DEFEITOS DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS (PARTE 1): ERRO, ?· erro, que se baseia na teoria da responsabilidade…

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  • DEFEITOS DOS NEGCIOS JURDICOS (PARTE 1): ERRO, DOLO E COAO

    Rafael Medeiros Antunes Ferreira1

    RESUMO: Este artigo discorre sobre os defeitos do negcio jurdico, mais especificamente o

    erro, o dolo e a coao, apontando, ainda, para a diferena entre o erro e a reserva mental.

    PALAVRAS-CHAVE: Defeitos do negcio jurdico. Erro. Dolo. Coao. Reserva mental.

    1 INTRODUO

    O estudo do negcio jurdico um dos pontos nodais do Direito Civil, j que consubstancia a

    essncia da relao entre indivduos em um sistema jurdico. Na classificao dos fatos

    jurdicos, o negcio jurdico situa-se na categoria dos atos jurdicos lcitos, ao lado do ato

    jurdico stricto sensu.

    Um dos aspectos mais relevantes do estudo do negcio jurdico a anlise das diversas

    espcies de defeitos previstas no Cdigo Civil. Estes so os casos que, com maior frequncia,

    atormentam a jurisprudncia e desafiam a doutrina.

    No presente trabalho, abordaremos o erro, o dolo e a coao, incluindo a diferena entre erro e

    reserva mental, deixando a anlise do estado de perigo, da leso e da fraude contra credores

    para outra oportunidade.

    2 DESENVOLVIMENTO

    Os defeitos dos negcios jurdicos se dividem em duas categorias: vcio de consentimento e

    vcio social. No primeiro caso, h divergncia entre a vontade declarada e a vontade interna.

    So vcios de consentimento previstos no Cdigo Civil: erro, dolo, coao, estado de perigo e

    leso. J no segundo caso, h divergncia entre a vontade declarada e o ordenamento jurdico.

    O nico vcio social previsto no Cdigo Civil a fraude contra credores.

    1 Juiz de Direito do Estado de Pernambuco. Ex-membro do Ministrio Pblico de Minas Gerais.

  • 2

    Alguns autores, como SILVIO DE SALVO VENOSA2, incluem a simulao como vcio

    social. No entanto, a doutrina majoritria rejeita essa classificao porque a simulao no

    mais classificada como defeito de negcio jurdico no Cdigo Civil de 2002. Os defeitos

    geram anulabilidade do negcio jurdico (art. 171, II, do Cdigo Civil), mas, atualmente, a

    simulao gera nulidade absoluta (art. 167 do Cdigo Civil).

    2.1 ERRO

    O erro est previsto nos artigos 138 a 144 do Cdigo Civil. O estatuto civil fala em erro e

    ignorncia. A distino entre erro e ignorncia meramente doutrinria. No erro o

    desconhecimento parcial, ao passo que na ignorncia o desconhecimento total. Os efeitos

    prticos do erro e ignorncia so os mesmos.

    Erro comumente definido como a falsa percepo da realidade. Apesar de no estar

    equivocada, essa definio insuficiente, por conta da desconsiderao do erro de direito (art.

    139, III, do Cdigo Civil), no qual no h apenas a falsa percepo da realidade, mas sim a

    equivocada interpretao da norma jurdica.

    O erro classifica-se em substancial (ou essencial) e acidental (ou no essencial).

    O erro substancial aquele que incide sobre elementos determinantes para celebrao do

    negcio. Para gerar anulabilidade, o erro deve ser substancial (art. 139 do Cdigo Civil).

    Apenas esse tipo de erro relevante para o Direito, porque apenas ele caracteriza um vcio do

    consentimento: se ele no existisse, o negcio no seria praticado.

    Por outro lado, o erro acidental aquele que incide sobre elementos desimportantes. O

    exemplo clssico a compra de um carro de luxo, na qual incide em erro quanto existncia

    de rdio. No h vcio do consentimento porque o negcio jurdico seria praticado de qualquer

    forma.

    2 VENOSA, Slvio de Salvo. Cdigo Civil interpretado. So Paulo: Atlas, 2010.

  • 3

    Outra caracterstica do erro, alm da essencialidade, a espontaneidade: o erro parte do

    prprio declarante. H uma frase popular que se aplica ao caso: quem erra, erra sozinho. Se

    houver induzimento ao erro, h configurao de dolo.

    No Cdigo Civil de 1916, para anular o negcio jurdico, o erro tinha que ser escusvel. O

    diploma civilista no exigia tal caracterstica expressamente, mas a doutrina era unnime a

    respeito do tema. O erro grosseiro no gerava anulabilidade.

    Na vigncia do Cdigo Civil de 2002, a exigncia de escusabilidade do erro possui trs

    entendimentos diversos, o que consiste no ponto mais polmico sobre o erro.

    Para a corrente minoritria (CARLOS ROBERTO GONALVES3 e JOS CARLOS

    MOREIRA ALVES4), o Cdigo Civil de 2002 endossa o entendimento doutrinrio anterior ao

    contemplar explicitamente a exigncia de escusabilidade do erro na parte final do art. 138.

    Contudo, a corrente majoritria (SILVIO DE SALVO VENOSA5, CRISTIANO CHAVES

    DE FARIAS e NELSON ROSENVALD6, e HUMBERTO THEODORO JNIOR7) entende

    que o erro no precisa mais ser escusvel para anular o negcio jurdico. Inicialmente, pela

    mera interpretao literal percebe-se que a pessoa de diligncia normal referida no art. 138

    do Cdigo Civil no o declarante, mas sim o declaratrio. Alm disso, preciso considerar

    que, no Cdigo Civil de 1916, o erro escusvel anulava o negcio jurdico, ainda que fosse

    imperceptvel pela outra parte. Contudo, na conjuntura atual, essa soluo afronta a legtima

    expectativa do declaratrio, violando o princpio da confiana, que constitui umas das bases

    da boa-f objetiva.

    Essa corrente assevera que o princpio da confiana incompatvel com a escusabilidade do

    erro, que se baseia na teoria da responsabilidade (investiga-se a culpa do declarante quanto

    divergncia entre a vontade declarada e a vontade interna), atualmente superada pelo princpio

    da confiana. luz desse princpio, o enfoque do ordenamento jurdico deixa de ser o

    3 GONALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro. Parte geral. 8. ed. So Paulo: Saraiva, 2010. v. 1. 4 ALVES, Jos Carlos Moreira. A Parte Geral do Projeto do Cdigo Civil brasileiro. So Paulo: Saraiva, 1986. 5 VENOSA, Slvio de Salvo. Cdigo Civil interpretado. So Paulo: Atlas, 2010. 6 FARIAS, Cristiano Chaves; ROSENVALD, Nelson. Direito civil. Teoria Geral. 4. ed. Rio de Janeiro: Lumen

    Juris, 2006. 7 THEODORO JNIOR, Humberto. Negcio Jurdico. Existncia. Validade. Eficcia. Vcios. Fraude. Leso.

    Revista dos Tribunais, 780.

  • 4

    declarante e passa a ser o declaratrio. Esse o entendimento do Enunciado n 12 do

    Conselho da Justia Federal CJF.

    Por fim, GUSTAVO TEPEDINO8 e ZENO VELOSO9 acreditam que o erro tem ser escusvel

    e perceptvel pelo declaratrio. Essa corrente concorda que o dispositivo legal adota o

    princpio da confiana, mas entende que a adoo do princpio da confiana no

    incompatvel com a exigncia de escusabilidade do erro. Ao se exigir que o erro seja

    perceptvel, pretende-se proteger a legtima expectativa do declaratrio. Mas, para que a

    expectativa seja legtima, necessria a observncia, por parte do declaratrio, dos deveres

    anexos resultantes da boa-f objetiva, sendo um deles o dever de cuidado. Se o declaratrio

    no sabia, mas deveria saber do erro, h respeito boa-f subjetiva, mas h violao da boa-f

    objetiva. Por outro lado, quando se exige a escusabilidade, impe-se tambm ao declarante o

    dever anexo de cuidado. A boa-f objetiva envolve ambas as partes.

    Essa ltima corrente distancia-se da lgica do Cdigo Civil de 1916, na medida em que

    reinterpreta a escusabilidade do erro luz da boa-f objetiva. A escusabilidade no est mais

    baseada na anlise da culpa do declarante, mas sim no seu dever de cuidado.

    As hipteses de erro substancial esto listadas no art. 139 do Cdigo Civil. Primeiramente,

    possvel identificar o error in negotio (art. 139, I, 1 parte, do Cdigo Civil), que incide sobre

    a prpria natureza do negcio. a hiptese do sujeito que supe estar celebrando um contrato

    de emprstimo, quando, na verdade, est celebrando uma doao.

    Alm disso, h o error in corpore (art. 139, I, 2 parte, do Cdigo Civil), que incide sobre a

    prpria identidade do objeto, como, por exemplo, no caso do sujeito que supe estar

    comprando a casa no n 45 de determinada rua, quando, na realidade, est comprando a casa

    n 54. Ou do sujeito que supe estar comprando um imvel na rua XYZ de determinado

    municpio, quando est comprando um imvel na rua XYZ, localizada em outro municpio.

    Estes so exemplos acadmicos, meramente ilustrativos, mas de difcil observncia prtica.

    Contudo, possvel vislumbrar um caso mais comum, na situao em que um sujeito compra

    uma obra de arte falsificada.

    8 TEPEDINO, Gustavo. Comentrios ao novo Cdigo Civil. In: TEIXEIRA, Slvio de Figueiredo. So Paulo:

    Forense, 2008. v. X. 9 VELOSO, Zeno. Condio, termo e encargo. So Paulo: Malheiros Ed, 1997.

  • 5

    H, ainda, o error in substantia ou error in qualitate (art. 139, I, 3 parte, do Cdigo Civil),

    que incide sobre as qualidades do objeto. H alguns exemplos clssicos trazidos pela doutrina:

    sujeito compra esttua de osso, supondo ser de marfim; sujeito compra um relgio dourado,

    supondo ser de ouro.

    O error in substantia assemelha-se ao vcio redibitrio, mas com ele no se confunde,

    podendo ser apontadas as seguintes diferenas:

    Error in substantia Vcio redibitrio

    O defeito tem natureza subjetiva. O defeito oculto tem natureza objetiva.

    um vcio do consentimento. um elemento natural do negcio jurdico (ao lado da evico).

    Gera anulabilidade do negcio jurdico. Gera redibio do contrato ou abatimento.

    Exemplo: sujeito compra um relgio prateado, supondo ser de prata.

    Exemplo: sujeito compra um relgio que no funciona bem, atrasando sempre.

    Quadro 1. Principais diferenas entre o error in substantia e o vcio redibitrio.

    Num julgado recente interessante, o Superior Tribunal de Justia STJ tratou da diferena

    entre erro e vcio do produto (Cdigo de Defesa do Consumidor CDC). As caractersticas do

    vcio do produto se assemelham ao vcio redibitrio. A diferena que vcio do produto pode

    ser oculto ou aparente. Na hiptese, um sujeito havia comprado um carro simples supondo ser

    o mais luxuoso da categoria. Para o STJ, o prazo decadencial de vcio do produto s comea a

    correr aps o prazo de garantia contratual. Mas, como a hiptese era de erro (o carro

    funcionava normalmente), o prazo comeou a contar desde a prtica do negcio (REsp n

    1.021.261).

    Por sua vez, o error in persona (art. 139, II, do Cdigo Civil) incide sobre a pessoa. Ele tem

    relevncia em casos de contratos personalssimos, contratos gratuitos e casamento. Exemplos

    tpicos de contratos personalssimos: mandato e sociedade. No caso de casamento, h regra

    especial a respeito do tema no art. 1557, I, do Cdigo Civil.

    Por fim, h o erro de direito (art. 139, III, do Cdigo Civil), que representa o desconhecimento

    da norma ou a sua equivocada interpretao.

  • 6

    O Cdigo Civil de 1916 era omisso quanto ao erro de direito, gerando controvrsia na

    doutrina. CLVIS BEVILQUA10, dentre outros, refutava essa espcie de erro, com base no

    art. 3 da Lei de Introduo s Normas do Direito Brasileiro LINDB (Decreto-Lei n

    4.657/42): ningum pode se escusar de descumprir a lei alegando seu desconhecimento.

    Por outro lado, CAIO MRIO DA SILVA PEREIRA11 admitia o instituto nos exatos moldes

    da redao do art. 139, III, do Cdigo Civil de 2002: o erro, que no implique recusa

    aplicao da lei, deve ser o principal motivo do negcio jurdico.

    Ocorre que o erro de direito no exceo LINDB. Assim, por exemplo, se o sujeito

    importa determinadas mercadorias desconhecendo norma editada poucos dias antes vedando a

    importao dessas mercadorias, pode-se alegar erro de direito com a finalidade de anular o

    negcio jurdico, e no para importar as mercadorias, descumprindo a norma. Outro exemplo:

    se o sujeito compra um terreno para levantar empreendimento de seis andares, desconhecendo

    regra urbanstica recente estabelecendo gabarito de trs, o erro de direito serve para anular o

    empreendimento, e no para manter os seis andares do projeto original. A prpria redao do

    dispositivo afirma que o erro no pode implicar em recusa aplicao da lei. Logo, no h

    incompatibilidade entre as normas.

    Cabe ressaltar, no entanto, que, no caso concreto, o erro de direito tambm exige todos os

    requisitos das demais espcies de erro. Logo, o erro deve ser perceptvel para o declaratrio.

    Sendo caso de uma importao que envolva um declaratrio estrangeiro, dificilmente esse

    erro seria perceptvel a esse sujeito de boa-f, impossibilitando a alegao de erro de direito

    para anular o negcio. O erro de direito tutela no apenas o declarante, mas tambm a

    legtima expectativa do declaratrio. A anlise deve ser sempre casustica.

    importante salientar que a exigncia de perceptibilidade no pode conduzir ao

    enriquecimento sem causa, matria de ordem pblica prevista nos artigos 884 a 886 do

    Cdigo Civil. Em regra, o enriquecimento sem causa ocorrer nos casos em que no h

    anulao dos negcios jurdicos onerosos, como no caso em que uma parte recebe o

    pagamento, mas impossibilitado de cumprir com sua prestao. Logo, essa exigncia de

    10 BEVILQUA, Clvis. Cdigo Civil dos Estados Unidos do Brasil. Ed. histrica. Rio de Janeiro: Ed. Rio,

    1977. t. I. 11 PEREIRA, Caio Mrio da Silva. Instituies de direito civil. 20 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2004. v. I.

  • 7

    perceptividade do erro deve ser analisada com cautela. Se o erro conduzir ao enriquecimento

    sem causa do declaratrio, a perceptividade do erro pelo declaratrio pode ser dispensada.

    O estudo do erro tambm passa pela anlise do falso motivo. Quando expresso como razo

    determinante, o falso motivo vicia o negcio jurdico (art. 140 do Cdigo Civil). Nesse caso,

    o falso motivo deixa de ser subjetivo, pois exteriorizado. Esta a hiptese do sujeito que faz

    doao pelo fato de o donatrio ter salvado o filho do doador. Se for constatado que o

    donatrio no salvou o filho do doador, possvel anular a doao por erro.

    Exige-se que o falso motivo seja expresso como razo determinante. A doutrina afirma que o

    termo expresso no significa forma escrita. O falso motivo pode ter sido exteriorizado de

    forma verbal. Trata-se de matria probatria.

    A transmisso errnea por meios interpostos tambm gera anulabilidade do negcio jurdico

    (art. 141 do Cdigo Civil). Parte-se da premissa de que o declarante no esteja na presena do

    declaratrio. Os meios interpostos podem ser uma pessoa ou os meios de comunicao, como

    fax, email e telgrafo. Ento, por exemplo, se o fax sai ilegvel provocando a interpretao

    errnea da mensagem, o declarante pode anular o negcio. Da mesma forma, se o nncio (ou

    mensageiro) equivoca-se ao exteriorizar a vontade do declarante, possvel que este anule o

    negcio jurdico.

    SILVIO RODRIGUES12 assevera que, se o nncio for absolutamente desqualificado para

    celebrar o negcio jurdico, o negcio no pode ser anulado, pois houve culpa in eligendo. O

    nncio no pode ser desqualificado para celebrao de negcios complexos. Indo mais alm,

    GUSTAVO TEPEDINO13 afirma que, se o nncio age de m-f, tambm no h

    anulabilidade, pois tambm h culpa in eligendo.

    O nncio (ou mensageiro) age sem nenhuma autonomia. Ele um mero veculo de

    transmisso da vontade do declarante. Logo, nncio no sinnimo de representante

    convencional (ou mandatrio), que possui regras prprias do contrato de mandato. Assim, o

    advogado, apesar de representar a parte, tem autonomia para usar as melhores tcnicas e

    12 RODRIGUES, Silvio. Direito Civil. 32 ed. So Paulo: Saraiva, 2002. v. 1. 13 TEPEDINO, Gustavo. Comentrios ao novo Cdigo Civil. In: TEIXEIRA, Slvio de Figueiredo. So Paulo:

    Forense, 2008. v. X.

  • 8

    invocar os melhores argumentos. Na sistemtica do mandato, se o advogado atuar alm dos

    limites outorgados, o mandante no responde perante terceiros, mas sim o mandatrio (artigos

    662 e 665 do Cdigo Civil).

    Nada obstante, a teoria da aparncia pode mitigar essa regra, como na hiptese da parte

    contrria no ter como identificar que o mandante atua alm dos poderes. Assim, salvo a

    teoria da aparncia, o negcio vlido entre mandatrio e terceiro, mas ineficaz entre

    mandante e terceiro.

    No entanto, se o mandatrio atua dentro dos poderes, mas em desacordo com as instrues do

    mandante, o mandante se vincula (art. 679 do Cdigo Civil), surgindo a possibilidade de

    ajuizar ao de responsabilidade civil contra o mandatrio. Nesse caso, o negcio jurdico

    vlido e eficaz entre mandante e terceiro, mas o mandante tem ao de regresso contra o

    mandatrio.

    O erro ainda pode ser dividido em erro-motivo e erro obstativo (ou erro imprprio). Aquele

    incide na formao da vontade, o erro que gera anulabilidade. Este incide na declarao da

    vontade, um erro profundo, mais grave, que obsta a formao do negcio.

    No direito comparado, o erro obstativo abrange as hipteses de error in negotio e error in

    corpore. No direito alemo, ele gera nulidade absoluta, enquanto que, nos direitos italiano e

    francs, ele gera inexistncia. Entende-se que s h vcio de consentimento quando ele surge

    no momento da formao da vontade. Se o vcio surgir no momento da declarao de vontade,

    a hiptese de vcio na declarao da vontade, que no gera apenas a anulabilidade. A

    dicotomia entre erro obstativo e erro-motivo foi desprezada pelo Cdigo Civil brasileiro.

    Portanto, no direito ptrio, ambas as espcies de erro geram anulabilidade.

    2.2 RESERVA MENTAL

    A reserva mental est prevista no art. 110 do Cdigo Civil. sinnimo de reticncia: o sujeito

    declara algo com a reserva mental de no querer o que manifestou, ou seja, o sujeito

    reticente em relao quilo que declara. Nesse caso, h divergncia entre a vontade declarada

    e a vontade interna. O exemplo tpico a celebrao de mtuo com um suicida endividado,

  • 9

    onde um amigo declara a inteno de celebrar o mtuo com o suicida, com a reserva mental

    de no realizar o negcio.

    A reserva mental diferente do erro. Em ambos h divergncia entre vontade declarada e a

    vontade interna, mas na reserva mental, a divergncia entre a vontade declarada e vontade

    interna intencional.

    A vontade prevalecente depende da cincia do destinatrio, j que atualmente adota-se o

    princpio da confiana. Se o destinatrio da vontade no tem cincia da reserva mental, ele

    tem uma legtima expectativa. Nesse caso, prevalece a vontade declarada. Essa a regra geral

    (art. 110 do Cdigo Civil). Por outro lado, se o destinatrio sabe da reserva mental, prevalece

    a vontade interna, pois no h legtima expectativa.

    A legtima expectativa deve estar em consonncia com a boa-f objetiva, cujo desdobramento

    o dever de cuidado. Por isso, o Cdigo Civil usa frequentemente a expresso sabe ou devia

    saber. Se o sujeito deveria saber, mas no sabe, apesar de atuar com boa-f subjetiva, ele

    inobserva a boa-f objetiva.

    Mas, no caso da reserva mental, o legislador no usou essa tcnica. Logo, a vontade interna s

    prevalece se houver o efetivo conhecimento do destinatrio. Talvez porque a reserva mental

    seja um elemento estritamente subjetivo e, portanto, inexigvel que o declaratrio devesse

    saber a real inteno do declarante. H autores que criticam a redao e entendem que

    expresso salvo se dela o destinatrio devia ter conhecimento seria mais apropriada.

    H trs entendimentos diversos quanto natureza jurdica do negcio sem efeitos quando o

    declaratrio tem conhecimento da reserva mental (art. 110, parte final, do Cdigo Civil). Para

    uma corrente, trata-se de negcio anulvel, usando-se, por analogia, os vcios do

    consentimento. Essa corrente no acolhida na doutrina, uma vez que premissa do vcio de

    consentimento que a divergncia entre vontade declarada e vontade interna no seja

    intencional.

  • 10

    Para o entendimento predominante, defendido por CARLOS ROBERTO GONALVES14,

    CRISTIANO CHAVES DE FARIAS, NELSON ROSENVALD15 e JOS CARLOS

    MOREIRA ALVES16, trata-se de negcio inexistente. O fundamento se extrai da

    interpretao, a contrario sensu, do art. 110 do Cdigo Civil: a manifestao de vontade no

    subsiste.

    Por fim, GUSTAVO TEPEDINO17 e FBIO ULHOA COELHO18 afirmam que se trata de

    negcio nulo. H, de fato, uma simulao, que caso de nulidade absoluta. FBIO ULHOA

    COELHO apresenta o seguinte exemplo: dois scios administram uma pessoa jurdica com

    expressivas dvidas fiscais. Com inteno de se esquivarem dessas dvidas fiscais, os scios

    transferem suas quotas a terceiros. Posteriormente, as dvidas fiscais so anistiadas. Se os

    adquirentes das quotas no tinham cincia da reserva mental, evidente que o negcio

    permanecer intacto. Mas, se os adquirentes tinham conhecimento da reserva mental, h uma

    hiptese de simulao, tendo em que vista que os adquirentes e os alienantes, em conluio,

    tinham por objetivo fraudar o Fisco.

    GUSTAVO TEPEDINO19 entende que a diferena entre reserva mental e simulao o fato

    de que, na reserva mental, o declarante tem por objetivo enganar o declaratrio. Essa a

    soluo prevista no art. 244 do Cdigo Civil portugus.

    O renomado autor parte da premissa de que, se o declaratrio sabe da reserva mental, ele est

    em conluio com o declarante. Mas, nem sempre isso verdade. Pode existir uma situao em

    que um tio perdulrio pea constantemente dinheiro emprestado ao sobrinho, que sempre lhe

    nega. Mas, num jantar de famlia com muitas pessoas presentes, o sobrinho aceita emprestar

    dinheiro, como forma de evitar um constrangimento. Nesse caso, o declaratrio tem plena

    cincia da reserva mental, mas no h de se cogitar de conluio, j que, ao contrrio, o

    declarante vtima do declaratrio. Logo, entendemos que a anlise do conluio deve ser

    casustica.

    14 GONALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro. Parte geral. 8. ed. So Paulo: Saraiva, 2010. v. 1. 15 FARIAS, Cristiano Chaves; ROSENVALD, Nelson. Direito civil. Teoria Geral. 4. ed. Rio de Janeiro: Lumen

    Juris, 2006. 16 ALVES, Jos Carlos Moreira. A Parte Geral do Projeto do Cdigo Civil brasileiro. So Paulo: Saraiva, 1986. 17 TEPEDINO, Gustavo. Comentrios ao novo Cdigo Civil. In: TEIXEIRA, Slvio de Figueiredo. So Paulo:

    Forense, 2008. v. X. 18 COELHO, Fbio Ulhoa. Manual de Direito Comercial. 18 ed. So Paulo: Saraiva, 2007. 19 TEPEDINO, Gustavo. Comentrios ao novo Cdigo Civil. In: TEIXEIRA, Slvio de Figueiredo. So Paulo:

    Forense, 2008. v. X.

  • 11

    A hiptese do casamento de estrangeiro com mulher local para se esquivar da expulso seria

    outro exemplo que se encaixaria na posio do GUSTAVO TEPEDINO.

    NELSON NERY JUNIOR20 apresenta uma exceo ao princpio da confiana no art. 1899 do

    Cdigo Civil: no testamento, prevalece a interpretao que assegure a observncia da vontade

    do testador. Esse dispositivo consagra a teoria da vontade. uma exceo regra geral da

    reserva mental.

    A reserva mental pode ser absoluta ou relativa. Ela absoluta quando existe a declarao sem

    a inteno de celebrar qualquer negcio jurdico, como no caso de realizao de mtuo ao

    suicida. Por outro lado, ela relativa quando o sujeito declara a inteno de celebrar o

    negcio X, quando pretende celebrar o negcio Y. o caso do sujeito que declara estar

    doando quando pretende vender. Esta a mesma classificao atribuda simulao.

    No mandato em causa prpria, o sujeito celebra o mandato com a inteno de transferir a

    propriedade. H um negcio jurdico indireto: h utilizao consciente de um tipo negocial

    diferente daquele que usualmente utilizado para atingir o objetivo desejado. A vontade de

    ambas as partes livre e consciente. Logo, no h divergncia entre a vontade declarada e a

    vontade interna. Eventualmente, pode haver reserva legal no mandato em causa prpria, mas

    ela no da essncia do instituto.

    2.3 DOLO

    O dolo a provocao intencional do erro. O dolo est previsto nos artigos 145 a 150 do

    Cdigo Civil.

    H diversas espcies de dolo relevantes para a exata compreenso do instituto.

    Em primeiro lugar, o dolo pode ser principal (ou essencial ou determinante) ou acidental. O

    dolo principal incide sobre elementos decisivos do negcio jurdico. Se ele no existisse, o

    20 NERY JUNIOR, Nelson. Vcios do ato jurdico e reserva mental. So Paulo: Revista dos Tribunais, 1983.

  • 12

    negcio jurdico no seria celebrado. Logo, h vcio de consentimento, gerando anulabilidade

    (art. 145 do Cdigo Civil).

    A seu turno, o dolo acidental incide sobre elementos desimportantes do negcio jurdico. No

    h vcio de consentimento, pois o negcio seria realizado mesmo se ele no existisse, embora

    por outro modo. Por isso o negcio vlido, cabendo apenas perdas e danos (art. 146 do

    Cdigo Civil), desde que demonstrado o prejuzo. o caso de uma compra e venda de imvel,

    na qual o vendedor inventa uma doena inesperada para conseguir mais uma semana para

    entregar o imvel.

    O dolo tambm pode ser dividido em dolus malus e dolus bonus. O dolus malus a regra, o

    dolo que gera anulabilidade.

    O dolus bonus no compromete a validade do negcio. De acordo com entendimento

    amplamente dominante, ele se aplica aos casos de exageros usuais do comrcio. H quem

    afirme que o dolus bonus foi totalmente abolido pelo art. 37 do CDC, que veda a publicidade

    enganosa. Logo, no seria mais tolervel nenhum tipo de exagero. Nesse caso, todas as

    espcies de dolo gerariam nulidade, pois as normas do CDC so cogentes (em razo do

    interesse pblico).

    No entanto, a doutrina tende a atentar para a anlise do caso concreto. preciso que o dolo

    induza o consumidor em erro. Se o vendedor afirma que o produto o melhor do mundo, tal

    afirmao no deve ser apta a induzir o consumidor em erro, configurando-se o dolus bonus.

    Por outro lado, se o vendedor afirma que o produto tem 92% de aceitao popular, quando ele

    possui apenas 20%, o consumidor pode ser induzido em erro, configurando-se dolus malus.

    WASHINGTON DE BARROS MONTEIRO21, de forma isolada, afirma que o dolus bonus

    aquele praticado com finalidade elogivel. Exemplificando, o autor menciona o caso da

    pessoa que induz seu parente a tomar um remdio que ele precisa.

    H, ainda, o dolo por omisso, que o silncio intencional, apto a gerar anulabilidade (art.

    147 do Cdigo Civil).

    21 MONTEIRO, Washington de Barros. Curso de Direito Civil: parte geral. 38 ed. So Paulo: Saraiva, 2001. v.

    1.

  • 13

    No ponto, importante consignar que as categorias clssicas de inadimplemento previstas no

    Cdigo Civil so: mora e inadimplemento absoluto. Mas, luz da boa-f objetiva, surge outra

    categoria: a violao positiva do contrato. Uma de suas trs manifestaes a violao dos

    deveres anexos. Ento, aquele que viola um dever anexo tambm incorre em inadimplemento

    contratual. Por isso, GUSTAVO TEPEDINO22 assevera que quem incorre em dolo por

    omisso viola o dever anexo de informao, causando a violao positiva do contrato.

    O critrio para se distinguir o dolo por omisso (causa de anulabilidade do negcio) da

    violao positiva do contrato (causa de inadimplemento contratual) a fase contratual em que

    a omisso praticada. O dolo por omisso um vcio de consentimento, que representa um

    vcio na formao da vontade. A vontade se forma na fase pr-contratual. Aps a celebrao

    do contrato, se houver silncio intencional de um dos contratantes, haver inadimplemento

    contratual (violao positiva do contrato).

    Por sua vez, o dolo de terceiro est previsto no art. 148 do Cdigo Civil. Na prtica, costuma

    ocorrer com o corretor, que intermedeia o negcio. Se o beneficiado no sabe, nem deveria

    saber do dolo de terceiro, h uma legtima expectativa de sua parte. Logo, o negcio vlido

    e o terceiro responde por perdas e danos perante o prejudicado.

    Porm, se o beneficiado sabe ou deveria saber do dolo de terceiro, no h legtima expectativa

    de sua parte. Logo, o negcio jurdico pode ser invalidado, respondendo tanto o beneficiado

    como o terceiro por perdas e danos. Se o beneficirio sabe do dolo de terceiro, possvel

    atribu-lo at mesmo um dolo prprio, um dolo por omisso.

    No caso de perdas e danos devidas pelo beneficiado e pelo terceiro, parte da doutrina entende

    que no h solidariedade, pois a solidariedade no se presume (art. 265 do Cdigo Civil).

    Alm disso, no caso da coao por terceiro (art. 154 do Cdigo Civil), em situao muito

    parecida, o legislador previu solidariedade passiva. Logo, parece haver um silncio eloqente

    do legislador.

    22 TEPEDINO, Gustavo. Comentrios ao novo Cdigo Civil. In: TEIXEIRA, Slvio de Figueiredo. So Paulo:

    Forense, 2008. v. X.

  • 14

    No entanto, outra corrente alega ser possvel invocar a aplicao do art. 942 do Cdigo Civil,

    que constitui uma clusula geral de solidariedade passiva em sede de responsabilidade civil, o

    que nos parece mais razovel.

    Importante destacar que, se o dolo de terceiro for acidental, no h anulabilidade. Ainda que o

    beneficiado saiba ou devesse saber do dolo acidental de terceiro, no h anulabilidade, pois o

    dolo acidental no gera anulabilidade (art. 146 do Cdigo Civil). No caso, haver apenas

    direito a perdas e danos por parte do prejudicado.

    A sistemtica do dolo de terceiro foi moldada com base no princpio da confiana, de forma a

    tutelar a legtima expectativa do contratante. Por isso, a doutrina entende que o dolo de

    terceiro no se aplica a negcios jurdicos unilaterais (testamento, promessa de recompensa,

    gesto de negcios), nos quais no h que se falar em legtima expectativa da outra parte.

    Assim, no negcio jurdico unilateral, deve-se aplicar a regra geral dos artigos 145 e 146 do

    Cdigo Civil: se o dolo de terceiro for essencial, h anulabilidade; ao passo que se o dolo de

    terceiro for acidental, h perdas e danos.

    O dolo do representante tambm relevante para o estudo do dolo. Diversamente do Cdigo

    Civil de 1916, o Cdigo Civil de 2002, no art. 149, diferenciou as hipteses de dolo do

    representante legal das hipteses de dolo do representante convencional. A distino bem-

    vinda, pois na representao legal, a lei que escolhe o representante, e no o representado.

    Assim, na representao legal, o representado s responde at a importncia do proveito

    obtido, com fundamento no princpio da vedao ao enriquecimento sem causa. J na

    representao convencional, o representado responde solidariamente com o representante.

    Por fim, h o dolo recproco (ou dolo compensado ou dolo enantiomrfico). Em caso de dolo

    recproco, previsto no art. 150 do Cdigo Civil, nenhuma das partes pode pretender a

    anulao do negcio jurdico. O dolo recproco um exemplo de tu quoque: aquele que viola

    a lei ou o contrato no pode exigir de outrem o cumprimento da regra por ele transgredida.

    No Cdigo Civil de 1916, havia uma regra idntica para o caso de simulao. O Cdigo Civil

    de 2002 omisso a respeito deste tema. primeira vista, seria possvel supor que a mesma

    sistemtica do Cdigo Civil de 1916 poderia ser aplicada no Cdigo Civil de 2002, em

    respeito ao princpio da boa-f objetiva (vedao ao tu quoque), j que institutos de natureza

  • 15

    principiolgica no demandam previso legal expressa. No entanto, h uma razo de ser na

    omisso do atual Cdigo Civil: como a simulao causa de nulidade absoluta (e no

    nulidade relativa), ela tornou-se matria de ordem pblica, podendo at mesmo o juiz aleg-la

    de ofcio. Logo, qualquer parte pode alegar a simulao contra a outra para anular o negcio

    jurdico (Enunciado n 294 do CJF). Recentemente, o STJ endossou o entendimento do CJF

    (REsp n 776.304).

    2.4 COAO

    A coao est prevista nos artigos 151 a 155 do Cdigo Civil. A coao est associada ideia

    de ameaa, constrangimento. sabido que, para gerar vcio de consentimento, a coao tem

    que ser grave. Mas, o efeito da coao pode surtir efeitos totalmente diferentes dependendo da

    pessoa que a sofre, j que h pessoas mais sensveis ameaa. Assim, o juiz deve averiguar

    no caso concreto a suscetibilidade especfica do coagido (art. 152 do Cdigo Civil). O Cdigo

    Civil atual refutou a ideia do homem mdio.

    Alm de grave, a coao deve imputar dano ao prprio coagido, sua famlia ou aos seus

    bens (art. 151, caput, do Cdigo Civil). Se o dano for dirigido a um terceiro no integrante da

    famlia do coagido, o Cdigo Civil de 2002 inovou, permitindo ao juiz decidir por equidade

    (art. 151, pargrafo nico).

    De forma majoritria, a doutrina afirma que o parmetro adotado pelo juiz deve considerar o

    grau de proximidade entre o coagido e o terceiro. Os laos de afetividade podem ser mais

    intensos do que os laos de consanguinidade. Assim, a coao dirigida a um amigo prximo

    pode surtir mais efeito do que aquela dirigida a um familiar. Segundo uma leitura civil-

    constitucional, possvel at mesmo rever esse critrio de proximidade, dependendo da

    gravidade do bem jurdico ameaado. O princpio da solidariedade pode justificar a

    caracterizao do vcio do consentimento. Assim, por exemplo, se uma vizinha absolutamente

    distante est sendo ameaada da prtica de um crime de violncia sexual, a coao pode restar

    caracterizada.

    A coao pode ser fsica (ou vis absoluta) ou moral (ou vis compulsiva). Aquela gera a

    inexistncia do negcio jurdico, pois no h manifestao de vontade. A hiptese no de

    vcio do consentimento, mas inexistncia de vontade. Como exemplos, possvel citar:

  • 16

    algum segura a mo do analfabeto e assina um instrumento; algum impede que sujeito

    levante o brao durante a votao em uma assembleia.

    Por outro lado, na coao moral, h manifestao de vontade, porm viciada, caracterizando

    um vcio do consentimento, que gera anulabilidade. H uma margem de escolha para o

    coagido. o caso do sujeito que assina um contrato sob ameaa de ter seu filho sequestrado.

    A diferena entre coao fsica e coao moral objetiva: enquanto numa, h margem de

    escolha para o coagido, na outra no h margem de escolha. No entanto, na prtica, a

    tipificao da coao entre fsica ou moral deve ser casustica e levar em conta as

    caractersticas subjetivas do coagido, por fora do art. 152 do Cdigo Civil, descartando-se a

    anlise objetiva que tem em conta apenas o homem-mdio.

    Doutrinariamente, aventa-se a hiptese de coao acidental, que aquela que no decisiva

    celebrao do negcio. O negcio seria praticado ainda que no houvesse coao. Esta

    espcie no est prevista expressamente no Cdigo Civil e sua aplicao prtica

    extremamente difcil. A doutrina traz o exemplo em que h concomitncia entre a ameaa e a

    livre formao da vontade do coagido. Nesse caso, o negcio jurdico vlido, cabendo

    apenas perdas e danos por eventual prejuzo suportado.

    H algumas situaes que no caracterizam a coao, previstas no art. 153 do Cdigo Civil.

    Assim o caso do exerccio normal de direito (art. 153, ab initio), que se configura quando o

    credor exige pagamento de crdito, sob pena de impetrar ao executria; quando a me

    impe o reconhecimento da paternidade do filho, sob pena de impetrar ao investigatria de

    paternidade.

    No obstante, preciso destacar que o exerccio abusivo ou irregular do direito pode

    configurar coao. Apenas o exerccio normal do direito no configura coao. O abuso de

    direito restaria obviamente evidenciado caso o credor ameaasse executar a hipoteca se a

    devedora no praticasse relao sexual com ele.

    Da mesma forma, o simples temor reverencial (art. 153, in fine) no configura coao. Em

    geral, afirma-se que nos casos de temor reverencial, h um impulso espontneo em no

    desagradar, h uma relao de respeito peculiar entre as partes. So exemplos tpicos:

  • 17

    empregador em relao ao empregado, filhos em relao aos pais, fiis em relao

    autoridade religiosa.

    Assim, o fato de um fiel espontaneamente fazer doao igreja no configura coao. Mas, se

    a autoridade religiosa valer-se da f do indivduo para lhe impor uma situao de

    desvantagem, no caso concreto, pode ser possvel caracterizar a coao. O mesmo ocorre no

    caso do aluguel de uma casa de veraneio do empregado ao empregador: o simples aluguel no

    configura temor reverencial, mas, no caso concreto, se for demonstrado que o empregador

    valeu-se de sua posio profissional para impor uma desvantagem ao empregado, pode haver

    coao.

    Na coao por terceiro (artigos 154 e 155 do Cdigo Civil), aplica-se a mesma sistemtica do

    dolo de terceiro, baseada no princpio da confiana. A nica exceo que no h

    controvrsia quanto ao regime jurdico aplicvel s perdas e danos, devidas pelo beneficiado e

    pelo terceiro, no caso em que o beneficiado sabia ou deveria saber da coao, uma vez que a

    solidariedade passiva est expressamente prevista em lei (art. 154 do Cdigo Civil).

    SILVIO RODRIGUES23 apresenta uma hiptese inusitada de coao em que o mal se dirige

    ao prprio coator: o filho ameaa suicdio para obter doao do pai. Nesse caso, cabvel a

    anulabilidade por vcio de consentimento do pai.

    3 CONCLUSO

    Conforme demonstrado ao longo deste trabalho, o erro, o dolo e a coao possuem diversas

    peculiaridades que merecem ateno redobrada do operador do direito, em razo da grande

    repercusso prtica que possuem no cotidiano jurdico.

    Apesar de constiturem institutos civilistas centenrios, tais espcies de defeito dos negcios

    jurdicos desafiam os doutrinadores at os dias atuais, o que se comprova pelas divergentes

    correntes de pensamento que se formaram em torno dos assuntos mais sensveis a respeito do

    tema.

    23 RODRIGUES, Silvio. Direito Civil. 32 ed. So Paulo: Saraiva, 2002. v. 1.

  • 18

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS:

    ALVES, Jos Carlos Moreira. A Parte Geral do Projeto do Cdigo Civil brasileiro. So Paulo: Saraiva, 1986. BEVILQUA, Clvis. Cdigo Civil dos Estados Unidos do Brasil. Ed. histrica. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 1977. t. I. COELHO, Fbio Ulhoa. Manual de Direito Comercial. 18 ed. So Paulo: Saraiva, 2007. FARIAS, Cristiano Chaves; ROSENVALD, Nelson. Direito civil. Teoria Geral. 4. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006. GONALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro. Parte geral. 8. ed. So Paulo: Saraiva, 2010. v. 1. MONTEIRO, Washington de Barros. Curso de Direito Civil: parte geral. 38 ed. So Paulo: Saraiva, 2001. v. 1. NERY JUNIOR, Nelson. Vcios do ato jurdico e reserva mental. So Paulo: Revista dos Tribunais, 1983. PEREIRA, Caio Mrio da Silva. Instituies de direito civil. 20 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2004. v. I. RODRIGUES, Silvio. Direito Civil. 32 ed. So Paulo: Saraiva, 2002. v. 1. TEPEDINO, Gustavo. Comentrios ao novo Cdigo Civil. In: TEIXEIRA, Slvio de Figueiredo. So Paulo: Forense, 2008. v. X. THEODORO JNIOR, Humberto. Negcio Jurdico. Existncia. Validade. Eficcia. Vcios. Fraude. Leso. Revista dos Tribunais, 780. VELOSO, Zeno. Condio, termo e encargo. So Paulo: Malheiros Ed, 1997. VENOSA, Slvio de Salvo. Cdigo Civil interpretado. So Paulo: Atlas, 2010.