Darwinismo ou Neodarwinismo nas salas de aula ... ?· 1 Darwinismo ou Neodarwinismo nas salas de aula:…

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<ul><li><p> 1</p><p>Darwinismo ou Neodarwinismo nas salas de aula: dificuldades discentes ou ambivalncias docentes?1 Darwinism or Neo-Darwinism in the classrooms: students </p><p>difficulties or teachers ambivalences? Cristiana Rosa Valena2 </p><p>Dra. Eliane Brgida Morais Falco3 2Universidade Federal do Rio de Janeiro/NUTES/Laboratrio de Estudos da Cincia, Secretaria Municipal de Educao do </p><p>Rio de Janeiro. crisvalmac@yahoo.com.br 3Universidade Federal do Rio de Janeiro/NUTES/Laboratrio de Estudos da Cincia, Observatrio da Laicidade do Estado </p><p>(OLE)/UFRJ. elianebrigida@uol.com.br </p><p>Resumo- </p><p>Investigou-se as representaes sociais de professores-pesquisadores de biologia de uma instituio universitria pblica do Rio de Janeiro quanto teoria da evoluo. Utilizou-se a metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) para a anlise dos dados. A representao social dos professores para a teoria evolutiva revelou dois discursos distintos que expressam a influncia contingencial de suas atividades acadmicas. Vimos que os professores pesquisados oscilam entre o darwinismo e o neodarwinismo, o que pode se refletir na sala de aula. Problemas de ensino-aprendizagem da teoria evolutiva analisados luz dos resultados indicam a necessidade da integrao das explicaes genticas s aulas de evoluo no ensino mdio. </p><p>Palavras chave: representaes sociais, teoria da evoluo, gentica, professores-pesquisadores, ensino mdio. </p><p>Abstract- </p><p>The social representations of biology research professors of a public university from Rio de Janeiro on evolution theory were investigated. It was focused through the subject collective discourse (SCD) methodology. The professors social representations showed two different discourses that express the contingent influence of their academic activities. We noticed that the researched group range between Darwinism and neo-Darwinism, which may be reflected in the classroom. Teaching and learning issues on evolution theory analyzed through our results indicate the need of genetics explanations integrated to evolution theory teaching in high school. </p><p> Keywords: social representations, evolution theory, genetics, research professors, high school. </p><p>Introduo A abordagem cientfica da teoria evolutiva, de base neodarwinista, foi estabelecida a partir </p><p>da composio de um conjunto de explicaes e conceitos evolutivos de diferentes reas como a gentica, a ecologia e a paleontologia. Tais aportes explicativos de reas diversas consolidaram a teoria evolutiva como um fato emprico sob qualquer critrio. A teoria </p><p> 1 Pesquisa financiada pelo CNPq. </p></li><li><p> 2</p><p>evolutiva hoje contedo obrigatrio no ensino bsico. Entretanto, o ensino dos conceitos evolutivos ainda desafia os educadores. </p><p>Um conceito em particular, central na teoria evolutiva, a seleo natural, tem revelado dificuldades para sua compreenso, pois exige a articulao de um conjunto de idias: descendncia com modificao, reproduo diferencial, variabilidade e adaptabilidade. Este fenmeno tem sido visto como abstrato por estudantes na compreenso das implicaes precisas da seleo natural, j que s observado o seu produto final, bem como dificuldades em se produzirem dados empricos em curto prazo que comprovem a seleo natural (Abrantes &amp; Almeida, 2006; Anderson et al.,2002; Brumby, 1984). Evoluo, adaptao e competio tm igualmente revelado dificuldades porque se mostram associadas a sentidos diversos. Evoluo aproxima-se do sentido de finalidade, progresso ou melhoramento e chega a significar conscincia dos organismos envolvidos no processo evolutivo. Adaptao pode ser confundida como um processo individual de um organismo e competio seria um comportamento violento (Bizzo, 1994; Tidon &amp; Lewontin, 2004). O termo teoria tem sido compreendido como algo especulativo e provisrio num sentido pejorativo (Branch &amp; Mead, 2008; Cunninghan &amp; Wescott, 2009). </p><p>Em seus esforos de melhor compreender as explicaes evolutivas, os estudantes utilizam concepes prvias, advindas de seu mundo social, tornando, para eles, os conceitos cientficos plausveis (Bishop &amp; Anderson, 1990). Entre as concepes prvias est a presena de crenas religiosas para as explicaes evolutivas. Pesquisas apontaram para uma viso antropocntrica da evoluo, tpica das religies crists, de que a teoria evolutiva aceita at o limite da evoluo dos humanos, os quais teriam sido criados separadamente das outras espcies (Futuyma, 1999; Cerqueira, Costa &amp; Falco, 2007; Porto &amp; Falco, 2011). </p><p>A seleo natural tem sido objeto de conflito com as crenas religiosas (Richards, 2008; Gualtieri, 2009). Esse conceito explicado pela cincia como um processo determinstico e sem direo que ocorre como consequncia de mutaes aleatrias nos organismos que so, naquele momento, favorveis s condies do ambiente. H, porm, uma tendncia em se perceber tal mecanismo como um agente do processo evolutivo, o que se contrape viso teolgica de que Deus o arquiteto das mudanas evolutivas. </p><p>Compondo as dificuldades no ensino-aprendizagem da teoria evolutiva esto as falhas na formao docente tanto com relao base terica quanto pedaggica. Os professores, muitas vezes, evitam debater temas da cincia que podem gerar dvidas ou se confrontar com outras fontes de explicao, como as religiosas (Nicolini, Falco &amp; Faria, 2010). Limitaes no domnio das explicaes tericas da teoria da evoluo foram identificadas junto a professores, os quais misturavam explicaes de base lamarckista para a explicao do neodarwinismo (Tidon &amp; Lewontin, 2004). Dvidas e idias criacionistas foram encontradas em grupos de professores para a explicao da origem e evoluo da vida contribuindo para um ensino deficiente quanto a estes temas (Falco, Santos &amp; Raggio, 2008). </p><p>Materiais didticos e currculos inadequados podem reforar as interpretaes incorretas sobre evoluo. A teoria no apresentada descontextualizada historicamente ressaltando-se, apenas a clssica dicotomia lamarckismo x darwinismo (Almeida e Falco, 2005; Santos &amp; Calor, 2007a,b). </p><p>Este um quadro resumido das diferentes dificuldades de ensino-aprendizagem da teoria evolutiva e que so de diferentes ordens: a teoria seria complexa, crenas religiosas concorrem com as explicaes evolutivas, material didtico, currculo e falhas na formao docente tambm podem ser obstculos. Interessou-nos explorar, na presente pesquisa, as dificuldades atribudas ao corpo de explicaes que compe a teoria evolutiva. A </p></li><li><p> 3</p><p>complexidade ou a dificuldade conceitual seria obrigatoriamente um problema? Consensos e controvrsias na teoria seriam uma referncia para o entendimento de tais dificuldades? Para melhor compreenso dessa questo, julgamos necessrio investigar tais aspectos dentro da academia com professores-pesquisadores da rea da Biologia. Estes professores so um elo entre a produo cientfica, a graduao em biologia e a formao docente e poderiam fornecer subsdios para um melhor entendimento destes aspectos. </p><p>Tardif (2000) e Gauthier (1998) fizeram importantes consideraes a respeito dos saberes profissionais de professores. Estes autores ressaltam que os diferentes saberes (da formao profissional, disciplinar, curricular, experiencial, das cincias da educao, da tradio pedaggica, da ao pedaggica) esto presentes na prtica pedaggica no sentido no s de formar estudantes competentes, a partir das habilidades docentes, mas tambm de favorecer o desenvolvimento mais completo do estudante. Tardif destaca que: </p><p>os saberes profissionais se referem ao trabalho, como uma teoria se refere a um objeto ou a uma prtica, mas vai mais longe, dizendo que os saberes profissionais so saberes trabalhados, saberes laborados, incorporados no processo de trabalho docente, que s tm sentido em relao s situaes de trabalho e que nessas situaes que so construdos, modelados e utilizados de maneira significativa pelos trabalhadores. O trabalho no primeiro um objeto que se olha, mas uma atividade que se faz, e realizando-a que os saberes so mobilizados e construdos. Esse enfoque considera que o profissional, sua prtica e seus saberes no so entidades separadas, mas co-pertencem a uma situao de trabalho na qual co-evoluem e se transformam (Tardif, 2000 p. 7). </p><p>Tal considerao refora a importncia da pesquisa com os professores-pesquisadores, uma vez que estes so sujeitos da transformao e transposio do conhecimento especializado do pesquisador (o saber profissional) para o ensino. Buscando-se conhecer os saberes profissionais podem-se clarificar aspectos relacionados s dificuldades discentes relacionadas ao objeto tema da pesquisa: a teoria da evoluo. </p><p>Metodologia Elaboramos trs perguntas para esta pesquisa: I- Como voc resumiria o bsico da teoria da </p><p>evoluo com suas prprias palavras?; II- Quais os pontos controversos da teoria da evoluo e como voc v essas controvrsias? e III- Quais os consensos com relao teoria da evoluo? Com a pergunta I buscamos perceber se o grupo investigado possua uma base comum para a explicao da teoria da evoluo. As perguntas II e III permitiram captarmos a opinio dos professores com relao ao que julgam controvertido ou consensual dentro do corpo de explicaes que compem a teoria evolutiva. </p><p>Foram realizadas entrevistas individuais com professores de uma instituio universitria publica da cidade do Rio de Janeiro. Esta instituio no s tem ensino de qualidade como conta com docentes altamente especializados em questes da teoria da evoluo. Interessou-nos investigar apenas professores que fossem pesquisadores e tivessem contato com pressupostos evolutivos. Como referencial terico utilizou-se a teoria das Representaes Sociais, na perspectiva de Moscovici. As Representaes Sociais so construdas e transmitidas a partir das interaes humanas e devem ser vistas como uma maneira especfica de compreender e comunicar o que j sabemos tendo como objetivo abstrair sentido do mundo introduzindo nele ordem e percepes, que produzam o mundo de uma forma significativa (Moscovici, 2003). </p><p>O objeto tema da pesquisa aqui apresentado a teoria da evoluo. Poderia se esperar que apenas a preciso dos conceitos cientficos permeasse as atividades escolares em diferentes nveis de ensino: bsico, graduao, ps-graduao e laboratrios onde dominam pesquisadores especializados no tema. Entretanto, apreciaes diversas sobre conceitos </p></li><li><p> 4</p><p>especficos da teoria so encontrados na literatura especializada. Considerando tal realidade, optamos por trabalhar com o conceito de Representaes Sociais com o objetivo de capturar tanto quanto possvel a diversidade de tais contedos ou posicionamentos, o que permitiria identificar e caracterizar vises mais completas dos contedos que possivelmente esto includos nas convices desses pesquisadores. Em resumo, buscamos nessa pesquisa todo o imaginrio dos pesquisados que venha a ser expresso em seus discursos, de modo a encontrar possveis elementos que tornem mais preciso o diagnstico das dificuldades no ensino e aprendizagem em relao teoria da evoluo. </p><p>Considerando o referencial terico utilizamos, para a anlise das respostas dos entrevistados, a metodologia qualiquantitativa formulada a partir do conceito de Representaes Sociais, o Discurso do Sujeito Coletivo DSC (Lefvre &amp; Lefvre, 2003). A partir de todos os depoimentos individuais so retiradas as expresses-chave (ECH) que agrupadas de acordo com os elementos comuns, so nomeadas por ideias centrais (IC). Cada conjunto de expresses-chave semelhantes formar um discurso-sntese (DSC) nomeado pela IC. O DSC construdo na primeira pessoa do singular que expressa o compartilhamento coletivo do grupo sobre determinado tema. Para tal resultado, as respostas dos sujeitos so reproduzidas fielmente. Logo, o DSC permite expressar, a partir dos vrios discursos-sntese formados, a representao social do grupo, ou seja, todo o imaginrio de uma coletividade sobre o fenmeno em questo. </p><p>Como etapa metodolgica, aps a anlise dos dados e elaborao dos discursos coletivos dos docentes, foi realizado um seminrio com a participao dos professores pesquisados para apresentao, discusso e validao desses discursos, os quais constam nos Quadros da prxima seo. </p><p>Resultados Os discursos coletivos expressos e construdos atravs da metodologia do discurso do </p><p>sujeito coletivo (DSC) esto expostos nos Quadros 1, 2 e 3. Ao final de cada discurso so apresentados o nmero (n) e o percentual (%) de professores que aderiram a cada discurso servindo como um elemento para apoio interpretao dos dados obtidos. A soma do percentual dos DSC obtidos em cada uma das perguntas superior a 100%. Isto indica que os DSC no so excludentes, ou seja, um mesmo entrevistado pode ter aderido a mais de uma IC. </p><p>O grupo investigado tem dedicao exclusiva ao ensino e pesquisa na universidade. Foram identificados 17 professores que lecionavam tanto na graduao quanto na ps-graduao em biologia e produziam pesquisa cientfica relacionada a aspectos genticos ou ecolgicos. Cinco destes professores lecionavam na disciplina de Evoluo e todos afirmaram ter pressupostos evolutivos em suas linhas de pesquisa. Os professores pesquisados so altamente qualificados, todos doutorados e a maioria com ps doutorado. Todos esto envolvidos em programa de ps graduao e publicam em peridicos como: Genetics and Molecular Biology; Journal of Evolutionary Biology; PloS one; Genetics and Evolution; Nature; Science; Oecologia Brasiliensis; Acta Limnologica Brasiliensia; Brazilian Journal of Biology; Neotropical Entomology). A faixa etria concentrou-se a maior parte entre 39 e 59 anos, poucos com menos de 35 e mais de 60 anos. A maior parte era do sexo masculino. </p><p>Os professores, no seminrio realizado, no s confirmaram seus discursos como sugeriram nomes (idias centrais) dos DSC 2 e 3 do Quadro 1: Discurso Darwiniano clssico e Discurso Neoclssico. No conjunto, a participao dos professores foi muito interessante e interessada haja vista a durao do seminrio: cerca de 3 horas. Foi observado por eles que o </p></li><li><p> 5</p><p>seminrio havia sido uma rara oportunidade, na instituio, de discusso entre os pesquisadores que estudam e pesquisam temas afins. </p><p>Representaes dos professores-pesquisadores quanto teoria da evoluo </p><p>Para a pergunta I: Como voc resumiria o bsico da teoria da evoluo, com suas prprias palavras? foram formadas quatro ideias centrais: </p><p>Quadro 1.- DSC sobre o bsico da teoria evolutiva. </p><p>1- A teoria da evoluo apresentada com referncias epistemolgicas. </p><p>Hoje em dia, a teoria da evoluo no mais uma teoria, um fato cientfico. uma teoria que visa explicar o porqu do que chamamos hoje de biodiversidade, a multiplicidade de formas de vida, suas semelhanas e diferenas. A teoria da evoluo explica como ocorrem as mudanas em todos os nveis (...) e as interaes que essas mudanas tm com fatores biticos e abiticos. A teoria muito mais que isso: eu diria que uma teoria criada no sculo 19 que na essncia igual teoria atual. um guia para interpretar todos os dados biolgicos. a nica teoria com grande poder explicativo originria da biologia (...) que tenta explicar desde a origem da vida at os dias de hoje, como as espcies evoluram, em cima de discusses de id...</p></li></ul>