Desenvolvimento Rural Territorial e Capital Social

Download Desenvolvimento Rural Territorial e Capital Social

Post on 09-Mar-2016

216 views

Category:

Documents

3 download

DESCRIPTION

Artigo de Ricardo Abramovay publicado em SABOURIN, Eric e Teixeira, Olivio (orgs) Planejamento do Desenvolvimento dos Territorios Rurais Conceitos, controversias e experiencias UFPB/CIRAD/EMBRAPA pp. 113-128 Brasilia, 2002.

TRANSCRIPT

<ul><li><p> 1</p><p>Desenvolvimento Rural Territorial e Capital Social </p><p>In SABOURIN, Eric e Teixeira, Olvio (orgs) Planejamento do Desenvolvimento dos Territrios Rurais Conceitos, controvrsias e experincias UFPB/CIRAD/EMBRAPA pp. 113-128 Braslia, 2002 </p><p>Apresentao </p><p>O presente trabalho foi apresentado originalmente durante o Encontro Tcnico da Contag </p><p>sobre A formao de capital social para o desenvolvimento local sustentvel. O ttulo do </p><p>encontro insinuava o retrato de uma profunda evoluo. No que haja clareza sobre o </p><p>significado de cada um dos termos que o compe: ns no sabemos exatamente o que </p><p>desenvolvimento local e muito menos o sentido preciso do termo sustentvel. A </p><p>incorporao do capital social ao vocabulrio das cincias sociais e das polticas pblicas </p><p>tem menos de dez anos e no espantoso que, sobre ele, haja diferentes e conflitantes </p><p>pontos de vista. </p><p>O que chama a ateno no ttulo deste encontro o fato de ele ser convocado sem que a </p><p>mais importante organizao sindical do Pas e a de maior peso relativo dentro da Central </p><p>nica dos Trabalhadores faa meno ao setor ou categoria profissional que, em </p><p>princpio, ela representa. No se est falando aqui simplesmente de agricultura ou de </p><p>reivindicaes de agricultores, nem mesmo do segmento de agricultores que forma a base </p><p>social da CONTAG, os que produzem em regime de economia familiar e os assalariados. O </p><p>encontro sequer tem por eixo enfatizar a luta - que se mistura com a prpria histria da </p><p>CONTAG - pela reforma agrria. </p><p>O tema aqui proposto to amplo que a reforma agrria s pode ser vista como um meio </p><p>decisivo e insubstituvel para atingi-lo: trata-se de discutir qual o destino das populaes </p><p>vivendo em reas no densamente povoadas no processo de desenvolvimento. Os </p><p>movimentos sociais ligados s lutas dos trabalhadores rurais e antes de tudo a CONTAG - </p><p>tm a vocao de incorporar a sua agenda de reflexo, de lutas e de proposies a </p><p>dimenso territorial do desenvolvimento. A acumulao de capital social de que estamos </p><p>falando aqui no genrica: ela aplica-se especificamente criao de processos </p><p>capazes de revelar os potenciais que os mais de 50 milhes de brasileiros do campo e </p></li><li><p> 2</p><p>das pequenas e mdias aglomeraes podem descobrir em seus locais de vida e de </p><p>trabalho. </p><p>Trata-se de um tema estratgico, que envolve, mais que um projeto poltico, uma idia de </p><p>civilizao. Em seu ltimo livro Desenvolvimento enquanto liberdade o prmio </p><p>Nobel de economia Amartya Sen fala de duas vises antagnicas do desenvolvimento, </p><p>encontradas tanto entre economistas profissionais quanto na opinio pblica em geral. A </p><p>primeira delas, sustenta que o desenvolvimento um processo violento, sofrido, envolvido </p><p>inevitavelmente em sangue, suor e lgrimas (Sen, 1999:35) e onde o desafio de acumular </p><p>riquezas o mais rapidamente possvel pode levar at ao sacrifcio imediato do bem-estar, </p><p>que viria depois, a ento, sobre bases slidas. </p><p> claro que Amartya Sen repudia esta concepo (1) e mostra a existncia de outra corrente </p><p>para a qual o desenvolvimento um processo essencialmente amigvel e pode ser </p><p>exemplificado por coisas como trocas benficas (de que Adam Smith falava de maneira </p><p>eloqente), ou pelo trabalho de redes de segurana social, ou por liberdades polticas ou por </p><p>desenvolvimento social ou uma ou outra combinao destas atividades de apoio (Sen, </p><p>1999:34, 35). </p><p>Vem de Amartya Sen (1988) a mais precisa e ao mesmo tempo a mais bela - definio de </p><p>desenvolvimento: o aumento da capacidade de os indivduos fazerem escolhas. esta </p><p>viso do desenvolvimento que o faz exigir uma definio positiva de liberdade: liberdade </p><p>no apenas a ausncia de restries, o direito abstrato de ir, vir, comprar, vender, amar e </p><p>ser amado. A liberdade e portanto o desenvolvimento - no podem ser pensados fora das </p><p>condies concretas de seu exerccio (2). No basta que a lei garanta certos direitos: o </p><p>essencial que os indivduos tenham as capacidades, as qualificaes, as prerrogativas de </p><p> 1 Que entretanto importante frisar nada tem de caricatural. Nos pases capitalistas ela se exprime na curva de Kuznets (ou na idia to conhecida entre ns de que o bolo tem que crescer antes de ser distribudo), segundo a qual a etapa inicial do processo de desenvolvimento apoia-se, inevitavelmente sobre a concentrao da renda, ingrediente indispensvel da acumulao do capital. No bloco sovitico, os camponeses foram vistos teoricamente (ver por exemplo, a obra de Preobrajenski) e tratados socialmente como a fonte fornecedora da acumulao primitiva socialista. 2 Da vem ento a idia de definir o desenvolvimento pela natureza de seus resultados, traduzidos por certos indicadores de sade, longevidade e educao. Ver neste sentido, os relatrios que o PNUD publica anualmente, desde 1990 e dos quais Sen um dos principais mentores intelectuais. </p></li><li><p> 3</p><p>se deslocar, de participar dos mercados e de estabelecer relaes humanas que enriqueam </p><p>sua existncia. </p><p>Diante destas duas correntes, cabe ento perguntar: o meio rural, as reas no densamente </p><p>povoadas, onde hoje se concentram os piores indicadores sociais, podem oferecer a base a </p><p>processos consistentes de desenvolvimento ? Ou, ao contrrio, por mais caudalosa que seja </p><p>a corrente de sangue, suor e lgrimas, a vida em grandes aglomeraes urbanas e </p><p>metropolitanas a premissa para a emancipao social dos milhes de brasileiros que </p><p>vivem em situao de pobreza e misria absoluta no campo ? Se, como diz Sen, </p><p>desenvolvimento a possibilidade de avanar com um pouco de ajuda de meus amigos </p><p>ajuda que pode provir da interdependncia no mercado...mas tambm dos servios </p><p>pblicos, que conferem s pessoas mais capacidade para se ajudar a elas mesmas e aos </p><p>outros (3) - desejvel para a sociedade que estes amigos e estes servios pblicos </p><p>floresam tambm nas reas no densamente povoadas ? Ou o ditado medieval (o ar das </p><p>cidades torna as pessoas livres) que associava o meio rural fatalmente ao atraso, </p><p>dominao clientelista e opresso vlido at hoje ? possvel que, nas reas no </p><p>densamente povoadas, construa-se o processo de ampliao das possibilidades que os </p><p>indivduos tm de fazer escolhas ? </p><p>Eu no tenho dvida de que este frum e o esforo de reflexo e de elaborao de propostas </p><p>que a CONTAG vem fazendo nos ltimos anos (4) representam uma importante </p><p>contribuio para que se possa responder positivamente a esta ltima pergunta. Mas claro </p><p>que continua imensa a distncia entre a nossa profisso de f no potencial de </p><p>desenvolvimento embutido no meio rural e a materializao deste potencial em polticas </p><p>pblicas e conquistas sociais efetivas, por maiores que tenham sido os avanos recentes </p><p>neste sentido. </p><p>Reduzir esta distncia um dos objetivos fundamentais deste nosso frum. Gostaria de </p><p>contribuir neste sentido expondo algumas proposies sobre a construo do capital social. </p><p>Meu desafio mostrar que as discusses sobre capital social no precisam enclausurar-se 3 SEN, Amartya (1996) Development thinking at the begining of the 21st Century in BID Development thinking and practice conference, apud Kliksberg, 1998:35) 4 Ver, por exemplo, a srie Experincias do Projeto CUT/CONTAG de Pesquisa e Formao Sindical bem como os resultados do Projeto CUT/CONTAG (1998) </p></li><li><p> 4</p><p>na torre de marfim do jargo acadmico. Ao mesmo tempo, a elaborao terica em torno </p><p>deste tema til para auxiliar na reflexo prtica. Procurei ento formular algumas </p><p>proposies algumas mais, outras menos desenvolvidas a respeito do tema e de suas </p><p>conseqncias eventuais na ao do movimento sindical. No h qualquer pretenso de </p><p>fazer um levantamento completo e no tenho sequer a garantia de que as proposies so </p><p>realmente relevantes. Se servirem para animar nossa discusso, j me dou por satisfeito. </p><p>Sabendo que outros participantes da mesa iro definir capital social e tendo escrito sobre o </p><p>tema em trabalhos recentes (Abramovay, 1999a e 1999b), no me preocupei aqui em iniciar </p><p>por uma definio do tema. Vamos ento s proposies. </p><p>1. possvel criar capital social ali onde ele no existe. Os movimentos sociais tm um </p><p>papel estratgico neste sentido, especialmente o Movimento Sindical de Trabalhadores </p><p>Rurais e a Extenso Rural. </p><p>A leitura da principal obra de referncia sobre capital social (Putnam, 1993/1996) provoca </p><p>uma impresso que mistura encanto e desalento. Por um lado, fantstico constatar que na </p><p>raiz do maior desenvolvimento poltico das regies situadas no Norte da Itlia, por oposio </p><p>ao Sul encontram-se organizaes que datam de quase mil anos como os coros de Igreja e </p><p>as sociedades de ajuda mtua. No Norte da Itlia formou-se, h muito, uma comunidade </p><p>que se interessa por questes pblicas, que valoriza a virtude cvica e para a qual cidadania </p><p>significa deveres e direitos iguais para todos (Putnam, 1993/1996:103-104). Esta tradio </p><p>de cooperao e laos de solidariedade horizontal que explica o melhor desempenho </p><p>institucional das regies situadas ao Norte da Itlia est ausente da regio Sul, onde a </p><p>pobreza e o atraso se devem em grande parte (mas no inteiramente) incapacidade de seus </p><p>habitantes de agir em conjunto pelo bem comum ou mesmo visando a qualquer objetivo </p><p>que transcenda aos interesses materiais imediatos da famlia nuclear (5). a partir desta </p><p>dicotomia que Putnam (1993/1996:105) se prope a estabelecer uma conexo entre o </p><p>civismo de uma comunidade e a qualidade de sua governana </p><p>O importante ento a base cultural, o enraizamento histrico do processo de </p><p>institucionalizao. Mas justamente a, neste culturalismo, que reside o desalento. 5 BANFIELD, Edward (1958) The Moral Basis of a Backward Society Chicago Free Press apud Putnam (1993/1996:105). </p></li><li><p> 5</p><p>Como bem mostra a interessantssima sntese recente de Abu-El-Haj (1999:71), o ponto de </p><p>vista de Putnam acaba sendo de profundo ceticismo: associando as possibilidades de </p><p>avano democrtico existncia de ingredientes culturais naturais a certas sociedades, o </p><p>autor destitui a grande maioria dos pases em desenvolvimento da possibilidade de alcanar </p><p>a civilidade. </p><p>Esta atitude intelectual nossa velha conhecida e se exprime, por exemplo, na constatao </p><p>de que natural que a maior parte dos crditos do PRONAF vo para a regio Sul, pois l </p><p>existe maior organizao, maior tradio associativa de base entre os agricultores e, </p><p>portanto, condies mais propcias de desenvolvimento (6). </p><p>Esta constatao no errada: ela insuficiente. Da mesma forma, o trabalho de Putnam </p><p>importante para mostrar que ali onde o capital social existe, ele um elemento decisivo do </p><p>desenvolvimento. Mas ele tem pouco a dizer quanto pergunta central de nosso encontro: </p><p>como se forma capital social ? </p><p>Uma outra vertente que ao contrrio da culturalista, pode ser chamada de neo-</p><p>institucionalista - vai enfatizar o papel decisivo das elites polticas na formao de capital </p><p>social. Estas elites no tm o poder, sozinhas, de criar capital social, mas elas podem </p><p>bloquear sistematicamente sua acumulao (7). A leitura dos jornais dos ltimos dias sobre </p><p>os casos de corrupo no repasse de verbas destinadas a polticas sociais descentralizadas </p><p>um exemplo claro disso. bvio que a criao de laos de confiana, de compromissos, de </p><p>vnculos de reciprocidade capazes de estimular os contatos sociais e as iniciativas das </p><p>pessoas (em suma, o capital social) no um atributo exclusivo dos agricultores do Sul. </p><p>Mas claro que ali onde estes laos de confiana so sistematicamente sabotados por elites </p><p>corruptas, os indivduos tero menores incentivos a dedicar energias construo de redes </p><p>permanentes de interao. Na prtica, quando os indivduos sentem no s que o poder </p><p>corrupto, mas que no existem alternativas ao desmando, ser evidentemente maior a </p><p>propenso a submeter-se verticalmente a estes poderes e a renunciar ao investimento em </p><p>redes horizontais de cooperao, que so a base do capital social. 6 Uma anlise dos dois primeiros anos de implantao do PRONAF pode ser encontrada em Abramovay e Veiga, (1999). 7 Ver neste sentido, os artigos do nmero especial sobre capital social da revista World Development de junho de 1996 e a resenha de Abu-El-Haj. </p></li><li><p> 6</p><p>Um importante cientista poltico contemporneo (Evans, 1998:24) resume esta idia em trs </p><p>proposies bsicas que, de certa forma, procuram representar uma alternativa neo-</p><p>institucionalista - viso culturalista de Robert Putnam: </p><p>a) As agncias estatais necessitam das comunidades: as comunidades so coprodutoras de </p><p>seus resultados e no seus clientes passivos; </p><p>b) As comunidades necessitam de burocracias estatais, j que poucos servios, nas </p><p>sociedades contemporneas, podem ser organizados num nvel puramente local e sem o </p><p>apoio dos conhecimentos e dos recursos que venham de Estados e da Federao; </p><p>c) Neste sentido, a sinergia entre Estado e sociedade pode criar um crculo virtuoso de </p><p>mudana institucional. </p><p>Capital social, portanto, no simplesmente um atributo cultural cujas razes s podem ser </p><p>fincadas ao longo de muitas geraes (Durston, 1998): ele pode ser criado, desde que haja </p><p>organizaes suficientemente fortes para sinalizar aos indivduos alternativas aos </p><p>comportamentos polticos convencionais: as dotaes pr-existente de capital social so </p><p>recursos valiosos na construo de relaes sinrgicas [entre Estado e sociedade civil], mas </p><p>no podem ser consideradas como a raridade decisiva. As comunidades que desfrutam os </p><p>benefcios da sinergia no desfrutam necessariamente dotaes prvias excepcionais de </p><p>capital social (Evans, 1996:1130). </p><p>O Movimento Sindical de Trabalhadores Rurais e a Extenso Rural so as duas </p><p>organizaes nacionais mais capilarizadas pelo interior do Pas. Por maiores que sejam seus </p><p>problemas e sua heterogeneidade, ambas definiram recentemente sua misso em torno do </p><p>fortalecimento da agricultura familiar (8). Ambas portanto reconhecem na agricultura </p><p>familiar a base social do processo de reconstruo institucional da vida poltica no interior </p><p>do Pas. Esta uma das premissas fundamentais para que elas contribuam para a formao </p><p>de um quadro institucional que possa mostrar aos indivduos que a cooperao oferece </p><p>recompensas mais importantes que a submisso a poderes autoritrios e to freqentemente </p><p>corruptos. 8 Ver anais do I Workshop Nacional Uma Extenso Rural para a Agricultura Familiar DATER/FAZER/CONTAG/ASBRAER/FAO/PNUD Ver tambm Abramovay, 1998 </p></li><li><p> 7</p></li><li><p> 8</p><p>2. Desenvolvimento local no sinnimo de desenvolvimento municipal </p><p>Local um dos inmeros adjetivos de que a noo de desenvolvimento vem-se fazendo </p><p>acompanhar desde que ela se transformou em disciplina autnoma no interior da economia, </p><p>durante os anos 1940 e 1950 (Hirschman, 1981/1986). Trata-se de uma compreensvel </p><p>reao a dois pressupostos bsicos. O primeiro rezava que as disparidades nos nveis de </p><p>crescimento, na prosperidade e no bem-estar entre os pases seria resolvida </p><p>automaticamente pelo mercado. O segundo enfatizava a importncia de certas infra-</p><p>estruturas como pr-requisitos a que o desenvolvimento ocorresse....</p></li></ul>

Recommended

View more >