DESENVOLVIMENTO ENDÓGENO E LOCAL: ESTUDO DO ?· URBANIZADOR SOCIAL DE PORTO ALEGRE/RS Porto Alegre…

Download DESENVOLVIMENTO ENDÓGENO E LOCAL: ESTUDO DO ?· URBANIZADOR SOCIAL DE PORTO ALEGRE/RS Porto Alegre…

Post on 10-Feb-2019

213 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

PONTIFCIA UNIVERSIDADE CATLICA DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE ADMINISTRAO, CONTABILIDADE E ECONOMIA

PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM ECONOMIA

MESTRADO EM ECONOMIA DO DESENVOLVIMENTO

GEVACI CARLOS PERRONI GAMA DE OLIVEIRA

DESENVOLVIMENTO ENDGENO E LOCAL: ESTUDO DO PROJETO

URBANIZADOR SOCIAL DE PORTO ALEGRE/RS

Porto Alegre

2007

GEVACI CARLOS PERRONI GAMA DE OLIVEIRA

DESENVOLVIMENTO ENDGENO E LOCAL: ESTUDO DO PROJETO

URBANIZADOR SOCIAL DE PORTO ALEGRE/RS

Dissertao apresentada ao Departamento de Ps-Graduao em Economia da Faculdade de Administrao, Contabilidade e Economia / PUCRS como requisito para a obteno do ttulo de Mestre em Economia do Desenvolvimento.

Orientador: Dr. Adelar Fochezatto

Porto Alegre

2007

GEVACI CARLOS PERRONI GAMA DE OLIVEIRA

DESENVOLVIMENTO ENDGENO E LOCAL: ESTUDO DO PROJETO URBANIZADOR SOCIAL DE PORTO ALEGRE/RS

Dissertao apresentada ao Curso de Mestrado em Economia do Desenvolvimento da Faculdade de Administrao, Contabilidade e Economia / PUCRS como requisito para a obteno do ttulo de Mestre em Economia do Desenvolvimento.

Aprovada em 30 de maro de 2007

BANCA EXAMINADORA

___________________________________

Prof. Dr. Carlos Schmidt

___________________________________

Prof. Dr. Adalmir Antnio Marchetti

___________________________________

Prof. Dr. Carlos Nelson dos Reis

RESUMO

O presente estudo avalia a possibilidade de construes endgenas darem repostas aos

formatos de excluso social. A partir da realidade de determinada regio, a Lomba do

Pinheiro, em Porto Alegre, infere-se para as demais regies as alternativas excluso

instalada. Para tanto se faz o resgate da excluso social em nvel de Brasil, com destaque em

especial para a excluso habitao, resgatando-se tambm alguns conceitos de Amartya Sen.

Utilizando-se do referencial terico do desenvolvimento endgeno e do desenvolvimento

local, exemplifica-se com projetos que tm como premissas este mesmo embasamento

terico, as Redes de Cooperao e o Urbanizador Social. A partir das caractersticas

encontradas na regio em estudo, entende-se que esforos pela construo coletiva de

solues estaro resolvendo as dificuldades, e, com o tempo, melhorando a situao geral da

regio. A partir da construo coletiva abre-se espao para a criao de uma rede de

desenvolvimento, que permitir o acmulo de capital social, conduzindo ao desenvolvimento

endgeno e local.

Palavras-chave: Desenvolvimento endgeno. Desenvolvimento local. Capital social.

ABSTRACT

The present study evaluates the possibility of endogenous constructions give answers

to the shapes of social exclusion. Starting from the reality of a specific area, called Lomba do

Pinheiro, in Porto Alegre, the alternatives to the installed exclusion are inferred to the other

areas. In order to achieve this objective, the social exclusion rescue of Brazil is done, with

special emphasis to house exclusion, when Amartya Sen's concepts are ransoned. Making use

of the theoretical referencial of the endogenous and local development, we exemplify with

some projects which present this same theoretical base as premise: the Redes de Cooperao e

Urbanizador Social. Based on the characteristics found in the studied area, we understand that

efforts for the collective construction of solutions will sove difficulties, and step by step the

general situation of the area will be improved. Starting from collective construction space is

opened for the creation of a development net, which will allow the social capital

accumulation, leading to endogenous and local development.

Key-Words: Endogenous development. Place development. Social capital.

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 Distribuio da renda da populao economicamente ativa................................. 35

Tabela 2 Percentagem da renda apropriada e ndice de Gini.............................................. 35

Tabela 3 Nmero de moradores do domiclio..................................................................... 53

Tabela 4 Renda mensal individual e familiar...................................................................... 54

Tabela 5 Classes de rendimento nominal mensal do responsvel pelo domiclio (em salrios mnimos).................................................................................................................... 54

Tabela 6 Tipo de registro do empreendimento.................................................................... 55

Tabela 7 Tempo de funcionamento das empresas (em anos).............................................. 56

Tabela 8 Estrutura do gasto mensal por item de dispndio................................................. 56

Tabela 9 Estrutura do gasto mensal por item de dispndio no bairro................................. 57

Tabela 10 Resumo das variveis testadas............................................................................ 62

Tabela 11 Medidas estatsticas da amostra.......................................................................... 66

Tabela 12 Medidas estatsticas do preo das sub-regies da Lomba.................................. 68

Tabela 13 Medidas estatsticas do preo do m das sub-regies da Lomba........................ 68

Tabela 14 Medidas estatsticas do preo e do preo por m segundo classificao por rea de ocupao..................................................................................................................... 70

Tabela 15 Medidas estatsticas do preo e do preo por m segundo cadastro de imveis.................................................................................................................................... 70

Tabela 16 Resultado do Modelo Avaliao Preo Total (R$)............................................. 72

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

APL Arranjo Produtivo Local

CUB Custo Unitrio Bsico

DEMHAB Departamento Municipal de Habitao de Porto Alegre

HIS Habitao de Interesse Social

IAB Instituto dos Arquitetos do Brasil

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica

IPTU Imposto sobre a Propriedade Territorial Urbana

ITBI Imposto sobre a Transmisso de Bens Imveis

PDE Plano de Desenvolvimento Econmico

PEA Populao Economicamente Ativa

PGM Procuradoria-Geral do Municpio de Porto Alegre

PNAD Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios

PDDUA Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental

SEBRAE Servio Brasileiro de Apoio s Micro e Pequenas Empresas

SINDUSCON Sindicato da Indstria da Construo Civil

SM Salrio Mnimo

SMAM Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Porto Alegre

SMF Secretaria Municipal da Fazenda de Porto Alegre

SMOV Secretaria Municipal de Obras e Viao de Porto Alegre

SPM Secretaria de Planejamento Municipal de Porto Alegre

SUMRIO

1 INTRODUO .......................................................................................................... 09 2 DESENVOLVIMENTO ENDGENO E LOCAL : TEORIA E PRTICA....... 15 2.1 DESENVOLVIMENTO LOCAL E DESENVOLVIMENTO ENDGENO............. 16 2.2 UM PROJETO DE ENDOGEINIZAO................................................................... 24 2.2.1 Atuao em rede: uma experincia com as redes de cooperao........................... 25 3 EXCLUSO SOCIAL................................................................................................ 34 3.1 EXCLUSO E ACESSO MORADIA: UM PANORAMA DO CENRIO

BRASILEIRO............................................................................................................... 37 3.2 GERANDO DESENVOLVIMENTO ENDGENO: O PROJETO

URBANIZADOR SOCIAL.......................................................................................... 42 4 ACESSO MORADIA NA REGIO DA LOMBA DO PINHEIRO.................. 51 4.1 PERFIL SCIOECONMICO DA REGIO DA LOMBA DO PINHEIRO............ 52 4.2 PREO DO SOLO....................................................................................................... 57 4.2.1 Descrio das variveis e hipteses........................................................................... 58 4.2.2 Anlise dos resultados................................................................................................ 71 4.3 A REGIO E O MODELO.......................................................................................... 78 5 CONCLUSES........................................................................................................... 81 REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS...................................................................... 88 ANEXO I DESCRIO DAS VARIVEIS......................................................... 92 ANEXO II REGIME URBANSTICO.................................................................. 94 ANEXO III - CARACTERSTICAS DAS SUB-REGIES (REAS

HOMOGNEAS)........................................................................................................ 96

1 INTRODUO

O Brasil acumula a condio de um dos pases de maior vigor em termos de

industrializao e crescimento econmico em um espao limitado de tempo. Na segunda

metade do sculo XX, o pas alcanou a posio de membro do seleto grupo de pases

industrializados, chegando a constituir-se na oitava economia mundial. Ao mesmo tempo, o

pas tambm se destaca por apresentar uma das mais desiguais distribuies de renda do

planeta, tendo sido classificado pelo Banco Mundial como detentor da segunda maior

concentrao de renda do mundo. Essa condio sugere a existncia de grandes contrastes

entre setores modernos, com padro de consumo semelhante ao dos pases mais

desenvolvidos, e setores sociais que convivem com a absoluta misria.

Buscando analisar a situao da distribuio da renda no pas durante a dcada de 90,

classifica-se como um perodo de estagnao econmica e tambm gerador de uma estrutura

produtiva assentada numa forte e dinmica base industrial. Nesse perodo, as grandes

disparidades de renda no se atenuaram nem em conjunturas de intenso crescimento

econmico, nem nas ocasies de estagnao e de altas taxas inflacionrias da dcada de 80.

Conjugando a elevada concentrao de renda com uma capacidade cada vez menor de

atuao do governo junto populao, verifica-se o aumento do nmero de pessoas que no

desfrutam de condies de vida dignas em termos de acesso sade, educao,

alimentao e moradia. Em boa medida, essas carncias esto ligadas falta de acesso ao

mercado de trabalho. O desemprego desencadeia um processo de excluso social gradual,

levando os indivduos, muitas vezes, a buscarem apoio nos familiares para continuarem a

suprir suas necessidades dirias. Todavia, muito mais do que a impossibilidade de acesso ao

10

mercado de trabalho, o abatimento moral torna o indivduo impotente, fazendo com que o

reflexo do desemprego se manifeste em diversas dimenses de sua vida.

Um dos principais aspectos determinantes da qualidade de vida do indivduo diz

respeito a sua moradia. Na lgica do mercado, os critrios para a escolha do espao para

morar, por parte do indivduo, vo ao encontro do montante de facilidades que ele est

disposto e apto a absorver. As facilidades podem ser: acesso gua, acesso ao esgoto, escola,

posto de sade, supermercado na proximidade e qualidade das vias de acesso, distncia do

local de trabalho etc. Entretanto, a concretizao dessa disposio est diretamente ligada a

seu ganho laboral, o qual determina, assim, a distribuio do espao territorial para fins de

habitao.

Hoje, no Brasil, milhes de famlias esto excludas do acesso moradia digna. A

necessidade quantitativa corresponde a 7,2 milhes de novas residncias aproximadamente1.

Diagnsticos realizados sobre a situao habitacional do Brasil, a partir de dados do Censo

Demogrfico de 2000 e da Pesquisa de Informaes Municipais de 20012, informam que, no

ano de 2000, 88,2% do dficit habitacional urbano do pas correspondia a famlias com renda

de at cinco salrios mnimos.

Paralelamente carncia habitacional, as cidades brasileiras tambm padecem da

insuficincia de redes de infra-estrutura bsica, situao que complementa um quadro de

precariedade significativo. Segundo informaes do IBGE, quase metade da populao

brasileira (83 milhes de pessoas) no atendida por sistemas de esgotos, e 45 milhes de

cidados carecem de servios de gua potvel. esse conjunto de deficincias que est

1 Fonte: Instituto Brasileiro de Estatstica e Geografia (IBGE), sistematizados no documento denominado Poltica Nacional de Habitao 2 Instituto Brasileiro de Estatstica e Geografia (IBGE), sistematizados no documento denominado Poltica Nacional de Habitao

11

presente nos bolses de pobreza, no s das grandes cidades, mas tambm das mdias e at

das pequenas.

Por se tratar de um bem finito que tem seu valor estabelecido pela localizao, a venda

de moradias mais prximas das facilidades se torna uma sada momentnea para aqueles que

esto em processo de excluso. Tal comrcio redunda no inchamento da periferia, uma vez

que os moradores que antes ocupavam reas que estavam mais bem localizadas deslocam-se

para esta, afetando tambm os preos. Na questo da habitao, os excludos no so somente

aqueles que esto desempregados, so tambm aqueles que embora inseridos no mercado de

trabalho no conseguem ter seu local para morar.

Entendido como forma de promover melhores condies de vida para a populao,

especialmente para os setores marginalizados, est o desenvolvimento econmico e social.

Este se inspira nos valores da igualdade e da cidadania, com a incluso plena dos setores

marginalizados na produo e repartio dos resultados. O desenvolvimento acontece num

determinado local, sendo que pode se apresentar na forma de diversos modelos. Cada

territrio tem um modelo prprio de desenvolvimento, envolvendo diversos fatores em

diferentes graus e formas. Cabe registrar alguns deles, como o caso das redes de atores

locais, das dotaes naturais (recursos naturais renovveis ou no-renovveis), da infra-

estrutura existente, do capital humano (conhecimentos, habilidades e competncias das

pessoas), do capital social (os nveis de confiana, cooperao, organizao e participao

social), da cultura empreendedora (nveis de auto-estima, autoconfiana, capacidade de

iniciativa), da poupana local, da capacidade de atrair investimentos, das potencialidades,

vocaes e oportunidades, e das vantagens comparativas e competitivas.

Para a competitividade necessrio que sejam valorizadas cada vez mais as

caractersticas locais, seja atravs do aproveitamento do potencial existente ou do fomento a

novas atividades. Diante disso, a participao dos atores locais na construo de sadas para o

12

desenvolvimento de sua regio de fundamental importncia, uma vez que essa participao

tende a endogeinizar o aprendizado.

No sentido do fortalecimento das caractersticas locais, e, conseqentemente, do

fortalecimento do capital humano, acontece o desenvolvimento endgeno. Este tem como

proposta atender s demandas locais com o objetivo de buscar o bem-estar econmico,

cultural e social.

Tendo a construo endgena como princpio, existem exemplos de projetos

elaborados por iniciativa do Estado que so destinados a suprir debilidades, permitindo assim

uma melhor qualidade de vida. Essas aes tratam desde a questo do acesso ao solo, como

o caso do Urbanizador Social, at o fortalecimento atravs da estruturao de empresas com

vistas manuteno e criao de novos empregos, que o caso das Redes de Cooperao.

Dentro da tica da construo coletiva, buscando entender as formas de ocupao do

espao, pretende-se aprofundar o estudo do Urbanizador Social3; entendido como um projeto

amplo com vrias aplicaes no mundo. O referido projeto foi desenvolvido no Rio Grande

do Sul, na paradigmtica regio da Lomba do Pinheiro, situada em uma parte do municpio de

Porto Alegre que se destaca pela presena de importante patrimnio natural.

A presente dissertao tem como proposta geral investigar o desenvolvimento

econmico e social do territrio, relacionado problemtica da excluso social, com nfase na

excluso a uma moradia digna, a excluso ao emprego e, conseqentemente, renda. A

investigao est permeada pelas premissas de desenvolvimento local, tendo como proposta a

ocorrncia de desenvolvimento endgeno, conduzindo os habitantes de determinado territrio

ao enfrentamento excluso.

3 Entende-se por Urbanizador Social um processo de cooperao mtua que favorece a atrao e conquista de parceiros por parte dos interessados em promover o acesso digno ao solo urbano, sustentvel no tempo, com vistas a dois objetivos iniciais: o aumento da oferta de lotes com preos acessveis populao de baixa renda, via mercado, e o controle da informalidade.

13

O objetivo especfico da dissertao consiste em estudar o Urbanizador Social como

ferramenta para o desenvolvimento endgeno, capaz de influenciar no somente no acesso a

uma moradia mais digna, mas tambm como um processo indutor de desenvolvimento que

traga respostas positivas a outras formas de excluso, promovendo desenvolvimento local.

No primeiro captulo sero trabalhados os temas desenvolvimento local e

desenvolvimento endgeno, trazendo as razes do desenvolvimento endgeno e discutindo

projetos capazes da endogeinizao da ao, com destaque para o Redes de Cooperao. No

segundo captulo ser desenvolvido o conceito de excluso social, bem como as suas diversas

facetas. Ainda neste captulo ser abordada com mais nfase a excluso no que se refere ao

aspecto do acesso ao solo, com destaque para a experincia do Urbanizador Social.

No terceiro captulo tratar-se- da excluso no que se refere ao acesso ao solo,

destacando que as pessoas de baixa renda, via mercado, so excludas. Para tanto sero

utilizados os dados obtidos em duas pesquisas realizadas na regio da Lomba do Pinheiro, em

Porto Alegre. A primeira pesquisa foi desenvolvida pelo SEBRAE, atravs da qual traado o

perfil socioeconmico da regio. A segunda foi desenvolvida atravs de convnio entre o

Lincoln Institute of Land Policy4, a ACESSO Cidadania e Direitos Humanos e a Prefeitura

Municipal de Porto Alegre com o objetivo de investigar o preo do solo urbano na Lomba do

Pinheiro.

4 O Lincoln Institute of Land Policy uma organizao educacional sem fins lucrativos estabelecida em 1974. Sua misso estudar e ensinar sobre polticas de solo e impostos territoriais. O objetivo do Instituto integrar teoria e prtica para contribuir na definio de melhores polticas de solo, compartilhando conhecimento sobre as aes multidiciplinares que influenciam as polticas pblicas. Inspirado pelas idias de Henry George, economista poltico e filsofo social norte-americano do sculo XIX, autor do livro Progress and Poverty (Progresso e Misria), o Lincoln Institute introduz sua forma de pensar e suas idias no debate contemporneo sobre polticas de solo e tributao com o objetivo de avanar para uma sociedade mais eqitativa e produtiva.

14

No perfil socioeconmico trabalhar-se- com dados secundrios, enquanto que na

pesquisa de acesso sero utilizados dados primrios. Nesta far-se- uso da econometria, cross

section, utilizando-se dados primrios que sero analisados atravs da estatstica descritiva. O

modelo economtrico ter o preo da terra como varivel dependente; as variveis

independentes sero a presena de abastecimento de gua, de rede de esgotos, de escola, a

metragem do terreno, a existncia de casa no terreno, (quando da existncia, o estado da casa),

existncia de creche, recolhimento de lixo, tamanho da testada do terreno, a inclinao do

terreno, posio do terreno na rua, ou seja, se a rua pavimentada, se existe coleta de lixo,

distncia das principais vias de acesso, existncia de posto de sade e regime urbanstico5.

Finalmente, o percurso realizado recuperado na concluso, onde so sumariados os

principais resultados de cada captulo e so resgatados os eixos atravs dos quais a dissertao

se desenvolve. Esses resultados so ento colocados em perspectiva, situando a dissertao no

campo do conhecimento especfico e da prtica cotidiana do planejamento e das polticas de

desenvolvimento, apontando alguns passos para o seu avano.

5 O regime urbanstico se refere ao ndice de aproveitamento estabelecido no Plano Diretor de Porto Alegre.

2 DESENVOLVIMENTO ENDGENO E LOCAL: TEORIA E PRTICA

Ao iniciar o sculo XXI, percebe-se que as promessas de desenvolvimento resultaram

em grande frustrao para a imensa maioria das pessoas, principalmente para aquelas que se

vem impotentes para dele participar, no s por estarem fora do processo mas porque no

lhes cabe um papel definido, ou, pior, esto sobrando, excludas socialmente, constituindo-se

em obstculos problemticos cuja existncia indesejvel.

A busca de compreenso das principais peculiaridades leva a que se enfrente um dos

casos mais desafiantes em termos da harmonia de trs caractersticas fundamentais exigidas

como balizadoras de boa performance de sistemas econmicos: estabilidade, dinamismo e

igualitarismo.

A harmonia necessria dessas caractersticas esbarra na questo da competitividade,

quando os seres humanos priorizam fundamentalmente a acumulao. Maia (2002) refora

essa viso:

A evoluo do conceito de desenvolvimento, da idia de crescimento de sustentabilidade, to em voga nos dias de hoje, incorpora teoricamente e sem grandes divergncias a noo de que o ser humano deve ser o personagem e beneficirio principal deste processo. No entanto, o capital no deixa de ser o centro das atenes na atividade econmica e o determinante das regras que se estabelecem nas suas relaes, comprometendo assim a afetividade e a solidariedade de ser humano. (MAIA, 2002, p. 8).

Com o objetivo de aprofundar o estudo da busca de boa performance de sistemas

econmicos, com estabilidade, dinamismo e igualitarismo, neste captulo sero tratados os

temas desenvolvimento local e endgeno, trazendo experincias de projetos construdos com

a premissa da cooperao e acmulo de capital social.

16

2.1 DESENVOLVIMENTO LOCAL E DESENVOLVIMENTO ENDGENO

Nas dcadas de 70 e 80, percebia-se que as condies originadas pela elevao

tecnolgica da produo e dos produtos exigiam que os produtores dispusessem de um maior

nvel de qualificao, e que esta qualificao acontecesse de forma constante. Passadas as

dcadas a homilia no mudou, apenas se adaptou: agora a palavra globalizao.

O processo de globalizao traduz-se por um aumento da concorrncia nos mercados,

o que implica a continuidade dos ajustes do sistema produtivo de pases, regies e cidades.

Dado que as empresas no competem de forma isolada, fazendo-o juntamente com o entorno

produtivo institucional do qual fazem parte, esse processo estimula a formao de uma nova

organizao do sistema de cidades e regies, de acordo com a nova diviso internacional do

trabalho (BARQUERO, 2001, p. 13).

Alm da globalizao, outro fator que obrigou um rearranjo na maneira de atuao das

regies e municpios foi a implantao, por parte dos governos, da ideologia neoliberal de

Estado mnimo que culminou com o enfraquecimento do Estado. Mesmo reconhecendo que o

governo local no dispe dos principais instrumentos tradicionais de poltica econmica, o

Estado foi dividindo o poder, fazendo com que a governana local passasse a liderar aes e

projetos, interagindo os diversos segmentos econmicos e sociais da cidade e/ou da regio.

O crescimento bem como o desenvolvimento da regio no est somente ligado

forma como so construdas as polticas, mas tambm ao grau de permissividade (liberdade)

que dado para a construo dessas polticas por parte do Estado. A democratizao da

elaborao de propostas e a inverso de prioridades (no sentido de recuperar infra-estrutura e

servios urbanos nos bairros mais carentes) so polticas necessrias para a qualificao da

vida, preparando um ambiente propcio para o desenvolvimento.

17

A poltica regional tradicional trabalha com uma viso calcada no modelo de

crescimento concentrado e prope contribuir para a distribuio territorial da renda e do

emprego mediante a aplicao de incentivos e a realizao de investimentos em infra-

estrutura. No sentido de polticas tradicionais, os keynesianos evocam que as aes de

demanda favorecem a redistribuio dos investimentos e da renda, agindo atravs da induo

do deslocamento de plantas e empresas para as zonas com problemas, enquanto os modelos

neoclssicos sustentam que as foras de mercado e a mobilidade dos fatores produtivos

permitem realizar uma correta alocao dos recursos, bem como promover os ajustes

necessrios e possveis; estes buscam dirimir obstculos que eliminam os fluxos de capital e

trabalho de um territrio para o outro.

Atualmente, a economia regional aponta para noes de intertemporalidade e de

irreversibilidade na trajetria do desenvolvimento econmico. Lembrando Schumpeter, o

passado influencia o presente e este influencia o futuro, e que as propriedades iniciais no

coincidem com as propriedades do tempo posterior, e assim sucessivamente, de tal forma que

a situao no tempo zero dificilmente ser recuperada no tempo posterior.

A nova forma de atuao da economia regional calcada na governana local, levou

estas instncias a terem que descobrir modos de se financiar, uma vez que no se verifica a

repetio ou a reproduo do paradigma keynesiano do desequilbrio fiscal, mesmo porque os

estados centrais vm praticando uma poltica rgida de controle da inflao, dentro da qual se

verifica uma forte restrio monetria-fiscal responsvel pelo enquadramento relativo dos

oramentos de todos os governos.

Amaral Filho (2001) destaca essa nova forma de atuao da seguinte maneira:

O novo papel do Estado no desenvolvimento local tem se balizado em um modo de interveno pragmtico, o qual no valoriza em absoluto o princpio neoliberal nem o princpio do dirigismo estatal. Quanto ao primeiro, no se aceita a crena cega de que o mercado e os preos so os nicos mecanismos de coordenao das aes dos agentes. Quanto ao

18

segundo, no se aceita o dirigismo generalista que leva burocracia pesada, hierarquia rgida e ao desperdcio financeiro. Questes como a descentralizao administrativa-fiscal-financeira entre as instncias de governo, a descentralizao produtiva-organizacional ocorrida no setor privado e o acirramento da concorrncia devido ao ambiente econmico aberto tm criado forte necessidade de se promover em nvel local um processo de aprendizagem sempre contnua e interativa entre os trabalhadores, entre estes e as empresas e entre os dois conjuntos e as instituies pblicas e privadas. Nesse caso, nem as foras do mercado nem o dirigismo estatal tm condies de proporcionar uma coordenao eficiente desse processo. (AMARAL FILHO, 2001, p. 7).

O financiamento desse novo papel deve ser conseguido atravs da gerao de

poupana pblica local e recuperao da capacidade de investimento, a fim de melhorar e

recuperar a infra-estrutura e de criar um efeito virtuoso sobre o emprego, produto e renda. Ao

gerar poupana prpria, ocorrer a atrao de parceiros para projetos de desenvolvimento.

A frmula de financiamento deve levar em conta a multiplicidade local, Llorens

(2002) faz uma classificao de vital importncia para a temtica do desenvolvimento local,

que a diferenciao precisa entre espao e territrio:

O conceito de espao como suporte geogrfico no qual se desenvolvem as atividades socioeconmicas costuma trazer implicitamente a idia de homogeneidade, e as preocupaes fundamentais a ele relacionadas referem-se distncia, aos custos de transporte, aglomerao de atividades ou polarizao do crescimento. Mas, a partir da perspectiva do desenvolvimento local e regional, interessa-nos basicamente outro conceito diferente, qual seja o de territrio, que compreende a heterogeneidade e a complexidade do mundo real, sua caractersticas ambientais especficas, os atores sociais e sua mobilizao em torno das diversas estratgias e projetos e a existncia e o acesso aos recursos estratgicos para o desenvolvimento produtivo e empresarial. Em sntese, em face do conceito de espao como contexto geogrfico dado, interessa-nos ressaltar o conceito de territrio como ator do desenvolvimento. (LLORENS, 2002, p. 111).

Mesmo com muitas caractersticas a serem exploradas, a teoria do desenvolvimento

local permite uma razovel compreenso dos processos de desenvolvimento espacial.

Diversos so os fatores que podem influenciar esse desenvolvimento, entre eles: as constantes

19

locacionais que determinam a estrutura espacial da economia; as economias de aglomerao,

tanto das famlias quanto das empresas; a inovao e o processo da sua difuso espacial; a

mobilidade dos fatores; e o investimento regional com o adequado reconhecimento dos

fatores de natureza social e polticos. O reconhecimento destes fatores de fundamental

importncia, uma vez que o desenvolvimento local est totalmente ligado organizao social

e s relaes cvicas, ou seja, quanto maior o civismo, maior o desenvolvimento econmico

e social.

A premissa que cada territrio gerencie internamente o capital social e capital

humano, uma vez que a poltica de desenvolvimento local, todavia, pretende superar os

desequilbrios atravs do fomento de todos os territrios com ou sem potencialidades de

desenvolvimento competitivo. Ou seja, ele capaz de tirar proveito do potencial de

desenvolvimento existente no territrio. O desenvolvimento da regio est relacionado aos

fatores sociais, ambientais e culturais da formao do territrio. Estes servem para avaliar a

organizao dos atores, bem como para decidir qual a dificuldade que primeiro deve ser

enfrentada. Com a organizao do sistema local, cria-se um ambiente favorvel gerao de

economia de escala e reduo dos custos de transao, assim como aos rendimentos

crescentes e ao crescimento econmico.

Diversos autores destacam a importncia do potencial existente no territrio, contudo

Moraes (2003) ressalta a importncia da participao da populao:

No ambiente do territrio onde interagem as organizaes comunitrias, as unidades empresariais, as redes de infra-estrutura e os intermedirios comerciais e financeiros. Isso exige o desenvolvimento de instituies que sejam democrticas, modernas, representativas, transparentes e competentes e que possibilitem o planejamento com participao da populao. Para isso, so necessrios mecanismos diferenciados de gesto, que articulem os governos e as instituies locais com a sociedade. (MORAES, 2003, p. 6).

No caso das estratgias de desenvolvimento local, o mecanismo dinamizador seria

representado pela resposta dos atores locais aos desafios colocados pelo aumento da

20

competitividade, o que desencadearia os processos de desenvolvimento endgeno. As

estratgias e as iniciativas de desenvolvimento local propem-se a estimular o surgimento e a

expanso das empresas locais e favorecer o desenvolvimento dos recursos especficos que

determinam a capacidade de atrao de empresas externas.

Restringindo ao lado comercial, ao considerar os nveis de densidade empresarial,

especializao produtiva e dinamismo econmico e social, Amaral Filho prope uma diviso

dos territrios em dois tipos: os com baixa densidade empresarial, baixa especializao

produtiva e baixo dinamismo econmico e social e os com alta densidade empresarial, alta

especializao produtiva e alto dinamismo econmico e social. O primeiro so aqueles que

caracterizam a maior parte do pas, seja na periferia dos grandes centros urbanos ou reas

metropolitanas, seja na periferia das cidades mdias, seja nos pequenos municpios. Nesse

tipo de territrio, uma agenda de aes focada no desenvolvimento local dever ter como

objetivo principal o incremento do protagonismo local, ou seja, a constituio e o

fortalecimento das redes de atores locais capazes de liderar o processo de mudanas.

O segundo so aqueles que caracterizam os Arranjos Produtivos Locais, quer dizer,

aglomerados de empresas localizados em um mesmo territrio, que apresentam

especializao produtiva e mantm vnculos de articulao, interao, cooperao e

aprendizagem entre si e com outros atores locais, tais como: governos, associaes

empresariais, instituies de crdito, ensino e pesquisa. Nesse tipo de territrio, uma agenda

de aes focada no desenvolvimento local dever ter como objetivo principal o incremento da

competitividade do APL. Trata-se, portanto, de implementar aes que busquem facilitar a

cooperao entre as empresas e ampliar sua capacidade de inovao e de agregao de valor

aos produtos.

Considerando os APLs como os centros dinmicos do desenvolvimento local,

podemos imaginar um processo continuado que comea na mobilizao dos territrios para o

21

desenvolvimento, atravs da construo de redes de atores locais, visando criao de

ambientes favorveis, at a constituio de redes de empresas, que resultar na elevao dos

nveis de adensamento empresarial, de especializao produtiva e de dinamismo econmico e

social dos territrios.

Outro aspecto muito relevante a conexo entre produtos locais e cultura local,

agregando valores intangveis, tais como tipicidade, singularidade e identidade territorial.

A poltica de desenvolvimento local tende a superar os desequilbrios atravs do

fomento de todos os territrios, constituindo-se num jogo de soma positiva, capaz de tirar

proveito do potencial de desenvolvimento existente no territrio. O mecanismo dinamizador

seria representado pela resposta dos atores locais aos desafios colocados pelo aumento da

competitividade.

Para Barquero, Desenvolvimento Econmico Local :

O processo de crescimento e mudana estrutural que ocorre em razo da transferncia de recursos das atividades tradicionais para as modernas, bem como pelo aproveitamento das economias externas e pela introduo de inovaes, determinando a elevao do bem-estar da populao de uma cidade ou regio. Este conceito est baseado na idia de que localidades e territrios dispem de recursos econmicos, humanos, institucionais e culturais, bem como de economias de escala no aproveitadas, que formam seu potencial de desenvolvimento. (BARQUERO, 2001, p. 57).

O desenvolvimento local leva em conta as caractersticas locais, seja fortalecendo,

descobrindo ou fomentando. No sentido do fortalecimento das caractersticas locais, e,

conseqentemente, do fortalecimento do capital social, acontece o desenvolvimento

endgeno.

Do ponto de vista regional, o conceito de desenvolvimento endgeno pode ser

entendido como um processo de crescimento econmico, implicando numa contnua

ampliao da capacidade de agregao de valor sobre a produo, bem como da capacidade

de absoro da regio, cujo desdobramento a reteno do excedente econmico gerado na

22

economia local e/ou a atrao de excedentes provenientes de outras regies. Este processo

tem como resultado a ampliao do emprego, do produto e da renda do local ou da regio.

O papel do desenvolvimento endgeno, segundo Barquero, o seguinte:

O desenvolvimento endgeno prope-se a atender s necessidades e demandas da populao local atravs da participao ativa da comunidade envolvida. Mais do que obter ganhos em termos da posio ocupada pelo sistema produtivo local na diviso internacional ou nacional do trabalho, o objetivo buscar o bem-estar econmico, social e cultural da comunidade local em seu conjunto. Alm de influenciar os aspectos produtivos (agrcolas, industriais e de servios), a estratgia de desenvolvimento procura tambm atuar sobre as dimenses sociais e culturais que afetam o bem-estar da sociedade. (BARQUERO, 2001, p. 39).

Barquero (2001) em sua obra destaca as razes tericas do desenvolvimento endgeno,

quais sejam: a grande teoria do desenvolvimento e os rendimentos crescentes; a teoria do

crescimento dualista6 e a acumulao de capital; a teoria da dependncia e o controle local do

desenvolvimento; e a teoria territorial do desenvolvimento.

A grande teoria do desenvolvimento constitui uma das referncias da teoria do

desenvolvimento endgeno. Compartilha dois princpios com ela: i) a existncia de

externalidades uma condio necessria para o desenvolvimento de uma cidade ou regio;

ii) a rede de empresas industriais d origem a uma multiplicidade de mercados internos e ,

portanto, geradora de economias externas.

6 O crescimento do setor moderno determinado pelo tamanho da populao e pela dimenso inicial de capital fixo. O crescimento econmico dependeria, em ltima anlise, dos fatores de produo e da mudana tecnolgica.

23

O desenvolvimento endgeno e o crescimento dualista assinalam que o processo de

industrializao est freqentemente associado existncia de uma cultura protoindustrial,

baseada em atividades artesanais e comerciais e na disponibilidade de poupana originria das

atividades agrcolas e comerciais. Reconhecem que as foras dinamizadoras do processo de

crescimento e de transformao estrutural das economias locais so os processos de

acumulao de capital e a mudana tecnolgica.

A teoria da dependncia e a teoria do desenvolvimento endgeno esto de acordo ao

considerarem que cada territrio tem uma trajetria econmica prpria e que nem todas as

regies se comportam, sempre, de modo inovador. Para que os sistemas produtivos locais

sejam inovadores, preciso que se mostrem capazes de introduzir e desenvolver novos

paradigmas no sistema produtivo local.

A teoria territorial do desenvolvimento e a teoria do desenvolvimento endgeno

compartilham dois princpios metodolgicos fundamentais: a mesma concepo do espao

econmico e a prioridade para aes vindas de baixo para cima nas polticas de

desenvolvimento. Consideram que o territrio no deve aceitar, de forma obrigatria, as

decises externas impostas pelas empresas globais, podendo responder estrategicamente a tais

desafios e tomar decises que busquem realizar seus prprios objetivos.

O desenvolvimento endgeno necessita da criao de um entorno institucional e

econmico favorvel, proporcionado pela conjugao do aproveitamento dos recursos e dos

servios locais, bem como da cooperao entre os atores; at porque estes possuem condies

de promover mudana de rota. Tal cooperao tambm significa acmulo de capital social, o

que, segundo Moraes (2003), significa relaes institucionalizadas na forma de normas ou

redes sociais. Ressalta-se assim a importncia do capital social para o desenvolvimento

endgeno.

24

No mago da teoria do desenvolvimento endgeno est o mecanismo de conexo entre

os atores, que se traduz no crescimento e na mudana estrutural da economia local. Este

mecanismo se reflete numa rede capaz de fazer uso de economias de escala que antes no

apareciam. Esta rede fruto de um territrio ativo, em que a participao ativa provoca uma

quebra de paradigma7, interagindo com o Estado na construo de polticas participativas,

provocando a mudana do jeito tradicional de atuar, em que se leva pronto o trabalho a ser

desenvolvido. O principal obstculo da poltica tradicional do Estado est centrada na

dificuldade de o poder pblico gerir a necessidade do territrio, pois, muitas vezes, os

engenheiros das aes no tm contato com a situao real. Outro fator positivo da maneira

participativa de atuar e fundamental o controle dos recursos pblicos, que se torna

transparente. Existe a necessidade de fomentar aes que demandem a participao popular,

pois atravs desta se consegue a endogeinizao do saber fazer, transformando a capacidade

de escolha dos seres.

2.2 UM PROJETO DE ENDOGEINIZAO

As aes para o desenvolvimento podem ser construdas de forma exgena ou

endgena, sendo exgenas aquelas que so impostas para a populao, enquanto que as

endgenas so as construdas em conjunto com a sociedade.

Entendendo a endogeinizao como forma solidria de se construir, Caldas e Martins

(2005) classificam-na como tentativa contra-hegemnica, uma vez que se rompe com o

modelo tradicional de propor aes; Caldas e Martins (2005) ressaltam tambm que

7 A quebra de paradigma refere-se ao rompimento com o modelo tradicional de se fazer poltica pblica, no qual os administradores pblicos no construam os projetos de atuao conjuntamente, ou, simplesmente, nem consultavam o pblico interessado.

25

experincias de baixo para cima criam potencial para que o efeito econmico se transforme

em um ciclo de crescimento que contrarie as lgicas da excluso.

As aes para o desenvolvimento construdas de forma endgena comeam a ocupar

espao destacado no portiflio de polticas brasileiras; trabalhadas fragmentadamente, uma

gama delas alcanaram xito. Algumas dessas aes endgenas foram construdas e

desenvolvidas no Rio Grande do Sul, entre elas: as Redes de Cooperao e o Urbanizador

Social8.

2.2.1 Atuao em rede: uma experincia com as redes de cooperao

Os mercados no funcionam com a perfeio e o equilbrio das formulaes tericas.

A prpria teoria neoclssica da microeconomia reconhece as imperfeies e as remete para as

falhas de mercado ou para interferncias institucionais governos, sobretudo a

responsabilidade pelo desequilbrio entre oferta e demanda ou pela ineficincia alocativa.

Relacionada s falhas de mercado, ou como uma das principais responsveis pelos

desequilbrios, est a assimetria de informaes, segundo as abordagens mais recentes. A

teoria microeconmica neoclssica coloca a perfeita disponibilidade de informaes entre

todos os agentes como um dos pressupostos centrais para a eficincia alocativa e o equilbrio

no mercado concorrencial. No entanto, a teoria moderna reconhece que os agentes possuem

acesso a informaes distintas e que, portanto, atuam com distintas possibilidades de ganhos,

o que, por sua vez, coloca em xeque a eficincia alocativa.

Pode-se destacar um movimento na economia mundial onde o Brasil emblemtico

em ambos que vem abrindo espao para o avano da regulao dos mercados. Diz

8 Este ltimo ser abordado no prximo captulo quando ser trabalhada a excluso social.

26

respeito crescente concentrao da produo em grandes firmas ou grupos econmicos.

Embora este movimento acompanhe o capitalismo desde seu surgimento, vem adquirindo

propores significativas, sobretudo quando se trata de mercados nacionais especficos. O fato

que esta concentrao confere elevado poder de mercado a determinadas firmas, tendo como

conseqncia uma distribuio dos recursos favorveis a tais firmas em detrimento do restante

da sociedade. A reao a este movimento dada por polticas de defesa da concorrncia ou

legislaes anti-trustes.

Um dos pontos centrais da teoria do desenvolvimento endgeno reside no fato de os

sistemas de empresas locais e as relaes entre as empresas parceiras formarem um dos

mecanismos atravs dos quais se produzem os processos de crescimento e mudana estrutural

nas economias locais e regionais. Pode haver rendimentos crescentes quando as relaes e a

interao entre empresas possibilitam fazer uso das economias de escala ocultas nos sistemas

produtivos e nos centros urbanos, o que configura um dos potenciais do desenvolvimento

econmico local.

A questo gira em torno, portanto, da forma de organizao das empresas locais, s

quais pode ser aplicada a noo de rede, j que esta uma imagem das relaes entre

empresrios e empresas. As pesquisas sobre a capacidade empresarial e as pequenas e mdias

empresas, por um lado, e sobre a organizao da produo e os mercados, por outro, deram ao

conceito de rede um valor analtico que transcende a simples imagem, convertendo os

modelos de rede em um instrumento til para explicar fenmenos como a dinmica das

organizaes empresariais e dos sistemas produtivos locais.

Barquero (2001), em sua obra Desenvolvimento Endgeno em Tempos de

Globalizao, atenta para uma variedade de redes.

A atividade econmica, social e institucional est baseada nas relaes entre indivduos, empresas e organizaes, razo pela qual pode ser identificada uma grande variedade de redes. Assim, existem as redes

27

pessoais e as redes que as empresas estabelecem com os agentes do entorno prximo e que se caracterizam por apresentar relaes informais ou, mais precisamente, casuais e, s vezes, comerciais. Os sistemas produtivos locais, por outro lado, constituem um tipo especial de rede, marcado pelo forte enraizamento no territrio e pela manuteno de relaes comerciais baseadas sobretudo na confiana. Alm disso, nas ltimas dcadas, proliferaram os acordos e as alianas entre empresas cujas relaes se distinguem por ter um carter contratual. (BARQUERO, 2001, p. 98).

Uma rede pode ser definida como o sistema de relaes e/ou de contatos que vinculam

as empresas e/ou os atores entre si e cujo contedo est relacionado a bens materiais,

informao ou tecnologia. Na tica da atividade econmica, ela seria constituda pelas

relaes entre empresas ou entre empresrios que tornam possveis as trocas de bens e

servios ou de informaes que incorporam conhecimentos (MALECKI e TOOTLE, 1996

citado por BARQUERO, 2001, p. 103).

Qualquer que seja a definio adotada, as relaes entre empresas e/ou atores

apresentam: transaes em um contexto de reciprocidade; relaes de interdependncia (e no

de independncia, como no mercado, ou de dependncia, como nas empresas e organizaes

hierarquizadas); sistema de interconexes mltiplas; acesso informao, na aprendizagem

interativa e na difuso da inovao; e assimetria, podendo converter-se em um elemento do

funcionamento da rede.

As redes podem ser muito diferentes, motivo pelo qual preciso, para bem definir seu

contedo e significado, caracteriz-las em funo do tipo de relaes que se estabelecem entre

as empresas e/ou os atores (MONSTED, 1995, citado por BARQUERO, 2001, p. 100).

As relaes podem ser formais, isto , explcitas e obedecendo a decises associadas a

objetivos estratgicos das pessoas ou organizaes, ou informais, isto , tcitas e espontneas,

dependendo, ento, dos contatos pessoais entre atores e empresas. As primeiras marcariam as

relaes com organizaes como bancos ou empresas de servios, enquanto as segundas

28

indicariam aquelas de carter casual mantidas com familiares, amigos, companheiros ou

antigos empregados.

Quando se trata de empresas, as redes podem referir-se tambm a transaes

comerciais, ou seja, a trocas de bens e servios que permitem aos gestores se relacionarem

com fornecedores e clientes. Podem, ainda, reportar-se a relaes tcnicas baseadas no

intercmbio de informao codificada referente a aplicaes tecnolgicas ou a inovaes de

produtos, processos, organizao e mercado. Dado que estas ltimas esto vinculadas a

culturas tcnicas, os contatos e relaes obedecem s regras especficas que regem os laos

profissionais e pessoais.

Todavia, na tica do desenvolvimento econmico e da atividade empresarial,

importante estabelecer, em termos concretos, a distino entre redes pessoais e redes de

empresas. As primeiras fornecem informao e, eventualmente, proporcionam os recursos

necessrios formao e operao inicial de uma empresa, colaborando, tambm, para as

trocas de bens e de conhecimentos nos sistemas produtivos locais. As redes de empresas, por

seu turno, contribuem com informaes sobre negcios, assessoramento tcnico, recursos

financeiros e materiais e, inclusive, permitem firmar alianas estratgicas visando enfrentar

outras empresas e grupos rivais.

Nas redes de empresas, diferentemente do que ocorre no caso das redes pessoais, as

atividades e recursos desempenham um papel central; a que se estabelecem as relaes de

interdependncia, no sentido de os resultados de cada atividade da rede afetarem os das

demais. Ainda que as mudanas nas atividades costumem ser lentas, uma questo estratgica

acompanhar suas transformaes, j que isso contribui para o ajuste e a adaptao no interior

da rede. Quando os atores controlam as atividades e os recursos de uma rede, esto,

indiretamente, exercendo influncia (e eventualmente poder), atravs das interdependncias

existentes, sobre os demais atos.

29

As redes mantm uma forte dinmica interna, como decorrncia das relaes

econmicas determinadas pelos intercmbios entre atividades e em funo do carter aberto

do sistema, o que gera sua progressiva reorganizao e, assim, a alterao de suas estruturas.

Uma vez que as mudanas se do de forma lenta, as redes gozam de uma certa estabilidade,

possibilitando que as empresas atendam s demandas oriundas dos mercados e se adaptem s

condies de negcios em progressiva transformao.

O comportamento diferenciado dos agentes dentro da rede estabelece relaes internas

de poder, que marcam a dinmica da prpria rede e a sua eficincia.

A formao e expanso de redes de empresas ocupam uma posio central nos

processos de desenvolvimento endgeno, uma vez que so assim condicionados o surgimento

e o crescimento das empresas, a difuso das inovaes e, em ltima anlise, o prprio

processo de mudana estrutural.

Em resumo, conforme haviam j antecipado Rosenstein-Rodan e Hirschman, as

relaes entre empresas contribuem para a troca de produtos e servios entre as mesmas, bem

como de conhecimentos tecnolgicos e de pautas de comportamento. As redes de empresas,

com base na confiana mtua, estimulam a interao entre empresas e empresrios, o que

permite fazer aflorar as economias externas ocultas.

Em funo das transaes econmicas entre empresas, dos intercmbios formais e

informais de informaes no interior da rede e dos processos coletivos de difuso das

inovaes tecnolgicas, podem ser gerados rendimentos crescentes nas economias locais, bem

como economia de escopo, o que reforaria os processos de crescimento e de mudana

estrutural.

No h propriamente uma nova teoria do Estado que tenha sido produzida para se

adaptar s novas formas de organizao; no entanto, h novas interpretaes para as funes

30

do Estado, tendo em vista sua segmentao e as parcerias estabelecidas entre o Estado e a

sociedade. Um dos elementos centrais das novas funes a nfase na economia local com

aes coletivas, sendo estas desenvolvidas com eficincia se forem institucionalizadas.

No Brasil, a Constituio Federal transfere Unio e aos estados o papel de gerar o

desenvolvimento econmico, destinando primeira as melhores ferramentas um exemplo

eficaz so os instrumentos de polticas macroeconmicas. No entanto, a proximidade com o

pblico-alvo faz com que os municpios sejam entes capazes e eficazes nas polticas de

desenvolvimento. Tirando proveito dessa caracterstica, cabe aos municpios o fomento dos

setores produtivos com a articulao das instituies de ensino e pesquisa, das entidades de

trabalhadores, das entidades de empresas, das associaes de bairros e de todos os fatores que

potencializem o desenvolvimento local.

Contudo, para que tais aes tenham sucesso, necessrio propiciar um ambiente

favorvel ao desenvolvimento do municpio, seja atravs de obras de infra-estrutura, da

qualificao do ensino e da cidadania e, fundamentalmente, de aes empreendidas no campo

tecnolgico.

Seguindo essa linha, em 1994 o municpio de Porto Alegre lanou o Plano de

Desenvolvimento Econmico PDE9, o qual sistematizou as aes no campo do

desenvolvimento e orientou as iniciativas dos vrios rgos municipais; tendo entre os

projetos a experincia exitosa das Redes de Cooperao.

O projeto Redes de Cooperao Porto Alegre tinha como meta promover o

desenvolvimento local a partir da ampliao do potencial competitivo sistmico do micro,

pequeno e mdio empreendimento, atravs de estratgias conjuntas e da colaborao mtua

9 O Plano traou como objetivo o fortalecimento da economia local, possibilitando o conseqente fortalecimento das empresas locais, para, assim, diminuir as taxas de mortalidade empresarial e, ainda, gerar emprego e renda.

31

entre empresas e outras instituies, permitindo um ganho de escala produtiva entre as

empresas envolvidas, a incorporao de novas tecnologias e a utilizao de mecanismos de

mercado, que, at ento, estavam disponveis somente para as empresas de maior porte.

O projeto tinha como premissa parceria com universidades, contava com uma

metodologia capaz de organizar as empresas setorialmente, desenvolvendo mecanismos de

cooperao. Dessa forma, as empresas passavam a se articular em redes, mantendo a

individualidade dos empreendimentos.

Atravs dessa organizao, negociavam a compra de mercadorias e insumos em

conjunto, compartilhavam o marketing, absorviam novas tecnologias e inseriam-se no

mercado com maior competitividade.

A sistematizao do Projeto deu-se da seguinte forma: o Municpio colocava

disposio dos empresrios uma consultoria pblica que objetivava a formao da rede. Essa

consultoria implementava uma metodologia que envolvia a sensibilizao dos setores

econmicos para a formao das redes, a implementao dos instrumentos jurdicos

necessrios, a mediao dos conflitos internos e o planejamento estratgico. O Programa

oferecia tambm um conjunto de horas tcnicas de cursos gerenciais e especficos, em que

cada rede, juntamente com o consultor, escolhia o curso de acordo com as suas necessidades.

Os segmentos trabalhados obtiveram ganhos significativos, dentre os quais se

destacam a incorporao de novas tecnologias, a negociao em condies mais vantajosas, a

organizao da gesto e a realizao de novos investimentos, oportunizando empresa a

incorporao ao mercado de forma mais competitiva.

32

A cooperao o grande fator responsvel pelo sucesso do projeto: atravs dela

rompe-se a barreira da concorrncia10 e passa a ocorrer um relacionamento de parceiros

estratgicos. Segundo Mance (2001), trata-se de uma articulao entre diversas unidades que,

atravs de certas ligaes, trocam elementos entre si, fortalecendo-se reciprocamente. Para

Coutinho (1995) a cooperao uma maneira inovadora de lidar com as imperfeies de

mercado.

Hoje em dia, cada vez mais, surge a necessidade das empresas reagirem s novidades e

mudanas; e as redes de empresas so um modelo de organizao antiga utilizada com

sucesso na Emlia Romagna (Itlia), no Vale do Silcio (Estados Unidos), na Comunidade

Valenciana (Espanha), em Bento Gonalves (Rio Grande do Sul) e outras localidades que

vem conseguindo dar resposta a essas necessidades.

Inmeras so as barreiras a serem transpostas pelas empresas para se organizarem em

rede, entre elas: o paradigma da concorrncia, a falta de oportunidade de encontro entre

empresas do mesmo setor e a incerteza quanto s atitudes do outro possvel associado.

A experincia municipal se reproduziu em nvel estadual, sendo que se optou por

parceria com universidades, buscando respeitar as caractersticas locais; promovendo a

transferncia de conhecimento na expectativa de estar fomentando o desenvolvimento local.

A iniciativa que ora foi concebida em Porto Alegre, ora no Estado do Rio Grande do

Sul caberia perfeitamente ser desenvolvida por sindicatos, organizaes empresariais e outros.

Mais do que organizar uma rede, fundamental perceber que a metodologia utilizada

em sua estruturao a essncia das relaes humanas, quando se tira espao do

10 Pode ser chamado tambm de paradigma da concorrncia; antes as empresas se viam como concorrentes e agora tm que se ver como parceiras.

33

individualismo para se destacar o altrusmo. Acredita-se, ento, que o desenvolvimento

econmico e social passa por esse tipo de organizao.

3 EXCLUSO SOCIAL

A fragilidade na relao entre os indivduos faz com que as diferenas sociais,

culturais e econmicas se transformem num abismo capaz de separ-los. A tendncia

brasileira aponta uma crescente diferena econmica entre os mais ricos e o restante da

populao. Essa se reflete ou reflexo na formao social e cultural, causando

desconexes nos relacionamentos.

Com poucas pessoas se apropriando de grande parte da renda nacional, surgem menos

oportunidades para o restante da populao. O resultado disso o aumento do nmero de

pessoas excludas socialmente, no conseguindo suprir a demanda diria de suas necessidades

vitais.

Segundo Comim, a privao de necessidades bsicas um fenmeno

multidimensional e diverso que envolve aspectos absolutos e relativos e que pode ser

encarado como privao de liberdade.

Os indicadores de apropriao pessoal da renda demonstram que no incio da dcada

de 60, quando o pas j vivia plenamente seu processo de industrializao, o primeiro decil

mais rico da populao concentrava praticamente 40% do total da renda interna. Trinta anos

depois, num crescimento constante, os 10% mais ricos concentravam praticamente metade da

renda do pas. Movimento inverso acontece com setores mais pobres, onde, agora focando os

50% mais pobres da populao, estes reduziram sua participao de forma gradativa dos 17%

em 1960 para apenas 11% em 1990. A distribuio medida pelo ndice de Gini demonstra

exatamente o mesmo movimento. H uma maior concentrao a cada dcada. A tabela abaixo

demonstra o constante agravamento da distribuio de renda.

35

Tabela 1 Distribuio da renda da populao economicamente ativa Distribuio de Rendimento da Populao Econmicamente Ativa

Brasil 1960-1990 (%) Percentil

Ano 10% + ricos 50% + pobres ndice

de Gini 1960 39,6 17,4 0,50 1970 46,5 15,1 0,56 1980 47,9 14,1 0,59 1990 49,7 11,2 0,63

Fonte: Caciamali, 2003.

Utilizando-se os dados do Atlas de Desenvolvimento Humano, que calcula o ndice de

Desenvolvimento Humano do Brasil e o ndice de Gini para os anos de 1991 e 2000, notam-se

as mesmas tendncias. O ndice de Gini passou de 0,63 para 0,65, indicando maior

concentrao da renda no perodo. Nas parcelas de renda apropriadas pelos decis mais pobres,

verifica-se reduo em todas as faixas at os 80% mais pobres. Conseqentemente, os 20%

mais ricos ganharam em participao.

Tabela 2 Percentagem da renda apropriada e ndice de Gini Percentagem da Renda Apropriada por Faixas da Populao e ndice de GINI

Brasil 1991/2000

1991 2000 20% + Pobres 1,9 1,5 40% + Pobres 6,7 6,36 60% + Pobres 15,72 15,35 80% + Pobres 32,89 31,94 20% + Ricos 67,11 68,06 10% + Ricos 50,99 52,36 ndice de Gini 0,63 0,65

Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano, 2000.

Amartya Sen (2000) em seu livro Desenvolvimento como Liberdade atenta para o

desenvolvimento como um processo essencialmente amigvel e pode ser exemplificado

por coisas como trocas benficas, ou pelo trabalho de redes de segurana social, ou por

liberdades polticas ou por desenvolvimento social ou uma ou outra combinao destas

atividades de apoio. Segundo Sen (2000, p. 54), a eficcia da liberdade como instrumento

36

reside no fato de que diferentes tipos de liberdade apresentam inter-relaes, e um tipo de

liberdade pode contribuir imensamente para promover a liberdade de outros tipos.

Existe o total encadeamento entre as liberdades instrumentais de Sen: liberdades

polticas, facilidades econmicas, oportunidades sociais, garantias de transparncia e

segurana protetora. As oportunidades sociais so as responsveis pela formao do ser

humano, e atravs delas que, por exemplo, se tem direito sade e educao. medida

que o cidado consegue ter acesso a um sistema de sade, e, conseqentemente, tem uma

qualidade de vida melhor, pelo menos no que tange sade, passa a ter condies de buscar

uma melhora ainda maior nas suas condies de sobrevivncia. Com a educao acontece

semelhante sade, uma vez que as pessoas que tm acesso educao possuem totais

condies de se desenvolverem plenamente, e, principalmente, atingir outras liberdades

instrumentais.

Totalmente ligada s oportunidades sociais esto as liberdades polticas e as

facilidades econmicas. Atravs de uma educao forte que se consegue elementos para se

conquistar uma conscincia poltica, pois aqueles que no tiveram acesso educao

dificilmente tero condies de discernir, por exemplo, entre duas propostas polticas.

O acesso s facilidades econmicas talvez seja a liberdade mais difcil de ser

alcanada; por outro lado, pode ser considerada a mais difcil de se perder. As pessoas que

possuem condies econmicas favorveis desfrutam das facilidades, uma vez que tiveram as

oportunidades sociais, fazendo, assim, com que haja uma espcie de perpetuao das

facilidades econmicas.

As garantias de transparncia se relacionam diretamente com um grupo formado pelas

oportunidades sociais, liberdades polticas e facilidades econmicas, pois a organicidade deste

grupo gerar as garantias de transparncia, sendo que a relao mais forte dentro do grupo

est com as oportunidades sociais, as quais so a base de toda a estruturao.

37

A segurana protetora a liberdade instrumental que ampara o grupo formado pelas

oportunidades sociais, liberdade poltica e facilidades econmicas, ou seja, aqueles que no

acessaram as liberdades deste grupo, ou que at mesmo ficaram margem de acessar,

carecem da segurana protetora.

3.1 EXCLUSO DO ACESSO MORADIA: UM PANORAMA DO CENRIO

BRASILEIRO

A segurana protetora de Sen no reproduzida no Brasil, onde milhes de famlias

encontram-se excludas do acesso moradia digna e de adequadas condies de

habitabilidade. As cidades cada vez mais retratam e reproduzem um modelo excludente de

apropriao e consumo do espao urbanizado que se materializa num padro informal, carente

e perifrico de ocupao territorial. O aprofundamento da segregao e excluso scio-

territorial, a degradao do ambiente, os assentamentos precrios so caractersticas do

modelo de urbanizao brasileiro.

O Brasil experimentou ao longo do sculo XX um processo de crescimento

populacional e de urbanizao excepcional: de 1960 a 1980, a populao brasileira aumentou

em mais de 50 milhes de habitantes, o que equivale populao de um pas como a Frana.

Em 1940, cerca de 31% da populao morava nas cidades, em 1980, cerca de 68% e chega-se

ao final do sculo com taxas de aproximadamente 82% de urbanizao. Esta concentrao

urbana imps enormes desafios s estruturas das cidades que foram crescendo em um ritmo

muito alm daquele que eram capazes de assimilar e, assim, foram ficando deficitrias em

termos de infra-estrutura, de oferta de servios e de moradia. Este processo de urbanizao

no se deu, contudo, de forma linear e nem tampouco o foram as concepes de polticas

38

urbana e de moradia. Estas refletiram, ao longo da histria, no s as especificidades dos

problemas das cidades, mas tambm as distintas concepes scio-polticas dos sucessivos

governos e a condio econmica do pas.

Ampliar o conhecimento sobre a realidade condio necessria para conferir maior

eficcia s polticas, pois subsidia tanto o momento de tomada de deciso como a avaliao

dos seus resultados. Dessa forma, identificar o dficit habitacional sempre foi um desafio.

Ainda que se reconhecesse a gravidade do problema, os nmeros apresentavam enormes

discrepncias, conforme a metodologia de clculo utilizada. O estudo realizado pela Fundao

Joo Pinheiro11 em 1995, ao estabelecer indicadores sobre a situao habitacional em 1991

para o pas, regies, unidades da federao e regies metropolitanas utilizando os dados do

IBGE/PNAD, tornou-se referncia nacional, avanando no debate. Introduz os conceitos de

inadequao da moradia, demanda demogrfica e de necessidades habitacionais

quadro mais abrangente que engloba o dficit, a demanda demogrfica e a inadequao. Por

dficit habitacional se entende a necessidade de construo de novas moradias devido

necessidade de reposio total das unidades precrias e pela demanda reprimida. A demanda

demogrfica refere-se necessidade de novas unidades decorrentes do crescimento

demogrfico. A inadequao das moradias reflete problemas na qualidade de vida dos

moradores, referindo-se a um estoque existente mas que apresenta problemas de carncia de

infra-estrutura, adensamento e comprometimento excessivo da renda familiar com o aluguel.

Alguns indicadores dos estudos realizados pela Fundao Joo Pinheiro permitem uma

breve visualizao do quadro de necessidades habitacionais no mbito nacional e apontam

algumas tendncias:

11 A Fundao Joo Pinheiro uma entidade do Governo de Minas Gerais, voltada para a realizao de projetos de pesquisa aplicada, consultorias, desenvolvimento de recursos humanos e aes de apoio tcnico ao Sistema Estadual de Planejamento e demais sistemas operacionais de Minas, nas reas da administrao pblica e privada, economia, estudos histricos, culturais, municipais e poltico-sociais.

39

- O dficit habitacional ajustado12 de 2000 permitiu a comparao com o dficit

de 1991. A demanda por novas moradias no perodo sofre um acrscimo de 21,7%

chegando a 6.539.528 moradias. A taxa de crescimento de 2,2% ao ano e que, segundo os

dados, advm da elevao dos ndices de urbanizao, aponta uma diminuio do

problema na rea rural. Ainda por esta comparao, verifica-se o aumento do dficit

absoluto em todas as regies, mantendo-se o acrscimo nas reas urbanas e uma retrao

nas reas rurais;

- O dficit habitacional bsico13 (no inclui nus excessivo com aluguel e

depreciao) foi calculado em 5.890.139 unidades para 2000. Mais de 70% se localiza em

reas urbanas. As regies metropolitanas concentram 43,3% deste dficit. O dficit bsico

na rea rural de 1.750.005 moradias e predomina (71,5%) nos municpios com menos de

20.000 habitantes. O dficit habitacional total14 de 7.222.645 unidades habitacionais.

- Em nmeros absolutos, o dficit habitacional bsico se concentra nas regies

Sudeste com 1.660.600 unidades habitacionais, predominantemente na rea urbana; e na

Nordeste com 2.515.163 unidades, 1.039.640 destas na rea rural.

- Em relao aos componentes do dficit habitacional bsico, na rea urbana

predomina a coabitao com 3.239.441 unidades; os domiclios rsticos so a segunda

maior incidncia 1.879.015 unidades com forte concentrao na rea rural; 76,1% do

dficit correspondente coabitao familiar e domiclios improvisados, esto na faixa de

renda mensal at trs salrios mnimos.

12 O estudo tratou de uniformizar as metodologias utilizadas nos dois momentos com o dficit sendo definido como a soma da coabitao familiar, das habitaes precrias e do nus excessivo com aluguel. (Info-Dficit) 13 O dficit habitacional bsico refere-se ao somatrio dos totais referentes coabitao familiar, domiclios improvisados e domiclios rsticos. 14 Agrega-se ao dficit bsico as estimativas referentes ao nus excessivo com aluguel e depreciao.

40

- Quanto inadequao da moradia, correspondem aos critrios de inadequao

fundiria: 2.173.068 unidades; adensamento excessivo: 2.839.170; domiclio sem

banheiro: 3.215.997; e carncia de infra-estrutura (em um ou mais itens): 11.992.535.

- A inadequao fundiria corresponde a 5,8% dos domiclios urbanos e

localiza-se em grande parte nas regies metropolitanas (55,1%). O adensamento excessivo

se concentra na regio Sudeste. Os domiclios sem banheiro concentram-se nas regies

Norte e Nordeste.

- Em paralelo, verifica-se a existncia de um grande nmero de domiclios vagos

que podem ser considerados como estoque disponvel ainda que no classificados

quanto sua potencialidade de abarcar o dficit15. Em nmeros absolutos se chega a

6.029.756 unidades, sendo que a grande maioria localiza-se em territrio urbano

(4.580.147 unidades contra 1.449.609 em territrio rural) e mais de 80% localiza-se nas

regies metropolitanas e nas reas urbanas de mais de 20.000 habitantes. A maior

concentrao est nas Regies Metropolitanas da regio Sudeste, justamente onde se

encontra um maior dficit.

A distribuio espacial da populao pelo territrio tem por base as diferentes

realidades econmicas e sociais e estgios de desenvolvimento. Segundo o que o prprio

estudo da Fundao Joo Pinheiro aponta, a Regio Sul possui os ndices de qualidade de

vida mais altos, a Regio Sudeste com o maior desenvolvimento econmico concentra grande

parcela da populao, a Centro-Oeste e a Norte apresentam caractersticas fsico-ambientais

prprias, e a Nordeste historicamente caracteriza-se por nveis mais baixos de renda e

grande evaso da populao (FJP, 2005).

15 A Fundao Joo Pinheiro refere a necessidade de tal identificao uma vez que os dados do censo registram as unidades no ocupadas poca do recenseamento os domiclios vagos, de uso ocasional e fechados sem diferenciao.

41

O quadro das necessidades habitacionais sinteticamente descrito guarda um nexo

expressivo com o processo de urbanizao brasileiro, origem de seu acirramento. O

crescimento populacional e as altas taxas de urbanizao, correlacionados ao processo de

concentrao de renda e da propriedade da terra, estabeleceram o quadro que deu a base para

a problemtica habitacional que se verifica nos municpios brasileiros. Entender hoje este

quadro requer tambm entender a situao urbana brasileira.

Dentro da tica de formao do territrio, Maricato (2001) ressalta que a transio da

base da economia brasileira de rural para urbana gerou uma urbanizao totalmente

desorganizada, que culminou com a ocupao de cidades totalmente despreparadas para

receber tal demanda.

Fruto de construes histricas diferentes, as regies brasileiras resultaram em

potencialidades econmicas distintas, fazendo com que a organizao do espao territorial

fosse marcada por caractersticas peculiares. Os problemas de acesso, no somente ao solo,

mas tambm s necessidades bsicas para a vida, so mais expressivas no norte do que no sul

do Brasil, ou ainda, so maiores no nordeste do que no sudeste, porm no possvel se

estabelecer relaes diretas sem avaliar conjuntamente a trajetria histrica. Entretanto, a

nica afirmao possvel de se fazer que todas as regies esto de uma maneira ou outra

excludas, seja do acesso educao, moradia ou sade. Contudo, no existe mais ou

menos excludo, existe excludo.

Alm da excluso no que tange a uma moradia digna, conforme demonstrado atravs

dos nmeros apresentados, existe um outro tipo de excluso provocada pela falta de acesso

daqueles que de alguma forma conseguiram uma moradia, mas que devido localizao da

mesma passam a ter dificuldades para estudar e acessar, por exemplo, postos de sade, no

possuindo muitas vezes gua, rede de esgoto e at energia eltrica. Esta excluso, conhecida

como excluso cidade, reflete a problemtica da localizao das camadas mais pobres da

42

populao nas grandes cidades. Cabe ao preo da terra16 o papel de grande vilo, uma vez que

este tende a ser mais elevado nos lugares melhores servidos por facilidades17, sobrando as

periferias para os pobres.

3.2 GERANDO DESENVOLVIMENTO ENDGENO: O PROJETO URBANIZADOR

SOCIAL

A cidade de Porto Alegre no foge realidade da maioria das grandes cidades

brasileiras ou latino-americanas. Com um quadro scio-econmico de crescente

impossibilidade de acesso a uma moradia adequada por parcelas significativas da populao,

as cidades se espacializam divididas e dividindo seus habitantes. A cidade legal e a cidade

informal convivem lado a lado, decorrentes de um nico modo de produo. Nos territrios

ditos legais, fruto de um processo de produo que atende a normativa urbanstica que

resulta na adequada estruturao urbana, temos a garantia do exerccio cidadania plena de

seus moradores, direitos assegurados. Nos demais territrios, resultantes desta conformao

excludente da produo do espao, os territrios irregulares e desestruturados, prevalece a

absoluta precariedade ambiental e urbana, conferindo a seus moradores a situao de excluso

do direito cidade.

O processo praticamente o mesmo em toda cidade: uma produo privada

direcionada a um mercado cada vez mais elitizado e excludente das camadas populares; a

insuficincia dos recursos pblicos para o provimento da moradia destes setores; e a

impossibilidade de acesso a linhas de financiamentos para aquisio da moradia por parte

16 Atualmente existem instrumentos urbansticos e jurdicos estabelecidos pela lei conhecida como Estatuto das Cidades que permite um controle do preo do solo. 17 Facilidades um termo utilizado no estudo da economia urbana que tem como objetivo definir acesso a alguns lugares, tais como: bancos, escolas, supermercados, creches, praas etc..

43

desta populao. O resultado a irregularidade e clandestinidade respostas, solues

alternativas que a populao encontra para este no atendimento dentro da produo regular

do espao urbano. Como conseqncia, tem-se a baixa qualidade dos assentamentos e

loteamentos irregulares quanto moradia, infra-estrutura e localizao, e o nus para a

cidade, da periferizao das redes de servios pblicos, das situaes de risco e da degradao

ambiental.

A origem da irregularidade costuma ser apontada como decorrente da pobreza e da

dificuldade de acesso ao mercado formal de terras por grandes parcelas da populao; das

exigncias da normativa urbanstica cujas regras e padres de ocupao do solo acabam sendo

estabelecidos a partir de um padro elitizado correspondente s minorias dos habitantes da

cidade; e da prpria omisso do poder pblico no controle desta irregularidade posto que no

consegue promover alternativas mais viveis.

Em resposta a essas formas de excluso surgiu em Porto Alegre o Urbanizador Social,

utilizado como ferramenta para consagrar uma nova ordem jurdica estabelecida pelo Estatuto

da Cidade18. O Urbanizador Social revela novos caminhos com vistas constituio de

processos de desenvolvimento sustentveis e socialmente mais justos, superando prticas

como os programas tradicionais de subsdios e/ou curativos de regularizao que, em ltima

anlise, se revelaram como re-alimentadoras do ciclo vicioso da irregularidade.

18 O Estatuto da Cidade (tambm conhecido como Estatuto das Cidades) a denominao oficial e consagrada da lei 10.257 de 10 de julho de 2001, responsvel pela regulamentao do desenvolvimento urbano no Brasil. O Estatuto da Cidade responsvel por regulamentar e definir instrumentos propcios efetivao das diretrizes encontradas no captulo sobre Poltica Urbana da Constituio Federal de 1988. O Estatuto da Cidade surgiu como projeto de lei em 1990, proposto pelo ento senador Pompeu de Souza, tendo sido aprovado apenas em 2001, onze anos depois. Tem como objetivo integrar planejamento, gesto e participao social; reconhece a cidade real trabalhando para legaliz-la; reconhece ainda que a cidade produzida por multiplicidade de agentes que devem ter regras pactuadas para uma ao coordenada.

44

Regulamentado atravs da Lei Municipal n 9.162/03, o Urbanizador Social oferece

um conjunto de mecanismos que conferem populao e ao poder pblico municipal maior

capacidade de gesto no uso e ocupao do solo urbano, estabelecendo procedimentos legais

para viabilizar a ao em parceria com o setor privado, com o objetivo de ampliar a oferta de

Habitao de Interesse Social19 HIS e adequar a produo habitacional capacidade

aquisitiva daquela parcela da demanda usualmente no atendida pelo mercado.

O instrumento foi institudo pelo PDDUA, na estratgia de Produo da Cidade, e traz

como princpios o reconhecimento e a necessria regulao e qualificao da capacidade de

produo habitacional dos setores informais, bem como a induo maior diversidade na

produo regular de habitao visando ao atendimento das camadas de menor renda.

Estudos internos da Secretaria de Planejamento Municipal (SPM) indicavam em 2002

que cerca de 28% da populao de Porto Alegre morava em vilas e loteamentos irregulares.

Caracterizavam, tambm, uma cidade que cresce a uma taxa de menos de 1% ao ano,

pequena, mas que tem no crescimento da irregularidade seu grande desafio. Durante a

elaborao do PDDUA os estudos da SPM identificaram que este crescimento se dava na

relao de quase trs vezes o crescimento regular da cidade, tensionando sobre as reas de

preservao do ambiente natural e de uso rural. Na caracterizao do mercado imobilirio era

identificado, neste mesmo estudo, que 54% das unidades habitacionais eram produzidas pelo

mercado imobilirio formal para atendimento da demanda com rendimentos acima de 1.000

dlares; os 46% restantes eram produzidos pelo setor pblico e privado com predominncia

da produo irregular e clandestina no atendimento populao com rendimentos abaixo dos

1.000 dlares, posto que apenas 15% desta parcela se fazia via mercado formal.

19 Habitao de Interesse Social - HIS a habitao destinada a famlias com renda igual ou inferior a 5 (cinco) salrios mnimos.

45

Durante o processo de formulao do atual Plano Diretor, a forma como se produziu

este quadro de irregularidade passa a ser compreendida como desafio no planejamento e

gesto do uso e ocupao do solo urbano, colocando a questo da produo da moradia

vinculada s demais polticas de solo.

Traduzidos pelo reconhecimento da cidade una, que incorpora a cidade informal; da

cidade democrtica, que fortalece as instncias de participao da sociedade na sua gesto; e

da cidade redistributiva que atua para o cumprimento da funo social da propriedade privada,

o Municpio incorpora nos contedos das polticas urbana e habitacional a Agenda da

Reforma Urbana20, capaz de romper com o modelo tradicional de ocupao das cidades.

A poltica habitacional da cidade incorporou tambm grande demanda por

reassentamentos das populaes moradoras em reas de risco, adotando programas como a

negociao de conflitos, a assessoria e incentivos s cooperativas habitacionais, procurando

atuar atravs de projetos integrados e articulando aes de diferentes setores governamentais.

Contudo, apesar dos esforos e da prioridade conferida pela sociedade atravs do Oramento

Participativo21, a ao pblica continuou insuficiente no provimento habitacional das camadas

de menor renda.

O Urbanizador social, neste contexto, significou a possibilidade legal de intervir na

forma como a cidade se produz, promovendo uma poltica habitacional a partir do

reconhecimento das foras ativas dessa produo. Sem dvida, uma mudana do enfoque da

20 Denominamos de Agenda da Reforma Urbana as concepes e as propostas do chamado Movimento Nacional pela Reforma Urbana, como ficou conhecida a articulao intelectual e poltica de vrias entidades representativas dos movimentos sociais urbanos, de organizaes no-governamentais, de entidades de pesquisa e de tcnicos ligados rea do urbanismo primeiramente em torno da elaborao da emenda popular ao projeto constitucional de 1988, e, posteriormente, em torno da participao na elaborao das Constituies Estaduais, das Leis Orgnicas e dos Planos Diretores. 21 O Oramento Participativo tem como principal objetivo ser um instrumento de democratizao, ou seja, assegurar a participao direta da populao na definio das principais prioridades para os investimentos pblicos. Essa nova experincia de participao popular procura romper com a tradio at ento existente, de apenas os governantes tomarem suas decises, deixando os interesses da populao de lado.

46

poltica at ento adotada, que potencializa a produo da HIS e concebe o controle fundirio

como instrumentos preventivos da irregularidade.

De forma ainda insuficientemente utilizados, sem que se possa dizer configurada sua

incorporao metodolgica nos programas habitacionais e de gesto territorial, a cidade

demonstra uma histria precursora e de experincias significativas na formulao e aplicao

da sua legislao urbanstica, constituindo-se como uma referncia. A lei que instituiu o

Urbanizador Social passou a ser mais uma iniciativa inovadora da cidade no sentido de

ampliar a ao promotora da incluso urbana.

O instrumento foi pensado durante a elaborao do novo Plano Diretor de Porto

Alegre nos fruns que avaliavam as questes pertinentes poltica de habitao de interesse

social e sua relao com o planejamento urbano e sua legislao. A discusso centrava-se na

irregularidade da cidade e na excluso de parcelas to significativas das cidades nos planos

diretores. Alicerados no amplo debate que ocorria nacionalmente, pautado pela Agenda da

Reforma Urbana, reconhecer e regularizar a cidade informal era visto como uma das

principais estratgias para esta incluso.

Proposto como processo de produo habitacional que se sustenta na ao em

parceria, no poderia ser legitimado sem incluir o conjunto de atores envolvidos.

Participaram da elaborao da lei os setores da administrao pblica relacionados com a

produo da cidade e sua gesto com base nos debates realizados com o conjunto de atores

que se vinculam com a produo habitacional, Sindicato da Indstria da Construo Civil

(SINDUSCON), loteadores informais, cooperativas habitacionais, sindicatos dos engenheiros

e dos arquitetos, Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), entre outros.

Construda de maneira coletiva, as instncias de participao da sociedade como o

Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental, o Conselho Municipal de

Acesso a Terra e Habitao, os Fruns Regionais das regies mais tensionadas pela ocupao

47

irregular e a Cmara de Vereadores tambm foram ouvidas antes do encaminhamento do

projeto de lei ao legislativo. A lei que instituiu o Urbanizador Social foi aprovada em julho de

2003. O processo de elaborao da lei consolidou coletivamente a concepo que deu origem

ao instrumento, ou seja, de incidir mais efetivamente na produo irregular do espao urbano

pela incorporao e regulao destes processos, mas chama tambm os produtores formais (do

mercado regular) e as cooperativas habitacionais como parceiros, com o objetivo da

ampliao da oferta de HIS.

Pela lei, so estabelecidos os procedimentos, os compromissos do poder pblico e do

urbanizador, as contrapartidas possveis nas parcerias, os mecanismos de negociao, e o

instrumento legal, o termo de compromisso, ato administrativo negociado, que se constitui em

ttulo executivo extrajudicial para garantir o cumprimento das negociaes.

Os principais acordos levados lei atendem as demandas por maior agilidade nos

trmites de aprovao dos parcelamentos, bem como a flexibilizao quanto a padres

urbansticos e de progressividade na implantao de infra-estrutura. Permite ainda a

contratao de estudos ambientais necessrios verificao dos impactos do empreendimento

pelo municpio. A reduo das garantias previstas na lei do parcelamento do solo, concede a

possibilidade de transferncia dos ndices construtivos das reas pblicas, como forte

mecanismo de negociao. Os resultados esperados com a aplicao destes mecanismos so

especialmente a reduo dos preos dos lotes, ou o repasse de parcela dos lotes produzidos

para o municpio.

O objetivo principal do instrumento a produo regular, em escala, da HIS e a oferta

compatvel com a capacidade aquisitiva da demanda. Entende-se que esta a maneira efetiva

de minimizar a irregularidade e, conseqentemente, de garantir habitabilidade para as

populaes de menor renda e preservar o ambiente natural. Muitas cidades esto aplicando

medidas curativas de alto custo para introduzir melhorias urbanas e programas de

48

regularizao de ttulos, entretanto sua eficincia questionvel (SMOLKA, 2003). O mais

grave que os programas tendem a aumentar o nmero de pessoas que recorrem

irregularidade. Descrevendo em poucas palavras: um processo tpico de acesso terra

urbanizada por parte dos pobres urbanos que injusto e ineficaz, e a larga escala termina num

crculo vicioso de irregularidade porque contribui para a pobreza ao invs de combat-la.

Embora o processo decisrio de investimentos pblicos em Porto Alegre venha

melhorando desde 1989 (introduo do Oramento Participativo), tambm certo que o

processo sente as conseqncias da ineficincia do sistema econmico, de tcnicas pouco

apropriadas, desorganizao ambiental, injustia fiscal (verba que deveria terminar nas mos

da populao termina nas mos dos parceladores) e insustentabilidade poltica. Muitas zonas

esto excludas da cidade, uma vez que possuem ruas deficientes sem pavimentao,

instabilidade geolgica, suscetveis a inundaes e falta de titulao legal, o que se traduz, por

exemplo, na carncia de domiclio postal para ter acesso ao recebimento de correspondncia.

Por tudo, o caso de Porto Alegre muito interessante, uma vez que se constitui numa real

demonstrao de que o problema de confrontar a irregularidade no se refere tanto proviso

de servios sem trocar o processo de prestao dos mesmos. uma questo de procedimentos

e mudana nas regras do jogo.

O Urbanizador Social incorpora lies aprendidas em problemas reais como tambm

em oportunidades de aes pblicas, e se inspira em vrias idias especficas. Primeiramente,

reconhece que os parceladores de solo possuem uma vasta experincia e familiaridade com o

setor, fato este que no se pode dizer das autoridades pblicas. Por isso, em vez de condenar

esses agentes, mais benfico para a sociedade oferecer-lhes incentivos apropriados para que

possam trabalhar dentro do marco legal. sabido que os parceladores lucram mais se

trabalharem margem da lei, contudo muitos preferem trabalhar legalmente e ter seus lucros

reduzidos.

49

Em segundo lugar, dar transparncia s negociaes diretas, beneficiando,

conseqentemente, todas as partes interessadas (proprietrios, promotores, autoridades

pblicas e compradores), o processo do Urbanizador Social cria vias que facilitam o

cumprimento das normas estabelecidas para o projeto.

O Urbanizador Social parte do princpio de que atravs da ampliao e

diversificao da oferta de terra urbanizada a preos acessveis que se estabelecer uma

alternativa vivel de moradia e, dessa forma, um contraponto produo informal. Apresenta-

se, portanto, como um instrumento que, com vistas produo de lotes urbanizados em escala

e em condies adequadas demanda, estabelece novas regras para a urbanizao da cidade,

promovendo a diversificao e ampliao do atual mercado de terras urbanizadas.

Do ponto de vista institucional, o desafio encontra-se efetivamente na superao de

um modelo tradicional de gesto do desenvolvimento da cidade. O acmulo de anos de

atuao do Poder Pblico em aes meramente regulatrias e/ou de fiscalizao, dificulta o

processo de fortalecimento do seu papel de gestor, de indutor de processos de urbanizao e

de regulador das relaes que normalmente se estabelecem sob as livres regras do mercado.

Por outro lado, torna-se necessria a institucionalizao de novas prticas, atravs das quais os

diversos setores que compem a administrao municipal trabalhem em conjunto e

articuladamente com o setor privado no objetivo maior de promover uma ao que seja, por

um lado, boa para a cidade, mas, por outro, vivel economicamente e atrativa do ponto de

vista empresarial, enfoque que tradicionalmente no faz parte do escopo de preocupaes da

administrao pblica.

O processo de construo e atuao do Urbanizador Social estabelece na sua

concepo de trabalho a construo e a participao coletiva intensa, estabelecendo o que

Barquero (2001) chama de sistema de relaes entre atores, ocorrendo troca de informaes

50

ou tecnologia. atravs desse cmbio que, segundo Castillo (1992), se incentiva o

desenvolvimento local.

4 ACESSO MORADIA NA REGIO DA LOMBA DO PINHEIRO

Conforme visto no captulo anterior, a excluso social acontece nos mais diferentes

nveis, seja na educao, no acesso ao trabalho, no acesso renda ou no acesso ao solo. Com

tantos meandros, a excluso social pode ser mensurada de diversas formas: atravs da taxa de

desemprego, do grau de instruo ou at da distribuio do consumo.

Destacando a excluso no que tange ao acesso ao solo, uma medida que identifica

diretamente essa acessibilidade o seu preo, mas para que essa medida seja eficaz deve ser

analisada em conjunto com os indicadores scioeconmicos da regio. Buscando reproduzir

as caractersticas apresentadas no contexto geral brasileiro, neste captulo, na tentativa de

acenar com a explicao de por que o preo do solo excludente, ser feito um esboo das

caractersticas scioeconmicas de uma regio, bem como a identificao do preo do solo

nesta regio.

Outra forma de avaliao da excluso atravs do acesso, seja gua, escola, ao

transporte, enfim, segundo as liberdades instrumentais de Sen, atravs do relacionamento

mais direto com as facilidades econmicas e as oportunidades sociais.

O local escolhido para a comparao foi a Lomba do Pinheiro em Porto Alegre. Uma

das situaes motivacionais para a escolha da regio foi a realizao de pesquisa de avaliao

do preo da terra pelo mestrando para o Lincoln Institute of Land Policy. A partir da pesquisa

vislumbrou-se a possibilidade de comparao.

52

4.1 PERFIL SCIOECONMICO DA REGIO DA LOMBA DO PINHEIRO

O bairro Lomba do Pinheiro est situado a leste do territrio municipal; possui,

segundo censo de 2000 do IBGE, uma populao de 54.000 habitantes numa superfcie de

aproximadamente 15,22 km. Conforme os dados, considerando para o clculo a populao

que possui cinco anos de idade ou mais, 12,14% da populao da regio no alfabetizada. O

ndice quase o dobro do verificado no municpio de Porto Alegre, que de 6,56%, porm

menor que o ndice nacional de 16,73%. Ou seja, segundo classificao de Sen, parte da

populao da Lomba do Pinheiro est excluda das oportunidades sociais.

Considerado um bairro verde de Porto Alegre, vem sendo diretamente influenciado

pela urbanizao acelerada por que passa a cidade. A regio constitui-se, ao longo dos anos,

numa alternativa na cidade para a localizao de moradias. A demanda habitacional existente,

associada ao custo reduzido da implantao clandestina dos assentamentos habitacionais,

resultou numa grande concentrao de loteamentos clandestinos e ncleos habitacionais

irregulares na regio, gerando efeitos negativos ao ambiente natural e qualidade de vida dos

moradores.

O SEBRAE em pesquisa recente (setembro de 2004) investigou as condies de

moradia. No que tange ao saneamento bsico pode-se constatar que 74% dos domiclios tm

banheiro, mesmo que uma parte desses possua instalaes externas residncia. No que se

refere coleta de esgoto, 82,9% dos domiclios tm algum tipo de coleta, sendo 57,2% por

rede de esgoto e 25,7% por fossa sptica.

A mdia de moradores por domiclio cerca de 3,4 na regio da Lomba do Pinheiro. A

maior concentrao, 27%, est em residncias com trs moradores. A distribuio ficou a

seguinte.

53

Tabela 3 Nmero de Moradores do Domiclio N de moradores % 1 8,0% 2 22,7% 3 27,0% 4 24,1% 5 7,2% 6 7,5% 7 2,7% 8 0,3% 9 0,3% 10 0,3% TOTAL 100,0%

Fonte: SEBRAE, 2004.

As informaes transmitidas nos pargrafos anteriores explicitam um tipo de excluso

peculiar questo urbana, uma vez que os moradores da Lomba do Pinheiro so excludos de

acessos que so obrigatrios numa cidade urbana.

Na investigao o SEBRAE fez a distino entre chefes de domiclio e dependentes.

Chegou-se concluso de que em 28,9% dos domiclios pesquisados o responsvel pelo

domiclio est sem ocupao e que apenas 67,1% exercem atividade remunerada. Entre os

chefes de domiclio sem ocupao, 54,6% so aposentados, 25% esto desempregados e

16,7% so donas de casa. O desemprego dos chefes de domiclio chega a 7,22%. Entre os

moradores dependentes, cerca de 70% no trabalham, e, dos 30% que trabalham, 92%

contribuem com a renda familiar; destes, 73,2% ganham at dois salrios mnimos, sendo que

28% ganham at um salrio mnimo. Neste perfil traado percebe-se a excluso s facilidades

econmicas de Sen.

Objetivando identificar o perfil econmico da regio, buscou-se junto aos domiclios o

valor das rendas individual mensal e familiar mensal. Os dados so apresentados abaixo.

54

Tabela 4 Renda Mensal Individual e Familiar Individual Familiar Renda mensal

Sem renda 10,4% 0,8% At 1 salrio mnimo 23,3% 15,2% de 1 a 2 salrios mnimos 33,4% 29,9% de 2 a 3 salrios mnimos 16,0% 18,4% de 3 a 5 salrios mnimos 11,2% 23,0% de 5 a 10 salrios mnimos 5,1% 10,2% de 10 a 20 salrios mnimos 0,5% 1,9% Mais de 20 salrios mnimos 0,0% 0,5% TOTAL 100% 100%

Fonte: SEBRAE, 2004.

Avaliando a distribuio de rendimentos (tabela abaixo), percebe-se que 15,69% dos

responsveis pelo domiclio recebem at um salrio mnimo. Esse nmero reflete a situao

scioeconmica da Regio da Lomba do Pinheiro, uma vez que bem maior em relao ao

percentual municipal, o qual de 8,05%, entretanto melhor do que a situao nacional, onde

esse percentual chega a 24,38%. Apenas 15,06% dos responsveis pelo domiclio ganham

mais do que cinco salrios mnimos, enquanto que em Porto Alegre esse percentual de

52,52%, e no Brasil 31,68%. A tabela abaixo apresenta a distribuio por faixas de salrios

mnimos.

Tabela 5 Classes de rendimento nominal mensal do responsvel pelo domiclio (em salrios mnimos)

Rendimento % At 1 salrio mnimo 15,69% Mais de 1 a 5 salrios mnimos 59,83% Mais de 5 a 10 salrios mnimos 12,08% Mais de 10 salrios mnimos 2,98% Sem rendimento 9,42% Total 100,00%

Fonte: CENSO IBGE, 2000.

Objetivando comparar a Populao Economicamente Ativa PEA da Regio

Metropolitana com a encontrada na Lomba do Pinheiro, o SEBRAE criou um ndice

55

semelhante ao estabelecido pelo IBGE. O ndice estimado para a PEA da Regio da Lomba

do Pinheiro foi de 52,1%, menor que o ndice metropolitano de Porto Alegre que no ms de

junho de 2004 foi de 56,2%.

Como a maioria dos bairros de Porto Alegre, a Lomba do Pinheiro caracteriza-se por

abrigar empresas voltadas ao atendimento das demandas do bairro. O ndice de informalidade

das empresas, utilizando critrios definidos pelo IBGE e segundo o SEBRAE, de 61,1%.

Apenas 34,8% das empresas possuem pelo menos um tipo de registro.

Tabela 6 Tipo de registro do empreendimento Registro % Nenhum 61,1% CNPJ 32,0% Alvar 10,2% Registro de Autnomo 0,9% Profissional Liberal 0,4% No resposta 4,1%

Fonte: SEBRAE, 2004.

Das empresas formais da regio, segundo o SEBRAE, a maior parte composta por

empresas do setor de comrcio, 73,1%, enquanto que servios ficam com 22,1% e indstria

4,8%. J as empresas informais possuem uma distribuio mais equilibrada no que se refere a

comrcio e servios, que so respectivamente, 47,9% e 47,1%. A indstria aparece com 2,8%.

Nas empresas formais, 26,6% oferecem empregos com carteira assinada aos seus

colaboradores.

Na regio, 97,4% das empresas possuem faturamento anual at R$ 120.000,00 e uma

idade mdia de 8,32 anos. A tabela abaixo apresenta o tempo de funcionamento das empresas.

56

Tabela 7 Tempo de funcionamento das empresas (em anos) Tempo % Menos de 5 40,6% De 5 a 10 21,0% De 10 a 20 28,0% 20 e mais 9,2% No resposta 1,1% TOTAL 100%

Fonte: SEBRAE, 2004.

Classificando o porte da empresa segundo o nmero de trabalhadores, o SEBRAE,

atravs de levantamento censitrio realizado em 2004, destaca que a totalidade das empresas

do ramo de indstria se enquadra na categoria microempresa, pois possuem em seu quadro at

dezenove funcionrios. No ramo de comrcio e servios, 97,3% se enquadram na categoria

microempresa, que, nestes ramos, admite at nove funcionrios, e 2,7% das empresas

pertencem categoria das pequenas empresas, que engloba as empresas que possuem entre 10

e 49 funcionrios. Nesse levantamento censitrio no foram encontradas empresas de portes

mdio e grande.

Atravs da pesquisa, verifica-se que quase metade do consumo da renda mensal dos

domiclios com despesas de alimentao, 47,9%. As despesas com moradia, representadas

por aluguel e habitao, perfaz um total de 4,3%, o que pode ser um forte indcio da

irregularidade no que tange moradia na regio. Na tabela abaixo apresentada a

distribuio.

Tabela 8 Estrutura do gasto mensal por item de dispndio Item Percentual Alimentao 47,9% Transporte 9,4% Energia Eltrica 9,0% Telefone Fixo 6,8% Sade/cuidados 4,4% Educao/Lazer 4,4% Gs domstico 4,2% Vesturio 3,7% gua e Esgoto 3,4% Aluguel 3,3% Telefone Celular 1,7% Habitao 1,0% Outras despesas 0,9%

Fonte: SEBRAE, 2004.

57

Quanto ao consumo dentro do bairro, observa-se pela tabela seguinte que 69,8% das

despesas com aluguel so dentro do bairro. Quase a metade do gasto com alimentao, 48,9%,

e 43,3% dos gastos com habitao tambm so dentro do bairro.

Tabela 9 Estrutura do gasto mensal por item de dispndio no bairro

Tipo de Gasto Percentual Aluguel 69,8% Alimentao 48,9% Habitao 43,3% Sade 39,4% Transporte 18,8% Educao/Lazer 12,3% Vesturio 11,4%

Fonte: SEBRAE, 2004.

4.2 PREO DO SOLO

Aps o breve levantamento scio-econmico, tratar-se- nesta subseo do preo do

solo na Lomba do Pinheiro. A anlise foi estabelecida atravs da relao entre o preo e um

conjunto de fatores explicativos. De acordo com a classificao de variveis que tendem a

influenciar o preo do solo realizou-se pesquisa descritiva, sendo utilizado mtodo

quantitativo para verificar a existncia de relao entre as variveis.

A pesquisa foi realizada atravs do convnio entre o Lincoln Institute of Land Policy, a

ACESSO Cidadania e Direitos Humanos e a Prefeitura Municipal de Porto Alegre. A

investigao utilizou dados originados de bases institucionais bancos de dados da Secretaria

Municipal da Fazenda e da Secretaria de Planejamento Municipal bem como dados

provenientes de levantamento de campo realizado por pesquisadores que percorreram a regio

identificando as caractersticas de terrenos colocados venda.

Por ocasio da coleta das informaes, o principal foco de ateno foi a padronizao

dos critrios de avaliao das caractersticas de cada varivel. Pode-se considerar que as

58

variveis vm de trs fontes que se cruzam: sistema de geo-referenciamento da Secretaria de

Planejamento Municipal, atravs do qual se obtiveram as informaes no que diz respeito

infra-estrutura; do cadastro da Secretaria Municipal da Fazenda para ITBI, atravs do qual se

obtiveram os dados referentes aos imveis transacionados; e a pesquisa de campo, atravs da

qual se obtiveram os dados referentes aos imveis ofertados.

4.2.1 Descrio das variveis e hipteses

A varivel dependente preo nos modelos estudados foi testada tambm na forma

logartmica, com o intuito de verificar a hiptese de relacionamento no linear com as

variveis independentes. Esta varivel quando atualizada pelo CUB ou pelo IGP-M no

representou a realidade local, sendo assim, na construo dos modelos trabalhou-se com o

preo na data da coleta.

As variveis exgenas esto divididas em seis grupos de fatores influenciadores do

preo: quanto localizao, quanto ao acesso infra-estrutura, quanto aos atributos do

terreno, quanto ao valor no tempo, quanto ao tipo de pesquisa e quanto ao regime urbanstico.

A seguir sero analisadas as variveis componentes de cada grupo. Em anexo consta tabela

com a descrio de todas as variveis.

Localizao

Os dados referentes varivel posio do terreno foram coletados em pesquisa de

campo. Essa varivel divide-se em terreno de esquina, terreno interno rua ou avenida,

terreno em beco e terreno encravado. Este ltimo tem como caracterstica um pequeno espao

de frente do terreno para acesso, ficando o restante de sua frente encoberto por outros

59

terrenos. A tendncia de que a posio dos terrenos influencie significativamente nos

preos, sendo que o terreno de esquina tenda a ter uma influncia positiva maior no preo do

que terreno interno rua ou avenida. Quanto aos terrenos encravados e os situados em beco,

tem-se a expectativa de que influenciem negativamente os preos. Nos modelos estudados,

essas variveis foram trabalhadas como variveis dummies.

A varivel Regies Homogneas Fazenda RH, cujos dados foram coletados junto

Secretaria Municipal da Fazenda SMF, uma classificao que a Secretaria faz segundo

critrios de homogeneidade no que tange aos valores dos imveis. Nos modelos estudados

elas foram trabalhadas na forma logartmica e linear. Existe a expectativa de que as regies

com um RH mais alto possuam o preo por m mais elevado.

As macrozonas, segundo o Plano Diretor de Porto Alegre, foram divididas conforme o

tipo de desenvolvimento e as caractersticas que possuam na poca de sua elaborao. Na

amostra foram identificadas quatro macrozonas, as macrozonas 4, 6, 7 e 8. A tendncia de

que as macrozonas 4 e 7 sejam mais valorizadas, ou seja, o preo do m dos terrenos situados

nestas reas tende a ser mais elevado. As variveis, trabalhadas como dummies, foram

coletadas junto Secretaria de Planejamento Municipal SPM. Em anexo, encontra-se

material explicativo a respeito das macrozonas.

A varivel zoneamento ruas divide-se em trs: terrenos situados at 50 metros da Av.

Joo de Oliveira Remio, da Av. Taquara e da Rua Dolores Duran. Essas variveis, coletadas

junto ao sistema de geo-referenciamento da SPM, foram trabalhadas como dummies. A

expectativa de que os terrenos situados prximos a essas vias tenham os preos por m mais

elevados, uma vez que estas so as principais vias de acesso que cortam a Lomba do Pinheiro.

60

O zoneamento, segundo classificao do projeto Lomba do Futuro22, foi coletado junto

SPM e se divide em 11 variveis que foram construdas num diagnstico participativo com

os moradores da regio.

As variveis foram trabalhadas como dummies. So elas: rururbana, rarefeita, vazia,

residencial 1, residencial 2, residencial 3, residencial 4, residencial 5, residencial 6,

centralidade social e centralidade comercial. A expectativa de que o preo do m nas reas

classificadas como residencial 6 seja mais elevado, uma vez que so reas em que esto

localizados condomnios fechados onde moram pessoas de classe mdia. Espera-se tambm

que terrenos localizados prximos s facilidades possuam preo por m mais elevado, tendo

em vista estarem localizados prximo ao comrcio ou a rea de convvio social (clubes,

associaes). Em anexo consta material que explica detalhadamente cada varivel de

zoneamento.

Acesso Infra-estrutura

A varivel dummy gua, coletada junto ao sistema de geo-referenciamento da SPM,

identifica se o terreno abastecido por rede de gua. A tendncia de que os terrenos

abastecidos por rede de gua tenham o valor do m mais elevado.

A existncia de creche, varivel dummy, foi coletada junto ao sistema de geo-

referenciamento da SPM. A varivel explicita a existncia de creche num raio de 130 metros

do terreno. Acredita-se que a existncia de creche faz com que o preo se eleve.

A varivel rede de esgoto se divide em duas: esgoto cloacal e esgoto pluvial. As

variveis, trabalhadas como dummies, foram coletadas junto ao sistema de geo-

22 Projeto realizado pela Secretaria de Planejamento Urbano com o objetivo de potencializar as aes na Lomba do Pinheiro atravs da qualificao dos canais de participao no planejamento urbano e local, integrando polticas setoriais.

61

referenciamento da SPM. Em princpio a existncia de rede de esgoto, seja cloacal ou pluvial,

implica num preo por m mais elevado do terreno.

A existncia de escola num raio de 500 metros foi avaliada atravs da varivel dummy

escola. Essa varivel foi levantada junto ao sistema de geo-referenciamento da SPM e

conferida atravs de levantamento de campo. Acredita-se que a existncia de escola num raio

de 500 metros faa com que o preo do m do terreno se eleve.

A varivel pavimentao, varivel dummy, expressa a existncia de via pavimentada

que conduza ao terreno. Esta foi coletada atravs de levantamento de campo. Existe a

expectativa de que o preo do m seja mais elevado nos terrenos em que a via de acesso seja

pavimentada.

A varivel dummy praa representa a existncia de praa pblica num raio de 100

metros do terreno. Tal varivel foi coletada junto ao sistema de geo-referenciamento da SPM.

Acredita-se que a existncia de praa de lazer num raio de 100 metros faa com que o preo

do m do terreno seja mais elevado.

A varivel dummy posto de sade, coletada junto ao sistema de geo-referenciamento

da SPM, foi dividida em duas: existncia de posto de sade num raio de 1.000 metros e

existncia de posto de sade num raio de 500 metros. Acredita-se que quanto mais perto

estiver localizado o posto de sade, mais elevado ser o valor do m do terreno.

A varivel coleta de lixo foi obtida junto ao sistema de georeferenciamento da SPM.

Esta foi trabalhada como varivel dummy e acredita-se que a sua existncia faa com que o

valor do m do terreno se eleve.

62

Atributos do terreno

A varivel rvore representa a existncia de rvores no terreno. Est dividida em trs

variveis, que foram trabalhadas como dummies: muitas rvores, poucas rvores e nenhuma

rvore. Esses dados foram coletados atravs de pesquisa de campo. Acredita-se que terrenos

com muitas rvores tm o valor do m mais baixo, uma vez que existem fortes impedimentos

para a derrubada das mesmas, limitando assim o espao para a construo.

A varivel rea do terreno foi testada na forma linear e logartmica. Os dados foram

coletados junto ao cadastro da SMF e, em alguns casos, aleatoriamente, conferidos atravs de

levantamento de campo. Essa varivel tem uma caracterstica muito peculiar, pois medida

que a rea do terreno aumenta, o preo do m tende a ser mais baixo. No obstante esse

aspecto, essa varivel tem influncia positiva no preo, ou seja, quando a rea do terreno

maior o preo total tende a subir, mesmo que com o aumento da rea o incremento seja cada

vez menor no preo.

A varivel dummy casa, coletada atravs de levantamento de campo, representa a

existncia de casa no terreno. A influncia que a existncia de casa no terreno tem sobre o

preo uma incgnita, seja porque impe a necessidade de adaptar um projeto pr-concebido

existncia de uma casa, ou porque facilita ter uma casa medida que economiza recursos.

No caso de existncia de casa foram criadas outras variveis, as quais retratam o tipo

de construo da casa, o tempo da construo e o estado da casa. Essas variveis foram

coletadas atravs de levantamento de campo. A varivel tipo de construo se divide em casa

de alvenaria e casa de madeira. O tempo de construo se divide em casa antiga e casa nova.

J o estado da casa se divide em casa em bom estado, casa em estado ruim e casa em estado

regular.

63

A varivel cadastro do imvel foi criada atravs do cruzamento das informaes do

levantamento de campo com o banco de dados da SMF. Nesse cruzamento, os terrenos que

tinham cadastro na SMF foram considerados regulares. A varivel foi trabalhada como

dummy. Entende-se que o terreno cadastrado regular tende a possuir o preo do m mais

elevado.

A varivel inclinao do terreno, coletada em levantamento de campo, se divide em

trs: terreno plano, terreno em aclive e terreno em declive. A expectativa de que o preo do

m do terreno varia conforme a sua inclinao, sendo que terreno plano tende a ter o preo do

m mais elevado.

A varivel testada do terreno foi trabalhada na forma linear e logartmica. Tal varivel,

coletada junto SMF, possui a tendncia de quanto maior a testada, maior o preo.

Valor no tempo

A varivel tempo de atualizao traduz em meses o perodo entre a coleta das

informaes e o ms de fevereiro de 2005. Esta foi trabalhada na forma linear e logartmica.

A expectativa de que o preo do m de reas com caractersticas semelhantes aumente com o

passar dos meses. Os dados vo de janeiro de 1999 a novembro de 2004.

Tipo de pesquisa

A varivel tipo de pesquisa se divide em duas variveis: oferta e comercializao. A

varivel oferta foi coletada atravs de levantamento de campo, enquanto que a varivel

comercializao foi coletada junto ao banco de dados da SMF. As variveis foram trabalhadas

como dummies. A expectativa de que os preos do m de terrenos em oferta sejam mais

elevados do que os comercializados.

64

Regime urbanstico

A varivel regime urbanstico se divide em 13 variveis que representam o conjunto de

normas para construir, instalar uma atividade (comrcio, servios, moradia ou indstria) e

dividir terrenos na cidade. Essas variveis foram trabalhadas como dummies. A expectativa

de que as variveis que possuam um ndice mais permissivo para a construo apresentem o

preo do m mais elevado. Nos anexos consta quadro detalhado a respeito do regime

urbanstico.

Tabela 10 Resumo das variveis testadas VARIVEL ESCALA SINAL

Localizao Macrozona 4 Dummy + Macrozona 6 Dummy + Macrozona 7 Dummy + Macrozona 8 Dummy + Terreno de esquina Dummy + Terreno interno rua ou avenida Dummy + Terreno encravado Dummy - Terreno em beco Dummy - Regies homogneas Fazenda - RH Discreta + rea classificada como Rururbana Dummy + rea classificada como Rarefeita Dummy + rea classificada como Vazia Dummy + rea classificada como Residencial 1 Dummy + rea classificada como Residencial 2 Dummy + rea classificada como Residencial 3 Dummy + rea classificada como Residencial 4 Dummy + rea classificada como Residencial 5 Dummy + rea classificada como Residencial 6 Dummy + rea classificada como centralidade social Dummy + rea classificada como centralidade comercial Dummy + Localizado at 50 metros da Rua Dolores Duran Dummy + Localizado at 50 metros da Av. Joo de Oliveira Remio Dummy + Localizado at 50 metros da Av. Taquara Dummy +

Acesso

Infra-estrutura Abastecimento de gua Dummy + Creche num raio de 130 m Dummy + Esgoto cloacal Dummy + Esgoto pluvial Dummy +

65

Escola num raio de 500 m Dummy + Via de acesso pavimentada Dummy + Praa num raio de 100 metros Dummy + Posto de sade num raio de 1.000 metros Dummy + Posto de sade num raio de 500 metros Dummy + Coleta de lixo Dummy + Atributos do terreno Casa com muitas rvores Dummy - Casa com nenhuma rvore Dummy + Casa com poucas rvores Dummy + rea do terreno Contnua + Casa Dummy + Casa de alvenaria Dummy + Casa de madeira Dummy - Casa antiga Dummy - Casa nova Dummy + Casa em estado bom Dummy + Casa em estado regular Dummy + Casa em estado ruim Dummy - Cadastro de imvel (regular) Dummy + Terreno em aclive Dummy - Terreno em declive Dummy - Terreno plano Dummy + Testada do terreno Contnua + Valor no tempo Meses Discreta + Tipo de pesquisa Oferta Dummy Comercializao Dummy Regime urbanstico Todas as variveis Dummies + Fonte: Elaborao do autor. Fonte de dados brutos.

As variveis foram testadas em vrios modelos, atravs da realizao dos mais

diversos tipos de cruzamento das mesmas. O estudo teve incio com um modelo geral,

contendo todas as variveis definidas acima e tambm constantes em quadro anexo. A

eliminao de variveis ocorreu por meio da observao da significncia dos coeficientes

individuais e tambm por meio de testes gerais de significncia conjunta de coeficientes.

O modelo mais adequado foi escolhido com base nos critrios de seleo de modelos,

os quais se fundamentam na soma dos quadrados dos resduos e no nmero de graus de

liberdade.

66

Entre os diversos critrios gerais de seleo sugeridos na literatura, observa-se o

Akaike Information Criterion (AIC), proposto por Akaike, e o critrio de Schwarz. Na anlise

observam-se os dois critrios em conjunto com o R ajustado para a seleo do modelo mais

adequado.

Inicialmente a amostra era composta de 282 casos; aps vistoria, avaliao e apurao

dos dados, passou a contar com 153 casos. O critrio para descartar os dados teve como

fundamento a veracidade das informaes, a concentrao em determinada regio e a

amplitude das variveis. Dos 153 casos, 88 foram coletados junto Secretaria Municipal da

Fazenda23 no perodo de fevereiro de 1999 a abril de 2004. Entre julho e novembro de 2004,

pesquisadores fizeram a varredura da regio em busca de terrenos em oferta, perfazendo um

total de 65 casos.

A seguir sero apresentadas tabelas que traam a expresso da amostra. A tabela a

seguir trabalha com medidas estatsticas relativas aos valores dos terrenos na data da coleta e

aps atualizados. Sero apresentados o valor corrente e o valor constante atualizados pelo

CUB de fevereiro de 2005.

Tabela 11 Medidas estatsticas da amostra PREO (R$)

TOTAL UNITRIO Medidas

Valores correntes Valores constantes Valores

correntes Valores constantes Mdia 74.808,87 88.002,68 43,58 57,91 Mediana 20.000,00 23.005,97 37,50 50,48 Moda 10.000,00 15.685,89 50,00 29,88 Desvio padro 233.191,87 262.998,72 28,84 42,31

Coef. Variao (%) 311,72 298,85 66,18 73,06

Casos 153 153 153 153 Fonte: Elaborao do autor. Fonte de dados brutos.

23 A Secretaria da Fazenda fez a coleta atravs das guias de pagamento do Imposto sobre a Transmisso de Bens Imveis o ITBI. A Secretaria avalia se o valor do imvel declarado condiz com o preo de mercado, estabelecendo um limite inferior de 20% em relao sua avaliao.

67

Observando a Tabela 11, percebe-se que, em mdia, o valor dos imveis de R$

74.808,87; em valores constantes este valor passa para R$ 88.002,68. O m vale, em mdia R$

43,58; quando atualizado, este valor passa para R$ 57,91. A moda de R$ 10.000,00; quando

atualizado o valor passa para R$ 15.685,89. A moda do valor do m de R$ 50,00, quando

atualizado a moda cai para R$ 29,88. Os valores dos imveis, tanto os correntes quanto os

constantes, tendem a contrastar com a renda familiar de 44,9% da populao da regio que

de at dois salrios mnimos, equivalente aos atuais R$ 700,00.

De acordo com o Projeto Especial Lomba do Futuro, desenvolvido pela Secretaria de

Planejamento Municipal, a Regio Lomba do Pinheiro pode ser dividida por critrios de

localizao em sub-regies. So elas: residencial 1, residencial 2, residencial 3, residencial 4,

residencial 5, residencial 6, centralidade 1, centralidade 2, rea rarefeita, reas vazias e rea

rururbana.

A classificao das sub-regies foi realizada levando em conta a localizao e a

delimitao de espaos homogneos, destacando as principais caractersticas sociais,

econmicas e ambientais. A metodologia adotada utilizou dados secundrios, tais como o

perfil scio-econmico da populao, conforme o Censo de 2000 do IBGE, mapas e cadastros

existentes na Prefeitura Municipal de Porto Alegre. A efetivao do trabalho deu-se a partir de

oficina com os moradores da regio. As caractersticas dessas sub-regies constam em quadro

anexo.

A seguir ser apresentada a distribuio da amostra segundo essas sub-regies.

68

Tabela 12 Medidas estatsticas do preo das sub-regies da Lomba PREO (R$)

MEDIDAS ESTATSTICAS Regies

Mdia Mediana Moda Desvio padro Mnimo Mximo Casos

Rururbana 74.555,56 55.000,00 55.000,00 60.330,57 7.000,00 190.000,00 9 Rarefeita 82.000,00 70.000,00 110.000,00 64.342,83 12.000,00 200.000,00 7 Vazia 65.430,89 20.000,00 15.000,00 162.375,78 3.000,00 1.070.000,00 47 Residencial 1 553.375,00 105.000,00 - 968.713,35 3.500,00 2.000.000,00 4 Residencial 2 e 3 126.000,00 30.000,00 160.000,00 268.533,36 5.000,00 1.000.000,00 13 Residencial 4 e 5 43.845,79 13.000,00 15.000,00 199.422,35 5.000,00 1.515.000,00 57 Residencial 6 53.163,93 31.300,00 25.000,00 72.375,18 22.000,00 300.000,00 14

Fonte: Elaborao do autor. Fonte de dados brutos.

Devido s caractersticas semelhantes e representatividade na amostra, as reas

residenciais 2 e 3 e as reas residenciais 4 e 5 foram agrupadas. Atravs da tabela verifica-se

que a sub-regio que apresenta em mdia os maiores preos a residencial 1, R$ 553.375,00,

apesar dessa caracterstica carecer de maiores confirmaes, j que a regio apresenta apenas

quatro casos e est sendo influenciada pelo fato de possuir grandes reas, incorrendo em uma

grande variabilidade. A sub-regio residencial 4 e 5 a que apresenta em mdia o menor

preo, ficando em R$ 43.845,79.

Com objetivo de minimizar, pelo menos em parte, a influncia das grandes reas24, foi

distribudo na tabela abaixo o valor do m conforme medidas estatsticas.

Tabela 13 Medidas estatsticas do preo do m das sub-regies da Lomba PREO M (R$)

MEDIDAS ESTATSTICAS Regies Mdia Mediana Moda Desvio padro Mnimo Mximo Casos

Rururbana 13,83 14,86 - 8,46 1,63 23,33 9 Rarefeita 12,74 9,38 20,00 10,54 2,89 29,65 7 Vazia 55,89 60,00 60,00 30,83 2,07 116,73 47 Residencial 1 21,81 18,18 - 21,16 0,90 50,00 4 Residencial 2 e 3 36,76 30,56 - 26,13 4,23 87,50 13 Residencial 4 e 5 39,45 33,68 50,00 21,30 1,90 106,67 57 Residencial 6 65,96 60,03 47,63 32,71 7,28 120,00 14

Fonte: Elaborao do autor. Fonte de dados brutos.

24 Terrenos com reas maiores tendem a ter o preo por m mais baixos que terrenos com reas menores, ou seja, medida que o terreno aumenta o valor do m tende a cair.

69

A partir dos dados constantes na Tabela 3, depreende-se que a regio classificada

como rarefeita a que apresenta em mdia o menor preo do terreno por m, R$ 12,74.

Verifica-se tambm que a sub-regio com a maior mdia de preos por m a residencial 6

com R$ 65,96. A tabela nos mostra que a sub-regio residencial 1 est sendo influenciada por

grandes reas, uma vez que possui o maior preo total e o terceiro menor preo por m.

As sub-regies residencial 2 e 3 e residencial 4 e 5 possuem como caractersticas

comuns a informalidade quanto posse dos imveis e normas urbansticas, no entanto possui

condies de acesso infra-estrutura, escola e comrcio diferentes, caractersticas essas que

no se refletem fortemente no preo, uma vez que a diferena entre as duas pequena. Ou

seja, a excluso quanto s facilidades que possam ter um local est pesando pouco. O que est

influenciando, na verdade, a excluso do acesso terra.

Segundo o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental o PDDUA , Porto

Alegre divide-se, por seu modelo espacial, em rea de ocupao intensiva e rea de ocupao

rarefeita. A primeira a rea que se caracteriza como prioritria para fins de urbanizao,

enquanto que a segunda compreende as reas com caracterstica de baixa densificao, nas

quais predomina a proteo da flora, da fauna e demais elementos naturais, admitindo-se, para

a sua perpetuao e sustentabilidade, usos cientficos, habitacionais, tursticos, de lazer e

atividades compatveis com a produo primria. Conseqentemente, outra caracterstica

que na rarefeita permitido um menor ndice construtivo do que na intensiva. A seguir esta

classificao apresentada em forma de tabela segundo medidas estatsticas.

70

Tabela 14 Medidas estatsticas do preo e do preo por m segundo classificao por rea de ocupao

PREO (R$)

TOTAL UNITRIO Medidas

Intensiva Rarefeita Intensiva Rarefeita Mdia 75.364,87 70.638,89 46,77 19,61 Mediana 18.000,00 38.500,00 41,67 19,38 Moda 15.000,00 200.000,00 50,00 20,00 Desvio padro 247.019,58 72.219,80 28,85 13,57 Coef. variao (%) 327,76 102,24 61,69 69,22

Mnimo 5.000,00 3.000,00 1,90 0,90 Mximo 2.000.000,00 200.000,00 120,00 50,00

Casos 135 18 135 18 Fonte: Elaborao do autor. Fonte de dados brutos.

De acordo com os dados da tabela acima, percebe-se que a rea intensiva possui, em

mdia, o valor do m mais alto que a rarefeita: R$ 46,77 contra R$ 19,61. A moda na intensiva

de R$ 50,00 o m, enquanto que na rarefeita de R$ 20,00. Os dados constatados acima

esto dentro do esperado.

Quando se trabalha o acesso ao solo, um fator que sempre est em questo a

regularidade do imvel. Com o objetivo de estudar essa peculiaridade, os imveis cadastrados

na Secretaria Municipal da Fazenda para efeito de cobrana de Imposto sobre a Propriedade

Territorial e Urbana (IPTU) foram considerados regulares, enquanto que os no cadastrados,

irregulares. Abaixo so apresentados os preos dessa classificao segundo medidas

estatsticas.

Tabela 15 Medidas estatsticas do preo e do preo por m segundo cadastro de imveis

PREO (R$) TOTAL UNITRIO Medidas

Regular Irregular Regular Irregular Mdia 54.391,93 97.777,93 44,11 42,97 Mediana 15.000,00 21.582,50 37,50 35,84 Moda 10.000,00 15.000,00 33,33 20,00 Desvio padro 222.691,46 243.982,64 25,16 32,66

Mnimo 5.000,00 3.000,00 2,89 0,90 Mximo 2.000.000,00 1.515.000,00 107,94 120,00 Casos 81 72 81 72

Fonte: Elaborao do autor. Fonte de dados brutos.

71

Com uma distribuio prxima dos dados, 81 para regular e 72 para irregular, percebe-

se que o valor mdio do m dos imveis considerados regulares mais alto que o dos

irregulares, ficando em R$ 42,97 no irregular e R$ 44,11 no regular. O valor que mais se

repete no regular o de R$ 33,33, enquanto que no irregular de R$ 20,00. O valor R$ 37,50

divide o valor da amostra regular ao meio, enquanto que no irregular o preo de R$ 35,84 o

divisor da srie avaliada.

Com relao ao quadro acima importante destacar o que afirmam alguns autores,

entre eles Maricato. O preo da irregularidade muito mais elevado que o da regularidade,

porque alm de possurem valores financeiros sempre muito prximos, o valor social da

irregularidade sempre muito elevado.

4.2.2 Anlise dos resultados

A relao de dependncia entre o preo e as variveis independentes foi analisada de

trs formas funcionais distintas: linear, log-linear e log-log. O modelo linear, preferido pela

sua simplicidade, apresentou diversos problemas que fizeram com que fosse preterido. O teste

de White apresentou heterocedasticidade e o Jarque-Bera de no normalidade dos resduos. O

modelo log-linear foi testado em diversos momentos, sendo que em algumas situaes

apresentou resultados satisfatrios. J o modelo log-log foi testado e aprovado amplamente.

Todas as variveis assumiram formas logartmicas, com exceo das variveis dummies.

Seguindo os testes para a eficincia dos modelos, investigou-se a existncia de

heterocedasticidade atravs do teste LM de White. A normalidade dos resduos foi verificada

pelo teste Jarque-Bera. Tambm foi aplicado o teste geral de erro de especificao da

regresso RESET de Ramsey, descartando os modelos nos quais a hiptese nula de que o

modelo est especificado incorretamente foi aceita.

72

A varivel dependente no modelo estudado o preo do imvel na data da coleta ou

transao. Esta varivel, denominada PREO e representada por y, foi testada tambm na

forma logartmica, com o intuito de verificar a hiptese de relacionamento no linear com as

variveis independentes.

O modelo LOG (PRECO) como varivel dependente ser chamado de MODELO

AVALIAO PREO TOTAL. A seguir especifica-se o modelo:

y = 4.329136 + 0.198801*x1 + 0.464740*x2 + 0.971630*x3 - 0.083021*x4 - 0.432399*x5 +

0.521445*x6 + 0.602882*x7 + 0.368539*x8 + 0.915535*x9 - 0.224749*x10 + 0.673411*x11

A tabela a seguir mostra o resultado do modelo, de acordo com os critrios gerais de

seleo de modelos adotados.

Tabela 16 Resultados do MODELO AVALIAO PREO TOTAL (R$)

VARIVEIS INDEPENDENTES COEFICIENTES ERRO PADRO

1 (constante) 4,329136 (1) 0,383775 x1 (testada) 0,198801 (2) 0,079663 x2 (rea) 0,46474 (1) 0,041421 x3 (regio homognea) 0,97163 (1) 0,187799 x4 (variao tempo) -0,083021 (2) 0,040315 x5 (posio terreno) -0,432399 (1) 0,148142 x6 (classificao vazia) 0,521445 (1) 0,129535 x7 (classificao Res. 2 e 3) 0,602882 (1) 0,159891 x8 (classificao Res. 4 e 5) 0,368539 (1) 0,128056 x9 (classificao Res. 6) 0,915535 (1) 0,174657 x10 (casa estado ruim) -0,224749 (2) 0,090292 x11 (cadastro em rea rarefeita) 0,673411 (1) 0,243567

R = 88,52% DW= 1,920580 F(2;153) = 98,09132 n = 153

(1) Significativo estatisticamente a 1% (2) Significativo estatisticamente a 5% Fonte: Elaborao do autor.

73

O modelo mostrou-se adequado segundo os testes realizados. No apresenta

problemas de no normalidade dos resduos, heterocedasticidade. O teste RESET demonstrou

ainda que o modelo foi especificado corretamente.

O R e o R ajustado do modelo, 88,52% e 87,61%, apresentam valores plenamente

satisfatrios, indicando que o modelo tem bom ajuste.

A seguir sero analisados os resultados obtidos para as variveis analisadas e algumas

de suas implicaes.

y preo (preo mnimo = R$ 300,00; preo mximo = R$ 2.000.000,00)

A varivel y representa o preo do terreno, endgena ao modelo, ou seja, ser

determinada pelas outras variveis. No trato com esta varivel foram testados os preos por

m e o preo total, sendo que o preo total apresentou um R maior com um maior nmero de

variveis explicativas.

x1 testada terreno (menor testada = 6,70 m; maior testada = 300,00 m)

A varivel x1 representa a testada (metros) do terreno; significativa ao nvel de

confiana de 98%. O sinal positivo indica que medida que a testada aumenta, o preo do

solo tambm aumenta. A partir da varivel com o uso de log conseguimos identificar que,

ceteris paribus, um aumento de 10% na metragem da testada corresponde a um aumento de

1,99% no preo. O resultado apresentado por esta varivel est dentro das expectativas.

74

x2 rea terreno (menor rea = 135,00 m; maior rea = 797.751,00 m)

A varivel x2 representa a rea do terreno em m; significativa ao nvel de confiana

de 99%. O sinal positivo indica que medida que a rea aumenta, o preo do solo tambm

aumenta. A partir da varivel com o uso de log conseguimos identificar que, ceteris paribus,

um aumento de 10% na rea corresponde a um aumento de 4,65% no preo. Essa varivel

correspondeu s expectativas no que tange ao resultado.

x3 regio homognea (variveis = (4, 7, 9, 11, 30))

A varivel x3 representa o RH (regio homognea) do terreno; significativa ao nvel

de confiana de 99%. O sinal positivo indica que medida que o RH aumenta, o preo do

solo tambm aumenta. A partir da varivel com o uso de log conseguimos identificar que,

ceteris paribus, ocorrendo um aumento em 10% na unidade do RH o preo do solo tende a

aumentar em 9,71%. A varivel correspondeu s expectativas.

x4 variao tempo (menor perodo = 4 meses; maior perodo = 70 meses)

A varivel x4 representa a contagem em meses da coleta dos dados a partir de janeiro

de 1999; significativa ao nvel de confiana de 96%. O sinal indica que o tempo influencia

negativamente o preo do solo. A partir da varivel conseguimos identificar que, ceteris

paribus, a cada ms que passa o preo tende a se desvalorizar. Essa varivel apresentou

resultado contrrio s expectativas, uma vez que se esperava que o preo do solo fosse

reajustado com o passar do tempo. Uma questo fundamental que pode ter influenciado o

aumento da informalidade (irregularidade) que cresceu em todo o pas, pois apesar de ter,

normalmente, preos prximo dos regulares, so mais baixos.

75

x5 posio terreno (11 casos)

A varivel x5 representa a posio do terreno em relao Rua Dolores Duran. Esta

varivel dummy significativa ao nvel de confiana de 99%. O sinal negativo indica que o

terreno estando situado at 50 metros da Rua Dolores Duran faz com que o preo tenda a

diminuir em 35,10%. A varivel no atendeu s expectativas, pois quando foram identificadas

as variveis a respeito de terrenos que estivessem at 50 metros das principais vias de acesso,

tinha-se em mente buscar a valorizao que os terrenos sofreriam.

x6 classificao vazia pela equipe Lomba do Pinheiro (47 casos)

A varivel x6 representa a regio classificada como Vazia; esta varivel dummy

significativa ao nvel de confiana de 99%. O sinal positivo indica que o terreno estando

situado na rea classificada como Vazia faz com que o preo tenda a aumentar em 68,45%.

Essa varivel atendeu s expectativas, uma vez que a regio possui condies ideais para

habitao, ressalvado as reas de preservao ambiental. A tendncia que esta seja a rea de

futuras ocupaes da Lomba do Pinheiro, sejam elas regulares ou irregulares.

x7 classificao rea residencial 2 e 3 pela equipe Lomba do Pinheiro (13 casos)

Devido ao pequeno nmero de casos e por possurem caractersticas bastante

semelhantes foi realizada a fuso das reas residencial 2 e 3. A varivel x7 representa a regio

classificada como rea Residencial 2 e 3. Esta varivel dummy significativa ao nvel de

confiana de 99%. O sinal positivo indica que o terreno estando situado na rea classificada

como rea Residencial 2 e 3 faz com que o preo tenda a aumentar em 82,74%. A varivel

atendeu s expectativas.

76

x8 classificao rea residencial 4 e 5 pela equipe Lomba do Pinheiro (59 casos)

Devido ao pequeno nmero de casos e por possurem caractersticas bastante

semelhantes foi efetuada a fuso das reas residencial 4 e 5. A varivel x8 representa a regio

classificada como rea Residencial 4 e 5. Esta varivel dummy significativa ao nvel de

confiana de 99%. O sinal positivo indica que o terreno estando situado na rea classificada

como rea Residencial 4 e 5 faz com que o preo tenda a aumentar em 44,56%. A varivel

atendeu s expectativas, porm esperava-se que ela tivesse uma influncia maior no preo do

que a varivel anterior (residencial 2 e 3), uma vez que as caractersticas relatadas quando da

classificao so de que os terrenos nesta rea tendem a ser mais valorizados.

x9 classificao rea residencial 6 pela equipe Lomba do Pinheiro (14 casos)

A varivel x9 representa a regio classificada como rea Residencial 6. Esta varivel

dummy significativa ao nvel de confiana de 99%. O sinal positivo indica que o terreno

estando situado na rea classificada como rea Residencial 6 faz com que o preo tenda a

aumentar em 149,81%. Essa varivel atendeu s expectativas. Vale destacar que o forte

aumento do valor do terreno quando situado nesta rea justifica-se pela presena de

condomnios fechados e residncias de elevado preo, nos quais habitam pessoas de classe

mdia-alta. Esta sub-regio possui as melhores condies de acesso (infra-estrutura, escola,

posto de sade, comrcio) da Lomba do Pinheiro.

x10 casa em estado ruim (27 casos)

A varivel x10 representa a existncia de casa em estado ruim no terreno; esta varivel

dummy significativa ao nvel de confiana de 97%. O sinal negativo indica que existindo

casa em estado ruim no terreno, o preo do solo tende a diminuir em 20,13%. A varivel

77

atendeu s expectativas e serviu para dirimir dvidas sobre a questo de residncias em

terrenos, uma vez que se costuma ouvir que a casa, principalmente quando se busca

estritamente um terreno, no afeta o preo do mesmo.

x11 cadastro de imvel e ocupao rarefeita (classificao Plano Diretor) (13 casos)

Essa varivel foi criada com o objetivo de medir duas caractersticas importantes

quando se trabalha o acesso ao solo: a existncia de cadastro de imveis, que nesta dissertao

considerada fator de regularidade do terreno; e a rea de ocupao rarefeita, que por

definio j apresenta o seu principal atributo, qual seja a menor permissividade para

construo. A varivel x11 representa a existncia de cadastro do imvel e a localizao na

rea de ocupao rarefeita (classificao Plano Diretor)25 simultaneamente. Esta varivel

dummy significativa ao nvel de confiana de 99%. O sinal positivo indica que, existindo

cadastro de imvel e estando localizado na rea de ocupao rarefeita, o preo do solo tende a

aumentar em 96,09%. Esperava-se que ocorresse um incremento no preo, mas no da ordem

de 96,09%. Tal fato pode ser explicado pela necessidade que a cidade de Porto Alegre tem de

se expandir, sendo a Lomba do Pinheiro uma alternativa, j que grande parte do seu territrio

constitui-se em rea de ocupao rarefeita.

importante destacar que a variao das variveis dummies sobre o preo

estabelecido pela soma da constante, do valor gerado em funo da rea, do valor gerado em

funo da testada, do valor gerado em funo do RH e do valor gerado em funo do tempo.

Vale frisar que sempre se considera tudo o mais constante.

25 Nesta dissertao existem dois tipos de classificao rarefeita: uma baseada em diagnstico participativo realizado pela equipe da Lomba do Pinheiro; a outra a classificao quanto ao regime urbanstico que se encontra no Plano Diretor.

78

4.3 A REGIO E O MODELO

As dificuldades encontradas na regio tais como, ambientais, de sade, educao,

segurana pblica e outras representam desigualdades importantes para a comunidade local.

A soluo mais eficiente para tais problemas requer conhecimento de circunstncias no

facilmente alcanvel atravs de estados centrais.

Segundo Bowles e Gintis (1997), a heterogeneidade cria um problema poltico

imediato; como alcanar o foco coletivo, particularmente entre grupos da comunidade, na

realizao de qualquer assunto de preocupao compartilhada.

A regio dispare, possuindo ao mesmo tempo reas ocupadas por condomnios

luxuosos com todas as condies de acesso cidade, enquanto outras so ocupadas por

loteamentos irregulares com total falta de acesso cidade.

Atravs do modelo estudado infere-se que o metro quadrado de um terreno localizado

na regio da Lomba do Pinheiro, situado na regio homognea 7, rea residencial 6, possui o

preo de R$ 93,94 (noventa e trs reais e noventa e quatro centavos). Tratando-se de um

terreno de 250 m com 10 metros de testada, o valor total fica em R$ 23.484,00 (vinte e trs

mil, quatrocentos e oitenta e quatro reais).

A rea da inferncia em questo onde esto situados predominantemente moradores

com maior poder aquisitivo, a sub-regio residencial 6. Quando feita a variao para sub-

regio residencial 2 e 3, mantendo todo o restante constante, o valor total passa para R$

17.178,64 (dezessete mil, cento e setenta e oito reais e sessenta e quatro centavos).

Verifica-se que a diferena de R$ 6.305,36 (seis mil, trezentos e cinco reais e trinta e

seis centavos) o custo por morar num lugar que no esteja excludo da cidade, ou seja, que

possua condies favorveis de habitabilidade para a vida humana. No obstante, pode-se

79

inferir que este o custo do acesso cidade, ou seja, quanto as pessoas esto pagando para ter

esse acesso.

Porm esta inferncia colocada em xeque quando adicionada s caractersticas do

terreno a localizao em rea rarefeita, uma vez que o valor total sobe para R$ 26.211,91

(vinte e seis mil, duzentos e onze reais e noventa e um centavos), chegando a ficar mais

elevado do que os terrenos localizados na sub-regio residencial 626. Esta diferena positiva

de valor em relao sub-regio 6 de R$ 2.727,91 cobrada motivado pelo esgotamento de

reas para moradia, sendo que neste espao a tendncia que se mantenha a ocupao

irregular j instalada. Portanto, a excluso possui um valor cada vez mais elevado, mesmo

sem pontuar questes importantes, tais como as ambientais.

As obrigaes econmicas normalmente so mantidas; o fracasso na busca por lugares

tolerveis uma explicao para tal manuteno. A submisso dos moradores est ligada

necessidade de sobreviver, em que os atores esto atentos a sua existncia e podem, muitas

vezes, prever as conseqncias.

Como se fosse uma cidade modelo, a regio da Lomba do Pinheiro traz consigo

caractersticas marcantes da maioria das cidades. Dentro de seus espaos territoriais habitam

pessoas das mais diversas classes sociais, com grande predominncia das camadas menos

favorecidas. 64,3% das famlias que moram na regio no possuem renda ou recebem at trs

salrios mnimos mensais. Outra caracterstica marcante a distribuio desigual das

facilidades, no permitindo o acesso cidade a todos.

26 No existem terrenos localizados ao mesmo tempo em rea rarefeita e na sub-regio residencial 6.

80

As diferenas apresentadas nos aspectos de moradia tambm se reproduzem nas

questes de gerao trabalho e renda, um exemplo o ndice de informalidade das empresas

que chega a 61,1%; o que demonstra uma relao instvel entre as empresas e a comunidade,

que se reflete, por exemplo, nas relaes de trabalho.

Pelo lado do consumo, a comunidade gasta quase 50% da renda com alimentao

dentro do bairro, sendo os outros 50% gastos em outras regies do municpio. A maior parte

dos ndices gastos que permanecem no bairro justamente o aluguel, chegando a 70%. Outro

valor que evidencia a dificuldade de acesso falta acesso a escola, emprego, comrcio o

gasto com transporte que chega a 9,4% da renda mensal.

Freqentemente considerado que as caractersticas so o legado histrico-cultural

que aderiu a uma populao. Na Lomba do Pinheiro no diferente, porm estas normas so

dinmicas e incompletas. Primeiro, os grupos interiormente parecem ser bastante

heterogneos, principalmente em caractersticas que provm da distribuio de valores.

Segundo, a heterogeneidade se dissipa no objetivo comum palpvel. Terceiro, as orientaes

de valor esto sujeitas a trocas bastante rpidas.

5 CONCLUSES

Ao longo dos captulos aqui desenvolvidos, procurou-se definir e caracterizar o

desenvolvimento endgeno, tentando ao mesmo tempo apontar alternativas que podem estar

no somente minimizando as dificuldades aqui relatadas, mas tambm sendo o incio do

enfrentamento de outras carncias. Num primeiro momento, fez-se uma incurso nos temas

desenvolvimento local e endgeno, destacando a experincia das redes de cooperao,

trazendo as mincias do relacionamento em rede, servindo como proxy para qualquer

relacionamento desse tipo. Aps, tratou-se da excluso social, relacionando autores

consagrados que trabalham o tema com a questo especfica do acesso moradia. Neste ponto

abordou-se o instrumento Urbanizador Social, de construo coletiva, destacando a

proposio de uma parceria entre comunidade, poder pblico e setor privado como

instrumento de ao na questo do acesso moradia. Por fim, na tentativa de precisar as

carncias das regies, apresentou-se pesquisa atravs da qual se traduziu os atributos de uma

regio especfica, em que optou-se por mostrar as dificuldades de acesso via mercado.

A reflexo desta dissertao foi construda em torno de alguns eixos, quais sejam:

- a excluso social se apresenta em diferentes formatos, sendo que a existncia de uma forma

provoca um efeito multiplicador e potencializa as outras formas;

- a atuao em rede traduz-se numa frmula necessria para o desenvolvimento local; e

- a construo coletiva planta a semente inicial para o desenvolvimento endgeno e local.

O processo de reflexo desta dissertao optou, no captulo quarto, por analisar a

situao de uma determinada regio, imaginando ser possvel, a partir desta, fazer incurses

generalizadas a respeito do acesso moradia e atributos sociais e econmicos. A regio de

anlise, a Lomba do Pinheiro, reflexo do inchamento das cidades aliado ao empobrecimento

82

da populao, que acaba por ocupar regies carentes nas cidades. A regio em questo reflete

caractersticas marcantes presentes nas cidades brasileiras, uma delas o nmero de

habitantes por domiclio, sendo de 81,8% o nmero de famlias que tem at quatro moradores

por domiclio. Pelo lado da renda familiar pode-se classificar como privilegiadas, uma vez

que a maior parte das famlias ganha entre um e dois salrios mnimos, considerando que a

realidade brasileira apresenta um quadro no qual grande parte das famlias tem uma renda

inferior a um salrio mnimo.

Outra caracterstica que merece destaque o preo da terra. Quando se avalia um local

com condies de habitabilidade, que permita o acesso cidade, o preo de um lote de 250 m

com 10 metros de testada chega a R$ 23.484,00 (vinte e trs mil, quatrocentos e oitenta e

quatro reais).

Analisando a correlao entre as caractersticas dos moradores e o preo ofertado por

um terreno, percebe-se que a tendncia de que os moradores daquela regio sejam alijados

para regies mais perifricas ou continuem a residir em locais informais e precrios. Ou seja,

via mercado as pessoas de baixa renda sero excludas. Atravs da caracterizao do cenrio

brasileiro feita no segundo captulo, percebe-se que a situao da habitao no Brasil padece

de problemas graves, tendo como principal causa um crescimento econmico sem

planejamento urbano, imperando o livre mercado, fazendo com que a espacializao urbana

seja distribuda de maneira totalmente irregular, com as pessoas de maior poder aquisitivo

empurrando as de menor poder aquisitivo para a periferia. Morar na periferia no seria

problema se l existisse uma estrutura que no permitisse a excluso cidade (escolas, praas,

nibus, gua, luz, supermercados). Portanto, pode-se dizer que a periferizao coloca em

xeque as liberdades instrumentais de Sen, uma vez que todas so afetadas diretamente pelo

processo de excluso.

83

O estudo das teorias de desenvolvimento foi praticado com o objetivo de se entender e

apresentar sinalizaes para construes sustentveis no combate excluso. No caso das

pessoas que so expulsas para a periferia, existem argumentos que destacam o habitante da

periferia como o propulsor da prpria expulso. Ao se avaliar a situao que hoje a mais

comum nas cidades brasileiras, verifica-se que as pessoas ocupam as periferias de forma

irregular; aps algum tempo recebem o ttulo da propriedade, que muitas vezes vem

acompanhado de melhorias na infra-estrutura, o que provoca uma valorizao do seu terreno,

causando o interesse de pessoas com maior poder aquisitivo. Esses moradores, que possuem

caractersticas semelhantes com aquelas apresentadas para a regio da Lomba do Pinheiro, se

sentem pressionados, no somente pelo fato de terem ofertas consideradas atraentes, mas

tambm pelo simples fato de enxergarem no negcio uma soluo para seus problemas

financeiros. Acabam vendo-se obrigados a se desfazer de seu patrimnio e ocupar regies

mais perifricas, formando assim um ciclo vicioso.

No h dvidas de que os valores da comunidade so baseados em resultados do

passado, mas a estrutura contempornea que envolve e caracteriza as comunidades no reflete

o peso inercial ou o doutrinamento intencional, so reflexos de interaes sociais.

dado que as liberdades instrumentais de Sen so reflexos do espao onde ocorre a

ao, onde se devem observar os mais diferentes atributos das regies, uma vez que estes

servem como molas propulsoras ou empecilhos para o desenvolvimento. A busca de

caractersticas singulares que diferenciem o local onde se desdobram as diferentes facetas da

vida societria, inserido num universo em crescente globalizao, constitui-se a centralidade

da temtica do desenvolvimento local. No h como promover o desenvolvimento sem

estimular o protagonismo local. Isso implica, em alguns casos, em alterar as condies que

possibilitaram a concentrao do conhecimento, do poder e da riqueza.

84

Com caractersticas peculiares regio, a Lomba do Pinheiro possui oportunidades

que carecem do trabalho conjunto, seja no acesso terra, seja na gerao de trabalho e renda.

Porm, romper com a concentrao do conhecimento, do poder e da riqueza passa a

ser o maior desafio, possibilitando, no caso das periferias, romper com o ciclo vicioso

estabelecido. Neste sentido, no Brasil, em 2001, de forma precursora, foi promulgada a lei

conhecida como Estatuto da Cidade; lei esta que faz parte do acmulo da discusso coletiva

de mais de dez anos de tramitao, que cria situaes que permitem a garantia do acesso

cidade queles que antes se viam margem desse processo.

Expandir os objetivos uma alternativa, ou seja, questes habitacionais ou da gerao

de trabalho e renda devem estar amparadas e articuladas, refletindo-se na conjugao de

esforos em prol do desenvolvimento de um territrio. Portanto, o fomento ao territrio deve

ser de forma completa, incidindo em todos os pontos que, de algum modo, combatam a

excluso. Por bvio, basta reforar que medidas que garantam a permanncia das pessoas no

solo devem vir acompanhadas de fatos e iniciativas que agreguem valor ao espao territorial

no qual vivem.

Seguindo o mesmo caminho do Estatuto das Cidades, s que em menor escala, o

Urbanizador Social tambm teve um perodo de maturao e debates, sendo ento construdo

a partir da participao coletiva de atores envolvidos direta e indiretamente. Este instrumento

traz de maneira direta nos seus objetivos o acesso terra urbanizada e cidade, partindo para

um processo de parceria entre comunidade, setor pblico e setor privado, formando uma rede

que pode ser definida como o sistema de relaes e/ou de contatos que vinculam as empresas

e/ou os atores entre si e cujo contedo est relacionado a bens materiais, informao ou

tecnologia.

Sobre o aspecto da atividade econmica, a rede seria constituda pelas relaes entre

empresas ou empresrios que tornam possveis as trocas de bens e servios, ou de

85

informaes que incorporam conhecimentos. Neste caso esto as redes de cooperao que,

guardadas as devidas diferenas, possuem caractersticas muito semelhantes ao Urbanizador

Social, existindo um acmulo de foras, regidas por normas, com um objetivo comum.

Mesmo que existam normas coercitivas para quebra de confiana, no h como

negar que o sucesso de uma rede depende do estabelecimento de reciprocidade e confiana

mtua, em que o sistema de relaes no interior da rede est baseado no conhecimento que os

atores tm uns dos outros. Neste sentido ressalta-se a importncia do acmulo na elaborao

do Estatuto da Cidade e do Urbanizador Social, fazendo com que aqueles que sero provveis

parceiros j tenham debatido e minimizado as diferenas.

Quando se desenvolve junto ao territrio projetos que tm a premissa de participao

coletiva, acredita-se que atravs dessa articulao construda endogenamente, uma vez que

cada organizao requer um tipo de acmulo diferente, cria-se o que Barquero (2001) chama

de sistema de relaes entre atores, ocorrendo troca. Esse cmbio faz com que o acmulo

transponha os objetivos iniciais e continue a frutificar. Quando duradouro, esse processo

tende a ampliar o capital social, como o caso do Oramento Participativo em Porto Alegre,

onde, principalmente as camadas mais pobres, aprenderam a se mobilizar na busca de um

objetivo comum.

Projetos como o do Urbanizador Social, alm de transpor os objetivos iniciais,

trabalham a capacitao dos seres em resposta privao de liberdade; pregam o direito de

escolha, pois os resultados colhidos so frutos de uma escolha, um aceite ou uma passividade

anterior demonstrada por eles.

No obstante as peculiaridades que uma regio possa ter, o Urbanizador Social, que

fruto da construo coletiva e que tem as mesmas premissas das Redes de Cooperao,

enfrenta de imediato a problemtica do acesso ao solo, mas ao mesmo tempo v os seus laos

cooperativos, por exemplo, influenciarem nas decises econmicas da regio. A fixao ao

86

local permite o acmulo de capital social. O poder pblico e o setor privado, em

contrapartida, encaram aquele espao pensando nos seus objetivos potenciais, que para o

poder pblico o bem-viver da populao, e para o privado o lucro, mesmo sabendo que

quando se trabalha com grupos organizados se v obrigado a flexibilizar sua margem de lucro,

mas em compensao corre um risco muito menor, uma vez que tem a demanda organizada.

As comunidades tm propriedades que lhes permitem persistir em um mundo da

economia de mercado, apesar da inabilidade para explorar as propriedades e aumentar os

mercados e as vantagens comparativas. Entre as propriedades est a capacidade das

comunidades nutrirem o comportamento cooperativo entre seus membros.

As comunidades podem se unir em prol da viabilidade da regio, porm os tipos de

excluso freqentemente associados s comunidades tendem a fortalecer e motivar a unio e a

cooperao.

A construo participativa busca construir modelos nos quais a comunidade local

possa se envolver direta e coletivamente na soluo do problema, embora com alguma forma

de centralizao que coordena esforos locais. A idia que autorizando os cidados, em

condies mais iguais, um bem intrnseco, e um meio de assegurar uma distribuio mais

justa das decises, sendo tambm uma estratgia importante por alcanar solues mais

efetivas a problemas coletivos. Assim, nutrindo uma maior igualdade de poder, se est

construindo uma sociedade mais democrtica, e uma democracia mais deliberativa.

A rede permite a criao de uma democracia deliberativa, sendo parte importante de

um projeto igualitrio-democrtico. Uma pontaria central do projeto democrtico, realmente

um modo de expressar a prpria ambio democrtica, assegurar um lugar pela razo

compartilhada de igualar as prticas polticas.

87

Seja na Lomba do Pinheiro ou em outra regio, trata-se, portanto, de implementar

aes que busquem induzir ou promover a emergncia de atores sociais aptos a protagonizar

as mudanas polticas, econmicas e sociais que vo deflagrar um processo de

desenvolvimento endgeno e sustentvel; promovendo a aquisio de conhecimentos, valores

e experincias durveis, capazes de criar um ambiente favorvel ao incio de um processo de

desenvolvimento do territrio.

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

ALBUQUERQUE, F. Desarrollo econmico local y distribucion del progresso tecnico.

Santiago: ILPES, 1996.

AMADEO, Edward J.; CAMARGO, Jos Marcio. Liberalizao Comercial, Distribuio e

Emprego. Revista de Economia Poltica, vol. 13, n. 04, p. 58-76, out-dez 1993.

AMADEO, Edward J., CAMARGO, Jos M. Poltica Comercial e Distribuio Funcional da

Renda. Textos para Discusso, FUNCEX Fundao Centro de Estudos do Comrcio

Exterior, Rio de Janeiro, n. 58, nov. 1991.

AMARAL FILHO, Jair do. A endogeinizao no desenvolvimento econmico regional no

local. Revista Planejamento e Polticas Pblicas, IPEA Instituto de Pesquisa

Econmica Aplicada, Rio de Janeiro, n. 23, p. 261-286, junho 2001.

BARQUERO, Antonio Vsquez. Desenvolvimento endgeno em tempos de globalizao.

Porto Alegre: Fundao de Economia e Estatstica, 2002. 278 p.

BAVA, Silvio Caccia (Org.). Desenvolvimento local: gerao de emprego e renda. So

Paulo: Plis, 1996. 160 p.

BRASIL. Lei n. 10.257, de 10 de julho de 2001. Estatuto da cidade: guia para

implementao pelos municpios e cidados. 2 ed. Braslia: Cmara dos Deputados,

Coordenao de Publicaes, 2002.

BOWLES, Samuel; GINTIS, Herbert. The Moral Economy of Communities: structured

populations and the evolution of pro-social norms. Massachusetts: Department of

Economics University of Massachusetts Amherst, 1997.

BOWLES, Samuel; GINTIS, Herbert. Is Equality Pass_e? Homo Reciprocans and the Future

of Egalitarian Politics. Massachusetts: Department of Economics University of

Massachusetts Amherst, 1998.

CACCIAMALI, Maria Cristina. Distribuio de renda no Brasil: persistncia do elevado grau

de desigualdade. In: PINHO, Diva Benevides; VASCONCELLOS, Marco Antnio

Sandoval de. Manual de Economia. 4. ed. So Paulo: Saraiva, 2003.

89

CALDAS, Eduardo de Lima; MARTINS, Rafael DAlmeida. Uma anlise comparada de

experincias de desenvolvimento econmico e local. So Paulo: Polis. Disponvel em:

http://www.polis.org.br/download/21.pdf. Acesso em: 22 de dezembro de 2005.

CASTILHOS, Clarisse Chiappini (Coord.) Programa de apoio aos sistemas locais de

produo: a construo de uma poltica pblica no RS. Porto Alegre: FEE, 2002. 183 p.

CASTILLO, Jaime Del. Lo local y lo internacional: la importancia de las redes de

colaboracion. Valncia: ILPES (Instituto Latinoamericano de Planificacin Economica

y Social), 1992.

CIDADE Centro de Assessoria e Estudos Urbanos. Quem o pblico do Oramento

Participativo - 2002. Cidade Centro de Assessoria e Estudos Urbanos, Porto Alegre,

jan. 2003. 79 p.

COMIM, Flavio Vasconcellos; BAGOLIN, Izete P. Aspectos qualitativos da pobreza no Rio

Grande do Sul. Ensaios FEE, Porto Alegre, vol. 23, p. 467-490, 2002.

COUTINHO, Luciano G.; FERRAZ, Joo Carlos. Estudo da competitividade da indstria

brasileira. Campinas: Papirus, 1995. 510 p.

DAMSIO, Claudia Pilla. Urbanizador Social Instrumento para a poltica habitacional. In:

ABRAMO, Pedro. A Cidade da Informalidade: o desafio das cidades latino-

americanas. Rio de Janeiro: Livraria Sette Letras/FAPERJ, 2003. p. 297-312.

DURSTON, John; LPEZ, Eduardo. Capital social y gestin participativa en la cuenca de

Ptzcuaro. Revista de la Cepal, n. 90, Diciembre 2006.

FAVERO, Celso Antonio. Os movimentos sociais e a questo do desenvolvimento.

Disponvel em: http://www.unioeste.br/cursos/toledo/revistaeconomia/Favero.PDF.

Acesso em: 22 de dezembro de 2005.

FIALHO, Ana Lcia. Urbanizador Social versus mercado de solo urbano: o desafio da

conquista via mercado do direito Cidade. Porto Alegre, 2005. No prelo.

GODARD, O. et al. Desarrollo endogeno y diferenciacin de espacios de desarrollo: un

esquema de anlisis para el desarrollo local. Estudos Territoriales, ILPES Instituto

Latinoamericano y Del Caribe de Planificacin Econmica y Social, Santiago, n. 24, p.

135-147, 1987.

90

GRABHER, G. Rediscovering the social in the economics of interfirm relations. In:

GRABHER, G., ed. The embedded firm: on the socieconomics of industrial

networks. London: Routledge, 1993.

GUIBAUDE, Javier. Una aproximacin comparativa a las empresas recuperadas

argentinas y las autogeridas en Brasil. 2004. Disponvel em:

www.iisg.nl/labouragain/documents/ghibaudi.pdf. Acesso em: 22 de dezembro de 2005.

INDICADORES SOBRE A SITUAO HABITACIONAL NO BRASIL. Belo Horizonte,

Fundao Joo Pinheiro, 2005.

JIMNEZ, Sara Garca. Apunte sobre el enfoque neo-clsico de la organizacin espacial y el

mercado de suelo. Curso de Educacin a Distancia sobre Mercados de Suelo Urbano

en Ciudades Latinoamericanas. Lincoln Institute of Land Policy, 2005.

LLORENS, Francisco Albuquerque. Desenvolvimento econmico local: caminhos e desafios

para construo de uma nova agenda poltica. Rio de Janeiro: BNDES, 2001. 232 p.

MAIA, D. M. Desenvolvimento humano para a validao dos princpios e valores

cooperativistas. In: VI Encuentro Internacional de la red Universitria de las amricas en

estudios cooperativps Y associativismo, 2002, Santiago. Anais do VI Encuentro

Internacional de la red Universitria de las amricas en estudios cooperativps Y

associativismo. Santiago: Universitria, 2002. v. 1. p. 1-20.

MALECKI, E. J., TOOTLE, D. The role of networks in small firms competitiveness.

International Journal of Technology Management, v.11, p. 43-57, 1996.

MANCE, Euclides Andr. A revoluo das redes: a colaborao solidria como alternativa

ps-capitalista globalizao atual. Petrpolis: Vozes, 2000. 220 p.

MARICATO, Ermnia Terezinha Menon. Brasil, cidades: alternativas para a crise urbana.

Petrpolis: Vozes, 2001. 204 p.

MARICATO, Ermnia Terezinha Menon. A produo capitalista da casa (e da cidade) no

Brasil industrial. So Paulo: Alfa-Omega, 1979. 166 p.

MARQUETTI, Adalmir A. Participao e Redistribuio: o oramento participativo em Porto

Alegre. In: Congress Marx International III, 2001, Nanterre. Proceedings of the

Congress Marx International III, 2001. v. 1. p. 23-43.

91

MORAES, Jorge Luiz Amaral de. Capital social e polticas pblicas para o desenvolvimento

regional sustentvel. Revista do Centro de Cincias Administrativas, UNIFOR

Universidade de Fortaleza, Fortaleza, v. 9, n. 2, p. 196-204, dez. 2003.

PAIVA, Carlos guedo Nagel. Como identificar e mobilizar o potencial de desenvolvimento

endgeno de uma regio? Documentos FEE, Porto Alegre, n. 59, maio 2004. 140 p.

PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE. Relatrio de indicadores sociais de

Porto Alegre. Porto Alegre: PMPA, 2000.

PUTNAM, Robert D. Comunidade e democracia: a experincia da Itlia moderna. 3. ed.

Rio de Janeiro: FGV, 2002. 257 p.

SCHECHINGER, Carlos Morales. Algunas peculiaridades del mercado de suelo urbano.

Educacin a Distancia sobre Mercados de Suelo Urbano en Ciudades

Latinoamericanas. Lincoln Institute of Land Policy, 2005.

SEN, Amartya Kumar. Desenvolvimento como liberdade. So Paulo: Cia da Letras, 2000,

c1999. 409 p.

SMOLKA, Martim; FURTADO, Fernanda (Editores). Recuperacin de plusvalas em

Amrica Latina: alternativas para el desarrollo urbano. Santiago: Eurelibros, 2001.

SMOLKA, Martim. Informalidad, pobreza urbana y precios de la tierra. Land Lines

Newsletter, Lincoln Institute of Land Policy, Cambridge, vol. 15, n. 1, enero, 2003.

TASCHNER, Suzana. O Brasil e suas Favelas. In: ABRAMO, Pedro (Coord.). A Cidade da

Informalidade: o desafio das cidades latino-americanas. Rio de Janeiro: Livraria Sette

Letras, 2003. p. 13-42.

TAUILE, Jos Ricardo; DEBACO, Eduardo Scotti. Autogesto no Brasil: o salto de qualidade

nas polticas pblicas. Indicadores Econmicos FEE, Porto Alegre, v. 32, n. 1, p. 197-

220, maio 2004.

92

ANEXO I DESCRIO DAS VARIVEIS

VARIVEIS CARACTERIZAO GUA Abastecimento de gua

Muitas rvores Nenhuma rvore RVORE Poucas rvores

REA TERRENO CASA

Alvenaria CASA MATERIAL Madeira Antiga CASA TEMPO Nova Bom Regular CASA ESTADO Ruim

CRECHE Creche num raio de 130 m Esgoto cloacal ESGOTO Esgoto pluvial

ESCOLA Escola num raio de 500 m CADASTRO IMVEL Regular ou irregular

Macrozona 4 Macrozona 6 Macrozona 7

MACROZONAS (classificao PDDUA)

Macrozona 8 TEMPO ATUALIZAO Meses

Oferta TIPO DE PESQUISA Comercializao

PAVIMENTAO Via de acesso PRAA Praa num raio de 100 metros

Terreno de esquina Terreno interno rua ou avenida Terreno encravado

POSIO TERRENO

Terreno em beco Preo na data da coleta ou transao Preo atualizado pelo IGP-M Preo atualizado pelo CUB Preo do m na data da coleta ou transao Preo do m atualizado pelo IGPM Preo do m atualizado pelo CUB Preo correspondente ao salrio mnimo na data da coleta

PREO

Preo do m correspondente ao salrio mnimo na data da coleta Posto de sade num raio de 1.000 metros POSTO DE SADE Posto de sade num raio de 500 metros

REGIES HOMOGNEAS FAZENDA - RH

Terreno em aclive Terreno em declive INCLINAO TERRENO Terreno plano

LIXO Coleta de lixo

93

TESTADA DO TERRENO rea classificada como Rururbana rea classificada como Rarefeita rea classificada como Vazia rea classificada como Residencial 1 rea classificada como Residencial 2 rea classificada como Residencial 3 rea classificada como Residencial 4 rea classificada como Residencial 5 rea classificada como Residencial 6 rea classificada como centralidade social

ZONEAMENTO CLASSIFICAO (PROJETO LOMBA DO FUTURO / SPM)

rea classificada como centralidade comercial Terreno localizado at 50 metros da Rua Dolores Duran Terreno localizado at 50 metros da Avenida Joo de Oliveira Remio ZONEAMENTO RUAS Terreno localizado at 50 metros da Avenida Taquara

Fonte: Elaborao do autor.

94

ANEXO 2 REGIME URBANSTICO27

PR (1,0)+AP Predominantemente Residencial com ndice aproveitamento 1,0 mais ajuste de projeto.

M1 (1,3)+AP Mista 1 (permite mais diversidade nas atividades comerciais) com ndice aproveitamento 1,3 mais ajuste de projeto.

M3 (1,3)+SC (2,0) Mista 3 (permite maior diversidade e porte nas atividades comerciais) com ndice aproveitamento 1,3 mais Solo Criado at chegar ao ndice 2,0. Ao longo da Joo de Oliveira Remio e Dolores Duran.

M4 (1,3)+SC (3,0) Mista 4 (permite ainda maior diversidade e porte nas atividades comerciais) com ndice aproveitamento 1,3 mais Solo Criado at chegar ao ndice 3,0. Ao longo da Bento Gonalves

DD (0,2) Desenvolvimento Diversificado (uso rarefeito com densidade prevista para uma unidade a cada 2.000 m) com ndice aproveitamento 0,2.

DD (0,2) >PI (1,0)

Desenvolvimento Diversificado (uso rarefeito com densidade prevista para uma unidade a cada 2.000 m) com ndice aproveitamento 0,2, com Potencial de Intensivo (pode se tornar intensivo com regime de Predominantemente Residencial (ndice aproveitamento 1,0), mediante loteamento de carter social pelo padro PDDUA).

PAN (0,1) Proteo ao Ambiente Natural (uso rarefeito com densidade prevista para uma unidade a cada 5.000 m) com ndice aproveitamento 0,1.

M3(1,3) 60m Pan (0,1)

Mista 3 (permite maior diversidade e porte nas atividades comerciais) com ndice aproveitamento 1,3 mais Solo Criado at chegar ao ndice 2,0. Ao longo da Joo de Oliveira Remio e Dolores Duran, nos primeiros 60 metros. Aps regime de Proteo ao Ambiente Natural (uso rarefeito com densidade prevista para uma unidade a cada 5.000 m) com ndice aproveitamento 0,1.

M3(1,3) 60m M1 (1,3)

Mista 3 (permite maior diversidade e porte nas atividades comerciais) com ndice aproveitamento 1,3 mais Solo Criado at chegar ao ndice 2,0. Ao longo da Joo de Oliveira Remio e Dolores Duran, nos primeiros 60 metros. Aps Mista 1 (permite mais diversidade nas atividades comerciais) com ndice aproveitamento 1,3 mais ajuste de projeto.

M3(1,3) 60m PR (1,0)

Mista 3 (permite maior diversidade e porte nas atividades comerciais) com ndice aproveitamento 1,3 mais Solo Criado at chegar ao ndice 2,0. Ao longo da Joo de Oliveira Remio e Dolores Duran, nos primeiros 60 metros. Aps Predominantemente Residencial com ndice aproveitamento 1,0 mais ajuste de projeto.

M3 (1,3) 60m DD (0,2) >PI (1,0)

Mista 3 (permite maior diversidade e porte nas atividades comerciais) com ndice aproveitamento 1,3 mais Solo Criado at chegar ao ndice 2,0. Ao longo da Joo de Oliveira Remio e Dolores Duran, nos primeiros 60 metros. Aps Desenvolvimento Diversificado (Uso rarefeito com densidade prevista para uma unidade a cada 2.000m) com ndice aproveitamento 0,2, com Potencial de Intensivo (pode se tornar intensivo com regime de Predominantemente Residencial (ndice aproveitamento 1,0), mediante loteamento de carter social pelo padro PDDUA).

PR (1,0) 60m DD (0,2) >PI (1,0)

Predominantemente Residencial com ndice aproveitamento 1,0 mais ajuste de projeto nos primeiros 60 metros. Aps Desenvolvimento Diversificado (uso rarefeito com densidade prevista para uma unidade a cada 2.000 m) com ndice aproveitamento 0,2, com Potencial de Intensivo (pode se tornar intensivo com regime de Predominantemente Residencial (ndice aproveitamento 1,0), mediante loteamento de carter social pelo padro PDDUA).

27 Regime urbanstico o conjunto de normas para construir, instalar uma atividade (comrcio, servios, moradia ou indstrias) e dividir terrenos na cidade.

95

M3(1,3) 60m + PR (1,0) + DD (0,2) >PI (1,0) rea Olvia

Mista 3 (permite maior diversidade e porte nas atividades comerciais) com ndice aproveitamento 1,3 mais Solo Criado at chegar ao ndice 2,0. Ao longo da Joo de Oliveira Remio e Dolores Duran, nos primeiros 60 metros. Aps Predominantemente Residencial com ndice aproveitamento 1,0 mais ajuste de projeto. Aps Desenvolvimento Diversificado (uso rarefeito com densidade prevista para uma unidade a cada 2.000m) com ndice aproveitamento 0,2, com Potencial de Intensivo (pode se tornar intensivo com regime de Predominantemente Residencial (ndice aproveitamento 1,0), mediante loteamento de carter social pelo padro PDDUA).

M4(1,3+SC3,0)60 m/M3 (1,3+SC2,0)60m+PAN(0,1). rea da Condor

Mista 4 (permite ainda maior diversidade e porte nas atividades comerciais) com ndice aproveitamento 1,3 mais Solo Criado at chegar ao ndice 3,0 em 60 metros ao longo da Bento Gonalves; Mista 3 (permite maior diversidade e porte nas atividadescomerciais) com ndice aproveitamento 1,3 mais Solo Criado at chegar ao ndice 2,0. em 60 metros ao longo da Joo de Oliveira Remio; Proteo ao Ambiente Natural (uso rarefeito com densidade prevista para uma unidade a cada 5.000 m) com ndice aproveitamento 0,1 no restante da gleba.

Fonte: Equipe Lomba do Pinheiro da Secretaria de Planejamento Municipal de Porto Alegre.

96

ANEXO 3 - CARACTERSTICAS SUB-REGIES (REAS HOMOGNEAS) Residencial 1 Ocupao Precria Loteamento ou ocupao clandestina com focos de miserabilidade,

caracterizada pela falta de infra-estrutura, rede eltrica improvisada, esgoto a cu aberto, ocupao densa com moradias precrias, baixa atividade econmica, degradao ambiental, lixo, declividade e reas de risco

Residencial 2 Loteamento Precrio

Loteamento irregular ou clandestino, com algumas redes de infra-estrutura, como gua e eltrica nas vias principais, porm falta de equipamentos e servios. Pontos com rea de risco e focos de poluio e degradao ambiental. Alguma produo caseira e comrcio local. Alguma organizao comunitria.

Residencial 3 Loteamento Irregular

Loteamentos irregulares e assentamentos do Demhab, sem maiores focos de misria, com redes de infra-estrutura, algumas ruas asfaltadas com saneamento, escola e pequenos comrcios, mas ainda com arroios ocupados, focos de lixo e poluio, degradao ambiental nas reas de risco.

Residencial 4 Loteamento Clandestino Pequeno

Pequenos loteamentos clandestinos, com infra-estrutura, lotes maiores e casas melhores de alvenaria, com ptio, horta ou pomar, condies sociais melhores, prximo ao transporte coletivo, escola e creche. Ocupao irregular, degradao e poluio mais junto aos arroios.

Residencial 5 Loteamento Clandestino Maior

Loteamento clandestino maior, formando um conjunto mais estruturado, lotes maiores porm com casas simples, sem muitos equipamentos, redes de infra-estrutura parcialmente implantadas, pouco comrcio ou servio. Vegetao natural junto ao arroio, mas algumas reas ocupadas reas de risco.

Residencial 6 Condomnios Existncia de condomnios de classe mdia e alta, stios privados, com reas verdes de intensa vegetao, jardins, casas boas com infra-estrutura. Poucos pontos de comrcio e servio. rea em processo de ocupao atravs de cooperativas habitacionais.

Centralidade 1 Comercial Concentrao de atividades de comrcio e servios. Lojas de porte maior, como mercados, padarias, material de construo e banco, alm dos servios de segurana. Zona vinculada a uma rua principal, de acesso fcil, com transporte coletivo e infra-estrutura.

Centralidade 2 Social Centralidade associada existncia de servios comunitrios e sociais, como igreja, escola de 2 grau, posto de sade. Estes equipamentos acabam concentrando tambm atividades comerciais em sua volta. Acesso fcil, ligado ao transporte coletivo e rua principal de acesso.

rea Rarefeita rea com produo primria

rea com baixa densidade populacional, com stios de lazer, de criao de animais e hospedagem de cavalos. Hortas e pomares, lavouras de subsistncia e minerao de pedras. Arroios e mata nativa preservada nos stios. Projeto CEITEC. Processo progressivo de ocupao habitacional.

reas Vazias reas com baixa densidade

Grandes propriedades , com a frente junto rua, ocupada com casas alugadas, com infra-estrutura, e fundo preservado nos arroios e mata nativa, vrias nascentes, com potencial de loteamento. Comrcio junto rua.

rea Rururbana

rea com produo agrcola

Baixa densidade populacional, carncia de infra-estrutura, propriedades agrcolas maiores e de criao comercial de animais. Nascentes do Arroio do Salso, declividade e banhados. Fauna diversificada. Focos de objetos sunos degradao.

Fonte: Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Construindo a Lomba do Futuro Bases para o Plano de Desenvolvimento Local. Volume I. Porto Alegre, dezembro/2004.

Recommended

View more >