Deliquencia Juvenil

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<p>82</p> <p>DELINQUNCIA JUVENIL NA PRODUO CIENTFICA NACIONAL: DISTNCIAS ENTRE ACHADOS CIENTFICOS E INTERVENES CONCRETAS</p> <p>Jana Gonalves ZappeUniversidade Federal de Santa Maria UFSM - Brasil</p> <p>Ana Cristina Garcia DiasUniversidade Federal de Santa Maria UFSM - Brasil</p> <p>Resumo Neste trabalho, apresenta-se um levantamento bibliogrfico a respeito da delinquncia juvenil. Objetivando investigar a produo cientfica nacional da ltima dcada, foram selecionados para este estudo 35 artigos publicados nos peridicos das bases de dados de Cincias da Sade em geral. So tambm apresentados os aspectos tericos e metodolgicos dos estudos, e os principais aspectos abordados nos trabalhos: instituies de controle social, aspectos sociopsicolgicos e individuais, valores humanos, polticas pblicas e propostas de interveno. Em concluso, destaca-se a necessidade de desenvolvimento de mais trabalhos que abordem o enfrentamento da delinquncia juvenil e a interdisciplinaridade como enfoque terico-prtico para lidar com esse fenmeno. Palavras-chave: delinquncia juvenil, institucionalizao; adolescncia.</p> <p>Introduo A violncia, srio problema de sade pblica, atualmente atinge a juventude de modo particularmente preocupante: entre os jovens que se encontram as mais altas estatsticas de mortalidade por agresses, assim como so os jovens os mais apontados como autores de agresses, tanto no pas quanto na Amrica Latina (KRUG et al., 2002). Os resultados dessa associao juventude e violncia - so graves e abrangentes. Alguns autores apontam que a dialtica letal do matar e morrer abrevia a expectativa de vida, reduz o potencial produtivo da populao, representa custos (diretos e indiretos) considerveis para as famlias e para o sistema de sade e compromete qualquer projeto de qualidade de vida (ASSIS; DESLANDES; SANTOS, 2005, p.80). Assim, um tema que deve ser privilegiado na</p> <p>Barbari. Santa Cruz do Sul, n. 33, ago./dez. 2010.</p> <p>83</p> <p>produo cientfica, pois o conhecimento acadmico necessrio para a construo de propostas concretas de enfrentamento desta complexa situao. A literatura aponta que a realidade dos jovens que so vtimas de violncia no difere da realidade dos jovens que se tornam autores de violncia. Atualmente, adolescentes so vtimas de violncia estrutural e de significativas formas de violncia familiar, escolar, comunitria e social (ASSIS; DESLANDES; SANTOS, 2005). A mortalidade juvenil um aspecto revelador desta situao, tendo em vista que a proporo de mortes por homicdios na populao jovem muito superior da populao no jovem. Segundo Waiselfisz (2004), a morte por causas externas (acidentes de trnsito, homicdios e suicdios) na populao jovem de 72%, e, dessas, 39,9% referem-se a homicdios praticados contra jovens. J em relao populao no jovem, a taxa de bitos por causas externas de 9,8%, e, desses, os homicdios representam apenas 3,3%. Neste contexto, destacam-se os casos de adolescentes que se encontram em conflito com a lei, cuja realidade no diferente da realidade dos demais adolescentes, conforme dito anteriormente, pois sujeitos aos mesmos riscos e s mesmas vulnerabilidades. Levantamento realizado em 2004 pelo Ministrio da Justia revelou que existiam 39.578 adolescentes no sistema socioeducativo em funo de terem cometido algum ato infracional (BRASIL, 2006a), o que representa uma parcela significativa da juventude brasileira e justifica a necessidade de estudos especficos. Nosso artigo direciona o interesse para os casos de adolescentes que cometem atos infracionais. No Brasil, a denominao utilizada na legislao pertinente adolescente em conflito com a lei (BRASIL, 1990), enquanto o termo delinquncia juvenil tem sido internacionalmente utilizado para se referir a esses casos. importante destacar a inexistncia de concordncia quanto nomenclatura mais adequada a ser utilizada. Volpi (1997) discute essa questo, salientando que o aspecto principal a ser considerado que se trata de adolescentes, ou seja, sujeitos em especial condio de desenvolvimento, devendo-se evitar expresses como adolescente infrator, ou, o que seria pior, menor infrator, pois estas so terminologias com forte conotao ideolgica. O termo delinquncia juvenil, por sua vez, remete a uma entidade, uma sndrome, ou seja, um quadro relativamente estvel, o que tambm contraria o carter de provisoriedade da adolescncia como um momento peculiar do desenvolvimento. O risco que se corre ao utilizar essas terminologias corresponde reduo da vida e da identidade do adolescente ao ato infracional cometido, aspecto amplamente discutido por Foucault (1997) e que se considera muito pertinente. Apesar disso, o termoBarbari. Santa Cruz do Sul, n. 33, ago./dez. 2010.</p> <p>84</p> <p>delinquncia juvenil corresponde ao descritor encontrado nas bases de dados que foram consultadas, de forma que seu uso facilita a busca de textos cientficos afins e a prpria divulgao do trabalho, sendo ento um termo til do ponto de vista da investigao proposta. Os casos de adolescentes que cometem atos infracionais tm sido abordados a partir de trs nveis de conceitualizao: o nvel estrutural, o sociopsicolgico e o individual, conforme sistematizao proposta por Shoemaker (1996). O nvel estrutural incorpora as condies sociais, enfatizando a influncia da organizao social na constituio do sujeito que comete atos infracionais. Nesse nvel, leva-se em considerao a associao entre delinquncia e pobreza ou desigualdade social, o que mais acentuado nas classes populares. O nvel sociopsicolgico refere-se s instituies de controle social, como a famlia e a escola, alm de aspectos como autoestima e influncia de grupos de pares no comportamento delinquente juvenil. Nesse nvel, considera-se a delinquncia como resultado de problemas na vinculao social do jovem com instituies como a famlia e a escola, entre outras, as quais seriam representantes das normas sociais. Nesse sentido, considera-se como fundamental o maior ou menor controle que essas instituies exercem sobre o jovem. Outro aspecto abordado neste nvel refere-se relao entre a autoestima do jovem e a delinquncia, considerando-se que esses fatores so inversamente proporcionais, ou seja, a delinquncia est relacionada com uma baixa autoestima. No nvel sociopsicolgico tambm se considera a relao entre delinquncia e a associao de jovens em grupos, entendendo-se que a influncia dos pares sobre o jovem e as inter-relaes estabelecidas nos grupos so fatores importantes de serem considerados na gnese da delinquncia (SHOEMAKER, 1996). Por fim, o nvel individual inclui aspectos biolgicos e psicolgicos, privilegiando os mecanismos internos do indivduo como determinantes para a delinquncia. Nesse nvel, considera-se que os aspectos biolgicos hereditrios e as caractersticas de personalidade, como a inteligncia, podem predispor o indivduo para a criminalidade. A personalidade pode ser considerada como fundamental para o entendimento da delinquncia, pois resulta justamente da interao entre as influncias do meio e a bagagem gentica individual. Alguns dos atributos de personalidade frequentemente relacionados com a delinquncia so: impulsividade, inabilidade em lidar com o outro e de aprender com a prpria experincia de vida, ausncia de culpa ou remorso por seus atos, insensibilidade dor de outrem e transgresses (SHOEMAKER, 1996).</p> <p>Barbari. Santa Cruz do Sul, n. 33, ago./dez. 2010.</p> <p>85</p> <p>Nenhum desses fatores suficiente de modo isolado para explicar a delinquncia, que considerada um fenmeno complexo, resultado da interao entre os diversos fatores organizados segundo os nveis estrutural, sociopsicolgico e individual, descritos anteriormente. Assim, um conhecimento abrangente acerca da delinquncia juvenil deve considerar uma anlise destes trs nveis integradamente (ASSIS; SOUZA, 1999). As atuais polticas pblicas que visam ao enfrentamento desse problema enfatizam a necessidade do trabalho de diferentes reas do conhecimento e especialidades, atravs da atuao de equipes tcnicas multidisciplinares (BRASIL, 2006a), o que compatvel com a considerao da delinquncia juvenil como um problema complexo e multifatorial. Dessa forma, torna-se relevante investigar o que as diferentes reas do conhecimento tm produzido acerca da delinquncia juvenil: como compreendem o fenmeno da delinquncia? Que metodologias de pesquisa utilizam? Quais os resultados que encontram? Quais os mtodos de trabalho/interveno que adotam? Como encaram a necessidade de trabalho em equipe? Procurando responder a essas questes, realizou-se um levantamento bibliogrfico a respeito da produo cientfica da rea da sade sobre a delinquncia juvenil. A partir deste levantamento, obtm-se uma viso geral da produo cientfica sobre este tema, sendo possvel identificar quais aspectos tm sido privilegiados nos estudos, e quais aspectos tm sido pouco abordados, o que relevante para a formulao de novos trabalhos com o propsito de acrescentar contribuies produo existente. Este trabalho de levantamento bibliogrfico se constitui, portanto, como uma abordagem inicial desta temtica, a qual ser importante para a definio de abordagens futuras, atravs de pesquisas de outra natureza. Mtodo Objetivando investigar a produo cientfica nacional da ltima dcada (1999 a 2009) a respeito da delinquncia juvenil, foram consultados os artigos publicados nos peridicos das bases de dados de Cincias da Sade em Geral (LILACS, IBECS, MEDLINE e SCIELO). A palavra-chave utilizada para a busca dos textos foi o prprio descritor delinquncia juvenil. Foram encontrados 122 trabalhos, 40 deles com texto completo disponvel on-line, sendo 35 deles artigos, os quais foram selecionados para este estudo. Foram selecionados apenas os trabalhos disponibilizados on-line em funo da facilidade de acesso, e descartados os trabalhos que no eram artigos cientficos, pois estes so textos de maior circulao e costumam chegar a um maior nmero de leitores.Barbari. Santa Cruz do Sul, n. 33, ago./dez. 2010.</p> <p>86</p> <p>A leitura dos trabalhos seguiu a metodologia proposta por Gil (1999), composta por quatro etapas: leitura exploratria, seletiva, analtica e interpretativa. Na primeira etapa, procura-se entrar em contato com os textos em sua totalidade, para aps realizar uma leitura aprofundada das partes que interessam ao trabalho (leitura seletiva). O prximo passo consiste em ordenar e sumariar as informaes encontradas, identificando-se as ideias-chave dos textos e construindo snteses (leitura analtica). Na ltima etapa, a leitura interpretativa, procura-se estabelecer relaes entre o contedo dos textos pesquisados, agrupando-os e assim conferindo um alcance mais amplo aos resultados obtidos com a leitura analtica. Assim, foram analisados os artigos segundo a rea das revistas onde os artigos foram publicados, os objetivos e a metodologia dos estudos apresentados. Por fim, foram analisados quais aspectos tm sido privilegiados nos estudos, quais os principais resultados e as principais concluses apontadas. A partir dessa anlise, foram classificados os trabalhos segundo os aspectos tericos e metodolgicos apresentados, sendo agrupados os resultados encontrados em quatro categorias temticas, com a finalidade de sistematizar os tpicos mais abordados nos artigos: instituies de controle social; aspectos sociopsicolgicos e individuais; valores humanos e polticas pblicas; propostas de interveno; conforme apresentados a seguir. Para este agrupamento em quatro categorias, considerou-se o principal tpico abordado em cada um dos artigos, sendo cada artigo includo em apenas uma das categorias. Resultados Aspectos tericos e metodolgicos dos estudos A maioria dos artigos foi publicada em revistas de psicologia e psicanlise (54%), e os demais foram publicados em revistas de sade pblica e coletiva (26%), psiquiatria (14%) e enfermagem (6%). Nesse sentido, pode-se supor que o maior interesse na abordagem da delinquncia juvenil como objeto de estudo, encontrado entre profissionais e pesquisadores da rea psi. Por um lado, este predomnio pode ser favorvel no sentido do desenvolvimento da cincia e da tcnica psicolgica, por outro, h que se considerar que o reduzido nmero de artigos das demais reas pode significar pouco interesse ou dificuldades tanto na compreenso quanto no manejo desses casos. Assim, esse dado pode significar dificuldades para a abordagem interdisciplinar da delinquncia juvenil, tanto em termos de compreenso quanto de enfrentamento do problema.Barbari. Santa Cruz do Sul, n. 33, ago./dez. 2010.</p> <p>87</p> <p>Quanto aos objetivos, a maioria dos artigos constitui-se de estudos que visam compreender a delinquncia juvenil (71%), tendo os demais (29%) abordado as formas de enfrentamento deste problema, tanto em termos preventivos quanto em termos das tcnicas de trabalho com adolescentes delinquentes. Com relao a esse resultado, percebe-se que h uma defasagem de trabalhos que abordam a atuao prtica com relao aos que propem uma compreenso do fenmeno. Quanto metodologia utilizada, os estudos que visam compreender a delinquncia juvenil utilizam estudos empricos (60%), reflexo terica (24%), reviso de literatura (8%) e estudo de caso (8%). Esse dado interessante na medida em que mostra que os pesquisadores encontram-se interessados em oferecer uma compreenso do fenmeno a partir de diferentes perspectivas terico-metodolgicas, o que favorvel no sentido de possibilitar entendimentos abrangentes que favorecem uma abordagem de maior amplitude. As pesquisas empricas sobre a compreenso da delinquncia juvenil utilizaram diferentes tcnicas de coleta de dados. Entrevistas semiestruturadas foram bastante utilizadas, tanto como tcnica nica quanto associada com outras tcnicas (nos estudos de ASSIS; SOUZA, 1999; DELLAGLIO; SANTOS; BORGES, 2004; FEIJ; ASSIS, 2004; DELLAGLIO et al., 2005; PINHO et al., 2006, entre outros). Tambm foram adotados questionrios (estudos realizados por MENIN, 2003; FORMIGA; GOUVEIA, 2005; PINHO et al., 2006; MARTINS; PILLON, 2008; SENA; COLARES, 2008), inventrios (nas pesquisas de CARVALHO; GOMIDE, 2005; DELLAGIO et. al., 2005), escalas (estudos de FORMIGA; GOUVEIA, 2005; SCHIMITT et al., 2006; BRANCO; WAGNER; DEMARCHI, 2008), tcnica de histria de vida (estudo de ASSIS; SOUZA, 1999) e Mapa da Rede Social (estudo de BRANCO; WAGNER; DEMARCHI, 2008). Os trabalhos que abordaram a temtica do enfrentamento da delinquncia juvenil apresentaram discusses sobre as tcnicas de trabalho com crianas e adolescentes em situaes de risco e vulnerabilidade ou institucionalizados. Essas so situaes que exigem um manejo tcnico especfico, que se diferencia das tcnicas de trabalho mais tradicionais. Guirado (2006), por exemplo, discute o exerccio da tcnica psicanaltica numa instituio que atende a adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas e indica a necessidade de repensar a clnica psicanaltica quando ela se exerce num contexto institucional. Nesse sentido, a autora defende a necessidade de ajustes tanto na tcnica quanto na prpria teoria, discutindo principalmente os conceitos de transferncia e de contextoBarbari. Santa Cruz do Sul, n....</p>