Da razão à revelação - uma introdução.pdf

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<ul><li><p>Revista Eletrnica Correlatio v. 12, n. 23 - Junho de 2013DOI: http://dx.doi.org/10.15603/1677-2644/correlatio.v12n23p59-70</p><p>Da razo revelao: uma introduo ao mito em Paul Tillich</p><p>Vitor Chaves de Souza*</p><p>ReSumoEste artigo tem o objetivo de elucidar a importncia do mito no pensa-mento de Paul Tillich e o papel deste campo de estudo em sua teologia e filosofia. Para tal tarefa, delimitou-se um caminho pelo qual sero contempladas questes como o limite da razo, a dinmica do smbolo e a profundidade da revelao relacionadas ao mito. Concluir que o mito possui autonomia diante das demais cincias e que, para compreender-mos melhor as narrativas religiosas, necessria a vivncia do mito em categorias ontolgicas da f. Palavras-chaves: Paul Tillich; mito; smbolo; razo.</p><p>FRom ReaSon to ReVelation: an intRoduCtion to the QueStion oF myth in Paul tilliChabStRaCtThis article seeks to demonstrate the importance of the myth for Paul Tillichs thought and its role in his theology and philosophy. For this task it was delimited the path through some questions such as the limits of reason, the dynamic of the symbol, and the depth of revelation related to the myth. It will be concluded that the myth features autonomy from any other science, and, in order to understand the religious narratives, it is necessary to experience the myth in ontological categories of faith.Keywords: Paul Tillich; myth; symbol; reason.</p><p>introduo</p><p>Qual foi o trabalho acerca do mito feito por Paul Tillich? O estu-do do mito de Tillich razoavelmente simples, mas ao mesmo tempo </p><p>* Telogo, mestre e doutorando em Cincias da Religio pela Universidade Meto-dista de So Paulo. E-mail: vitor@chaves.com.br</p></li><li><p>Revista Eletrnica Correlatio v. 12, n. 23 - Junho de 2013DOI: http://dx.doi.org/10.15603/1677-2644/correlatio.v12n23p59-70</p><p>Vitor Chaves de Souza60</p><p>complexo. Simples, pois tal estudo possui uma centralidade e uma preocupao elementar: a relao entre mito e razo, em um primeiro momento, e o que significa o mito para a Teologia, num segundo mo-mento. No entanto, sua compreenso complexa, uma vez que Tillich pensa o mito em categorias que servem Teologia em sua grande obra acadmica. Com esta pesquisa buscaremos elucidar a importncia do mito para Paul Tillich e o papel deste campo de estudo em seu pensa-mento. Percorreremos as questes do limite da razo e do mundo do mito, como tambm a importncia da revelao para a narrativa mtica. Desta forma, pretendemos contribuir Teologia e s Cincias da Re-ligio com uma investigao hermenutica sobre o profundo tema do mito em um dos telogos e filsofos mais importantes do sculo XX.</p><p>mito e razo</p><p>O ponto de partida delimitar onde se d a reflexo acerca do mito em Paul Tillich. O filsofo trabalha o mito no primeiro volume da Teologia Sistemtica.1 Inicialmente, em uma breve leitura da obra, tendo o mito em foco, percebe-se que o mesmo est subordinado teologia. Todo mito contm um pensamento teolgico que pode ser e, de fato, muitas vezes foi explicado.2 Para Tillich, as especulaes mticas ou metafricas unem elevao meditativa com insero teol-gica o caso das espiritualidades ocidentais, onde as narrativas de determinadas estrias mticas esto enraizadas na vida cotidiana sem que haja uma distino clara do que seria o real e do que seria o mtico. Ao trabalhar com o pensamento grego, a filosofia clssica une a anlise racional viso teolgica. nesta perspectiva que, segundo Tillich, todas as tentativas de interpretaes ticas legais e rituais da lei divina so formas de teologia. Pensar o mito , para Tillich, fazer teologia. Aqui, teologia no sentido puro do termo, theos e logos, Deus e palavra, ou seja, teologia , a rigor, uma narrativa sobre Deus. </p><p>Feita esta distino bsica e fundamental de que o mito est subordinado teologia, uma vez que a prpria teologia uma narrativa sobre Deus toda teologia possui mitos e todo mito compreende uma </p><p>1 Cf. TILLICH, Paul. Teologia Sistemtica. So Leopoldo: Sinodal, 2005.2 TILLICH, Paul. Teologia Sistemtica, p. 33.</p></li><li><p>Revista Eletrnica Correlatio v. 12, n. 23 - Junho de 2013DOI: http://dx.doi.org/10.15603/1677-2644/correlatio.v12n23p59-70</p><p>Da razo revelao: uma introduo ao mito em Paul Tillich 61</p><p>teologia; afinal, o mito comporta categorias do incondicional. Qual , portanto, a novidade do mito em Paul Tillich? </p><p>Ao falar de mito Tillich se reporta razo. Para o filsofo, </p><p>a profundidade da razo aquela caracterstica da razo que explica duas funes da mente humana, o mito e o culto, cujo carter racional no se pode afirmar nem negar, porque apresentam uma estrutura independente que no pode ser reduzida a outras funes da razo nem ser derivada de elementos psicolgicos ou sociolgicos pr-racionais.3 </p><p>Esta citao delimita a importncia do mito: uma linguagem da mente humana que no poderia ser dita seno pela narrativa mtica. H autonomia e funes prprias do mito, as quais, se trabalhadas com a te-ologia, podem elucidar aspectos da condio humana. Tillich diz ainda: </p><p>o mito no cincia primitiva, nem o culto moralidade primitiva. Seu contedo, assim como a atitude das pessoas frente a eles, revela elemen-tos que transcendem tanto a cincia quanto a moralidade elementos de infinitude que exprimem preocupao ltima. Esses elementos esto essencialmente implcitos em todo ato e processos racionais. Por isso, eles no requerem, a princpio, uma expresso separada.4 </p><p>O mito, portanto, importante para Tillich e merece um cuidado especial. Estas citaes so chaves de leitura fundamentais para colo-carmos o mito de Tillich em dilogo com seus contedos. A relao do mito com a teologia, ou melhor, a subordinao do mito para a teologia, o primeiro estgio para a abordagem original do mito em Tillich. Nesta relao aberta a discusso daquilo que ele denomina por a profundidade da razo. H uma dimenso de transcendncia da prpria razo. A profundidade da razo a expresso de algo que no a razo, diz Tillich, mas que a precede e se manifesta atravs dela5. Tudo que se expressa atravs da expresso racional a transcendncia da razo. H como variantes os elementos metafricos. A metfora, neste caso, uma potencialidade infinita de ser e de sentido que ultra-passa a razo. O mito, do mesmo modo, assim como a metfora, ocupa </p><p>3 TILLICH, Paul. Teologia Sistemtica. p. 93.4 TILLICH, Paul. Teologia Sistemtica. p. 93.5 TILLICH, Paul. Teologia Sistemtica. p. 92.</p></li><li><p>Revista Eletrnica Correlatio v. 12, n. 23 - Junho de 2013DOI: http://dx.doi.org/10.15603/1677-2644/correlatio.v12n23p59-70</p><p>Vitor Chaves de Souza62</p><p>parte da esfera racional que comunica aquilo que a razo em si no seria capaz e comunicar. </p><p>Desta forma, a profundidade da razo est manifestada de forma essencial na razo, mas est oculta na razo sob as condies da exis-tncia. Por causa dessas condies, a razo na existncia se expressa a si mesma no somente em suas funes prprias, mas tambm no mito e no culto6. Aqui notamos que a dicotomia comum que contrape razo e mito, presente no iluminismo, no relevante para Tillich. Razo e mito so igualmente importantes para o ser humano. devido a con-dio humana a limitao pela finitude e outras demais questes que ameaam o ser que Tillich afirmar: em si, no deveria haver nem mito nem culto; eles contradizem a razo essencial. Eles mostram, por sua prpria existncia, o estado cado da razo que perdeu a unidade imediata com sua prpria profundidade7. </p><p>De uma forma geral, o mito estaria nos limites da razo. Mas, ao invs de pensar o papel dos limites da razo, Tillich prefere incorpo-rar a dimenso do mito na reflexo a simplesmente negar que outras narrativas (metafricas e mticas) tenham menos importncia que o processo racional moderno. Ele constata que o mito anuncia algo que a razo no comporta e, por isso, o mito tem particular importncia. Em suma, para Tillich o mito (e consequentemente toda atividade que dele advm, como o culto e as prticas ritualsticas) se considerado como expresso da profundidade da razo, em forma simblica, estaria em uma dimenso onde no possvel nenhuma interferncia com as funes prprias da razo.8 Deste modo, no haveria, necessariamente, conflitos entre mito e conhecimento, culto e moral, uma vez que foi compreendida a profundidade do conceito ontolgico da razo. </p><p>Feita esta distino inicial, podemos continuar no mito, aproxi-mando-o da prpria teologia; afinal, h outra dimenso do mito que tem mais ver com a religiosidade do que o processo racional, que sua relao com o smbolo e a revelao.</p><p>6 TILLICH, Paul. Teologia Sistemtica. p. 94.7 TILLICH, Paul. Teologia Sistemtica. p. 94.8 Cf. TILLICH, Paul. Teologia Sistemtica. p. 94.</p></li><li><p>Revista Eletrnica Correlatio v. 12, n. 23 - Junho de 2013DOI: http://dx.doi.org/10.15603/1677-2644/correlatio.v12n23p59-70</p><p>Da razo revelao: uma introduo ao mito em Paul Tillich 63</p><p>mito e smbolo</p><p>No livro Dinmica da F Tillich diz: Mitos so smbolos da f associados lendas, os quais falam do encontro com os deuses entre si e dos deuses com os homens9. Basicamente, o mito uma narrativa onde a transcendncia incondicional torna-se possvel. Deste modo, smbolos e mitos so formas da conscincia humana que esto sempre presentes; possvel substituir um mito por outro, mas no se pode re-mover o mito da vida espiritual do ser humano10. O mito est presente nas vivncias do indivduo e em sua constituio de mundo. O mito , portanto, uma variao imaginria de mundo.</p><p>A viso de mundo que o mito inaugura traz consigo uma estrutura na qual trs aspectos so vivenciados independe e dependentemente um do outro. Conforme Rosenthal11, h trs dimenses no mundo do mito: o religioso, onde comporta o smbolo e a revelao, representando o incondicionado; o cientfico, onde so compreendidas as categorias cognitivas e racionais, fazendo a referncia realidade objetiva; e o ncleo mtico, que a objetificao do transcendente a partir de pro-priedades imanentes.</p><p>As trs dimenses so importantes (e as trs se dependem mutuamen-te), porm, interessa-nos, sobretudo, o ncleo mtico. Tillich comenta que o ncleo mtico essencialmente simblico, sem expresso emprica, dando espao para a incondicionalidade divina e a racionalidade humana. neste ponto que podemos inferir a clareza da concepo de mito de Tillich: o mito seria a descrio das relaes entre a transcendncia e a imanncia.12 no conflito entre o condicionado e o incondicionado que surge a narrativa mtica: a tentativa de satisfazer os anseios religiosos diante da queda.13</p><p>9 TILLIC, Paul. Dynamics of Faith, New York: Harper, 2001, p. 43.10 TILLIC, Paul. Dynamics of Faith, p. 45.11 ROSENTHAL, Klaus. Myth and Symbol:I. Tillichs Definition of Unbroken </p><p>Myth. Scottish Journal of Theology, 1965, 18, pp 411-434.12 CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro de; HIGUET, Etienne Alfred. A inter-</p><p>pretao da simblica da queda em Paul Tillich: um estudo em hermenutica teolgica. 2007. 302 f. Tese (doutorado em Cincias da Religio) --Faculdade de Filosofia e Cincias da Religio da Universidade Metodista de So Paulo, So Bernardo do Campo, p. 57.</p><p>13 Cf. FISCHER, Simon. Half-way Demythologisation? In: Modern Theology, 3:3, 1987, p. 253.</p></li><li><p>Revista Eletrnica Correlatio v. 12, n. 23 - Junho de 2013DOI: http://dx.doi.org/10.15603/1677-2644/correlatio.v12n23p59-70</p><p>Vitor Chaves de Souza64</p><p>A partir disso, h o que Tillich denomina por mito quebrado, i.e., quando o contedo do mito, em geral sua abordagem racional e empri-ca, desconectada de sua referncia transcendente e submetido crtica cientfica. Neste sentido Tillich diz: O mito precisa, como se diz hoje, de desmitologizao14. H no mito uma verdade de preocupao ltima vei-culada por ele. No entanto, seu contedo literal no exatamente preciso, tanto no sentido religioso como cientfico. No h um desejo de extino dos mitos, pelo contrrio, o mito possui sua originalidade e faz parte da condio humana, mas h uma busca pela integridade do mito na vida religiosa, pelo espao original do mito e seus contedos. Basicamente o que est no cerne da questo da teologia de Tillich a preocupao ltima. Esta transcende qualquer estrutura emprica ou quaisquer possi-bilidades de objetificao. A divindade est alm da linguagem, de modo que no possvel diferenci-la caractersticas no prprio mito. O que original no mito, para Tillich, o impulso em direo ao incondicionado, presente tambm no smbolo. Neste sentido, o mito estabelece uma co-nexo entre viso de mundo e intuio do incondicionado transcendente. Portanto, uma das grandes contribuies de Tillich acerca do mito que este auxilia na compreenso de mundo.</p><p>Dito isto, o caminho para a reflexo acerca do papel do mito na religio aberto pela reflexo tillichiana. Desde a relao do mito com a razo, com a cincia, seu aprofundamento na demitologizao, at a questo do misticismo etc. No entanto, o caminho pelo qual Tillich opta atravs da revelao. </p><p>mito e revelao</p><p>A revelao um dos assuntos comuns que dialoga com demais temas na Teologia Sistemtica. Compreenderemos melhor o papel do mito em Tillich se o relacionarmos revelao. Inicialmente Tillich no discute a validade da revelao. Para ele, a importncia da revelao, antes de qualquer pressuposto dogmtico, consiste na constituio dos paradoxos da religio, tais como a concepo de Deus, a gnese da f, a coragem de ser etc.</p><p>14 ROSENTHAL, Klaus. Myth and Symbol:I. Tillichs Definition of Unbroken Myth. Scottish Journal of Theology, p. 425.</p></li><li><p>Revista Eletrnica Correlatio v. 12, n. 23 - Junho de 2013DOI: http://dx.doi.org/10.15603/1677-2644/correlatio.v12n23p59-70</p><p>Da razo revelao: uma introduo ao mito em Paul Tillich 65</p><p> justamente devido a densidade simblica do mito, i.e., a sua capacidade de impulsionar em direo ao incondicionado, que o mito um espao privilegiado para a revelao. Se a polmica estiver ainda na razo, Tillich a subtrai posicionando-se favorvel coexistncia de ambos os lados: A revelao no destri a razo: a razo que suscita a pergunta pela revelao15. O filsofo pensa o mito em relao ao aspecto ontolgico da razo e a realidade da revelao.16 </p><p>Que esta realidade da revelao? A revelao, para Tillich, o aspecto prtico do mito. Uma revelao uma manifestao especial e extraordinria que remove o vu de algo que est oculto17. Aqui existe a dialtica do mistrio. Falar de revelao falar tambm de mistrio, um conceito que vem de Rudolf Otto e que influenciou Tillich.18 O mistrio no sinnimo de enigma, desconhecido ou supernatural. Mis-trio aquilo em que se pode conhecer em parte, mas desconhecemos o todo. O mistrio uma dimenso existencial onde, se aprofundado, d lugar revelao. A realidade do mistrio est na experincia do indivduo com o mundo. No salto da f, pode-se experimentar no mis-trio a possibilidade da revelao. Portanto, a revelao uma via de conhecimento, um meio para a descoberta do incondicionado. </p><p>Apesar de ser cognitiva, a revelao no dissolve o mistrio em conhecimento, sobretudo o conhecimento emprico. A revelao trans-cende o contexto habitual das experincias e aponta para novas formas de ser. Diz Tillich: O mistrio revelado nossa preocupao ltima; e conclui: porque o fundamento de nosso ser19. O mito, neste sentido, a narrativa principal que comporta as variedades de preocupaes ltimas registradas...</p></li></ul>