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    DESENVOLVIMENTISMO NOS GOVERNOS VARGAS E JK

    Alexandre Black de Albuquerque1

    RESUMO

    O artigo tem como objetivo analisar o processo de industrializao brasileira do

    primeiro governo Vargas at o governo JK e suas diferenas. A partir dos anos de 1930

    tem incio a industrializao brasileira, em grande medida, relacionada a acontecimentos

    internacionais como a crise de 1929 e a segunda Guerra Mundial. De todo modo nesse

    perodo que a ideologia do Estado interventor e desenvolvimentista surge e se

    desenvolve no Brasil. Com o Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek

    implementada a indstria de base no Brasil, mudando o perfil do sistema produtivo

    nacional. Foi o ponto alto do chamado desenvolvimentismo, que atravs da substituio

    de importaes pretendia industrializar a nao.

    Palavras-chave: Industrializao Governo Vargas Estado Desenvolvimentista

    Governo JK Plano de Metas.

    ABSTRACT

    This article aims to analyze the Brazilian industrialization process from the first Vargas

    government to the JK government and their differences. The Brazilian industrialization

    began during the 1930s, largely related to international events such as the 1929 crisis

    and the Second World War. In any case it is in this period that the ideology of intervenor

    and developmental state emerged and developed in Brazil. With government Plano de

    Metas (Target Plan) Juscelino Kubitscheks is implemented basic industry in Brazil,

    changing the profile of the national productive system. It was the highlight of the called

    developmentalism, that by replacing imports intended to industrialize the nation.

    Keywords: Industrialization Vargas Government Developmental State JK

    Government Target Plan.

    1 Mestre em Histria pela Universidade Federal de Pernambuco.

  • 2

    1. INTRODUO

    H setenta anos, com a ascenso de Getlio Vargas ao poder, comeou

    lentamente a tomar corpo no Brasil um movimento, conhecido como nacional-

    desenvolvimentismo, que tinha como objetivo tornar a economia nacional em algo mais

    sofisticada do que uma simples fornecedora de produtos primrios para o mercado

    internacional. Libertar o pas da dependncia da agricultura e torn-lo uma nao

    industrializada no seria uma tarefa fcil, nem rpida, mas at certo ponto, tal pretenso

    foi alcanada. O perodo desenvolvimentista costuma ser dividido em i) industrializao

    restringida (1933 1955) e ii) industrializao pesada (1955 1980). Durante a

    industrializao restringida o capital estrangeiro foi pouco relevante, atuando em ramos

    menos dinmicos, e compreendeu todo o perodo Vargas incluindo o interregno

    Dutra2. A industrializao pesada, que tem incio no governo Juscelino Kubitschek JK,

    por outro lado, utilizou de forma decidida o capital externo.

    A construo da indstria nacional comeou de forma hesitante ainda na segunda

    metade do sculo XIX e tomou grande impulso a partir dos anos trinta do sculo XX.

    Deste momento e at o incio dos anos de 1980, um vigoroso crescimento industrial

    mudaria profundamente a estrutura econmica do pas, proporcionando um grande

    processo de urbanizao que alterou profundamente a sociedade nativa. Para tanto, os

    sucessivos governos da poca abandonaram polticas econmicas ortodoxas, dentre

    estas, as que determinavam que o mercado capaz de, por si mesmo, promover o

    desenvolvimento. Alm disso desenvolveram a ideia de planejamento, exemplificada na

    criao de vrias agenciais estatais com esse objetivo e, assim, transformaram o Estado

    em grande aliado da economia industrial e no intermedirio entre o capital nacional e o

    estrangeiro. durante os dois governos Vargas 1930/45 e 1951/54 e o governo

    Juscelino Kubitschek 1956/1961 que essa tendncia se solidifica,

    2 Eurico Gaspar Dutra foi eleito presidente em 1945 e governou de 1946 a 1951.

  • 3

    Assim, na observao do modelo de industrializao concebido no Brasil, onde a funo do Estado para a implementao do desenvolvimento e, consequentemente, o progresso econmico se d de maneira direta, tambm o Estado o realizador (mediador) da aliana com o capital externo e o maior e principal impulsor estrutural do desenvolvimento industrial destacando que o modelo internacional de associao se constituiu na prpria condio da expanso industrial para os pases capitalistas perifricos. (Mouro, 2012, p.78).

    A diferena entre os dois governos estava centrada exatamente na questo do

    capital externo. A administrao Vargas procurava ter mais controle e autonomia frente

    aos investidores estrangeiros, inclusive considerando que havia um certo nvel de

    conflito entre autonomia nacional e capital externo. Sendo assim,

    [...]a figura do Estado assume um papel relevante, em razo de sua capacidade de definir um arranjo institucional baseado em crenas e ideologias, ao mesmo tempo que define normas, leis e regras institucionais formais para o alcance dessa estratgia. Especificamente em relao ao capital internacional, necessrio a construo de um arranjo institucional que minimize sua influncia, mas no sua participao, nos objetivos gerais decididos internamente. (Arend, 2009, p. 116).

    O mesmo no se pode dizer da administrao JK, que no via conflito, nem risco

    a soberania, nessa relao. Segundo Mouro (op. cit.),

    Juscelino Kubitschek procurou realizar o desenvolvimento econmico atravs da reelaborao das condies de dependncia, o que corresponde a uma transformao da direo e do sentido da poltica econmica governamental, ou melhor, mudana de concepo da ideologia desenvolvimentista. Para ele, a industrializao somente seria possvel no contexto da interdependncia e associao. Para tanto, Kubitschek executa seu governo jogando, simultaneamente, com a ideologia nacionalista e uma poltica econmica de tipo internacionalista sendo que ele o executa de maneira brilhante.

    Essa mudana transforma, segundo Arend, o nacional-desenvolvimentismo em

    desenvolvimentismo-internacionalista. Nesse ltimo, os setores dinmicos da indstria

    ficam sob controle externo, condicionando o desenvolvimento posterior da economia

  • 4

    brasileira as estratgias de acumulao desenvolvidas em centros de decises fora do

    Brasil. No entanto, essa diferena entre os dois governos no deve ser vista de forma

    esquemtica. Para implementar seus planos industrializantes Vargas no prescindiu do

    capital externo, e nem podia, dado o baixo nvel de poupana nacional e a dependncia

    tecnolgica do Brasil em relao pases centrais.

    2. DEPRESSO, PRIMEIRO GOVERNO VARGAS E INDUSTRIALIZAO

    A Grande Depresso Econmica de 1929 no tardou em depreciar os preos dos

    produtos primrios, quando o caf representava mais de 70% das exportaes

    brasileiras. A queda brusca da renda proporcionada pelo caf, e a sada de quase toda a

    reserva internacional em metais do pas, causaram uma forte desvalorizao da moeda,

    encarecendo bastante os bens importados, bem como beneficiando a indstria nacional.

    Tendo em vista que boa parte das fbricas brasileiras operava com grande nvel de

    ociosidade, no foram necessrios muitos investimentos nos primeiros anos da

    depresso para aumentar a produo. O binmio aumento de produo e baixo

    investimento terminou por propiciar a acumulao de capital necessria para expandir a

    capacidade instalada, quando a ociosidade foi eliminada. Nesta segunda fase houve um

    grande aumento das importaes de maquinrio industrial, muitos de segunda mo.

    Com isso, a produo industrial brasileira praticamente dobrou ao longo dos anos de

    1930.

    Esta expanso da indstria ocorre no primeiro governo Vargas e foi

    consequncia da poltica de manuteno do preo internacional do caf. A depreciao

    cambial, a primeira forma encontrada para proteger o lucro do setor cafeeiro,

    indiretamente, favoreceu a indstria ao tornar mais caro os bens importados. Outra

    maneira foi atravs da compra e queima dos estoques de caf pelo Estado, o que

    implicou no aumento da liquidez e, consequente, aumento do crdito e do consumo.

    Essa proteo ao setor cafeeiro fez com que a produo de caf no diminusse para se

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    ajustar demanda e, muito menos, fossem expulsos do mercado os produtores menos

    competitivos. O pas ainda no possua uma poltica de industrializao, sendo esta

    consequncia de fatores internacionais que tinham impacto sobre o ento maior setor da

    economia: o cafeeiro.

    Foi nos anos trinta que o Brasil veria surgir os primrdios da ideologia do

    planejamento econmico. O relatrio Niemeyer, publicado em 1931, primeira tentativa

    do Estado brasileiro determinar os principais problemas da economia e formular

    solues, demonstrou que a concentrao das exportaes praticamente num nico

    produto, o caf, era o maior entrave ao desenvolvimento econmico nacional. O

    relatrio Niemeyer, no entanto, no teve aplicao prtica, pois o caf continuou a

    comandar a poltica econmica e de desenvolvimento durante os anos de 1930.

    3. O ESTADO NO PRIMEIRO GOVERNO VARGAS

    A reforma do Estado estava em andamento desde a dcada de 1930, com o

    primeiro governo Vargas, quando grupos polticos que o apoiaram entenderam que era

    necessrio empreender tais reformas no mbito estatal, para adequ-lo nova realidade

    econmica nacional e mundial:

    Assim, nos anos de 1930-45, o governo federal criou comisses, conselhos, departamentos, institutos, companhias, fundaes e formulou planos. Alm disso, promulgou leis e decretos. E incentivou a realizao de debates, em nvel oficial e oficioso, sobre os problemas econmicos, financeiros, administrativos, educacionais, tecnolgicos e outros. As medidas adotadas pelo governo alcanaram praticamente todas as esferas da sociedade nacional. Tratava-se de estudar, coordenar, proteger, disciplinar, reorientar e incentivar as atividades produtivas em geral. (Ianni, 1971, p.22).

    Entretanto este processo era lento e sofria muitas interrupes provocadas pelos

    grupos prejudicados por estas reformas e que se uniram com o objetivo de preservar a

    totalidade ou parte das estruturas vigentes. Na tentativa de se impor perante esses

  • 6

    grupos Vargas cria um regime autoritrio-burocrtico de tipo centralizador e regulador.

    Tal regime era mais sensvel s necessidades da classe mdia... (Lafer, 2002, p.35) o

    que, na viso do autor, ajuda a explicar a persistncia das caractersticas do

    cartorialismo(idem).

    Para justificar esse autoritarismo inerente a seu projeto poltico, Vargas

    desenvolve a tese da impessoalidade do Estado sob seu comando, e da eficincia que

    seria possvel apenas sob um regime centralizador e livre das amarras do liberalismo,

    claro que, se por um lado as aes do governo na economia assumiam uma forte dose de antiliberalismo, por outro lado, principalmente na dcada de 1930, este intervencionismo estatal procurava justificar-se perante a sociedade pela busca de eficincia e pela promessa de relaes impessoais entre governo e sociedade. Eficincia, porque a criao de novas instituies possibilitaria o planejamento econmico, a adoo de critrios cientficos na tomada de decises e no aperfeioamento das tcnicas gerenciais, contribuindo para eliminar o uso de solues polticas, falcatruas, promessas demaggicas das eleies e o coronelismo no meio rural. Impessoalidade, pois se tratava de pensar um Estado integrado, centralizado em rgos nacionais, com objetivos acima das questes eleitorais e partidrias, sempre que possvel livre das influncias dos lderes locais e, preocupado com a organizao do governo de forma a garantir o cumprimento das metas de desenvolvimento do pas. No resta dvida de que este processo de mudana s foi possvel politicamente com forte autoritarismo. Mais tarde, j ao final do Estado Novo, a retrica populista, propondo melhor distribuio de renda e com apelos nacionalistas, tambm podem ser associadas busca de coeso s aes de interveno governamental em prol do desenvolvimento econmico. (Carraro; Fonseca, 2003, p. 11).

    Desenvolvendo, ento, reformas econmicas e sociais com forte dosagem

    autoritria, o governo Vargas, em 1931, nomeia a Comisso de Estudos Financeiros e

    Econmicos dos Estados e Municpios para fazer um amplo levantamento da situao

    financeira do pas, cujo trabalho foi completado em 1934, ano em que teve comeo uma

    profunda reestruturao do ministrio da economia, visando aumentar sua eficincia

    fiscalizadora e melhorar sua capacidade de formular polticas econmicas. Tambm se

    cria uma tendncia clara nos anos 1930: a centralizao das medidas econmicas em

  • 7

    mbito federal. A criao do Conselho Nacional do Caf tira dos estados produtores a

    responsabilidade pela defesa dos preos internacionais do produto. Neste perodo

    tambm criado o Instituto do Acar e do lcool, que passava a regulamentar o setor

    revelia dos estados produtores. Foram, tambm, criadas instituies financeiras com

    atuaes especficas para promover a agricultura, a indstria e a expanso da

    infraestrutura. Para que estas reformas e as novas instituies dessem certo, o governo

    adotou o sistema de mrito para recrutar novos burocratas. Em 1939, foi criado o

    Departamento Administrativo do Servio Pblico DASP, rgo de administrao

    geral, que comandava todos os cargos por mrito, selecionando e treinando os

    candidatos. Isto no quer dizer que o apadrinhamento tenha sido extinto, muito pelo

    contrrio, ele continuou sendo preponderante no Estado mesmo mais de vinte anos

    depois, no governo JK. Vargas deu incio a um processo onde o lado profissional, e

    relativamente eficiente do Estado, convivia com uma imensa burocracia patrimonialista.

    O DASP tambm ficou responsvel pela coordenao da elaborao do oramento

    federal; os ministrios elaboravam suas propostas oramentrias e enviavam ao DASP

    que consolidava a proposta e, a partir do ano 1946, encaminhava-a para o Congresso. O

    oramento era preparado de forma bastante primitiva; a expectativa de inflao futura

    mal entrava na proposta e as anlises microeconmicas dos projetos eram

    desconsideradas, o que tornava o oramento falho como instrumento de poltica

    econmica.

    4. AS CONSEQUNCIAS DA GUERRA

    Nos anos trinta do sculo XX a indstria brasileira ficou dependente do nvel do

    cmbio, bastante desvalorizado em relao s moedas dos pases centrais; como vimos,

    a produo pde crescer a taxas elevadas, a Guerra, no entanto, colocaria a economia

    brasileira numa situao diferente,

    No momento em que o mercado mundial se transformava de forma

  • 8

    crescente em um mercado de vendedores, isto , enquanto aumentava o nmero de compradores e diminua a oferta de mercadorias, o Brasil fixava o valor externo de sua moeda a um nvel de preos relativos que refletia a situao do decnio anterior[...] Tal situao, sem lugar a dvida, concorreu para agravar os efeitos dos srios desequilbrios internos surgidos na economia durante esse perodo. (Furtado, 1999, p. 206).

    Por sua vez, o virtual desaparecimento, no mercado internacional, dos bens

    tradicionalmente importados pelo Brasil, impossibilitava que, pelo menos, parte da

    renda obtida com as exportaes voltasse ao exterior via importaes, inundando, desta

    forma, a economia brasileira com uma onda de liquidez. Se por um lado esta conjuntura

    internacional concorreu para uma substancial elevao da inflao, por outro,

    proporcionou grandes benefcios indstria brasileira.

    Quase sem concorrentes internacionais em decorrncia da guerra, a indstria

    nacional pde prosseguir seu crescimento e at se aventurar no mercado externo, como

    foi o caso do setor txtil, que passou a exportar para pases da Amrica Latina e frica.

    O mais importante, no entanto, foi o crescimento qualitativo da produo industrial do

    pas. A indstria metalrgica e de mquinas obteve forte expanso, o que viria, num

    futuro prximo, trazer grandes benefcios ao conjunto da economia nacional.

    Outra importante consequncia da guerra foi a Misso Cooke; feita em conjunto

    com tcnicos brasileiros e norte-americanos, teve como objetivo determinar que tipo de

    ajuda material o Brasil poderia dar aos esforos de guerra. Segundo Baer (1966, p.32),

    Seu trabalho representou a primeira pesquisa analtica, e sistemtica feita a respeito da economia brasileira com o objetivo de formular um plano de ao. Empreendeu-se pela primeira vez uma anlise econmica do ponto de vista regional dividindo-se o pas em trs regies distintas (Nordeste, Centro-norte e Sul) cujas caractersticas econmicas diferenciavam-se suficientemente para justificar mtodos de anlise e programas de desenvolvimento diversos.

    No curto prazo, a misso Cooke no teve papel relevante na poltica econmica

    brasileira, mas em longo prazo teria uma certa dose de influncia sobre os elaboradores

    das primeiras intervenes estatais na economia, que tinham como objetivo o avano da

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    indstria e no algo relacionado ao caf. Com isso, certas recomendaes da misso,

    entre elas a de que a regio sul deveria ser favorecida, por ter inmeras vantagens

    comparativas, foram aplicadas categoricamente pelas autoridades; outras

    recomendaes, no entanto, foram esquecidas por dcadas, como a que estipulava que o

    processo de industrializao deveria ser papel da iniciativa privada, ficando a cargo do

    Estado, apenas, criar e manter o ambiente propcio para as inverses privadas.

    5. GOVERNO DUTRA, O INTERREGNO, E SEGUNDO GOVERNO VARGAS

    Ao trmino da guerra o Brasil possua vultosas reservas internacionais em

    moedas estrangeiras, com a queda de Vargas, uma das primeiras medidas do novo

    governo de Eurico Gaspar Dutra foi liberar qualquer restrio s importaes, o que

    provocou aumento drstico das mesmas e, em pouco tempo, as reservas brasileiras

    estavam esgotadas. Com isso, o governo foi obrigado a tomar medidas para restringir as

    importaes, o que favoreceu a indstria nacional, porm este favorecimento ainda

    estava ligado aos problemas do setor externo e no a uma consciente poltica de

    industrializao. A verdade que muitos consideravam que a exploso importadora era

    apenas um reajustamento normal, pois com o fim do conflito, o Brasil voltou a poder

    importar mercadorias dos pases centrais. O problema, no entanto, era mais complexo:

    enquanto que em 1947 a capacidade das exportaes pagarem as importaes era a

    mesma de 1929, a renda nacional havia crescido em cerca de 50%.

    Com o colapso das reservas, o governo resolveu impor controles cambiais para

    administrar as importaes. interessante notar que a taxa de cmbio da moeda

    brasileira ficou fixa e sobre valorizada em todo o perodo que vai de 1947 a 1953. Para

    conter a avalanche de importaes, o Estado lana mo de um,

    [...] drstico sistema de licenciamento das importaes. Teoricamente, podia-se importar qualquer tipo de mercadoria, mas os interessados deviam inscrever-se em listas de espera por categorias, estabelecidas de acordo com um sistema de prioridades fixadas pela Carteira de Exportao e Importao do Banco do Brasil (CEXIM), incumbida de

  • 10

    manejar todo o sistema de licenciamento. Podiam ser importados livremente artigos essenciais, como remdios, inseticidas e fertilizantes, e tinham prioridade no licenciamento certos bens, como combustveis, gneros alimentcios bsicos, cimento, papel, equipamento tipogrfico e maquinaria. Por outro lado desencorajava-se as importaes de bens de consumo, considerados suprfluos, atravs de sua incluso em interminveis listas de espera. (Baer, 1966, p.50)

    Este modelo, de cmbio valorizado e sistema de preferncias, provocou dois

    problemas que s podiam ser contornados com a mudana do prprio modelo adotado.

    O primeiro problema era referente ao cmbio sobre valorizado, que acarretou no

    aumento relativo dos preos dos produtos exportveis, diminuindo a capacidade

    exportadora; o segundo era relativo administrao do sistema de preferncia. Como a

    Carteira de Importao do Banco do Brasil CEXIM era quem decidia quais

    importadores deveriam ter preferncias, as acusaes de favorecimento e corrupo no

    tardaram a aparecer, pondo em risco a credibilidade do sistema. Por outro lado, esta

    poltica econmica favoreceu as inverses nas indstrias nacionais ligadas ao mercado

    interno devido ao sistema de preferncias, o qual restringiu drasticamente as

    importaes de bens de consumo, protegendo, desta forma, a indstria nacional. Alm

    disso, como os bens importados encontravam amplas restries para entrar no mercado

    interno e a capacidade instalada nacional estava no limite, levou a uma forte inflao

    dos preos dos produtos nacionais, enquanto os bens de capital importados pela

    indstria mantinham seus preos quase constantes. Em decorrncia, houve um forte

    aumento da lucratividade e, por isso, uma redistribuio de renda em prol da indstria.

    Essa redistribuio, no entanto, no acarretou em diminuio do consumo por parte da

    sociedade, isto ocorreu porque essa renda a mais, auferida pelo setor industrial, foi

    retirada do conjunto da coletividade, que havia aumentado bastante em tamanho e em

    poder de compra durante os vinte anos anteriores.

    Ao final, o que interessava para o governo era se o sistema de cmbio fixo e

    preferncias manteriam as importaes sob controle, e no h dvidas de que, neste

    sentido, o plano foi um sucesso. Se com isto ele favoreceu involuntariamente o processo

    de industrializao brasileira, no foi, certamente, a primeira vez que algo semelhante

  • 11

    ocorreu no pas. Nas palavras de Celso Furtado (1999, p.22),

    A poltica cambial, baixando relativamente os preos dos equipamentos e assegurando proteo contra concorrentes externos, criou a possibilidade de que esse enorme aumento de produtividade econmica fosse em grande parte capitalizado no setor industrial.

    Em 1951 Vargas reassume a Presidncia da Repblica em meio a um processo

    inflacionrio que tomou fora na economia brasileira, por volta de 1949, e que teve,

    como vimos acima, efeito benfico em relao s inverses na indstria, funcionando

    como um mecanismo de capitalizao por parte do setor empresarial. Esta redistribuio

    de renda por via inflacionria em favor dos empresrios no poderia, contudo, estimular

    indefinidamente o aumento dos investimentos produtivos. A mdio prazo, a inflao

    provocaria a retrao do consumo pela diminuio da renda real das famlias no

    proprietrias, no havendo, assim, o estmulo necessrio para que fosse mantido o nvel

    de investimento industrial. Assim sendo, a poltica cambial, de preferncias de

    importaes e a de capitalizao empresarial, teria, mais cedo ou mais tarde, que sofrer

    modificaes ou a inflao sairia de controle.

    Em 1953 os controles cambiais e de preferncias estavam em situao crtica.

    Denncias de corrupo e favorecimentos rondavam frequentemente o CEXIM e o

    sistema como um todo tinha alimentado um forte processo inflacionrio. Com crticas

    vindas de todos os lados, ficava claro que a poltica adotada no final dos anos de 1940

    havia chegado ao limite de suas possibilidades, levando o governo a fazer modificaes.

    Em janeiro de 1953 foi criado um mercado livre, mas limitado, de cmbio, sem,

    contudo, eliminar o mercado oficial, cujo cmbio continuava controlado e sobre

    valorizado. No mercado livre houve uma rpida desvalorizao da moeda, esse mercado

    ficou sendo usado pelo governo para estimular as exportaes, enquanto as importaes

    continuavam sendo cotadas pelo cmbio oficial. Em outubro de 1953 o sistema de

    cmbio sofreu outra, e desta vez profunda reforma. Foram estabelecidas taxas mltiplas

    de cmbio e classificadas as importaes em cinco categorias, de acordo com seu grau

    de necessidade; a cada categoria correspondia uma taxa de cmbio especfica. O sistema

  • 12

    de taxas mltiplas de cmbio representou uma certa desvalorizao da moeda,

    beneficiando as exportaes.

    Porm, o segundo governo Vargas no atuou apenas no cmbio ou na poltica

    monetria. Pela primeira vez so feitas intervenes claramente industrializantes. Na

    verdade, o compromisso com a industrializao vira uma das marcas do governo.

    desta poca a criao da Petrobras, do Banco Nacional de Desenvolvimento BNDE e

    comeou a se delinear uma verdadeira poltica para o setor automobilstico, que

    desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento dessa indstria no Brasil. Em

    1952, o Presidente baixa ato governamental estabelecendo que os automveis s

    poderiam entrar no Brasil totalmente desmontados. No final do seu governo criada a

    Comisso Executiva de Material Automobilstico CEIMA, que tinha como objetivos

    estimular o desenvolvimento da indstria de autopeas e implementar a fabricao

    progressiva de veculos automotores em territrio nacional.

    Nesse sentido, o plano de desenvolvimento econmico e social de Vargas pretendia consolidar o salto para a industrializao, criando novos blocos industriais e constituindo o setor pesado dos bens de produo. A questo principal reside no fato de que a estratgia foi pensada sob a liderana da empresa pblica, minimizando a participao da empresa estrangeira. O Plano evidenciava um contedo nacionalista, que no deixou de despertar resistncia por parte do capital estrangeiro e das agncias internacionais de financiamento. (Arend, 2009, p. 120).

    Esse relativo nacionalismo bloqueou parte dos recursos externos, deprimindo o

    crescimento e evidenciando a dependncia financeira e tecnolgica da economia

    brasileira em relao aos pases centrais, demonstrando que no seria tarefa trivial

    enveredar pelo caminho de um desenvolvimento relativamente autnomo.

    6. OS ANOS JK

    Durante o governo de JK, o Brasil experimentou uma de suas maiores fases de

    crescimento econmico. O Plano de Metas (cinquenta anos em cinco), que visava

  • 13

    industrializao pela substituio de importaes, e a construo de Braslia, Foi o auge

    do desenvolvimentismo. O aumento acelerado da inflao aparecia como detalhe

    insignificante, dado o robusto crescimento do PIB.

    No incio do seu mandato, JK comeou a construir um verdadeiro Estado

    paralelo, e tecnocrtico, ao j existente, patrimonialista e, portanto, formado para

    atender aos interesses oligrquicos. O governo JK criou o Conselho de

    Desenvolvimento, que seria responsvel pela implementao do Plano de Metas, e o

    Grupo Executivo da Indstria Automobilista GEIA, que tinha como funo

    desenvolver os estudos necessrios para viabilizao e implementao do parque

    automotivo. interessante notar que o Conselho de Desenvolvimento mantinha tanto

    um lado profissional como um lado oligrquico, j que suas secretarias estaduais foram

    entregues a polticos que apoiavam o governo, enquanto os auxiliares diretos do

    Presidente eram tcnicos de alto nvel. De qualquer forma JK criou uma estrutura estatal

    que estabelecia a mais profunda interveno econmica que o pas j havia presenciado,

    O poder pblico passara a atuar no sistema econmico do pas lanando mo de todos os recursos disponveis. Essa atuao destinou-se a acelerar o desenvolvimento econmico, particularmente a industrializao, e a impulsionar o setor privado nacional e estrangeiro.(Ianni, 1971, p.142).

    A fim de pr em prtica este ambicioso plano de desenvolvimento atravs da

    industrializao, eram necessrios vultosos recursos, no s tcnicos como tambm

    financeiros e, levando-se em conta que o oramento da Unio era extremamente mal

    formulado, e, por fim, demonstrando que o Estado seria uma arma decisiva em favor do

    crescimento, JK criou vrios Fundos Especiais de Investimentos voltados a objetivos

    especficos alm de ter renovado fundos preexistentes. Segundo Lafer (2002, p.91),

    A criao ou reorganizao dos Fundos foi decisiva para a implementao do programa de metas, uma vez que os Fundos operavam para reduzir ou remover as fontes de incerteza interna quanto ao financiamento das metas especficas. De fato, esses fundos no estavam sujeitos s vicissitudes tcnicas ou polticas do processo

  • 14

    oramentrio.

    Entre os Fundos reformados e/ou criados pelo governo JK estavam: Fundo

    Rodovirio Nacional, Fundo Nacional de Pavimentao, o Fundo de Renovao e

    Melhoramento das Ferrovias, o Fundo Aeronutico e o Porturio os quais tinham como

    objetivo investir na conservao, melhoria e ampliao da infraestrutura do transporte

    brasileiro. Seus recursos eram provenientes das prprias taxas de utilizao desta

    infraestrutura, de impostos sobre combustveis e lubrificantes e de sobretaxas sobre

    alguns produtos importados. Entre todos os fundos criados e/ou reformados pelo

    governo JK, destaca-se o BNDE, que teve participao decisiva tanto na captao de

    recursos como tambm na administrao destes. Vale salientar que o presidente

    Juscelino comprometeu-se pessoalmente com a boa administrao do BNDE. No seu

    governo tentou-se melhorar a eficincia da administrao pblica, admitindo que o

    Plano de Metas dependia disso. Tendo, porm, que enfrentar os interesses estabelecidos

    em torno de um Estado ineficiente, ele no teve alternativa, a no ser aprofundar

    estruturas contraditrias e, at excludentes, dentro do Estado brasileiro, criando, desta

    forma, uma verdadeira administrao paralela.

    7. O PLANO DE METAS

    Com o slogan cinquenta anos em cinco, Juscelino Kubitschek elegeu-se

    Presidente da Repblica nas eleies de 3 de outubro de 1955, tomando posse em 31 de

    janeiro do ano seguinte. O seu governo tinha como objetivo transformar e aprofundar a

    industrializao brasileira, atravs da implementao da indstria pesada. Para tanto, foi

    articulado o chamado Plano de Metas, o qual continha trinta metas agrupadas em cinco

    reas e uma meta que considerava especial. Algumas metas foram modificadas durante

    a execuo do plano e outras, nem chegaram perto do que se props, mas, em termos

    gerais, o programa conseguiu atingir seus objetivos, provocando um forte crescimento

    do PIB e um razovel aumento da renda per capita, tornando o Brasil da poca o pas

  • 15

    em desenvolvimento mais industrializado do mundo. Para pr em prtica o Plano de

    Metas, o nacional-desenvolvimentismo foi substitudo pelo desenvolvimentismo-

    internacionalista. Segundo Arend (2009, p. 134),

    Note que o iderio no deixa de ser desenvolvimentista, mas deixa de ser nacionalista e preocupado em cristalizar os centros internos de deciso. Tambm, a transformao abrupta da matriz industrial brasileira, a forte presena do capital estrangeiro nos setores dinmicos do processo de industrializao e a ruptura com a estratgia nacional de desenvolvimento encabeada pelo governo Vargas, tanto trariam efeitos imediatos quanto exerceriam impactos na dinmica de longo prazo da economia. A poltica econmica nacional teria que lidar agora com um novo arranjo de foras, j que os setores dinmicos do processo de industrializao, internalizados, estavam de posse do capital internacional.

    No curto prazo essa estratgia internacionalista permitiu altas taxas de

    crescimento econmico e um forte crescimento da indstria de bens durveis, no longo

    prazo, no entanto, a economia, e a poltica interna brasileira, ficaria cada vez mais

    atrelada a decises emanadas dos centros do sistema capitalista, limitando a margem de

    manobra dos governos posteriores, o que terminaria por contribuir com o longo perodo

    de estagnao iniciado na dcada de 1980.

    7.1. reas e Metas do Plano e Resultados Macroeconmicos

    As cinco reas do plano eram: Energia (metas 1 a 5); Transportes (metas 6 a 12);

    Alimentao (metas 13 a 18); Indstrias de base (metas 19 a 29); Educao (meta 30) e

    a Construo de Braslia como meta especial. Do ponto de vista econmico, o sucesso

    do plano pode ser atestado pelo crescimento do investimento e pelas altas taxas de

    crescimento do PIB no perodo, como mostra o quadro abaixo:

    Tabela 1

    Investimento e PIB 1956/60

  • 16

    ANO FORMAO BRUTA DE

    CAPITAL FIXO COMO

    PERCENTAGEM DO PIB

    PRODUTO INTERNO

    BRUTO AUMENTO

    ANUAL (EM %)

    1956 14,46% 2,9 %

    1957 15,04% 7,7%

    1958 16,68% 10,8%

    1959 17,99% 9,8%

    1960 15,72% 9,4% Fontes: IBGE (estatsticas do sculo XX); IPEA (IPEADATA).

    Como mostra o quadro 1, a taxa mdia de crescimento do PIB no perodo foi de

    expressivos 8,1% a.a. e, se excluirmos o primeiro ano de mandato, quando as incertezas

    causadas pela troca de governo costumam deprimir o crescimento, as taxas mdias do

    perodo sobem para 9,4% a.a. Logo, o PIB teve uma considervel alta de 47,5% durante

    o Governo JK. Comparando estes nmeros relativos macroeconomia do Governo JK

    com os dos dois governos anteriores, este leva clara vantagem. Entre 1946 e 1955, o

    PIB avanou as taxas de 6,5% a.a., enquanto a Formao Bruta de Capital Fixo FBCF

    foi, em mdia, de 12,9% a.a., contra 16% a.a. entre 1956 e 1960. Este desempenho

    tambm superior ao quinqunio 1935/40, o melhor daquela dcada, com a FBCP por

    volta de 14% e o PIB aumentando razo de 4% a.a.. Nmeros semelhantes teremos

    para o quinqunio 1940/1945. Na verdade, s durante o chamado milagre brasileiro o

    pas conseguiria ultrapassar estas marcas.

    Considerando outros aspectos, no entanto, o governo Kubitschek ficou atrs dos

    antecessores. Ao deixar o Governo, a inflao ameaava tornar-se um mal crnico e era

    bem superior a que tinha sido delegada pelos seus antecessores, como mostra o quadro

    abaixo.

    Tabela 2

    Inflao anual IGP-DI, 1946-60

  • 17

    Ano Inflao Ano Inflao

    1946 22,23% 1954 25,87%

    1947 2,74% 1955 12,15%

    1948 7,97% 1956 24,57%

    1949 12,29% 1957 6,95%

    1950 12,41% 1958 24,38%

    1951 12,34% 1959 39,44%

    1952 12,72% 1960 30,46%

    1953 20,51%

    Fonte: IPEA (IPEADATA).

    Pelo quadro 2, fica claro que o governo do Presidente Eurico Gaspar Dutra

    (1946-1951) foi o mais competente no combate alta de preos, enquanto que na

    administrao de Getlio, a inflao sofre constante aumento, chegando a nveis

    recordes ao fim do governo JK. Na verdade, esta diferena na demanda inflacionria

    entre estes governos estava intimamente ligada viso que cada um deles tinha sobre o

    processo de desenvolvimento econmico brasileiro, sendo a viso de Vargas

    convergente, at certo ponto, com a de Juscelino, o que justifica uma relativa

    semelhana inflacionria entre os dois governos e uma distncia do perodo Dutra.

    Entre 1946 e 1950, o aumento dos preos tinha de ser controlado a qualquer custo,

    mesmo que tal controle significasse menos crescimento e industrializao; j entre 1951

    e 1960, a inflao foi um instrumento de financiamento da expanso industrial e

    econmica brasileira (Rangel, 1963).

    7.2. Financiamento, Inflao e Crescimento

    Em toda dcada de 1950 a inflao esteve em persistente alta, parte dessa alta

    deve-se ao modelo de industrializao e financiamento adotados no perodo, sem, no

    entanto, desconsiderar os gastos desnecessrios feitos pelo governo, uma vez que as

  • 18

    estruturas arcaicas do Estado no foram reformadas, persistindo, desta forma, problemas

    como excesso de pessoal e direcionamento de verbas para reas controladas pelas

    oligarquias que faziam parte da base de sustentao do governo. Empresas estatais

    ineficientes e deficitrias tambm recorreram ao errio para fechar suas contas e, em

    geral, foram atendidas. Estes gastos, assim como os ligados ao desenvolvimento

    industrial, eram financiados, em parte, pela expanso da base monetria e consequente

    aumento dos preos. Outro motor da inflao foi a mudana na estrutura do comrcio

    exterior, quando o pas comea e termina a dcada citada como exportador de bens

    primrios, sendo o caf responsvel pela maior parte das exportaes; contudo, as

    importaes passaram de bens de consumo para bens de capital, maquinrio e insumos

    produtivos. Significava que o valor agregado dos bens importados tendia a aumentar e,

    se verdade que bens primrios podem, em determinadas pocas, terem aumento de

    preo e/ou expressivo aumento do quantum exportado, no foi nem uma coisa nem

    outra que ocorreu com o principal produto de exportao brasileiro da poca: o caf. As

    vendas externas do produto, em termos de quantum, mantiveram-se inalteradas durante

    aquela dcada, enquanto o preo internacional do produto teve forte queda e a produo

    nacional simplesmente dobrou. Com tudo isso, era de se esperar queda na renda deste

    setor, porm no foi isso o que aconteceu. Atravs de polticas pblicas, o Governo

    manteve o nvel de renda, em moeda nacional, do setor enquanto ele perdia renda em

    Dlar, o que diminua sua capacidade de promover importaes, logo, uma proporo

    cada vez maior dos lucros do caf tinha de ser gasta dentro do pas, sobretudo em bens

    de consumo e, como a produo nacional ainda no era capaz de atender a todo este

    aumento de demanda, criava-se uma forte presso inflacionria praticamente impossvel

    de ser reprimida, a no ser que o governo adotasse uma poltica econmica recessiva, o

    que era algo impensvel tanto para Vargas, como para JK.

    Durante este perodo da Economia Brasileira, o recrudescimento da inflao no

    diminuiu o crescimento econmico que, pelo contrrio, aumentava a cada ano, indo

    contra a teoria econmica estabelecida. Isso ocorria porque estava sendo feita uma

    transferncia de renda do consumidor para a indstria, o que aumentava a capacidade de

  • 19

    investimento desta ltima.

    O problema desta poltica econmica que, com ela se corria o risco de perder o

    controle da inflao, o que significava no exagerar a sua dosagem, e foi exatamente

    isso o que Juscelino fez. Em seu plano de governo havia uma meta especial, alm das

    trinta: a construo de Braslia. Plantada no meio do nada, esta nova Capital Federal

    exigiu, para ser erguida, que o Governo fosse buscar dinheiro de todas as formas

    possveis e o imposto inflacionrio tornou-se a soluo para todos os males, ou todos os

    financiamentos. Desta forma, o consumidor tinha de arcar, pela perda do poder de

    compra, com o desenvolvimento do projeto.

    Neste ponto, a questo saber se esse processo inflacionrio realmente

    contribuiu para aumentar a taxa de crescimento econmico e se manteve o mais

    eficiente possvel alocao de recursos. Para a primeira questo, as explicaes acima

    demonstram que a alta dos preos contribuiu positivamente para a expanso do PIB, em

    relao ao segundo tpico, como diz Baer (1965, p.125),

    Teme-se geralmente que a inflao provoque distores no investimento econmico, em virtude de suas repercusses sobre a distribuio dos haveres dos detentores de poupanas e sobre as decises dos investidores a respeito da estrutura de seus investimentos. Os primeiros daro preferncia aos haveres fsicos sobre os financeiros[...].

    Como vimos os poupadores basicamente no pouparo e o pas carecer de

    capital financeiro para investimentos em infraestrutura, o que claramente caracterizar

    uma m alocao de recursos. As taxas de juros, segundo o mesmo autor, constitui-se

    em outro problema:

    O surgimento de taxas negativas de juros outra maneira pela qual fortalecida a m alocao dos investimentos. Habitualmente, deve-se isso aos limites legais fixados para a taxa nominal de juros (12% no Brasil), geralmente inferior taxa efetiva de inflao, favorecendo o crdito a curto prazo e podendo distorcer os investimentos em benefcio dos projetos de curta maturao ou em favor de grupos bem relacionados nos crculos creditcios, e que podem no ser os mais eficientes. (Idem, p.126).

  • 20

    A despeito de todos esses fatores, parece que, no Brasil, e por razes particulares

    poltica e economia nacional, a alocao de recursos foi bem mais eficiente do que

    se poderia esperar, dado o nvel de inflao, ao longo da dcada de 1950. E os motivos

    apontados para que isso ocorresse esto no fato de que, no Brasil, altas taxas de inflao

    precedem, em muito, os anos cinquenta do sculo XX: logo toda estrutura econmica

    nacional j estava adaptada ao processo e, portanto, j sabia como se defender dele.

    Alm disso, a previsibilidade econmica no era afetada pelo mesmo motivo. Todos os

    agentes econmicos sabiam que o aumento dos preos seria razoavelmente elevado. Em

    economias de elevadas taxas de inflao espera-se aumento dos estoques e

    investimentos declinantes em projetos de longa maturao, como a indstria pesada e

    infraestrutura bsica, em prol da alocao de recursos em reas de curta maturao,

    como residncias. No entanto, no foi isso que ocorreu entre os agentes pblicos ou

    privados da economia nacional.

    interessante notar que, se por um lado, o Estado est menos preocupado com o

    curto prazo e, por isso, pode simplesmente desprezar o processo inflacionrio em suas

    expectativas de investimentos, e do retorno dos mesmos, por outro lado, o setor privado

    claramente tende a um alto grau de cautela em semelhante situao; assim, como no

    houve diminuio do investimento de longa maturao era de se esperar que o Estado

    fosse o responsvel por eles, enquanto os agentes privados aumentavam seus estoques e

    postergavam a ampliao da capacidade produtiva de suas empresas. Porm, no foi

    desta forma que a economia caminhou. O Estado realmente aumentou sua participao

    na formao de capital fixo, mas este fato est muito mais ligado prpria ideologia dos

    governos da poca, que pregavam maior participao econmica estatal, do que no

    processo inflacionrio. E, de qualquer modo, a indstria privada continuou a investir

    pesadamente, demonstrando acreditar que o crescimento da economia seria prolongado

    e que a inflao no sairia de controle. claro que, em qualquer pas em que

    historicamente os preos so estveis, um aumento de 20% em seu nvel, em um

    determinado ano, provocaria uma corrida para ativos financeiros de alta liquidez ou

  • 21

    ativos fsicos com boa capacidade de defesa contra a inflao, como imveis, levando a

    economia estagnao ou recesso.

    7.3. Resultados setoriais do Plano de Metas

    Qualquer anlise sobre o Plano de Metas tem de comparar suas expectativas de

    crescimento setorial estabelecidas em cada uma de suas metas e o crescimento

    realmente obtido. Desta forma, poderemos saber se o plano foi um sucesso ou um

    fracasso. claro que, para economistas liberais, o plano jamais deveria ter sado do

    papel pelo simples fato de aumentar profundamente a participao do Estado na

    economia, mas o que nos interessa aqui determinar se, atravs da poltica de

    desenvolvimento traada pelo governo JK, o pas passou ou no por um ciclo virtuoso

    de investimento e crescimento, capaz de ter ampliado e alterado a estrutura produtiva

    nacional. As expectativas e os resultados das principais metas foram os seguintes3:

    Meta 1 energia eltrica: visava a aumentar a produo eltrica de

    3.550.000kW, em 1955, para 5.000.000kW, em 1960. Esta meta foi quase totalmente

    cumprida e, em 1960, a capacidade instalada alcanava 4.800.000kW.

    Meta 4 Petrleo: na dcada de 1950, o ouro negro tinha uma grande

    conotao poltica, porm, sendo o produto lquido comercializvel mais barato do

    mundo, mais barato que gua mineral, a importncia econmica da sua produo num

    pas que no pretendia, e nem podia, ser exportador desse bem energtico, era bastante

    relativa. Mesmo assim, a meta para o petrleo era razoavelmente ambiciosa e previa

    aumentar sua produo de 10.000 barris dia, em 1955, para 90.000, em 1960, quando a

    produo chegou a 75.000 barris dia. No ano seguinte, a produo alcanaria a marca de

    95.000 barris por dia e representaria um tero do consumo nacional.

    Meta 5 Refino de petrleo: a meta foi plenamente atingida um ano depois do

    3 Fonte: para todas as metas apresentadas: JK e o PLANO DE METAS (Lafer, 2002) e ESTATSTICAS DO CCULO XX (IBGE, 2003).

  • 22

    previsto, ou seja, a capacidade de refino brasileira passou de 108.000 barris por dia para

    308.000.

    Meta 6 Ferrovias (melhorias): visava a modernizar a malha j instalada para

    torn-la mais eficiente. Foi estipulada a compra de 9 locomotivas eltricas e 408 a

    diesel, 1086 vages de passageiros e 10.493 de carga e 791.600 toneladas de trilhos. No

    perodo, o governo adquiriu efetivamente 9 locomotivas eltricas e 380 a diesel,

    comprou 554 vages de passageiros e 6.498 de carga e adquiriu 613.000 toneladas de

    trilhos. Est claro que a meta no foi atingida mas, por ser muito ambiciosa, os

    resultados podem ser considerados satisfatrios.

    Meta 7 Ferrovias (ampliao): esta meta foi muito pouco ambiciosa pois

    pretendia construir no mais que 1.600 quilmetros de ferrovias, e mesmo assim, s

    algo ao redor de 800 quilmetros foram implementados.

    Meta 8 Rodovias (pavimentao): foi ampliada seguidamente, passando de

    iniciais 3.000 quilmetros para 5.800 e pavimentados, efetivamente, 5.600 at 1960; em

    1961, chegou-se a 6.200 quilmetros pavimentados. Logo, esta foi uma das metas mais

    bem-sucedidas.

    Meta 9 Rodovias (construo): outra meta plenamente cumprida. Inicialmente,

    eram previstas a construo de 10.000 quilmetros de rodovias, mas, logo, esta meta foi

    ampliada para 13.000 e ao chegar o ano de 1961, o governo tinha construdo 13.500

    quilmetros. Pode-se contestar o fato de que o Plano de Metas priorizou as rodovias em

    detrimento das ferrovias, mas inegvel o fato de que as metas estipuladas, e at

    ampliadas, para as primeiras, foram cumpridas.

    Meta 11 Marinha Mercante: todos os navios novos que passaram a integrar a

    Marinha Mercante brasileira durante o Plano de Metas foram importados, mas, em

    parte, graas ao Plano, o Brasil se tornaria, num futuro prximo, produtor naval. De

    qualquer forma a meta estipulada para o setor, e que visava a diminuir a sada de divisas

    por contratar empresas estrangeiras de navegao para transportar nossas importaes e

    exportaes, foi quase totalmente atendida. Pretendia-se um aumento de 560.000

    toneladas de porte bruto, enquanto o aumento efetivo foi de 542.000t.

  • 23

    Meta 17 Mecanizao da agricultura: pretendia aumentar em cerca de 22.000 o

    nmero de tratores usados no campo. poca o Brasil no produzia este tipo de

    veculos, mas, como foram importados 27.500 tratores entre 1957 e 60, a meta foi

    devidamente cumprida.

    Meta 18 Fertilizantes: o objetivo era aumentar a produo e a utilizao pela

    lavoura, independente do nvel de aumento da produo interna. Em vista disso, a

    utilizao de fertilizantes nitrogenados praticamente triplicou entre 1956 e 60 enquanto,

    no mesmo perodo, as importaes dobraram e a produo interna aumentou em trinta

    vezes.

    Meta 19 Siderurgia: visava a aumentar a produo de lingotes de ao de

    1.200.000t e a de laminados de 1.000.000t, em 1955, para 2.300.000t e 1.700.000t,

    respectivamente, em 1960. A meta foi atendida e a produo de ao em 1960 foi a

    determinada.

    Meta 22 Cimento: aumentou a capacidade instalada de 3.600.000t, em 1955,

    para 4.870.000t, em 1960, ante uma meta de 5.000.000t.

    Meta 23 lcalis: em 1955, a barrilha no era produzida no Brasil, porm em

    decorrncia do Plano de Metas, foi instalada uma fbrica que comeou a operar em

    1960 e, em 1962, j produzia 71.000t, mil a menos que a meta prevista, enquanto a

    produo de soda custica prevista para passar de 32.000t, em 1955, para 140.000t, em

    1960, chegou, em 1961, em 78.000t. Um largo aumento, mas a baixo do estabelecido.

    Meta 27 Indstria automobilstica: sem dvida, a maior marca do governo JK

    tinha como objetivo produzir 140.000 veculos motorizados em 1960, com ndice de

    nacionalizao variando de 90% a 95%, em relao ao peso. Em 1960, a meta de

    nacionalizao foi alcanada, enquanto foram produzidos 7.000 veculos a menos que o

    previsto, mas, no ano seguinte, a produo j batia na casa das 145.000 unidades,

    demonstrando o sucesso desta meta vital para o governo.

    Meta 29 Mecnica pesada e material eltrico: com o desenvolvimento geral da

    indstria, aumentou bastante a demanda por inmeros tipos de bens de capital, logo, o

    governo criou vrias formas de incentivo para o desenvolvimento deste setor, que at

  • 24

    ento era praticamente artesanal e, ao fim do governo JK, j estava interligado em

    verdadeiras cadeias industriais.

    8. DESEQUILBRIOS SETORIAIS, REGIONAIS E EXTERNOS

    O rpido processo de industrializao pelo qual o Brasil passou nos anos de

    1950, sobretudo no governo JK, ampliou desequilbrios de ordem econmica e gerou

    outros, aprofundando desigualdades regionais e setoriais. A expanso da populao

    urbana, as taxas muito superiores da populao rural, criou novos desafios relativos

    logstica e ao transporte urbano, enquanto o rpido aumento da produo modificou a

    estrutura do comrcio externo com consequncias nem sempre benficas para o Balano

    de Pagamentos. Logo, o forte crescimento industrial verificado no perodo no foi capaz

    de libertar o pas da necessidade de recorrer, de tempos em tempos, a emprstimos no

    exterior, pois a poupana interna, em nenhum momento, seguiu a trajetria de

    crescimento verificada no restante da economia nacional, e as diferenas de renda per

    capita entre as regies do pas, que j eram altas, aumentaram, tornando reas

    perifricas, como o Nordeste, cada vez mais atrasadas em relao ao Centro econmico

    do pas.

    Estes desequilbrios foram particularmente fortes na atividade agrcola, e os

    investimentos visando aumentar a produtividade deste setor foram nfimos, criando

    fortes presses inflacionrias. O rpido aumento da populao urbana concorreu para os

    constantes aumentos de preos dos produtos agrcolas, alm disso, o sistema de

    transporte de carga deficiente e a falta de uma estrutura condizente de armazenagem

    provocavam enormes perdas de alimentos que, na poca, foram calculadas em cerca de

    20% da produo. Outro problema foi a arcaica estrutura agrria, sobretudo a

    nordestina, que ficou esttica no perodo, baseada na dicotomia latifndio/minifndio,

    onde a agricultura no contribua nem para aumentar a renda de parcela considervel da

    populao, nem para manter estvel os preos dos produtos agrcolas, alm de favorecer

    uma intensa migrao do campo para as cidades, o que provocava um processo de

  • 25

    favelizao dos centros urbanos e depreciao salarial pelo aumento da concorrncia.

    Segundo Baer (1965, p.159),

    No h dvida de que os padres de estrutura agrria do Nordeste no contribuem para modificar o tipo de agricultura existente na regio nem sua produtividade. Em muitas zonas do Nordeste esto presentes as dificuldades tpicas da agricultura caracterizada pelo regime latifundirio e absentista. Problema inverso existe no extremo sul do pas: predominam as pequenas propriedades de fazendeiros de origem europeias, sofrendo as glebas subdivises sucessivas em consequncia das leis de herana. Trata-se de minifndios frequentemente antieconmicos.

    Os desequilbrios regionais tambm continuaram pronunciados. A

    industrializao ficou concentrada no Sudeste, e em menor escala, na regio Sul do pas,

    enquanto o Nordeste recebia muito pouco estmulo deste processo, ficando cada vez

    mais para trs em desenvolvimento industrial, com relao ao resto da nao. verdade

    que o Nordeste, h muito tempo, dispunha de uma renda total e per capita bem inferior

    s das regies economicamente mais dinmicas, tornando bem mais difcil para ela

    acompanhar o ritmo de desenvolvimento do resto do pas. Assim milhes de nordestinos

    migraram para outras regies, buscando oportunidades de vida e, entre estas pessoas,

    no raro, havia jovens com boa qualificao, prejudicando ainda mais a capacidade de

    crescimento do Nordeste. Em dose menor, isso tambm ocorreu com a regio Norte.

    Mas, logo o governo brasileiro percebeu, nesta regio, imensos recursos naturais, que

    terminaram por atrair investimentos pblicos e privados tornando a situao menos

    crtica que a do Nordeste.

    Outro ponto de desequilbrio era o comrcio externo. Durante todo o perodo de

    industrializao ps-depresso de 1930, o Brasil no conseguiu alterar a estrutura das

    suas exportaes, nem mesmo no perodo JK, fortemente baseadas em produtos

    primrios, como caf, algodo, cacau e acar. Ter este tipo de perfil exportador acarreta

    problemas relativos s contas externas, porque os bens primrios possuem baixo valor

    agregado e historicamente eles tendem a ter uma trajetria de queda de preos,

    prejudicando os termos de troca do pas. Foi exatamente isso que ocorreu a partir de

  • 26

    1954. Nos seis anos seguintes, o caf e o cacau viram seus valores carem pela metade

    enquanto o algodo e o acar j estavam caindo desde 1952 e, em 1960, suas cotaes

    equivaliam a 40% do pico no incio dos anos cinquenta. Diante disso, o Brasil no

    conseguia aumentar o quantum exportado destas mercadorias, houve queda real das

    exportaes em dlar, mas, tambm, houve queda das importaes. Como isto foi

    possvel se o pas estava numa fase de forte crescimento econmico? O intenso processo

    de industrializao, pela substituio de importaes, explica este fenmeno. Neste

    perodo observou-se uma grande queda na compra de bens de consumo importados pelo

    simples motivo de que eles passaram a ser produzidos internamente, mas, tambm,

    diminuram as importaes de ao e equipamentos eltricos como era de se esperar em

    uma economia que comeava a se tornar verdadeiramente industrial; as compras de

    maquinrio fabril, entretanto, aumentaram fortemente e quase tudo vinha do exterior.

    Exportando bens primrios e importando bens industriais, sobretudo bens de consumo

    antes de 1954 e bens de capital depois deste ano, a balana comercial brasileira vivia em

    constante crise, forando o governo a fazer malabarismos para que o pas mantivesse

    capacidade para importar os bens necessrios ao desenvolvimento industrial. No h

    dvidas de que a poltica de desenvolvimento pr-industrializao do Plano de Metas

    fracassou em relao s exportaes, em parte por presso do setor cafeeiro, que tentava

    monopolizar todos os recursos financeiros e tcnicos disponveis destinados s

    exportaes, em parte porque no foi criada uma poltica de incentivos s exportaes

    tendo como foco a indstria de transformao que, desta forma, contentava-se em

    produzir apenas para o mercado interno e, como este mercado estava crescendo a passos

    largos, ele terminava por desincentivar a busca por mercados no exterior, complicada, e

    cara, cujo retorno nem sempre garantido.

    9. CONCLUSO

    Apenas a partir da dcada de 30 do sculo XX que a indstria comear a se

    tornar o motor do crescimento econmico. Mesmo assim o pas ainda teria que esperar

  • 27

    os anos de 1950 para ver, no poder, um projeto verdadeiramente industrializante.

    Figura indissocivel do surgimento do Estado industrial brasileiro, Getlio

    Vargas mantm a mtica at os dias atuais. Tanto que no ciclo liberal dos anos de 1990,

    o ento presidente Fernando Henrique Cardoso disse que subira ao poder para enterrar

    a herana Vargas, entendida como intervencionista, estatizante e causadora de

    ineficincias econmicas que deveriam ser extirpadas.

    Com o Plano de Metas JK transformou a base produtiva do pas mas no foi

    capaz de modificar a realidade social. Mesmo com o PIB crescendo a taxas elevadas

    durante o perodo de execuo do plano, milhes de pessoas continuaram na pobreza e

    na misria. Por outro lado, no h dvidas de que milhes de outras pessoas foram

    incorporadas as reas dinmicas da produo e, com isso, puderam melhorar

    notavelmente o padro de vida. Para Coprnico, sculos de geocentrismo terminaram

    por criar um monstro astronmico, no Brasil, dcadas de industrializao criou um

    monstro econmico-social. Um dos maiores mercados consumidores do mundo convive

    com uma das maiores disparidade de renda do Planeta.

    neste contexto em que se insere o governo de Juscelino Kubitschek. Durante

    seu mandato, uma onda de euforia tomou conta do pas, mas as crticas tambm no

    ficaram para trs, pois em sua administrao ficou evidente que a forma como se estava

    processando o crescimento industrial tinha consequncias, como a inflao e o aumento

    desenfreado dos gastos pblicos. A inflao seria um problema que acompanharia o

    Brasil durante muitos anos. Claramente, este fato demonstra que no fcil conciliar

    crescimento econmico com estabilidade de preos. Alm disso, o domnio que capital

    externo passou a exercer nos ramos mais dinmicos da economia nacional tornaram o

    desenvolvimento do pas bem mais dependente de decises a quais o Estado nacional

    no tm controle.

    REFERNCIAS

    AREND, Marcelo. 50 anos de industrializao do Brasil (1955-2005): uma anlise

  • 28

    evolucionria. Porto Alegre: UFRGS, 2009. (Tese de Doutorado em Economia da UFRGS). BAER, Werner. A industrializao e o desenvolvimento econmico no Brasil. 1 ed. Rio de Janeiro: Fundao Getlio Vargas, 1966. CARRARO, Andr & FONSECA, Pedro Cezar Dutra. O Desenvolvimento Econmico no Primeiro Governo de Vargas (1930-1945). Anais do V Congresso Brasileiro de Histria Econmica e 6a Conferncia Internacional de Histria de Empresas. Caxambu, MG v. CD-ROM, 2003. FURTADO, Celso. Formao econmica do Brasil. 29 ed. So Paulo: Companhia Editora Nacional, 1999. IANNI, Octvio. Estado e planejamento econmico no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Civilizao Brasileira S.A, 1971. IBGE. Estatsticas do Sculo XX. Livro & CD-ROM. Rio de Janeiro, 2003. IPEADATA. Disponvel em http://www.ipeadata.gov.br/ipeaweb.dll/. LAFER, Celso. JK e o programa de metas (1956-1961): processo de planejamento e sistema poltico no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002. MOURO, Rafael Pacheco. Desenvolvimento, industrializao e ordenamento poltico: uma discusso sobre os Estados em Getlio Vargas e Juscelino Kubitschek dois Estados, uma Ordem. Revista Histria em Curso. Minas Gerais, V. 2, n. 2, 2012. Disponvel em http://periodicos.pucminas.br/index.php/historiaemcurso/article/view/1866. Acesso em 23 de fevereiro de 2015. RANGEL, Igncio. A inflao brasileira. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1963.