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  • 140 Urdimento, v.1, n.31, p.140-151, Abril 2018Jos Jackson Silva

    De como iluminar no projeto Palco Giratrio: um relato errante sobre a aprendizagem

    em iluminao cnica

    How to illuminate in the project Palco Giratrio: a wandering story about of the learning in stage lighting

    Jos Jackson Silva 1

    DOI: http:/dx.doi.org/10.5965/1414573101312018140

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    De como iluminar no projeto Palco Giratrio: um relato errante sobre a aprendizagem em iluminao cnica

    Jos Jackson SilvaUrdimento, v.1, n.31, p.140-151, Abril 2018

    Abstract

    In this work, I intend to reflect on the learning process in Theater, in gen-eral, and on learning in stage lighting, in especially, from the experience of a na-tional tour of the Palco Giratrio project, at which time I was able to experience the contradictions, conflicts and difficulties in illuminating a theatrical spectacle in 43 different cities across the five regions of the country. Realizing, in practice, that the daily goal of an agent of the scene, who ventures on Brazilian stages, is the genu-ine ability to learn to learn.

    Keywords: Stage lighting; art-edu-cation; pedagogy; theater

    ISSN: 1414.5731E-ISSN: 2358.695

    Resumo

    Neste trabalho busco refletir sobre o processo de aprendizagem em Teatro, em geral, e sobre o aprendizado em ilu-minao cnica, em especial, a partir da experincia de uma turn nacional no projeto Palco Giratrio, ocasio na qual pude vivenciar as contradies, conflitos e dificuldades em iluminar um espet-culo teatral em 43 cidades distintas pe-las cinco regies do pas. Constatando, na prtica, que o objetivo dirio de um agente da cena, que se aventura nos pal-cos brasileiros, a capacidade genuna de aprender a aprender.

    Palavras-chave: Iluminao cnica; arte-educao; pedagogia; teatro

    1 Doutorando do Programa de Ps-graduao em Artes Cnicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Diretor, Ator e Iluminador cnico. jacksontea@gmail.com

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    Introduo

    O melhor aprendiz no aquele que aborda o mundo atravs de hbitos cristalizado, mas aquele que consegue permanecer sempre em processo de aprendizagem.

    (Virginia Kastrup, 1999)

    Em 2014 eu tive uma experincia muito impactante como artista e aprendiz das artes cnicas: fui convidado, s pressas, para fazer a luz do espetculo Sargento Ge-tlio2 durante a turn do projeto Palco Giratrio3 (SESC), para o qual o grupo Teatro Nu4, sob direo de Gil Vicente Tavares, da cidade de Salvador (BA), foi um dos se-lecionados. Neste convite estava implcito iluminar as apresentaes do espetculo solo de um dos principais atores do teatro baiano, em atividade, Carlos Beto5, duran-te 9 meses, em 43 cidades, nas cinco regies do pas. Detalhe: eu no fui o criador do projeto de iluminao e no tinha operado a luz desse espetculo, at ento. Havia prestigiado como espectador na sua estreia h uns dois anos antes, mas nem sequer cogitei a possibilidade de vir a compor a equipe, por j estar envolvido em outros projetos, e por perceber a solidez e comprometimento da equipe com o espetculo.

    Com grupo Teatro Nu eu j tinha trabalho como assistente de direo no espe-tculo Os javalis,6 no ano de 2008, ocasio na qual pude estar bem prximo equipe e acompanhar o desenvolvimento do espetculo. Porm, no era um membro oficial do grupo. Somado a isso, durante a criao do Sargento Getlio eu estava focado em finalizar minha graduao em direo teatral, bem como, em dar continuidade as oficinas, aulas e seminrios sobre iluminao cnica com profissionais respeitados no meio artstico, como Jorginho de Carvalho. Ao integrar o projeto de extenso aes tcnico-artsticas no mbito do espetculo da Escola de Teatro da UFBA, que tinha por objetivo ser um laboratrio de prticas dos fundamentos tcnicos do espetculo, dentre eles a criao, montagem e operao de luz, entre 2008 e 2011, perodo em

    2 Elenco: Carlos Beto. Direo e verso teatral: Gil Vicente Tavares. Assistncia de direo: Clarissa Rebouas. Trilha Sonora: Ivan Bastos. Voz: Manuela Ro-drigues / violino: Mrio Soares. Cenografia: Rodrigo Frota. luminao: Eduardo Tudella. Preparao corporal: Mell Borba. Pintura Luzinete: Sante Scaldaferri. Contra-regra: Anderson Alan design grfico: Guto Chaves. Produo: Multi Planejamento Cultural. Assessoria de imprensa: Frente & Verso Comunicao Integra-da fotografias do site: Adenor Gondim. Fonte: http://www.teatronu.com/sargento-getulio/ 3 Para difundir as artes cnicas brasileiras e democratizar o acesso cultura, o Palco Giratrio (SESC) proporciona mais que entretenimento. O projeto possibilita trocas de experincias e intercmbios entre artistas e a plateia, valorizando sempre a educao e cidadania dos espectadores. H 15 anos circulando pelo pais, o Palco Giratrio busca caminhos alm do eixo- sul-sudeste para difundir a cultura onde o teatro puder chegar. (Disponvel em http://www.sesc.com.br/palcogi-ratorio)4 Em agosto de 2011, o Teatro NU estreou seu primeiro monlogo, fazendo a abertura do Festival Bahia em Cena e comemorando os cinco anos do grupo. Sargento Getlio, a partir da obra homnima de Joo Ubaldo Ribeiro, que esteve presente na estria, comemorou tambm os setenta anos do autor e os quarenta anos de publicao da obra. Fonte: http://www.teatronu.com/sargento-getulio/5 Formado em Interpretao Teatral pela Escola de Teatro da UFBA, vem atuando em alguns dos principais trabalhos teatrais da Bahia nos ltimos anos. Por cinco vezes, foi selecionado pelo Ncleo do Teatro Castro Alves, trabalhando com diretores de renome nacional, como Gabriel Vilela e Francisco Medeiros. Duas vezes indicado como melhor ator coadjuvante pelo Prmio Braskem de Teatro pelas peas Baal (Bertold Brecht/direo: Harildo Deda) e A Vida de Galileu (Bertold Bre-cht/direo: Elisa Mendes). Podemos destacar ainda na rea de teatro as peas: O Sonho (Strindberg/direo: Gabriel Vilela), Os Iks (Higgins e Cannon/direo: Francisco Medeiros), Hamlet (Willian Shakespeare/direo: Harildo Deda), Calgula (Camus/direo: Fernando Guerreiro) e O Casamento do Pequeno Burgus (Bertold Brecht/direo: Luiz Marfuz). Em 2011, estreou seu primeiro monlogo o espetculo Sargento Getlio. Com este trabalho, ganhou o Prmio Braskem de Melhor Ator e Melhor Espetculo. Fonte: http://www.teatronu.com/carlos-betao/6 Os javalis a segunda montagem do Teatro NU. Inspirado livremente na pea O rinoceronte, de Eugene Ionesco. Texto e direo: Gil Vicente Tavares; Assis-tncia de direo: Jos Jackson; Elenco: Carlos Beto e Marcelo Praddo; Cenrio e figurino: Euro Pires; Iluminao: Eduardo Tudella; Trilha e efeitos sonoros: Luciano Bahia; Cenotcnicos: Nahuel Di Renzo e Adriano Passos; Operador de luz: Bruno Berzot; Contra-regra: Anderson Alan; Imagem do javali: Gaio; Progra-mao visual: Ana Paula Vasconcelos; Fotos: Jnathas Araujo;Assessoria de imprensa: Jussilene Santana; Produo: As Trs Produes e Fernanda Bezerra. Fonte: http://www.teatronu.com/os-javalis/

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    De como iluminar no projeto Palco Giratrio: um relato errante sobre a aprendizagem em iluminao cnica

    Jos Jackson SilvaUrdimento, v.1, n.31, p.140-151, Abril 2018

    que estudei e trabalhei com muitos artistas, tcnicos e iluminadores da cidade de Salvador (BA), me distanciando, assim, dos trabalhos do coletivo cnico mencionado.

    No entanto, quando o convite chegou, por meio do diretor do grupo e pela fora do acaso- o operador responsvel pelo espetculo havia tomado posse em um cargo pblico e no poderia mais viajar- o mpeto foi maior que a conscincia da enrascada que estava por vir. Prontamente, aceitei o convite e l estava eu assinan-do contrato com a produtora do grupo, sendo informado que dali a uma semana j teramos a pr-estreia numa cidade do sudoeste da Bahia: Jequi- cidade pequena e com pouca tradio teatral- sendo que nem o diretor, nem sequer a assistente de direo (Clarissa Rebolas), nem o iluminador responsvel pela criao (Eduardo Tu-della), iriam estar nessa apresentao para me instruir, me apresentar o espetculo e me indicar os tempos, atmosferas e nuances da luz ao longo do espetculo. Havia minha disposio a planta de luz oficial que foi planejada para o espetculo, mas no a planta real, aquela que aps as negociaes com os equipamentos tcnicos dispo-nveis e as demandas prioritrias da pea, conseguimos executar; nem to pouco o roteiro de operao da luz (a equipe estava habituada com o espetculo e no fazia questo dessas formalidades tcnicas). O que havia era um mao de anotaes de-sencontradas, rabiscos e desenho que eu tive de decifrar, como a montar um quebra--cabea, para chegar a algo satisfatrio com auxlio da filmagem da pea, almejando montar um projeto condizente com a qualidade do espetculo e com a expectativa que colocavam em minhas mos ao iluminar um trabalho to primoroso.

    Eis que chega a grande estreia e, como era de se esperar, a luz da apresentao foi uma verdadeira sucesso de desacertos: falta de entrosamento, afinao e ngu-los inadequados, o que demonstrava que a operao da luz estava muito aqum do que deveria ser. Fato constatado pela insatisfao bastante evidente do ator, ainda mais quando voltamos capital baiana e o diretor me chamou para conversarmos sobre a minha desastrosa estreia.

    Aps explanar sobre a insatisfao do interprete e da insegurana que estava sentindo com a minha presena na equipe, e com as devidas cautelas que eu deveria ter nos prximos passos, combinamos que faramos uma tarefa de casa: iramos sen-tar juntos e assistir gravao da pea, quadro a quadro, via DVD, para que ele pudes-se amenizar as dvidas que fossem possveis naquele momento, j que no teramos mais nenhuma oportunidade para ensaios gerais ou algo que o valha.

    Assim, aps um caf e meia dzia de palavras, l estava eu prostrado na frente de uma TV, tentando entender os rabiscos

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