DEFEITOS DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS (PARTE 1): ERRO, ?· erro, que se baseia na teoria da responsabilidade…

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<ul><li><p>DEFEITOS DOS NEGCIOS JURDICOS (PARTE 1): ERRO, DOLO E COAO </p><p>Rafael Medeiros Antunes Ferreira1 </p><p>RESUMO: Este artigo discorre sobre os defeitos do negcio jurdico, mais especificamente o </p><p>erro, o dolo e a coao, apontando, ainda, para a diferena entre o erro e a reserva mental. </p><p>PALAVRAS-CHAVE: Defeitos do negcio jurdico. Erro. Dolo. Coao. Reserva mental. </p><p>1 INTRODUO </p><p>O estudo do negcio jurdico um dos pontos nodais do Direito Civil, j que consubstancia a </p><p>essncia da relao entre indivduos em um sistema jurdico. Na classificao dos fatos </p><p>jurdicos, o negcio jurdico situa-se na categoria dos atos jurdicos lcitos, ao lado do ato </p><p>jurdico stricto sensu. </p><p>Um dos aspectos mais relevantes do estudo do negcio jurdico a anlise das diversas </p><p>espcies de defeitos previstas no Cdigo Civil. Estes so os casos que, com maior frequncia, </p><p>atormentam a jurisprudncia e desafiam a doutrina. </p><p>No presente trabalho, abordaremos o erro, o dolo e a coao, incluindo a diferena entre erro e </p><p>reserva mental, deixando a anlise do estado de perigo, da leso e da fraude contra credores </p><p>para outra oportunidade. </p><p>2 DESENVOLVIMENTO </p><p>Os defeitos dos negcios jurdicos se dividem em duas categorias: vcio de consentimento e </p><p>vcio social. No primeiro caso, h divergncia entre a vontade declarada e a vontade interna. </p><p>So vcios de consentimento previstos no Cdigo Civil: erro, dolo, coao, estado de perigo e </p><p>leso. J no segundo caso, h divergncia entre a vontade declarada e o ordenamento jurdico. </p><p>O nico vcio social previsto no Cdigo Civil a fraude contra credores. </p><p> 1 Juiz de Direito do Estado de Pernambuco. Ex-membro do Ministrio Pblico de Minas Gerais. </p></li><li><p>2 </p><p>Alguns autores, como SILVIO DE SALVO VENOSA2, incluem a simulao como vcio </p><p>social. No entanto, a doutrina majoritria rejeita essa classificao porque a simulao no </p><p>mais classificada como defeito de negcio jurdico no Cdigo Civil de 2002. Os defeitos </p><p>geram anulabilidade do negcio jurdico (art. 171, II, do Cdigo Civil), mas, atualmente, a </p><p>simulao gera nulidade absoluta (art. 167 do Cdigo Civil). </p><p>2.1 ERRO </p><p>O erro est previsto nos artigos 138 a 144 do Cdigo Civil. O estatuto civil fala em erro e </p><p>ignorncia. A distino entre erro e ignorncia meramente doutrinria. No erro o </p><p>desconhecimento parcial, ao passo que na ignorncia o desconhecimento total. Os efeitos </p><p>prticos do erro e ignorncia so os mesmos. </p><p>Erro comumente definido como a falsa percepo da realidade. Apesar de no estar </p><p>equivocada, essa definio insuficiente, por conta da desconsiderao do erro de direito (art. </p><p>139, III, do Cdigo Civil), no qual no h apenas a falsa percepo da realidade, mas sim a </p><p>equivocada interpretao da norma jurdica. </p><p>O erro classifica-se em substancial (ou essencial) e acidental (ou no essencial). </p><p>O erro substancial aquele que incide sobre elementos determinantes para celebrao do </p><p>negcio. Para gerar anulabilidade, o erro deve ser substancial (art. 139 do Cdigo Civil). </p><p>Apenas esse tipo de erro relevante para o Direito, porque apenas ele caracteriza um vcio do </p><p>consentimento: se ele no existisse, o negcio no seria praticado. </p><p>Por outro lado, o erro acidental aquele que incide sobre elementos desimportantes. O </p><p>exemplo clssico a compra de um carro de luxo, na qual incide em erro quanto existncia </p><p>de rdio. No h vcio do consentimento porque o negcio jurdico seria praticado de qualquer </p><p>forma. </p><p> 2 VENOSA, Slvio de Salvo. Cdigo Civil interpretado. So Paulo: Atlas, 2010. </p></li><li><p>3 </p><p>Outra caracterstica do erro, alm da essencialidade, a espontaneidade: o erro parte do </p><p>prprio declarante. H uma frase popular que se aplica ao caso: quem erra, erra sozinho. Se </p><p>houver induzimento ao erro, h configurao de dolo. </p><p>No Cdigo Civil de 1916, para anular o negcio jurdico, o erro tinha que ser escusvel. O </p><p>diploma civilista no exigia tal caracterstica expressamente, mas a doutrina era unnime a </p><p>respeito do tema. O erro grosseiro no gerava anulabilidade. </p><p>Na vigncia do Cdigo Civil de 2002, a exigncia de escusabilidade do erro possui trs </p><p>entendimentos diversos, o que consiste no ponto mais polmico sobre o erro. </p><p>Para a corrente minoritria (CARLOS ROBERTO GONALVES3 e JOS CARLOS </p><p>MOREIRA ALVES4), o Cdigo Civil de 2002 endossa o entendimento doutrinrio anterior ao </p><p>contemplar explicitamente a exigncia de escusabilidade do erro na parte final do art. 138. </p><p>Contudo, a corrente majoritria (SILVIO DE SALVO VENOSA5, CRISTIANO CHAVES </p><p>DE FARIAS e NELSON ROSENVALD6, e HUMBERTO THEODORO JNIOR7) entende </p><p>que o erro no precisa mais ser escusvel para anular o negcio jurdico. Inicialmente, pela </p><p>mera interpretao literal percebe-se que a pessoa de diligncia normal referida no art. 138 </p><p>do Cdigo Civil no o declarante, mas sim o declaratrio. Alm disso, preciso considerar </p><p>que, no Cdigo Civil de 1916, o erro escusvel anulava o negcio jurdico, ainda que fosse </p><p>imperceptvel pela outra parte. Contudo, na conjuntura atual, essa soluo afronta a legtima </p><p>expectativa do declaratrio, violando o princpio da confiana, que constitui umas das bases </p><p>da boa-f objetiva. </p><p>Essa corrente assevera que o princpio da confiana incompatvel com a escusabilidade do </p><p>erro, que se baseia na teoria da responsabilidade (investiga-se a culpa do declarante quanto </p><p>divergncia entre a vontade declarada e a vontade interna), atualmente superada pelo princpio </p><p>da confiana. luz desse princpio, o enfoque do ordenamento jurdico deixa de ser o </p><p> 3 GONALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro. Parte geral. 8. ed. So Paulo: Saraiva, 2010. v. 1. 4 ALVES, Jos Carlos Moreira. A Parte Geral do Projeto do Cdigo Civil brasileiro. So Paulo: Saraiva, 1986. 5 VENOSA, Slvio de Salvo. Cdigo Civil interpretado. So Paulo: Atlas, 2010. 6 FARIAS, Cristiano Chaves; ROSENVALD, Nelson. Direito civil. Teoria Geral. 4. ed. Rio de Janeiro: Lumen </p><p>Juris, 2006. 7 THEODORO JNIOR, Humberto. Negcio Jurdico. Existncia. Validade. Eficcia. Vcios. Fraude. Leso. </p><p>Revista dos Tribunais, 780. </p></li><li><p>4 </p><p>declarante e passa a ser o declaratrio. Esse o entendimento do Enunciado n 12 do </p><p>Conselho da Justia Federal CJF. </p><p>Por fim, GUSTAVO TEPEDINO8 e ZENO VELOSO9 acreditam que o erro tem ser escusvel </p><p>e perceptvel pelo declaratrio. Essa corrente concorda que o dispositivo legal adota o </p><p>princpio da confiana, mas entende que a adoo do princpio da confiana no </p><p>incompatvel com a exigncia de escusabilidade do erro. Ao se exigir que o erro seja </p><p>perceptvel, pretende-se proteger a legtima expectativa do declaratrio. Mas, para que a </p><p>expectativa seja legtima, necessria a observncia, por parte do declaratrio, dos deveres </p><p>anexos resultantes da boa-f objetiva, sendo um deles o dever de cuidado. Se o declaratrio </p><p>no sabia, mas deveria saber do erro, h respeito boa-f subjetiva, mas h violao da boa-f </p><p>objetiva. Por outro lado, quando se exige a escusabilidade, impe-se tambm ao declarante o </p><p>dever anexo de cuidado. A boa-f objetiva envolve ambas as partes. </p><p>Essa ltima corrente distancia-se da lgica do Cdigo Civil de 1916, na medida em que </p><p>reinterpreta a escusabilidade do erro luz da boa-f objetiva. A escusabilidade no est mais </p><p>baseada na anlise da culpa do declarante, mas sim no seu dever de cuidado. </p><p>As hipteses de erro substancial esto listadas no art. 139 do Cdigo Civil. Primeiramente, </p><p>possvel identificar o error in negotio (art. 139, I, 1 parte, do Cdigo Civil), que incide sobre </p><p>a prpria natureza do negcio. a hiptese do sujeito que supe estar celebrando um contrato </p><p>de emprstimo, quando, na verdade, est celebrando uma doao. </p><p>Alm disso, h o error in corpore (art. 139, I, 2 parte, do Cdigo Civil), que incide sobre a </p><p>prpria identidade do objeto, como, por exemplo, no caso do sujeito que supe estar </p><p>comprando a casa no n 45 de determinada rua, quando, na realidade, est comprando a casa </p><p>n 54. Ou do sujeito que supe estar comprando um imvel na rua XYZ de determinado </p><p>municpio, quando est comprando um imvel na rua XYZ, localizada em outro municpio. </p><p>Estes so exemplos acadmicos, meramente ilustrativos, mas de difcil observncia prtica. </p><p>Contudo, possvel vislumbrar um caso mais comum, na situao em que um sujeito compra </p><p>uma obra de arte falsificada. </p><p> 8 TEPEDINO, Gustavo. Comentrios ao novo Cdigo Civil. In: TEIXEIRA, Slvio de Figueiredo. So Paulo: </p><p>Forense, 2008. v. X. 9 VELOSO, Zeno. Condio, termo e encargo. So Paulo: Malheiros Ed, 1997. </p></li><li><p>5 </p><p>H, ainda, o error in substantia ou error in qualitate (art. 139, I, 3 parte, do Cdigo Civil), </p><p>que incide sobre as qualidades do objeto. H alguns exemplos clssicos trazidos pela doutrina: </p><p>sujeito compra esttua de osso, supondo ser de marfim; sujeito compra um relgio dourado, </p><p>supondo ser de ouro. </p><p>O error in substantia assemelha-se ao vcio redibitrio, mas com ele no se confunde, </p><p>podendo ser apontadas as seguintes diferenas: </p><p>Error in substantia Vcio redibitrio </p><p>O defeito tem natureza subjetiva. O defeito oculto tem natureza objetiva. </p><p> um vcio do consentimento. um elemento natural do negcio jurdico (ao lado da evico). </p><p>Gera anulabilidade do negcio jurdico. Gera redibio do contrato ou abatimento. </p><p>Exemplo: sujeito compra um relgio prateado, supondo ser de prata. </p><p>Exemplo: sujeito compra um relgio que no funciona bem, atrasando sempre. </p><p>Quadro 1. Principais diferenas entre o error in substantia e o vcio redibitrio. </p><p>Num julgado recente interessante, o Superior Tribunal de Justia STJ tratou da diferena </p><p>entre erro e vcio do produto (Cdigo de Defesa do Consumidor CDC). As caractersticas do </p><p>vcio do produto se assemelham ao vcio redibitrio. A diferena que vcio do produto pode </p><p>ser oculto ou aparente. Na hiptese, um sujeito havia comprado um carro simples supondo ser </p><p>o mais luxuoso da categoria. Para o STJ, o prazo decadencial de vcio do produto s comea a </p><p>correr aps o prazo de garantia contratual. Mas, como a hiptese era de erro (o carro </p><p>funcionava normalmente), o prazo comeou a contar desde a prtica do negcio (REsp n </p><p>1.021.261). </p><p>Por sua vez, o error in persona (art. 139, II, do Cdigo Civil) incide sobre a pessoa. Ele tem </p><p>relevncia em casos de contratos personalssimos, contratos gratuitos e casamento. Exemplos </p><p>tpicos de contratos personalssimos: mandato e sociedade. No caso de casamento, h regra </p><p>especial a respeito do tema no art. 1557, I, do Cdigo Civil. </p><p>Por fim, h o erro de direito (art. 139, III, do Cdigo Civil), que representa o desconhecimento </p><p>da norma ou a sua equivocada interpretao. </p></li><li><p>6 </p><p>O Cdigo Civil de 1916 era omisso quanto ao erro de direito, gerando controvrsia na </p><p>doutrina. CLVIS BEVILQUA10, dentre outros, refutava essa espcie de erro, com base no </p><p>art. 3 da Lei de Introduo s Normas do Direito Brasileiro LINDB (Decreto-Lei n </p><p>4.657/42): ningum pode se escusar de descumprir a lei alegando seu desconhecimento. </p><p>Por outro lado, CAIO MRIO DA SILVA PEREIRA11 admitia o instituto nos exatos moldes </p><p>da redao do art. 139, III, do Cdigo Civil de 2002: o erro, que no implique recusa </p><p>aplicao da lei, deve ser o principal motivo do negcio jurdico. </p><p>Ocorre que o erro de direito no exceo LINDB. Assim, por exemplo, se o sujeito </p><p>importa determinadas mercadorias desconhecendo norma editada poucos dias antes vedando a </p><p>importao dessas mercadorias, pode-se alegar erro de direito com a finalidade de anular o </p><p>negcio jurdico, e no para importar as mercadorias, descumprindo a norma. Outro exemplo: </p><p>se o sujeito compra um terreno para levantar empreendimento de seis andares, desconhecendo </p><p>regra urbanstica recente estabelecendo gabarito de trs, o erro de direito serve para anular o </p><p>empreendimento, e no para manter os seis andares do projeto original. A prpria redao do </p><p>dispositivo afirma que o erro no pode implicar em recusa aplicao da lei. Logo, no h </p><p>incompatibilidade entre as normas. </p><p>Cabe ressaltar, no entanto, que, no caso concreto, o erro de direito tambm exige todos os </p><p>requisitos das demais espcies de erro. Logo, o erro deve ser perceptvel para o declaratrio. </p><p>Sendo caso de uma importao que envolva um declaratrio estrangeiro, dificilmente esse </p><p>erro seria perceptvel a esse sujeito de boa-f, impossibilitando a alegao de erro de direito </p><p>para anular o negcio. O erro de direito tutela no apenas o declarante, mas tambm a </p><p>legtima expectativa do declaratrio. A anlise deve ser sempre casustica. </p><p> importante salientar que a exigncia de perceptibilidade no pode conduzir ao </p><p>enriquecimento sem causa, matria de ordem pblica prevista nos artigos 884 a 886 do </p><p>Cdigo Civil. Em regra, o enriquecimento sem causa ocorrer nos casos em que no h </p><p>anulao dos negcios jurdicos onerosos, como no caso em que uma parte recebe o </p><p>pagamento, mas impossibilitado de cumprir com sua prestao. Logo, essa exigncia de </p><p> 10 BEVILQUA, Clvis. Cdigo Civil dos Estados Unidos do Brasil. Ed. histrica. Rio de Janeiro: Ed. Rio, </p><p>1977. t. I. 11 PEREIRA, Caio Mrio da Silva. Instituies de direito civil. 20 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2004. v. I. </p></li><li><p>7 </p><p>perceptividade do erro deve ser analisada com cautela. Se o erro conduzir ao enriquecimento </p><p>sem causa do declaratrio, a perceptividade do erro pelo declaratrio pode ser dispensada. </p><p>O estudo do erro tambm passa pela anlise do falso motivo. Quando expresso como razo </p><p>determinante, o falso motivo vicia o negcio jurdico (art. 140 do Cdigo Civil). Nesse caso, </p><p>o falso motivo deixa de ser subjetivo, pois exteriorizado. Esta a hiptese do sujeito que faz </p><p>doao pelo fato de o donatrio ter salvado o filho do doador. Se for constatado que o </p><p>donatrio no salvou o filho do doador, possvel anular a doao por erro. </p><p>Exige-se que o falso motivo seja expresso como razo determinante. A doutrina afirma que o </p><p>termo expresso no significa forma escrita. O falso motivo pode ter sido exteriorizado de </p><p>forma verbal. Trata-se de matria probatria. </p><p>A transmisso errnea por meios interpostos tambm gera anulabilidade do negcio jurdico </p><p>(art. 141 do Cdigo Civil). Parte-se da premissa de que o declarante no esteja na presena do </p><p>declaratrio. Os meios interpostos podem ser uma pessoa ou os meios de comunicao, como </p><p>fax, email e telgrafo. Ento, por exemplo, se o fax sai ilegvel provocando a interpretao </p><p>errnea da mensagem, o declarante pode anular o negcio. Da mesma forma, se o nncio (ou </p><p>mensageiro) equivoca-se ao exteriorizar a vontade do declarante, possvel que este anule o </p><p>negcio jurdico. </p><p>SILVIO RODRIGUES12 assevera que, se o nncio for absolutamente desqualificado para </p><p>celebrar o negcio jurdico, o negcio no pode ser anulado, pois houve culpa in eligendo. O </p><p>nncio no pode ser desqualificado para celebrao de negcios complexos. Indo mais alm, </p><p>GUSTAVO TEPEDINO13 afirma que, se o nncio age de m-f, tambm no h </p><p>anulabilidade, pois tambm h culpa in eligendo. </p><p>O nncio (ou mensageiro) age sem nenhuma autonomia. Ele um mero veculo de </p><p>transmisso da vontade do declarante. Logo, nncio no sinnimo de representante </p><p>convencional (ou mandatrio), que possui regras prprias do contrato de mandato. Assim, o </p><p>advogado, apesar de representar a parte, tem autonomia para usar as melhores tcnicas e </p><p> 12 RODRIGUES, Silvio. Direito Civil. 32 ed. So Paulo: Saraiva, 2002. v. 1. 13 TEPEDINO, Gustavo. Comentrios ao novo Cdigo Civil. In: TEIXEIRA, Slvio de Figueiredo. So Paulo: </p><p>Forense, 2008. v. X. </p></li><li><p>8 </p><p>invocar os melhores argumentos. Na sistemtica do mandato, se o advogado atuar alm dos </p><p>limites outorgados, o mandante no responde perante terceiros, mas sim o mandatrio (artigos </p><p>662 e 665 do Cdigo Civil). </p><p>Nada obstante, a teoria da aparncia pode mitigar essa regra, como na hiptese da parte </p><p>contrria no ter como identificar que o mandante atua alm dos poderes. Assim, salvo a </p><p>teoria da aparncia, o negcio vlido entre mandatrio e terceiro, mas ineficaz entre </p><p>mandante e terceiro. </p><p>No entanto, se o mandatrio atua dentro dos poderes, mas em desacordo com as instrues do </p><p>mandante, o mandante se vincula (art. 679 do Cdigo Civil), surgindo a possibilidade de </p><p>ajuizar ao de responsabilidade civil contra o mandatrio. Nesse caso, o negcio jurdico </p><p>vlido e eficaz entre mandante e terceiro, mas o mandante tem ao de regresso contra o </p><p>mandatrio. </p><p>O erro ainda pode ser dividido em erro-motivo e erro obstativo (ou erro imprprio). Aquele </p><p>incide na formao da vontade, o erro que gera anulabilidade. Este incide na declarao da </p><p>vontade, um erro profundo, mais grave, que obsta a formao do negcio. </p><p>No direito comparado, o erro obstativo abrange as hipteses de error in negotio e error in </p><p>corpore. No direito alemo, ele gera nulidade absoluta, enquanto que, nos direitos italiano e </p><p>francs, ele gera inexistncia. Entende-se que s h vcio de consentimento quando ele surge </p><p>no momento da formao da vontade. Se o vcio surgir no momento da declarao de vontade, </p><p>a hiptese de vcio na declarao da vontade, que no gera apenas a anulabilidade. A </p><p>dicotomia entre erro obstativo e erro-motivo foi desprezada pelo Cdigo Civil brasileiro. </p><p>Portanto, no direito ptrio, ambas as espcies de erro geram anulabilidade. </p><p>2.2 RESERVA MENTAL </p><p>A reserva mental est prevista no art. 110 do Cdigo Civil. sinnimo de reticncia: o sujeito </p><p>declara algo com a reserva mental de no querer o que manifestou, ou seja, o sujeito </p><p>reticente em relao quilo que declara. Nesse caso, h divergncia entre a vontade declarada </p><p>e a vontade interna. O exemplo tpico a celebrao de mtuo com um suicida endividado, </p></li><li><p>9 </p><p>onde um amigo declara a inteno de celebrar o mtuo com o suicida, com a reserva mental </p><p>de no realizar o negcio. </p><p>A reserva mental diferente do erro. Em ambos h divergncia entre vontade declarada e a </p><p>vontade interna, mas na reserva mental, a divergncia entre a vontade declarada e vontade </p><p>interna intencional. </p><p>A vontade prevalecente depende da cincia do destinatrio, j que atualmente adota-se o </p><p>princpio da confiana. Se o destinatrio da vontade no tem cincia da reserva mental, ele </p><p>tem uma legtima expectativa. Nesse caso, prevalece a vontade declarada. Essa a regra geral </p><p>(art. 110 do Cdigo Civil). Por outro lado, se o destinatrio sabe da reserva mental, prevalece </p><p>a vontade interna, pois no h legtima expectativa. </p><p>A legtima expectativa deve estar em consonncia com a boa-f objetiva, cujo desdobramento </p><p> o dever de cuidado. Por isso, o Cdigo Civil usa frequentemente a expresso sabe ou devia </p><p>saber. Se o sujeito deveria saber, mas no sabe, apesar de atuar com boa-f subjetiva, ele </p><p>in

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