Desenvolvimento territorial rural no Brasil: conceitos e ... ?· Diante do espantoso desenvolvimento…

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  • XXVI ENEGEP - Fortaleza, CE, Brasil, 9 a 11 de Outubro de 2006

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    Desenvolvimento terr itor ial rural no Brasil: conceitos e aplicao

    Jordana Duenha Rodr igues (Mestrado em Agronegcios UFMS) jordanams@uol.com.br Ido Luiz M ichels (Dr . Prof. Em Agronegcios UFMS) idomichels@uol.com.br Leonice Rosina (Mestrado em Agronegcios UFMS) leo_rosina@hotmail.com Cludio Csar da Silva (Mestrado em Agronegcios) - claudiorai@uol.com.br

    Caroline P. Spanhol (UFMS) carolinespanhol@terra.com.br Fbio da Silva Rodr igues (UFMS) fabiosrog@gmail.com

    Resumo

    O espao rural brasileiro tem passado por uma srie de mudanas nas ltimas dcadas, fato este que tem estimulado todo um debate no sentido de propor novas formas de se pensar o desenvolvimento desse setor, sobretudo a partir da incluso do elemento da sustentabilidade ambiental. Nesse sentido, o governo federal criou no ano de 2003 a Secretaria de Desenvolvimento Territorial SDT, a qual tem como objetivo central o apoio promoo do desenvolvimento sustentvel do meio rural brasileiro a partir do enfoque territorial. Tal estratgia altera substancialmente a forma de se planejar e implantar a ao governamental direcionada para setores menos privilegiados do ambiente rural (assentados, agricultores familiares, quilombolas, comunidades ribeirinhas e afins), bem como a distribuio dos recursos disponveis para o atendimento desse pblico-alvo. O presente artigo buscar apresentar como a proposta da SDT se encaixa dentro da lgica mais geral do desenvolvimento rural sustentvel, dando nfase ao recorte priorizado, ou seja, a abordagem territorial. Palavras-chave: Desenvolvimento territorial, desenvolvimento sustentvel, estratgia governamental.

    1 - Contextualizao e Problemtica

    O espao rural tem passado recentemente por um conjunto de mudanas com significativo impacto sobre suas funes e contedo social, o que tem levado ao surgimento de uma srie de estudos e pesquisas sobre o tema em vrios pases, sobretudo nos pases desenvolvidos, onde esse processo apresenta maior importncia.

    No caso do Brasil, o despertar para esta problemtica tem se dado principalmente entre os estudiosos comprometidos com a discusso de uma nova estratgia de desenvolvimento rural para o pas, ou seja, a partir de uma perspectiva instrumentalista. Para estes, a superao da extrema desigualdade social que marca a sociedade brasileira passa obrigatoriamente pela definio de polticas de valorizao do campo.

    O projeto de desenvolvimento rural adotado ao longo de dcadas no pas teve (e ainda tem) como principal objetivo a expanso e consolidao da chamada grande agricultura ou agricultura patronal , tendo alcanado resultados positivos, sobretudo em relao ao aumento da produtividade e gerao de divisas para o pas via exportao. No entanto, esta opo tem estimulado todo um debate relacionado s implicaes sociais e ambientais associadas a esses resultados positivos.

    Apesar de uma mentalidade que tendia totalizao, alguns espaos (fsicos/geogrficos) permaneceram sombra dos investimentos tecnificantes/tecnologizantes, e do ponto de vista

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    social passaram a caracterizar um resduo de ruralidade, considerado at recentemente como falha no processo de desenvolvimento ; atraso a ser superado.

    No Brasil, em particular, podemos captar a existncia de um movimento quase contnuo que se iniciou com a introduo dos transportes ferrovirios (a partir da metade do sculo XIX) e culminou na dcada de 70 do sculo XX quando se passou a falar intensamente na revoluo modernizante do rural e da agricultura, com o incremento exponencial da moto-mecanizao e quimificao na produo agrcola, e com a alterao do regime de identidades socioculturais que em perodo anterior distinguia o agricultor do trabalhador industrial.

    Postulou-se mundialmente, a partir desta poca, a existncia de uma outra configurao no espao social, onde a dicotomia rural x urbano deixou de ser suficiente na medida em que a realidade considerada rural sofreu uma clivagem que distinguia um rural moderno/modernizado, equipado e rico, e um rural tradicional, conservador e pobre.

    Graziano da Silva (1999) chama a ateno para o fato de que a partir de meados dos anos 80, assistimos ao surgimento de uma nova conformao do meio rural brasileiro, a exemplo do que j ocorre h tempos nos pases desenvolvidos . Esse "Novo Rural , como vem sendo denominado, seria composto, segundo esse autor, de trs grandes grupos de atividades:

    a) Uma agropecuria moderna, baseada em commodities e intimamente ligada s agroindstrias.

    b) Um conjunto de atividades no-agrcolas, ligadas moradia, ao lazer e a vrias atividades industriais e de prestao de servios.

    c) Um conjunto de "novas" atividades agropecurias, impulsionadas por nichos especiais de mercados. (GRAZIANO DA SILVA, 1999; p. 4).

    No deixa de ser surpreendente a velocidade com que ganha espao pblico e legitimao a assertiva de que preciso repensar o modelo de desenvolvimento rural adotado no Brasil e, mais do que isto, reorientar as formas de interveno do Estado e as polticas pblicas. Esta mudana de enfoque comeou a ganhar fora no Brasil na segunda metade da dcada de 1990, sob os efeitos de algumas alteraes na forma de gesto do Estado, sobretudo com o incremento do papel das recm criadas agncias de regulao e da descentralizao de algumas polticas pblicas federais, fazendo com que os governos locais ganhassem novas atribuies.

    sob essa necessidade de construo de uma nova proposta para o desenvolvimento rural brasileiro, que no fique centrado exclusivamente nos aspectos econmicos, mas que tambm incorpore discusso o elemento social e o elemento ambiental, que o presente artigo ser estruturado, ou seja, a partir da investigao crtica da estratgia de desenvolvimento rural sustentvel, com enfoque territorial, proposta pelo governo federal brasileiro. 2 - Mater iais e Mtodos

    Foi realizada pesquisa de abordagem qualitativa, mais especificamente pesquisa documental. Segundo Godoy (1995), documentos representam uma importante e rica fonte de dados, podendo trazer importantes contribuies acerca de determinados temas.

    Utilizou-se da tcnica de pesquisa bibliogrfica para se desenvolver a reflexo terica acerca dos conceitos que norteiam a temtica estudada. Foi realizada reviso bibliogrfica das principais publicaes e pesquisadores que trabalham dentro dessa temtica atualmente, de

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    forma a constituir um referencial terico que pode subsidiar as investigaes empricas que envolvem a aplicao desses conceitos ao meio rural brasileiro.

    3 - DRS Desenvolvimento Rural Sustentvel

    Um dos temas que ganhou grande visibilidade e importncia nas ltimas dcadas no Brasil e no mundo foi o chamado desenvolvimento sustentvel. Em meados da dcada de 80, os impactos da agricultura moderna, a destruio das florestas tropicais, as chuvas cidas, a destruio da camada atmosfrica de oznio, o aquecimento global e o efeito estufa tornavam-se temas familiares para grande parte da opinio pblica, principalmente, nos pases ricos. Questionava-se at que ponto os recursos naturais suportariam o ritmo de crescimento econmico impresso pelo industrialismo ou mesmo se a prpria humanidade resistiria s seqelas do chamado desenvolvimento .

    Consolidava-se um novo paradigma, um novo ideal: a sustentabilidade. Em 1987, a Comisso Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento publicava: Nosso Futuro Comum, o famoso Relatrio Brundtland, que ajudou a disseminar o ideal de um desenvolvimento sustentvel.

    Esse Relatrio ajuda a sintetizar o que seria o Desenvolvimento Sustentvel ao defini-lo como sendo o

    processo capaz de satisfazer as necessidades das geraes presentes sem comprometer a capacidade das geraes futuras satisfazerem as suas prprias necessidades , ou como um processo de mudana na qual a explorao dos recursos, a orientao dos investimentos, os rumos do desenvolvimento tecnolgico e a mudana institucional esto de acordo com as necessidades atuais e futuras (NAES UNIDAS, 1987).

    Nessa perspectiva o desenvolvimento econmico e o uso racional dos recursos ambientais estariam inexoravelmente vinculados. A partir da surgem ento muitos outros conceitos, como o definido por Repetto (1986, p.15), apud Marouelli (2003, p. 2):

    Desenvolvimento sustentvel uma estratgia de desenvolvimento que administra todos os ativos, os recursos naturais e os recursos humanos assim como os ativos financeiros e fsicos de forma compatvel com o crescimento da riqueza e do bem-estar em longo prazo. O desenvolvimento sustentvel, como um ideal, rejeita polticas e prticas que dem suporte aos padres de vida correntes custa da deteriorao da base produtiva, inclusive a de recursos naturais, e que diminuam as possibilidades de sobrevivncia das geraes futuras.

    Diante do espantoso desenvolvimento tecnolgico e da crescente expanso da agropecuria nos ltimos anos em todo o mundo e, tendo como complemento as inmeras descobertas associadas aos danos ambientais causados por essa expanso, ao chamado desenvolvimento sustentvel se acoplou facilmente o termo rural . Originando-se ento a expresso desenvolvimento rural sustentvel , que passou a fazer parte do cotidiano dos formuladores de polticas pblicas desse setor e a rechear todos os termos de referncia para a implementao de aes direcionadas para esse pblico-alvo.

    Segundo Buarque (1999) o desenvolvimento local um processo endgeno registrado em pequenas unidades territoriais e agrupamentos humanos capaz de promover o dinamismo econmico e a melhoria da qualidade de vida da populao. Representa uma singular transformao nas bases econmicas e na organizao social em nvel local, resultante da mobilizao das energias da sociedade, explorando as suas capacidades e potencialidades

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    especficas. Para ser um processo consistente e sustentvel, o desenvolvimento deve elevar as oportunidades sociais e a viabilidade e competitividade da economia local, aumentando a renda e as formas de riqueza, ao mesmo tempo em que assegura a conservao dos recursos naturais.

    Este mesmo conceito tambm pode ser estendido e incorporar o termo sustentvel , passando a ser compreendido da seguinte forma:

    O desenvolvimento local sustentvel um processo e uma meta a ser alcanada no mdio e longo prazos, gerando uma reorientao do estilo de desenvolvimento, enfrentando e redefinindo a base estrutural de organizao da economia, da sociedade e das suas relaes com o meio ambiente natural. Esta demanda mudanas em trs componentes constituintes do estilo de desenvolvimento: padro de consumo da sociedade, base tecnolgica dominante no processo produtivo e estrutura de distribuio de rendas, cada um com sua prpria lgica e autonomia (mas tambm com relaes de intercmbio e mtua influncia) (BUARQUE, 1999; p.33)

    4 A proposta do Governo Federal para a implantao de um Programa Nacional de Desenvolvimento Sustentvel do Meio Rural Brasileiro a par tir da Abordagem Terr itor ial

    A partir desse cenrio de mudanas que tem caracterizado o meio rural brasileiro nas ltimas dcadas e da complementaridade dos conceitos de desenvolvimento rural sustentvel e desenvolvimento local sustentvel, tratados acima, que foi criada em 2003 a Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT), e a partir da proposta de poltica pblica priorizada por esta secretaria que se passar a discorrer a partir desse ponto.

    Assim, a partir da criao e regulamentao da SDT passa-se oficialmente a adotar a abordagem territorial como referncia estratgica para o desenvolvimento sustentvel do meio rural brasileiro, tendo como foco de atuao o pblico-alvo definido como prioritrio pelo Ministrio do Desenvolvimento Agrrio (MDA), ao qual a SDT vinculada. necessrio se tomar um cuidado adicional a partir desse ponto onde se passar a discorrer sobre o referencial conceitual e as metodologias de trabalho que vem sendo adotadas por esta secretaria, uma vez que a maior fonte de informaes sobre esse tema o prprio material institucional por ela produzido.

    O primeiro aspecto a chamar ateno e que deve ser trazido ao centro da discusso refere-se ao conceito adotado pela SDT para se definir o territrio. Segundo os documentos referenciais criados, o Territrio pode ser definido como:

    [ ...] um espao fsico, geograficamente definido, no necessariamente contnuo, caracterizado por critrios multidimensionais, tais como o ambiente, a economia, a sociedade, a cultura, a poltica e as instituies, e uma populao, com grupos sociais relativamente distintos, que se relacionam interna e externamente por meio de processos especficos, onde se pode distinguir um ou mais elementos que indicam identidade e coeso social, cultural e territorial. (REFERNCIAS PARA UMA ESTRATGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL NO BRASIL, 2005; p. 16)

    E o Territrio Rural passa a ser conceituado como:

    os territrios, conforme dito anteriormente, onde os critrios multidimensionais que o caracterizam, bem como os elementos mais marcantes que facilitam a coeso social, cultural e territorial, apresentam explicita ou implicitamente a

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    predominncia de elementos rurais . Nesses territrios incluem-se os espaos urbanizados que compreendem pequenas e mdias cidades, vilas e povoados. (REFERNCIAS PARA UMA ESTRATGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTVEL NO BRASIL, 2005; p. 28).

    Partindo dessa perspectiva a SDT iniciou sua atuao em 2003, definindo inicialmente critrios para a seleo de territrios rurais em todo o Brasil. O primeiro passo foi delimitar o que poderia ser chamado de Brasil Rural , ou seja, que parcela do territrio nacional, e em que condies, poderiam ser consideradas rurais e passarem assim pelo primeiro filtro estruturado pelo Governo federal para se identificar os chamados territrios rurais.

    O critrio de rural adotado pela SDT foi aquele desenvolvido por Veiga (2001). Ou seja, podem ser caracterizados como rurais : municpios com densidade demogrfica at 80 hab/km e populao total at 50.000 habitantes; e microrregies geogrficas com densidade demogrfica at 80 hab/km e populao mdia por municpio componente da microrregio de 50.000 habitantes.

    Vale lembrar que, a partir dessa classificao pode-se concluir que 90% do territrio brasileiro, 80% de seus municpios e 30% de sua populao so essencialmente rurais e constituiriam o universo maior de atuao da SDT. Embora o presente artigo no trate de forma mais detida sobre essa metodologia de delimitao do Brasil Rural, importante ressaltar que a mesma no consenso entre os estudiosos do tema e nem mesmo entre os formuladores de polticas pblicas direcionadas para esse setor.

    De posse desse primeiro mapa com o cenrio de atuao da SDT, o segundo filtro para a seleo dos territrios rurais que deveriam ser priorizados pelo programa de desenvolvimento proposto por esta secretaria foi a identificao das regies rurais com maior concentrao do pblico-alvo prioritrio do MDA, a saber:

    Priorizao a partir de parmetros que materializam o foco de atuao do Ministrio do Desenvolvimento Agrrio: concentrao de agricultores familiares; concentrao de famlias assentadas por programas de reforma agrria; concentrao de famlias de trabalhadores rurais sem terra, mobilizados ou no. (MARCO REFERENCIAL PARA APOIO AO DESENVOLVIMENTO DE TERRITRIOS RURAIS, 2005; p. 16).

    Alm desses dois critrios iniciais, outros elementos foram incorporados para a seleo dos territrios rurais prioritrios para a SDT, uma vez que as disponibilidades de recursos no permitiriam uma disperso muito ampla das aes (REFERNCIAS PARA UMA ESTRATGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL NO BRASIL, 2005; p. 28).

    So eles: municpios j beneficiados pelos PRONAF INFRA-ESTRUTURA (Programa Nacional de Apoio ao Fortalecimento da Agricultura Familiar); e com maiores ndices de pobreza rural, nesse caso foram considerados aqueles municpios que apresentavam menores ndices de Desenvolvimento Humano - IDH.

    Por ltimo, porm no menos importante, um outro elemento fundamental na seleo e no ordenamento dos territrios rurais prioritrios da SDT est relacionado ao componente poltico.

    Em suma, o processo de ordenamento territorial, de acordo com o enfoque dado pela estratgia da SDT, seria o rearranjo do espao nacional, a partir de um processo de descentralizao que reduz (ou modifica) o raio de atuao do ente pblico Federal (Unio)

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    em consonncia com um aumento do empoderamento e da participao das instncias de poder inferior.

    Costa (2005) chama a ateno para os desafios de se estabelecer um ordenamento territorial no Brasil dentro da atual conjuntura nacional.

    [ ...] em suma, ordenar o territrio na atual conjuntura requer, como pressuposto, diversificar o foco e as escalas de anlise, identificar a forma como os macrovetores se capilarizam nos infindveis circuitos espaciais, conceber essa complexidade como associada acelerada e recente urbanizao e mudana da base tecno-produtiva do pas, destacando-as como as foras motrizes que tem impulsionado a especializao e diferenciao dos lugares. Com isso, obter uma sntese aproximada do novo mosaico scioespacial e regional do pas, redesenhar as regies, ressaltar os novos eixos e a nova logstica territorial nacional e, ao cabo, refazer inclusive a sua representao cartogrfica, uma condio tcnica e operacional indispensvel para os passos subseqente (COSTA, 2005; p. 3)

    A partir dos elementos acima descritos a SDT, ao longo do ano de 2003, primeiro ano de sua atuao, selecionou e homologou nos Conselhos de Desenvolvimento Rural Sustentvel de 20 estados brasileiros, um total de 40 territrios, abrangendo cerca de 800 municpios. Em 2004, cobrindo todas as Unidades da Federao, foram agregados mais 50 territrios, alcanando cerca de 1.500 municpios.

    O ciclo completo da estratgia preconizada prev a implementao de polticas e instrumentos de apoio nos 450 territrios rurais potencialmente existentes, ao longo de 32 anos. Para o perodo 2004-2007, as metas negociadas envolvem diversas aes e investimentos em cerca de 190 territrios rurais, abrangendo cerca de 2.600 municpios, atendendo pouco menos de 50% da demanda social (pblico prioritrio) do MDA.

    De posse do arcabouo operacional pensado pelo Governo Federal para viabilizar a ao da SDT cabe tratar ainda de um ltimo questionamento: como pode ser definido o chamado desenvolvimento rural sustentvel: com enfoque territorial ou simplesmente desenvolvimento territorial?

    No Brasil, a abordagem territorial vem ganhando rpido interesse, especialmente no mbito dos planejadores e formuladores de polticas pblicas, haja vista a criao de uma Secretaria de Desenvolvimento Territorial, ligada ao Ministrio do Desenvolvimento Agrrio (MDA), e uma significativa simpatia de outros rgos governamentais em torno das potencialidades normativas do novo aporte. (SCHNEIDER, 2004, 12).

    De acordo com Abramovay (2003), o desenvolvimento territorial constitudo por trs traos bsicos:

    [ ...] 1.Existncia, num certo territrio, de um conjunto diversificado mas ao mesmo tempo com forte grau de interao - de empresas de porte familiar, isto , em que a gesto, a propriedade e o essencial do trabalho vm da famlia; 2. Ambiente de inovaes e de troca de informaes entre indivduos e empresas, em que a colaborao , no mnimo, to importante quanto a prpria concorrncia; 3. Integrao entre empresas e indivduos urbanos e rurais. (ABRAMOVAY, 2003; p. 89)

    Segundo os documentos de referncia da proposta estratgica da SDT a principal mudana que se pretende instaurar com a implantao de polticas pblicas de desenvolvimento rural sustentvel a partir do enfoque territorial seria a superao das propostas que entendem o processo de desenvolvimento como sendo a soma do crescimento de diversos setores econmicos ou sociais. Porque, segundo esta vertente:

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    setorializar o desenvolvimento e focar polticas pblicas tm se mostrado uma prtica que tambm serve excluso de largas parcelas esquecidas da sociedade brasileira, tais como os habitantes das zonas rurais e das pequenas e mdias cidades das regies de menor desenvolvimento do Pas. (REFERNCIAS PARA UMA ESTRATGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL NO BRASIL, 2005; p. 15)

    Segundo Schneider (2004) a emergncia da abordagem territorial do desenvolvimento rural pressupe que o nvel adequado de tratamento analtico e conceitual dos problemas concretos deva ser o espao de ao em que transcorrem as relaes sociais, econmicas, polticas e institucionais. Esse espao construdo a partir da ao entre os indivduos e o ambiente ou contexto objetivo em que esto inseridos. Portanto, o contedo desse espao entendido como o territrio.

    O conceito de Desenvolvimento Territorial (DT), difundido pelo MDA atravs da proposta estratgica de trabalho da SDT, pode ser concebido como:

    [ ...] desenvolvimento endgeno dos territrios rurais, partindo da ampliao da capacidade/possibilidade de mobilizao, organizao, diagnstico, planejamento e auto-gesto das populaes locais. Reconhecendo as especificidades de cada territrio e ofertando instrumentos de desenvolvimento que atendam essas caractersticas.

    [ ...] Portanto, a meta fundamental do desenvolvimento sustentvel dos territrios rurais estimular e favorecer a coeso social e territorial das regies e dos pases onde ela empregada como harmonizador do processo de ordenamento (regulao descendente), e de desenvolvimento (reao ascendente), das sociedades nacionais.

    [ ...] No entanto, a revelao definitiva somente ocorrer quando sua populao, por meio dos fatores sociais, reconhea seus elementos caracterizadores da coeso social e territorial, durante, ou logo aps, o processo de sua identidade e proposio de sua viso de futuro. (PROPOSTA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTVEL DOS TERRITRIOS RURAIS, 2003)

    A partir dessa concepo pode se dizer que a perspectiva territorial do desenvolvimento rural sustentvel permite a formulao de uma proposta centrada nas pessoas, que leva em conta os aspectos de interao entre os sistemas scio-culturais e os sistemas ambientais, e que considera a integrao produtiva e a utilizao competitiva dos recursos produtivos como meios que permitem a cooperao e co-responsabilidade ampla de diversos atores sociais (PROPOSTA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTVEL DOS TERRITRIOS RURAIS, 2003).

    5 Consideraes finais

    Algumas consideraes so importantes de serem realizadas. Primeiramente quanto formao dos territrios, e os critrios utilizados ou no na sua composio.

    Por motivos diversos percebe-se que dentro dos territrios definidos, ao aspecto poltico, muitas vezes dada maior relevncia que aos demais aspectos elencados como filtro para formao dos territrios, como o IDH e a presena de pblico alvo. Em decorrncia disto, percebe-se a formao de territrios de extrema heterogeneidade entre os municpios.

    Tamanha diversidade entre os municpios de um mesmo territrio poder trazer dificuldades na implantao de polticas que possam favorecer a todos os municpios de forma igualitria. Mesmo porque municpios com maior poder poltico e econmico podero tender a

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    centralizar em si as aes, ficando os municpios de menor expresso sem voz para reivindicar aes que vislumbrem suas necessidades.

    Por outro lado, a heterogeneidade poder ser favorvel se bem coordenada. Pois uma vez que a diversidade, e portanto, as diferenas entre os municpios tm a possibilidade de complementar suas deficincias com pontos fortes de outro.

    Outro aspecto de suma relevncia que o processo de territorializao brasileira, em muitos casos, ocorre de maneira exgena e muitas vezes poltica, ou seja, a definio do territrio acontece de cima para baixo, dos governos para os municpios e consequentemente populao. Ou mesmo quando ocorrida em esferas mais prximas ao local , esse aspecto poltico se apresenta tambm muito forte, sobrepondo-se a potenciais caractersticas territoriais de semelhana e coeso entre os municpios.

    Este modelo pode ser um tanto quanto questionvel, pois nos municpios determinados como sendo de um mesmo territrio pode de fato no existir o sentimento que seria responsvel por essa coeso. Podendo tornar-se o territrio, mais uma diviso poltica que de fato a concepo de uma nova proposta de desenvolvimento rural sustentvel.

    O processo de territorializao no Brasil ainda muito recente, no existindo portanto tempo o suficiente para analisar os efeitos desse processo sobre os municpios e seu conjunto como territrio. De toda forma, trata-se de uma importante iniciativa governamental no sentido de promover o desenvolvimento rural sustentvel. Seus resultados devem ser avaliados com vistas ao mdio e longo prazo e para isso ser necessrio o amadurecimento desses territrios, assim como a definio de parmetros e ndices para avaliar o efetivo desenvolvimento dos territrios. Referncias

    ABRAMOVAY, R. O Futuro das Populaes Rurais. Porto Alegre, Ed. UFRGS, 2003.

    BUARQUE, S. Metodologia de planejamento do desenvolvimento local e municipal sustentvel. In: Projeto de cooperao tcnica Incra/IICA. Braslia, 1999.

    COSTA, W. M. Ordenamento do territrio: concepo e prtica. So Paulo, 2005.

    GRAZIANO DA SILVA, J. O Novo Rural Brasileiro. Campinas: IE-Unicamp, 1999.

    GODOY, A. S. Pesquisa qualitativa: tipos fundamentais. Revista de administrao de empresas. So Paulo, v. 35, n. 3, p. 20-29. Maio/junho de 1995.

    MARCO REFERENCIAL PARA APOIO AO DESENVOLVIMENTO DE TERRITRIOS RURAIS. In: Srie Documentos Institucionais N02 - SDT. Braslia: Ministrio do Desenvolvimento Agrrio; Junho de 2005.

    MAROUELLI , R. P. O desenvolvimento sustentvel na agricultura do cerrado brasileiro. Braslia: ISAEFGV/ ECOBUSINESS SCHOOL, 2003. 54p. (Monografia - MBA em Gesto Sustentvel da Agricultura Irrigada, rea de concentrao Planejamento Estratgico)

    NAES UNIDAS. Nosso Futuro Comum. Nova Iorque. EUA, 1987.

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    SCHNEIDER, S.; SILVA, M. K.; MARQUES, P. E. M. (Org) Polticas pblicas e participao social no Brasil rural. Rio Grande do Sul: UFRGS, 2004.

    VEIGA, J. E. da. O Brasil rural ainda no encontrou seu eixo de desenvolvimento. In: Revista Estudos Avanados. V. 15, N 43. So Paulo: IEA USP, 2001.

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