desconhecimento do injusto ... - moderno direito penal do estado democrático de direito baseia-se...

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  • DESCONHECIMENTO DO INJUSTO,

    DESCONHECIMENTO DA LEI E CRIMES ECONMICOS

    Robson Antonio Galvo da Silva

    Rodrigo Snchez Rios

    RESUMO

    O desconhecimento do injusto e o desconhecimento da lei so conceitos arbitrariamente

    opostos pela doutrina dominante brasileira, o que traz como conseqncia a no

    aceitao da ignorncia da lei como erro de proibio direto. Embora se tratem de

    conceitos diversos, que no se recobrem reciprocamente, no se excluem inteiramente,

    porque o desconhecimento da lei pode sim fundamentar a ausncia de conscincia do

    injusto e, assim, afastar a culpabilidade. Para saber em quais situaes pode se

    configurar o erro de proibio imprescindvel precisar o que o autor deve saber para

    ter conhecimento do injusto do fato e, assim, poder haver reprovao. Vale dizer,

    imprescindvel precisar qual o objeto do conhecimento do injusto, pois se trata de

    aspecto fundamental para se identificar em quais situaes se configura o erro de

    proibio. Todavia, essa discusso praticamente ausente na doutrina brasileira, que se

    limita a difundir o entendimento de JESCHECK/WEIGEND. Analisando-se as teorias

    dominantes na atualidade, no entanto, pode-se concluir que a mxima ignorantia legis

    neminem excusat no pode constituir um postulado extrnseco que delimite e v servir

    de critrio falta de conhecimento do injusto. O conhecimento do injusto, elemento

    principal da culpabilidade, que comanda o princpio da irrelevncia do

    desconhecimento da lei e lhe assinala o seu sentido e limites. No se pode mais admitir

    que, com base em uma mxima destituda de fundamentos concretos e plausveis,

    continuem a existir condenaes em casos em que o autor no tinha conhecimento do

    injusto e, assim, agiu sem culpa, violando-se um dos principais pilares do Direito Penal

    Moderno. O assunto de especial relevncia aos crimes econmicos, uma vez que,

    normalmente, para conhecimento do injusto se faz necessrio o conhecimento da lei,

    Especialista em Direito Penal e Criminologia pela UFPR. Especialista em Direito Penal

    Econmico pela Universidad Castilla-La Mancha. Mestrando em Direito na PUC-PR. Doutor em Direito pela Universit degli studi di Roma.

    1820

  • sendo grande o nmero de casos nos tribunais ptrios em que, nessa seara, h

    condenaes sem culpa.

    PALAVRAS-CHAVES: PRINCPIO DA CULPABILIDADE; OBJETO DO

    CONHECIMENTO DO INJUSTO; DESCONHECIMENTO DA LEI; ERRO DE

    PROIBIO DIRETO; DELITOS ECONMICOS.

    RESUMENEM

    El desconocimiento de lo injusto y el desconocimiento de la ley son conceptos opuestos

    arbitrariamente en la doctrina brasilea dominante, y cuya consecuencia es el hecho de

    que no se acepte la ignorancia de la ley como error de prohibicin directo. Aunque sean

    dos conceptos diversos, que no se recubren recprocamente, no se excluyen totalmente,

    porque el desconocimiento de la ley puede fundamentar perfectamente la ausencia de

    consciencia de lo injusto y, de ese modo, desplazar la culpabilidad. Pero para saber en

    qu situaciones se puede configurar el error de prohibicin, es imprescindible precisar

    aquello que el autor debe saber para tener conocimiento de lo injusto de un hecho, a fin

    de que se pueda admitir el reproche. Vale decir que, es imprescindible precisar el objeto

    del conocimiento de lo injusto, puesto que se trata de un aspecto fundamental para

    identificar en qu situaciones se configura el error de prohibicin. No obstante, esta

    discusin prcticamente est ausente en la doctrina brasilea, que se limita a difundir el

    entendimiento de JESCHECK/WEIGEND. Si analizamos las tendencias actuales de las

    teoras dominantes, sin embargo, se puede llegar a la conclusin de que la mxima

    ignorantia legis neminem excusat no constituye un postulado extrnseco que delimite y

    que vaya a servir de criterio a la falta de conocimiento de lo injusto. El conocimiento de

    lo injusto, elemento principal de la culpabilidad, es el que rige el principio de la

    irrelevancia del desconocimiento de la ley y le asigna sentido y lmites. No se puede

    admitir definitivamente que, en base a una mxima destituida de fundamentos concretos

    y plausibles, se continen a imponer condenas para casos en el que el autor no tena

    conocimiento de lo injusto y, de ese modo, acto sin culpa, violando uno de los

    principales pilares del Derecho Penal Moderno. El asunto tiene especial relevancia con

    relacin a los delitos econmicos, puesto que, normalmente, para que haya

    conocimiento de lo injusto es necesario el conocimiento de la norma. Hay un gran

    1821

  • nmero de casos que tramitan en los tribunales patrios en los que a menudo, en ese

    campo, se condena sin culpa.

    PALAVRAS-CLAVE: PRINCIPIO DE LA CULPABILIDAD; OBJETO DEL

    CONOCIMIENTO DE LO INJUSTO; DESCONOCIMIENTO DE LA LEY; ERROR

    DE PROHIBICIN DIRECTO; CRMENES ECONMICOS.

    INTRODUO

    O moderno Direito Penal do Estado Democrtico de Direito baseia-se em

    dois pilares fundamentais, quais sejam, o princpio da legalidade e o princpio da

    culpabilidade. Este ltimo, como hodiernamente estruturado, tem por fundamento a

    imputabilidade (capacidade de saber o que faz), a conscincia da antijuridicidade (saber

    realmente o que faz) e a exigibilidade de conduta diversa (poder de no fazer o que faz).

    Trata-se de um juzo de reprovao pessoal, feito a um autor de um fato tpico e

    antijurdico, porque, podendo se comportar conforme o direito, o autor do referido fato

    optou livremente por se comportar contrrio ao direito.1

    Como lembram CONDE/ARN, a conscincia da antijuridicidade no

    um elemento suprfluo da culpabilidade seno, ao contrrio, um elemento principal e o

    que lhe d sua razo de ser.2 Para JESCHEK/WEIGEND, trata-se do ncleo central da

    reprovao de culpabilidade, posto que a deciso de cometer o fato adotada com pleno

    conhecimento de sua contrariedade norma jurdica evidencia do modo mais claro

    possvel a deficincia de uma atitude jurdica interna que prejudica o autor.3

    Porm, proporcional relevncia a complexidade do tema, como lembra

    FIGUEIREDO DIAS: O problema que aqui se considera ganhou desde h bastante tempo direito a ser tido como um dos mais importantes e debatidos, mas simultaneamente um dos mais complexos e obscuros, de todo o direito penal.4

    1 Nesse sentido, na doutrina nacional, vide por todos SANTOS, Juarez Cirino dos. Direito

    Penal: Parte Geral. 3 ed. Curitiba: ICPC, Lumen Juris, 2008. p. 281/282. 2 CONDE, Francisco Muoz/ARN, Mercedes Garca. Derecho Penal: Parte General.

    Valencia: Tirant Lo Blanch, 2007. p. 381. 3 JESCHECK, Hans-Heinrich/WEIGEND, Thomas. Tratado de Derecho Penal: Parte

    General. Granada: Comares, 2002. p. 486. 4 DIAS, Jorge de Figueiredo. O problema da conscincia da ilicitude em direito penal.

    Coimbra: Coimbra Editora, 1995. p. 1.

    1822

  • Como afirmam MAURACH/ZIPF5, a conscincia do injusto constitui um

    ponto de unio especialmente destacado entre a dogmtica penal, a poltica criminal e a

    criminologia.

    Sob o ponto de vista criminolgico, so aspectos relevantes a internalizao

    das normas por parte dos jovens, o choque de culturas distintas e, especialmente, o nvel

    cultural da populao. Sob o enfoque de poltica criminal, trata-se, por um lado, de

    entender o princpio da culpabilidade em relao com a concreta situao do autor no

    momento do exame da evitabilidade e, por outro, de observar a aceitao das normas e a

    confiana no ordenamento jurdico.6 Por fim, sob o ponto de vista da dogmtica,

    entendida como meio de defesa do cidado frente ao jus puniendi estatal, trata-se da

    limitao da criminalizao em casos em que no pode haver reprovao.

    Quanto a esse elemento essencial da culpabilidade, muito relevante a

    questo acerca do que consiste o substrato psquico mnimo de conhecimento do injusto

    para a configurar. Realmente, imprescindvel precisar o que o autor deve saber para ter

    conhecimento do injusto do fato e, assim, poder existir a reprovao.

    Em que pese a relevncia do assunto, a discusso praticamente ausente na

    doutrina dominante brasileira, que, basicamente, se limita a reproduzir o

    posicionamento de JESCHECK/WEIGEND e com a finalidade de tentar justificar que o

    desconhecimento da lei sempre seria inescusvel.7 Porm, trata-se de aspecto

    fundamental para se identificar em quais situaes se configura o erro de proibio.

    Assim, o objeto do presente trabalho a anlise das principais teorias

    existentes sobre o assunto, uma vez que a doutrina dominante brasileira no define,

    precisamente, o que o autor deve saber para ter conhecimento do injusto do fato e,

    assim, poder haver reprovao. Pretende-se, ainda, tecer algumas consideraes sobre o

    desconhecimento do injusto e o desconhecimento da lei, em virtude da oposio dos

    conceitos feita pela doutrina nacional. Por fim, ser feita uma especial meno aos

    crimes econmicos, setor em que, na maioria dos casos, o conhecimento do injusto

    depende do conhecimento da lei. no Direito Penal Econmico, tambm, que est

    5 MAURACH, Reinhart/ ZIPF, Hein. Derecho Penal: Parte General. Tomo I. Trad. Jorge

    Bofill Genzsch e Enrique Aimone Gibson. Buenos Aires: Editorial Astrea, 1994. p. 673. 6 Idem. Ibidem. 7 Nesse sentido, MIRABETE, Jlio Fabrini. Manual de Direito Penal. So Paulo

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