décio freitas - escravos senhores de escravos

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  • 5/28/2018 Dcio Freitas - Escravos Senhores de Escravos

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    Este livro destina-se ao uso exclusivo de deficientes visuais, nopodendo ser copiado ou utilizado com quaisquer fins lucrativos. Ignoraressa advertncia significa violar a lei n 96!, de 9 de fevereiro de99", que regulamenta os direitos autorais no #rasil.

    Escravos e sen$ores de escravos

    %&'I( )*EI+dvogado e istoriador

    /ercado 0erto - 9"12rie 3ovas 4erspectivas, 54orto legre - *

    'apa /arco 'ena'omposi7o *icardo ). da ilva*eviso '$arles 8ieferuperviso 3oelci *. aco0:9"1

    +odos os direitos reservados pela /ercado 0erto Editora e 4ropaganda;tda.*ua antos %umont, "6 -9!!!! - 4orto legre, *

    )I' '+;(6 ?"@ 1!.11>6.5?"@#i0liotec=ria respons=vel /arlise 'astro da ilveira

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    no curso do ano de 96, para servirem como textos de apoio num cursoso0re a escravatura, ministrado pelo autor nos meses de Qaneiro,fevereiro e mar7o de 966 a um grupo de exilados 0rasileiros.Este tra0al$o foi possi0ilitado pelas riquCssimas 0rasilianas encontradasno 4rata. Em /ontevid2u #i0lioteca 3acional, a #i0lioteca do 'lu0e#rasileiro, a #i0lioteca dos narquistas Druguaios e finalmente um Rse0oRem 'iudad ieQa, cuQo nome a memSria trai7oeira no consegue resgatar. Em#uenos ires a #i0lioteca 3acional e, particularmente, o incompar=velRse0oR de %om 4a0lo ernandez, em 'alle +ucum=n.3o ano de 966, o di=rio Epoca, que dirigia em /ontevid2u Eduardo

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    ocupa7o e da manuten7o de nosso territSrio pelo europeu, e que seusdescendentes se misturam com o nosso povo. (nde ele no c$egou ainda, opaCs apresenta o aspecto com que surpreendeu aos seus primeirosdesco0ridores. +udo o que significa luta do $omem com a natureza,conquista do solo para $a0ita7o e cultura, estradas e edifCcios,canaviais e cafezais, a casa do sen$or e as senzalas dos escravos,igreQas e escolas, alfJndegas e correios, tel2grafos e camin$os de ferro,academias e $ospitais, tudo, a0solutamente tudo, que existe no paCs, comoresultado do tra0al$o manual, como emprego de capital, como acumula7o deriquezas, no passa de uma doa7o gratuita da ra7a que tra0al$a U que faztra0al$ar.3unca se pode esquecer, no entanto, que a escravido no foi apenas denegros, foi igualmente de Cndios. +odos os paCses do 3ovo /undocon$eceram a escravido indCgena, por2m o #rasil a todos excedeu nonYmero de autSctones ca7ados, exterminados ou escravizados. #ementendido, o $olocausto indCgena no se compara nem de longe ao dosafricanos, mas, ainda assim, quase um mil$o de Cndios sucum0iram, diretaou indiretamente, no processo da escraviza7o. 3o foi seno na metade dos2culo XIII que o cativeiro indCgena aca0ou legalmente no #rasilW nisso,tam02m, fomos o Yltimo paCs do 3ovo /undo.

    (#rasil assinalou o recorde americano no tr=fico de escravos, importandoperto de 5!Z do total de nove mil$Pes e quin$entos mil negros trazidospara o 3ovo /undo nove vezes mais que os Estados Dni dos ?6Z@ e 0em maisque o do0ro da m2rica ispnica ?"Z-@, do 'ari0e ingls ?BZ@ e do'ari0e francs ?BZ@. ( #rasil foi o Yltimo paCs independente a a0olirlegalmente o tr=fico. 'u0a e 4orto *ico, Yltimos mercados compradores denegros do 3ovo /undo, permaneciam colPnias da Espan$a. uprimiram aindaassim a escravido antes que o #rasil ?""!@.%emonstra tudo isso que viceQou no #rasil a forma7o social escravistamais importante do 3ovo /undo. 3en$um outro paCs teve sua $istSria tomodelada e condicionada pelo escravismo, em todos os aspectos -econTmico, social, cultural. 4ode dizer-se que a escravatura delineou operfil $istSrico do #rasil e produziu a matriz da sua configura7osocial. 4assados noventa anos da a0oli7o, conserva toda sua validez ao0serva7o de 3a0uco de que a escravatura ainda continuaria por muitotempo uma caracterCstica nacional do #rasil. Dma parcela enorme dos0rasileiros descendem de escravos, de uma forma ou de outra. )az apenasnoventa anos que a classe tra0al$adora 0rasileira se compPe de $omensQuridicamente livres - $omens imitidos na posse de sua prSpria for7a detra0al$o.Entre os funestos legados da escravido, figuram a condi7o atual donegro 0rasileiro e a concep7o que faz do tra0al$o manual um la02u.3en$uma investiga7o econTmica s2ria deixar= de situar na escravatura asraCzes do atraso 0rasileiro. 4ois o povo de um dos maiores e mais ricospaCses do mundo, depois de $aver produzido durante trs s2culos v=riasdas grandes riquezas dos tempos modernos, ingressou no s2culo XX como umdos mais deserdados que se con$ecem.

    3estas condi7Pes, impPe-se a todo 0rasileiro preocupado com sua $istSrianacional, a formula7o e a solu7o de uma s2rie de questPes. ( que foique determinou a implanta7o da escravatura no #rasilV que atri0uir-sea solidez e a longevidade da institui7oV Em que consistiu suaespecificidade na $istSria do escravismo do 3ovo /undoV 'omo e por que, adespeito de tudo, o sistema se desintegrou e desapareceuV Kltima questocomo se pode definir o tipo de mudan7a social operada em conseq[ncia daescravaturaVEstas questPes distam muito de ser acadmicas so cruciais para acompreenso de um passado que oprime o presente e 2 um o0st=culo U

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    conquista do futuro.

    . E'*I%H( E /E*'3+I;I/(

    I - 3o ano de "11, o Qovem economista ingls Ed\ard

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    das colTnias. Ynica 0ase da riqueza colonial era a escravido.3o admira que o economista ten$a querido ficar no anonimato. quele eraprecisamente o tempo em que a 0urguesia inglesa tonitroava contra aescravido no #rasil.3o se diga que as colTnias inglesas da 3ova Inglaterra ofereciam umdesmentido U teoria de ]a^efield. 3o possuCam aquelas colTnias condi7PesecolSgicas para a produ7o das mercadorias tropicais que interessavam aocapitalismo mercantil. uas terras serviam unicamente para a produ7o deartigos de su0sistncia que nen$um lucro davam U metrSpole, que de restoos produzia tam02m para exporta7o. grande serventia daquelas terrasconsistia em aloQar uma incTmoda multido de dissidentes polCticos ereligiosos. Mualquer das minYsculas il$as produtoras de a7Ycar dasntil$as mostrava-se enormemente mais valiosa que as colTnias da 3ovaInglaterra.II - +rs s2culos antes de ]a^efield, a coroa e os mercadores portuguesesQ= $aviam empiricamente c$egado U concluso de que a Ynica forma de tirarlucro das terras desco0ertas no #rasil seria a explora7o do tra0al$oescravo.amais afirmaram em qualquer documento que em 4ortugal no $aviacamponeses dispostos a emigrar para o #rasil. Isto foi uma invencionice

    de $istoriadores 0rasileiros para Qustificar como uma necessidade naturalaquilo que na verdade era apenas uma necessidade econTmica domercantilismo portugus. avia ento em 4ortugal uma grande massa decamponeses que son$ava sair do reino para construir vida nova em terrasdistantes. 0em dizer, necessitavam desesperadamente emigrar. (sprimeiros anos do reinado de oo III foram de grande mis2ria popular emconseq[ncia de m=s col$eitas, a que se seguiram pestes devastadoras. coroa, o clero e a no0reza $aviam monopolizado quase todas as terrasagrCcolas, das quais duas ter7as partes se ac$avam incultas. R(slavradores - escreve o $istoriador portugus ;uis *e0elo da ilva -preferiam ver convertidas em desertos as terras produtivas do que reg=-las com o suor do rosto para que depois a mo do fisco, do clero ou dossen$ores viesse arre0atar da eira ou dos lagares todos os frutos do seutra0al$oR.ouve no inCcio uma certa imigra7o de camponeses lusitanos. Estescamponeses, no entanto, logo sofreram a amarga decep7o de verdesatendidas as suas duas principais exigncias - terras e li0erdadepessoal. (s donat=rios queriam su0met-los a um tra0al$o intensivo anCvel de su0sistncia nas planta7Pes. & de ver que no $aviam emigradopara a inSspita colTnia apenas para suportar condi7Pes ainda piores queas da p=tria. %ado que eram $omens livres, instalaram-se em algum lugar,tra0al$ando para si prSprios e no para os donat=rios. 3o dizer dearn$agen, Rlan7avam-se U vida gentClicaR. %uarte 'oel$o, donat=rio de4ernam0uco, c$egou a enforcar alguns e escreveu ao rei pedindo Rpelo amorde %eusR que no os deixasse mais em0arcar para o #rasil, pois eramRpiores que pe7on$aR. coroa de fato no os deixou mais em0arcar. o longo do perCodo

    colonial, a imigra7o se compTs exclusivamente de Rno0resR elementos da0aixa no0reza ou ricos comerciantesW artesos qualificados, que por suavez empregariam tra0al$o escravoW soldados que, concluCdos seus anos deservi7o, se esta0eleciam na terra como propriet=rios de grandessesmariasW degredados e aventureiros. R legisla7o portuguesa sempreprocurou contrariar ou dificultar a imigra7oR, assinalou oo )rancisco;is0oa em sua 'rTnica do #rasil 'olonial. %ispun$am uma lei de fins dos2culo XII R3en$uma pessoa de qualquer qualidade poder= passar Uscapitanias do #rasil, seno as que forem despac$adas com governos,postos, cargos ou ofCcios, os quais no levaro mais criados do que a

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    cada um pode competir, conforme sua qualidade e empregoR. Exercia-sesevera fiscaliza7o nos em0arques para o #rasil. omente se concediampassaportes para em0arque depois de rigorosa averigua7o Qudicial. indaassim, na $ora da partida dos navios para o #rasil, estando eles Q= Uvela, realizavam-se 0uscas e se prendiam todas as pessoas encontradas sempassaporte. plicavam-se-l$es pesadas multas e os que no tin$am din$eiropara pag=-las eram degredados por trs anos para a Ffrica. ` c$egada dosnavios ao #rasil e antes de se comunicarem com terra, repetia-se adiligncia da 0usca, e quantos se encontrassem sem passaporte eramrecam0iados para o reino.