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  • INCONIDENTIA: Revista Eletrnica de Filosofia Mariana-MG, Volume 2, Nmero 2, janeiro-julho de 2014

    Faculdade Arquidiocesana de Mariana - Curso de Filosofia

    DA ATITUDE NATURAL ATITUDE FENOMENOLGICA: A

    FENOMENOLOGIA E SUA INSPIRAO CARTESIANA

    Maurcio de Assis Reis

    Resumo

    Uma das inconfundveis caractersticas da fenomenologia em sua matriz husserliana a noo de reduo,

    como um processo pelo qual se neutraliza uma determinada lide com os objetos do mundo, uma restrio cujo

    fim a conquista de uma ordem de elementos mais segura, necessria. O presente artigo traz baila justamente o

    processo da reduo fenomenolgica proposta por Edmund Husserl, que encontra-se dividido em duas etapas

    metodolgicas: em primeiro lugar, coloca em cena o processo da referida reduo em seus dois polos, a saber, a

    atitude natural e a atitude fenomenolgica, acompanhadas por suas respectivas caractersticas; em segundo, o

    mesmo processo tematizado na radicalidade de sua proposta, retomando a figura luminar de Ren Descartes

    para a proposta husserliana tal como desenvolvido em suas Meditaes Cartesianas.

    Palavras-chave: Conhecimento, Atitude Natural, Atitude Fenomenolgica, Mundo.

    Abstract

    One of the phenomenologys characters unmistakable in its Husserlian way is the notion of reduction, as a

    process by which neutralized a certain deal with the worlds objects, a restriction whose aim is the achievement

    of a more secure and necessary order of elements. The present article brings up precisely the process of

    phenomenological reduction proposed by Edmund Husserl, which is divided into two methodological stages:

    first of all, the process of the said reduction in its two poles, namely, the natural attitude and the

    phenomenological attitude, followed by their respective characteristics; second, the same process is conceived in

    radicality of its propose, resuming the luminary image of Ren Descartes for the Husserls proposal as developed

    in his Cartesian Meditations.

    Key-Words: Knowledge, Natural Attitude, Phenomenological Attitude, World.

    1. Introduo

    Se for possvel apontar uma origem para a atitude entendida como filosofar, muitos podero

    remeter filosofia aristotlica, mais precisamente, sua Metafsica, na qual nomeia o

    thaumazein, traduzido mormente por espanto ou admirao, como o que determina, de fato, a

    origem dessa atitude (ARISTTELES, 2002, p. 11).

    Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto; Professor de Filosofia na Faculdade

    Arquidiocesana de Mariana Dom Luciano Mendes de Almeida; Professor Substituto de Filosofia e Sociologia

    no Instituto Federal de Minas Gerais, Campus Ouro Preto.

  • 5

    Diante dessa contribuio clssica da filosofia, uma forma diferenciada de filosofar surge

    contemporaneamente: a fenomenologia de Husserl se impe como uma tentativa de responder

    a um problema gerado pelas cincias em geral e ampliado pela situao da filosofia nesse

    contexto. Assim, poder-se-ia situar o tal problema da seguinte forma: as cincias em geral,

    influenciadas pela pluralidade da realidade, se especializaram e de tal maneira se

    fragmentaram que perderam de vista a possibilidade de uma segura fundamentao; por outro

    lado, h a percepo de que tais cincias carentes de fundamentao se tornaram figura de

    confiana e segurana para o pblico em geral na medida da aceitao tcita deste dois

    contedos dessas cincias. Diante disso, questiona-se: como possvel aceitar seguramente os

    contedos de cincias que so, em si mesmas, carentes de tal segurana? Alm disso, existem

    dois pontos importantes quanto filosofia: primeiro, ela se erige numa infinidade de discursos

    que postulam posies diversas entre si, no se entendem e, portanto, no deveriam merecer

    maior confiana que as cincias em sua profunda fragmentao; segundo, a aceitao tcita

    dos contedos das cincias em geral, cincias essas que tratam daquilo que comumente

    chamam realidade, promove a reduo das possibilidades de uma experincia dessa realidade,

    de um concreto thaumazein como queria Aristteles: ou seja, reduo das possibilidades da

    origem do filosofar.

    Dessa forma, chega-se a alguns pontos necessrios e que sero tematizados nesse artigo:

    primeiro, o entendimento dessa posio ou dessa atitude que caracteriza esse momento pr-

    filosfico, naquilo que Husserl chama de atitude natural. Em segundo, a posio ou atitude

    qual ele quer chegar, a atitude fenomenolgica. Por fim, como possvel passar de uma a

    outra atitude, tematizando a retomada da filosofia de Descartes por Husserl. Para tanto,

    limitar-se- caracterizao de uma das inspiraes fenomenolgicas, a saber, a cartesiana.

    Sero apresentadas as caracterizaes das atitudes natural e fenomenolgica e a distino

    entre as mesmas presente na obra A ideia da fenomenologia, mais especificamente, em sua

    primeira lio. Posteriormente, ser apresentada a passagem de uma a outra atitude,

    exprimindo a radicalidade dessa converso atravs da inspirao cartesiana a partir de alguns

    fragmentos das Meditaes cartesianas.

    2. Atitude natural e atitude fenomenolgica

    Para todo aquele que possui um razovel conhecimento de filosofia, uma ideia, categoria ou

    conceito que percorre o pensamento dos filsofos em geral a experincia. Seja para torna-la

  • 6

    central ou para contest-la, ela acaba sempre sendo tocada por eles. O que a diferencia de

    filsofo para filsofo so as diferentes posies que assumem frente experincia e ao

    contedo por ela fornecido.

    Porm, no tocante atitude em geral, pode-se dizer que existe algo de crtico, de reflexivo

    nessas atitudes dos filsofos com relao experincia, ou seja, os filsofos se colocam numa

    atitude de pensar o contedo da experincia e as formas de acessar tal contedo.

    A fundao da fenomenologia no pensamento de Husserl vem apresentar um caminho pelo

    qual se possvel alcanar uma atitude realmente filosfica frente experincia. Para tanto,

    ele apresenta, na primeira lio da obra A ideia da fenomenologia duas diferentes atitudes: a

    atitude intelectual natural e a atitude intelectual filosfica. Ser possvel perceber a a

    presena constante de dois temas importantes na fenomenologia: na experincia dos sujeitos

    em geral, a sua posio frente ao conhecimento; e a ideia emblemtica do voltar-se s coisas

    mesmas. Logo no incio da obra, Husserl chama a ateno para algumas questes

    importantes no seio das quais origina-se a necessidade de tratar desses dois tipos de atitudes,

    como se v nas seguintes citaes:

    O pensamento natural, da vida e da cincia, despreocupado quanto s dificuldades

    da possibilidade do conhecimento o pensamento filosfico, definido pela posio

    perante os problemas da possibilidade do conhecimento. (HUSSERL, 2000, p. 21)

    Em lies anteriores, distingui a cincia natural e a cincia filosfica; a primeira

    promana da atitude espiritual natural, e a segunda, da atitude espiritual filosfica.

    (HUSSERL, 2000, p. 39)

    perceptvel que Husserl distingue entre duas ordens de pensamentos, fundados cada uma

    sobre uma atitude diferente: o pensamento natural sobre a atitude natural e o pensamento

    filosfico sobre a atitude filosfica. Atendo-se aos nomes dados por Husserl, possvel

    questionar: o que torna um pensamento natural e o que o torna filosfico? Intimamente ligada

    a essa questo, o que caracteriza uma atitude como natural e outra como filosfica? o que se

    passa a distinguir a partir de agora.

    2.1. Pensamento natural e atitude espiritual natural

    O que Husserl quer dizer com pensamento natural aquele que fundado numa espcie de

    atitude, nesse caso, a natural. Mas, o que caracteriza tal atitude? Como dito anteriormente, a

  • 7

    caracterizao dessa atitude est intimamente ligada a uma noo de conhecimento, mais

    precisamente, de teoria do conhecimento. A noo epistemolgica a respeito disso o que

    Husserl (2000, p. 39) trata desde o incio de sua obra:

    A atitude espiritual natural no se preocupa ainda com a crtica do conhecimento.

    Na atitude espiritual natural viramo-nos, intuitiva e intelectualmente, para as coisas

    que, em cada caso, nos esto dadas e obviamente nos esto dadas, se bem que de

    modo diverso e em diferentes espcies de ser, segundo a fonte e o grau do

    conhecimento.

    O elemento mais claro e ao qual Husserl d uma nfase maior o que constitui a ausncia de

    reflexo crtica sobre a possibilidade do conhecimento. Na atitude natural, o que ocorre uma

    aceitao tcita dos dados da experincia sensvel, aceitao essa que promove o

    conhecimento da realidade como algo bvio, principalmente ao dar nfase em obviamente

    nos esto dadas: no existe problematizao do conhecimento em si, no se pergunta pela

    possibilidade ou no do conhecimento ou do acesso da conscincia aos objetos da realidade.

    Na atitude natural, o que ocorre que as coisas se do ao conhecimento humano. Segundo

    Cabral (2010, p. 30),

    Segundo a argumentao de Husserl, uma das caractersticas que definem a atitude

    natural se refere ao modo de se dirigir s coisas na maneira como estas aparecem,

    um se dirigir no qual a hiptese de sua inexistncia no se configura como uma

    possibilidade. Tambm o ter conscincia de um mundo espao-temporalmente

    infinito que se encontra imediatamente como estando a, o operar cotidiano com as

    coisas, o manuse-las sem maiores reflexes sobre seu valor, seu uso, sua existncia,

    enfim, todo o conjunto dessas aes que tomam o mundo como um dado absoluto e

    disponvel, circunscreve a delimitao de tal atitude. Nesta, poder-se-ia dizer que as

    coisas se apresentam distribudas aleatoriamente no espao, disposio,

    independente do ocupar-se ou no com elas.

    Diante disso, o que se pode dizer da atitude natural que se trata de um modo de comportar-

    se frente experincia. Se se pode falar que a experincia fundamental para a filosofia no

    sentido de que esta sempre se volta a ela para elaborar seu contedo, seu pensamento, a

    atitude natural se constitui como o contraponto de toda e qualquer atitude filosfica, na

    medida em que no se comporta frente experincia de modo crtico. Dessa forma, ao invs

    de ser tomada no sentido de questionar se pode ser acessada de modo a constituir-se como

    contedo de conhecimento humano, a experincia tida como obviamente disponvel a todos

    e a todas as cincias naturais, fundadas no pensamento natural. Esse tipo de pensamento no

    capaz de questionar a possibilidade do conhecimento, no capaz de um posicionamento

    crtico frente ao conhecimento em geral.

  • 8

    Todavia, importante ressaltar que, por mais que o conhecimento no seja problematizado no

    mbito de uma atitude natural, o problema da verdade a fundamental. Obviamente, no

    tomado em seu sentido enftico; Luft (p. 4) diz que existe uma vida pr-cientfica (...).

    Enquanto o problema do conhecimento absolutamente verdadeiro raramente se torna um

    tema aqui, a questo da verdade mais crucial que faz crer primeira vista1. Para falar dessa

    importncia da verdade no seio dessa atitude natural, o autor cita um acidente de carro: nele,

    existem verses, histrias diferentes que variam de acordo com os diferentes pontos de vista

    (do motorista e dos pedestres, por exemplo) e de acordo com os diferentes interesses a

    existentes (de quem a culpa, por exemplo). Para Luft, existem, ento, verdades

    situacionais, contestando o direito de falar em verdade absoluta acerca do acidente de carro.

    Isso leva a crer que, quando Husserl fala da atitude natural, possvel vislumbrar ainda um

    momento no qual, fora do mbito cientfico, existe um lugar de importncia para a verdade,

    ainda que sirva a determinados interesses (LUFT, p. 4). Assim, se a atitude natural no trata a

    possibilidade do conhecimento como uma questo, a verdade possui a um determinado valor,

    ainda que no possua uma ligao com a questo epistemolgica em si.

    Dois outros exemplos so utilizados pelo autor para falar desse nvel pr-cientfico da atitude

    natural de Husserl. O primeiro deles o do preo dos produtos de mercado. Os vendedores

    fixam preos nos produtos, dizendo ser tal preo o verdadeiro e a partir dele fazer suas

    barganhas. O segundo com relao s diferentes formas como um objeto pode ser visto: uma

    casa objeto de negcio para uma vendedora de casas; para um artista, pode ser tomada como

    obra de arte. Pergunta-se: qual dessas formas de ver a casa a mais verdadeira? Ambas so

    apenas isso: formas de ver a casa, no sentido de serem intepretaes que, na medida em que

    no estabelecem concorrncias entre si, valem como perspectivas diferentes, verdades

    situacionais (LUFT, p. 4).

    Mas, o que determinaria verses to diferenciadas em uma mesma situao? Mais

    precisamente, o conhecimento nele mesmo verdadeiro conhecimento? Isto depende no

    somente da ideia de conhecimento, mas tambm do contexto no qual ele empregado2

    (LUFT, p. 4). A ideia do contexto, das verdades situacionais, dos interesses a presentes

    determinando a forma de ver as coisas aponta para o problema epistemolgico com o qual

    1 (...) there is prescientific life (...). Whereas the problem of absolutely true knowledge seldom becomes a

    theme here, the question of truth is more crucial than one first imagines 2 (...) is knowledge eo ipso true knowledge? This depends not only on the meaning of knowledge but also on the

    contexto in which one employs it.

  • 9

    Husserl se debate ao falar da atitude natural. O que pode esclarecer tal problema como as

    situaes e os interesses se aliam para constituir a atitude natural:

    O que constitui uma certa situao, o que marca como relativo para outras

    situaes, que a busca por certos interesses circunscreve uma situao e constitui

    um domnio autodeterminado. O interesse determina a verdade da situao. (...) A

    vida em geral uma vida de interesse contendo uma multiplicidade de interesses,

    cada um criando situaes especficas.3 (LUFT, p. 5).

    Pode-se perceber que Husserl demarca os interesses como responsveis pelas verdades

    situacionais: por meio das quais no se fundam nos prprios objetos, mas no contexto que

    muito mais amplo e repleto de elementos marginais, os elementos que deveriam ser

    considerados essenciais so preteridos diante dos interesses fundados em cada caso.

    Uma vez esclarecidos alguns dos elementos desse momento pr-cientfico da atitude natural,

    necessrio dizer que Husserl trata de um segundo momento da atitude natural, que o

    momento cientfico propriamente dito. Ou seja, existe um conhecimento fundado na atitude

    natural, conhecimento que possui uma determinada ordenao, at mesmo uma ordenao

    lgica, conforme diz Husserl (2000, p. 40):

    (...) generalizamos e logo de novo transferimos o conhecimento universal para os

    casos singulares ou deduzimos, no pensamento analtico, novas generalidades a

    partir de conhecimentos universais. Os conhecimentos no se seguem simplesmente

    aos conhecimentos maneira de mera fila, mas entram em relaes lgicas uns com

    os outros, seguem-se uns aos outros, concordam reciprocamente, confirmam-se,

    intensificando, por assim dizer, a sua fora lgica.

    Husserl demonstra a que, no jogo das percepes dessa atitude natural, as contradies

    internas constituem etapas atravs das quais possvel formular um conhecimento e, junto a

    ele, critrios nem sempre muito determinados para julgar a verdade ou legalidade do contedo

    de tal conhecimento. Assim, ele nomeia, por exemplo, alguns motivos cognitivos capazes

    de escolher determinada explicao em detrimento de uma outra qualquer, constituindo,

    assim, uma esfera de conhecimento ampliada (HUSSERL, 2000, p. 40).

    Isso mostra que a atitude natural, aparentemente ingnua, fornece o fundamento para as

    cincias naturais, quando, para Husserl, tal fundamento deveria ser fornecido pela filosofia.

    Para ele, contudo, existe um caminho, mais ou menos determinado, pelo qual o conhecimento

    natural progride:

    3 What constitutes a certain situation, what marks it as relative to other situations, is that the pursuit of a

    certain interest circumscribes a situation and constitutes a self-enclosed domain. The interest determines the

    truth of the situation. () Life in general is a life of interest containing a multiplicity of interests, each

    creating specific situations.

  • 10

    Apodera-se num mbito sempre cada vez maior do que de antemo e obviamente

    existe e est dado e apenas segundo o mbito e o contedo, segundo os elementos,

    as relaes e leis da realidade a investigar de mais perto. Assim surgem e crescem as

    distintas cincias naturais (...). (HUSSERL, 2000, p. 41).

    Ao apontar essa ntima ligao entre atitude natural e cincias naturais, Husserl mostra que,

    apesar da aparncia de ingenuidade da primeira e da aparncia de rigor da segunda, ambas

    devem ser contestadas pelo fato de que no esto comprometidas com o conhecimento

    propriamente dito , ao mesmo tempo que tais cincias no possuem um fundamento seguro,

    algo que somente a filosofia poderia oferecer. Contudo, no se pode permanecer nessa atitude

    natural, preciso exigir uma atitude diferenciada para a filosofia de modo a responder aos

    questionamentos crticos com relao ao conhecimento. Conclui-se, portanto, que, na atitude

    natural o objeto nunca visto em sua pureza; seria necessrio, para super-la, despir o mundo

    de seus interesses (LUFT, p. 5). A questo epistemolgica, nesse sentido, se seria possvel,

    superando a atitude natural, a superao dos interesses nos quais as verdades situacionais

    encontram abrigo a fim de, voltando-se s coisas do mundo, se voltasse s coisas mesmas.

    2.2. Pensamento filosfico e atitude espiritual filosfica

    Se o que marca fundamentalmente a atitude natural a forma como o sujeito se dirige s

    coisas, ou seja, uma forma acrtica de ver o mundo, ento a nfase primeira da investigao

    husserliana recai sobre a atitude intelectual filosfica como um novo olhar sobre o mundo,

    uma nova forma de se posicionar perante o conhecimento, algo que s pode surgir com a

    filosofia:

    Com o despertar da reflexo sobre a relao entre conhecimento e objeto, abrem-se

    dificuldades abissais. O conhecimento, a coisa mais bvia de todas no pensamento

    natural, surge inopinadamente como mistrio. Devo, porm, ser mais exacto. bvia

    , para o pensamento natural, a possibilidade do conhecimento. (HUSSERL, 2000,

    p. 41)

    Como se v nessa passagem, a diferena abissal entre as duas formas de atitude se encontra no

    posicionamento frente ao conhecimento: enquanto na atitude natural a nfase recai sobre o

    contedo apreendido no processo de conhecimento, na atitude filosfica o prprio processo

    de conhecimento colocado em questo, sobre a sua possibilidade ou no. Assim, em direo

    a essa ausncia de questionamento quanto possibilidade do conhecimento que Husserl dirige

    a sua crtica, no simplesmente a essa aparente postura ingnua em si, mas tambm a ela

    como fundadora das cincias naturais.

  • 11

    Por meio dessa nova atitude frente experincia surgem os primeiros questionamentos que

    caracterizam esse novo pensamento: como pode o conhecimento estar certo da sua

    consonncia com os objetos conhecidos, como pode ir alm de si a atingir fidedignamente os

    objetos? (HUSSERL, 2000, p. 42) De fato, a correspondncia entre o conhecimento

    formulado como universal e os fatos, os objetos empricos aqui questionada; questiona-se ao

    mesmo tempo a atitude natural frente aos contedos da experincia cotidiana: Husserl exige

    que tal atitude seja preterida em favor daquela que que se mantm crtica com relao aos

    meios pelos quais se possvel chegar ao conhecimento.

    Desse primeiro posicionamento crtico surgem novas e mais profundas interrogaes: a

    posio do cognoscente e a existncia real dos objetos desse conhecimento:

    De onde sei eu, o cognoscente, e como posso eu saber confiadamente que no s

    existem as minhas vivncias, estes actos cognitivos, mas tambm que existe o que

    elas conhecem, mais ainda, que, em geral, existe algo que haveria que pr frente ao

    conhecimento como seu objeto? (HUSSERL, 2000, p. 43)

    De onde o sujeito que conhece realiza esse conhecimento? Deveria existir um lugar real,

    determinado com segurana; segundo, o que garante que possa existir algo mais que

    simplesmente aquilo que esse sujeito vive, suas vivncias, ou seja: no seu processo de

    conhecimento ele experimenta, e as experincias a realizadas constituem suas vivncias;

    pode confiar que o objeto dessas vivncias existe e, alm disso, que existem outros objetos

    que no so simplesmente estes presentes em suas vivncias?

    As perguntas, formuladas criticamente em referncia antiga obviedade do conhecimento na

    atitude natural, vo se acumulando: sua ordem lgica aparentemente no possui problemas e

    caminha para uma crtica completa do problema do conhecimento. Todavia, a identificao

    dos elementos fundamentais da atitude natural e, consequentemente, dos seus principais

    problemas, at ento realizada por meio dessa ordenao lgica, encontra a o seguinte

    paradoxo: na atitude natural, a lgica que permite o surgimento e desenvolvimento coerente

    do conhecimento; na atitude filosfica, tambm essa lgica que permite a identificao dos

    problemas dessa atitude natural; mas como elemento fundante de uma atitude que est sendo

    posta em questo, no deveria ser tambm essa ordem lgica colocada em suspenso?

    Mas de que serve referir contradies, se a prpria lgica est em questo e se

    tornou problemtica? Efectivamente, a significao real da legalidade lgica, que

    est fora de toda a questo para o pensamento natural, torna-se agora problemtica

    e, inclusive, duvidosa (HUSSERL, 2000, p. 43).

  • 12

    De fato, Husserl coloca tambm a ordem lgica em questo: na medida em que possui uma

    determinada coerncia interna, ela pode vir a apresentar uma aparncia de verdade, mas seria,

    simplesmente pela posse de tal coerncia, o lugar da verdade? Essa ordem lgica

    corresponderia ao mundo real, realidade qual deveria se referir? Surge da tambm o

    problema da linguagem em relao experincia do mundo, uma vez que, no retorno s

    coisas mesmas, a fenomenologia se constitui tambm como descrio dessa experincia.

    Segundo Depraz (2007, p. 32):

    No jogaremos, pois, a experincia contra a linguagem, por um lado porque a

    linguagem ela mesma o lugar de uma experincia insigne e privilegiada, e, por

    outro, porque, para nos darmos conta de nossa experincia, comunic-la aos outros,

    partilh-la, em suma, objetiv-la dotando-a assim de uma qualidade de verdade

    intersubjetiva, precisamos fazer uso de uma linguagem.

    Apesar da lgica ser colocada em questo pela sua ligao atitude natural, a fenomenologia

    no pode, ao mesmo tempo, se fechar comunicao da experincia do mundo. O retorno s

    coisas mesmas gera uma experincia que deve ser comunicada: retornar s coisas mesmas e

    a descrio da essncia mesma dessa experincia constitui uma exigncia que deve ser

    respondida pela atitude filosfica.

    Husserl ainda trata a lgica no mbito do desenvolvimento humano, mantendo com este uma

    ntima relao:

    Por conseguinte, no exprimem as formas e leis lgicas a peculiar ndole

    contingente da espcie humana, que poderia ser de outro modo e se tornar

    diferente, no decurso da evoluo futura? O conhecimento , pois, apenas

    conhecimento humano, ligado s formas intelectuais humanas, incapaz de atingir a

    natureza das prprias coisas, as coisas em si (HUSSERL, 2000, p. 44).

    Surge uma suposio importante e que deve ser considerada: as leis lgicas atuais poderiam

    fazer parte de uma evoluo humana no campo do conhecimento assim como ocorre

    biologicamente; o conhecimento humano, dessa forma, seria incapaz de atingir as coisas em

    si, apenas capaz de falar das prprias percepes acerca do real, o que no quer dizer que tal

    discurso sobre tais percepes tenha correspondncia com essas mesmas percepes. Ainda

    no mbito do problema das cincias possvel fazer referncia a uma forma de concepo das

    teorias cientficas surgida no seio da Revoluo Cientfica: a teoria instrumentalista. Nela,

    assim como parece ser o caso aqui da lgica, importante entender que tais teorias no so a

    pura expresso da verdade sobre o funcionamento do universo (assim pensam os defensores

    das teorias realistas), mas tais teorias cientficas seriam utilizadas como instrumentos teis

    para fazer previses e, pelo seu funcionamento eficiente geram uma aparncia de verdade, ou

  • 13

    seja, possuem uma dada coerncia interna e com determinada percepo da realidade que

    seria capaz de se impor como teoria mais verdadeira sobre o mundo4. Tal viso de uma teoria

    cientfica assemelha-se ao modo como Husserl (2000, p. 44) concebe o papel da lgica nesse

    momento:

    A possibilidade do conhecimento em toda a parte se torna um enigma. Se nos

    familiarizarmos com as cincias naturais, achamos tudo claro e compreensvel, na

    medida em que elas esto desenvolvidas de modo exacto. Estamos seguros de nos

    encontrar na posse da verdade objectiva, fundamentada por mtodos fidedignos, que

    realmente atingem a objectividade. Mas, logo que reflectirmos, camos em enganos

    e perplexidades. Enredamo-nos em manifestas incompatibilidades e at em

    contradies. Estamos em perigo permanente de deslizar para o cepticismo ou,

    melhor, para qualquer uma das diversas formas do cepticismo, cuja caracterstica

    comum , infelizmente, uma s e a mesma: o contra-senso.

    O fato de ser familiar com relao aos mtodos e contedos das cincias naturais gera uma

    aparncia de verdade; a justamente que se encontra a dificuldade de perceber a atitude

    natural como ela de fato, apenas uma atitude natural, incapaz de perceber as contradies do

    processo de conhecimento no qual se encontra. Manifesta dessa maneira, a atitude natural

    resiste crtica do conhecimento, de suas possibilidades, a dificuldade de haver um

    thaumazein como queria Aristteles (2002, p. 11) para empreender a uma filosofia

    propriamente dita. A dificuldade do surgimento da filosofia a claro: a ausncia de uma

    experincia que provoque, de fato, o esprito para a filosofia. A passagem da aparncia de

    verdade da atitude natural pode descambar para o ceticismo e interditar o caminho para uma

    filosofia rigorosa que assegure, por meio de uma crtica do conhecimento, a possibilidade de

    sua existncia.

    Mas, em se tratando de uma crtica do conhecimento que constitui a marca mais clara da

    passagem da atitude natural filosfica, preciso questionar o que h de importante e de

    necessrio para a filosofia nesse aspecto da crtica do conhecimento. Husserl (2000, p. 45)

    enuncia essa importncia ao apontar para sua dupla tarefa:

    A tarefa da teoria do conhecimento ou crtica da razo teortica , antes de mais,

    uma tarefa crtica. Tem de denunciar os absurdos em que, quase inevitavelmente, se

    envencilha a reflexo natural sobre a relao entre conhecimento, sentido do

    conhecimento e objeto do conhecimento, ergo, tem de refutar as teorias aberta ou

    4 O caso mais conhecido dessa interpretao instrumentalista ficou marcado na Revoluo Cientfica pelo

    prefcio da obra copernicana De revolutionibus, escrito, muito provavelmente, pelo telogo Andr Osiander.

    Nesse prefcio, ele fala sobre a funo do astrnomo que deve buscar as causas dos movimentos celestes; uma

    vez que as verdadeiras causas so inacessveis, ele deve imaginar e inventar hipteses que possibilitem um

    clculo em conformidade com os princpios geomtricos, dando a essas hipteses um carter verossmil, uma vez

    que o carter verdadeiro est interditado. (Cf. REALE. 2004. p. 167-168).

  • 14

    ocultamente cpticas sobre a essncia do conhecimento mediante a demonstrao do

    seu contra-senso.

    A primeira tarefa da verdadeira crtica do conhecimento consiste em denunciar os problemas

    filosficos de ordem epistemolgica, problemas esses que possuem grande contribuio da

    atitude natural, a saber, a falta de distino entre conhecimento, seu sentido e seu objeto. A

    carncia de uma crtica que perceba essa distino, encontra, no extremo oposto, um outro

    problema: o cuidado para no cair na descrena de que o conhecimento seja possvel, as

    teorias cticas que se colocam contrrias a tal possibilidade. Ora, se a atitude natural

    considera to bvio que se possa conhecer a ponto de no colocar em questo e nem refletir

    sobre o conhecimento, do outro lado, as teorias cticas defendem a impossibilidade do

    conhecimento. Nesse meio se insere a atitude filosfica, que, alm de se defender dessas duas

    posies contrrias e denunciar seus abusos, possui uma tarefa ainda maior e que, ao mesmo

    tempo, d conta de superar esse paradoxo aqui exposto entre atitude natural e ceticismo: a

    sua tarefa positiva resolver os problemas concernentes correlao entre conhecimento,

    sentido do conhecimento e objeto do conhecimento, graas inquirio da essncia do

    conhecimento (HUSSERL, 2000, p. 45). Ou seja, tarefa de uma crtica do conhecimento

    procurar pela essncia do conhecimento para, partindo da, fund-lo de uma maneira segura,

    distinguindo-se assim das cincias naturais e demostrando ser possvel algum tipo de

    conhecimento (dialogando a com as teorias cticas).

    2.3. Atitude filosfica, fenomenologia e cincias naturais

    Um ponto importante de se ressaltar aqui que o conhecimento no objeto apenas da

    filosofia, ainda que somente na atitude originada a seja possvel problematiz-lo, pelo menos

    segundo o que foi visto at o momento. preciso retomar aqui que as cincias se erigem

    sobre o fundamento at ento considerado seguro do conhecimento, embora firmado sobre a

    atitude natural. Para Husserl, a separao possvel entre filosofia e cincia natural se origina

    nessa reflexo gnosiolgica que pe em questo o conhecimento como algo bvio e seguro.

    Unicamente por ela se torna patente que as cincias naturais do ser no so cincias

    definitivas do ser (HUSSERL, 2000, p. 46). Ora, Husserl procura uma forma de tratar o ser

    de modo absoluto e definitivo, diferentemente do que ocorre at ento. Retorna-se aqui ao

    problema de uma fundamentao absoluta para as cincias, fundamento esse que no pode ser

    alcanado por elas e que s poder ser fornecido por meio do desenvolvimento de uma

  • 15

    filosofia rigorosa, baseada nessa reflexo gnosiolgica que toma por objeto primeiro a prpria

    essncia do conhecimento.

    Se abstrairmos das metas metafsicas da crtica do conhecimento, atendo-nos apenas

    sua tarefa de elucidar a essncia do conhecimento e da objectalidade cognitiva,

    ela ento fenomenologia do conhecimento e da objectalidade cognitiva e constitui

    o fragmento primeiro e bsico da fenomenologia em geral. (HUSSERL, 2000, p. 46)

    Percebe-se aqui que a passagem da atitude natural para a filosfica marca a transformao da

    filosofia em fenomenologia na medida em que esta ltima quer abstrair dos elementos

    marginais do conhecimento em geral, os elementos voltados para o contexto, para os

    interesses presentes no mundo mais que para as coisas mesmas. Se, conforme diz Luft, seria

    necessrio despir o mundo dos interesses nos quais as coisas esto envoltas, a

    fenomenologia que vem responder a esse problema. Nesse sentido, a primeira coisa a ser

    seu objeto o prprio conhecimento, na medida em que seus problemas, para serem

    solucionados, s o sero na medida em que a pergunta pela essncia do conhecimento for

    respondida. Fenomenologia designa uma cincia, uma conexo de disciplinas cientficas;

    mas, ao mesmo tempo e acima de tudo, fenomenologia designa um mtodo e uma atitude

    intelectual: a atitude intelectual especificamente filosfica, o mtodo especificamente

    filosfico (HUSSERL, 2000, p. 46). Diferentemente das tentativas modernas de dar

    filosofia um rigor matemtico-cientfico, a fenomenologia surge com atitude e mtodos

    prprios, concedendo filosofia a autoridade para se fundar de uma maneira segura ao mesmo

    tempo em que se torna capaz de dar segurana s outras cincias.

    Para se inserir dessa forma no contexto das discusses de uma crtica do conhecimento que

    atinja tambm as cincias, a fenomenologia, na construo de seus novos mtodo e atitude, se

    coloca numa postura necessria em relao ao que j foi constitudo at ento:

    A filosofia, porm, encontra-se numa dimenso completamente nova. Precisa de

    pontos de partida inteiramente novos e de um mtodo totalmente novo, que a

    distingue por princpio de toda a cincia natural. (...) e da tambm que, dentro do

    conjunto total da crtica do conhecimento e das disciplinas crticas, a filosofia pura

    tenha de prescindir de todo o trabalho intelectual realizado nas cincias naturais e na

    sabedoria e conhecimento naturais no cientificamente organizados, e dele lhe no

    seja permitido fazer qualquer uso. (HUSSERL, 2000, p. 47)

    O mtodo inovador perseguido pela fenomenologia de Husserl tem por uma de suas

    marcantes caractersticas a suspenso dos contedos adquiridos por meios inseguros, no

    rigorosos. A se percebe a necessidade de comear de um incio prprio filosofia pura

    nascente: a fenomenologia no se compromete com os trabalhos j realizados de maneira

  • 16

    insegura, mas sim com a experincia do mundo circundante. Isso significa que se chega a uma

    das marcas da fenomenologia, a volta s coisas mesmas:

    Voltar s coisas mesmas recusar as argumentaes doutrinrias e os sistemas

    autocoerentes em proveito das interrogaes nativas suscitadas pelo mundo a nossa

    volta e das quais nossa viva reflexo se alimenta. (DEPRAZ, 2007, p. 27).

    Voltar-se s coisas mesmas dar prioridade experincia das coisas mesmas recusando a

    aceitao tcita, semelhante da atitude natural, das doutrinas filosficas como figuras de

    verdade sobre o mundo. Voltar-se s coisas mesmas voltar-se possibilidade de um

    thaumazein, de um novo espantar-se com o mundo e da recomear a filosofar.

    3. A inspirao cartesiana

    A conhecida obra de Descartes, Meditaes, foi, seguramente, uma das inspiraes da

    fundao da fenomenologia em Husserl. Este ltimo o diz ([19--], p. 9), no estudo que realiza

    acerca da obra de Descartes:

    Os novos impulsos que a fenomenologia recebeu, deve-os a Ren Descartes, o maior

    pensador da Frana. Foi pelo estudo das suas Meditaes que a fenomenologia

    nascente se transformou num tipo novo de filosofia transcendental. Poder-se-ia

    quase cham-la um neo-cartesianismo, ainda que se tenha visto obrigada a rejeitar

    quase todo o contedo doutrinal conhecido do cartesianismo, na medida em que deu

    a certos temas cartesianos um desenvolvimento radical.

    De fato, a fenomenologia deve leitura da obra cartesiana a sua elevao a um novo tipo de

    filosofia transcendental, muito embora em termos de contedo, a filosofia de Descartes tenha

    sido em muito abandonada. Mas, quais so os principais elementos que Husserl traz da

    filosofia cartesiana a ponto de quase chamar a fenomenologia de um neo-cartesianismo?

    Primeiro, Husserl ([19--], p, 10) enuncia o plano geral das Meditaes de Descartes: Visa

    uma reforma total da filosofia, para fazer desta uma cincia com fundamentos absolutos.

    Ora, o que se viu at o momento, ou seja, a passagem de uma atitude natural a uma atitude

    fenomenolgica, funda-se no questionamento de que as cincias naturais no tomaram o ser

    num sentido absoluto, no constituem cincias definitivas do ser nem possuem um

    fundamento absoluto a partir do qual possam ser tomadas de modo absoluto. O problema aqui

    seria a especializao das cincias sem um fundamento que lhes d esse carter absoluto. Para

    Descartes, e para o prprio Husserl, a reforma da filosofia torna-se necessria medida que

    essa especializao das cincias se torna mais evidente e mais forte: por isso que se torna

  • 17

    necessrio reconstruir o edifcio que possa corresponder ideia da filosofia, concebida como

    unidade universal das cincias elevando-se sobre um fundamento dum carcter absoluto

    (HUSSERL, [19--], p, 10). A necessidade de uma fundamentao das cincias deve, porm,

    ser antecedida de uma refundao: a da prpria filosofia: em vez de uma filosofia una e viva,

    que possumos ns? Uma produo de obras filosficas crescente at o infinito, mas qual

    falta qualquer ligao interna" (HUSSERL, [19--], p, 10). Um recomeo em filosofia se

    tornou necessrio, assim como a proposta de Descartes. Husserl parte de uma lgica

    fundacional: assim como as cincias necessitam de uma fundao segura, tambm a filosofia

    necessita e este constitui o primeiro ponto da retomada de Descartes por Husserl, segundo

    Depraz (2007, p. 43):

    Considerando a disseminao de trabalhos e pesquisas, a especializao estrita na

    qual cada pesquisador se fecha, Husserl sente a necessidade, como cedo ele havia

    sentido a exigncia a respeito das matemticas, de refundar filosoficamente as

    cincias.

    A refundao filosfica das cincias faz com que retorne o problema da passagem da atitude

    natural atitude fenomenolgica, medida que a experincia de se tornar filsofo

    constitutiva da referida passagem:

    Em primeiro lugar, quem quiser verdadeiramente tornar-se filsofo dever pelo

    menos uma vez na sua vida virar-se para si prprio e, a partir de si, tentar derrubar

    todas as cincias admitidas at a e tentar reconstru-las. (HUSSERL, [19--], p, 10)

    A experincia de radicalidade proposta pode Descartes deve ser, segundo Husserl, uma

    experincia de todo aquele que deseja realmente se tornar filsofo: voltar-se a si mesmo e

    derrubar toda espcie de conhecimento que possui que no tenha um fundamento seguro e

    necessrio para a sua existncia. Ou seja, a dvida cartesiana, hiperblica, deve ser realizada

    de fato para que se possa, a partir de cada filsofo, exigir um saber fundamentado, no solto,

    sobre um solo fraco ou sobre a prpria ausncia de um solo. O filsofo, dessa maneira, deve

    se impor como fonte de sustentao, de justificao para toda e cada etapa do conhecimento,

    isso por meio do prprio questionamento de todo conhecimento. Essa experincia de

    radicalidade em relao ao conhecimento traduz-se na forma de um voto de pobreza em

    matria de conhecimento (HUSSEERL, [19--], p, 11), uma aluso volta s coisas

    mesmas no sentido de valorizar a experincia mesma do mundo em detrimento dos

    pressupostos daqueles que caminham para se tornarem filsofos. Nesse sentido, de

    fundamental importncia a obra de Descartes, referida por Husserl ([19--], p, 11) nos

    seguintes termos: estas meditaes esboam o prottipo do gnero de meditaes necessrias

  • 18

    a qualquer filsofo que comea a sua obra, s estas meditaes podem dar origem a uma

    filosofia. essa atitude radical proposta por Descartes que possibilita a passagem de uma

    atitude natural ingnua em matria de um posicionamento frente ao conhecimento a uma

    atitude realmente filosfica, que coloca o conhecimento em questo e que possibilita o

    surgimento da filosofia como aquela que torna possvel a fundamentao das cincias

    naturais. Esse aspecto, segundo Depraz (2007, p. 44), constitui o segundo momento da

    retomada cartesiana, a colocao dentre parnteses da crena no mundo, uma vez que

    suspende todo o valor absoluto de verdade a presente, ainda que considere a existncia desse

    valor: isso possibilita que a reflexo possa se seguir, agora purificada das pressuposies,

    preconceitos e crenas que atrapalham de algum modo esse retorno s prprias coisas.

    possvel perceber, retornando ideia da atitude filosfica, que Husserl ([19-], p. 11)

    confirma a a necessidade da crtica em relao ao conhecimento: se se aplicar este mtodo

    certeza da experincia sensvel, na qual o mundo nos dado na vida corrente, ela no resiste

    de modo nenhum crtica. De fato, a dvida cartesiana direcionada res extensa, ao mundo

    dado como evidente, ou seja, ao mundo da atitude natural retomada por Husserl dizendo ser

    necessrio ser radical perante tal mundo para que se possa, ento, alcanar a atitude filosfica.

    Isso demonstra que a passagem necessria que ocorre da atitude natural atitude filosfica

    possui na leitura da obra cartesiana um ponto de no retorno para Husserl: tal experincia de

    radicalidade constitui, pois, o ponto que divisa o filsofo do mero estudante, possibilita

    vislumbrar o mundo na experincia que o sujeito pode dele realizar para alm dos

    preconceitos e pressupostos que obstaculizam seu caminho e, a partir das coisas mesmas,

    alcanar uma segura reflexo filosfica.

    4. Concluso

    As passagens husserlianas sobre as quais se refletiu neste artigo tratam de elementos

    fundamentais para se pensar as respectivas questes da filosofia, das cincias e da relao

    existente entre as mesmas no contexto contemporneo.

    Primeiramente, a adequao das cincias realidade: uma vez que esta tem se mostrado cada

    vez mais plural, as cincias seguiram este caminho, se especializando e se fragmentando cada

    vez mais. Por outro lado, a filosofia parece seguir o mesmo caminho, multiplicando os

  • 19

    discursos sobre essa realidade plural, no se entendendo nessa variedade de linguagens que

    tentam apreender algo dessa experincia plural.

    O que Husserl prope uma experincia rigorosa e radical. Rigorosa porque parte da

    necessidade de se perceber algo de essencial e ao mesmo tempo em que se deve experimentar

    esse algo essencial. Radical, porque isso vai na contramo do que tem ocorrido e, portanto,

    no se trata de um processo simples de ser realizado.

    Com efeito, o que se refletiu aqui foi a necessidade de sair da atitude natural, sair da atitude

    comum que atinge a grande maioria das pessoas, de todas as pocas. Nesse sentido, o tornar-

    se filsofo desponta como um lugar de exceo, no simples, nem natural, que s pode ser

    realizado por meio de um determinado empenho por parte daquele que deseja alcanar esse

    estado diferenciado. A atitude filosfica designa, nesse sentido, uma atitude que est presente

    desde o primeiro momento da resoluo de se tornar filsofo, mas que deve ser sempre

    cultivada, uma experincia sempre de novo repetida a fim de no se reconverter em atitude

    natural.

    por meio dessa atitude que se pode alcanar a experincia sempre nova do mundo. Ao

    mesmo tempo, por meio dela que se pode perceber a necessidade sempre nova de

    fundamentao, de rigor, perdida pelas cincias e, ao que parece, sendo seguida pela filosofia.

    Refundar o caminho pelo qual se percebe a realidade, renovar a experincia do mundo,

    questionar-se pelo conhecimento, retornar s coisas mesmas: possibilidades e caminhos

    atravs dos quais o estatuto da experincia pode ser retomado como essencial para um novo

    modo de ver o mundo.

    Referncias

    ARISTTELES. Metafsica. Traduo de Giovani Reale. So Paulo: Loyola, 2002.

    CABRAL, Michele Silvestre. A questo do mundo na fenomenologia de Husserl. 2010. 126f.

    Dissertao (Mestrado em Filosofia) Universidade Estadual do Oeste do Paran, Toledo,

    2010.

    DEPRAZ, Natalie. Compreender Husserl. Traduo de Fbio dos Santos. Petrpolis: Vozes,

    2007.

  • 20

    HUSSERL, Edmund. A ideia da fenomenologia. Traduo de Artur Moro. Rio de Janeiro:

    Edies 70,

    .Meditaes cartesianas: introduo fenomenologia. Traduo de

    Maria Gorete Lopes e Sousa. Porto: RS-Editora, [19--].

    LUFT, Sebastian. Husserls theory of the Phenomenological Reduction: Between Life-World

    and Cartesianism. Philosophy Faculty Research and Publications. Disponvel em

    Acesso em 07 de julho de 2011.

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