Desenvolvimento regional, hierarquia urbana e condição de ... ?· Desenvolvimento regional, hierarquia…

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<p>55</p> <p>issn impreso 0250-7161 | issn digital 0717-6236</p> <p>vol 42 | no 127 | septiembre 2016 | pp. 55-85 | artculos | EURE</p> <p>Desenvolvimento regional, hierarquia urbana e condio de migrao </p> <p>individual no Brasil entre 1980 e 2010</p> <p>Ana Carolina C. Lima. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.Rodrigo Simes. Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil.Ana Maria Hermeto. Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil.</p> <p>resumo | O processo de desenvolvimento econmico regional tem implicaes para a dinmica populacional, a qual possui efeitos recprocos sobre o desenvolvimento. O objetivo do artigo identificar a contribuio da hierarquia urbana para a deciso de migrar no Brasil entre 1980 e 2010. Para sua consecuo, so analisados microdados dos censos demogrficos referentes ao perodo em anlise, fornecidos pelo ibge, e estimados modelos de regresso logstica para a condio de migrao individual. A anlise dos dados demonstra que os deslocamentos populacionais recentes no Brasil guardam elevada relao com os respectivos nveis de desenvolvimento urbano-regio-nal, bem como esto associados s vantagens dos centros urbanos. Novas tendncias parecem surgir com o aumento da migrao, inclusive de retorno, em direo a re-gies tradicionalmente incapazes de reter suas respectivas populaes, o que est atre-lado significativamente expanso de seus ritmos de crescimento e complexidade dos mercados de trabalho em regies mais dinmicas do pas.</p> <p>palavras-chave | desenvolvimento regional e local, migrao, sistema urbano.</p> <p>abstract | The level of regional development is affected by the migration process, and the subsequent migration flows are affected by the growth rates of the localities in a process of circular and cumulative causation. The aim of this paper is to identify the contribution of urban hierarchy to the individual decision to migrate in Brazil between 1980 and 2010. To achieve this goal, we analyze data from demographic census for the period, provided by ibge. Data analysis shows that migration patterns in Brazil are extremely related with the levels of urban development. Moreover, individual migration is associated with the advantages of urban centers, especially if they are located in medium sized cities. New trends begin to emerge and are related to the economic expansion of new destiny regions, with the decline of job opportunities in the most developed region of the country, and with return migration.</p> <p>keywords | regional and local development, migration, urban system.</p> <p>Recibido el 17 de abril de 2014, aprobado el 18 de agosto de 2014E-mail: A. Lima, ana.lima@uerj.br | R. Simes, limoes@cedeplar.ufmg.br | A. Hermeto, ahermeto@cedeplar.ufmg.br</p> <p>56 EURE | vol 42 | no 127 | septiembre 2016 | pp. 55-85</p> <p>Introduo</p> <p>A anlise do processo de desenvolvimento econmico engloba, necessariamente, sua interao com a movimentao dos fatores de produo no tempo e espao. Ou seja, compreender a dinmica das interaes entre desenvolvimento e fluxos de capital e trabalho essencial para analisar as trajetrias de crescimento de determinadas regies e/ou pases. Em especial, as interaes entre desenvolvimento e migrao, cuja natureza e repercusses espao-temporais so bastante heterogneas, precisam ser analisadas como parte integrante e recproca desse amplo processo.</p> <p>Nessa perspectiva, as causas e impactos da migrao no devem ser estudados separadamente nem de forma isolada em relao ao processo de desenvolvimento, pois isso gera limitaes para a anlise. O nvel de desenvolvimento de uma regio influencia as decises de migrar e estas, por sua vez, tm impactos sobre o desen-volvimento, especialmente nas regies de origem dos migrantes. Assim, a migrao deve ser entendida como um processo integrante do desenvolvimento econmico, possuidor de dinmica interna prpria e que possui impactos especficos sobre as estruturas das localidades de origem e destino dos migrantes.</p> <p>Esta natureza extremamente complexa dos processos migratrios exige um framework terico que incorpore uma variedade de perspectivas (micro e macro) e hipteses. Contudo, devido dificuldade de generalizar as causas e consequncias deste fenmeno, bem como s dificuldades de isol-lo dos demais aspectos sociais, econmicos e polticos, no h uma nica teoria aceita pelos estudiosos como capaz de explicar a dinmica dos fluxos migratrios (como se iniciam e se perpetuam). H, na realidade, uma quantidade significativa de teorias capazes de explicar deter-minados aspectos do processo migratrio, mas nenhuma delas consegue explicar toda a sua complexidade (Barricarte, 2010; De Haas, 2008). O resultado a exis-tncia de grandes controvrsias em relao natureza, causas e impactos dos fluxos migratrios.</p> <p>No caso do Brasil, possvel verificar, de acordo com Brito (2002), que as traje-trias migratrias esto intrinsecamente relacionadas aos processos de desenvolvi-mento e integrao dos mercados brasileiros. Em seu perodo de desenvolvimento recente (ps-1950), os deslocamentos populacionais funcionaram como um meca-nismo de transferncia do excedente demogrfico de regies pouco dinmicas para outras nas quais a economia urbano-industrial se tornou mais dinmica ou onde houve expanso da fronteira agrcola. At a dcada de 1970 as trajetrias migratrias dominantes no Brasil ocorriam entre a regio Nordeste e o estado de Minas Gerais, desempenhando a funo de reservatrios de mo de obra, e os estados de So Paulo e Rio de Janeiro, grandes receptores de migrantes devido a suas elevadas taxas de crescimento industrial e de gerao de emprego. Estes deslocamentos populacionais ocorriam fundamentalmente entre reas rurais, incapazes de reter suas respectivas populaes, e urbanas, em crescente expanso econmica.</p> <p>O autor destaca que a partir de 1980, o Brasil comea a verificar um processo de transio migratria: transformaes socioeconmicas ocorridas no pas a partir deste perodo provocaram a diminuio das trajetrias migratrias dominantes em prol de trajetrias secundrias, que representavam etapas migratrias dos fluxos </p> <p>57A. Lima, Simes, Hermeto | Desenvolvimento regional, hierarquia urbana... | EURE</p> <p>principais (e ocorriam entre estados vizinhos), verificando-se, inclusive, o aumento da migrao de retorno. Estudos realizados mais recentemente por Baeninger (2000 e 2008), Brito (2002 e 2006), Brito e Carvalho (2006) e Lima (2013) corroboram esta tendncia ao identificar a intensificao dos deslocamentos populacionais em direo a reas tradicionalmente emissoras de migrantes e o surgimento e a conso-lidao de novos polos inter e intraestaduais de absoro migratria, especialmente na regio centro-sul do pas. Os autores destacam a importncia do papel desem-penhado pelas cidades mdias neste processo de transio migratria. medida que as principais metrpoles nacionais se expandiam e atraam elevado contingente populacional, aumentava a concorrncia pelos postos de trabalho na localidade e o congestionamento urbano, o que tornava mais difcil o ajustamento do migrante ao novo contexto social. As cidades mdias, em contrapartida, tornavam-se cada vez mais dinmicas, gerando diversas oportunidades de renda e emprego, sem a ocorrncia dos elevados custos caractersticos das grandes aglomeraes urbanas. Estas cidades possuam toda a infraestrutura logstica necessria para o desenvol-vimento das atividades produtivas e no apresentavam os problemas de congestio-namento das grandes metrpoles (insuficincia do sistema de transporte urbano, saneamento bsico, educao, sade, habitao, etc.).</p> <p>Assim, a interiorizao do processo de urbanizao no Brasil estimulou o surgimento e a consolidao de novas regies absorvedoras de migrantes no pas, dinamizando seus fluxos migratrios secundrios de curta distncia. Os migrantes comearam a deixar os grandes centros urbanos metropolitanos em direo s regies polarizadas por cidades mdias (Baeninger, 2008; Brito, 2002; Lima, 2013). Em outras palavras, os autores identificam que as mudanas ocorridas nos deslo-camentos da populao brasileira nos ltimos anos (especialmente ao longo das dcadas de 1990 e 2000) apontam para um perodo transitrio, que aos poucos procura romper o carter inercial de seu padro dominante (Nordeste-Sudeste). Os fluxos migratrios recentes tendem a favorecer reas mais dinmicas, polari-zadas por cidades mdias, que emergem como importantes regies de crescimento econmico. Estes fluxos secundrios ocorrem, majoritariamente, de regies com maiores nveis de renda para regies com menores nveis de renda, contrariando os argumentos das teorias migratrias convencionais, que admitem uma relao inversa entre migrao e o nvel de desenvolvimento.</p> <p>Neste contexto, o artigo pretende analisar a importncia da estrutura urbana para a determinao da condio de migrao individual no Brasil entre 1980 e 2010. O objetivo do artigo analisar em que medida os aspectos do desenvolvimento urbano-regional e a hierarquia urbana esto relacionados s alteraes ocorridas nos padres migratrios brasileiros nas ltimas dcadas. Para a sua consecuo so utilizados os microdados dos Censos Demogrficos de 1980 a 2010, fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (ibge). A opo do horizonte temporal de anlise exigiu a compatibilizao de diversos quesitos censitrios, em especial daqueles relacionados migrao, e da malha municipal brasileira, cujo montante varia significativamente neste perodo. Alm disso, a definio da unidade espacial de anlise exigiu a construo de reas regionais comparveis (ac) para o perodo analisado, cuja definio equivale escala microrregional.</p> <p>58 EURE | vol 42 | no 127 | septiembre 2016 | pp. 55-85</p> <p>O artigo possui mais quatro sees alm desta introduo. Na segunda seo, so descritas as principais caractersticas da amostra. Na terceira seo, so utilizados mtodos de anlise multivariada (anlise de componentes principais) para cons-truir indicadores dos nveis de desenvolvimento e de atratividade regional, iden-tificando, assim, as tendncias do desenvolvimento regional brasileiro nas ltimas trs dcadas. Na seo seguinte, so utilizados modelos de regresso logstica para estimar a condio de migrao individual, ou seja, a probabilidade de um indivduo ser um migrante. Os modelos incorporam variveis indicadoras das caractersticas individuais, produtivas e no produtivas, e variveis indicadoras das caractersticas urbanas das regies de residncia individual. O objetivo identificar quais aspectos urbano-regionais funcionam como fatores de reteno, repulso e/ou atrao popu-lacional. Em seguida so realizadas as consideraes finais.</p> <p>Critrios para a definio da unidade territorial de anlise e caractersticas gerais da amostra</p> <p>No caso do Brasil, as fontes de informaes mais adequadas para analisar as interaes entre desenvolvimento urbano-regional e migrao so os Censos Demogrficos, realizados pelo ibge. Por intermdio destes censos, possvel identificar as carac-tersticas produtivas (educao, trabalho, rendimento, etc.) e no produtivas (sexo, cor, estrutura familiar, condio domiciliar, etc.) dos indivduos, bem como suas respectivas regies de origem e destino quando os mesmos realizaram algum tipo de deslocamento. Alm disso, tambm possvel observar uma srie de variveis socioeconmicas regionais a partir destas bases de dados. </p> <p>A escolha dos horizontes temporal e espacial da anlise proposta implicou desa-fios metodolgicos para permitir a compatibilizao destas bases de dados, pois as alteraes na quantidade de municpios brasileiros e nos critrios de obteno das variveis censitrias tornam as comparaes destas informaes ao longo do tempo inconsistentes se no forem realizados os ajustes necessrios. Assim, so descritos a seguir os ajustes realizados para a obteno da amostra utilizada no presente estudo, bem como suas principais caractersticas.</p> <p>Critrios espaciais: o conceito de rea regional comparvelEm relao compatibilizao espacial, foi utilizado o conceito de reas mnimas comparveis (amc) elaborado por Reis, Pimentel, e Dos Santos,(2011) para viabi-lizar a construo da unidade espacial utilizada no artigo. Para possibilitar compa-raes entre os censos, os autores agregam os municpios em reas mais abrangentes, que correspondem unio das reas dos municpios alterados. Por exemplo, no caso de municpios que se originam de mais de um municpio, a recomposio implica agregar as reas de todos os municpios de origem.</p> <p>Neste artigo, a primeira etapa para a compatibilizao foi a transformao dos municpios em cada ano censitrio em amc.1 Ao todo foram definidas 3.659 amc. </p> <p>1 A quantidade de municpios brasileitos em 1980, 1991, 2000 e 2010 , respectivamente, 3.991, 4.491, 5.507 e 5.565.</p> <p>59A. Lima, Simes, Hermeto | Desenvolvimento regional, hierarquia urbana... | EURE</p> <p>Em seguida, estas amc foram agregadas a partir das microrregies geogrficas de origem, ou seja, se uma amc pertencia a mais de uma microrregio, as reas destas microrregies foram agregadas.2 O resultado desta compatibilizao espacial possi-bilitou a identificao de 413 reas regionais comparveis para o Brasil entre 1980 e 2010. A escolha deste recorte espacial justificada por esta ser a escala mais signifi-cativa para os deslocamentos individuais (os fluxos migratrios mais expressivos no ocorrem entre distncias muito reduzidas, como as municipais).</p> <p>Critrios individuais: quesitos censitrios e classificao da condio de migraoPara viabilizar a comparao dos dados censitrios, foram realizados diversos ajustes nos quesitos relacionados s respectivas variveis de interesse. Os rendimentos foram atualizados para valores de 2010, utilizando os deflatores dos censos calculados por Corseuil e Foguel (2002) e o ndice Nacional de Preos ao Consumidor (inpc). A partir dos quesitos educacionais foram criadas variveis para indicar a quantidade de anos de estudo dos indivduos, classificando-os em 05 grupos de escolaridade: 0 a 3 anos de estudo, 4 a 7 anos de estudo, 8 a 10 anos de estudo, 11 a 14 anos de estudo e 15 anos ou mais de estudo.</p> <p>Os ajustes mais importantes foram realizados nas variveis indicadoras da condio migratria individual. H dois critrios censitrios para definir a condio de migrao: ltima etapa e data fixa (Rigotti, 1999). O primeiro permite identi-ficar o local de residncia anterior dos indivduos que moram h menos de 10 anos no municpio de recenseamento; o segundo indica, para pessoas a partir de cinco anos, o local de residncia em uma data pr-estabelecida, em geral 05 anos antes do censo. Estes critrios no so substitutos perfeitos, pois o local de origem na data fixa pode no ser igual ao local de residncia imediatamente anterior ltima etapa migratria (Rigotti, 1999). As adaptaes realizadas nos censos populacionais entre 1980 e 2010 impossibilitam a utilizao de um critrio migratrio nico e homo-gneo, pois a adoo do critrio de ltima etapa inviabilizada pela excluso destes quesitos no censo demogrfico de 2000 e a adoo do critrio data fixa inviabili-zada pela ausncia deste quesito no censo demogrfico de 1980. Para superar esta limitao, optou-s...</p>

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