Desenvolvimento Rural Territorial e Capital Social

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Artigo de Ricardo Abramovay publicado em SABOURIN, Eric e Teixeira, Olivio (orgs) Planejamento do Desenvolvimento dos Territorios Rurais Conceitos, controversias e experiencias UFPB/CIRAD/EMBRAPA pp. 113-128 Brasilia, 2002.

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    Desenvolvimento Rural Territorial e Capital Social

    In SABOURIN, Eric e Teixeira, Olvio (orgs) Planejamento do Desenvolvimento dos Territrios Rurais Conceitos, controvrsias e experincias UFPB/CIRAD/EMBRAPA pp. 113-128 Braslia, 2002

    Apresentao

    O presente trabalho foi apresentado originalmente durante o Encontro Tcnico da Contag

    sobre A formao de capital social para o desenvolvimento local sustentvel. O ttulo do

    encontro insinuava o retrato de uma profunda evoluo. No que haja clareza sobre o

    significado de cada um dos termos que o compe: ns no sabemos exatamente o que

    desenvolvimento local e muito menos o sentido preciso do termo sustentvel. A

    incorporao do capital social ao vocabulrio das cincias sociais e das polticas pblicas

    tem menos de dez anos e no espantoso que, sobre ele, haja diferentes e conflitantes

    pontos de vista.

    O que chama a ateno no ttulo deste encontro o fato de ele ser convocado sem que a

    mais importante organizao sindical do Pas e a de maior peso relativo dentro da Central

    nica dos Trabalhadores faa meno ao setor ou categoria profissional que, em

    princpio, ela representa. No se est falando aqui simplesmente de agricultura ou de

    reivindicaes de agricultores, nem mesmo do segmento de agricultores que forma a base

    social da CONTAG, os que produzem em regime de economia familiar e os assalariados. O

    encontro sequer tem por eixo enfatizar a luta - que se mistura com a prpria histria da

    CONTAG - pela reforma agrria.

    O tema aqui proposto to amplo que a reforma agrria s pode ser vista como um meio

    decisivo e insubstituvel para atingi-lo: trata-se de discutir qual o destino das populaes

    vivendo em reas no densamente povoadas no processo de desenvolvimento. Os

    movimentos sociais ligados s lutas dos trabalhadores rurais e antes de tudo a CONTAG -

    tm a vocao de incorporar a sua agenda de reflexo, de lutas e de proposies a

    dimenso territorial do desenvolvimento. A acumulao de capital social de que estamos

    falando aqui no genrica: ela aplica-se especificamente criao de processos

    capazes de revelar os potenciais que os mais de 50 milhes de brasileiros do campo e

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    das pequenas e mdias aglomeraes podem descobrir em seus locais de vida e de

    trabalho.

    Trata-se de um tema estratgico, que envolve, mais que um projeto poltico, uma idia de

    civilizao. Em seu ltimo livro Desenvolvimento enquanto liberdade o prmio

    Nobel de economia Amartya Sen fala de duas vises antagnicas do desenvolvimento,

    encontradas tanto entre economistas profissionais quanto na opinio pblica em geral. A

    primeira delas, sustenta que o desenvolvimento um processo violento, sofrido, envolvido

    inevitavelmente em sangue, suor e lgrimas (Sen, 1999:35) e onde o desafio de acumular

    riquezas o mais rapidamente possvel pode levar at ao sacrifcio imediato do bem-estar,

    que viria depois, a ento, sobre bases slidas.

    claro que Amartya Sen repudia esta concepo (1) e mostra a existncia de outra corrente

    para a qual o desenvolvimento um processo essencialmente amigvel e pode ser

    exemplificado por coisas como trocas benficas (de que Adam Smith falava de maneira

    eloqente), ou pelo trabalho de redes de segurana social, ou por liberdades polticas ou por

    desenvolvimento social ou uma ou outra combinao destas atividades de apoio (Sen,

    1999:34, 35).

    Vem de Amartya Sen (1988) a mais precisa e ao mesmo tempo a mais bela - definio de

    desenvolvimento: o aumento da capacidade de os indivduos fazerem escolhas. esta

    viso do desenvolvimento que o faz exigir uma definio positiva de liberdade: liberdade

    no apenas a ausncia de restries, o direito abstrato de ir, vir, comprar, vender, amar e

    ser amado. A liberdade e portanto o desenvolvimento - no podem ser pensados fora das

    condies concretas de seu exerccio (2). No basta que a lei garanta certos direitos: o

    essencial que os indivduos tenham as capacidades, as qualificaes, as prerrogativas de

    1 Que entretanto importante frisar nada tem de caricatural. Nos pases capitalistas ela se exprime na curva de Kuznets (ou na idia to conhecida entre ns de que o bolo tem que crescer antes de ser distribudo), segundo a qual a etapa inicial do processo de desenvolvimento apoia-se, inevitavelmente sobre a concentrao da renda, ingrediente indispensvel da acumulao do capital. No bloco sovitico, os camponeses foram vistos teoricamente (ver por exemplo, a obra de Preobrajenski) e tratados socialmente como a fonte fornecedora da acumulao primitiva socialista. 2 Da vem ento a idia de definir o desenvolvimento pela natureza de seus resultados, traduzidos por certos indicadores de sade, longevidade e educao. Ver neste sentido, os relatrios que o PNUD publica anualmente, desde 1990 e dos quais Sen um dos principais mentores intelectuais.

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    se deslocar, de participar dos mercados e de estabelecer relaes humanas que enriqueam

    sua existncia.

    Diante destas duas correntes, cabe ento perguntar: o meio rural, as reas no densamente

    povoadas, onde hoje se concentram os piores indicadores sociais, podem oferecer a base a

    processos consistentes de desenvolvimento ? Ou, ao contrrio, por mais caudalosa que seja

    a corrente de sangue, suor e lgrimas, a vida em grandes aglomeraes urbanas e

    metropolitanas a premissa para a emancipao social dos milhes de brasileiros que

    vivem em situao de pobreza e misria absoluta no campo ? Se, como diz Sen,

    desenvolvimento a possibilidade de avanar com um pouco de ajuda de meus amigos

    ajuda que pode provir da interdependncia no mercado...mas tambm dos servios

    pblicos, que conferem s pessoas mais capacidade para se ajudar a elas mesmas e aos

    outros (3) - desejvel para a sociedade que estes amigos e estes servios pblicos

    floresam tambm nas reas no densamente povoadas ? Ou o ditado medieval (o ar das

    cidades torna as pessoas livres) que associava o meio rural fatalmente ao atraso,

    dominao clientelista e opresso vlido at hoje ? possvel que, nas reas no

    densamente povoadas, construa-se o processo de ampliao das possibilidades que os

    indivduos tm de fazer escolhas ?

    Eu no tenho dvida de que este frum e o esforo de reflexo e de elaborao de propostas

    que a CONTAG vem fazendo nos ltimos anos (4) representam uma importante

    contribuio para que se possa responder positivamente a esta ltima pergunta. Mas claro

    que continua imensa a distncia entre a nossa profisso de f no potencial de

    desenvolvimento embutido no meio rural e a materializao deste potencial em polticas

    pblicas e conquistas sociais efetivas, por maiores que tenham sido os avanos recentes

    neste sentido.

    Reduzir esta distncia um dos objetivos fundamentais deste nosso frum. Gostaria de

    contribuir neste sentido expondo algumas proposies sobre a construo do capital social.

    Meu desafio mostrar que as discusses sobre capital social no precisam enclausurar-se 3 SEN, Amartya (1996) Development thinking at the begining of the 21st Century in BID Development thinking and practice conference, apud Kliksberg, 1998:35) 4 Ver, por exemplo, a srie Experincias do Projeto CUT/CONTAG de Pesquisa e Formao Sindical bem como os resultados do Projeto CUT/CONTAG (1998)

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    na torre de marfim do jargo acadmico. Ao mesmo tempo, a elaborao terica em torno

    deste tema til para auxiliar na reflexo prtica. Procurei ento formular algumas

    proposies algumas mais, outras menos desenvolvidas a respeito do tema e de suas

    conseqncias eventuais na ao do movimento sindical. No h qualquer pretenso de

    fazer um levantamento completo e no tenho sequer a garantia de que as proposies so

    realmente relevantes. Se servirem para animar nossa discusso, j me dou por satisfeito.

    Sabendo que outros participantes da mesa iro definir capital social e tendo escrito sobre o

    tema em trabalhos recentes (Abramovay, 1999a e 1999b), no me preocupei aqui em iniciar

    por uma definio do tema. Vamos ento s proposies.

    1. possvel criar capital social ali onde ele no existe. Os movimentos sociais tm um

    papel estratgico neste sentido, especialmente o Movimento Sindical de Trabalhadores

    Rurais e a Extenso Rural.

    A leitura da principal obra de referncia sobre capital social (Putnam, 1993/1996) provoca

    uma impresso que mistura encanto e desalento. Por um lado, fantstico constatar que na

    raiz do maior desenvolvimento poltico das regies situadas no Norte da Itlia, por oposio

    ao Sul encontram-se organizaes que datam de quase mil anos como os coros de Igreja e

    as sociedades de ajuda mtua. No Norte da Itlia formou-se, h muito, uma comunidade

    que se interessa por questes pblicas, que valoriza a virtude cvica e para a qual cidadania

    significa deveres e direitos iguais para todos (Putnam, 1993/1996:103-104). Esta tradio

    de cooperao e laos de solidariedade horizontal que explica o melhor desempenho

    institucional das regies situadas ao Norte da Itlia est ausente da regio Sul, onde a

    pobreza e o atraso se devem em grande parte (mas no inteiramente) incapacidade de seus

    habitantes de agir em conjunto pelo bem comum ou mesmo visando a qualquer objetivo

    que transcenda aos interesses materiais imediatos da famlia nuclear (5). a partir desta

    dicotomia que Putnam (1993/1996:105) se prope a estabelecer uma conexo entre o

    civismo de uma comunidade e a qualidade de sua governana

    O importante ento a base cultural, o enraizamento histrico do processo de

    institucionalizao. Mas justamente a, neste culturalismo, que reside o desalento. 5 BANFIELD, Edward (1958) The Moral Basis of a Backward Society Chicago Free Press apud Putnam (1993/1996:105).

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    Como bem mostra a interessantssima sntese recente de Abu-El-Haj (1999:71), o ponto de

    vista de Putnam acaba sendo de profundo ceticismo: associando as possibilidades de

    avano democrtico existncia de ingredientes culturais naturais a certas sociedades, o

    autor destitui a grande maioria dos pases em desenvolvimento da possibilidade de alcanar

    a civilidade.

    Esta atitude intelectual nossa velha conhecida e se exprime, por exemplo, na constatao

    de que natural que a maior parte dos crditos do PRONAF vo para a regio Sul, pois l

    existe maior organizao, maior tradio associativa de base entre os agricultores e,

    portanto, condies mais propcias de desenvolvimento (6).

    Esta constatao no errada: ela insuficiente. Da mesma forma, o trabalho de Putnam

    importante para mostrar que ali onde o capital social existe, ele um elemento decisivo do

    desenvolvimento. Mas ele tem pouco a dizer quanto pergunta central de nosso encontro:

    como se forma capital social ?

    Uma outra vertente que ao contrrio da culturalista, pode ser chamada de neo-

    institucionalista - vai enfatizar o papel decisivo das elites polticas na formao de capital

    social. Estas elites no tm o poder, sozinhas, de criar capital social, mas elas podem

    bloquear sistematicamente sua acumulao (7). A leitura dos jornais dos ltimos dias sobre

    os casos de corrupo no repasse de verbas destinadas a polticas sociais descentralizadas

    um exemplo claro disso. bvio que a criao de laos de confiana, de compromissos, de

    vnculos de reciprocidade capazes de estimular os contatos sociais e as iniciativas das

    pessoas (em suma, o capital social) no um atributo exclusivo dos agricultores do Sul.

    Mas claro que ali onde estes laos de confiana so sistematicamente sabotados por elites

    corruptas, os indivduos tero menores incentivos a dedicar energias construo de redes

    permanentes de interao. Na prtica, quando os indivduos sentem no s que o poder

    corrupto, mas que no existem alternativas ao desmando, ser evidentemente maior a

    propenso a submeter-se verticalmente a estes poderes e a renunciar ao investimento em

    redes horizontais de cooperao, que so a base do capital social. 6 Uma anlise dos dois primeiros anos de implantao do PRONAF pode ser encontrada em Abramovay e Veiga, (1999). 7 Ver neste sentido, os artigos do nmero especial sobre capital social da revista World Development de junho de 1996 e a resenha de Abu-El-Haj.

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    Um importante cientista poltico contemporneo (Evans, 1998:24) resume esta idia em trs

    proposies bsicas que, de certa forma, procuram representar uma alternativa neo-

    institucionalista - viso culturalista de Robert Putnam:

    a) As agncias estatais necessitam das comunidades: as comunidades so coprodutoras de

    seus resultados e no seus clientes passivos;

    b) As comunidades necessitam de burocracias estatais, j que poucos servios, nas

    sociedades contemporneas, podem ser organizados num nvel puramente local e sem o

    apoio dos conhecimentos e dos recursos que venham de Estados e da Federao;

    c) Neste sentido, a sinergia entre Estado e sociedade pode criar um crculo virtuoso de

    mudana institucional.

    Capital social, portanto, no simplesmente um atributo cultural cujas razes s podem ser

    fincadas ao longo de muitas geraes (Durston, 1998): ele pode ser criado, desde que haja

    organizaes suficientemente fortes para sinalizar aos indivduos alternativas aos

    comportamentos polticos convencionais: as dotaes pr-existente de capital social so

    recursos valiosos na construo de relaes sinrgicas [entre Estado e sociedade civil], mas

    no podem ser consideradas como a raridade decisiva. As comunidades que desfrutam os

    benefcios da sinergia no desfrutam necessariamente dotaes prvias excepcionais de

    capital social (Evans, 1996:1130).

    O Movimento Sindical de Trabalhadores Rurais e a Extenso Rural so as duas

    organizaes nacionais mais capilarizadas pelo interior do Pas. Por maiores que sejam seus

    problemas e sua heterogeneidade, ambas definiram recentemente sua misso em torno do

    fortalecimento da agricultura familiar (8). Ambas portanto reconhecem na agricultura

    familiar a base social do processo de reconstruo institucional da vida poltica no interior

    do Pas. Esta uma das premissas fundamentais para que elas contribuam para a formao

    de um quadro institucional que possa mostrar aos indivduos que a cooperao oferece

    recompensas mais importantes que a submisso a poderes autoritrios e to freqentemente

    corruptos. 8 Ver anais do I Workshop Nacional Uma Extenso Rural para a Agricultura Familiar DATER/FAZER/CONTAG/ASBRAER/FAO/PNUD Ver tambm Abramovay, 1998

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    2. Desenvolvimento local no sinnimo de desenvolvimento municipal

    Local um dos inmeros adjetivos de que a noo de desenvolvimento vem-se fazendo

    acompanhar desde que ela se transformou em disciplina autnoma no interior da economia,

    durante os anos 1940 e 1950 (Hirschman, 1981/1986). Trata-se de uma compreensvel

    reao a dois pressupostos bsicos. O primeiro rezava que as disparidades nos nveis de

    crescimento, na prosperidade e no bem-estar entre os pases seria resolvida

    automaticamente pelo mercado. O segundo enfatizava a importncia de certas infra-

    estruturas como pr-requisitos a que o desenvolvimento ocorresse.

    A idia de desenvolvimento local procura colocar a nfase em mecanismos institucionais

    especficos capazes de mobilizar energias produtivas que o funcionamento dos mercados

    acaba por inibir e que a simples presena de certas infra-estruturas mostrava-se incapaz de

    despertar. Da mesma forma que o capital social, o desenvolvimento tampouco resulta da

    operao espontnea dos contatos sociais, mas exige uma interveno consciente e

    deliberada de organizaes pblicas, estatais e no estatais.

    Mas o que este local ? Ou, em outras palavras, quais so os atributos que poderiam

    propiciar gerao de renda e melhoria na qualidade de vida dos indivduos e que o mercado,

    em seu funcionamento espontneo, no consegue revelar. Existe hoje uma vasta literatura

    mostrando que mesmo com o impressionante avano da globalizao, os processos

    inovativos tendem a ser localizados e baseiam-se em contatos informais e personalizados

    entre indivduos (9). O CIRAD Centro de Cooperao Internacional em Pesquisa

    Agronmica para o Desenvolvimento, importante organizao francesa com interessantes

    trabalhos no mundo todo, inclusive junto EMBRAPA anima um programa de pesquisa

    sobre Sistemas Agroalimentares Localizados que permitiu a descoberta de locais onde h

    uma verdadeira concentrao de habilidades e servios em torno de certos produtos.

    assim que, por exemplo, a produo de rapadura em regies interioranas na Colmbia vem

    conquistando importantes mercados e dando lugar a uma surpreendente interao entre

    vrios atores econmicos. Da mesma forma, o CIRAD e a EMBRAPA localizaram no

    9 Conversas noturnas em bares e restaurantes, como o Wlakers Wagon Wheel Bar e o Grill in the Mountain View, fizeram mais pela difuso da inovao tecnolgica do que a maioria dos seminrios de Stanford, constata Manuel Castells (1996/1999:72) referindo-se ao Vale do Silcio, na Costa Oeste norte-americana.

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    interior de Sergipe uma grande quantidade de unidades artesanais de queijo de cabra com

    potencial para vincular um certo produto a um padro de qualidade e a um determinado

    territrio.

    O importante a a possibilidade de cooperao, de montagem de projetos visando o

    estabelecimento de marcas, bem como a organizao de certos mercados, cujos

    protagonistas sejam os prprios agricultores. Mas o pressuposto , ao mesmo tempo a

    existncia de uma certa atmosfera de troca de informaes, de uma disposio ao trabalho

    conjunto e uma ao pblica capaz de valorizar para cada indivduo as atitudes

    cooperativas.

    Um territrio no consiste simplesmente em atributos naturais. Ele construdo segundo a

    capacidade dos atores de estabelecer relaes organizadas mercantis e no mercantis

    que favoream no s a troca de informaes e a conquista conjunta de certos mercados,

    mas tambm a presso coletiva pela existncia de bens pblicos e de administraes

    capazes de dinamizar a vida regional.

    Por maior que seja a importncia poltica do municpio, claro que ele uma unidade

    insuficiente para criar esta dinmica de valorizao dos potenciais de um certo territrio.

    Mais que isso, em muitas situaes a colaborao intermunicipal direta entre organizaes

    de base patrocinada pela extenso, pelo movimento sindical pode representar um

    importante contrapeso ao poder clientelista de lideranas municipais encasteladas nos

    poderes de uma prefeitura (Abramovay, 1999a). Em certo sentido, a unidade municipal

    chega a ser um obstculo criao de uma verdadeira rede territorial de desenvolvimento,

    j que os prefeitos, muitas vezes, tm interesse em preservar a clientela que os elege e no

    recebem estmulos para uma ao que extrapole os limites do municpio. Felizmente, h um

    conjunto considervel de iniciativas em direo contrria.

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    3. Por maior que seja a importncia dos agricultores familiares em sua construo,

    uma rede territorial de desenvolvimento tanto mais forte, quanto mais ela consegue

    ampliar o crculo social de seus participantes e protagonistas.

    Ruralidade um conceito de natureza territorial e no setorial. Vale a pena examinar a

    definio recente da FAO/SDA (1998): Ainda que em muitos casos a agricultura oferea o

    essencial das oportunidades de emprego e gerao de renda em reas rurais, prefervel

    no defini-las por seu carter agrcola. H crescente evidncia de que os domiclios rurais

    (agrcolas e no-agrcolas) engajam-se em atividades econmicas mltiplas, mesmo nas

    regies menos desenvolvidas (10). Alm disso, conforme as economias rurais se

    desenvolvem, tendem a ser cada vez menos dominadas pela agricultura. Finalmente,

    existem empreendimentos agropecurios, em alguma medida, nas reas urbanas. A

    implicao que em vez de uma definio setorial de reas rurais, necessrio uma

    definio espacial. Portanto, a unidade de anlise no so os sistemas agrrios nem os

    sistemas alimentares, mas as economias regionais e, mais especificamente, aquelas

    onde as pessoas vivem em reas de povoamento menos denso que o restante do pas.

    Em outras palavras, desenvolvimento rural um conceito espacial e multissetorial e a

    agricultura parte dele. (sublinhado por mim, R. A.).

    A formao de capital social para o desenvolvimento no envolve apenas as bases sociais

    de um certo setor sindical. Em outras palavras, capital social no simplesmente um termo

    novo para falar da organizao dos trabalhadores. Seu pressuposto o estabelecimento de

    relaes entre indivduos e grupos sociais cujos interesses comuns no so imediatamente

    evidentes. exatamente por isso que sua construo exige uma ao voluntria e

    coordenada. A noo de capital social representa, de certa forma, uma importao, uma

    espcie de contrabando que a economia viu-se obrigada a fazer da sociologia: a sociedade

    no a soma de indivduos agindo de maneira independente uns dos outros e coordenando

    suas aes por meio de um instrumento supostamente neutro - o mercado. Ela possui uma

    estrutura, normas, valores, presses, incentivos e restries que pode constituir um recurso

    para um ou mais atores (Coleman, 1994:170).

    10 o que vm mostrando os inmeros trabalhos do Projeto Rurbano, hoje, uma das mais importantes contribuies para a renovao dos estudos rurais brasileiros.

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    O capital social ser tanto mais forte quanto mais ele permitir a ampliao do crculo de

    relaes sociais em que vivem aqueles que participam de sua construo. Esta viso

    inteiramente compatvel com a definio de desenvolvimento proposta por Amartya Sen. A

    abordagem territorial e no setorial - do desenvolvimento supe a ampliao das

    oportunidades de escolha por parte dos indivduos, isto , o alargamento das possibilidades

    de gerao de renda alm da atividade estritamente agrcola.

    muito freqente que os resultados das pesquisas sobre a importncia das atividades no

    agrcolas no meio rural sejam encarados com desconfiana por parte de sindicalistas.

    Afinal, pode-se perguntar, se to evidente o declnio da agricultura, qual o sentido da ao

    sindical e mesmo da ao extensionista ? O declnio da agricultura no est associado

    nem teoricamente, nem historicamente ao declnio do meio rural. E quanto mais o

    movimento sindical souber liderar iniciativas multi-setoriais de valorizao dos territrios

    rurais, maiores oportunidades de escolha ele estar abrindo a suas bases sociais. Alm

    disso, quanto mais denso for o tecido social do meio rural, maiores sero as oportunidades

    para o crescimento de uma produo agrcola de qualidade.

    Hoje, nos pases desenvolvidos, assumem importncia crescente as polticas pblicas

    voltadas valorizao dos atributos territoriais no processo de desenvolvimento, como

    pude mostrar em trabalhos anteriores (Abramovay, 1999a e 1999b). A formao de redes

    de pequenas e mdias empresas para o desenvolvimento local (11) no , entretanto, um

    atributo exclusivo de pases desenvolvidos. Entre ns j comeam a surgir experincias

    neste sentido e seria importantssimo que tanto o movimento sindical como a extenso rural

    tivessem participao ativa em sua construo. essencial entretanto que os movimentos

    sociais sejam capazes de motivar para isso os atores mais dinmicos do meio rural, como

    ser visto a seguir.

    11 Conforme sugere o ttulo do mais importante livro brasileiro voltado para o assunto e que contm orientaes e dicas indispensveis para os que tm responsabilidades de campo neste tema: Casarotto Filho e Pires, 1998.

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    4. A formao de capital social exige uma ao voltada especificamente juventude

    vivendo no interior do Pas.

    O principal obstculo acumulao de capital social no meio rural brasileiro a existncia

    de um ambiente educacional incompatvel com a noo de desenvolvimento. Os

    indicadores educacionais rurais do Brasil esto entre os piores da Amrica Latina, como

    bem mostram os trabalhos da CEPAL (Durston, 1996). Mas no se trata apenas de

    educao formal. O meio rural brasileiro conserva a tradio escravista que dissociou em

    nossa formao histrica o conhecimento do trabalho, de maneira que quem trabalha no

    conhece e quem conhece no trabalha. Tanto que tendem a ficar na atividade agrcola

    aqueles jovens que alcanam o pior desempenho escolar. Cria-se assim um crculo vicioso

    em que permanecer no meio rural associa-se a uma espcie de incapacidade pessoal de

    trilhar o suposto caminho do sucesso que consiste em migrar e em que no se investe na

    valorizao do conhecimento nas regies interioranas que se identificam, cada vez mais,

    como um reduto dos que no conseguiram sair, dos velhos e dos aposentados.

    Um estudo da CEPAL (Rodrguez, 1996:38) constata que, na Amrica Latina, ... raro que

    surjam atores sociais organizados na representao dos jovens. O Brasil (com exceo de

    algumas atividades das pastorais da Igreja e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem

    Terra) no escapa a esta regra. John Durston (1996) insiste com razo na invisibilidade da

    juventude rural latino-americana. Para muitos, uma vez que as pessoas, no campo,

    comeam a trabalhar desde a infncia, no sequer evidente que se possa falar de uma

    juventude rural.

    Poder pblico, organizaes sindicais e extenso vm assistindo de maneira conformada

    acelerao do xodo rural entre os jovens (12). No existe no interior do Estado uma

    instncia de reflexo sobre o que deve ser o processo de formao eduacional e profissional

    da juventude vivendo em reas no densamente povoadas. Tampouco h polticas que

    procurem estimular os jovens a assumir iniciativas econmicas que os motivem a organizar

    suas vidas em suas regies de origem.

    12 A respeito da composio do xodo rural por gerao e sexo, ver Camarano e Abramovay (1998).

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    No se pode, claro, subestimar a importncia dos fatores objetivos que contribuem ao

    intenso processo migratrio dos jovens rurais. Mas uma ao voluntria dos movimentos

    sociais e do Estado no sentido de valorizar a opo dos jovens pelo meio rural pode servir

    de importante contrapeso a uma cultura to difundida que enxerga no meio rural o contrrio

    da ampliao da capacidade de os indivduos fazerem escolhas.

    5. Existe uma ambigidade bsica na ao do Estado brasileiro com relao

    formao de capital social no interior do Pas. Por um lado considera a agricultura

    familiar como a base do desenvolvimento rural; por outro sinaliza aos agentes

    privados aes que os levam a desprezar os recursos e os potenciais das populaes

    locais nos processos de desenvolvimento, como vem ocorrendo na ocupao recente

    dos Cerrados brasileiros.

    impossvel negar que a agricultura familiar tenha se incorporado de maneira consistente

    s polticas pblicas brasileiras, nos ltimos quatro anos. O progresso no nmero de

    beneficirios dos crditos de custeio e investimento e o nmero significativo de contratos

    estabelecidos com agricultores com baixa renda anual e sem condies de oferecer

    garantias e contrapartidas ao sistema bancrio, mostra, na prtica, que o capital social um

    recurso produtivo que pode ser criado pela ao organizativa. A recente avaliao do

    IBASE mostra que quase metade dos agricultores beneficiados pelos crditos do PRONAF

    no tinha acesso a estes recursos antes da implantao do programa.

    Ainda no existe uma avaliao consistente do funcionamento das Comisses Municipais

    de Desenvolvimento Rural e sabido que, na maior parte dos casos, elas simplesmente

    reproduzem as formas convencionais de poder poltico local. Mas o simples fato de o

    Movimento Sindical, juntamente com a Secretaria de Desenvolvimento Rural do Ministrio

    da Agricultura terem organizado uma intensa formao dos participantes destas comisses

    j merece destaque e contribui para um enriquecimento da vida poltica das regies

    atingidas por este trabalho. De qualquer maneira, o PRONAF vem acelerando, em muitas

    situaes, o enriquecimento da vida associativa local, como se v no dinamismo das

    cooperativas de crdito ligadas ao sistema CRESOL.

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    Mas h um outra face das polticas pblicas voltadas ao meio rural que representa

    exatamente o contrrio desta opo pelo desenvolvimento baseado na construo

    territorializada de capital social. O caso dos Cerrados um excelente exemplo: embora a

    pesquisa agropecuria mostre que se trata de um ecossistema frgil, cuja biodiversidade

    pode ser explorada de maneira sustentvel pelas populaes locais, toda a orientao

    governamental vai no sentido de fazer dos Cerrados uma rea de abertura de fronteira para

    a produo de gros. Conforme mostrou o captulo de agricultura sustentvel da Agenda 21

    brasileira (ver tambm Veiga, Abramovay e Ehlers, no prelo), trata-se de um duplo

    equvoco. Por um lado, porque h uma vasta superfcie j ocupada sobretudo pela

    pecuria e cujos retornos so to baixos que poderiam ser melhorados por meio de

    tcnicas como a rotao entre lavouras e pastagens, propiciando assim um aumento de

    produo sem necessidade de abertura de novas reas. Por outro lado, o avano da fronteira

    agrcola nesta regio traz uma inestimvel perda de biodiversidade e de oportunidades de

    gerao de renda para as populaes locais. Exatamente pelo fato de os Cerrados estarem

    entre as ltimas reas agricultveis do mundo que sua destruio deveria ser objeto de um

    horizonte estratgico e no das aes imediatas dos agentes privados. Neste sentido, a

    Agenda 21 sugere uma moratria para os Cerrados e que os corredores de exportao de

    gros se transformem em corredores de explorao sustentvel da biodiversidade a partir da

    cooperao com a pesquisa agronmica (13).

    O comportamento do governo a respeito da mudanas na lei florestal brasileira tambm

    igualmente um forte indicativo de que a idia de apoiar o desenvolvimento rural na

    formao de capital social e na valorizao dos recursos locais corre fortemente o risco de

    ser derrotada pelos interesses que vem no campo simplesmente um local adequado para a

    produo de commodities.

    13 O Centro de Pesquisa sobre Agricultura do Cerrado tem realizado relevantes trabalhos de levantamento destes potenciais produtivos locais. Ver Veiga, Abramovay e Ehlers (no prelo).

  • 15

    guisa de concluso

    Poucos pases como o Brasil apresentam to forte vis urbano na viso de suas elites a

    respeito do processo de desenvolvimento. uma conquista decisiva do Movimento

    Sindical dos Trabalhadores Rurais e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

    que hoje a valorizao do meio rural j esteja ainda que de maneira muito insuficiente e

    ambgua incorporada s polticas pblicas. Mas este apenas o comeo de um processo

    cujo desfecho ainda no est decidido. Os movimentos sociais tm uma responsabilidade

    fundamental na formao de elites polticas locais comprometidas no s com a

    participao popular, mas sobretudo com a transparncia no tratamento das aes pblicas.

    A energia para a renovao destas elites pode vir de projetos de desenvolvimento que

    mobilizem os atores para a valorizao dos potenciais dos diferentes territrios. No se trata

    mais simplesmente de agricultura e agricultores: mas no h dvida de que ali onde a

    agricultura familiar for mais forte, maiores sero as chances de existirem movimentos

    associativos e instituies estveis capazes de incorporar a sinergia sem a qual no h

    desenvolvimento. Em outras palavras, a idia de desenvolvimento territorial s refora a

    importncia da luta histrica da CONTAG pela reforma agrria e pelo fortalecimento da

    agricultura familiar. urgente que os jovens possam transforma-se em protagonistas

    organizados e ativos destas lutas e que sejam denunciadas e combatidas as aes

    governamentais que fazem dos territrios interioranos no locais de vida, mas simples base

    fsica para a produo de commodities.

  • 16

    Bibliografia citada ABRAMOVAY, Ricardo (1999a) O capital social dos territrios: repensando o desenvolvimento rural - IV Congresso da Sociedade Brasileira de Economia Poltica - Porto Alegre, junho.

    _____________________ (1999b) Agricultura e desenvolvimento territorial - Reforma Agrria vols. 28 e 29n 1:49-67

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    ABU-El-HAJ, Jawdat (1999) O debate em torno do capital social: uma reviso crtica BIB Revista Brasileira de Informao Bibliogrfica em Cincias Sociais n 47, pp. 65-79

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    CASTELLS, Manuel (1996/1999) A era da informao: economia, sociedade e cultura Volume I: A sociedade em Rede Paz e Terra, Rio de Janeiro

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    DURSTON, John (1998) - "Building Social Capital in Rural Communities (where it doesnt exist)" - Theoretical and Policy Implications of Peasant Empowerment in Chiquimula, Guatemala - Latin American Studies Association (LASA), The Palmer House Hilton, Chicago, IL, September 24-26

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  • 17

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