d. frei bartolomeu dos mártires

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  • FREI RAL DE ALMEIDA ROLO, O.P.

    VENERVELD. FREI BARTOLOMEU

    DOS MRTIRESO ARCEBISPO SANTO

    1957[ Reviso em 2014 ]

  • 02

  • NOTA PRVIA

    O ltimo e principal bigrafo bartolomeano assim sereferia, no passado dia 10 de Julho de 2014, em sesso realizada naAcademia das Cincias em Lisboa, o Prof. Artur Anselmo queleque em vida se chamou Frei Ral de Almeida Rolo. Foi estafigura simples, austera, quase apagada e ingnua que, j nosrecuados anos oitenta, introduziu muitos de ns na venerao dafigura de Bartolomeu dos Mrtires quando, j na etapa final dosseus estudos sobre a vida e obra do agora Bem-AventuradoBartolomeu dos Mrtires, passou vrias temporadas em Viana doCastelo.

    Mesmo que esta pequena biografia do Bracarense anteceda amaior e mais significativa publicao da colossal obra que Frei Raldeu estampa, a partir dos primeiros contactos com os manuscritosbartolomeanos, j aqui encontramos aquilo que, com maior rigorhistrico, se pode dizer acerca do seu biografado. De facto, notemos aqui a dimenso romanceada e marcadamente apologtica deFrei Lus de Sousa na sua Vida do Arcebispo, como no nosdeparamos com a viso polmica e um tanto enviesada da figurapuramente humana de Frei Bartolomeu, pintada pelo vianenseJos Caldas, j ento contestado por Camilo com a sua mordacidadetpica; tambm no temos aqui o humor de Aquilino Ribeiro que vaicontando a histria de um bonacheiro Dom Frei Bertolameu,calcorreando a passo acelerado as veredas das montanhas do Gerspara desespero dos extenuados acompanhantes, ou a velocidade damula guia no regresso de Roma a Trento; menos ainda temos otom oratrio de Mons. Jos de Castro, o feliz descobridor doDecreto cuja publicao o Papa Gregrio XVI ordenara j em 23 deMaro de 1845, reconhecendo oficialmente as virtudes heroicas doServo de Deus, que, a partir de ento este autor se orgulhava deapresentar como Venervel, em primeirssima mo.1

    1 MONS. JOS DECASTRO, D. FreiBartolomeu dos Mrtires eoutros escritos sobre oVenervel, Presbyterium,Bragana, 2014. EsteDecreto esteve perdido,ignorando-se mesmo a suaexistncia durante umsculo, de 1845 a 1845. Foidurante as suas investiga-es sobre os portuguesesno Conclio de Trento comque elaborou uma obramonumental que estedeparou com a surpresa dadescoberta, tal como contana obra aqui referida.

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  • O contacto que, por diversas vezes e pelos mais variadosmotivos, tive que manter com algumas das obras de FreiBartolomeu, as suas intervenes no Conclio de Trento ou asdmarches do notvel e corajoso Arcebispo no Conclio Provincialde Braga e perante os seus cnegos, ajudou a crescer a sementeoutrora semeada por Frei Ral, mas esquecida no meio das pedrasde outros afazeres, eventualmente abafada pelos espinhos dealguma insensibilidade, mas no comida pelos pssaros daindiferena. Do Estmulo dos Pastores lido e relido, ao Catecismo,da constatao da sua aco social ou da formao e acointelectual, cotejando mesmo os seis colossos dos EscritosTeolgicos, no sem passar pelo Compendio de Doutrina Espiritual,tudo ajudou a reler agora esta Vida do Bem-Aventurado Bartolomeudos Mrtires numa perspectiva mais atenta e cuidada, a partir dolivrinho que agora propomos, em moderna forma, como aperitivopara uns, como prato forte para aqueles que no podero ir maislonge, como sobremesa para os j conhecedores da figura e da obrado Santo Arcebispo.

    Gostaramos de manter a fidelidade ao texto original de FreiRal, apesar da tentao de rever alguma coisa aqui, acrescentar umpormenor ali. Por isso no fomos mais longe que uma meracorreco de algumas gralhas, uns retoques na pontuao, algumasdicas e notas de rodap, enfim, nada de especial. Assim, face aocontexto das Comemoraes Centenrias em que esta singelainiciativa de facilitar uma biografia breve e sria se insere, comoface a alguns dados que entretanto foram sendo facultados, nodeixmos de acrescentar breves apontamentos no sentido de,eventualmente, aguarmos o apetite ou estimularmos a curiosidadedos nossos leitores para um mais profundo conhecimento e estimada figura mpar que foi Bartolomeu dos Mrtires. Um homem queno conformado com este mundo, ardeu intensamenteaquecendo as sesses da ltima etapa do Conclio de Trento,espalhou ou seu fogo pelas mais de mil e duzentas parquias daDiocese de Braga [com Viana do Castelo, Vila Real e grande partede Bragana] e continua a iluminar a Igreja de hoje, com uma

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  • chama agora particularmente espevitada pela originalidade doPapa Francisco. Escrevo entre aspas porque, depois de se conhecera vida e aco de Frei Bartolomeu e de ler os seus escritos, se podever que h mais de quatrocentos anos j algum tinha as ideiasapregoadas agora por tantos como surpreendentemente originais

    E todos ns sabemos o quanto isso lhe custou

    Viana do Castelo, 17 de Setembro de 2014P. Jorge Alves Barbosa

    rr

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  • VENERVELD. FREI BARTOLOMEU

    DOS MRTIRES

    O ARCEBISPO SANTO

  • No ano de 1945 acendeu-se um fogo novo volta de uma dasmais prestigiosas figuras de homem e de santo que Portugal deu humanidade e Santa Igreja: o Venervel D. Frei Bartolomeu doaMrtires.

    Um Investigador de renome, Mons. Jos de Castro, encontrouem Roma um Decreto da Sagrada Congregao dos Ritosdeclarando a heroicidade das suas virtudes. Foi providencial estadescoberta, pois fazia precisamente um sculo da sua promulgao.As circunstncias religiosas e polticas do tempo dessa notvelpromulgao eram adversas e fizeram passar o facto sem o realcemerecido. Assim no sucedeu agora quando esse mesmo Decreto,foi arrancado sombra do esquecimento. Quando Mons. Jos deCastro se empenhou em ser carrilho da glria de FreiBartolomeu, Portugal caiu de joelhos e levantou o corao a Deusa pedir os milagres necessrios para a glorificao sobre os altaresdaquele que em vida foi por todos considerado e altamenteproclamado SANTO: livros, conferncias, revistas e jornais,novenas e preces tm levado a todos os cantos de Portugal a notcia,o conhecimento e a devoo do grande Servo de Deus que foi oVenervel D. Frei Bartolomeu dos Mrtires.

    Trajectrias de uma vida

    Nasceu o Venervel Bartolomeu dos Mrtires em Lisboa, a 3de Maio de 1514, com o nome familiar de Bartolomeu Fernandes, aque depois acrescentaria do Vale. Bem cedo sentiu o chamamentode Deus a uma vida mais perfeita, nomeadamente quando, na idapara a escola, acompanhava o seu av j cego para a Igreja deNossa Senhora dos Mrtires, atravessando o actual Chiado. Asensibilidade particular daquele menino dos olhos tortos como erareconhecido e as oraes do av que o confiava aos cuidadosmaternais de Maria, orando enquanto o pequeno recebia as lies degramtica, haveriam de lanar os alicerces de uma personalidademarcante e de uma vocao religiosa. Por isso mesmo, cedo sedeslocou ao convento de S. Domingos de Benfica, no dia de So

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  • Martinho de 1528, onde se confrontou com a oposio e as dvidasdo respectivo Prior, espantado com a vontade daquele adolescenteem seguir a vida de austeridade prpria da ordem dominicana.Deveria ento preparar-se para: abstinncia perptua, jejunsprolongados, viglias frequentes, grande pobreza no vestir,limitaes no dormir, tudo propostas capazes de quebrar asnaturezas mais robustas quanto mais a de um adolescente de 14anos.

    Perante esta desafiadora proposta, respondeu: Padre,trabalhos busco e aborreo mimos; por fugir de mimos que mesobejam e provar trabalhos que desejo e sei que para a salvao meso necessrios, busco a vida religiosa. No temo esses, nem meassustam outros maiores, porque que no h corpo fraco onde ocorao forte. E aqui se definia o seu verdadeiro programa devida, um programa que o haveria de marcar at ao fim dos seusdias.

    Veio, por isso, a fazer a sua profisso dominicana no anoseguinte, a 20 de Novembro, mantendo o nome de Batismo eacrescentando do Vale em memria do seu av, que depoismudaria para dos Mrtires por devoo padroeira da suaparquia. Frei Bartolomeu dos Mrtires distinguiu-se desde oprincpio pela piedade e talento. A carreira dos seus estudos quese estendeu de 1529 a 1537 foi brilhante e os superioresdistinguiram-no com a inscrio entre os alunos do colgiouniversitrio que El-Rei D. Manuel fundara no convento de S.Domingos, sob o Patrocnio de So Toms de Aquino.

    Em Setembro de 1537, passou Frei Bartolomeu o exame deLeitor de Artes e Teologia, ficando a leccionar Filosofia no mesmocolgio onde acabava de ser aluno. Da passou ao Mosteiro daBatalha para reger essa mesma ctedra, nos estudos gerais que aOrdem de S. Domingos a criou em 1540. Foi neste grande mosteiroque ele acabou de temperar a sua alma no saber profundo e virtudeslida, apangio da sua aco extraordinria na Igreja de Deus.

    Por volta de 1542 j D. Frei Bartolomeu passara da ctedra deFilosofia de Teologia, a qual lhe absorveu o resto da sua longavida de professor. Durante catorze anos consecutivos a Teologia foi

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  • a grande preocupao da sua alma. Os volumosos cdices das suasnotas doutrinais, ainda hoje conservados, do pleno testemunho degrande saber, da profundidade do seu esprito e da inflamada unocom que explicava os mistrios de Deus. Em 1545, o Rei D. JooIII passou um alvar declarando as aulas de D. Frei Bartolomeu,dadas na Batalha, vlidas para o grau de Licenciatura em Teologia,como se tivessem sido dadas numa universidade pblica. O seuprestgio de grande saber acrescentou-se cada vez mais, a ponto deo Captulo da Provncia de S. Domingos de Portugal o propor parao grau de Mestre em Teologia ao Captulo Geral que a Ordem iareunir em 1551 na cidade de Salamanca. D. Frei Bartolomeu foi, eas suas provas de grande telogo, dadas no Captulo, foram tobrilhantes, que o ttulo de Mestre2 lhe foi concedido, no meio dosmaiores elogios: suficincia de doutrina e destreza de engenho.

    Regressando a Portugal, continuou como professor noMosteiro da Batalha at que, em 1552, foi para vora a convite doPrncipe D. Lus, para ser o mestre de seu filho D. Antnio, f