DESENVOLVIMENTO E MOBILIZAÇÃO DE SABERES DOCENTES ... ?· DE SABERES DOCENTES: ... INFLUÊNCIAS DA…

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    X CONGRESO INTERNACIONAL SOBRE INVESTIGACIN EN DIDCTICA DE LAS CIENCIAS

    SEVILLA 5-8 de septiembre de 2017

    ISSN (DIGITAL): 2174-6486

    DESENVOLVIMENTO E MOBILIZAO DE SABERES DOCENTES: INFLUNCIAS DA FORMAO E DA TRAJETRIA PROFISSIONAL EM DUAS PROFESSORAS DE QUMICAGabriela Agostini, Luciana MassiUniversidade Estadual Paulista, Brasil.gabrielaagostini1@hotmail.com

    RESUMO: Investigamos duas professoras de qumica formadas em uma universidade pblica brasi-leira. Com base em Tardif, Gauthier e Shulman identificamos seus saberes docentes e as influncias no seu desenvolvimento e mobilizao. Coletamos os dados atravs de entrevistas e observaes de aulas. Foram identificados diferentes saberes, destacando-se o saber da experincia. Dentre as possveis fontes de formao, ressaltamos a importncia de atividades extracurriculares vivenciadas na graduao e a experincia profissional em diferentes contextos de trabalho.

    PALAVRAS-CHAVE: saber docente; formao de professores; educao em qumica.

    OBJETIVO: Identificar a formao e mobilizao de saberes docentes em duas professoras, egressas de uma mesma graduao, mas que vivenciaram estruturas curriculares e trajetrias profissionais diferen-tes, reconhecendo a influncia desses fatores.

    INTRODUO

    A temtica saberes docentes vem se evidenciando nas pesquisas nacionais e internacionais sobre a for-mao de professores desde o final dos anos 1980 (Nunes, 2001; Gauthier, Martinea, Desbiens, Malo & Simard, 1998; Shulman, 1986a). Esses trabalhos buscaram legitimar a profisso, atribuindo-lhe um carter de profissionalizao e no um simples fazer por vocao. No Brasil, essas pesquisas tornaram-se mais relevantes a partir dos anos 1990 por meio das tradues de Tardif, Gauthier e Shulman, que trouxeram novos enfoques e perspectivas, ampliando a compreenso do assunto, principalmente a partir das tipologias resultantes de diferentes tradies tericas e metodolgicas (Nunes, 2001).

    Analisamos as principais concepes e tipologias dos saberes docentes nas obras de Tardif (2014), Gauthier et al. (1998) e Shulman (1986a, 1986b), investigando a definio do conceito e as caracters-ticas de cada tipo de saber. Embora esses autores utilizem termos diferentes para se referir aos saberes que compem suas tipologias, possvel fazer algumas aproximaes: 1) todos adotam o conceito de saber (ou conhecimento) de forma semelhante, ao admitir que h um corpus de saberes necessrios para a atuao profissional, que so plurais, construdos em diferentes momentos formativos e mobilizados

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    no exerccio da profisso para orientar a prtica docente; 2) as tipologias so diferentes, mas no exclu-dentes. Dessa forma, percebemos que h pelo menos trs grandes categorias de saber docente nesses autores: disciplinar, curricular e pedaggico. No entanto, existem especificidades a serem consideradas, relacionadas prtica e experincia profissional. Tardif valoriza o saber da experincia; Gauthier des-taca o saber da ao pedaggica e Shulman se aprofunda no conhecimento pedaggico do contedo (PCK). Tais referncias foram usadas para construir categorias de anlise dos dados.

    Este trabalho faz parte de uma pesquisa mais ampla que investiga em profundidade a trajetria profissional de professores de qumica. Trata-se de um recorte no qual buscamos responder a questo: como a formao e a trajetria profissional influenciam o desenvolvimento ou mobilizao de saberes docentes?

    Para isso, comparamos as diferentes vivncias de duas professoras: Clara e Sofia. Coletamos os da-dos atravs de observaes de suas aulas e entrevistas individuais. A partir dos referenciais analisados, definimos seis categorias de saber docente: pedaggico, disciplinar, curricular, experiencial, da ao pedaggica e PCK e buscamos perceber as possveis influncias no desenvolvimento ou mobilizao desses saberes.

    RESULTADOS E DISCUSSES

    Clara tem 32 anos, origem social pouco favorecida e frequentou escolas e curso pr-vestibular pblico. Ela escolheu licenciatura por ser noturno, menos concorrido que o bacharelado e devido influncia de professores. Concluiu o mestrado em qumica orgnica e tornou-se professora efetiva em duas escolas pblicas, atravs de concurso pblico, ministrando aulas de qumica para o ensino mdio. Ela afirma que as experincias no incio da carreira foram difceis, pois as aulas dadas na universidade esto muito aqum da rotina de uma sala de aula e que a maior motivao para se manter no cargo por ser concursada.

    Sofia tem 29 anos, origem social mdia e cultivou uma relao de proximidade com seus profes-sores que a fizeram gostar da profisso. Sua professora de qumica do cursinho foi o modelo para que ela optasse pela qumica. Durante a graduao, Sofia se envolveu em projetos relacionados ao ensino (como o PIBID1) e se interessava mais pelas matrias pedaggicas. Concluiu a graduao e comeou a lecionar matemtica e qumica para os nveis bsicos em escolas pblicas, como professora substituta. Recentemente, conseguiu aulas de qumica e acompanha algumas turmas com mais regularidade em uma escola. Apesar das dificuldades no incio da carreira, ela se mantm no cargo pelo prazer em en-sinar e pelo carinho com os alunos.

    Mesmo sendo egressas da mesma graduao, Sofia vivenciou uma estrutura curricular mais atual que Clara e isso implicou maior contato com o ensino e as escolas atravs do estgio. Consequente-mente, percebemos em Clara baixa mobilizao de saberes pedaggicos, pois cita poucas disciplinas pedaggicas marcantes e v os estgios mais como contra exemplos do que momentos de aprendiza-gem, assim, a formao inicial parece no ter contribudo como fonte de saberes pedaggicos. Isso pode estar relacionado insegurana e ao despreparo sentidos no incio da carreira. Para Clara, a reali-dade no tinha nada a ver com a Universidade e ela pensou at em abandonar a docncia. Contraria-mente, os saberes pedaggicos so marcantes para Sofia. Suas principais fontes de aquisio remetem s disciplinas pedaggicas, aos estgios e ao PIBID, que foram grandes motivadores e preparadores para a carreira docente, constituindo tambm fontes de saberes da experincia por proporcionarem a vivncia de situaes reais de ensino, que exigiam improvisao e habilidade.

    1. Programa Institucional de Bolsa de Iniciao Docncia, oferecido pelo Ministrio da Educao.

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    Em relao ao saber disciplinar, tambm percebemos diferenas. Clara se dedicou exclusivamente s disciplinas e afirma que todo o conhecimento que tive, meu embasamento terico foi dado na Uni-versidade, reconhecendo-a como uma fonte de saberes disciplinares. Por outro lado, Sofia se envolveu mais em projetos voltados para o ensino e faz poucas referncias s disciplinas cientficas que marcaram sua formao, apenas comenta que, s vezes, consulta livros de qumica de nvel superior para preparar suas aulas, mostrando que esse saber foi pouco desenvolvido.

    Clara tem um cargo mais estvel, com melhores condies de trabalho, que parece ter influenciado o desenvolvimento de saberes relacionados prtica e experincia profissional, como o saber curri-cular, formado principalmente no exerccio da docncia. Alm de conhecer e usar os materiais do cur-rculo, ela procura se especializar atravs de cursos oferecidos pela escola, congressos da rea de ensino de qumica e leituras sobre educao. Percebemos em Sofia um aspecto mais pontual desse saber: ela apenas demonstra conhecer o currculo, afirma us-lo como guia para planejar suas atividades e capaz de critic-lo ou sugerir adequaes.

    Outro saber orientado pela trajetria profissional o da experincia, marcante para ambas, mas constitudo de forma diferente. A formao inicial de Clara no a preparou para ser professora e ela encontrou na experincia formas de se constituir como docente. Buscando refletir sobre as dificuldades no incio da carreira, Clara foi aprimorando sua prtica, adaptando-se s necesidades. Em diversos momentos, h indcios do desenvolvimento do saber da experincia: atitudes recorrentes no incio da carreira e que mudaram com a prtica; o preparo das aulas elaborado com o tempo; a forma de se relacionar com os alunos, adequada s exigncias do trabalho. Esses saberes foram influenciados pela prpria prtica docente, mas tambm pela viso de Clara sobre a profisso, evidenciada pelo uso de jaleco em sala como um sinal de respeito e profissionalismo.

    Como enfatiza Tardif (2014), os saberes experienciais dos professores no so baseados apenas no trabalho em sala de aula e decorrem tambm de pr-concepes herdadas de sua histria pessoal e escolar. Por outro lado, Sofia acredita que aprendeu muito com a prtica, mostrando valorizao desse saber: acho que na faculdade a gente aprende muito, mas no dia a dia, na prtica tambm aprende bastante. mais no cotidiano, igual dirigir. Podemos relacionar esse aprender na prtica com a categoria de trabalho em que est inserida, marcada pela imprevisibilidade, que impede o professor de ter muito controle sobre as turmas ou disciplinas que ir assumir. Tendo que lidar constantemente com a causalidade das aulas, ela no desenvolveu ainda uma maneira de ser professora, mas consegue perceber esse constante aprendizado com a prtica cotidiana. Tardif (2014, p. 86) aponta que no in-cio da carreira que a estruturao do saber experiencial mais forte e importante e que a experincia inicial, progressivamente, vai dando certezas ao professor sobre o seu trabalho. Muito se aprende sobre a profisso na prtica e a partir dela que se desenvolvem os profissionais.

    A evoluo da carreira geralmente acompanhada do domnio maior do trabalho e da satisfao em relao aos alunos e s exigncias da profisso. Aos poucos, o professor vai construindo suas pr-prias aprendizagens e experincias, e vai sendo tomado por um sentimento de segurana e controle de suas funes (Tardif, 2014). No entanto, para professores em situaes precrias, torna-se difcil a edificao do saber da experincia no incio da carreira, pois para a consolidao das competncias pedaggicas, preciso estabilidade, o que no vivenciado por professores substitutos, por exemplo (Tardif, 2014). Alm da prpria prtica, percebemos tambm em Sofia a influncia de experincias de sua histria de vida, como a participao da famlia em tarefas ligadas ao ensino, a influncia de antigos professores na escolha da carreira e na maneira de ensinar, a relao afetiva com outros professores que se repete com os alunos, vivncias que se incorporam em sua prtica e contribuem para a consolidao do saber experiencial. Outro destaque nessa docente a presena de diversos professores em sua carrei-ra, como os do PIBID, da graduao e do ambiente escolar que a ajudam no preparo das aulas. Tardif (2014) afirma que atravs da relao com os pares, na troca entre os profesores sobre sua atuao que

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    o saber da experincia deixa de ser uma certeza subjetiva e adquire sistematizao, transformando-se num discurso da experincia, especialmente em professores novatos.

    Acerca do saber da ao pedaggica, que tambm tem origem na prtica docente, observamos que Clara o mobiliza em diversos momentos, como ao relatar as atividades em sala de aula, os comporta-mentos de ensino mais eficazes e as atitudes tomadas aps refletir sobre sua prtica. Esse saber ex-presso nas aes tomadas de forma consciente com o objetivo de melhorar a aprendizagem dos alunos ou facilitar a interao com a turma. Em contrapartida, no notamos aspectos desse saber em Sofia, talvez pela pouca experincia, por ainda estar explorando as melhores formas de atuao e ter poucos procedimentos bem estabelecidos.

    Em relao ao PCK, percebemos aspectos diferentes para as docentes. Quando Clara leciona so-bre modelos atmicos, tenta abordar esse contedo da forma que julga mais fcil; em outra situao, ela discorre sobre a forma como transpe o contedo aprendido na universidade (saber disciplinar), adaptando-o para a realidade e contexto dos alunos do ensino mdio. Acreditamos que essa atitude relaciona-se ao PCK, pois, como aponta Shulman (1986b), esse conhecimento inclui as formas de representar e formular um assunto de maneira compreensvel aos alunos. Em Sofia, verificamos uma caracterstica relacionada ao desenvolvimento do PCK: iniciou sua carreira lecionando matemtica. Ela assume que so necessrios determinados saberes para ensinar um contedo e no se sente prepa-rada para lecionar matemtica, talvez por no dominar os saberes dessa disciplina. Isso se relaciona ao PCK, pois o professor deve conhecer bem a matria (saber do contedo) e compreender minimamente as formas de ensin-la (saber pedaggico), para ento poder transformar o contedo em algo ensinvel (Shulman, 1986b).

    CONCLUSO

    Neste trabalho, analisamos o desenvolvimento e mobilizao dos saberes docentes de duas professoras de qumica. Identificamos a influncia do contexto e das condies de trabalho na constituio desses saberes confirmando e especificando dados obtidos por outros autores (Nunes, 2010; Tardif; Ray-mond, 2000).

    Para Clara, destacamos a mobilizao de saberes disciplinares oriundos principalmente da formao inicial e o desenvolvimento de saberes da experincia e da ao pedaggica; para Sofia, verificamos a valorizao de saberes pedaggicos e experienciais provenientes, sobretudo, de sua participao no PI-BID e em disciplinas pedaggicas na graduao. Sofia ainda est explorando as melhores formas para atuar em sala de aula, diferente de Clara, que j tem alguns procedimentos estabelecidos. Podemos associar isso, em partes, categoria de trabalho dessas docentes e ao tempo de profisso. Sofia novata e substituta, vivencia muitas situaes desconhecidas e imprevisveis, assim, busca respaldo na troca de experincia com outros professores e nos saberes adquiridos ao longo da formao inicial e da vida pr profissional. Por outro lado, Clara professora efetiva, com carreira mais estvel, leciona h mais tempo e, por isso, desenvolveu mais saberes relativos experincia profissional.

    A comparao entre elas indicou tambm uma relao entre a diferena curricular e a atuao docente. Sofia vivenciou uma estrutura curricular com mais disciplinas pedaggicas e atividades extra-curriculares, e isso pode ter contribudo para a escolha, permanncia na profisso e o desenvolvimento de saberes. Por outro lado, Clara passou por uma estrutura curricular pouco voltada para a formao de professores, o que pode ter colaborado para a escolha tardia da docncia, a pouca mobilizao de saberes pedaggicos, a maior influncia da formao cientfica na consolidao de saberes disciplinares e a pouca contribuio da formao pedaggica para sua carreira. Assim, percebemos que os saberes docentes so marcados pela diversidade, pois carregam em si as condies de trabalho de cada professor e as marcas de suas trajetrias pessoais e profissionais.

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