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Iris Marion Young*

Desafios ativistas democracia deliberativa

Activist challenges to deliberative democracy

Revista Brasileira de Cincia Poltica, n13. Braslia, janeiro - abril de 2014, pp. 187-212.

J foram cantados em prosa e verso os movimentos por justia social que protestaram nas ruas, convencidos de que as instituies existentes e os procedimentos normais s reforavam o status quo. Muitos direitos foram conquistados nas sociedades democrticas, por meio de corajoso ativismo a jornada de oito horas, o voto feminino, o direito de se sentar em qualquer restaurante. No entanto, a teoria democrtica contempornea raramente reflete sobre o papel da manifestao e da ao direta.1 Na verdade, pode-se imaginar que uma das principais linhagens da teoria democrtica contempornea, a teoria da democracia deliberativa, seja crtica em relao a tticas caractersticas do ativismo, como passeatas, boicotes ou ocupaes,

* Iris Marion Young (1949-2006) foi professora de cincia poltica da Universidade de Chicago, autora, entre outros livros, de Justice and the politics of difference (1990), Inclusion and democracy (2000) e Responsibility for justice (2011).

Este artigo foi publicado originalmente na Political Theory, v. 29, n. 5, outubro de 2001, sob o ttulo Activist challenges to deliberative democracy. Direitos autorais concedidos pela SAGE Publications. Traduo de Roberto Cataldo Costa. Reviso da traduo por Flvia Biroli. Nota da autora: Agradeo a David Alexander, Mick Burbules, Natasha Levinson, Emily Robertson e Stephen White, bem como a um revisor annimo da Political Theory, pelos comentrios teis sobre uma verso anterior deste ensaio.

1 H algumas excees. Jean Cohen e Andrew Arato (1992) teorizam o lugar dos movimentos sociais e da desobedincia civil no contexto da sociedade civil; Os argumentos de John Dryzek sobre a importncia dos movimentos de oposio da sociedade civil que esto situados fora do Estado tambm se referem atividade de manifestao e protesto. Ver Dryzek (2000), principalmente cap. 4; ver tambm Dryzek (1996). No obstante, a distino entre as normas da deliberao e as normas do ativismo que este ensaio explora no deve ser associada a uma distino entre Estado e sociedade civil. A sociedade civil certamente um espao para a poltica deliberativa, como muitos j apontaram, inclusive Dryzek, embora tambm costume ser um espao para ativismo.

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dado que essas so atividades de enfrentamento, em vez de debate, com as pessoas das quais os integrantes do movimento discordam.

Este ensaio constri um dilogo entre duas personagens com essas diferentes abordagens da ao poltica: uma democrata deliberativa e uma ativista. Um dilogo entre elas til porque suas receitas para a boa cida-dania divergem em alguns aspectos. Com esse exerccio, pretendo apontar algumas das limitaes de, pelo menos, algumas vises sobre as normas deliberativamente democrticas, principalmente se so entendidas como prticas orientadoras nas democracias existentes, em que as desigualdades estruturais esto na base de significativas injustias ou males sociais. Ao mesmo tempo, pretendo sublinhar algumas das virtudes de prticas polticas no deliberativas para a crtica democrtica. As personagens da democrata deliberativa e da ativista so construdas por mim como tipos ideais. Muitos tericos polticos e cidados certamente simpatizam com ambos, e as posi-es costumam se alternar e se misturar no mundo poltico.

Da forma como estabeleo sua personagem, a democrata deliberativa afirma que as partes do conflito poltico devem deliberar entre si e, por meio de argumentao razovel, tentar chegar a um acordo sobre as polticas que seja satisfatrio para todos. A ativista desconfia das exortaes deliberao por acreditar que, no mundo real da poltica, onde as desigualdades estru-turais influenciam procedimentos e resultados, processos democrticos que parecem cumprir as normas de deliberao geralmente tendem a beneficiar os agentes mais poderosos. Ela recomenda, portanto, que aqueles que se preocupam com a promoo de mais justia devem realizar principalmente a atividade de oposio crtica, em vez de tentar chegar a um acordo com quem sustenta estruturas de poder existentes ou delas se beneficia.

No dilogo que eu construo, as afirmaes da democrata deliberativa, de que a ativista visa apenas promover um interesse parcial, no parecem um ponto de vista razovel. Depois de responder, em nome da ativista, a essas acusaes ouvidas com frequncia, examino quatro desafios que ela traz recomendao de que os cidados responsveis devem seguir as normas da democracia deliberativa como a melhor forma de envolvimento poltico. Considero os primeiros desafios mais fceis para a democrata deliberativa responder do que os ltimos.

O objetivo dessa dialtica no recomendar um lado em detrimento do outro, porque acho que ambas as abordagens so vlidas e necessrias para uma

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prtica democrtica que vise promover a justia. Estabelecer uma relao crtica entre as abordagens dessa forma, no entanto, ajuda a fazer uma advertncia sobre a tentativa de colocar em prtica os ideais da democracia deliberativa em sociedades com desigualdades estruturais. Esse dilogo tambm revela tenses que no podem ser completamente resolvidas entre as duas posies.

As personagensNo esforo para associar s personagens uma sensao corporificada, atri-

bu pronomes de gnero especficos a cada uma delas. Essa deciso revela um dilema perturbador: elas devem ser ambas do sexo masculino, ambas do sexo feminino ou um homem e uma mulher? Decidir que uma deve ser homem e a outra, mulher s aumenta o dilema: qual delas deve ser o qu? Ao experimentar cada opo, descubro que minha atribuio evoca esteretipos indesejveis de qualquer maneira. Se o democrata deliberativo for homem, essa posio parece carregar o peso adicional da racionalidade e da calma, e a correspon-dente ativista feminina parece volvel e movida principalmente pela paixo. Apesar do risco que permanece de estereotipar o ativista fazendo-o parecer agressivo, decidi tornar a democrata deliberativa uma mulher e o ativista, um homem, pois, pelo menos essa atribuio associa mais a mulher ao poder.

Para os propsitos deste ensaio, entendo a democracia deliberativa como uma viso normativa das bases da legitimidade democrtica e uma receita de como os cidados devem engajar-se politicamente. A melhor e mais adequada maneira de conduzir a ao poltica, influenciar e tomar decises pblicas a deliberao pblica. Na deliberao, as partes do conflito, da divergncia e da tomada de decises propem solues para seus problemas coletivos e oferecem razes para elas, criticam as propostas e as razes umas das outras e esto abertas a ser criticadas. A democracia deliberativa difere de algumas outras atitudes e prticas na poltica democrtica por exortar os participantes no apenas a se preocuparem com seus prprios interesses, mas a ouvir e levar em conta os interesses dos outros, desde que sejam compatveis com a justia. Prticas da democracia deliberativa tambm tm o objetivo de sus-pender a influncia das diferenas de poder nos resultados polticos, pois o acordo entre os deliberadores deve ser alcanado com base no argumento, e no como resultado de ameaa ou fora.

A teoria da democracia deliberativa expressa, portanto, um conjunto de ideais normativos, segundo o qual os processos polticos reais so avaliados

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e geralmente considerados insuficientes. As decises polticas devem ser to-madas por meio de processos que envolvam todas as partes potencialmente afetadas ou seus representantes em um processo de deliberao pblica. Os deliberadores devem apelar justia e apresentar as razes para suas pro-postas em termos que consideram que os outros devam aceitar. Fazer isso exclui a afirmao do simples interesse parcial ou a tentativa de obrigar a aceitao por meio de ameaas e sanes.

Porm, da forma como a construo, a personagem da democrata delibe-rativa no apenas encontra, nos ideais da democracia deliberativa, meios para criticar processos polticos, mas tambm defende processos e aes para implementar procedimentos deliberativos na democracia realmente existente, com todo o seu conflito, divergncias e desigualdade econmica, social e poltica. A democrata deliberativa considera que a melhor maneira de limitar a dominao poltica e a pura imposio do interesse parcial, e promover maior justia social por meio de polticas pblicas, fomentar a criao de espaos e processos de deliberao entre elementos distintos e discordantes na comunidade poltica. Sendo assim, ela atribui vrias dispo-sies ao bom cidado. A cidad politicamente engajada que quer promover a justia social procura criticar e debater com aqueles de quem discorda ou com quem seus interesses inicialmente se chocam em situaes pblicas, em que tenta convencer os outros de que algumas polticas ou interesses tm consequncias ou aspectos injustos ou malficos. Mediante argumentao crtica aberta ao ponto de vista dos outros, ela tem como objetivo chegar a concluses polticas livremente aceitveis por todos os envolvidos.

Assim como a democrata deliberativa, o ativista apresenta sua postura como modelo de virtude cidad. Ele est comprometido com justia social e valor normativo, e com a ideia de que pessoas politicamente responsveis devem tomar medidas concretas para promov-los. Tambm acredita que o funcionamento normal das instituies econmicas e polticas da sociedade em que ele se situa gera ou reproduz problemas profundos algumas leis ou polticas tm efeitos injustos, estruturas sociais e econmicas causam injus-tia, animais no humanos e coisas so impropriamente ameaados, e assim por diante. Uma vez que

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