Educacional, o Territrio do Noroeste de Minas

    apresenta graves problemas relacionados a qualidade e a abrangncia da educao, visto que o

    percentual da populao com 15 anos ou mais analfabeta de 15,3%. A presena de

    responsveis por domiclios com idade escolar inferior a 4 anos, ou seja, de analfabetos

    funcionais de 45% da populao e esta bem acima da mdia estadual. J o ndice de alunos

    entre 7 e 14 anos matriculados nas escolas maior que a mdia do estado em 53% dos

    municpios do territrio (PTDRS, 2010). O Estudo Propositivo (2006) apontou ainda que o

    currculo escolar no est adequado realidade do homem do campo, sendo portanto,

    necessrio uma adequao para evitar o afastamento do adolescente das atividades rurais.

    Ademais a falta de transporte tambm apontada pelo colegiado como fator decisivo para o

    abandono escolar.

    Ainda de acordo com o Estudo Propositivo (2006), os movimentos sindicais entendem

    que a qualidade da educao no campo pedra fundamental para o processo de formao de

    cidados conscientes e crticos, capazes de entender e demandar seus direitos. Neste sentido,

    algumas escolas voltadas para a educao no campo, como a Escola Famlia Agrcola (EFA)

    de Natalndia, a Escola Tcnica de Una e os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais (STR)

    trabalham junto a famlias de agricultores familiares na busca por esses objetivos. O Quadro

    2.2 exibe as aes e as dificuldades encontradas pela Dimenso Sociocultural e Educacional

    no TCNM:

    Quadro 3: Dimenso Sociocultural e Educacional

    Causa Problema Conseqncia Linhas de Ao

    Falta Informao geral para

    registro da Comunidade Quilombola

    Registro das

    comunidades quilombolas

    Perda dos recursos

    disponveis para

    melhoramento da comunidade

    Legitimao do registro da

    Comunidade Quilombola

    atravs de fiscalizao e

    orientao de rgos

    competentes

    Alocao de recursos

    pblicos para o resgate da

    cultura quilombola

  • 77

    Enfraquecimento da

    educao no campo, falta de

    informao, conscientizao

    e formao

    Desvalorizao da

    agricultura familiar

    Perca da intimidade do

    jovem rural com o

    meio e o crescimento

    do xodo rural

    Buscar meios para

    melhorar a vida do

    pequeno produtor e a

    permanecia do jovem no

    campo

    Assistncia Tcnica

    diferenciada agricultura

    familiar e formao do

    jovem no campo

    Melhoria do transporte

    escolar

    Adequao do currculo e

    calendrio escolar para o

    meio rural

    Falta de registros da histria

    cultural e a perda da verdadeira identidade

    cultural

    Falta de certificao/

    titulao/ reconhecimento da

    populao quilombola.

    Desaparecimento das

    artes e ofcios (parteiras e

    benzedeiras).

    Junto aos grupos

    existentes, resgatar

    prticas culturais

    tradicionais atravs de

    eventos, trocas de

    experincia, organizao das associaes

    Melhoria do currculo

    escolar e programa

    Pouco envolvimento dos

    assentados com a construo

    coletiva da escola

    Dificuldade de

    financiamento

    Enfraquecimento da EFA

    (Escola Famlia

    Agrcola)

    Formao deficiente e

    a falta de valorizao

    do jovem para

    permanncia no campo

    Mobilizao de todo

    grupo envolvido

    (associao, poder

    pblico, sindicatos, assentamentos, UFU,

    funcionrios, etc)

    Fortalecimento da EFA e

    resgate da prtica da

    educao no campo

    Efetivar a ATER nos

    assentamentos

    Retomada da fruticultura

    pela Agricultura Familiar

    Fonte: PTDRS (2010)

    A Dimenso Poltica Institucional encontrada no territrio segundo o PTDRS (2010)

    encontra-se bastante fragilizada, conforme apresentado no Quadro 2.3, indicando que

    mudanas sero necessrias para se alcanar um pacto de desenvolvimento territorial

    sustentvel. A importncia de se ter um ambiente institucional eficiente importante pois a

  • 78

    integrao entre as esferas de poder e a populao implica em maior dinamizao das aes

    voltadas para o territrio.

    Quadro 4: Dimenso Poltica Institucional

    Causa Problema Conseqncia Linhas de Ao

    Partidarismo

    Mudana de mandatos

    Descontinuidade das aes das polticas pblicas

    Falta de continuidade

    das polticas publicas

    Mudana de representaes

    Mais envolvimento do

    poder pblico e mais

    solidariedade entre as partes

    Falta de interesse de

    algumas representaes

    Ausncia de Conselhos

    atuantes

    Desinteresse de

    algumas entidades no

    trabalho conjunto

    Investimento em

    formao e articulao

    Falta verba

    Falta articulao

    Inadimplncia

    Burocracia na

    documentao

    Falta estruturao dos

    pequenos

    empreendimentos

    Desestmulo

    Incapacidade de gerir

    projetos

    Facilitar o acesso ao

    credito

    Parceria com agencias

    de crdito

    Formao em gesto

    Mais apoio poltico

    Falta de diagnostico

    Falta de qualificao

    Falta de informao e

    mobilizao AF

    Ausncia Projetos ligados

    poltica de segurana

    alimentar

    Alimentao

    inadequada

    Elaborao de projetos

    de acordo com

    demanda especfica

    Falta de capacitao das

    entidades na gesto dos

    projetos

    Associaes rurais e

    urbanas desarticuladas,

    criadas apenas para

    aces/;.sar crdito

    Inadimplncia nos

    rgos estaduais,

    federais, municipais,

    refletindo em

    descredibilidade

    Avaliar os projetos em

    andamentos (aceitao

    e resultados) antes de

    propor novos projetos

    Falta de interesse pelos

    atores envolvidos

    Despreparo dos

    conselheiros

    Enfraquecimento das

    entidades civis

    Manipulao dos

    Conselhos pelo poder

    pblico

    Realizar controle social

    Formao dos atores

    Fiscalizao mais

    atuante

    Formao das

    lideranas da AF para

    atuao nos conselhos

    Fortalecimentos dos

    STR

    Fonte: PTDRS (2010)

    Historicamente houve no territrio o predomnio das atividades ligadas agropecuria,

    que a princpio era explorada de forma primitiva e voltada para a subsistncia, mas que a

  • 79

    partir da dcada de 1970, passou a ser orientada deliberadamente para a grande produo de

    gneros agrcolas como soja, milho e cana de acar, sendo o tamanho das propriedades uma

    caracterstica relevante. Hoje em dia, a agricultura familiar tenta sobreviver em meio s

    grandes propriedades, visto que no Estado de Minas Gerais, ainda incipiente o auxilio a tal

    tipo de produo.

    A Secretaria de Agricultura, Pecuria e Abastecimento (SEAPA) do Estado de Minas

    Gerais, atravs da Sub-Secretaria de Agricultura Familiar (SAF) coordena as aes voltadas

    para a Agricultura familiar no Estado. Como em Minas Gerais tradicionalmente predominam

    grandes propriedades e produtores, de se esperar que a articulao poltica em prol dessa

    conjuntura seja estrutural e marcante, prevalecendo sempre os interesses dos grandes

    proprietrios em detrimento aos dos pequenos agricultores familiares. Uma prova desse

    panorama a prpria configurao institucional das secretarias de estado, sendo a SAF

    subordinada SEAPA. Ressalta-se que est previsto a desvinculao dessas secretarias e a

    criao de uma nova e independente Secretaria de Agricultura Familiar.

    As novas polticas que utilizam do enfoque territorial tm na Agricultura Familiar e na

    pluriatividade um componente fundamental para seu sucesso, e, portanto o apoio a tais

    estruturas produtivas imprescindvel. Os sucessivos programas que utilizam desse enfoque,

    como os Territrios Rurais, Os Territrios da Cidadania e o PRONAF esto contribuindo para

    a modificao das caractersticas estruturais dos territrios onde so implantados, ou seja,

    esto fazendo frente tradicional presena e apoio s grandes propriedades.

    Segundo o PTDRS (2010), os segmentos da Agricultura Familiar acreditam que a

    expanso dos biocombustveis no Territrio do Noroeste de Minas pode ser uma atividade a

    ser explorada se trabalhada em conjunto, apesar da ao dos produtores ainda estar

    desordenada e do receio de que os grandes produtores e proprietrios atuem na totalidade da

    atividade. Ademais a Agricultura Familiar do territrio atua mais fortemente na produo de

    alimentos, como o leite e a farinha, na produo de artesanatos e tambm na produo de

    subsistncia. Ressalta-se que a produo do leite pelos agricultores familiares to marcante,

    que recentemente teve incio a elaborao de um estudo sobre a cadeia leiteira de produo, a

    fim de aprimorar a participao dos produtores no setor.

    A aderncia tecnolgica dos pequenos produtores do territrio se mostra um grande

    entrave manuteno e sustentabilidade da agricultura Familiar, e muito embora a EMATER

    e outras instituies sejam incumbidas de orientar tais produtores, estes se encontram muito

  • 80

    isolados. O isolamento repercute de forma negativa quanto soluo desse problema, e os

    produtores tm conscincia disto, mas mesmo assim necessitam de auxlio externo para a

    coordenao e instruo de medidas, que feitas em conjunto, podero auxiliar os agricultores

    familiares a incorporarem novas tecnologias (EP, 2006).

    A Agricultura familiar se apresenta de maneira heterognea ao longo do territrio,

    apresentando uma distribuio de agricultores em estgios diferentes de desenvolvimento.

    Conforme demonstrao da Tabela 2.0, acerca dos crditos de custeio e de investimento do

    PRONAF, percebe-se que tais crditos no seguem padro definido em todo o territrio,

    sendo que os crditos de custeio superam em pouco os crditos de investimento no total dos

    municpios.

    Tabela 2: PRONAF Custeio e Investimento no TCNM (%)(R$)(PIB per capita)(2009)

    Municpio PIB Custeio Investimento Total

    Arinos 6.266,49 28,00% 72,00% 24.076.313,94

    Bonfinpolis de Minas 16.799,06 55,00% 45,00% 13.558.214,62

    Brasilndia de Minas 9.910,99 49,00% 51,00% 6.962.524,23

    Chapada Gacha 6.373,36 57,00% 43,00% 13.844.889,73

    Dom Bosco 10.140,03 49,00% 51,00% 5.674.849,37

    Formoso 16.556,18 61,00% 39,00% 2.988.202,87

    Guarda-Mor 31.687,52 61,00% 39,00% 7.924.397,13

    Joo Pinheiro 11.409,87 49,00% 51,00% 42.714.774,60

    Lagamar 10.387,25 73,00% 27,00% 25.302.649,36

    Lagoa Grande 12.369,70 69,00% 31,00% 9.020.309,58

    Natalndia 6.667,90 40,00% 60,00% 4.076.985,79

    Paracatu 14.672,66 42,00% 58,00% 20.910.753,24

    Pintpolis 4.039,39 24,00% 76,00% 5.190.386,05

    Presidente Olegrio 12.879,50 71,00% 29,00% 33.667.922,38

    Riachinho 5.963,71 40,00% 60,00% 15.748.726,34

    Santa F de Minas 5.987,39 32,00% 68,00% 3.023.581,24

    So Gonalo do Abaet 15.014,91 40,00% 60,00% 14.684.876,55

    So Romo 5.433,22 27,00% 73,00% 6.969.357,91

    Uruana de Minas 10.589,40 69,00% 31,00% 2.340.299,28

    Urucuia 5.549,31 19,00% 81,00% 7.541.081,94

    Varjo de Minas 13.684,97 72,00% 28,00% 6.677.408,02

    Vazante 13.380,36 66,00% 34,00% 13.956.484,80

    Total 52,00% 48,00% 286.854.988,97

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do IBGE e do MDA

  • 81

    Ainda sobre a Tabela 2.0, verifica-se uma relao diretamente proporcional em relao

    ao PIB e ao tipo Custeio de PRONAF, em que os municpios que apresentam nveis de PIB

    maiores, apresentam maior utilizao do PRONAF custeio, com exceo de Paracatu, Joo

    Pinheiro e So Gonalo do Abaet. Notadamente os municpios com PIB per capita menores

    se encontram em menor nvel de desenvolvimento e, portanto, necessitam a princpio do

    PRONAF tipo Investimento, presume-se que conforme o municpio se desenvolva menor ser

    a carncia em infra-estrutura e maior ser a necessidade de capital de giro dos pequenos

    produtores.

    Grfico 1: Total de Crditos do PRONAF por Municpio do TCNM (2000 a 2009) (R$)

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do IBGE.

    A distribuio das linhas de financiamento do PRONAF Crdito segundo o

    enquadramento das unidades de produo familiar rural no Territrio do Noroeste de Minas

    demonstra uma grande participao do Grupo D, conforme verificado na figura 1,

    representando produtores familiares cuja renda familiar anual bruta est entre R$14 mil e

    24.076.313,94

    13.558.214,63

    6.962.524,23

    13.844.889,73

    5.674.849,37

    2.988.202,87

    7.924.397,14

    42.714.774,57

    25.302.649,36

    9.020.309,57

    4.076.985,78

    20.910.753,27

    5.190.386,04

    33.667.922,39

    15.748.726,33

    3.023.581,25

    14.684.876,56

    6.969.357,91

    2.340.299,28

    7.541.081,94

    6.677.408,02

    13.956.484,79

    Arinos

    Bonfinpolis de Minas

    Brasilndia de Minas

    Chapada Gacha

    Dom Bosco

    Formoso

    Guarda-Mor

    Joo Pinheiro

    Lagamar

    Lagoa Grande

    Natalndia

    Paracatu

    Pintpolis

    Presidente Olegrio

    Riachinho

    Santa F de Minas

    So Gonalo do Abaet

    So Romo

    Uruana de Minas

    Urucuia

    Varjo de Minas

    Vazante

    Crdito Utilizado

  • 82

    R$40 mil. Em segundo lugar, est o grupo Varivel que responde por produtores cuja renda

    familiar bruta anual de R$6 mil a R$110 mil, em terceiro esta o Grupo A, representando

    produtores familiares que acabaram de ser assentados, conforme demonstrao abaixo:

    Grfico 2: Grupos de Produtores do TCNM segundo o PRONAF Crdito (R$) (%)

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do IBGE

    Outra constatao importante a de que cerca de 80% dos crditos liberados foram

    adquiridos por produtores familiares mais dinmicos, que j atingiram certo grau produtivo,

    sendo que o restante dos crditos foi destinado para produtores em estgio inicial de

    produo. Esse panorama vai de encontro aos estudos32

    recentes que indicam uma falha no

    processo de distribuio dos crditos do PRONAF, sendo este adquirido mais facilmente por

    produtores familiares que atingiram certo grau de desenvolvimento produtivo.

    Portanto podemos concluir ao final deste captulo que o territrio do Noroeste de Minas

    composto em sua maioria por pequenos municpios de caractersticas rurais, com forte

    representatividade de agricultores familiares no Conselho do Territrio. Tais agricultores

    encontram-se em estgios diferentes de desenvolvimento produtivo, havendo, portanto a

    32 Ver FERNANDES, F. (2011).

    Sem

    Enquadramento

    17.357.926,98

    6%

    Grupo A

    37.930.413,40

    13% Grupo B

    11.752.854,00

    4%

    Grupo A/C

    2.519.955,67

    1% Grupo C

    26.117.745,49

    9%

    Grupo D

    126.213.026,11

    44%

    Grupo E

    19.757.101,87

    7%

    Mini-Produtores

    1.957.451,09

    1%

    Varivel

    43.248.514,35

    15%

  • 83

    necessidade de suporte diferenciado para cada perfil de produtor. Ressalta-se ainda que a

    pluriatividade nas famlias de pequenos agricultores baixa, conforme ser demonstrado no

    Captulo 3.

    Visto as principais caractersticas sociais, econmicas e polticas do territrio do

    Noroeste de Minas, assim como suas demandas por investimentos diversos, passaremos a

    analisar as aes implantadas junto ao Programa Territrios da Cidadania, com o intuito

    maior de verificar se as aes e as demandas do territrio convergem, sendo este estudo, tema

    do prximo captulo.

  • 84

    CAPTULO 3

    O Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas: Polticas Pblicas e seus impactos

    3.1 Introduo

    O objetivo maior deste captulo verificar a relao entre as polticas pblicas e as

    transformaes econmicas e sociais ocorridas no territrio do Noroeste de Minas.

    Abordaremos tais transformaes a partir da dcada de 1990, verificando a relao entre as

    caractersticas do territrio, os fatores econmicos conjunturais e as polticas pblicas

    implantadas. nfase maior ser dada ao Programa Territrios da Cidadania e sua recente

    atuao no territrio.

    Desta maneira iniciamos o terceiro e ltimo captulo da dissertao com uma breve

    recapitulao sobre a evoluo das polticas agrcolas e agrrias no pas, contrastando as

    polticas pblicas de cunho regional e agrcolas com as de cunho territorial e agrrias

    presentes nos dias de hoje, reiterando que apesar das dificuldades postas, o segundo grupo de

    polticas se mostra mais eficiente em promover um desenvolvimento econmico mais

    includente.

    A segunda parte tratar da anlise dos dados e indicadores do territrio, no sentido de

    avaliar e verificar as transformaes ocorridas em consequncia das polticas implantadas.

    Para avaliar as os impactos e transformaes decorrentes das polticas regionais tradicionais,

    analisaremos os indicadores da dcada de 1990, visto que tais polticas perduraram at

    meados da dcada de 1980. No obstante, as polticas de recorte territorial sero analisadas

    atravs de indicadores verificados nos anos 2000. Por fim, levaremos em considerao a

    possibilidade de fatores conjunturais macroeconmicos interferirem nos aspectos econmicos

    e sociais do territrio.

    A terceira e ltima parte do captulo abordar o Oramento Executado do Programa

    Territrios da Cidadania para o Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas, nos perodos

    de 2008, 2009 e 2010, a fim de verificar o perfil dos gastos, se predominam aes voltadas

    para a dinamizao da produo ou para a transferncia de renda e as reas prioritrias do

    programa.

  • 85

    3.2 Um breve retrospecto das questes agrrias e agrcolas no Brasil

    O sistema capitalista no Brasil e suas caractersticas atuais refletem diretamente o

    comportamento e o processo de desenvolvimento do mbito rural brasileiro. Neste sentido, a

    configurao dos problemas e das demandas sociais tanto dos meios urbanos quanto das reas

    rurais, que atualmente se sobrepem de diversas maneiras, so decorrentes em grande parte do

    processo desordenado do avano do capitalismo sobre o meio rural do pas.

    As polticas pblicas brasileiras orientadas para o mbito rural acompanharam esse

    processo de desenvolvimento, sendo modificadas ao longo do tempo de acordo com as

    circunstncias conjunturais da economia brasileira, porm com nfase histrica sobre a grande

    propriedade. Tal caracterstica vem sendo compartilhada recentemente com a agricultura

    familiar, e devido ao grande nmero de polticas sociais e produtivas mobilizadas para o

    pequeno produtor e para a populao de territrios deprimidos, passaram a ser alvo de

    discusses entre parcelas da sociedade que questionam a viabilidade econmica de tais

    estruturas produtivas, e das que defendem o papel desempenhado por tais estruturas nas

    respectivas cadeias produtivas e seu vis social.

    Antes de entramos na discusso sobre o papel da agricultura familiar e na necessidade

    de amparar a populao dos territrios deprimidos na conjuntura atual, importante

    retomarmos sinteticamente a discusso apresentada nos captulos 1 e 2 a fim de apontar os

    principais aspectos que moldaram a atual situao agrria e agrcola do pas. Destarte,

    abordaremos tais fatos em contraste com nossa percepo acerca das perspectivas da

    agricultura familiar no Brasil.

    As grandes propriedades rurais no Brasil e suas tradicionais vantagens polticas e

    econmicas se consolidaram j nos primrdios da colonizao portuguesa nos idos de 1500,

    quando houve as primeiras divises territoriais em solo brasileiro. As sesmarias, como eram

    chamadas os recortes territoriais do imenso territrio brasileiro, foram a soluo encontrada

    pela corte portuguesa para ocupar e proteger a totalidade das terras encontradas. Passados

    cinco sculos desde o descobrimento, a concentrao das propriedades rurais continua a ser

    uma realidade no pas.

    O Brasil desde ento se consolidou como uma economia agro-exportadora, tendo a

    produo agrcola fundamental importncia sobre os aspectos macroeconmicos e, sobretudo

    sobre o prprio desenvolvimento do pas. As primeiras polticas pblicas de nossa historia

  • 86

    recente voltadas para o mbito agrcola foram criadas para dar suporte grande propriedade

    agrcola, levando em considerao que tais propriedades eram as principais instituies

    responsveis por financiar as atividades industriais, pois os recursos ociosos nas empresas

    agrcolas eram utilizados para fomentar atividades industriais prximos aos centros urbanos,

    dando incio ao processo de consolidao do capitalismo industrial no Brasil no sculo XX.

    Por tais polticas entendem-se a compra e a estocagem de produtos agrcolas, sobretudo o

    caf, alm de crdito facilitado para os produtores.

    Ressalta-se que por muito tempo a elite poltica brasileira foi representada por grandes

    produtores e proprietrios de terra, sendo tal caracterstica ainda presente nos dias atuais.

    Notadamente verifica-se que tradicionalmente sempre tivemos polticas voltadas para a

    grande propriedade, no tirando o mrito e nem a importncia de tais polticas para o

    desenvolvimento do pas, apenas ressaltando sua parcialidade histrica.

    O Sistema Nacional de Crdito Rural, criado em 1965, foi um marco na evoluo

    recente das polticas pblicas brasileiras deliberadas para o mbito rural. O amplo acesso ao

    crdito, pelos grandes produtores, permitiu o fornecimento de matrias-primas a montante e a

    jusante na cadeia produtiva agrcola, sendo um importante estmulo produo industrial do

    pas. Ademais, o crescimento da produo agrcola facilitada pelo crdito em abundncia,

    contribua para a gerao de divisas recebidas sobre as exportaes, criando importantes

    saldos na balana comercial que eram utilizados para a importao de bens industriais no

    chamado processo de industrializao por substituio de importaes.

    A consolidao dos complexos agro-industriais viabilizada por polticas de crdito

    facilitado do SNCR e por programas de aquisio da produo foi um passo fundamental

    tanto para consolidar o Brasil no cenrio internacional como um player no fornecimento de

    commodities primrias, sobretudo agrcolas, quanto para desenvolver o capitalismo industrial

    no pas.

    Neste mesmo perodo iniciaram-se tambm os programas de ocupao das demais reas

    do territrio brasileiro que se encontravam at ento desocupadas. A grande produo ainda

    no havia se estabelecido em tais regies, pois no havia tecnologia e conhecimento na poca

    para o uso de seus solos, caso da regio centro-oeste (cerrado) e da regio amaznica. Estudos

    sobre a adaptao dos solos e de determinadas espcies agrcolas foram desenvolvidos sobre a

    chancela da EMBRAPA e demais rgos governamentais criados para tal finalidade.

  • 87

    Ressaltando que tais polticas eram voltadas para o grande produtor, capaz este de captar os

    recursos e produzir em grandes montantes para abastecer o mercado interno e externo.

    Ao iniciar a dcada de 1980, devido s sucessivas crises conjunturais vivenciadas pelo

    Brasil, as polticas pblicas deliberadas para o mbito agrcola, sofreram um importante

    declnio. Tal declnio foi contrastado pelo crescimento das demandas sociais tanto nos centros

    urbanos quanto nas reas rurais. Surgiram as primeiras manifestaes acerca da abordagem

    endgena de desenvolvimento e posteriormente j na dcada de 1990 as manifestaes acerca

    do desenvolvimento territorial rural no nvel de polticas pblicas, sendo os aspectos sociais e

    os pequenos produtores o centro dessa nova abordagem.

    Como as polticas pblicas da poca eram orientadas para o grande produtor, o pequeno

    proprietrio se via sem condies de continuar sua produo, seja por falta de apoio tcnico,

    ou por falta de acesso ao crdito. As populaes rurais, sem condies de se manterem no

    campo, tiveram declnio considervel nas dcadas de 1970 e 1980, migrando para as periferias

    das grandes cidades. No obstante, as condies nos centros urbanos eram tambm precrias,

    dado o prolongamento da crise econmica que adentrava a dcada de 1990. A situao se

    tornou to insustentvel nos centros urbanos que na dcada de 1990 verificou-se em vrias

    regies do pas o retorno do fluxo migratrio para as reas rurais.

    Antes de aprofundarmos a discusso acerca das polticas de cunho territorial, cabe

    ressaltar alguns pontos fundamentais orientados para as polticas pblicas tradicionais de

    cunho regional e agrcola, no sentido de contrastar sua importncia e suas consequncias para

    o pas.

    Primeiramente, h de se ressaltar que tais polticas, como o SNCR e os programas de

    ocupao das reas no desenvolvidas, foram elaborados com o intuito de aumentar a

    produo agrcola nacional com vistas ao abastecimento do mercado interno, at ento

    dependente de importaes. Somado a esse fato, verificou-se que tais polticas tambm eram

    extremamente eficientes para a gerao de saldos comerciais com a finalidade de se promover

    a industrializao e ainda contriburam para anexar as regies at ento pouco povoadas e

    com baixo dinamismo econmico ao eixo mais desenvolvido do pas, portanto, sob este

    escopo elas foram muito bem sucedidas no que se propuseram a fazer.

    Apesar destes fatos, tais polticas so alvo de crticas, pois se credita a elas a

    responsabilidade sobre o processo de concentrao de terras, sua consequente influncia sobre

  • 88

    a relevante concentrao de renda no pas e sobre a deteriorao da condio de vida dos

    pequenos produtores rurais. Reordenando as crticas, o fato que faltou comprometimento

    para com a questo agrria do Brasil, pela elite brasileira, justamente por ela ser composta de

    grandes proprietrios de terras. Posto de outra maneira, a critica deve ser feita no sobre as

    polticas agrcolas em si, mas sobre a falta de polticas agrrias.

    Por questo agrria entende-se as relaes de trabalho, as condies de vida e as demais

    variveis que afetam a populao rural brasileira e que por muito tempo foram preteridas em

    prol das demandas dos grandes produtores. Tal questo era pronunciada e at mesmo

    discutida j em meados do sculo XX, mas devido ao teor conflitante entre os interesses do

    grande proprietrio e dos trabalhadores rurais, na poca optou-se por atender os interesses

    apenas dos grandes produtores.

    Passados os perodos de abundncia de crdito e de desenvolvimento econmico, o

    Brasil passou por um perodo conturbado de sua histria, marcado por sucessivas crises

    econmicas e pela longa luta travada contra a inflao. As dcadas de 1980 e 1990 em

    decorrncia desses fatores representaram um vazio em termos de polticas pblicas orientadas

    para os produtores rurais, levando em considerao o apoio que tinham no passado.

    O desenvolvimento endgeno, tratado com mais afinco no captulo primeiro desta

    dissertao, panacia em tempos de escassez de recursos, ganhou destaque entre os

    intelectuais da poca, dada a ausncia marcante de polticas pblicas. Os territrios e

    localidades deveriam ento, se mobilizarem a fim de construir ou utilizar seu capital social, de

    maneira a promover seu prprio desenvolvimento econmico, retirando a responsabilidade do

    Estado sobre esse processo. A constituio de 1988 foi de encontro a essa perspectiva ao criar

    mecanismos de tomada de deciso em mbito municipal, dando maior poder aos atores locais

    atravs da criao de arranjos sociais locais de carter consultivos e deliberativos.

    No primeiro mandato do governo de FHC, em 1994, surgiram as primeiras polticas

    orientadas para a parcela rural e as camadas mais baixas da populao, j sob os aspectos do

    desenvolvimento territorial, mesmo que de maneira incipiente. O PRONAF, primeiro

    programa de crdito deliberado aos pequenos produtores criado em 1996 e o Bolsa-Escola

    criado em seu segundo mandato so exemplos da mudana de postura do governo sobre as

    demandas sociais e agrrias.

  • 89

    No governo Lula a partir de 2002 tais polticas foram implementadas e trabalhadas de

    forma prioritria em seus mandatos. O fornecimento de crdito, de assistncia tcnica e

    demais aparatos ao pequeno produtor, feito atravs de trabalho conjunto dos governos

    municipais, estaduais e principalmente federal fez da agricultura familiar e da pluriatividade

    uma realidade no pas. Ressaltando que os grandes proprietrios continuaram a ser

    beneficiados com as polticas de crdito rural, no havendo, portanto uma troca de poltica do

    grande para o pequeno produtor, mas sim uma correo de oportunidades ou polticas

    pblicas entre os produtores.

    Sob o mbito social, as polticas pblicas desenvolvidas no governo Lula tambm

    merecem destaque, pois foram responsveis por retirar milhes de pessoas do nvel de

    pobreza, atendendo as demandas mais urgentes dessa parcela social, atravs da implantao

    conjunta de diversos programas sob orientao de todos os nveis de governo. O xito de tais

    programas fez do Brasil referncia internacional em desenvolvimento territorial (BRASIL,

    2012).

    Os Territrios da Cidadania, programa criado em 2008, so exemplo importante de que

    o desenvolvimento territorial deve ser alcanado atravs da reduo das desigualdades via

    superao da pobreza rural. O programa pode ser considerado uma evoluo do Programa

    Territrios Rurais, pois foi criado sob perspectiva semelhante, a de desenvolver territrios de

    baixo dinamismo econmico compostos notadamente por territrios rurais.

    O programa Territrios da Cidadania atua sob sete linhas principais de aes: Direitos e

    Desenvolvimento Social; Organizao Sustentvel da Produo; Sade, Saneamento e Acesso

    a gua; Educao e Cultura; Infra-Estrutura; Apoio Gesto Territorial e por Aes

    Fundirias. Neste programa, as demandas sociais so levantadas pelos prprios atores locais e

    levadas s instncias governamentais competentes. O prprio processo de levantamento das

    demandas acompanhado por entes do governo, que os auxiliam e tornam o processo de

    trmite, entre o reconhecimento de um problema e a soluo do mesmo, mais eficiente.

    Os recursos destinados a esses programas merecem destaque a parte, pois durante os

    dois mandatos de Lula os recursos cresceram de forma relevante, ressaltando que o volume de

    recursos fundamental para a viabilidade e qualidade dos programas. No grfico 3.0

    encontra-se a evoluo dos recursos oriundos do PRONAF, utilizados pelos produtores da

    agricultura familiar no Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas, como evidncia do

    comprometimento do Governo Lula para com a questo.

  • 90

    Grfico 3: Total do PRONAF nos Municpios do TCNM entre (2000 a 2009) (R$)

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do MDA/SAF

    A ateno dada questo agrria nos ltimos anos representada pelos resultados obtidos

    na agricultura familiar e, sobretudo pelo alto montante de recursos trabalhados, suscitou um

    novo e polmico debate sobre o tema. De um lado esto os que acreditam que grande parcela

    da agricultura familiar insustentvel, sendo incapaz de permanecer em atividade sem o

    auxilio explcito de programas governamentais. Em contrapartida, os defensores da

    agricultura familiar advogam pelo seu importante papel em termos econmicos e sociais sobre

    a populao rural, defendendo ainda sua viabilidade.

    O estudo de Alves e Rocha (2010) representa bem o primeiro grupo, pois ao analisar

    dados do censo agropecurio de 2006 verifica que a grande maioria dos agricultores

    familiares composta por produtores de baixa renda, sendo, portanto grandes demandantes de

    programas governamentais, sem o qual possivelmente estariam desempenhando outras

    atividades, no mais ligadas ao mbito rural.

    193.803.232,30

    179.876.575,00

    187.951.604,96

    378.564.374,28

    536.217.315,83

    682.096.915,26

    945.496.841,38

    1.177.820.341,04

    1.071.162.270,34

    1.228.303.922,39

    0,00

    200.000.000,00

    400.000.000,00

    600.000.000,00

    800.000.000,00

    1.000.000.000,00

    1.200.000.000,00

    1.400.000.000,00

    2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009

    Total PRONAF

  • 91

    Alves e Rocha (2010) apontam para um alto grau de concentrao da produo na

    agropecuria brasileira, em que 8,19% dos produtores foram responsveis por 84,89% da

    produo declarada, tendo como renda mdia por estabelecimento o valor de R$24.012,55, e

    ainda dentro desse grupo, 0,43% foram responsveis por 51,34% da produo. O segundo

    grupo verificado, representando mdia de rendimento mensal por estabelecimento de

    R$1.360,38, compreenderam 18,86% do nmero de produtores e foram responsveis por

    11,08% da produo nacional total. Por fim, o ltimo grupo verificado, representando a

    grande maioria dos produtores brasileiros (72,96%), esto os que tiveram renda mensal mdia

    de R$128,13 e responsveis por 4,04% do rendimento declarado total.

    Segundo Alves e Rocha (2010), os produtores oriundos do primeiro e segundo grupos

    possuem totais condies de se manterem apenas com as polticas agrcolas comuns, como as

    polticas de preos, controle de qualidade e de crdito rural. J a parcela dos pequenos

    produtores pertencentes ao grupo de menor rendimento mensal (R$128,13) cuja grande

    maioria est localizada na regio nordeste do pas, no possui condies de se manter apenas

    com as tradicionais polticas agrcolas e, portanto amparado por diversas polticas de cunho

    social alm das polticas produtivas, como a aposentadoria rural e o bolsa-famlia.

    As polticas de carter social associadas produo so fundamentais para a

    permanncia desses pequenos produtores no campo, pois a ausncia de tais polticas faria com

    que as oportunidades apresentadas pelos centros urbanos sobressassem sobre as do campo,

    implicando em grande evaso rural. Portanto programas especiais visando a agricultura

    familiar, os assentados da reforma agrria e ao atendimento das demandas dos sem terras,

    visam, sobretudo a permanncia deste contingente populacional no campo, de maneira a no

    prejudicar a condio de vida dos habitantes dos centros urbanos (ALVES e ROCHA, 2010).

    No obstante, segundo os autores, vale dizer que tais polticas so vlidas enquanto os centros

    urbanos no forem capazes de absorver parcelas maiores de habitantes, ressaltando ainda que

    situao parecida vista na Europa com atuao de polticas pblicas semelhantes.

    Em contraste com esse pensamento, esto os estudos que apontam para a evoluo da

    agricultura familiar brasileira, representada por sua importncia sobre o abastecimento interno

    de alimentos e sobre o relevante crescimento da qualidade de vida no campo. As polticas

    voltadas para a produo destes pequenos agricultores, a exemplo do PRONAF, so to

    importantes quanto as polticas voltadas para os grandes produtores.

  • 92

    As polticas principalmente creditcias orientadas para os grandes produtores cumprem

    papel importante em termos de abastecimento externo e balana comercial, j as polticas

    orientadas para os pequenos produtores, cumprem o duplo papel econmico e social, ao dar

    condies para o produtor abastecer o mercado local juntamente com uma substancial

    melhoria na qualidade de vida de seus produtores. Tais polticas, junto com as de perfil social,

    como as de transferncia direta de renda, funcionam para suprir os gargalos deixados pelo

    sistema capitalista, dada as caractersticas peculiares da agricultura presentes sob o

    capitalismo j discutidas no capitulo primeiro.

    Neste sentido, as polticas creditcias e sociais, responsveis pela sustentao da

    agricultura familiar no devem ser pensadas como um meio de ganhar tempo pelo governo,

    enquanto se preparam os centros urbanos para a absoro de parcelas da populao rural. Elas

    devem ser pensadas, diferentemente do que pensam Alves e Rocha (2010), como uma medida

    econmica capaz de levar dinamismo s regies abandonadas pelo capitalismo, gerando

    fluxos de renda e proporcionando qualidade de vida digna a essas populaes.

    Levando em considerao os aspectos mencionados como justificativa para a adoo de

    polticas pblicas de apoio a agricultura familiar, nosso pensamento de que conforme a

    qualidade de vida das populaes rurais for se elevando, estas estaro mais propensas a migrar

    para os grandes centros urbanos em busca de certas demandas ainda no oferecidas nos

    pequenos municpios, principalmente os de caractersticas rurais.

    A migrao para os centros urbanos deve ser encarada como uma melhora na qualidade

    de vida do indivduo, sendo recomendado desde que o indivduo possua caractersticas que

    viabilize sua correta insero. A populao rural de mdia e avanada idade tende a

    permanecer no campo por diversos fatores, mas, sobretudo por questes culturais.

    Acostumada vida no campo, dificilmente se adaptariam ou sentiriam atrados pela vida nos

    centros urbanos. O mesmo no vale para os indivduos jovens.

    Uma educao de qualidade a pedra fundamental que gabaritar o indivduo do campo

    a migrar para os centros urbanos e ser incorporado de forma digna. Conforme o grau de

    instruo no campo aumenta, como o acesso informao e cultura, maior ser o nvel de

    atratividade dos centros urbanos. O indivduo passa ento a comparar as oportunidades e a

    qualidade de vida entre os dois mbitos. Acesso ao ensino superior, a opes de

    entretenimento e oportunidade de carreiras so alguns dos diferenciais apresentados pelos

    centros urbanos, e que dificilmente encontraro equivalncia nos pequenos municpios.

  • 93

    Polticas pblicas orientadas para a melhoria da qualidade de vida dos indivduos que

    permanecem no campo so fundamentais e neste escopo entram as polticas de transferncia

    de renda, pois atende parcela considervel da populao que no tiveram acesso educao

    de qualidade, e que, portanto no possuem alternativas quanto ocupao e quanto a rendas

    mais elevadas. Qualidade de vida digna o mnimo que o Estado brasileiro deve proporcionar

    para essa parcela populacional, visto que as falhas do sistema capitalista proporcionaram tal

    precariedade de condies.

    Neste sentido, no prximo tpico abordaremos os indicadores do Territrio da

    Cidadania no Noroeste de Minas vislumbrando a possibilidade de mensurar um possvel

    ganho de qualidade de vida da populao do territrio no decorrer dos ltimos anos,

    verificando ainda sua relao com as polticas de recorte regional e de recorte territorial.

    3.3 - Desenvolvimento Econmico e Social no Territrio do Noroeste de Minas

    Nos ltimos anos a melhoria na qualidade de vida da populao do Territrio do

    Noroeste de Minas vem aumentando consideravelmente. Tal melhora creditada a fatores

    econmicos conjunturais e a impactos resultantes de polticas pblicas especficas sobre o

    territrio. Neste sentido, no presente captulo procuraremos avaliar a evoluo dos ndices que

    indicam a qualidade de vida da populao do Territrio e suas possveis causas.

    A princpio, para melhor qualificao da populao do territrio elaboramos a Tabela 3

    que nos indica o perfil das famlias do TCNM. As informaes sobre o perfil das famlias de

    extrema relevncia, pois atravs de suas ocupaes e seus ramos de atividade, em ambos os

    mbitos, rural e urbano, conseguimos visualizar e antecipar as possveis demandas dessas

    famlias, verificando ainda se as polticas pblicas implantadas nos dias atuais, a exemplo do

    Programa Territrios da Cidadania, contemplam as demandas referentes s parcelas das

    famlias de forma parcial. No obstante, a caracterizao das famlias do territrio segundo

    perfis de ocupao e ramos de atividade se mostra tambm importante para a elaborao de

    novas polticas orientadas para o territrio.

  • 94

    Tabela 3: Distribuio do nmero dos tipos de famlias extensas segundo o local de domiclio:

    Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas, 2000.

    LOCAL DOMICLIO / TIPO

    DE FAMLIA

    REA URBANA REA RURAL

    2000

    Posio na

    Ocupao

    Ramo de

    Atividade 2000

    Posio na

    Ocupao

    Ramo de

    Atividade

    ( % ) ( % ) ( % ) ( % )

    Empregadora com mais de 2

    empr. 981 2,0 109 0,5

    Agrcola 100 0,2 43 0,2

    Pluriativo 160 0,3 11 0,1

    No-agrcola 721 1,4 56 0,3

    Empregadora com at 2

    empregados 880 1,8 262 1,3

    Agrcola 118 0,2 133 0,6

    Pluriativo 139 0,3 70 0,3

    No-agrcola 624 1,2 58 0,3

    Conta-Prpria 11533 23,0 6281 30,4

    Agrcola 928 1,8 3761 18,2

    Pluriativo 1904 3,8 1662 8,1

    No-agrcola 8701 17,3 858 4,2

    Empregados 28047 55,9 11011 53,3

    Agrcola 5742 11,4 7751 37,5

    Pluriativo 3895 7,8 1616 7,8

    No-agrcola 18410 36,7 1645 8,0

    No-ocupados 8742 17,4 2984 14,5 14,5

    TOTAL 50183 100,0 20647 100,0 100,0

    .

    Fonte: Elaborao prpria a partir dos microdados de Censo Demogrfico de 2000 do IBGE.

    A metodologia utilizada para a elaborao da Tabela 3 foi extrada da unidade de

    anlise adotada pelo Projeto Rurbano, correspondendo ao conceito de famlia extensa a qual

    compreende a famlia nuclear, seus parentes que vivem no mesmo domicilio e os agregados.

    Os dados oriundos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios (PNAD) foram

    trabalhados a partir da tipologia de famlias extensas conforme o local de domicilio, rural e

    urbano, e sua posio de ocupao como empregador, conta prpria, empregado e no

    ocupado.

    O IBGE considera o empregador, o indivduo que trabalha explorando o seu prprio

    empreendimento, com pelo menos um empregado. Considera-se o conta-prpria o indivduo

    que trabalha explorando seu prprio empreendimento sozinho, ou com scio, sem ter

    empregados e contando ou no com a ajuda de trabalhador no remunerado. O empregado

    considerado o indivduo que trabalha para um empregador, cumprindo uma jornada de

    trabalho e recebendo remunerao em dinheiro, mercadorias, produtos ou benefcios. Nesta

    categoria o IBGE inclui o indivduo que presta servio militar obrigatrio, o sacerdote,

    ministro de igreja, pastor, rabino, frade, freira, dentre outros clrigos (CALDAS, 2008).

  • 95

    A classificao das famlias segundo sua posio de ocupao foi definida da seguinte

    forma: se um dos membros da famlia declarou ser empregador, a famlia foi classificada

    como tal, independente da posio na ocupao dos demais membros. Na falta de

    empregador, a famlia foi classificada como de conta prpria se um dos membros ativos

    declarou-se como tal, independente da posio de ocupao dos demais membros. Caso no

    haja nenhum empregador e nem um conta prpria, a famlia classificada como de

    empregados, se pelo menos um de seus membros declarou exercer alguma atividade agrcola

    ou no agrcola na semana de referncia. Por fim, a famlia considerada de trabalhadores

    no ocupados, caso nenhum de seus membros tenha se declarado ocupado na semana da

    pesquisa (CALDAS, 2008).

    As famlias extensas foram subdivididas em agrcolas, no-agrcolas e pluriativas de

    acordo com cada posio na ocupao acima referida. As famlias agrcolas so aquelas em

    que todos os seus membros ocupados estavam envolvidos em atividades agrcolas como sua

    ocupao principal na semana de referncia da pesquisa. As famlias no-agrcolas so

    aquelas em que todos os seus membros ocupados exerciam atividades no-agrcolas. J as

    famlias pluriativas so aquelas em que pelo menos um de seus membros exercia alguma

    atividade agrcola e outro exercia uma atividade no-agrcola, ou ainda quando pelo menos

    um de seus membros declarou exercer dupla atividade agrcola, uma como conta prpria e

    outra como assalariado, na semana de referncia (NASCIMENTO, 2008).

    Ao analisar a Tabela 3 contata-se que o nmero de famlias que representam a

    agricultura familiar33

    no territrio, se consideradas as localizadas no permetro urbano,

    correspondem a apenas 6,15% do total das famlias domiciliadas no mesmo permetro.

    Considerando apenas o permetro rural, tais famlias representam apenas 27,25% do total

    verificado. Ressalta-se que foram consideradas famlias que representam a agricultura

    familiar, as famlias empregadoras de at 2 empregados, que desempenham atividades

    agrcolas e pluriativas, e as famlias de conta prpria que tambm desempenham atividades

    agrcolas e pluriativas.

    Se considerarmos o permetro urbano e o rural juntos, verificamos que as famlias que

    respondem pela agricultura familiar representam apenas 12,30% do total das famlias,

    33 Por agricultura familiar entende-se que a produo e a direo dos trabalhos no estabelecimento so exercidas

    pelo prprio produtor e o trabalho exercido pelos integrantes de sua famlia deve ser necessariamente superior ao

    trabalho contratado (FAO/INCRA).

  • 96

    porcentagem ainda inferior parcela de no ocupados, que representam 16,55% das famlias

    analisadas.

    Percebemos tambm que a maior parcela das famlias est classificada como

    empregadas, ou seja, aquelas que seus membros no so conta prpria e nem empregam

    indivduos. No mbito urbano, tais famlias representam 55,9% do total, e no mbito rural so

    responsveis por 53,3%, considerando os dois mbitos juntos, as famlias de empregados

    totalizam 55,14% das famlias analisadas. Verifica-se ainda que 51% das famlias de

    empregados esto locadas em atividades no agrcolas.

    As famlias classificadas como empregadoras, com mais de dois empregados, so

    minoria no quadro geral. No permetro urbano equivalem a 2% das famlias, e no permetro

    rural equivalem a 0,5% delas. No total, levando em considerao ambos os permetros, tais

    famlias representam 1,53% do total de famlias.

    Mencionados os principais aspectos da Tabela 3, podemos caracterizar o Territrio da

    Cidadania do Noroeste de Minas como um territrio onde as famlias de empregados so

    maioria, e sua maior incidncia se d nos permetros urbanos com atividades no agrcolas. O

    territrio apresenta tambm uma parcela considervel de indivduos no ocupados, cuja

    incidncia maior verificada no mbito urbano, e que a agricultura familiar no representa

    parcela significativa do total das famlias do territrio. Ademais, o territrio apresenta uma

    sobreposio considervel entre o mbito urbano e rural, verificados por relevante parcela de

    atividades agrcolas desempenhadas nos permetros urbanos e pelas atividades no agrcolas

    desempenhadas nos permetros rurais. Neste sentido, as polticas pblicas orientadas para a

    dinamizao do territrio devem necessariamente levar tais caractersticas em considerao.

    Analisando o Produto Interno Bruto a preos correntes por setores entre os municpios

    que compreendem o Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas entre os anos de 1999 e

    2009 conforme a Tabela 4, verificamos que 60% dos municpios do territrio apresentaram

    PIB maior no setor de servios durante o ano de 2009. Destes municpios, cinco possuam

    PIB do setor agropecurio maior dez anos antes, em 1999, indicando, portanto que ao longo

    da dcada analisada houve uma inverso dos setores de maior participao, do agropecurio

    para o de servios.

  • 97

    Tabela 4: Valor Adicionado a preos correntes no TCNM (1999 e 2009) (R$)

    Setor Agropecurio Industrial Servios

    Municpio / Anos 1999 2009 1999 2009 1999 2009

    Arinos 14.520 39.477 3.543 8.925 19.734 62.129

    Bonfinpolis de Minas 17.533 57.442 1.225 4.230 11.331 34.581

    Brasilndia de Minas 20.848 47.089 7.628 22.073 16.051 59.056

    Chapada Gacha 10.882 32.587 766 4.706 7.103 33.906

    Dom Bosco 7.235 20.397 1.877 1.817 5.220 15.549

    Formoso 24.086 58.468 989 4.048 8.630 46.045

    Guarda-Mor 42.576 156.310 1.928 6.291 16.052 49.311

    Joo Pinheiro 57.947 184.329 13.082 64.900 69.750 240.420

    Lagamar 14.003 29.228 5.409 15.396 11.944 34.367

    Lagoa Grande 15.923 56.211 2.815 12.916 11.716 40.625

    Natalndia 2.844 8.338 426 1.369 3.860 12.360

    Paracatu 93.658 322.423 75.956 275.289 159.500 555.158

    Pintpolis 3.656 7.526 790 3.080 4.925 21.688

    Presidente Olegrio 52.590 137.932 4.747 12.008 29.659 89.705

    Riachinho 5.166 16.727 1.126 3.604 8.293 28.670

    Santa F de Minas 2.380 8.799 566 1.816 3.519 13.576

    So Gonalo do Abaet 12.395 39.325 1.228 7.456 8.901 45.649

    So Romo 3.450 15.462 1.223 4.463 7.943 31.320

    Uruana de Minas 5.145 13.525 450 1.991 3.844 13.133

    Urucuia 3.932 24.139 1.181 6.342 6.437 35.494

    Varjo de Minas 17.267 48.002 1.590 6.643 7.532 32.161

    Vazante 23.100 61.429 25.237 83.261 35.908 107.415

    Total 451.135 1.385.164 153.780 552.624 457.852 1.602.317

    Fontes: Elaborao prpria a partir de dados do IBGE, CONAC, FJP e CEI.

    Levando em considerao todos os municpios do territrio, a participao agregada do

    setor de servios maior que a participao do setor agropecurio, inclusive em 1999.

    Contudo, se excluirmos os municpios de Paracatu e de Joo Pinheiro, os dois maiores

    municpios do territrio, a relao se inverte. Ou seja, o setor agropecurio passa a ser maior

    que o setor de servios, tanto em 1999 quanto em 2009.

    No obstante, verifica-se que quanto maior a populao do municpio, maior a

    participao do setor de servios e do setor industrial. Quanto menor o municpio maior a

    participao do setor agropecurio. Nos municpios menores, quando a participao do setor

    de servios maior, constata-se que h uma maior participao da agricultura familiar em

    relao agricultura no familiar, o que explica o baixo PIB agropecurio.

  • 98

    A ttulo de exemplo, comparando o municpio de Natalndia com 3.280 habitantes e o

    municpio de Uruana de Minas com 3.235, atravs das Tabelas 4 e 8, verifica-se que em

    Natalndia, o PIB do setor de servios possui maior relevncia em comparao com o PIB do

    setor agropecurio, pois a agricultura familiar no municpio responde por aproximadamente

    87% do PIB agropecurio. J em Uruana de Minas, o PIB do setor agropecurio possui

    relevncia maior em comparao com o PIB do setor de servios, pois a agricultura no

    familiar, tradicional, responde por aproximadamente 68% do PIB agropecurio.

    A participao do setor agropecurio merece ateno parte, pois divide com o setor de

    servios o protagonismo no territrio. Neste sentido, importante verificarmos a participao

    da agricultura familiar e da agricultura no familiar tradicional, no montante do valor

    adicionado do setor.

    A Tabela 5 com dados do Censo Agropecurio de 2006 d uma noo da

    representatividade da agricultura no familiar no territrio, em que considerados todos os

    municpios, a agricultura patronal, no familiar, representa aproximadamente 69% do valor da

    produo dos estabelecimentos do TCNM. Portanto, o setor agropecurio tem um peso grande

    no PIB do territrio e esse peso representado em sua maioria pela agricultura patronal, tendo

    a agricultura familiar, pouca expresso.

    Segundo Fernandes (2011), a agricultura familiar no Brasil representa 84,4% do total de

    estabelecimentos agropecurios, sendo responsvel por 38% do valor bruto da produo

    gerada e por 74,4% do pessoal ocupado (12.3 milhes de pessoas). J no TCNM a AF

    representa 76% dos estabelecimentos agropecurios, conforme verificado na Tabela 6, e

    apenas 31% do valor da produo. Portanto, em relao ao Brasil, o TCNM possui uma

    menor participao de agricultores familiares, fator este que no minimiza a necessidade de

    polticas pblicas em seu benefcio, como o crdito agrcola, o apoio tcnico e os demais

    benefcios sociais que garantam uma qualidade de vida digna para essa populao, ressaltando

    ainda que tais polticas de recorte territorial so fundamentais para o prprio desenvolvimento

    do territrio.

  • 99

    Tabela 5: Valor da produo dos estabelecimentos no ano de 2006 nos municpios do TCNM

    (Mil Reais)

    Municpio Agricultura familiar No familiar Total Agricultura

    Familiar (%)

    Agricultura no Familiar

    (%)

    Arinos 4717 5261 9978 47,27 52,73

    Bonfinpolis de Minas 2772 40521 43293 6,40 93,60

    Brasilndia de Minas 1943 10666 12609 15,41 84,59

    Chapada Gacha 4247 23323 27570 15,40 84,60

    Dom Bosco 2875 4079 6954 41,34 58,66

    Formoso 1563 16937 18500 8,45 91,55

    Guarda-Mor 15886 64503 80389 19,76 80,24

    Joo Pinheiro 21826 247010 268836 8,12 91,88

    Lagamar 11787 13480 25267 46,65 53,35

    Lagoa Grande 10145 48407 58552 17,33 82,67

    Natalndia 9803 1408 11211 87,44 12,56

    Paracatu 16556 171054 187610 8,82 91,18

    Pintpolis 3952 664 4616 85,62 14,38

    Presidente Olegrio 20046 87594 107640 18,62 81,38

    Riachinho 13726 6968 20694 66,33 33,67

    Santa F de Minas 3805 2156 5961 63,83 36,17

    So Gonalo do Abaet 2582 23973 26555 9,72 90,28

    So Romo 1465 5321 6786 21,59 78,41

    Uruana de Minas 1941 4178 6119 31,72 68,28

    Urucuia 3030 7531 10561 28,69 71,31

    Varjo de Minas 3088 54824 57912 5,33 94,67

    Vazante 13232 27895 41127 32,17 67,83

    Total 170987 867753 1038740 31,18 68,82

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do IBGE - Censo Agropecurio

    A Tabela 6 mostra a relao entre a agricultura familiar e a agricultura patronal no

    territrio, sob os aspectos de rea e participao dos estabelecimentos agropecurios em

    percentual, e constata-se que a agricultura familiar, apesar de ser maioria, representando 76%

    dos estabelecimentos agropecurios do territrio, como j mencionado, ocupa

    aproximadamente 22% da rea ocupada pela agropecuria. A agricultura patronal representa

    aproximadamente 24% dos estabelecimentos agropecurios e ocupa 78% do territrio.

    Estes nmeros so conseqncia das polticas orientadas para o grande produtor,

    elaboradas na dcada de 1970, e cujas caractersticas perduram nos dias atuais, ditando

    inclusive a dinmica econmica dos municpios do territrio, como visto anteriormente com

    os municpios de Natalndia e Uruana de Minas.

  • 100

    Tabela 6: rea e participao dos estabelecimentos agropecurios em percentual nos municpios

    do Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas (2006)

    Municpios % Agricultores % Agricultores rea - Agricultores rea - Agricultores

    Familiares no familiares Familiares no familiares

    Arinos 75,52 24,48 19,72 80,28

    Bonfinpolis de Minas 73,21 26,79 15,28 84,72

    Brasilndia de Minas 78,98 21,02 11,51 88,49

    Chapada Gacha 86,90 13,10 28,62 71,38

    Dom Bosco 66,58 33,42 28 72

    Formoso 80,51 19,49 19,97 80,03

    Guarda-Mor 63,61 36,39 22,46 77,54

    Joo Pinheiro 69,10 30,90 14,52 85,48

    Lagamar 78,20 21,80 40,79 59,21

    Lagoa Grande 83,95 16,05 20,28 79,72

    Natalndia 82,89 17,11 20,38 79,62

    Paracatu 67,35 32,65 12,53 87,47

    Pintpolis 90,49 9,51 42,53 57,47

    Presidente Olegrio 78,10 21,90 27,21 72,79

    Riachinho 87,06 12,94 31,05 68,95

    Santa F de Minas 79,96 20,04 13,93 86,07

    So Gonalo do Abaet 50,31 49,69 8,18 91,82

    So Romo 90,19 9,81 16,29 83,71

    Uruana de Minas 76,98 23,02 23,46 76,54

    Urucuia 85,95 14,05 30,43 69,57

    Varjo de Minas 64,36 35,64 15,35 84,65

    Vazante 68,26 31,74 21,25 78,75

    Mdia 76,29 23,71 21,99 78,01

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do IBGE

    A Tabela 7 indica o nmero de domiclios dos municpios do Territrio da Cidadania do

    Noroeste de Minas segundo o mbito em que se encontram, rural e urbano, nos anos de 1991,

    2000 e 2010, permitindo uma melhor visualizao acerca da distribuio da populao ao

    longo das dcadas de 1990 e 2000.

    Tabela 7: Nmero de domiclios por situao, segundo os municpios do Territrio do Noroeste

    de Minas, nos anos de 1991, 2000 e 2010.

    Municpios

    1991 2000 2010

    Rural Urbano Rural Urbano Rural Urbano

    Arinos 1926 1587 2338 3186 2780 4037

    Bonfinpolis de Minas 1647 1517 887 1275 948 1595

    Brasilndia de Minas - - 952 2828 866 4038

    Chapada Gacha - - 919 1103 1392 1950

  • 101

    Dom Bosco - - 1055 631 822 820

    Formoso 1021 487 1123 1043 1129 1796

    Guarda-Mor 811 618 1227 1127 1425 1356

    Joo Pinheiro 5033 6401 3676 9765 4230 12786

    Lagamar 949 1138 1242 1647 1372 2145

    Lagoa Grande - - 808 1699 955 2378

    Natalndia - - 309 707 310 943

    Paracatu 3068 11029 4751 17314 5138 23790

    Pintpolis - - 1164 566 1342 867

    Presidente Olegrio 2567 2998 2829 3654 3289 4860

    Riachinho - - 1282 1196 1439 1608

    Santa F de Minas 764 291 762 652 733 862

    So Gonalo do Abaet 1027 1396 922 1243 1364 1580

    So Romo 1826 1270 737 1315 904 1991

    Uruana de Minas - - 598 569 613 773

    Urucuia - - 1364 1140 1733 1711

    Varjo de Minas - - 471 1074 505 1796

    Vazante 1430 3360 1786 4768 1795 5985

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do IBGE/SIDRA

    Verifica-se segundo a Tabela 7, que o nmero de domiclios em alguns municpios,

    notadamente de pequena populao, como Bonfinpolis de Minas, decresceu em ambos os

    mbitos, rural e urbano, indicando um processo de migrao para os municpios mais

    desenvolvidos. O xodo rural verificado em tais municpios pode ser oriundo da alta

    participao da agricultura patronal em contraste com a pequena participao da agricultura

    familiar. Por exemplo, o valor da produo agrcola de Bonfinpolis de Minas, segundo a

    tabela 5, representado em 6% pela agricultura familiar, enquanto a agricultura patronal

    responde por 84%.

    Analisando os dados populacionais do TCNM atravs da Tabela 8, verifica-se que

    Paracatu e Joo Pinheiro apresentaram crescimento populacional, tanto no mbito rural como

    no urbano, acima da mdia do territrio em termos absolutos, sobretudo no perodo

    compreendido entre 2000 e 2010, reafirmando a posio de municpios plo do territrio.

    Ambos os municpios, conforme verificado na Tabela 9, mais adiante, apresentam em relao

    ao territrio ndices altos de abastecimento de gua por rede geral, 84,11% e 82,02%

  • 102

    respectivamente, sendo um bom indicativo de qualidade de vida e de atratividade para as

    populaes migrantes.

    Tabela 8: Populao residente (Nmero) e variao da populao (%) nos municpios do

    Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas nos anos de 1991, 2000 e 2010.

    Municpio

    Ano Variao Variao Variao

    1991 2000 2010 1991/2000 2000/2010 1991/2010

    Arinos 17125 17709 17674 3,41 -0,2 3,21

    Bonfinpolis de Minas 14464 6443 5865 -55,45 -8,97 -59,45

    Brasilndia de Minas - 11473 14226 - 24 -

    Chapada Gacha - 7270 10805 - 48,62 -

    Dom Bosco - 4055 3814 - -5,94 -

    Formoso 7199 6522 8177 -9,4 25,38 13,59

    Guarda-Mor 5919 6656 6565 12,45 -1,37 10,91

    Joo Pinheiro 49956 41368 45260 -17,19 9,41 -9,4

    Lagamar 8130 7710 7600 -5,17 -1,43 -6,52

    Lagoa Grande - 7610 8631 - 13,42 -

    Natalndia - 3293 3280 - -0,39 -

    Paracatu 62774 75216 84718 19,82 12,63 34,96

    Pintpolis - 6949 7211 - 3,77 -

    Presidente Olegrio 23145 17781 18577 -23,18 4,48 -19,74

    Riachinho - 7973 8007 - 0,43 -

    Santa F de Minas 4573 4192 3968 -8,33 -5,34 -13,23

    So Gonalo do Abaet 9745 5432 6264 -44,26 15,32 -35,72

    So Romo 14562 7783 10276 -46,55 32,03 -29,43

    Uruana de Minas - 3263 3235 - -0,86 -

    Urucuia - 9615 13604 - 41,49 -

    Varjo de Minas - 4701 6054 - 28,78 -

    Vazante 18799 18928 19723 0,69 4,2 4,92

    Total 236391 281942 313534 19,27 11,21 32,63

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do IBGE - Censo Demogrfico

    Ainda segundo a Tabela 8, a populao residente nos municpios do Territrio da

    Cidadania do Noroeste de Minas levando em considerao os anos de 1991, 2000 e 2010

    apresentou crescimento absoluto de 32% ao longo das duas dcadas analisadas, contudo,

    levando em considerao os municpios individualmente, percebem-se alteraes

    considerveis em suas composies.

    Dez municpios perderam populao ao longo do perodo analisado, sendo que

    Bonfinpolis de Minas, Joo Pinheiro, Lagamar, Presidente Olegrio, Santa F de Minas, So

  • 103

    Gonalo do Abaet e So Romo apresentaram intensa queda populacional entre os anos de

    1991 a 2000, recuperando parte de sua populao a partir de 2000. Apenas Bonfinpolis de

    Minas, Lagamar e Santa F de Minas, continuaram a perder populao, porm em propores

    menores. Dom Bosco, Natalndia e Uruana de Minas, os outros municpios que apresentaram

    queda populacional, foram fundados em meados da dcada de 1990, participando apenas dos

    censos de 2000 e 2010.

    O marcante processo de emigrao verificado na dcada de 1990 pode ser entendido

    como uma mescla decorrente de fatores conjunturais da economia brasileira na poca e de

    fatores caractersticos do territrio. As polticas creditcias voltadas para a agricultura

    praticamente inexistiam no inicio da dcada, sobretudo para os pequenos agricultores, sendo

    que os municpios que perderam populao neste perodo, foram os que apresentaram em

    relao ao valor da produo agropecuria, maior participao de produtores tradicionais, ou

    seja, os pequenos produtores se viram obrigados a procurarem outra ocupao em outros

    municpios. Neste contexto, apenas Santa F de Minas, apresentava maior participao no

    valor da produo de produtores familiares, conforme a Tabela 5, e mesmo assim incorreu em

    perda populacional.

    O municpio de Paracatu apresentou durante as dcadas analisadas crescimento

    populacional acima do verificado no territrio, seu crescimento foi de aproximadamente 35%,

    representando um crescimento absoluto de mais de 20.000 habitantes em 20 anos,

    reafirmando a posio de principal municpio de destino das populaes migrantes do

    territrio, conforme j mencionado. Paracatu apresenta ainda alto percentual de participao

    de agricultores patronais e baixo de agricultores familiares, sendo que o setor de servios o

    principal componente do valor adicionado do municpio, conforme as Tabelas 6 e 4,

    respectivamente.

    A fim de mensurar uma possvel evoluo na qualidade de vida da populao do

    Territrio do Noroeste de Minas selecionamos quatro variveis: Domiclios abastecidos de

    gua por rede geral, Domiclios Abastecidos de Energia Eltrica, o Percentual da Populao

    Alfabetizada e o Valor do Rendimento Nominal Mdio Mensal dos Domiclios. Tais variveis

    foram analisadas para os anos de 1991, 2000 e 2010. Essa periodizao escolhida contempla

    bem as transformaes decorrentes das polticas pblicas agrcolas e agrrias implantadas ao

    longo do tempo para o territrio.

  • 104

    O ano de 1991 contempla as transformaes ocorridas na dcada de 1980, perodo

    marcado pelas polticas agrcolas orientadas para o grande produtor e para a ocupao do

    cerrado. O ano de 2000 representa bem as transformaes oriundas da dcada de 1990,

    perodo marcado pelos sacrifcios feitos pela populao em decorrncia das polticas fiscais

    contracionistas e pela abordagem endgena de desenvolvimento. J o ano de 2010, apresenta

    as transformaes ocorridas durante os anos 2000, perodo caracterizado pelo relevante

    crescimento econmico do pas e pelas polticas de recorte territorial.

    Na Tabela 9 encontram-se os dados sobre os domiclios abastecidos de gua por rede

    geral nos municpios do Territrio do Noroeste de Minas durante os anos de 1991, 2000 e

    2010. Tais dados so um importante indicativo de qualidade de vida dos cidados, e a

    periodicidade abordada nos ajuda a visualizar uma possvel evoluo desse indicador.

    Tabela 9: Domiclios particulares permanentes e abastecimento de gua nos municpios do

    Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas (Unidades) (1991, 2000 e 2010).

    Ano 1991 2000 2010

    Municpio Total Abastecido

    por rede geral

    % Total Abastecido

    por rede geral

    % Total Abastecido

    por rede geral

    %

    Arinos 3476 891 25,63 4121 2521 61,17 5221 3283 62,88

    Bonfinpolis de Minas 3111 921 29,6 1624 1098 67,61 1854 1332 71,84

    Brasilndia de Minas - - - 2823 2290 81,12 4061 3395 83,6

    Chapada Gacha - - - 1472 597 40,56 2541 1477 58,13

    Dom Bosco - - - 1067 660 61,86 1244 750 60,29

    Formoso 1486 303 20,39 1620 950 58,64 2225 1466 65,89

    Guarda-Mor 1410 490 34,75 1809 1012 55,94 2082 1223 58,74

    Joo Pinheiro 10984 5983 54,47 10781 8586 79,64 13561 11123 82,02

    Lagamar 2054 1032 50,24 2226 1539 69,14 2665 1963 73,66

    Lagoa Grande - - - 2018 1508 74,73 2738 2135 77,98

    Natalndia - - - 841 619 73,6 1042 762 73,13

    Paracatu 13735 8346 60,76 18501 14880 80,43 23811 20028 84,11

    Pintpolis - - - 1387 567 40,88 1858 1078 58,02

    Presidente Olegrio 5497 2435 44,3 5107 3356 65,71 6322 4527 71,61

    Riachinho - - - 1859 686 36,9 2337 1354 57,94

    Santa F de Minas 894 142 15,88 973 482 49,54 1152 665 57,73

    So Gonalo do Abaet 2369 1218 51,41 1553 1126 72,5 2012 1590 79,03

    So Romo 2885 484 16,78 1597 1107 69,32 2440 1621 66,43

    Uruana de Minas - - - 865 564 65,2 1032 694 67,25

    Urucuia - - - 2026 1004 49,56 3062 1785 58,3

  • 105

    Varjo de Minas - - - 1242 1010 81,32 1937 1615 83,38

    Vazante 4631 2948 63,66 5318 4385 82,46 6445 5458 84,69

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do IBGE

    Analisando a Tabela 9, verificamos que em 1991, sete municpios (Arinos, Bonfinpolis

    de Minas, Formoso, Guarda-Mor, Presidente Olegrio, Santa F de Minas e So Romo)

    representando cerca de 60% dos municpios do territrio na poca, apresentavam

    abastecimento de gua por rede geral em menos da metade de seus domiclios. A mdia de

    domiclios abastecidos era de 26%, ou seja, um nmero significativamente baixo. Os outros

    municpios censeados em 1991 cujo abastecimento compreendia mais da metade dos

    domiclios (Joo Pinheiro, Lagamar, Paracatu, So Gonalo do Abaet e Vazante)

    apresentaram mdia de 56% de domiclios abastecidos.

    O baixo percentual de abastecimento pode ser compreendido pela falta de polticas

    pblicas orientadas para as infraestruturas desses municpios, visto que na dcada de 1980,

    dada a conjuntura de crise econmica, pouco foi feito pelos governos, sobretudo os

    municipais. Ademais o nmero significativo de domiclios situados no mbito rural e,

    portanto sem abastecimento por rede geral, verificados mesmo aps o xodo rural provocado

    pelas polticas agrcolas da dcada de 1970, pode ser um fator considervel.

    No ano de 2000, j considerando todos os municpios que compem o Territrio da

    Cidadania do Noroeste de Minas, verificou-se que em mdia 64% dos domiclios eram

    abastecidos por rede geral. Em relao aos municpios censeados em 1991, houve um

    crescimento mdio de 84% no nmero de domiclios abastecidos.

    O crescimento considervel do nmero de domiclios abastecidos de gua por rede geral

    em 2000 pode ser compreendido pela conjuntura econmica vivenciada pelos municpios

    durante a dcada. O aumento da populao dos municpios, possibilitado tambm pelo xodo

    rural, somado ao atendimento das novas demandas dessa populao, respaldadas pelo poder

    municipal em consonncia ao novo modelo de desenvolvimento vigente na poca,

    possibilitaram o aumento do abastecimento de gua, e a consequente melhora na qualidade de

    vida da populao. Ressalta-se que durante a dcada de 1990, os cidados ganharam maior

    poder de participao nas decises municipais, principalmente no final da dcada, com as

    polticas de cunho social implantadas no governo FHC.

  • 106

    A Tabela 8 evidenciou o xodo rural de alguns municpios do territrio, como:

    Bonfinpolis de Minas, Joo Pinheiro, Santa F de Minas, So Gonalo do Abaet e So

    Romo, que apresentaram decrescimento no nmero de domiclios rurais ao longo da dcada

    de 1990, contribuindo para o aumento da demanda por abastecimento de gua nas cidades.

    No ano de 2010, a mdia de domiclios abastecidos por rede geral de gua foi de

    75.64%, pouco acima da mdia verificada no ano 2000, que foi de 71.36%. Enquanto o

    nmero de domiclios cresceu 29% ao longo da dcada, os domiclios abastecidos

    apresentaram variao positiva de 37%, representando um crescimento de 8% de domiclios

    abastecidos no territrio durante os anos 2000. Tal fato pode ser explicado em virtude dos

    municpios de menor populao, terem grande parte de seus domiclios situados no mbito

    rural e, portanto, sem acesso a rede geral de gua. No obstante, a populao de alguns desses

    municpios, como Arinos, Bonfinpolis de Minas, Dom Bosco, Guarda-Mor, Lagamar,

    Natalndia, Santa F de Minas e Uruana de Minas diminuram ao longo da dcada,

    significando em reduo da demanda por abastecimento de gua por rede geral. Outros

    municpios como Chapada Gacha, Pintpolis, Riachinho e Urucuia, nem mesmo existiam

    como municpios durante o censo de 1991, eram pequenos povoados, que recentemente foram

    promovidos a municpios, e que, portanto, possuem sistemas de abastecimento de gua ainda

    precrios, contribuindo para a baixa mdia do territrio.

    Outro bom indicativo de qualidade de vida da populao do territrio o acesso a

    energia eltrica. Analisando a Tabela 10, sobre o percentual de domiclios com iluminao

    nos municpios do Territrio do Noroeste de Minas nos anos de 1991, 2000 e 2010,

    percebemos uma evoluo relevante no abastecimento de energia eltrica, tanto no mbito

    rural quanto no mbito urbano.

    Tabela 10: Percentual de domiclios com iluminao nos municpios do TCNM

    Existncia de Iluminao eltrica 1991 2000 2010

    Rural Urbano Rural Urbano Rural Urbano

    Sim 38,67 91,11 57,63 97,92 95,4 99,44

    No 61,32 8,88 42,36 2,07 4,6 0,56

    Total 100 100 100 100 100 100

    Fonte: Elaborao Prpria a partir de dados do IBGE

    Em 2010, o percentual de domiclios abastecidos de energia eltrica chegou a totalidade

    de 99% no mbito urbano e a 95% no rural. Evoluo considervel principalmente sobre os

  • 107

    domiclios rurais, que apresentava em 1991, abastecimento de energia eltrica em apenas

    38,67% dos domiclios rurais.

    O crescimento no nmero de domiclios rurais abastecidos de energia foi mais

    acentuado durante a dcada de 2000, e assim o foi devido s polticas pblicas federais

    deliberadas de abastecimento de energia, como o Programa Luz para Todos, que no territrio

    realizado em conjunto com o governo estadual e est vinculado ao Programa Territrios da

    Cidadania.

    No obstante, podemos encontrar na matriz de aes do TC, demonstrado com mais

    detalhes na sesso 3.4, o volume de investimento destinado para o Programa Luz Para Todos.

    Em 2008, primeiro ano do TC, houve um montante de investimento de R$ 38.500.091,00, em

    2009 de R$8.033.796,00 e em 2010 de R$10.317.400,00, totalizando investimentos no valor

    de R$ 56.851.287,00 nos trs primeiros anos do Programa Territrios da Cidadania no

    Noroeste de Minas.

    Alm de ser um bom indicador de qualidade de vida, o abastecimento de energia

    eltrica se mostra fundamental tambm para os pequenos produtores que necessitam de

    energia em suas produes, possibilitando a eles a estocagem e o processamento de seus

    produtos. A produo do leite, importante atividade desempenhada pelos agricultores

    familiares do Territrio do Noroeste de Minas um exemplo de atividade cuja dependncia

    de energia eltrica alta.

    O percentual da populao alfabetizada outro indicador da qualidade de vida da

    populao do territrio, e conforme verificado na Tabela 11, houve no perodo compreendido

    entre 1991 e 2010 um grande aumento no percentual de pessoas alfabetizadas, sobretudo

    durante a dcada de 1990.

    Tabela 11: Percentual da populao alfabetizada no TCNM nos anos de 1991,2000 e 2010

    Alfabetizao 1991 2000 2010

    Rural Urbana Total Rural Urbana Total Total

    Sabe ler e escrever 67,86 78,94 73,4 82,35 88,28 85,32 87,88

    No sabe 32,13 21,05 26,59 17,64 11,71 14,67 12,12

    Total 100 100 100 100 100 100 100

    Fonte: Elaborao Prpria a partir de microdados do Censo 1991 e 2000 e do Censo 2010.

  • 108

    Em 1991, 73.40% da populao do territrio sabia ler e escrever, esse percentual passou

    para 85.32% em 2000 e para 87.88% em 2010. O aumento do percentual da populao

    alfabetizada ocorrido na dcada de 1990 foi fruto do compromisso feito em prol da

    erradicao do analfabetismo, firmado pelo governo do Brasil na Conferncia Mundial sobre

    Educao para Todos realizada em maro de 1990 na Tailndia sob a chancela de diversos

    organismos multilaterais, como o Banco Mundial e a UNICEF (FRIGOTTO e CIAVATTA,

    2003).

    Outro fator importante acerca da questo educacional do Brasil foi o fato da

    Constituio Federal de 1988 conceder populao jovem e adulta o direito educao

    fundamental, sendo esse ensino feito pelos rgos pblicos para a populao que no teve

    acesso educao bsica durante a infncia e a adolescncia. A partir de 1995 foram

    elaborados alguns programas destinados educao, dentre os mais importantes esto: o

    Plano Nacional de Formao do Trabalhador (Planfor), coordenado pela Secretaria de

    Formao e Desenvolvimento Profissional do Ministrio do Trabalho (Sefor/MT), iniciado

    em 1996; o Programa Alfabetizao Solidria (PAS), coordenado pelo Conselho da

    Comunidade Solidria, vinculado Presidncia da Repblica, implementado a partir de 1997;

    e o Programa Nacional de Educao na Reforma Agrria (Pronera), coordenado pelo Instituto

    Nacional de Colonizao e Reforma Agrria (Incra), vinculado ao Ministrio Extraordinrio

    da Poltica Fundiria (MEPF), que iniciou suas operaes a partir de 1998 (HADDAD, 2000).

    Apesar dos esforos para com a alfabetizao de jovens e adultos, segundo Haddad

    (2000), os avanos apresentados na dcada de 1990 foram alcanados, sobretudo, pela

    combinao do perfil etrio e da dinmica demogrfica junto melhoria de condies de

    acesso das novas geraes ao ensino fundamental.

    A prxima varivel analisada a fim de se verificar ganhos de bem estar pela populao

    do territrio o valor do rendimento nominal mdio mensal dos domiclios particulares

    permanentes, nos anos de 1991, 2000 e 2010 no TCNM.

    A Tabela 12 mostra que o valor do rendimento nominal mdio mensal dos domiclios

    particulares permanentes do Territrio do Noroeste de Minas se elevou consideravelmente

    durante o perodo analisado. Em 1991 o rendimento era de R$487,01, com os valores j

    corrigidos para o Real, em 2000 houve um crescimento de 41% nos valores, com o

    rendimento nominal mdio mensal se elevando para R$690,07. O ano de 2010 apresentou

  • 109

    resultado relevante em comparao com o valor de 10 anos antes, uma evoluo de 96%,

    praticamente dobrando o valor dos rendimentos nominais mdios mensais, indo para

    R$1.353,26.

    Tabela 12: Valor do rendimento nominal mdio mensal dos domiclios particulares permanentes

    (Reais)

    Ano Rural Urbano Total

    1991 361,76 612,27 487,01

    2000 545,42 834,72 690,07

    2010 1287.21 1419.31 1353.26

    Fonte: Elaborao Prpria a partir de dados do IBGE

    As alteraes no valor do rendimento nominal mdio mensal dos domiclios do

    territrio podem ser explicadas pela conjuntura econmica vivenciada pelo Brasil ao longo do

    perodo analisado. O Grfico 4 acerca do Salrio Mnimo Mdio Real Anual entre os anos de

    1980 e 2010 nos ajuda a compreender em parte a evoluo do rendimento no Territrio do

    Noroeste de Minas.

    Grfico 4: Salrio Mnimo Mdio Real Anual no Brasil de 1983 a 2012.

    Fonte: DIEESE

    Na dcada de 1980 os salrios mnimos mdios reais anuais eram elevados em

    comparao com as dcadas seguintes, pois o pas vinha apresentando taxas de crescimento

    econmico elevadas durante o perodo militar na dcada anterior. Conforme os efeitos das

    crises econmicas e da inflao inercial na dcada de 1980 iam se agravando, o salrio

    mnimo passou a declinar, porm estavam ainda em patamares maiores que os da dcada

    0

    100

    200

    300

    400

    500

    600

    700

    1983

    1984

    1985

    1986

    1987

    1988

    1989

    1990

    1991

    1992

    1993

    1994

    1995

    1996

    1997

    1998

    1999

    2000

    2001

    2002

    2003

    2004

    2005

    2006

    2007

    2008

    2009

    2010

    2011

    2012

    Salrio

    Mnimo

    Mdio

    Real

  • 110

    seguinte. Nos anos 1990 o salrio mnimo mdio anual apresentou decrscimo na primeira

    metade, e uma pequena recuperao na segunda metade em decorrncia da implantao do

    Plano Real, que estabilizou a inflao brasileira. J nos anos 2000 em decorrncia da

    estabilizao monetria e do perodo de crescimento econmico vivenciado aps o ano de

    2002, o salrio mnimo mdio anual real passou a crescer, chegando a marca de R$557,57 em

    2010.

    O valor do rendimento nominal mdio mensal dos domiclios do Territrio do Noroeste

    de Minas era inferior em 1991, elevando-se em 2000, apresentando desempenho contrrio ao

    verificado pelo salrio mnimo mdio real, verificado no Grfico 4. Nossa hiptese de que a

    estrutura econmica do territrio permitiu tal situao, conforme demonstrado a seguir.

    O Territrio do Noroeste de Minas, conforme verificado na Tabela 4 apresentou um

    setor industrial pouco desenvolvido e concentrado nos municpios de Paracatu e Joo

    Pinheiro. Desta maneira, o crescimento econmico vivenciado pelo territrio na dcada de

    1970 foi basicamente devido ao setor agropecurio, a exemplo das vrias polticas

    implementadas na dcada de 1970 e 1980 j citadas em nosso trabalho. Posto que o setor

    agropecurio menos fiscalizado que o setor industrial, sobretudo h 20 anos atrs, a

    incidncia de trabalho informal em suas dependncias consideravelmente maior,

    contribuindo para o rebaixamento dos rendimentos. No obstante, os salrios pagos so

    inferiores em comparao aos outros setores da economia. Outro fator importante para o

    baixo rendimento dos domiclios do territrio verificado em 1991, que ao longo da dcada

    de 1980, conforme os programas de ocupao do cerrado iam sendo implementados, havia

    ainda um grande nmero de famlias no campo que viviam de subsistncia, sendo que

    algumas recebiam rendimentos vendendo seus excedentes, e conforme suas terras iam sendo

    incorporadas pelos grandes produtores, tais famlias moviam-se para os centros urbanos.

    O relevante crescimento do salrio mnimo real verificado aps 2002 ocorreu em

    virtude das polticas deliberadas de aumento do salrio mnimo real implementado pelo

    governo Lula, ainda sob protestos de alas conservadoras do governo. Tais polticas foram

    possibilitadas devido ao perodo de crescimento econmico verificado durante a dcada.

    Ressaltando que mesmo a crise vivenciada no final de 2008 que perdura nos dias atuais, no

    foi capaz de frear tais polticas, sendo que em maro de 2012, o salrio mnimo elevou-se para

    R$622.00.

  • 111

    A elevao do valor do rendimento nominal mdio mensal dos domiclios do Territrio

    do Noroeste de Minas conforme o valor apresentado em 2010 acompanhou o crescimento do

    salrio mnimo mdio real e tal evoluo foi consequncia de uma srie de fatores

    conjunturais e especficos ao territrio. Por fator conjuntural, podemos citar o crescimento

    econmico junto ao crescimento do salrio mnimo real. Por fator especfico ao territrio tem

    se as polticas de transferncia de renda presentes no Programa Territrios da Cidadania,

    como o Bolsa Famlia e os Benefcios de Assistncia ao Idoso e ao Portador de Deficincia,

    conforme verificados na prxima sesso deste captulo. Por fim os crditos do PRONAF aos

    pequenos produtores elevaram-se substancialmente com o Governo Lula, contribuindo

    tambm para a elevao dos rendimentos do territrio.

    A anlise dos indicadores verificados, como o abastecimento de gua e de energia

    eltrica, os ndices de alfabetizao e os rendimentos dos domiclios do Territrio do Noroeste

    de Minas, indicaram um substancial aumento na qualidade de vida da populao do territrio

    ao longo do perodo analisado. Parte desses indicadores evoluiu segundo fatores conjunturais,

    como a taxa de alfabetizao e os rendimentos nominais mdios at inicio dos anos 2000, a

    outra parte evoluiu devido a polticas pblicas especficas, como o abastecimento de gua e

    energia eltrica e o rendimento nominal mdio aps o governo Lula.

    Alm da evoluo da qualidade de vida da populao do territrio verificada,

    percebemos que tal populao est se tornando urbana, com isso novas demandas vinculadas

    qualidade de vida nos centros urbanos esto surgindo, a exemplo do quadro demonstrado no

    captulo 2 acerca do Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentvel (PTDRS) de

    autoria do Colegiado Territorial. Outro fator importante verificado foi a baixa

    representatividade das famlias de agricultores familiares em relao s demais famlias do

    territrio. Portanto, tais caractersticas presentes no Territrio do Noroeste de Minas, algumas

    de perfil relativamente recentes se mostram fundamentais para a elaborao e at mesmo para

    a readaptao das polticas orientadas para seu desenvolvimento.

    3.4 Oramento Executado no Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas

    O Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas implantado em 2008 pelo governo

    federal tem por objetivo o desenvolvimento econmico e a universalizao de programas

    bsicos de cidadania atravs de uma abordagem orientada para o desenvolvimento territorial

    sustentvel (BRASIL, 2012). No programa todas as esferas de governo, Federal, Estadual e

  • 112

    Municipal, mais parcelas da sociedade foram mobilizadas para a consecuo do objetivo

    maior representado pelo desenvolvimento e pela incluso social. O oramento elaborado do

    programa contou com o favorecimento da conjuntura econmica positiva vivenciada pelo

    Brasil ao longo dos dois mandatos do governo Lula, a partir de 2002, representando valores

    jamais vistos ao se tratar de polticas sociais no pas.

    O oramento elaborado para o programa Territrios da Cidadania e executado no

    Territrio do Noroeste de Minas previa investimentos em sete reas principais de atuao:

    Direitos e Desenvolvimento Social; Organizao Sustentvel da Produo; Sade,

    Saneamento e Acesso gua; Educao e Cultura; Infraestrutura; Apoio Gesto Territorial

    e por fim Aes Fundirias. Tais aes movimentaram recursos na ordem de R$600 milhes

    de reais durante os trs primeiros anos do programa, conforme a Tabela 13.

    Tabela 13: Matriz de Aes do Programa Territrios da Cidadania para o Territrio da

    Cidadania do Noroeste de Minas (Valores em R$)

    Qualidade da Ao 2008 2009 2010 Total

    Direitos e desenvolvimento social 52.018.311,64 62.160.270,26 71.895.617,73 186.074.199,63

    Organizao Sustentvel da Produo 46.618.845,18 77.244.495,88 75.089.667,87 198.953.008,93

    Sade, saneamento e acesso gua 44.303.252,43 12.963.411,68 14.189.484,90 71.456.149,01

    Educao e cultura 19.017.299,66 6.531.538,67 3.580.667,69 29.129.506,02

    Infra-estrutura 49.405.908,10 13.236.154,97 12.565.056,53 75.207.119,60

    Apoio a gesto territorial 272.263,00 34.577,08 395.193,57 702.033,65

    Aes fundirias 24.189.585,87 14.524.596,25 696.000,00 39.410.182,12

    Total Anual 235.825.465,88 186.695.044,79 178.411.688,29 600.932.198,96

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do MDA

    A distribuio dos recursos do Programa Territrios da Cidadania pelo oramento

    executado de 2008, 2009 e 2010 segundo as reas de atuao pode ser melhor visualizada

    atravs do Grfico 5.

  • 113

    Grfico 5: Oramento Executado nos anos 2008, 2009 e 2010 no TCNM.

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do MDA

    Verifica-se segundo o Grfico 5 que 2/3 do oramento executado nos trs primeiros

    anos do programa foram direcionados para a Organizao Sustentvel da Produo e para

    Direitos e Desenvolvimento Social. Investimentos em infraestrutura, em Sade, saneamento e

    acesso gua, Educao e cultura, Aes fundirias e Apoio gesto territorial dividiram o

    1/3 restante dos recursos.

    Os recursos mobilizados para a Organizao Sustentvel da Produo, ou seja, os

    recursos orientados para a dinamizao da produo movimentaram R$198.953.008,93. Os

    crditos do PRONAF foram responsveis por 65% dos recursos orientados para a

    Organizao Sustentvel da Produo e por 21% do total de recursos executados pelo

    Programa Territrios da Cidadania no Territrio do Noroeste de Minas, representando um

    montante de R$129.142.044,26.

    O Programa Bolsa Famlia e os Benefcios de Prestao Continuada da Assistncia

    Social Pessoa Idosa e s Pessoas com Deficincia responderam por 98% dos recursos

    executados na rea de Direitos e Desenvolvimento Social e por 30,48% do total executado nos

    trs anos do programa. Tais programas representam transferncias diretas de renda e

    apresentaram elevao relevante durante os trs anos de oramento executado. Analisados

    separadamente, o Bolsa Famlia representa 12.5%, o Beneficio de Prestao Continuada da

    Assistncia Social Pessoa Idosa representa 7.3% e a Assistncia s Pessoas com Deficincia

    1) Direitos

    e Desenvolvimento

    Social

    31%

    2) Organizao

    Sustentvel da

    Produo

    33%

    3) Sade,

    saneamento e

    acesso gua

    12%

    4) Educao e

    Cultura

    5%

    5) Infra-

    estrutura

    12%

    6) Apoio a gesto

    territorial

    0%

    7) Aes Fundirias

    7%

  • 114

    representam 10,5% do total executado do Programa TC. Portanto, o total de transferncias

    diretas de renda movimentou R$183.143.210,99.

    Verifica-se, porm que os recursos e sua destinao foram se alterando ao longo dos trs

    anos iniciais do programa, conforme certas demandas da populao iam sendo atendidas.

    Ressaltando que as reunies do colegiado territorial so o principal mecanismo de

    reivindicao e de atuao dos atores sociais do territrio, tendo papel fulcral nos rumos do

    Programa.

    No primeiro ano do Programa em 2008, o oramento executado foi mais igualitrio em

    termos de aes atendidas, conforme mostra o Grfico 6. Direitos e Desenvolvimento Social,

    Organizao Sustentvel da Produo, Sade, Saneamento e Acesso gua e Infraestrutura

    tiveram participaes semelhantes no total do oramento executado, com mdia de 21%

    participao.

    Grfico 6: Oramento Executado em 2008 no TCNM (%).

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do MDA.

    O Quadro A presente no Anexo deste Captulo exibe uma relao de todos os projetos

    executados no ano de 2008, com os valores envolvidos, os ministrios vinculados e a

    classificao segundo o grupo de aes. Destacam-se os investimentos na revitalizao do rio

    Direitos e

    desenvolvimento

    social

    22%

    Organizao

    Sustentvel da

    Produo

    20%

    Sade, saneamento e

    acesso gua

    19%

    Educao e

    cultura

    8%

    Infra-estrutura

    21%

    Apoio a gesto

    territorial

    0% Aes

    fundirias

    10%

  • 115

    So Francisco e do rio Parnaba, com obras no valor de R$22 milhes, a Obteno de Terras

    para Assentamento de Trabalhadores Rurais no valor de R$14 milhes, A Expanso das

    Escolas Tcnicas com recursos destinados de R$10 milhes, O programa Luz para Todos com

    investimentos no valor de R$38 milhes, o PRONAF com R$32 milhes distribudos em

    crdito rural, o Programa Bolsa Famlia com R$20 milhes e o Benefcio de Prestao

    Continuada da Assistncia Social Pessoa Idosa e pessoa com deficincia na casa dos R$29

    milhes.

    O oramento executado em 2009 apresentou algumas alteraes em relao ao anterior.

    Com destaque para a expanso dos gastos em Direitos e Desenvolvimento Social e

    principalmente em Organizao Sustentvel da Produo, sendo o PRONAF e o Bolsa

    Famlia os principais destinos de recursos. Os demais grupos de aes perderam participao

    e recursos no ano de 2009, conforme verificado na Tabela 13 e pelo Grfico 7.

    Grfico 7: Oramento executado em 2009 no TCNM (%)

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do MDA.

    Os destaques para o oramento executado no ano de 2009 foram: A aquisio de Produtos

    Agropecurios no valor de R$15 milhes, os R$46 milhes destinados a crditos do PRONAF, A

    Obteno de Terras para Assentamento de Trabalhadores Rurais no valor de R$14 milhes, os

    Benefcios de Prestao Continuada da Assistncia Social Pessoa com Deficincia e a

    Direitos e

    desenvolvimento

    social

    33%

    Organizao

    Sustentvel da

    Produo

    41%

    Sade, saneamento e

    acesso gua

    7%

    Educao e cultura

    4%

    Infra-

    estrutura

    7%

    Apoio a gesto

    territorial

    0% Aes

    fundirias

    8%

  • 116

    Pessoa Idosa e por fim os R$24 milhes destinados ao Bolsa Famlia. No Anexo deste

    Captulo encontra-se o Quadro B com o detalhamento das aes, dos valores e dos ministrios

    envolvidos.

    O oramento executado de 2010 deu continuidade concentrao de recursos nas reas

    de Direitos e Desenvolvimento Social e Organizao Sustentvel da Produo, ressaltando

    que os recursos destinados ao primeiro se elevaram, enquanto os recursos destinados ao

    segundo apresentaram pequeno decrscimo.

    Educao e Cultura, Infraestrutura e Aes Fundirias alm de perderem participao,

    tiveram seus recursos reduzidos. Sade, Saneamento e Acesso a gua e apoio a gesto

    territorial tiveram seus recursos executados elevados, conforme verificado no Grfico 8.

    Grfico 8: Oramento executado em 2010 no TCNM (%).

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do MDA.

    No Anexo C deste Captulo 3 encontram-se todos os programas, os valores executados,

    os ministrios envolvidos e o grupo de aes a que pertencem do oramento executado de

    2010. Os programas destaques e seus valores aproximados executados pelo Oramento de

    2010 foram: Cresce Nordeste, com R$16 milhes, O Luz Para Todos com R$10 milhes, O

    Direitos e

    desenvolvimento

    social

    40%

    Organizao

    Sustentvel da

    Produo

    42%

    Sade, saneamento e

    acesso gua

    8%

    Educao e cultura

    2%

    Infra-

    estrutura

    7%

    Apoio a gesto

    territorial

    0%

    Aes fundirias

    1%

  • 117

    PRONAF com R$49 milhes, o Beneficio de Prestao Continuada da Assistncia Social s

    Pessoas com Deficincias no valor de R$ 24 milhes e o Beneficio de Prestao Continuada

    da Assistncia Social s Pessoas Idosas no valor de R$17 milhes e por fim O Programa

    Bolsa Famlia com R$28 milhes.

    A anlise do oramento executado do Programa TC nos anos de 2008, 2009 e 2010

    indicou duas reas principais de atuao, que aumentaram sua participao ao longo da

    durao do programa: Direitos e Desenvolvimento Social e Organizao Sustentvel da

    Produo. A primeira compreende basicamente uma poltica de transferncia direta de renda,

    enquanto a segunda representa esforos na dinamizao da produo dos agricultores

    familiares. Verificou-se tambm que o oramento executado de 2009 apresentou declnio no

    volume de recursos em todas as demais reas, conforme verificado no Grfico 9.

    Grfico 9: Oramento Executado nos anos de 2008, 2009 e 2010 no TCNM (R$).

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do MDA.

    Para o ano de 2010 o oramento elevou os recursos executados apenas nas reas de

    Direito e Desenvolvimento Social e Apoio a Gesto Territorial, sendo que o ltimo

    movimenta poucos recursos em comparao com as outras aes. Portanto, apenas Direito e

    Desenvolvimento Social, ou seja, uma poltica de transferncia direta de renda apresentou

    crescimento de recursos ao longo dos trs anos de programa. Os demais apresentaram quedas

    nos volumes de recursos, com relevncia para a reduo de 68% em Sade, Saneamento e

    Acesso gua, 82% em Educao e Cultura, 74% em Infraestrutura e por fim, reduo de

    97% em Aes Fundirias.

    0,00

    10.000.000,00

    20.000.000,00

    30.000.000,00

    40.000.000,00

    50.000.000,00

    60.000.000,00

    70.000.000,00

    80.000.000,00

    90.000.000,00

    2008 2009 2010

    Va

    lores

    em

    R$

    Direitos e desenvolvimento

    social

    Organizao Sustentvel da

    Produo

    Sade, saneamento e acesso

    gua

    Educao e cultura

    Infra-estrutura

    Apoio a gesto territorial

  • 118

    Portanto, o oramento executado do Programa Territrios da Cidadania para o Territrio

    do Noroeste de Minas distribuiu 1/3 de seus recursos para os Agricultores Familiares em

    forma de aes voltadas para a Organizao Sustentvel da Produo e outros 1/3 em polticas

    de transferncia direta de renda. Os valores associados educao, varivel chave em

    qualquer programa ou poltica de desenvolvimento social, decresceu ao longo dos trs anos,

    assim como os recursos para a rea da sade. Para um territrio onde apenas 12% das famlias

    pertencem agricultura familiar, destinar 1/3 dos recursos a essa parcela minoritria significa

    que os recursos esto sendo distribudos de forma arbitrria. Ressaltando no a necessidade de

    diminuir tais recursos, mas sim de aumentar os demais, de forma a atender as demandas gerais

    do territrio.

  • 119

    CONSIDERAES FINAIS

    O objetivo que norteou nossa dissertao foi analisar os impactos das polticas pblicas

    concebidas segundo diferentes perspectivas de desenvolvimento no Territrio da Cidadania

    do Noroeste de Minas, verificando qual perfil de polticas contribuiu de forma mais enftica

    para o desenvolvimento econmico e social do territrio. Levando sempre em considerao

    que o TCNM constitudo por pequenos municpios de caractersticas rurais e cuja dinmica

    econmica insipiente.

    Dentre as polticas pblicas analisadas destacam-se dois grupos: o primeiro engloba as

    polticas que foram orientadas segundo um planejamento de mbito centralizado, com forte

    inspirao regional tradicional verificada, sobretudo a partir da dcada de 1970; e o

    segundo grupo, verificado a partir de meados da dcada de 1990 e aprofundado nos anos

    2000, compreendendo um planejamento de cunho descentralizado, com polticas pblicas de

    corte territorial.

    Para tanto, desenvolvemos no primeiro captulo um breve retrospecto de como o meio

    rural brasileiro se desenvolveu, ou seja, traamos os principais fatores que contriburam para

    moldar o meio rural assim como ele hoje, com destaque para a questo agrcola e agrria, e

    para os diversos papis desempenhados pela agricultura no mbito da economia nacional. No

    obstante, destacamos a mudana da perspectiva de desenvolvimento regional e centralizado

    para a perspectiva de desenvolvimento endgeno, com nfase no capital social, num momento

    em que a economia nacional passava por importantes transformaes.

    Verificou-se que tradicionalmente no meio rural brasileiro os grandes proprietrios e

    produtores foram sempre privilegiados, mesmo num perodo em que as prprias polticas

    pblicas eram escassas como no incio do sculo XX. Conforme a economia brasileira ia se

    tornando mais complexa, polticas pblicas concebidas sob um planejamento mais amplo

    surgiram, tendo sempre a grande propriedade como foco.

    Neste cenrio, a agricultura surge cumprindo determinados papis, com destaque para o

    fornecimento de divisas para fazer saldo na balana comercial em prol do processo de

    industrializao por substituio de importaes, a incorporao das reas no ocupadas da

    poro centro-norte do pas, o fornecimento de matria prima e alimentos para o mercado

    interno e para a consolidao dos complexos agroindustriais. Destarte, destaca-se que

    polticas pblicas especficas para a agricultura foram elaboradas, visando cada papel a ser

  • 120

    desempenhado por ela e neste contexto inserem-se as polticas elaboradas sob o planejamento

    centralizado e de recorte regional utilizada para a ocupao do cerrado e com impactos diretos

    para o desenvolvimento do territrio que hoje compreendido pelo TCNM.

    Tais polticas orientadas para a modernizao da agricultura foram bem sucedidas no

    que se propuseram a fazer visto o alto grau de desenvolvimento atingido pelo agronegcio

    brasileiro e sua importncia para a economia nacional como um todo, portanto a questo

    agrcola foi resolvida. Contudo, a questo agrria, compreendida pelas relaes de trabalho e

    condies de vida no campo, que historicamente no Brasil sempre foi marginalizada,

    continuou a s-lo, e ainda deteriorou-se com a implantao destas polticas agrcolas que

    perduraram desde a dcada de 1970 a meados de 1990.

    Para o TCNM, tais polticas representaram concentrao de terras e de renda, e

    precarizao das condies de vida nos centros urbanos num primeiro momento, visto que os

    tradicionais proprietrios das terras do territrio foram quase praticamente que expropriados

    de suas propriedades, dado a poltica de aquisio de terras do governo. Crdito subsidiado,

    maquinrio e apoio tcnico eram fornecidos aos produtores oriundos do Sul do pas, dada sua

    experincia com o modo de produo capitalista, enquanto os produtores do territrio no

    tinham outra escolha, a no ser vender suas propriedades e se mudarem para os centros

    urbanos. Esse movimento contribuiu ainda para a precarizao da vida nos centros urbanos,

    em decorrncia de sua incapacidade de absorver esse contingente populacional, situao essa

    que piorava conforme a mecanizao do campo avanava.

    Portanto, as polticas pblicas de cunho centralizado e regional contriburam para

    caracterizar o TCNM como um territrio onde a agricultura de ponta se destaca pela produo

    em larga escala de commodities agrcolas, como a soja e o milho, sendo que a regio do

    Noroeste de Minas, segundo a SEAPA, a maior produtora de gros do estado de Minas

    Gerais. Em contrapartida tais polticas sobrecarregaram os pequenos municpios do territrio

    com novas demandas ao tempo em que no contemplavam auxilio ou soluo para a questo

    agrria. Os servios pblicos bsicos como o fornecimento de energia eltrica e abastecimento

    de gua foram lentamente expandidos de forma que a qualidade de vida foi precria para a

    maioria da populao ao longo das dcadas de 1970, 1980 e at mesmo na dcada de 1990.

    Ressaltando que no final da dcada de 1980 e incio da dcada de 1990, fatores conjunturais

    como as crises financeiras, o combate inflao e a mudana de perspectiva de atuao do

  • 121

    Estado, contriburam para a deteriorao das condies de vida da populao do territrio,

    dada a ausncia de polticas.

    Ademais, a configurao do Territrio por volta da dcada de 1990 j no era a mesma

    de vinte anos antes, visto que as necessidades impostas fizeram surgir novas atividades,

    provocando em certo sentido uma sobreposio entre o rural e o urbano. No havia mais a

    ntida separao entre atividades agropecurias e agroindustriais, e um novo ator social,

    inserido em famlias pluriativas, passou a combinar atividades agrcolas e no agrcolas,

    dentro e fora do ambiente rural.

    Posto que a crise da dvida e a inflao inercial, ainda por volta da dcada de 1990,

    assolavam a economia nacional, polticas austeras passaram a ser referncia no cenrio

    macroeconmico, pondo fim ao perodo de grande interveno Estatal na economia. No

    obstante, o desenvolvimento endgeno baseado na fora do capital social local passou a ser

    referncia no mbito das polticas pblicas. Neste perodo, apoiados pela Constituio Federal

    de 1988, houve um processo de descentralizao de poder, dando aos municpios e sua

    populao maior autonomia de deciso.

    O captulo 2 da dissertao demonstra justamente esse perodo de transio do primeiro

    grupo de polticas pblicas, centralizadas e de inspirao regional, para o segundo, composto

    de polticas de recorte territorial. Posto desta maneira, conforme ficava claro que o

    desenvolvimento endgeno, ao levar em considerao apenas o capital social local, era

    insuficiente para promover o desenvolvimento em locais de baixo dinamismo econmico,

    sobretudo em territrios rurais, o Estado passou a adotar medidas, ainda incipientes, de apoio

    s esferas locais. Foi assim durante os mandatos de FHC em 1994 e 1998.

    J no Governo Lula a partir de 2002 houve a clara opo por polticas baseadas no

    desenvolvimento territorial, as quais levam em considerao os aspectos e caractersticas

    locais do territrio trabalhadas sob a tica de atuao dos mbitos municipal, estadual e

    federal. Essa perspectiva de desenvolvimento contempla as demandas no atendidas da

    populao rural, tentando solucionar a questo agrria com polticas de transferncia de renda

    e de apoio produo dos pequenos produtores, alm de investimentos em infraestrutura e

    servios pblicos.

    Neste sentido, foi criado em 2008 o Territrio da Cidadania do Noroeste de Minas

    dentro do Programa Territrios da Cidadania, programa este criado sob a concepo de

  • 122

    desenvolvimento territorial. Um dos aspectos fundamentais presentes o papel desempenhado

    pelo Colegiado Territorial do TCNM, que funciona como uma instncia consultiva e

    deliberativa, sendo o local onde se debate e aponta as principais necessidades do territrio, e

    definidas as demandas, elas so transmitidas para as outras instncias de poder para serem

    objeto de polticas pblicas.

    Atravs do Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentvel (PTDRS), de

    autoria do Colegiado Territorial com o apoio de entidades filiadas ao Estado e atravs de

    dados do IBGE reunimos as principais demandas do territrio a fim de verificarmos os

    impactos das polticas implementadas sob a perspectiva de desenvolvimento territorial no

    TCNM.

    O TCNM um territrio composto por pequenos municpios de caractersticas rurais,

    com grande representatividade de Agricultores Familiares no Colegiado do Territrio. Suas

    demandas apontam para a melhoria e extenso dos servios pblicos de saneamento, como a

    coleta de lixo e o tratamento de esgotos, sobretudo no meio rural. Sobre a educao,

    demandam escolas rurais, que valorizem o estilo de vida no campo. No aspecto produtivo,

    demandam maior apoio tcnico, maior acesso ao crdito, alm de apresentarem preocupao

    com o manejo correto do solo e com medidas de sustentabilidade no uso dos recursos naturais

    do territrio. Outro aspecto importante sobre o TCNM sua grande extenso territorial, que

    acaba por dificultar a criao de sinergias capazes de promover o desenvolvimento do

    territrio. Neste sentido pensamos que seu recorte deveria ser repensado, privilegiando

    municpios efetivamente dotados de caractersticas similares.

    Posto as demandas do TCNM, contrastamos no Captulo 3 os indicadores que

    contemplam a qualidade de vida da populao, como o abastecimento de gua e de energia

    eltrica, o nvel de escolaridade e a renda mdia dos domiclios nos anos de 1991, 2000 e

    2010, segundo os Censos do IBGE. Sob a hiptese de que os indicadores do ano de 1991

    representariam as mudanas e as transformaes decorrentes das polticas pblicas de cunho

    centralizado implementadas nas dcadas de 1970 e 1980. Os indicadores do ano 2000

    representariam as transformaes da dcada de 1990, sob os aspectos do desenvolvimento

    endgeno, e por fim, os indicadores de 2010 representariam as transformaes oriundas das

    polticas pblicas de recorte territorial implementadas nos anos 2000.

    As constataes decorrentes das anlises dos ndices indicam que em 1991 os

    municpios do TCNM apresentavam baixssima qualidade de vida, com alto nvel de

  • 123

    analfabetismo, baixo nvel de abastecimento de gua, de energia e de rendimento mdio

    mensal domiciliar. Logo, verificamos que as polticas pblicas orientadas para a dinamizao

    da agricultura implementadas nas dcadas de 1970 e 1980, no proporcionaram aumento

    significativo na qualidade de vida da populao do territrio, e, na contramo do

    desenvolvimento social, no prepararam os municpios para absorver a populao retirante.

    Neste sentido, o desenvolvimento alcanado por tais polticas contemplaram apenas a

    agricultura e sua produtividade, enquanto os aspectos sociais, inerentes a qualquer perspectiva

    de desenvolvimento, deterioraram-se.

    Os indicadores dos anos de 2000 e 2010 apresentaram aumento significativo em relao

    aos ndices encontrados em 1991, sobretudo no ano de 2000. A evoluo da qualidade de vida

    da populao do territrio foi ntida, mas no em decorrncia de polticas pblicas especficas,

    mas sim pelo fato de que as condies em 1991 eram muito precrias. Em 2010 o ndice

    mdio de abastecimento de gua chegou a aproximadamente 80%, o ndice de fornecimento

    de energia eltrica chegou na casa dos 99% e o ndice de analfabetismo chegou prximo dos

    10%. Ademais, verifica-se um salto muito grande no rendimento nominal mdio mensal dos

    domiclios do territrio no ano de 2010, desempenho este alcanado graas poltica

    deliberada de crescimento do salrio mnimo real feito pelos governos Lula.

    Desta maneira, evidencia-se que as polticas de recorte territorial ao levar em

    considerao as caractersticas do territrio e por ter como objetivo seu desenvolvimento

    econmico e social, foram e so mais eficientes que as polticas implementadas na dcada de

    1970. Contudo, como se trata de uma abordagem nova de desenvolvimento, h algumas

    ressalvas a serem feitas para que o territrio de fato alcance seu desenvolvimento.

    Neste sentido, verificou-se que os investimentos oriundos do Programa Territrios da

    Cidadania em seu primeiro ano de atuao em 2008, foram distribudos de forma mais

    igualitria entre as reas de sade, educao, transferncias de renda e dinamizao da

    produo. Porm nos anos seguintes do programa, os investimentos, sobretudo em sade e

    educao declinaram drasticamente, enquanto as transferncias diretas de renda representadas

    principalmente pelo Bolsa Famlia, e os crditos do Pronaf cresceram consideravelmente, de

    forma que em 2010, essas duas reas responderam sozinhas por 82% do total de recursos do

    programa.

    Contrastando com esses fatos, verificamos que em 2000 apenas 12% das famlias do

    territrio pertenciam Agricultura Familiar, sendo que a maioria da populao do territrio,

  • 124

    cerca de 55% das famlias, eram de empregados e cerca de 51% das famlias do territrio

    estavam ocupadas em atividades no agrcolas. Ademais, cerca de 15% das famlias no

    possuam nenhum membro ocupado. Portanto o tamanho da agricultura familiar no TCNM

    no condiz com a ateno dada a esses produtores proporcionalmente ao conjunto das

    demandas do TCNM, visto que s de crdito do Pronaf, nos trs anos do Programa, os

    agricultores familiares, ou 12% das famlias do territrio, receberam cerca de 1/3 dos

    recursos. Destacando ainda que a parcela de desocupados foi maior que a parcela de

    agricultores familiares, levantando a necessidade de maior ateno acerca do desemprego

    agrcola e no agrcola no territrio.

    Notadamente esses recursos so fundamentais para a consolidao dos pequenos

    produtores, porm o TCNM no feito apenas de agricultores familiares, e para uma poltica

    que se prope a desenvolver um territrio, diminuir verbas para a educao e para a sade, ou

    canalizar verbas para apenas uma parcela da populao no se mostra capaz de atingir seus

    objetivos. Em vista do ocorrido, verificamos que a representatividade dos agricultores

    familiares no Conselho Territorial expressiva, e explica a ateno dada s suas demandas.

    No obstante, verifica-se que a representatividade das demais parcelas da populao no

    Colegiado Territorial se mostra insuficiente para que polticas pblicas sejam para si

    implementadas, havendo nesse sentido, a necessidade de trabalhar a questo da

    representatividade do Conselho, ou outras medidas que contemplem tais demandas.

    Portanto, defendemos o uso das polticas de recorte territorial para promover o

    desenvolvimento econmico e social de territrios com baixo dinamismo econmico,

    ressaltando que o sucesso dessa abordagem de desenvolvimento depende, sobretudo da

    maneira como os programas so elaborados, implementados e geridos, visto que na teoria tal

    perspectiva contempla bem os aspectos necessrios para se alcanar o desenvolvimento.

  • 125

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    Ed. Brasiliense.

  • 130

    ANEXO:

    QUADRO A: Oramento Executado do Programa Territrios da Cidadania no TCNM no ano de

    2008. (R$)

    Programa Ministrio Executado - 2008 Classificao

    1-Apoio Estruturao de Arranjos Produtivos Locais (APLs)

    Codevasf (MI) R$ 200.000,00 Organizao Sustentvel da Produo

    2-Primeiro Emprego - Projeto Amanh / 2007 Codevasf (MI) R$ 100.000,00 Educao e Cultura

    3-Primeiro Emprego - Projeto Amanh / 2008 Codevasf (MI) R$ 60.000,00 Educao e Cultura

    4-Programa de Revitalizao do So Francisco e do Parnaba - Esgotamento Sanitrio / 2008

    Codevasf (MI) R$ 9.708.265,06 Sade, saneamento e acesso gua

    5-Programa de Revitalizao do So Francisco e do Parnaba - Processos Erosivos / 2008

    Codevasf (MI) R$ 13.241.138,83 Sade, saneamento e acesso gua

    6-Programa de Revitalizao do So Francisco e Parnaba - gua para Todos / 2008

    Codevasf (MI) R$ 666.274,56 Sade, saneamento e acesso gua

    7-Projetos das Unidades da Embrapa com foco nos Territrios Rurais / 2008

    EMBRAPA(MAPA) R$ 57.333,33 Organizao Sustentvel da Produo

    8-Implantao, Ampliao ou Melhoria do Servio de Saneamento em reas Especiais de Assentamento -INCRA e Comunidades Rurais / 2007

    FUNASA(MS) R$ 1.491.000,00 Sade, saneamento e acesso gua

    9-Implantao de Melhorias Habitacionais para Controle de Doena de Chagas / 2007

    FUNASA(MS) R$ 1.780.000,00 Sade, saneamento e acesso gua

    10-Implantao de Melhorias Sanitrias

    Domiciliares para Preveno e Controle de Agravos / 2007

    FUNASA(MS) R$ 900.000,00 Sade, saneamento e acesso gua

    11-Implantao e Melhoria de Sistemas Pblicos de Abastecimento de gua em

    Municpios de at 50.000 hab exclusive de Regies Metropolitanas ou Regies Integradas de Desenvolvimento Econmico (RIDE) / 2007

    FUNASA(MS) R$ 750.000,00 Sade, saneamento e acesso gua

    12-Implantao e Melhoria de Sistemas Pblicos de Esgotamento Sanitrio em

    Municpios de at 50.000 hab., exclusive de Regies Metropolitanas ou Regies Integradas de Desenvolvimento Econmico (RIDE) / 2007

    FUNASA(MS) R$ 5.700.000,00 Sade, saneamento e acesso gua

    13-Assistncia Tcnica e Capacitao de Assentados / 2008

    INCRA(MDA) R$ 1.727.592,52 Educao e Cultura

    14-Capacitao e Formao Profissional de Nvel Mdio e Superior para a Reforma Agrria

    / 2008

    INCRA(MDA) R$ 235.000,00 Educao e Cultura

    15-Concesso de Crdito Instalao s Famlias

    Assentadas (Apoio Inicial) / 2008 INCRA(MDA) R$ 430.185,23 Aes Fundirias

    16-Concesso de Crdito Instalao s Famlias Assentadas (Aquisio de Materiais de

    Construo) / 2008

    INCRA(MDA) R$ 6.281.874,38 Aes Fundirias

    17 Demarcao Topogrfica em Projetos de Assentamento / 2008

    INCRA(MDA) R$ 346.627,79 Aes Fundirias

  • 131

    18 Implantao e Recuperao de Infra-estrutura de Projetos de Assentamento / 2008

    INCRA(MDA) R$ 1.451.772,89 Aes Fundirias

    19 Licenciamento Ambiental de Assentamentos da Reforma Agrria / 2008

    INCRA(MDA) R$ 344.895,09 Aes Fundirias

    20 Manejo de Recursos Naturais em Projetos de Assentamento da Reforma Agrria / 2008

    INCRA(MDA) R$ 291.903,34 Aes Fundirias

    21 Obteno de Terras para Assentamento de Trabalhadores Rurais / 2008

    INCRA(MDA) R$ 14.769.919,55 Aes Fundirias

    22 Reconhecimento, Demarcao e Titulao de reas Remanescentes de Quilombos / 2008

    INCRA(MDA) R$ 86.000,00 Aes Fundirias

    23 Terra Sol / 2008 INCRA(MDA) R$ 186.407,60 Aes Fundirias

    24-Apoio e Modernizao de Espaos Culturais - Pontos de Cultura / 2008

    (MinC) R$ 186.407,60 Educao e Cultura

    25 Modernizao de Bibliotecas Pblicas / 2008 (MinC) R$ 275.000,00 Educao e Cultura

    26-Brasil Alfabetizado / 2007 MEC R$ 10.080,00 Educao e Cultura

    27 Expanso das Escolas Tcnicas - Fase II /

    2008 MEC R$ 10.000.000,00 Educao e Cultura

    28 ProInfncia / 2007 MEC R$ 4.200.000,00 Educao e Cultura

    29 ProInfo Rural e Urbano / 2008 MEC R$ 384.500,00 Educao e Cultura

    30 Salas de Recursos Multifuncionais / 2007 MEC R$ 12.993,36 Educao e Cultura

    31 Caminho da Escola / 2008 MEC e BNDES R$ 1.337.045,00 Educao e Cultura

    32 FNHIS 2007/Assistncia Tcnica para Habitao de Interesse Social / 2007

    Ministrio das Cidades R$ 36.182,00 Infra-estrutura

    33 FNHIS 2007/Planos Habitacionais de Interesse Social / 2007

    Ministrio das Cidades R$ 51.017,00 Infra-estrutura

    34 FNHIS 2008/Assistncia Tcnica para

    Habitao de Interesse Social / 2008 Ministrio das Cidades R$ 70.000,00 Infra-estrutura

    35 FNHIS 2008/Habitao de Interesse Social / 2008

    Ministrio das Cidades R$ 3.775.000,00 Infra-estrutura

    36 Resoluo 460 / 2007 Ministrio das Cidades R$ 5.821.618,10 Infra-estrutura

    37 Programa Luz Para Todos / 2008 MME R$ 38.500.091,00 Infra-estrutura

    38 Apoio a Empreendimentos Cooperativos e Associativos / 2008

    MDA R$ 260.166,00 Organizao Sustentvel da Produo

    39 Apoio Gesto dos Planos Territoriais de Desenvolvimento Rural Sustentvel (PTDRS) / 2008

    MDA R$ 151.000,00 Apoio a gesto territorial

  • 132

    40 Apoio ao Desenvolvimento Sustentvel das Comunidades Quilombolas / 2008

    MDA R$ 102.241,40 Organizao Sustentvel da Produo

    41 Assistncia Social, Tcnica e Jurdica s

    Famlias Acampadas / 2008 MDA R$ 107.524,81

    Organizao Sustentvel da

    Produo

    42 Assistncia Tcnica e Extenso Rural (ATER) para Mulheres Rurais / 2008

    MDA R$ 317.680,00 Organizao Sustentvel da Produo

    43 Assistncia Tcnica e Extenso Rural (ATER) Quilombolas / 2008

    MDA R$ 170.000,00 Organizao Sustentvel da Produo

    44 ATER/Agricultores Familiares / 2008 MDA R$ 880.957,63 Organizao Sustentvel da Produo

    45 Crdito Pronaf / 2008 MDA R$ 32.720.109,00 Organizao Sustentvel da Produo

    46 Disponibilizao de Insumos para a Agricultura Familiar / 2008

    MDA R$ 15.069,54 Organizao Sustentvel da Produo

    47 Elaborao de Plano Safra Territorial / 2008 MDA R$ 15.000,00 Organizao Sustentvel da Produo

    48 Elaborao de Planos Territoriais de Desenvolvimento Rural Sustentvel (PTDRS) / 2008

    MDA R$ 81.263,00 Apoio a gesto territorial

    49 Formao de Agentes de Desenvolvimento - Formao Complementar / 2008

    MDA R$ 20.000,00 Apoio a gesto territorial

    50 Formao de Agentes de Desenvolvimento - Formao Especfica / 2008

    MDA R$ 20.000,00 Apoio a gesto territorial

    51 Formao em Cooperativismo e Comercializao / 2008

    MDA R$ 25.300,00 Organizao Sustentvel da Produo

    52 Garantia Safra / 2008 MDA R$ 71.390,00 Organizao Sustentvel da Produo

    53 Infra-estrutura e Servios nos Territrios Rurais / 2008

    MDA R$ 1.152.000,00 Infra-estrutura

    54 Programa Arca das Letras / 2008 MDA R$ 2.941,18 Educao e Cultura

    55 Programa de Aquisio de Alimentos - PAA / 2008

    MDA R$ 930.584,10 Organizao Sustentvel da Produo

    56 Programa Nacional de Crdito Fundirio / 2008

    MDA R$ 5.808.000,00 Organizao Sustentvel da Produo

    57 Programa Nacional de Documentao da

    Trabalhadora Rural (PNDTR) / 2008 MDA R$ 284.988,64

    Direitos e Desenvolvimento

    Social

    58 Reestruturao de Unidades Produtivas Financiadas pelo Fundo de Terras e da Reforma Agrria / 2008

    MDA R$ 1.023.258,00 Organizao Sustentvel da Produo

    59 Aes Socioeducativas e de Convivncia para Crianas e Adolescentes em Situao de Trabalho / 2008

    MDS R$ 281.040,00 Educao e Cultura

  • 133

    60 Aquisio de Alimentos Provenientes da Agricultura Familiar / 2008

    MDS R$ 2.116.706,37 Organizao Sustentvel da Produo

    61 Aquisio de Alimentos Provenientes da Agricultura Familiar - LEITE / 2008

    MDS R$ 1.147.925,00 Organizao Sustentvel da Produo

    62 Benefcio de Prestao Continuada da Assistncia Social Pessoa com Deficincia / 2008

    MDS R$ 17.254.881,00 Direitos e Desenvolvimento

    Social

    63 Benefcio de Prestao Continuada da Assistncia Social Pessoa Idosa / 2008

    MDS R$ 12.194.416,00 Direitos e Desenvolvimento Social

    64 Centros de Referncia Especializados de

    Assistncia Social - CREAS / 2008 MDS R$ 160.800,00

    Direitos e Desenvolvimento

    Social

    65 Programa Bolsa Famlia - Benefcio Bolsa Famlia / 2008

    MDS R$ 21.067.436,00 Direitos e Desenvolvimento Social

    66 Programa Bolsa Famlia - ndice de Gesto Descentralizada / 2008

    MDS R$ 785.790,00 Direitos e Desenvolvimento Social

    67 Programa de Ateno Integral Famlia / 2008

    MDS R$ 270.000,00 Direitos e Desenvolvimento Social

    68 Capacitao de Comunidades Tradicionais /

    2008 MMA R$ 25.000,00 Educao e Cultura

    69 Cadastro de Empreendimentos e Entidades

    de Apoio para a Manuteno e Ampliao do Sistema deInformaes em Economia Solidria - SIES / 2008

    MTE R$ 9.600,00 Organizao Sustentvel da Produo

    70 Formao de Formadores de Educao e Gestores Pblicos em Economia Solidria / 2008

    MTE R$ 18.000,00 Educao e Cultura

    71 Qualificao Social e Profissional do Sistema Pblico de Emprego, Trabalho e Renda em Base Territorialc(PlanTeQ's) / 2008

    MTE R$ 161.700,00 Educao e Cultura

    72 Aquisio de Mquinas e Equipamentos / 2008

    MAPA R$ 640.000,00 Organizao Sustentvel da Produo

    73 Ampliao do Acesso Sade Bucal na Ateno Bsica / 2008

    MS R$ 840.600,00 Sade, saneamento e acesso gua

    74 Ampliao do Acesso da Populao aos Medicamentos Essenciais por meio da Farmcia Popular do Brasil / 2008

    MS R$ 264.000,00 Sade, saneamento e acesso gua

    75 Ampliao do Acesso da Populao dos Territrios Ateno Bsica por meio da Estratgia Sade da Famlia / 2008

    MS R$ 5.929.896,80 Sade, saneamento e acesso gua

    76 Ampliao dos Centros de Especialidades Odontolgicas (CEOs) - Programa Brasil Sorridente nos municpios dos Territrios da Cidadania que cumpram os critrios para os Centros de Ateno Especializada em

    Odontologia / 2008

    MS R$ 155.600,00 Sade, saneamento e acesso gua

  • 134

    77 Ampliar a cobertura do trabalho dos Agentes Comunitrios de Sade populao dos Territrios da Cidadania / 2008

    MS R$ 2.876.477,18 Sade, saneamento e acesso gua

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do MDA.

    QUADRO B: Oramento Executado do Programa Territrios da Cidadania no TCNM no ano de

    2009. (R$)

    Programa Ministrio Montante Classificao

    1) Aquisio de Produtos Agropecurios MAPA 15.204.092,54 Organizao Sustentvel

    da Produo

    2) Edital das Culturas Populares MEC 20.000,00 Educao e Cultura

    3) Brasil Alfabetizado MEC 101.460,00 Educao e Cultura

    4) Escola Ativa MEC 659.745,00 Educao e Cultura

    5) Expanso das Escolas Tcnicas MEC 2.878.920,75 Educao e Cultura

    6) Programa Dinheiro Direto na Escola MEC 221.671,80 Educao e Cultura

    7) Proinfncia MEC 1.284.546,83 Educao e Cultura

    8) ProInfo Rural e Urbano MEC 802.993,43 Educao e Cultura

    9) Salas de Recursos Multifuncionais MEC 33.185,86 Educao e Cultura

    10) Caminho da Escola MEC e BNDES

    196.515,00 Educao e Cultura

    11) Cresce Nordeste MF 6.244.906,77 Organizao Sustentvel da Produo

    12) Nordeste Territorial MF 4.908.011,76 Organizao Sustentvel da Produo

    13) Apoio Estruturao de Arranjos Produtivos Locais (APLs) MI 180.000,00 Organizao Sustentvel da Produo

    14) Ampliao da Cobertura do Trabalho dos Agentes Comunitrios de Sade Populao dos Territrios da Cidadania

    MS 3.253.880,00 Sade, saneamento e acesso gua

    15) Ampliao da Cobertura Vacinal da Populao dos Territrios da Cidadania

    MS 3.595.331,68 Sade, saneamento e acesso gua

    16) Ampliao do Acesso Sade Bucal na Ateno Bsica MS 833.000,00 Sade, saneamento e acesso gua

    17) Ampliao do Acesso da Populao aos Medicamentos

    Essenciais por meio da Farmcia Popular do Brasil MS 110.000,00

    Sade, saneamento e

    acesso gua

    18) Ampliao do Acesso da Populao Brasileira Ateno Bsica por meio dos Ncleos de Apoio Sade da Famlia - NASF

    MS 132.000,00 Sade, saneamento e acesso gua

    19) Ampliao do Acesso da Populao dos Territrios Ateno Bsica por meio da Estratgia Sade da Famlia

    MS 5.039.200,00 Sade, saneamento e acesso gua

  • 135

    20) Capacitao de Multiplicadores MC 34.577,08 Apoio a gesto territorial

    21) Implantao de Telecentros para Acesso a Servios Pblicos MC 484.250,63 Infra-estrutura

    22) Operao do Sistema de Acesso Banda Larga MC 100.034,44 Infra-estrutura

    23) Programa Luz Para Todos MME 8.033.796,00 Infra-estrutura

    24) ATER/Agricultores Familiares MDA 1.703.417,68 Organizao Sustentvel

    da Produo

    25) Concesso de Crdito Instalao s Famlias Assentadas MDA 2.522.006,82 Infra-estrutura

    26) Crdito Pronaf MDA 46.832.539,00 Organizao Sustentvel

    da Produo

    27) Disponibilizao de Insumos para a Agricultura Familiar MDA 4.032,55 Organizao Sustentvel da Produo

    28) Implantao e Recuperao de Infra-estrutura de Projetos de Assentamento

    MDA 852.670,14 Infra-estrutura

    29) Licenciamento Ambiental de Assentamentos da Reforma Agrria

    MDA 21.408,78 Aes Fundirias

    30) Obteno de Terras para Assentamento de Trabalhadores Rurais

    MDA 14.464.319,01 Aes Fundirias

    31) Programa Nacional de Documentao da Trabalhadora Rural

    (PNDTR) MDA 28.244,00 Aes Fundirias

    32) Reconhecimento, Demarcao e Titulao de reas Remanescentes de Quilombos

    MDA 38.868,46 Aes Fundirias

    33) Reestruturao de Unidades Produtivas Financiadas pelo Fundo de Terras e da Reforma Agrria

    MDA 1.023.258,00 Organizao Sustentvel da Produo

    34) Benefcio de Prestao Continuada da Assistncia Social Pessoa com Deficincia

    MDA 21.496.643,10 Direitos e Desenvolvimento Social

    35) Benefcio de Prestao Continuada da Assistncia Social Pessoa Idosa

    MDA 14.945.888,74 Direitos e Desenvolvimento Social

    36) Centros de Referncia Especializados de Assistncia Social - CREAS

    MDA 202.416,00 Direitos e Desenvolvimento Social

    37) PAA - Aquisio de Alimentos Provenientes da Agricultura Familiar

    MDA 174.909,80 Organizao Sustentvel da Produo

    38) Programa Bolsa Famlia - Benefcio Bolsa Famlia MDA 24.214.557,00 Direitos e Desenvolvimento Social

    39) Programa Bolsa Famlia - ndice de Gesto Descentralizada MDA 530.021,42 Direitos e Desenvolvimento Social

  • 136

    40) Programa de Aquisio de Alimentos - PAA Leite MDA 966.910,55 Organizao Sustentvel

    da Produo

    41) Programa de Ateno Integral Famlia MDA 742.500,00 Direitos e Desenvolvimento Social

    41) Servio Socioeducativo do PETI MDA 332.500,00 Educao e Cultura

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do MDA

    QUADRO C: Oramento Executado do Programa Territrios da Cidadania no TCNM no ano de

    2010. (R$)

    Programa Ministrio Montante Classificao

    1)Apoio a Projetos de Pesquisa e Transferncia de Tecnologia para Insero Social

    MAPA 7.396,00 Educao e Cultura

    2)Aquisio de Produtos Agropecurios MAPA 102.147,00 Organizao Sustentvel da Produo

    3)Brasil Alfabetizado MEC 178.920,00 Educao e Cultura

    4)Escola Ativa MEC 48.325,12 Educao e Cultura

    5)Expanso das Escolas Tcnicas MEC 1.196.807,00 Educao e Cultura

    6)Programa Dinheiro Direto na Escola MEC 103.877,10 Educao e Cultura

    7)Proinfncia MEC 638.802,30 Educao e Cultura

    8)ProInfo Rural e Urbano MEC 95.889,45 Educao e Cultura

    9)Salas de Recursos Multifuncionais MEC 4.850,72 Educao e Cultura

    10)Cresce Nordeste MF 16.539.424,65 Organizao Sustentvel da Produo

    11)Nordeste Territorial MF 4.175.069,71 Organizao Sustentvel da Produo

    12)Apoio Estruturao de Arranjos Produtivos Locais (APLs)

    MI 170.000,00 Organizao Sustentvel da Produo

    13)Programa de Revitalizao do So Francisco e do Parnaba - Esgotamento Sanitrio

    MI 1.136.099,48 Sade, saneamento e acesso gua

    14)Programa de Revitalizao do So

    Francisco e do Parnaba - Processos Erosivos MI 996.500,08 Sade, saneamento e acesso gua

    15)Ampliao da Cobertura do Trabalho dos Agentes Comunitrios de Sade Populao dos Territrios da Cidadania

    MS 3.857.595,00 Sade, saneamento e acesso gua

    16)Ampliao do Acesso Sade Bucal na Ateno Bsica

    MS 959.500,00 Sade, saneamento e acesso gua

  • 137

    17)Ampliao do Acesso da Populao aos Medicamentos Essenciais por meio da Farmcia Popular do Brasil

    MS 110.000,00 Sade, saneamento e acesso gua

    18)Ampliao do Acesso da Populao Brasileira Ateno Bsica por meio dos Ncleos de Apoio Sade da Famlia - NASF

    MS 258.000,00 Sade, saneamento e acesso gua

    19)Ampliao do Acesso da Populao dos Territrios Ateno Bsica por meio da

    Estratgia Sade da Famlia

    MS 5.610.400,00 Sade, saneamento e acesso gua

    20)Implantao e Melhoria de Sistemas Pblicos de Esgotamento Sanitrio em Municpios de at 50.000 hab., exclusive de Regies Metropolitanas ou Regies Integradas de Desenvolvimento Econmico (RIDE)

    MS 1.200.000,00 Sade, saneamento e acesso gua

    21)FNHIS - Habitao de Interesse Social (contrataes 2007, 2008 e 2009)

    Mcid 1.800.550,41 Infra-estrutura

    22)FNHIS - Planos Habitacionais de Interesse Social (contrataes 2007, 2008 e 2009)

    Mcid 5.514,00 Infra-estrutura

    23)Operao do Sistema de Acesso Banda Larga

    MC 88.592,12 Infra-estrutura

    24)Programa Luz Para Todos MME 10.317.400,00 Infra-estrutura

    25)Apoio a Empreendimentos Cooperativos e Associativos

    MDA 217.500,00 Organizao Sustentvel da Produo

    26)Apoio ao Fortalecimento da Gesto Social nos Territrios

    MDA 160.000,00 Apoio a gesto territorial

    27)Assistncia Tcnica e Capacitao de Assentados

    MDA 1.308.012,46 Organizao Sustentvel da Produo

    28)Biodiesel MDA 296.638,67 Organizao Sustentvel da Produo

    29)Concesso de Crdito Instalao s

    Famlias Assentadas MDA 696.000,00 Aes Fundirias

    30)Crdito Pronaf MDA 49.589.396,26 Organizao Sustentvel da Produo

    31)Formao de Agentes de

    Desenvolvimento MDA 80.000,00 Apoio a gesto territorial

    32)Implantao e Recuperao de Infra-estrutura de Projetos de Assentamento

    MDA 353.000,00 Infra-estrutura

    33)Programa Arca das Letras MDA 2.800,00 Educao e Cultura

    34)Programa Nacional de Documentao da Trabalhadora Rural (PNDTR)

    MDA 12.560,00 Direitos e Desenvolvimento Social

    35)Acesso gua para a Produo de Alimentos (2 gua)

    MDS 16.882,74 Sade, saneamento e acesso gua

  • 138

    36)Benefcio de Prestao Continuada da Assistncia Social Pessoa com Deficincia

    MDS 24.857.754,00 Direitos e Desenvolvimento Social

    37)Benefcio de Prestao Continuada da Assistncia Social Pessoa Idosa

    MDS 17.130.878,00 Direitos e Desenvolvimento Social

    38)Centros de Referncia Especializados de

    Assistncia Social - CREAS MDS 719.180,00 Direitos e Desenvolvimento Social

    39)PAA - Aquisio de Alimentos Provenientes da Agricultura Familiar

    MDS 2.572.815,12 Organizao Sustentvel da Produo

    40)Programa Bolsa Famlia - Benefcio Bolsa Famlia

    MDS 28.111.723,00 Direitos e Desenvolvimento Social

    41)Programa Bolsa Famlia - ndice de Gesto Descentralizada

    MDS 553.222,73 Direitos e Desenvolvimento Social

    42)Programa de Aquisio de Alimentos - PAA Leite

    MDS 118.664,00 Organizao Sustentvel da Produo

    43)Programa de Ateno Integral Famlia MDS 510.300,00 Direitos e Desenvolvimento Social

    44)Servio Socioeducativo do PETI MDS 1.303.000,00 Educao e Cultura

    45)Atlas do Abastecimento Urbano de gua -

    Complementao para o Brasil MMA 44.507,60 Sade, saneamento e acesso gua

    46)Apoio Elaborao dos Programas Territoriais de Pesca e Aquicultura

    MPA 10.700,44 Apoio a gesto territorial

    47)Apoio ao Fortalecimento da Gesto Social nos Territrios

    MPA 144.493,13 Apoio a gesto territorial

    Fonte: Elaborao prpria a partir de dados do MDA.

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