DARWINISMO PEDAGÓGICO - ?· espécies”, em 1859. Os estudos de Charles Darwin contribuíram não…

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    DARWINISMO PEDAGGICO

    Vicente de Paulo Morais Junior

    Universidade Metodista de So Paulo (UMESP/SP)

    vicentemjunior@hotmail.com

    Resumo: O presente trabalho investiga a relao direta entre cultura escolar, prticas pedaggicas e darwinismo. Utilizou-se da pesquisa bibliogrfica, tendo como suporte central A origem das espcies, de Charles Darwin. Para estabelecer uma conexo entre o objeto central de pesquisa e a obra acima citada, houve a necessidade de discutir a relao entre cincias da natureza e cincias humanas. Foi possvel estabelecer uma conexo entre as teorias de Charles Darwin e a cultura escolar e prticas escolares. Essa relao tem como produto o que foi denominado como Darwinismo Pedaggico. Palavras- chave: Cotidiano escolar; Cultura escolar; Prticas escolares; Darwinismo Pedaggico.

    Relao entre cincias da natureza, cincias sociais e darwinismo

    Ao iniciarmos uma discusso que envolve cincias sociais e cincias da natureza, torna-se de

    fundamental importncia estabelecer um rigor metodolgico, que a priori tem como principal

    preocupao a converso de fatores, sejam eles quantitativos ou qualitativos, de ambas as cincias,

    em fatores comuns s duas cincias (mesmos pesos para as mesmas medidas).

    Nessa perspectiva, torna-se por oportuno destacar a inquestionabilidade da contribuio que

    Charles Darwin proporcionou comunidade cientfica com a publicao de A origem das

    espcies, em 1859. Os estudos de Charles Darwin contriburam no s na Biologia, sendo a base

    da Biologia Moderna (NOGUEIRA, 2009, p. 19) mas, em um conjunto de vises e interpretaes a

    respeito das formas de vida. Mesquita menciona que Darwin mudou o pensamento moderno em

    geral (2009, p. 9).

    A partir das teorias de Charles Darwin, a ideia de Darwinismo contribuiu para vrias

    reas. Outros darwinismo surgiram!

    Conforme Toledo, a ideia de levar o Darwinismo a outras reas no nova, evidenciando

    que a luta pela existncia est relacionada tanto ao mundo fsico quanto ao mundo intelectual (2009,

    p. 255).

    Importante ressaltar, que conforme Bizzo, o Darwinismo de Darwin no pode ser

    interpretado e restringido apenas ideia de Seleo Natural. Esta se realizada, seria uma

    simplificao deformada de um conjunto de teorias complexas (1991, p. 37 -8). Analisar o

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    Darwinismo como sinnimo exclusivo de seleo natural, j tratar de forma simplista um

    conjunto de teorias, e ainda relacion-lo exclusivamente luta pelos mais fortes no mnimo

    irresponsvel (BIZZO, 1991).

    Ao mencionar Greene, Bizzo aponta 06 (seis) possveis formas de enquadrar o

    Darwinismo: a) Teoria da Evoluo; b) Teoria da Evoluo Orgnica por atravs de variao

    aleatria, luta pela existncia e seleo natural; c) Teoria da seleo natural versus teorias rivais que

    se valiam da herana das caractersticas adquiridas; d) Filosofia da cincia; e) Darwinismo social; f)

    Viso de mundo (1991, p. 40-1). A partir da preocupao de Bizzo em elencar as formas possveis

    de ver e analisar o Darwinismo a partir de Greene, aqui teremos como base o darwinismo a partir de

    uma combinao entre Teoria da Evoluo com base na luta pela existncia e seleo natural,

    filosofia da cincia e viso de mundo. Sero esses os trs pilares que daro sustentao ao

    darwinismo aqui utilizado como base cientfica.

    A relao com a filosofia da cincia estar posta pois, a partir dessa linha, pode-se utilizar o

    darwinismo como meio de observar, de forma direta, determinados fenmenos, fatos, teorias e

    mtodos.

    A viso de mundo ser utilizada no sentido de ter as teorias de Charles Darwin no sua

    rea de origem e, sim, de t-la ampliada a outras vertentes da cincia. Essa viso de mundo est

    dentro daquilo que Fernandes (2010) e Azanha (1990-91) definem como cultura escolar. Conforme

    Fernandes, a cultura escolar define-se nos papis, normas, rotinas e ritos prprios da escola (2010,

    p. 888). Alinhado ao mencionado por Fernandes, Azanha define explica prticas escolares e os

    seus correlatos como as mentalidades, discursos, procedimentos, hbitos, atitudes, regulamentaes,

    resultados escolares, entre outros, que atuam no espao escolar (1990-91, p. 65-6).

    Por fim, a relao terica metodolgica dos conceitos e definies que Charles Darwin traz

    em relao luta pela existncia e seleo natural, a partir da evoluo das espcies, no tem a

    inteno de trazer um novo darwinismo. A anlise terica metodolgica aqui realizada em relao

    ao Darwinismo tem a preocupao de aproximar essa teoria, rica e complexa, pedagogia como

    cincia.

    Um relao entre darwinismo s prticas escolares e cultura escolar

    Vamos embarcar no H.M.S. Beagle, emadeirado pelas teorias de Charles Darwin, rumo s

    prticas escolares e cultura escolar.

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    A priori destaca-se a mxima de Piaget quando esse evidencia em suas pesquisas que todos

    so capazes de aprender. Assim, logo conseguimos estabelecer relao direta com Darwin, pois

    Como o professor Owen observou, no h maior anomalia na natureza do que um pssaro no

    poder voar, embora ainda haja muitos nesse estado. (DARWIN, 2014, p. 164). Para tanto, existe a

    necessidade dos sistemas de ensino em consonncia com a escola proporcionar meios para que de

    fato todos possam aprender. Corroborando com a linha proposta, Darwin ainda aponta:

    Nesse caso possvel ver com clareza que, se quisermos, de forma ideal, dar

    planta o poder de aumentar em nmero, devemos oferecer-lhe alguma

    vantagem sobre os seus competidores, ou sobre os animais que a atacam

    como presa. (2014, p. 107).

    Nessa perspectiva de diviso entre os que aprendem e os que no aprender, o fracasso

    escolar vai tomando o seu aspecto, porm sem forma ou responsveis. Nessa diviso, os

    profissionais da educao, dentro e fora da escola vo conscientes ou inconscientemente,

    desenvolvendo uma postura onde h uma preocupao constante com o aluno que ativo e falante

    e uma busca pelo aluno ideal: quieto e respeitador de regras. (PARO, 2003, p. 123).

    Estabelecendo uma relao com a linha de Darwin:,

    Hoje em dia, criadores eminentes tentam por seleo metdica, com um

    objetivo determinado, criar uma nova casta ou sub-raa superior a qualquer

    classe que exista no pas. Mas, para o nosso propsito, uma forma de

    seleo, que pode ser chamada de inconsciente e que resulta da tentativa de

    cada um possuir e criar os melhores animais, mais importante. Assim,

    quem tem a inteno de criar pointers, natural que tente conseguir os

    melhores ces que puder e, em seguida, os reproduza, porm sem o desejo

    ou a expectativa de alterar a raa de forma permanente. (2014, p. 61-2).

    Esse movimento de busca do Graal faz uso da reteno/reprovao como ferramenta

    legitimadora. Para tanto:

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    Outros depoimentos atriburam a existncia da reprovao escolar ao fato de

    a escola precisar, para realizar o processo educativo, agrupar os alunos de

    acordo com o desempenho que eles apresentam a cada ano letivo.

    (JACOMINI, 2010, p. 900).

    A partir do exposto, podemos concluir que os profissionais acima citados, vo, aos poucos,

    criando ou valorizando os ditos bons alunos ou alunos ideais. Esse movimento em prol do

    fracasso retro alimentador do prprio fracasso. Isso gera uma discrepncia entre os alunos, que,

    por sua vez, faz com que a diferena no aprendizado e no atendimento, aumente de forma

    significativa.

    Em busca do Graal, do aluno ideal, os profissionais da educao vo rotulando a

    espcie incipiente (DARWIN, 2014, p. 83). Incipiente, pois esta ir, conforme avanam os anos,

    ser a maioria no interior da escola.

    Outra relao que podemos estabelecer o que Darwin traz como monstruosidade,

    apontando:

    Por monstruosidade suponho que se entende alguma considervel anomalia

    de conformao, geralmente prejudicial ou intil para a espcie. (2009, p.

    48).

    Nota-se que, os profissionais da educao, a partir de fracassos individuais no interior da

    escola, que somatizados se transformam em fracasso coletivo, identificam as monstruosidades, e

    evidenciam que esses alunos, passam a serem prejudiciais aos demais alunos.

    Essa identificao e rotulao da monstruosidade tm como prxima etapa a extino.

    Darwin aponta que a seleo natural ocasionar, impreterivelmente, a extino (2009, p. 118). O

    referido autor ainda aponta que:

    A teoria da seleo natural baseada na certeza de que cada nova variedade

    e cada nova espcie so produzidas e se mantm por apresentar alguma

    vantagem sobre aquelas com as quais entram em competio; e a extino

    das formas menos dotadas inevitavelmente acontece. (DARWIN, 2014, p.

    396-7).

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    A identificao das monstruosidades cega a possibilidade de observao das diferenas.

    Exemplificando, Darwin aponta que:

    A nica diferena entre os organismos que por ano produzem ovos e

    sementes aos milhares e os que produzem quantidades muito menores que

    os mais vagarosos necessitaro de um tempo maior e de condies

    favorveis para ocupar um distrito inteiro, por mais extenso que seja. O

    condor pe dois ovos e o avestruz pe muitos, e, contudo, na mesma rea, o

    condor pode ser o mais numeroso dos dois. (2014, p. 96).

    A transposio da extino proposta por Darwin e a escola chama-se evaso. A partir da

    discrepncia crescente, reafirmada pelos profissionais da educao, o processo de extino dos

    alunos rotulados como monstruosidade, findar na evaso.

    Vale ressaltar que existe um movimento cclico e cumulativo nesse processo de

    evaso/extino, na qual a responsabilizao do fracasso ao aluno surge a partir da rotulao das

    monstruosidades.

    Alm disso, Darwin faz questo de enfatizar que A seleo natural no produzir a

    perfeio absoluta (...) (2014, p. 233). Logo, torna-se evidente que propor uma pseudo sada ao

    fracasso escolar atravs do darwinismo pedaggico, no surtir efeito.

    A partir de ento, torna-se necessria a discusso em relao proposta de Darwin para a

    seleo natural. Inicialmente o bilogo traz:

    Chamei de seleo natural o princpio de preservao ou de sobrevivncia

    do mais apto. Ele conduz ao aperfeioamento de cada criatura em relao s

    condies orgnicas e inorgnicas de vida; e em consequncia, na maioria

    dos casos ao que deve ser considerado como avano da organizao.

    (DARWIN, 2014, p. 158).

    Darwin ainda define:

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    A essa preservao das diferenas individuais favorveis e das variaes e

    destruio daqueles que so prejudiciais dei o nome de Seleo Natural ou

    Sobrevivncia dos Mais Aptos . (2014, p. 110).

    Uma primeira relao proposta para o(s) conceito (s) de seleo natural de Darwin e a

    cultura escolar e prticas escolares que:

    Na escola aprende-se a estar constantemente preparado para ser medido,

    classificado e rotulado; a aceitar que todas nossas aes e omisses sejam

    suscetveis de ser incorporadas ao nosso registro pessoal; a aceitar ser objeto

    de avaliao e inclusive a desej-la. (ENGUITA apud JACOMINI, 2010, p.

    916).

    Mainardes aponta:

    A escola, segundo ele, aceita a reprovao pelas seguintes razes: a) a

    escola foi tradicionalmente uma instituio seletiva; b) admite-se que as

    classes devem ser homogneas e c) acredita-se que o castigo e o prmio

    sejam formas de provocar ou acelerar a aprendizagem. (LEITE, apud

    MAINARDES, 1998, p. 19).

    Vitor Henrique Paro tambm d pistas sobre a seleo natural, por conseguinte, o

    darwinismo pedaggico, ao trazer o depoimento de uma das pesquisas:

    Voc no foi considerado apto, por isso no ser normalmente aprovado;

    mas voc tambm no ser reprovado; voc ter o consolo de um processo

    de recuperao. trecho do depoimento de uma professora (PARO, 2003, p.

    137).

    Finalizando um leque legitimador de iderios em relao ao darwinismo pedaggico,

    Jacomini aponta que:

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    Assim, ao continuar selecionando os que melhor respondem s suas

    exigncias, seja pela reprovao, seja por no garantir os meios para todos

    aprenderem, a escola legitima a excluso escolar e social por meio do

    chamado mrito. (2010, p. 911).

    Esse processo de seleo natural no cotidiano escolar, ilustrada pelo processo de reprovao,

    legitimando ento o darwinismo pedaggico, fica evidente quando Jacomini traz que:

    Assim, embora a reprovao seja uma medida poltica e pedaggica

    construda pela escola para responder a uma forma de organizao do ensino

    e seleo dos mais aptos, ela se torna to naturalizada aos olhos dos atores

    educacionais e da populao que passa a ser concebida como algo inerente

    ao processo de ensino e de aprendizagem escolar. (2010, p. 912).

    Fica evidente que, a partir do(s) conceito(s) de seleo natural proposto por Darwin,

    podemos, tendo como base Jacomini (2010), Paro (2003) e Mainardes (1998) apontar que no

    cotidiano escolar e sua cultura e prticas escolares existe um darwinismo pedaggico, onde no

    fadaria ao fracasso aquele que se adaptasse ao sistema, no necessariamente os ditos mais

    inteligentes. Por sua vez, aqueles que no se adaptassem ao sistema seriam incipientes, logo

    rotulados como monstruosidades. Dessa forma, estes passariam a fazer mal aos demais, ditos

    mais inteligentes, legitimando um processo natural e intencional de extino/evaso.

    Desse modo, vislumbra-se que:

    Assim, a escola passou a selecionar quem respondia de forma adequada aos

    padres educacionais exigidos. Essa seleo ocorria, em primeiro lugar, pela

    limitao de vagas e, em segundo, pela reprovao daqueles que no

    respondiam a contento aos objetivos estabelecidos pela escola. Dessa forma,

    os que permaneciam eram os mais adaptados a esses propsitos, e no

    necessariamente os mais inteligentes e capazes. (JACOMINI, 2009, p. 560).

    O darwinismo pedaggico to voraz, que conforme vo passando etapas, mais

    condicionados ou adaptados os alunos vo ficando. Para tanto:

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    A seleo natural atua somente pela preservao e acumulao de variaes

    benficas segundo as condies orgnicas e inorgnicas as quais cada

    criatura exposta em todos os perodos da vida. O resultado final que cada

    criatura tende a se tornar cada vez mais aperfeioada em relao s suas

    condies. (DARWIN, 2014, p. 151).

    Aqui fica evidente que, conforme vo passando sries/anos, e a evaso/extino vai

    aumentando, j que o grau de adaptabilidade, ou grau de condicionamento, tende a crescer.

    Traando um paralelo da cultura escolar e as prticas escolares, com o(s) conceito(s) de

    seleo natural de Darwin, deve-se ressaltar que, tal processo, os alunos no podem

    exclusivamente serem responsabilizados. Para tanto, Darwin aponta que na seleo natural uma

    espcie no ir tirar proveito da outra (2009, p. 180), logo um aluno no ir tirar proveito do outro.

    Darwin faz questo de apontar que a seleo natural vem do movimento geral da natureza (2009, p.

    180), portanto, o darwinismo pedaggico vem do movimento geral da cultura escolar e as prticas

    escolares.

    Esse movimento da natureza, da cultura e prticas escolares, torna-se ev...