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Augustus Rio de Janeiro Vol. 07 N. 14 Jan./Jun. 2002 Semestral

AFINAO E DESAFINAO: PARMETROS PARA A AVALIAO VOCALSlvia Sobreira*RESUMO: As leis acsticas no so suficientes para justificar a escolha do que deve ser considerado afinado ou desafinado. Uma afinao considerada perfeita em um contexto pode no ser em outro. Os padres de afinao devem ser vistos como um fator cultural. Embora a palavra desafinado, como usada na lngua portuguesa, no remeta o problema a nenhum tipo de deficincia, seu correlato tone deafness utilizado na lngua inglesa pouco preciso e preconceituoso, havendo grande controvrsia a respeito de sua adequao. Percebe-se tambm que, na vida prtica, a categorizao das pessoas como desafinadas bastante comum, sendo freqentes os equvocos de avaliao. Existe a possibilidade de que alguns distrbios de ordem neurolgica possam ser os agentes causadores da desafinao ou de que desafinao seja um trao gentico. Entretanto, os estudos nestas reas ainda no so conclusivos. A classificao dos tipos de desafinados feita neste estudo leva em considerao as etapas percorridas por uma pessoa com dificuldade de afinao. ABSTRACT: Acoustic laws are not enough to justify the classification of what is to be considered in tune or out of tune. A pitch that is considered perfect within a certain context may not be considered so in another. Pitch patterns must be interpreted as a cultural factor. Although the employment of the term desafinado in Portuguese does not relate the problem to any kind of deficit, its corresponding terminology in English tone-deaf is little accurate and also biased, and there is a lot of controversy with respect to its adequacy. One can also notice that, in practice, it is very common to classify people as tone-deaf, and there are frequent evaluation mistakes. There is the possibility that some neurological disorders may be the cause of tone-deafness or that tone-deafness is a genetic feature. However, studies in these fields are not conclusive yet. The classification of subjects as tone-deaf, developed in this study, takes into account the stages followed by a person with a limited perception of pitch. PALAVRAS-CHAVE: Afinao Desafinao Padres de afinao Temperamento. KEY-WORDS: Correct pitch Tone-deafness Pitch patterns Temperament. Os termos afinar e desafinar no so de fcil definio, embora de uso corrente. O estudo do som atravs das leis da acstica pode ajudar a esclarecer alguns pontos, mas no suficiente para que se possa compreender todos os aspectos ligados afinao e, por conseqncia, desafinao. 58 Nosso objetivo mostrar que tanto a afinao quanto a desafinao devem ser analisadas a partir no apenas do ponto de vista acstico, mas tambm do cultural, sendo esse ltimo o fator o mais influente na definio de ambos os termos.

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Bacharel em Regncia pela UFRJ, Mestra em Educao Musical pela UNI-RIO; e Professora do TEPEM/UNI-RIO.

Augustus Rio de Janeiro Vol. 07 N. 14 Jan./Jun. 2002 Semestral

1. A Afinao sob uma Perspectiva Cultural.Dentre as possveis definies de afinao, pode-se encontrar a seguinte:estado de perfeito acordo entre todas as notas de um instrumento, de uma orquestra, de um grupo vocal, de um conjunto musical ou da voz humana. Ajuste de um instrumento ao tom de outro ou de uma voz (HOUAISS, 2001, p. 103).

rentes, essa diferena ser ouvida como batimento. Segundo Pickering (1995), batimento uma pulsao regular em intensidade que ocorre quando duas notas cujas freqncias so bem prximas, mas no a mesma, soam juntas. O nmero de pulsaes ouvidas em um segundo igual diferena em freqncia dos dois sons. Os batimentos cessam quando as duas freqncias ficam iguais (p. 191).

A altura de uma nota musical definida por sua freqncia que medida em ciclos por segundo (BUDDEN, 1978, p. 429). Hertz (Hz) representa a maneira simplificada e corriqueira de nos referirmos medida da freqncia. Freqncias regulares, constantes e estveis geram sons musicais com altura definida. Freqncias irregulares e instveis produzem o que se convencionou chamar rudo1. O ouvido humano s capaz de perceber os sons se suas freqncias estiverem compreendidas entre 15 e 20 mil Hz aproximadamente (MATRAS, 1991). Por volta de dezesseis Hz as vibraes so ouvidas como sons graves; quanto mais rpidas forem as vibraes, ou seja, quanto maior for sua freqncia, mais agudos sero os sons gerados. A partir de certa altura, os sons agudos vo progressivamente saindo da nossa faixa de percepo, e eles vo perdendo intensidade at desaparecer para ns, embora sejam escutveis (por um co, por exemplo) (WISNIK, 1989, p.19). Dentro do campo de audibilidade do ouvido so extrados aqueles utilizados musicalmente. Contudo, o sistema auditivo extrai alturas de uma ampla variedade de sons e rudos, mas apenas sons com certas qualidades so chamados de musicais, dependendo do contexto, da origem e da cultura (CARTERETTE; KENDAL, 1999, p. 730). Em termos acsticos, pode-se dizer que a afinao entre dois sons semelhantes e de origens distintas depende apenas da freqncia destes. Para se obter um unssono perfeito, ou seja, sons com a mesma altura, as suas freqncias devem ser iguais. Se esses sons forem ligeiramente dife1

Em se tratando de unssonos, a relao entre os sons parece simples de estabelecer: se ocorrerem batimentos, estes indicam que os sons esto desafinados; ao se afinar, os batimentos cessam. Porm, os batimentos no podem ser associados a sons desafinados, uma vez que eles sempre ocorrem quando o ouvido percebe dois sons diferentes.Com freqncia esse fenmeno de batimento incmodo; ele impede, de maneira corrente, a utilizao simultnea de duas notas de freqncia muito prximas. No entanto, os msicos tiraram disso um bom efeito no rgo: pode-se dar ao som um tom ondulante muito agradvel, utilizando o jogo celeste, formado de duas freqncias muito prximas, que batem entre si (MATRAS, 1991, p. 13).

Do ponto de vista estritamente acstico, o batimento pode indicar que os sons no esto afinados; entretanto, do ponto de vista cultural, o batimento no apenas tolerado, como algumas vezes, desejado. A Srie Harmnica e a Escolha do Padro de Afinao. Desde a Grcia antiga, msicos, fsicos e matemticos se empenharam em estudar as leis acsticas para esclarecer as relaes entre os sons musicais. No ocidente, a anlise da srie harmnica tem sido o ponto de partida para a compreenso dos intervalos musicais e das propores matemticas que justificam a afinao perfeita entre eles. Entre as vrias vibraes de um som, a de freqncia mais baixa e grave chamada de som fundamental ou som gerador. As demais freqncias so os sons que formam a srie harmnica (MATRAS, 1991). Essas freqncias no so ouvidas como sons distintos, mas como timbre. Um som sem harmnicos s pode ser produzido ele59

Para um maior aprofundamento a respeito da questo acstica, consultar MATRAS, 1991.

Augustus Rio de Janeiro Vol. 07 N. 14 Jan./Jun. 2002 Semestral

tronicamente (WISNIK, 1989). Os sons pobres em harmnicos, como o som do diapaso, por exemplo, no so considerados bons meios para a Exemplo 1: Srie Harmnica

expresso musical. A riqueza e a qualidade de um som musical depende da proporo em que os diferentes harmnicos se combinam.

Dentro da srie harmnica esto contidos todos os intervalos musicais. Tais intervalos so percebidos como consonantes ou dissonantes dependendo de determinadas caractersticas:[...] as notas cujas freqncias fundamentais so precisa e rigorosamente iguais a uma das freqncias harmnicas de uma determinada nota possuem com esta ltima uma afinidade particular. Compreende-se que essa afinidade, esse parentesco, seja mais estreita medida as duas notas tenham maior nmeros de harmnicos comuns. Isso significa encontrar teoricamente o que a experincia evidencia h milnios; a saber, essencialmente, que duas notas cujas freqncias fundamentais esto na relao 2 casam-se nas melhores condies possveis. [] convencionalmente, admite-se que so consonantes os sons de freqncias relativas: 2 e 3 que definem o intervalo de quinta (3/2) 3 e 4 que definem o intervalo de quarta (4/3) 4 e 5 que definem o intervalo de tera (5/4) 3 e 5 que definem o intervalo de sexta (5/3) 5 e 6 que definem o intervalo de tera menor (6/5) 5 e 8 que definem o intervalo de sexta menor (8/5) (MATRAS,1991, p. 41-42).

Pickering (1995), analisando a abordagem de Helmholtz sobre o assunto, esclarece que para este grande terico do sculo XIX, consonncia significa a ausncia de dissonncia; a sensao de dissonncia, por sua vez, caracterizada por batimentos rpidos. Um certo nmero de batimentos por segundo pode ser tolerado, mas existe um limite onde ele passa a ser ouvido como aspereza; esse limite varia de acordo com a altura dos sons, mas costuma ser mais acentuado na distncia de um semitom, desaparecendo distncia de uma tera menor (PICKERING, 1995). Contudo, mesmo a classificao da combinao dos sons como consonantes e dissonantes sofreu mudanas durante os vrios perodos histricos. Os intervalos de tera e sexta, por exemplo, eram considerados dissonantes na Idade Mdia, mas por volta do sculo XVI j eram aceitos como consonncias (PICKERING, 1995). Aqui voltamos ao problema dos batimentos e sua relao com a afinao. Pode-se afirmar que a afinao de dois sons de mesma altura ser mais perfeita se for caracterizada pela ausncia de batimentos; entretanto, ao se comparar sons distintos, que formam intervalos musicais, percebe-se que o batimento sempre existir, pois esse fenmeno est relacionado superposio dos harmnicos dos sons envolvidos. O batimento menor e quase imperceptvel nos intervalos consonantes e mais acentuado nos intervalos dissonantes. O batimento existente nas dissonncias no significa que os intervalos dissonantes sejam desafinados; contudo, os primeiros intervalos da srie harmnica, definidos como aqueles que tm o mximo de consonncia, parecem ter influenciado a evoluo das escalas de muitas culturas, apesar de no