Dados geolinguísticos sob uma perspectiva estatística: a variação

Download Dados geolinguísticos sob uma perspectiva estatística: a variação

Post on 08-Jan-2017

213 views

Category:

Documents

1 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

<ul><li><p>Dados geolingusticos sob uma perspectiva estatstica: a variao lexical no Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil</p><p>Geolinguistic Data under a Statistical Perspective: Lexical Variation in Midweast, Southeast and South of Brazil</p><p>Valter Pereira Romano1*Universidade Estadual de Londrina</p><p>Londrina - Paran / Brasil</p><p>Rodrigo Duarte Seabra2**Universidade Federal de Itajub</p><p>Itajub - Minas Gerais / Brasil</p><p>ResumoEste trabalho utiliza como corpus de anlise os dados coletados pela equipe do Projeto Atlas Lingustico do Brasil em trs regies: Centro-Oeste, Sudeste e Sul. A pesquisa objetiva discutir a distribuio diatpica das variantes lexicais para a questo 133 Criana pequenininha, a gente diz que beb. E quando ela tem de 5 a 10 anos, do sexo feminino? do Questionrio Semntico-Lexical (COMIT NACIONAL, 2001, p. 32). A metodologia utilizada envolveu anlises descritivas e inferenciais pertinentes ao estudo. Para tanto, cinco hipteses foram testadas a fim de averiguar o comportamento e a distribuio das cinco variantes mais produtivas no conjunto de respostas. Os principais resultados indicam que as variantes apresentam comportamento distinto nas trs regies: (i) a </p><p>* valter.romano@hotmail.com</p><p>** rodrigo@unifei.edu.br</p></li><li><p>ROMANO; SEABRA60</p><p>variante menina apresenta distribuio homognea nos dez estados; (ii) a forma lexical guria possui distribuio heterognea nas regies Centro-Oeste e Sul; (iii) a variante garota apresenta homogeneidade no Sudeste do pas. </p><p>Palavras-chaveProjeto ALiB; Dialetologia; Variantes Lexicais.</p><p>AbstractThis paper uses as its corpus of analysis the data collected by the project Brazilian Linguistic Atlas in three regions: Midwest, Southeast and South. The research aims at discussing the diatopical distribution of lexical variants concerning question 133 Criana pequenininha, a gente diz que beb. E quando ela tem de 5 a 10 anos, do sexo feminino? from the Lexical-Semantic Questionnaire (COMIT NACIONAL, 2001, p. 32). The methodology involved descriptive and inferential analysis appropriate for the study. Five hypotheses were tested in order to analyze the behavior and distribution of the five most productive variants in the set of answers. The main results indicate that variants exhibit different behavior in the three regions analyzed: (i) the variant menina shows homogeneous distribution in ten states; (ii) the lexical form guria has heterogeneous distribution in the Midwest and Southern regions; (iii) the variant garota shows homogeneity in the Southeast of the country.</p><p>KeywordsALiB Project; Dialectology; Lexical Variants.</p></li><li><p>Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 22, n. 2, p. 59-92, jul./dez. 2014 61</p><p>1 INTRODUO</p><p>ste trabalho, inserido no mbito dos estudos dialetais do Brasil, visa a discutir a distribuio diatpica das variantes lexicais para designativos de menina em dez estados brasileiros situados nas regies Centro-Oeste, </p><p>Sudeste e Sul. Partindo de dados empricos coletados para o Projeto Atlas Lingustico do Brasil, formulam-se hipteses que retratam o comportamento lingustico das variantes documentadas submetendo-as a testes estatsticos. </p><p>O trabalho pauta-se no lxico, pois este o nvel da lngua que melhor documenta o modo como um povo v e representa a realidade em que vive (ISQUERDO, 2003, p. 165). De acordo com Isquerdo (2007, p. 533), o lxico representa ainda um aspecto diferenciador no que se refere variao lingustica, sobretudo, a geogrfica, pois alm de evidenciar diferenas de uma regio para outra, demonstra tambm a consequente mobilidade dessas diferenas de um espao para outro. Dessa forma, verificar as especificidades lexicais de cada rea geogrfica uma tarefa desafiadora, dada a dinamicidade da lngua e a disseminao de variantes. </p><p>Nas prximas sees, apresentam-se algumas consideraes sobre os estudos geolingusticos no Brasil, com o intuito de traar o panorama dos atlas lingusticos estaduais, bem como caracterizar, sumariamente, o Projeto Atlas Lingustico do Brasil. Dando continuidade ao trabalho, resgata-se o registro das principais variantes documentadas em seis obras lexicogrficas. Na seo 4, tecem-se comentrios sobre os materiais e mtodos empregados no estudo e, na sequncia, a anlise dos dados. Ao final do artigo, apresentam-se as consideraes finais, seguidas das referncias bibliogrficas.</p><p>2 SITUANDO A GEOLINGUSTICA BRASILEIRA</p><p>O estudo da variedade lingustica de determinada comunidade evidencia caractersticas prprias de seus falantes, visto que cada indivduo imprime as suas particularidades na lngua. Assim, dependendo do sexo, da faixa etria, </p><p>E</p></li><li><p>ROMANO; SEABRA62</p><p>da etnia, do nvel social do indivduo, entre outras variveis, encontram-se diferentes comportamentos lingusticos. </p><p>A variao diatpica, no entanto, subjaz aos diferentes tipos de variao, seja ela diastrtica, diassexual, diagenrica ou diafsica3, pois o indivduo encontra-se situado em determinada rea geogrfica, o que tambm determina a variedade lingustica que utiliza. Nesse sentido, os atlas lingusticos4 tm contribudo, sobremaneira, para a descrio diatpica das lnguas. </p><p>No que se refere ao portugus brasileiro, a elaborao de atlas lingusticos tem alcanado inmeros avanos desde 1963, ano em que Nelson Rossi, grande expoente da Dialetologia brasileira, publicou o primeiro atlas lingustico regional, o Atlas Prvio dos Falares Baianos (APFB). Passados catorze anos da publicao do APFB, outro atlas lingustico foi publicado, o Esboo de um Atlas Lingustico de Minas Gerais (RIBEIRO et al., 1977), seguindo-se o Atlas Lingustico da Paraba (ARAGO e BEZERRA DE MENEZES, 1984), o Atlas Lingustico de Sergipe (FERREIRA et al., 1987) e o Atlas Lingustico do Paran (AGUILERA, 1994). </p><p>Os estudos dialetolgicos brasileiros, em especial os da rea da Geolingustica, tomaram novo flego com o lanamento, em 1996, do Projeto Atlas Lingustico do Brasil (ALiB)5, medida que props uma slida metodologia no que tange definio de rede de pontos, ao perfil dos informantes, ao modelo de transcries e de instrumentos de coleta de dados. Assim, a esses cinco primeiros atlas estaduais publicados somam-se o Atlas Lingustico Sonoro do Par (RASKY, 2004), o Atlas Lingustico do Amazonas (CRUZ, 2004), o Atlas Lingustico do Sergipe II (CARDOSO, 2005), o Atlas Lingustico do Mato Grosso do Sul (OLIVEIRA, 2007), o Atlas Lingustico do Paran II (ALTINO, 2007) e o Atlas Lingustico do Cear (BESSA, 2010), dois destes, at o presente momento no publicados, o ALAM e o ALPR II. Alm desses 11 atlas estaduais, soma-se, ao conjunto de atlas brasileiros divulgados, o Atlas Lingustico Etnogrfico da Regio Sul (ALTENHOFEN; KLASSMAN, 2011), o nico que recobre uma regio administrativa do pas.</p><p>Dessa forma, os atlas lingusticos fornecem um amplo material de cartas fonticas, lxicas e morfossintticas que retratam o falar de determinada rea geogrfica e comunidade lingustica, constituindo-se, portanto, como documentos histricos, que trazem informaes no somente lingusticas, mas, principalmente, socioculturais.</p><p>Os dados coletados para a elaborao do Atlas Lingustico do Brasil tm contribudo para a descrio do portugus brasileiro sob a perspectiva lexical, </p></li><li><p>Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 22, n. 2, p. 59-92, jul./dez. 2014 63</p><p>fontica, morfossinttica e prosdica, conforme se atesta em Aguilera, Altino e Isquerdo (2012). </p><p>No nvel lexical, dentre os trabalhos mais recentes, citam-se como exemplos os de Isquerdo (2009), Romano e Aguilera (2009), Silva e Aguilera (2010), Paim (2011), Yida (2011), Silva-Costa e Isquerdo (2012), Freitas Marins (2012), Ribeiro (2012), entre outros. Esses trabalhos apontam para as diferenas regionais do lxico do portugus brasileiro, ora confirmando a proposta de diviso dialetal de Nascentes (1953), sob a perspectiva lexical, ora evidenciando particularidades que caracterizam cada uma das regies.</p><p>Interessa-nos, neste estudo, verificar a variao lexical dos designativos para a criana que tem entre cinco e dez anos do sexo feminino relativa questo 133 do Questionrio Semntico Lexical do ALiB (COMIT NACIONAL, 2001, p. 32) junto a informantes naturais das trs regies brasileiras supracitadas.</p><p>3 RESGATE DAS VARIANTES EM OBRAS LEXICOGRFICAS</p><p>Para a questo 133 do QSL, foram registradas nove variantes lexicais, das quais discutimos as ocorrncias das seis mais produtivas no universo das respostas: menina, guria, garota, mocinha, moleca e piveta6. Cada um desses itens apresenta diferentes formaes etimolgicas e distintas dataes na lngua portuguesa. Assim, foram selecionados seis dicionrios para verificar as acepes, a datao e a etimologia de cada um dos vocbulos, a saber: trs dicionrios antigos, Bluteau (1728), Moraes Silva (1813) e Pinto (1832); dois dicionrios contemporneos gerais do portugus, Houaiss (2001) e Ferreira (2004); e um dicionrio etimolgico, Cunha (2010).</p><p>Bluteau (1728) registra o verbete menina como um sinnimo de rapariga, registrado com a acepo de mocinha, Puella (BLUTEAU, 1728, p. 107). O lexicgrafo abona o verbete menina da seguinte forma: So senhoras da primeira qualidade, &amp; moas; ouvi dizer que lhe chamo Meninas, porque ando com calado baixo, &amp; sem chapins (BLUTEAU, 1728, p. 421). Moraes Silva (1813), por sua vez, apresenta o vocbulo menina como um substantivo feminino A femea de tenra idade (MORAES SILVA, p. 288). Pinto (1832), alm de apresentar a locuo menina dos olhos como designativo da pupila, remete o leitor forma masculina do vocbulo, menino e, para este verbete, Diz do homem, ou molher at a idade de sete anos (PINTO, 1832, s/p). Para </p></li><li><p>ROMANO; SEABRA64</p><p>Cunha (2010, p. 420), o vocbulo data sua introduo na lngua portuguesa, aproximadamente, no sculo XIII, derivada das formas histricas meni)a, menynna XIII etc, com a acepo de criana do sexo feminino. Ferreira (2004) apresenta trs acepes para o vocbulo, todas classificadas como substantivo feminino, indicando tambm outras variantes: 1.Criana do sexo feminino; garota. 2.Mulher nova e/ou solteira; mocinha, garota. 3.Tratamento familiar e afetuoso dado s pessoas de sexo feminino, crianas e adultos (FERREIRA, 2004). J Houaiss (2001) apresenta seis acepes acrescentando outras no apontadas pelos lexicgrafos: </p><p>1. criana ou adolescente do sexo feminino; garota; 2. Jovem do sexo feminino at a idade nbil; moa jovem e/ou solteira; mocinha; 3. descendente do sexo feminino; filha; 4. maneira carinhosa e familiar de tratar um parente ou amiga, mesmo quando j adulta; 5. moa que se namora; namorada, garota, pequena; 6. Uso: informal. mulher da vida; meretriz, prostituta (HOUAISS, 2001).</p><p>O item lexical guria relaciona-se diretamente com a sua forma no masculino, guri. Nenhum dos trs dicionrios antigos a que tivemos acesso, Bluteau (1728), Moraes Silva (1813) e Pinto (1832) registram guri ou guria. Em Cunha (2010, p. 329), encontra-se o registro do verbete guri e, de acordo com o etimologista, este vocbulo veio do tupi ri com a acepo que designa o bagre novo (tipo de peixe), por extenso de sentido, a criana. Ainda nesta entrada, o dicionarista remete o usurio ao verbete guiri - sm bagre / curi 1587, guori datada aproximadamente 1631. Houaiss (2001), em contrapartida, registra a datao de 1890, documentada no Dicionrio Etimolgico da Lngua Portuguesa de Jos Pedro Machado (1952). Para o lexicgrafo, entre outras acepes, trata-se de um regionalismo brasileiro para designar o menino, a criana. Apresenta o verbete guria como um regionalismo do Brasil sem especificar a rea em que ocorre, definindo como 1. criana do sexo feminino; menina; 2 moa com quem se namora; namorada, garota. Segundo o lexicgrafo, este vocbulo est registrado na 10 edio do Dicionrio da Lngua Portuguesa de Moraes Silva (1958); portanto, sua introduo nos dicionrios de portugus no to antiga quanto o vocbulo correlato masculino, guri. Ferreira (2004), apesar de apresentar a mesma acepo para o vocbulo guri, traz outra etimologia. Segundo o dicionarista, este item lexical </p></li><li><p>Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 22, n. 2, p. 59-92, jul./dez. 2014 65</p><p>tambm vem do tupi, porm com o sentido de pequeno, no fazendo, portanto, aluso ao peixe. No verbete guria, apresenta as mesmas acepes de Houaiss (2001), tratando-se de um brasileirismo, para o feminino de guri: Menina, namorada, garota (FERREIRA, 2004).</p><p>O vocbulo garota no est dicionarizado nem em Bluteau (1728) nem em Pinto (1832). Esses dicionrios tambm no registram o vocbulo na sua forma masculina. Somente em Moraes Silva (1813) se encontra o primeiro registro na lngua portuguesa que, por sua vez, tambm no registra a forma no feminino. Para Moraes Silva (1813), garoto o rapaz brejeiro, mal criado, petulante (MORAES SILVA, 1813, p.80). Cunha (2010, p.311) considera incerta a origem do vocbulo, porm, de acordo com Houaiss (2001), Jos Pedro Machado relaciona o vocbulo ao fr. gars (sXII) rapaz, do fr. garon, seguido do sufixo dim. oto. O vocbulo garon, por sua vez, segundo o Dicionrio Larousse (GLVEZ, 2005, p.159), usado na lngua francesa para designar o menino, assim como gamin. Houaiss (2001) apresenta trs acepes para o verbete garota, das quais duas referem-se ao referente em pauta: 1. criana ou adolescente do sexo feminino; 2. moa que se namora; namorada, pequena (HOUAISS, 2001). Ferreira (2004) traz as mesmas acepes de Houaiss (2001), alm de uma forma sinonmica para nibus, jardineira. </p><p>Na entrada do vocbulo mocinha, Bluteau (1728) remete o leitor ao verbete moasinha: moa pequena. Mocinha (BLUTEAU, 1728, p.522). Moraes Silva (1813, p.307) tambm remete ao verbete moasinha, porm, nas duas entradas, apresenta-o como um substantivo feminino, indicando o diminutivo de moa. Pinto (1832) no registra o verbete mocinha nem moasinha, somente em moa o usurio remetido ao verbete moo, classificado como adj. que est nos annos da mocidade (PINTO, 1832). Cunha (2010, p. 431), no verbete moo no reconhece a origem do vocbulo e, segundo o etimologista, data o sculo XIII. Houaiss (2001), no entanto, apesar de salientar que a origem do vocbulo controversa, acrescenta que Corominas associa o port. moo ao esp. mozo e, lembrando que originalmente ambos designam criana, homem jovem, supe que se ligue a mocho raspado, pelado, sem chifres, tido como voc. expressivo; seria costume manter crianas e jovens rapazes de cabelos raspados (HOUAISS, 2001) e das quatro acepes para o verbete mocinha, apenas a primeira se aproxima do referente em pauta: moa muito nova; mooila, jovem, rapariga (HOUAISS, 2001). Ferreira (2004) </p></li><li><p>ROMANO; SEABRA66</p><p>apresenta apenas uma acepo para mocinha, como um vocbulo formado pela palavra moa + o sufixo inha tratando-se de um brasileirismo na mesma acepo apontada por Houaiss (2001), moa muito jovem; mooila (FERREIRA, 2004). Conforme se verifica, nas obras lexicogrficas, no h registros da variante mocinha como forma sinonmica para a criana do sexo feminino, apenas referncias ao carter jovial da pessoa. </p><p>Bluteau (1728) no registra o verbete moleca e, na entrada do vocbulo moleque, afirma que Veyo-nos esta palavra do Brasil (p. 541), no o considerando, portanto, como uma forma tpica do portugus europeu. Cunha (2010, p. 433) registra que esse vocbulo veio do quimbundo muleke, para design...</p></li></ul>